domingo, 20 de fevereiro de 2011

INCLUSÃO/EXCLUSÃO - duas faces da mesma moeda deficitária?


imagem publicada - foto colorida, onde um rapaz holandês cabisbaixo, sentado e de mãos entrecruzadas, olha para o nada. Ele é Brandon van Ingen, um jovem com deficiência intelectual, que vive como Prometeu acorrentado a uma parede, sem ver a luz do sol, desde 2007. Por recomendação médica, ele vive atracado, como uma Nau dos Insensatos, à parede de seu quarto em uma clínica psiquiátrica, na cidade de Ermelo, no centro da Holanda. (fotografia de Evangelische Omroep)

"Toda pessoa tem o direito a um recurso efetivo, perante os tribunais nacionais competentes, que o amparem contra atos que violem seus direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição e pela lei." (Artigo 8º da Declaração Universal dos Direitos Humanos)

Passei, mais uma vez, um dia refletindo sobre o processo de construção dos pré-conceitos que ainda cerceam e mutilam a dignidade da vida de pessoas com deficiência e dos que vivem com transtornos psíquicos cronificados. Joguei para o alto uma moeda, buscando um cara ou coroa jurídico-judicial. Tudo começou com uma mensagem por e-mail de uma amiga, que é professora, uma educadora que trabalha com a Educação Especial, lá no Sul do nosso Brasil. Ela vive defendendo autistas, paralisados cerebrais e outros ditos 'deficientes" por lá. Nessa mensagem urgente e emergente ela pede ajuda para defender a seu irmão.

Para que possamos refletir juntos, caros leitores e leitoras, vou criar uma brevíssima ''estória", tento proteger o personagem principal de mais uma história que recebi hoje. O nome do personagem será trocado pois sua condição de uma pessoa com deficiência intelectual, com diagnóstico de um transtorno mental, merece meu respeito, reverência e imperativo éticos. A sua identidade, neste texto, não é o principal, mas ainda poderá vir a ser revelada, assim espero. Reduzir a vida humana e suas singularidades/multiplicidades ao modelo Twitter me é impossível, mas como sempre devemos começar com o ''era uma vez".

Era uma vez.... uma mulher lá no interior do Paraná, ela iria ''dar a luz", e, "por estar sofrendo de eclampsia", no momento de seu parto ela recebeu uma força extra: "um enfermeiro subiu na sua barriga para que o meu irmão pudesse nascer", me conta a professora.

A mãe e o filho passaram, portanto, por uma situação muito frequente em nosso país: traumas antes, durante ou após o parto, chamados "tocotraumatismos", uma das principais causas de sofrimento fetal e de mortalidade materna. Estes são também causa de Paralisias Cerebrais. Ambos, mãe e filho, devem ter tido problemas de oxigenação, a mâe devido ao aumento de pressão arterial, e o bebê no trabalho de parto, com certeza, no mínimo, uma baixa oxigenação (hipóxia) de seu SNC (Sistema Nervoso Central).

O bebê que chamarei de JANO conseguiu vencer a morte. Segundo sua irmã, a professora Flor: "Dado como morto foi colocado numa mesa fria, minha avó Ana o pegou e levou para casa, ficou na beira do fogão à lenha durante dois dias e ele sobreviveu". Porém este mesmo Jano veio a se tornar um sujeito com deficiência intelectual, aquela que ainda muitos chamam de "mental". É quase certo que isso decorreu de seu sofrimento fetal e das condições precárias em que sua chegada ao mundo foi realizada.

Ele foi com certeza uma criança com dificuldade para andar e falar, o que sua irmã confirma e acrescenta: "O Jano, até um ano de idade, não se virava no berço. Minha mãe sempre o virava de um lado para outro, preocupada para que não ficasse com a cabeça defeituosa". As sequelas neurológicas de seu parto não foram precocemente diagnosticadas, ele vivia em uma pequena cidade, onde, certamente, não havia seguimento neuro pediátrico, com é indispensável para quem passou por tudo que ele sofreu.

A sua trajetória de enfrentamento dos obstáculos para o viver não cessaram no seu nascimento. Ele, Jano, hoje está enfrentando uma possível e tradicional solução final para os que vivem com uma deficiência intelectual. Ele está para ser ''internado em um manicômio", por determinação judicial expedida por um Juiz.

Mas, para que entendam a história de Jano é preciso dizer que ele é descrito como uma pessoa que segundo a irmã: -"Meu irmão não oferece risco à sociedade e trabalha das 22h às 5h da manhã, dorme durante o dia, ele passa roupa numa empresa situada num município do interior do Paraná. Ou seja, mantém-se ocupado e trabalha sem parar. É trabalhador! Ele é mais "lento" que os demais e foi contratado porque queria trabalhar até na hora do intervalo, para conseguir chegar perto do número de produção dos demais trabalhadores. Trabalhando neste horário, não tem tempo para beber bebida alcoólica  Não é caso de manicômio, se realmente ficar lá, daí sim sairá "louco"..."

Jano, o nome que lhe dei não é aleatório. Nomeá-lo assim apenas expressa a ambiguidade dos processos de "inclusão" institucional a que muitos são submetidos. Ao tempo que os protegemos (e a nós) também os condenamos a poderosas forma de exclusão. Ele é Janus, o deus mitológico de duas faces, uma que nos mostra o passado e outra que nos aponta o futuro.

 Uma que teríamos de considerar ao fazer um julgamento do crime ou delito que cometeu, que diz ser em nome de uma relação amorosa e sua traição . E outra, um devir, que aponta para a forma como o julgamos, psiquiátrica, psicológica e judicialmente. Nós, nas nossas normalidades e defesa da Sociedade só lhe apontamos, como os Juízes, uma saída ou solução: a internação em um hospital de custódia, o nome eufêmico de um Manicômio Judiciário nos velhos tempos da chamada periculosidade.

O jovem/velho Jano, nos seus 46 anos já vividos conseguiu algumas "inclusões". Ele foi alfabetizado, frequentou com dificuldades até antigo segundo grau, hoje ensino médio, casou, divorciou e tem um filho adolescente, e trabalha em uma lavanderia. Ele conseguiu o que muitas pessoas com deficiência ou com alguma forma de transtorno mental não conseguem. Eles vivem múltiplas barreiras e os infinitos preconceitos que os limitam. 

Ele vivenciou tudo o que pode ter complicado sua vida e seu mundo interno. Passou, devido a motivos históricos, sociais e subjetivos, teve diferentes trabalhos manuais, foi dispensado do serviço militar obrigatório, e, infelizmente, por uso abusivo de bebidas alcoólicas, por internação em Centro de Recuperação.

No campo das hospitalizações a história da Loucura esteve e está entremeada com o modelo e paradigma reabilitador das deficiências. Esta situação, lamentavelmente, é muito habitual, no campo da saúde mental, onde as situações de chamados ''retardamentos mentais" são acrescentados aos diagnósticos de muitas pessoas com transtornos mentais. 


E vice-versa. É aí onde se cruzam, novamente, a inclusão e a exclusão. Os sujeitos deixam de existir como cidadãos e passam a ser números da Classificação Internacional de Doenças e estados relacionados, a CID-10(OMS). É a passagem de Jano para F.70 ou F.78 ou F.79. O hospital psiquiátrico, a internação é o melhor para eles e para a Sociedade (?).

Já escrevi que há milhares de seres humanos, aproximadamente 4500 pessoas, que estão hoje internadas nos infernos dantescos de Manicômios Judiciários. A bioeticista Debora Diniz nos presenteou com um magnífico e premiado documentário: a Casa dos Mortos. Acerca dele escrevi o texto: Os Vivos e os Esquecidos na Casa dos Mortos.

Por isso digo que: caso Jano, por um crime passional, sem a possibilidade de outra forma de justiça, tornar-se mais um a ser encaminhado para um manicômio judiciário, como punição, teremos, então, o + um que faltava para completarmos o esquecimento desses sujeitos aprisionados. A sua institucionalização é única a solução?

Era uma vez + 1. Sim, mais uma vez repetimos a História: para incluirmos estaremos excluindo. Os que representam o ''mal'' e os ''desvios da ordem'', tal qual os que são considerados ''anormais'', ainda nos provocam para serem enclausurados. A história-estória não tem fim.

Porém se pudermos retirar o pré-conceito de periculosidade que ainda é aplicado, indiscriminadamente, a todos os transtornos mentais crônicos, as medidas de segurança que utilizaremos poderão, talvez um dia, vir a ser mais inclusivas, menos excludentes. Portanto, nessa nova visão, com embasamento em direitos humanos, tentar-se-ia aplicar a quem diagnosticado com ''doença mental" associada a "retardo mental'' uma outra forma de cuidado, ressocialização ou proteção.

Assim confirmou a irmã de Jano: "Quando foi ao manicômio para ser realizada a avaliação com a equipe forense, chorou muito e sentiu pânico ao ver a situação dos pacientes que lá estavam internados...".

Será que ele conseguirá, em um novo julgamento, demonstrar a um magistrado o quanto ainda precisamos modificar as práticas, penas e judicializações de quem tem uma diversidade funcional e cognitiva? Para isso seria ideal que os operadores do direito e da Justiça vivenciassem apenas um (01) dia na Casa dos Mortos.

Afinal temos, conforme recente matéria do Jornal O Globo (16/02/2011) um possível revival psiquiátrico fisicalista com o retorno das lobotomias e do uso da eletroconvulsoterapia. Dizem ser apenas para os casos considerados ''sem esperança'' de cura ou tratamento pelos medicamentos psicofarmacológicos... 

Porém, no espaço destinado aos ''loucos infratores", temos um campo onde a Bioética e os Direitos Humanos não se cansam de apontar para sua vulneração ativa e a transformação destes em ''cobaias humanas" para experimentação biotecnológica.

Quantas faces tem uma moeda? - sempre digo que esquecemos de seu "terceiro" lado, a face que une as duas faces de Jano. Nos milhares de Janos com deficiência intelectual qual é a sua verdadeira face? Vamos procurá-la antes de encontrar a solução mais fácil, institucional, naturalizada, e final: o encarceramento?

copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011-2012 (favor citar o autor e as fontes em reproduções livres na Internet ou meios de comunicação de massa TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Leia também no Blog - Deficientes Intelectuais - Encarcerar é a Solução Final?https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/01/deficientes-intelectuais-encarcerar-e.html

Indicação para Reflexão:
A Casa dos Mortos - documentário - Débora Diniz
https://www.acasadosmortos.org.br/#

Contribuições para o debate e para a leitura crítica sobre o tema:
A estratégia da periculosidade: psiquiatria e justiça penal em um hospital de custódia e tratamento https://priory.com/psych/perigo.htm

A doença mental no direito penal brasileiro: inimputabilidade, irresponsabilidade, periculosidade e medida de segurança-
https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-59702002000200006&script=sci_arttext

A periculosidade social e a saúde mental -
https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1516-44461999000400006&script=sci_arttext

A lobotomia e o eletrochoque ganham novas aplicações no tratamento de doenças -
https://oglobo.globo.com/ciencia/mat/2011/02/16/a-lobotomia-o-eletrochoque-ganham-novas-aplicacoes-no-tratamento-de-doencas-923812915.asp

Indicações bibliográficas:

Bioética
Claudio Cohen & Marco Segre (Orgs.) - Ed. Edusp - São Paulo, SP, 2002.

Direitos Humanos - normativa internacionalOscar Vieira Vilhena (Org.) - Ed. Max Limonad - São Paulo, SP, 2001.

El sufrimiento mental - El poder, la ley y los derechosEmiliano Galende & Alfredo Jorge Kraut - Ed. Lugar Editorial - Buenos Aires, Argentina, 2006.

Psiquiatria Social e Reforma Psiquiátrica
Paulo Amarante (Org.) - ver Cidadania versus Periculosidade Social: a desinstitucionalização como desconstrução do saber, Denise Dias Barros, pág. 171.Ed. Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ, 2008.

Vulnerabilidade e Vulneração: quando as pessoas com deficiência, passam a ser questão de Direitos Humanos?
Jorge Márcio Pereira de Andrade - in Revista Saúde e Direitos Humanos, Ano 6 Número 6,Ministério da Saúde/FIOCRUZ, Brasília, DF, 2010.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

DEFICIENTES INTELECTUAIS - Encarcerar é a solução final?

Imagem Publicada - uma fotografia em preto e branco, onde se vê uma grade, e atrás dela um corpo humano deitado de lado, do qual só vemos uma mão que se agarra à uma das barras, e seus pés que saem para fora da grade que o aprisiona. Esta foto é parte de uma campanha da OMS pelo fim dos manicômios ou outras formas institucionalizadas de encarceramento de pessoas com transtornos mentais, inclusive pessoas com deficiências ou não. (autoria Harrie Timmermans)

No calor insuportável das últimas noites, há um incerto alívio quando sentimos alguma brisa para nos aliviar. Mas se nos transpormos para corpos também encarcerados, qual será nossa sensação térmica? Qual será o calor inumano que nos cerceará? Será que estamos vestindo, ultimamente, o avatar de alguns sujeitos que chamamos de deficientes?

Então, se aspiramos outras formas de calor humano, talvez nos ajude o conhecer e re-conhecer estes sujeitos. Tomando conhecimento crítico da forma como vem sendo torturados, mal-tratados, subjugados, escravizados, abusados, violentados, "enjaulados", e, ainda podendo, experimentalmente, ser cobaias humanas. Ontem, eram chamados de ''retardados mentais''. Hoje, devem ser, respeitosamente, consideradas: são as pessoas com deficiências intelectuais.

Por enquanto, dada uma trégua pela Terra, ainda estamos nos recuperando da enxurradas,enchentes e aguaçais, mas outros tremores e temores nos alertam. Surgem novas/velhas notícias que demonstram a utilização de cárcere e privação de liberdade para pessoas classificadas como "DEFICIENTES MENTAIS".

Primeiramente temos um jovem holandês, Brandon van Ingen, que se encontra acorrentado, a uma parede, em uma clínica psiquiátrica, pois segundo a Secretária de Estado da Saúde: "O seu caso é tão sério que ele tem de ser privado da sua liberdade em nome da sua própria segurança e da dos outros". A ele só são permitidos passos até um limite. É considerado perigoso, assim como o foram milhares de outros que ainda vivem em manicômios, inclusive no Brasil (vejam A Casa dos Mortos - documentário de Débora Diniz)

Esta história de ''tratamento" a um jovem holandês, me faz voltar no tempo. Me lembro quando, há muitos anos atrás, ajudado por uma amiga, traduzimos o texto "Bem vindo à Holanda", escrito por Emily Pearl Kinsley, uma vez publicado, por ser inédito em português, espalhou-se pela Internet

O texto foi usado no lançamento do site do DefNet (www.defnet.org.br/holanda.htm, veja o asterisco abaixo *). Parece-me que a escritora antevia uma chegada, os pais-viajantes, a uma terra que não desejamos chegar, mas que quando lá estamos devemos buscar suas ''belezas".

Hoje repenso se devemos essa viagem para as pessoas com deficiencia intelectual. Isso se considerarmos a permanência de uma antiga e permanente "confusão" entre deficiência e doença. Brandon vive preso a uma parede com um colete fechado a chave e com uma corrente de 1,5 metros, desde 2007. E, pelo visto, lá permanecerá por mais alguns anos.

Por mais de 16 (dezesseis) anos, em um cubículo subterrâneo de 12(doze) metros quadrados foi mantida uma idosa com deficiência intelectual em Sorocaba, SP. É aqui bem perto de Campinas, não preciso viajar para a Holanda. Essa mulher foi resgatada de um ambiente com mofo, baratas e privação total de luz. Ela hoje tem tambem, com toda certeza psiquiátrica, graves sequelas mentais.

A sra. Sebastiana Aparecida Grotto, 64 anos, foi mantida em cárcere privado por seu marido, João Batista Grotto, sob a alegação cruel e já naturalizada de " que a idosa era mantida no porão para sua própria segurança, já que, se saísse da casa, não saberia o caminho de volta...". Esta lógica de cuidado com pessoas idosas, pessoas com deficiência e, principalmente, com pessoas com transtornos mentais crônicos, como as demências, é afirmada até pelos se especializam em situações limites que os envolvem.

Como psiquiatra e trabalhador da Saúde Mental, até o ano de 2009, já tive a triste oportunidade de ver/vivenciar/sentir, ao vivo e a cores, semelhante atitude de um familiar para com um sujeito com grave comprometimento mental, esquizofrenia. Ele, um delirante crônico vivia em isolamento no "porão" da casa, com as mesma condições insalubres de Sebastiana. 

E o seu resgaste de cidadania foi difícil, sendo resultado de um trabalho intenso por uma equipe de profissionais de saúde de um Caps em Campinas, SP. Mas as imagens de seu isolamento permanecem vivas em minha memória. São agora reavivadas pelas notícias que retransmito. Por motivos éticos não amplio os dados sobre este ser humano, mas tenho certeza de que muitos dos meus colegas que vivenciaram seu resgate ainda tem registradas as fortes sensações e emoções que as idas à essa casa, onde viveu um sujeito desfigurado, por contato com moscas e abandono.

Considero importante ressaltar que as justificativas utilizadas, tanto por familiares como por nossas sociedades e o Estado, para que se utilizem as formas de isolamento, cárcere e privação de liberdade, são sempre as mesmas: tudo é feito para que protejamos os ''normais' dessas '' anormalidades e sua periculosidades''. E todas as afirmações são sempre, sutilmente, colocadas no mesmo ''saco'', sempre se fala ou se afirma (até "cientificamente") que estamos fazendo ''o melhor e o possível para a proteção dessas pessoas".

Isso é o que já foi dito pelo pai de Zaqueu, com 25 anos, que foi enjaulado, em Sumaré, SP, sob a alegação de que estava sendo "protegido para controlar o comportamento agressivo causado por uma deficiência mental'', e, depois, buscou-se uma instituição para sua internação.

O valor ético e bioético de sua autonomia é também jogado em um '' saco " só que de lixo, pois em nossas visões e defesas inconscientes estes sujeitos já moram e vivem acorrentados em nossos subterrâneos, sejam individuais ou coletivos. A erradicação do ''mal" que representam ou personificam justificou até seu extermínio, assim como biopolíticas de isolamento, encarceramento, experimentação cientifica ou institucionalização ad infinitum... forever. Encarcerar foi e pode ser a solução final.

Mas a lógica perversa que justifica a diferentes biopolíticas e transformações de seus corpos em "matáveis ou sacrificáveis" (homo sacer) não é privilégio de ideologias, Estados totalitários ou genocidas. É uma lógica que pode atravessar, sem fronteiras ou distinções de gênero, etnia, nível sócio-econômico e cultural, os nossos corações e mentes. É quando aparecem as justificativas e racionalizações para que façamos a 'exclusão' dessas diferenças ou, com convém ao modelo biomédico, anormalidades ou deficiências.

A questão do uso do corpo considerado anormal já foi amplamente discutido, porém isso não basta para que atitudes extremas continuem sendo aplicadas à estas vidas humanas. O exemplo do jovem português Rui Duarte Silva, trazido à luz pela imprensa portuguesa recentemente, nos esclarece mais ainda. Não bastou que os considerassemos imbecis, idiotas ou cretinos, foi e é preciso um pouco mais de segregação e preconceito com estes "mentecaptos".

O jovem Rui foi transformado em ''escravo'', um ''famulus'' como o radical latino da palavra família. Ele ficou 24 (vinte e quatro) anos sob total privação de tudo o que conhecemos como direitos de um ser ''considerado normal''. Segundo a acusação do Ministério Público, para a condenação da família que o escravizou: "...Negaram-lhe o direito à alfabetização. Cedo o transformaram num mero criado, analfabeto e submisso, a quem nem dispensavam os cuidados de alimentação, higiene e saúde mais básicos''.

Essa escravização não é um fato isolado. Há milhares de pessoas com deficiência intelectual, em especial meninas e mulheres, que estão sob a vulneração e o abuso de seus corpos, seja para o trabalho assim como para a prostituição. E isso já foi constatado e denunciado.

Recentemente alguns desses seres humanos formaram um grupo de escravos na China, vendidos para uma fábrica de produtos químicos, após experimentarem o isolamento em um asilo. A história se repete e se mantém na negação de sua diferença intelectual. Ainda mais quando os colocamos em uma posição de ''mentalmente pobres", onde a ideia de pobreza reforçará nossos preconceitos e sua inferiorização.

Pela transversalidade e transculturalidade dos preconceitos e das crueldades inflingidas a pessoas com deficiência intelectual (outrora denominados '' deficientes mentais") é que devemos trazer também à tona o que pode ser sua libertação: a afirmação de seus Direitos Humanos.

Em 2004 foi promulgada pela OMS/OPAS a Declaração de Montreal sobre a Deficiência Intelectual, que afirma: "Apoiar e defender os direitos das pessoas com deficiências intelectuais; difundir as convenções internacionais, declarações e normas internacionais que protegem os Direitos Humanos e as liberdades fundamentais das pessoas com deficiências intelectuais; e promover, ou estabelecer, quando não existam, a integração destes direitos nas políticas públicas nacionais, legislações e programas nacionais pertinentes".

Para os Brandons, Sebastianas, Zaqueus, Ruis e muitos outros/outras ainda em situação de vulneração, exploração, cárcere, escravidão ou institucionalização definitiva é que devemos, urgentemente, confirmar o seu resgate para além das grades visíveis, assim como das mais tenazes: as invisíveis de nossos estigmas e preconceitos.

copyright jorgemarciopereiradeandrade ( 2010-2011 - 2023 ad infinitum - favor citar o autor e as fontes em republicações livres na Internet ou outros meios de comunicação de massa, Todos Direitos RESERVADOS 2025)

* - TEXTO - do BEM VINDO À HOLANDA (traduzido em Cambuquira MG, pela Dra.Mônica Ávila de Carvalho, mãe de Manuela, com minha contribuição pelo DEFNET, atualmente fora da Internet, mas reproduzido em milhares de sites como este - EXISTIR - Associação Inclusiva de Fortaleza - https://sindromededownexistir.blogspot.com.br/2009/06/bem-vindo-holanda-emily-perl-knisley.html

Leia também no Blog - 
Saúde Mental e Direitos Humanos - Desafio Ético para a Cidadania

O Melhor é a Jaula ou o Galinheiro: Deficientes Intelectuais e seu encarceramento https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/o-melhor-e-jaula-ou-o-galinheiro.html

O MANICÔMIO MORREU? Para que o mantemos vivo em nós? 

Veja a dura realidade dos MANICÔMIOS JUDICIÁRIOS NO BRASIL

A CASA DOS MORTOS

Sobre Brandon

Sobre Sebastiana

Sobre Zaqueu (Entre Jaulas e Exclusões)

Sobre Rui (Maus-tratos: Deficiente mental escravizado 24 anos)

Declaração de Montreal Sobre a Deficiência Intelectual 

China - Deficientes mentais vendidos como escravos para fábrica

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Os Desastres, os Haitis e as Serras no Hipercapitalismo

Imagem publicada - uma fotografia de um dos milhares de acampamentos de haitianos, com milhares de tendas militares ao fundo, que têm em um enorme telão a projeção de uma ''novela'', ao centro, para que possam continuar sonhando/acreditando na Sociedade do Espetáculo, e, talvez, esquecer todas as corrupções, explorações, humilhações e escravagismos a que o povo do Haiti foi e continua sendo submetido. O Haiti 01 ano após ainda é um país em ruínas, com disputas macropolíticas que determinarão quando e quem irá ''doar'' dinheiro para sua reconstrução. Um país de milhares e incontáveis mutilados e novos membros da multidão de pessoas com deficiência do mundo... E no telão vemos o rosto de uma criança negra... (Acampamento de Carradeux, New York Times)

"Todos os dons recebidos pelo homem através de seu profundo conhecimento da natureza - os progressos da sua tecnologia, de sua química, de sua medicina -, tudo aquilo que parecia poder atenuar o sofrimento humano, tendem por um espantoso paradoxo, arruinar a humanidade..." Konrad Lorenz

Quando li pela primeira vez, há muitos anos, Civilização e Pecado de Konrad Lorenz, não tinha a ideia de seu caráter de ''futurologia ". A gente não olha para o futuro como possibilidade, principalmente quando falamos de Desastres, Calamidades, Catástrofes, ou melhor de cenários de destruição. 

Como Lorenz era apenas um etólogo, aliás um ramo científico por ele formulado como "um estudo científico e comparativo do comportamento instintivo e aprendido dos animais", sua visão é datada e contextualizada. Este cientista, para além de controvérsias ideológicas,  concluiu que a liberdade raramente existe sem perigo. Acrescento não há vida sem risco. Há sim a perpetuação aética de nossos "erros capitais".

Hoje, bombardeado pela incessante midiatização do sofrimento dos afogados, dos soterrados e dos desabrigados, por chuvas, represas abertas, descaso e imprevisão política, fiquei "atolado". Fiquei me sentindo preso entre ideias de Lorenz e de Naomi Klein, cuja atualização já fiz quando escrevi sobre O Aprendizado do Desastre, há um ano atrás.

As teorias de Lorenz são fundamentadas na "análise dos processos que ameaçam o ocaso da civilização e o fim da humanidade, ditados pelas leis naturais...". Em 1973 esse cientista ganhou o Prêmio Nobel de Medicina, tendo lançado um grito de alerta sobre a urgência, já naquela época, de se preservar e conservar o Meio Ambiente para que em breve este "não se torne inadequado à sobrevivência" de seres humanos.

O que estamos fazendo com nossos ''dons"? apenas aplicando à contabilidade de uma máquina cruenta de calcular corpos soterrados? ou nossa matemática de mortos e vidas destroçadas ainda não é suficiente para a naturalização da Doutrina do Choque, com nos afirma Naomi Klein? 

Para muitos a culpabilização do volume de água que os céus nos derramam é a única explicação. E aí podemos cantar que: "olha lá vai passando a procissão, eles acreditam nas coisas lá do Céu...", e apenas ''orar" ou "chorar" perante as perdas de vidas humanas e o arrasamento das cidades. Aparece, como mostram as telas, nossa solidariedade que se, potencializada coletivamente, poderá ser transmitida para a proposta das 3 Ecologias de Guattari.

A mudança que desejamos diante dessas devastações naturalizadas é urgente. Não deveríamos esquecer de nossos semelhantes haitianos, após 1 ano de terremoto. Ainda tremem as pernas e pés desses negros e negras diante da Cólera e do abandono das promessas de reconstrução de seu país, suas casas, suas vidas.

Como podemos nos reaproximar desse Haiti Vivo que sumiu por um longo período das telas e dos noticiários, retornando quando a Dona Morte atinge mais de perto os nossos vizinhos estaduais?. Nos distanciamos, processo humano de proteção de si e dos narcisismos, de quaisquer sofrimentos intensos que atingem, primeiramente, o Outro ou os Outros.

Precisamos rever a nossa construção de uma Ecosofia e de uma Ecologia Humana. Para Lorenz: "a ecologia humana se transforma muito mais rapidamente que todos os outros seres vivos. O ritmo lhe é ditado pelo progresso de sua tecnologia, sempre acelerado e em progressão geométrica..." Para ele isso é responsável, ao modificarmos profundamente nossos meios ambientes, até mesmo por nossas ruínas das "biocenoses nas quais vive e das quais vive".

Reforçamos a teoria de que criamos as condições e meios através dos quais podemos criar ou destruir a Vida, muito mais na direção de ''manipulação'' dos desastres do que na direção de outros modos ecosóficos de viver e TRANSMITIR A VIDA.

Por isso digo que não estou ''chocado" com as imagens que atolaram nos meios televisivos. Estou apenas mais consciente da urgência de analisarmos quais são os nossos "pecados", ou melhor nossas "armadilhas", que mantemos, macropoliticamente, em construção e recriação, do que chamamos, eufemisticamente, de Civilização. Seremos transmissores de Vida em 2011, insisto na pergunta?

Me interrogo: - seremos apenas os "homo homini lupus" (o Homem é o Lobo do Homem)? ou podemos, micropoliticamente, re-inventar a liberdade e a crítica, através de uma Bioética e Ecosofia de mãos dadas, desmontando as artimanhas do Hipercapitalismo, encontrarmos as saídas para um mundo sem Arcas de Noé ou Naves, "made in China" e privatizadas de 2012?

Qual é a distância (humana) entre Porto Príncipe, Itatiaia, Nova Friburgo, Concepción, Franco da Rocha, Santiago, Três Corações, Temuco, Petrópolis, Brisbane, e onde vivo? Será que terei a resposta do poderoso computador Tupã do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), instalado na cidade com nome de água cheia de força e intensidade: Cachoeira Paulista?

copyright jorgemarciopereiradeandrade (2010-2021 - favor citar o autor e as fontes em republicações livres na Internet ou outros meios de comunicação de massa, todos direitos reservados -2025)

Leia também no Blog -

O APRENDIZADO DO DESASTRE - O Hai di Ti é em qualquer lugar - https://infoativodefnet.blogspot.com/search/label/Capitalismo%20do%20Desastre

GRACIAS A LA VIDA EN EL CHILE -


AS MASSAS E OS SOBREVIVENTES - Terra Trêmula - https://infoativodefnet.blogspot.com/search/label/Haiti

O HAITI NÃO ERA AQUI - A Terra Queimada -

Indicações/referências bibliográficas:

CIVILIZAÇÃO E PECADO, os oito erros capitais do Homem - Konrad Lorenz - Círculo do Livro, São Paulo, SP - 1977.

A DOUTRINA DO CHOQUE - A Ascenção do Capitalismo de Desastre - Naomi Klein - Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ, 2009.

AS TRÊS ECOLOGIAS - Felix Guattari - Ed. Papirus, Campinas, SP, 1990.

ARTIGO - LA VALORACIÓN ECONÓMICA DE LOS DESASTRES: UNA APROXIMACIÓN METODOLÓGICA -Dra. Ana Fernandez-Ardavín &Dra. Carmen Calderón Patier, Dra. Monserrat Cabello Muñoz y Dra. Isabel Martínez Torre-Enciso

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

SEREMOS TRANSMISSORES EM 2011?



Imagem Publicada - uma fotografia montada com imagem de uma mulher grávida, com um cabelo esvoaçante em cores avermelhadas e alaranjadas, como saindo uma série de chamas deles, com uma luz de fundo, como contraluz, que realça seu corpo feminino e sua condição de possibilidade de geração e transmissão de Vida.

NA TRAVESSIA DE MAIS UM ANO - 2010/2011

Aos amigos, amigas, leitores, leitoras,difusores e difusoras do Blog INFOATIVO DEFNET dedico um desejo profundo de que possamos construir novas formas de afetar e sermos afetados, novos caminhos que se construirão a cada passo dado, novos amigos e amigas que serão conquistados a cada abraço sincero e doce, novas intensidades amorosas que se realizarão com novos e intensos amores, novos sentidos e novas subjetividades a serem criadas, produzidas e multiplicadas para todos os cidadãos e cidadãs do Brasil que agora se conjuga no feminino... e se o Mundo é um Útero que venham os "nascimentos" de novas formas de sensibilidade e suavidade nas ações macropolíticas de nosso Brasil... que possamos, micropoliticamente, acender a qualidade de vida onde ela ainda não exista, desejando a criação coletiva de novas cartografias do viver. E, que as mulheres, não se tornando enrijecidas pelos Poderes, possam nos ensinar/aprender a aprender, mais uma vez, que:

SOMOS TRANSMISSORES

Somos, ao viver, transmissores de vida.
Quando deixamos de transmitir vida, ela a vida também deixa
de fluir em nós.

Isto é parte do mistério do sexo, é um fluxo à frente.
Gente assexuada não transmite nada.

Mas se chegamos, trabalhando, a transmitir vida ao trabalho,
a vida, ainda mais vida, se lança em nós compensando, se mostrando
disposta a tudo
e pelos dias que vêm nos encrespamos de vida.

Mesmo que seja uma mulher fazendo um simples pudim, ou um homem
fazendo um tamborete,
se a vida entrar nesse pudim ele é bom
bom é o tamborete,
contente fica a mulher, com a vida nova que a encrespa,
contente fica esse homem.

Dê que também lhe será dado
é ainda a verdade da vida.
Mas não é assim tão fácil. Dar vida
não quer dizer passá-la adiante a algum bobo indigno, nem deixar que os
mortos-vivos te suguem.
Quer dizer acender a qualidade de vida onde ela não se encontrava,
mesmo que seja apenas na brancura de um lenço lavado.


Tradução: Leonardo Froés - Ed. Alhambra
POEMAS DE D.H.LAWRENCE - Edição bilíngue do centenário - Ed. Alhambra, Petrópolis, 1985
.

SEREMOS TRANSMISSORES EM 2011? responda com paciência, persistência e doçura, assim imaginaria D. H. Lawrence nossas práxis e idéias para um Mundo, que como a poesia, estaria em permanente criação... autopoesis.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A MÁQUINA DA EMPATIA - incluindo a reinvenção do Outro

IMAGEM PUBLICADA - um grupo crianças agrupadas em uma escola mostram alguns golfinhos feitos de papel multicolorido, estão sorridentes, e, quem sabe, empáticos, após uma aula sobre as relações que são nutridas pelos golfinhos, baseadas na Empatia, em sua capacidade de viver e aprender em grupalidade sobre a construção de um respeito às diferenças e aos seus semelhantes. Um caminho que ainda estamos trilhando no mundo globalizado em busca da reinvenção do Outro e o re-conhecimento do mesmo.

Tudo em tudo 
Cada homem em todos os homens
Todos os homens em cada homem
Todos os seres em cada ser
Cada ser em todos os seres
Toda distinção é mente, pela frente, na mente, da mente
Sem distinção não há mente para distinguir
. (Laços, Ronald Laing, 1970


Hoje acordei com as minhas dores, aliás dormi com elas apenas um pouco. Logo ao acordar já apresentei a minha filha a solução de uma tarefa escolar do dia anterior. A Isadora recebeu como lição de casa desenvolver uma ideia que envolvesse a "criação científica" de uma tecnologia ou recurso que NÃO existe ainda. Além disso teria de desenhá-la e explicá-la, em texto livre, de como funcionaria este invento. O objetivo seria que esta tecnologia pudesse ajudar uma pessoa no dia a dia ou nosso planeta. Eu lhe sugeri a criação de uma "máquina da empatia".

Mas como explicar para uma criança de 10 anos a Empatia? E a minha tarefa conjunta matutina desdobrou-se em milhares de exemplos. Primeiramente, como um pai sonhador e ativista de direitos humanos, lembrei-lhe como tentar vestir a "pele" de crianças do mundo. Passei pelo Haiti e acabei pousando, de forma sensata, nas relações de bullying no meio escolar que ela conhece melhor do que eu. Ela se apropriou da ideia e foi além. Assim poderá constituído e vir a ser um processo 'metadialógico' entre um pai e uma filha.

A Máquina da Empatia já passeia na minha mente há muitos anos. Em 2005 tive a honra de fazer uma conferência no XV COLE (Congresso de Leitura do Brasil, da ALB), com uma apresentação de um artigo: TELEPATIA, EMPATIA, ANTIPATIA: POR ONDE CAMINHAMOS NAS TRILHAS DA DIFERENÇA. Nessa ocasião disse serem "três palavras ao léu ou três movimentos que podemos realizar no tabuleiro das relações humanas, quando nos aproximamos/afastamos do Outro? Este encontro de três palavras nos empurra na direção de uma encruzilhada de labirintos teóricos e de práticas ligadas aos sujeitos e à diferença".

Nesses tempos Idade Mídia, atualmente labirínticos, quando os Morros são ocupados militarizadamente, a Cólera é transmitida por soldados no Haiti, o controle biopolítico justifica novos e aperfeiçoados métodos de esquadrinhamentos e controle populacionais, a homofobia e outros modos de negação das diversidades humanas justificam novos microfascismos, afirmo que as práticas educacionais e filosóficas de construção de conceitos se tornam, bio e eticamente, indispensáveis.

Tenho de retomar meu discurso de 2005, e, como no texto sobre a Violência nossa de Cada Dia, me sinto ainda mais futurista, pois ainda precisamos, urgentemente, de: "...para além das hecatombes e violências do cotidiano precisamos buscar um 'metadiálogo’, ou seja uma conversa acerca deste problemático caminhar nas trilhas da diferença em um tempo de homogeneização e de produção serializada de subjetividades"

Meus caminhos pela estrada do empatizar são antigos... Vem da Psicanálise. Para o psicanalista vienense, Heinz Kohut, o termo EMPATIA é indispensável ao exercício da psicanálise. Em 1959 publicou um artigo que enfatizou o papel do narcisismo e da empatia na teoria e na clinica psicanalítica. Ele alinhavou algumas aquisições no desenvolvimento das formas de narcisismo que vivemos e da integração de personalidade de um sujeito.

Kohut indica uma série de aquisições que culminariam com a Sabedoria em nossa jornada rumo ao autoconhecimento, e uma visão mais humanitária de nossas relações, indicando-nos que: “ a empatia é o modo pelo qual coletamos dados psicológicos acerca das outras pessoas e pelo qual, quando elas dizem o que pensam ou sentem, imaginamos sua experiência interior, mesmo que não esteja aberta à observação direta".

Minha interlocutora Isadora me colocou novamente diante de Heinz Kohut. Ela perguntou se: ..."as pessoas,mesmo passando pela Máquina da Empatia, continuassem sendo e fazendo o que antes acontecia...", ou seja não tivessem mudando um pingo na sua posição egoísta e narcisista  Kohut, concorda com ela, e nos adverte que, desejando empaticamente o melhor para todos os nossos semelhantes, deveríamos para atingir uma incerta/insegura sabedoria.

Ele alinha como outras aquisições indispensáveis a criatividade dos homens, seu senso de humor e sua capacidade de encarar a sua própria transitoriedade, enfim de saber e reconhecer-se finito e mortal, atingindo a integração e superar nosso narcisismo inalterado”, aceitando e reconhecendo nossas limitações físicas, intelectuais e emocionais.

Dedico, pois, este texto a todos e todas que estão nas escolas brasileiras, trilhando as veredas do campo da inclusão e da reinvenção do Outro, com especial carinho e orgulho à minha filha, nos seus 10 anos de vida.

Em sua Máquina da Empatia, no seu texto escolar, ela escreveu: "a máquina da empatia faz (trans-forma) as pessoas que não são empáticas serem pessoas melhores, mais agradáveis, que dão valor aos sentimentos das outras pessoas. Bem, se pelo menos 10 pessoas, em uma cidade, fossem empáticas ela poderia ser até mais alegre..."

E, transversalizados por esta máquina inovadora e renovadora, mais empáticos, quem sabe, até nos tornemos um pouco mais telepáticos e menos televisivos.

Portanto, e enfim, para que não me torne "antipático", sem desejar a simpatia, reapresento o texto final da conferência apresentada no XV COLE:

UM METADIÁLOGO COM A POÉTICA DIFERENÇA DO FOGO

Imaginemos, então um diálogo entre um pai e sua filha, que prepara com sua mochila para uma viagem através do mundo, aos dezoito anos, sobre as três possíveis trilhas, ou a possibilidade de seu inevitável entrecruzamento:

Filha – Como é que medimos as distâncias entre as pessoas?

Pai – é incomensurável o que nos distancia, assim como o que nos aproxima... Mas podemos dizer que há três movimentos em direção a uma outra pessoa ou coisa, que diríamos está em Empédocles??

Filha – em Empédocles, o filósofo grego, pré-socrático, aquele do Etna?

Pai – é aquele que nasceu no século V antes de Cristo, que segundo o Dicionário Oxford de Literatura Clássica, era: filósofo e cientista natural de Acragás (Agrigento), na Sicília...; pertencia a uma família abastada e ilustre, e, segundo constava, foi-lhe oferecido várias vezes o trono de sua cidade, mas o filósofo recusou-o... era um gênio extremamente versátil, e interessou-se pela biologia, pela medicina e pela física (deve-se lhe a descoberta de que o ar é uma substância, distinta do espaço vazio)...

Filha – Então ele aprendeu-ensinou que as substâncias, assim como nós, tem diferenças?

Pai – Ele nos ajudará a entender que podemos, segundo a sua filosofia, tentar reconciliar a percepção dos fenômenos cambiantes com a concepção lógica de uma existência imutável subjacente...

Filha – Como ele chegou a esta ideia?

Pai – Ele desvendou/descobriu o que o poeta-Prometeu D. H. Lawrence nos anunciou alguns muitos séculos depois, que somos, basicamente, ‘elementares’, ou seja, há quatro elementos inalteráveis – a terra, o ar, a água e o fogo – de cuja interação, associação ou dissociação se produzem as mutações do mundo como o conhecemos...

Filha – É aí que ele afirma a existência de forças antagônicas, como nós entendemos o que chamamos de AMOR x ÓDIO?

Pai - Sim, não apenas como antagônicas, mas muito próximo do que os filósofos do TAO chamaram de yin e yang, com a CONCÓRDIA disputando com a DISCÓRDIA, construindo, destruindo e reconstruindo infinitamente...

Filha – Mas pai, o que afinal tudo isso tem a ver com aquela conversa metadialógica sobre a Telepatia, a Empatia e a Antipatia?

Pai – para esta resposta teria que ter tido a ousadia de Empédocles que se atirou no vulcão Etna, e, segundo Bachelard, em seus “fragmentos para uma poética do fogo”: Empédocles é uma das maiores imagens da poética do aniquilamento. No ato empedocliano, o homem é tão grande quanto ao fogo. O homem é o grande ator de um cosmodrama verdadeiro...!”

Filha – Então o que teremos de fazer é nos deixarmos levar pelo fogo essencial que há dentro de todos nós. Mas a chama que me abrasa é a mesma que abrasa o cerne de todos os outros? Seria isso que nos fez ficarmos próximos apenas quando acendíamos o fogo há milênios, e diante dele nos colocávamos em roda, invertendo, nesse preciso momento, nosso temor de sermos tocados pelo Outro?

Pai – quem sabe a poesia do Lawrence possa nos ajudar? Posso lê-la?

Filha – melhor seria se nos empatizarmos com ele, mas pelo menos poderemos nos forçar a sermos transmissores de sua poética do fogo, aquele poema em que ele diz ser “mais profundo que o amor...”, o fogo primordial ... conectado ao ingnoscível fogo mais remoto de todas as coisas...

ELEMENTAR

Por que é que as pessoas não param de ser amáveis

Ou de pensar que são amáveis, ou de querer ser amáveis,

E passam a ser um pouco elementares?

Como o homem é feito de elementos, do fogo, chuva, ar e barro

E como nada disso é amável

Mas elementar,

O homem não pende inteiramente para o lado dos anjos
... 
DH Lawrence

Aos que buscam como tirar as fraldas do processo de inclusão escolar envio a minha sugestão de que promovam "metadiálogos" provocativos em seus relacionamentos mais próximos, bem antes de levá-los às salas de aula, pois os nossos narcisismos das pequenas diferenças começam, primordialmente, e ainda na intimidade de nossos territórios afetivos ...

copyright/left  jorgemarciopereiradeandrade 2010-2011 ad infinitum após 2021 (favor citar o autor e as fontes em republicação livre pela Internet, todos direitos reservados... 2025)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS _

Laing, R. D ( 1982). – Laços – Petrópolis, Editora Vozes.

Kohut, Heinz, Self e Narcisismo (1984) – Rio de Janeiro, RJ – Zahar Editores

Bachelard, Gaston ( 1990) – Fragmentos de uma poética do fogo – São Paulo, SP – Editora Brasiliense.

Lawrence, D. H ( 1985) – Poemas ( edição bilíngue do centenário) – Rio de Janeiro, RJ – Editora Alhambra.

Leia também no Blog:

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

PARA ALÉM DO PRECONCEITO - A Convenção, Cidadania e Dignidade


IMAGEM PUBLICADA - Um homem, provavelmente indiano, com pernas atrofiadas é empurrado por uma jovem, dentro de um rudimentar meio de transporte, qual um carrinho rústico, com uma criança pequena entre as pernas, circulando em uma rua aberta com veículos ao fundo, representando, na minha visão, a maioria das 650 milhões de pessoas com deficiência do mundo globalizado, ou seja 06 de cada 10 pessoas com deficiência são pobres, desfiliados, marginalizados e ainda estigmatizados. Uma foto em P&B de Khaled Satter, difundida pela OMS (Organização Mundial de Saúde) com a finalidade de difundir a CIF (Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde- 2001), que foi premiada em "1º lugar", por mim, e apresentada, no passado em muitas conferências...

"Ser cidadão, perdoem-me os que cultuam o direito, é ser como o estado, é ser um indivíduo dotado de direitos que lhe permitem não só se defrontar com o estado, mas afrontar o Estado. O indivíduo seria tão forte quanto o estado. O indivíduo completo é aquele que tem a capacidade de entender o mundo, a sua situação e que, se ainda não é cidadão, sabe o que poderiam ser os seus direitos..." (Milton Santos, Cidadania Mutilada in O Preconceito)

O pensador e intelectual Milton Santos nos instiga a afirmação de nossos direitos. Ele interroga em seu texto: "O que é ser cidadão neste país?". E, hoje, quando se comemora o DIA INTERNACIONAL DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA (Onu) temos de buscar uma nova afirmação destes que tiveram por muito tempo sua cidadania mutilada. Eles, muitas vezes fisicamente mutilados, foram considerados, até recentemente, apenas objeto de intervenção, seja do Estado ou da Sociedade civil.

Hoje, quando a sua cidadania, quando reconhecida, permite até um enfrentamento do Estado, é a hora de buscar que direitos devem ser difundidos, educacional e persistentemente, para que sua diferença e diversidade funcional possam realmente estar em processo de inclusão social.


Em recente evento promovido pela RIADIS ( Red Latinoamericana de Organizaciones No Gubernamentales de Personas con Discapacidad y sus Familias ) e Conectas Direitos Humanos, na cidade de São Paulo, acerca da "Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência - Avanços, Desafios e Participação da Sociedade Civil", no mês de novembro, foi construído um importante marco sobre a questão do que podemos, pessoas com e sem deficiência, realizar para que o Artigo 33, acerca da Implementação e Monitoramento da Convenção em nosso país, seja plural, democrático e, principalmente, realize, concretize e implemente o que já está no Decreto Lei 6949/2009, para que os sujeitos com deficiência tornem-se, como diz Milton Santos, "indivíduos completos".

Tenho comigo a convicção de que um dos meios mais importantes, na atual situação econômica, social e política em que se encontram a maioria das pessoas com deficiência, ainda em desfiliação social e pobreza, que, sem dúvida já ultrapassam os 25 milhões de brasileiros e brasileiras do Censo de 2000, é indispensável que também, e em especial hoje, façamos conhecer o Artigo 8 - CONSCIENTIZAÇÃO, da Convenção, que nos diz:

1. Os Estados Partes se comprometem a adotar medidas imediatas, efetivas e apropriadas para:
a) Conscientizar toda a sociedade, inclusive as famílias, sobre as condições das pessoas com deficiência e fomentar o respeito pelos direitos e pela dignidade das pessoas com deficiência;
b) Combater estereótipos, preconceitos e práticas nocivas em relação a pessoas com deficiência, inclusive aqueles relacionados a sexo e idade, em todas as áreas da vida;
c) Promover a conscientização sobre as capacidades e contribuições das pessoas com deficiência.

2. As medidas para esse fim incluem:
a) Lançar e dar continuidade a efetivas campanhas de conscientização públicas, destinadas a:
i) favorecer a atitude receptiva em relação aos direitos das pessoas com deficiência;
ii) Promover a percepção positiva e maior consciência social em relação às pessoas com deficiência;
iii) Promover o reconhecimento das habilidades, dos méritos e das capacidades das pessoas com deficiência e de sua contribuição para o local de trabalho e o mercado laboral;

b) Fomentar em todos os níveis do sistema educacional, incluindo neles todas as crianças desde tenra idade, uma atitude de respeito para com os direitos das pessoas com deficiência;
c) Incentivar todos os órgãos de mídia a retratar as pessoas com deficiência de maneira compatível com o propósito da presente Convenção;
d) Promover programas de formação sobre sensibilização a respeito das pessoas com deficiência e sobre os direitos das pessoas com deficiência.

Estas medidas devem ser um dever de Estado e um direito de todos e todas no Brasil. A Convenção além de ratificada na íntegra tem também seu Protocolo Facultativo, que permite-nos a denúncia de quaisquer violações dos seus artigos. Qualquer pessoa, grupo ou entidade poderá enviar a um Comitê sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (Artigo 34), e nós, enquanto cidadãos e cidadãs, devemos estar alertas para que nossa participação política e social se faça presente no monitoramento da aplicação destas medidas de conscientização.


Para tanto devemos, no Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, potencializar nossos desejos de, micropoliticamente, nos confrontarmos com todas as formas de preconceito e estigmatização a que somos submetidos. Precisamos quebrar, romper e transpor as barreiras invisíveis de velhos paradigmas, enraizadas em instituições que temem a perda de poder e uso das pessoas com deficiência, espaços de segregação ou de institucionalização que se locupletam e dependem dos corpos que serão, biomedicamente, considerados defeituosos.

É HORA, PORTANTO, DA MÁXIMA VISIBILIZAÇÃO E DE "OCUPAÇÃO PACÍFICA, PORÉM AGUERRIDA" DE TODOS OS ESPAÇOS, SEJAM DA MÍDIA, QUE AINDA DIZ E ESCREVE SOBRE "PORTADORES", DAS ESCOLAS E EDUCADORES QUE CRIAM OBSTÁCULOS À INCLUSÃO ESCOLAR, ASSIM COMO DAS QUE NEGAM AS SINGULARIDADES E DIFERENÇAS NA PLURALIDADE E NO MULTICULTURALISMO QUE DEVE ALICERÇAR A EDUCAÇÃO INCLUSIVA, DAS ENTIDADES ASSISTENCIALISTAS QUE SE APEGAM A ESTEREÓTIPOS, DOS QUE GANHAM DINHEIRO EM NOME DE SUPOSTAS CARIDADES OU APLACAMENTO DE CONSCIÊNCIAS CULPOSAS E REFORÇAM APENAS O MODELO REABILITADOR, 

DOS QUE SE NEGAM A RECONHECER AS POTENCIALIDADES DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA NO TRABALHO E NÃO RECONHECEM AS ARTIMANHAS HIPERCAPITALISTAS NO CUMPRIMENTO DE COTAS E DE INSERÇÃO LABORATIVA COM EQUIPARAÇÃO DE OPORTUNIDADES, DE PROFISSIONAIS DE SAÚDE QUE NÃO ENXERGAM PARA ALÉM DOS DITAMES BIOMÉDICOS SOBRE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA E SE RECUSAM A APRENDER OS NOVOS CONCEITOS TRAZIDOS PELA CIF (CLASSIFICAÇÃO INTERNACIONAL DE FUNCIONALIDADE, INCAPACIDADE E SAÚDE - 2001), 

PARA OS OPERADORES DE DIREITO QUE AINDA PERSISTEM NO DESCONHECIMENTO DA CONVENÇÃO E SUA MUDANÇA DE PARADIGMAS NO DIREITO E PERSISTEM EM UM OLHAR VITIMIZADOR E DESPOTENCIALIZADO DOS SUJEITOS DE DIREITO QUE SÃO AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA... É HORA DE NOSSAS REVOLUÇÕES MOLECULARES PROVOCAREM ESTES INSTITUÍDOS, E, TRANSVERSALIZANDO SEUS TERRITÓRIOS, PROMOVER A CRIAÇÃO RIZOMÁTICA, OU SEJA MULTIPLICADORA E CONTAGIANTE, DE NOVOS PARADIGMAS E NOVAS CARTOGRAFIAS.

Os tempos são da Acessibilidade, da visão Bioética, da Cidadania, da Dignidade e da construção de novos princípios Éticos como alicerces para que ninguém, nenhuma pessoa, nenhum ser humano fique ainda debaixo da mutilação e violação de seus Direitos Humanos. Este ABCDário, se efetivamente realizado, pode ser um dos caminhos para um Outro Mundo Possível, para além dos preconceitos, para além das exclusões, rumo À SOCIEDADE DAS DIFERENÇAS...

Enquanto, passando o dia e ia escrevendo, pensando e repensando, lá na ONU, uma jovem negra, qual Milton Santos, com seu histórico de artrogripose, em sua cadeira de rodas, fazia ressoar a sua música e seu canto, com toda a intensidade do Zimbaue e da África. Ela, Prudence Mabhena, mostra ao mundo como é possível se tornar, mesmo com aparentes ''mutilações'' de seu corpo, muito mais efetivadas em sua cidadania, como podemos, ao soltar nosso canto de protesto e vida, um ''indivíduo completo e surpreendente". Ouçam e se apaixonem.

copyright jorgemarciopereiradeandrade (2010-2011 - favor citar as fontes e os autores em republicação livre na Internet e outros meios de comunicação de massa - TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Informações, indicações e Conexões:

CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA - Decreto Legislativo 186/2008 - Decreto 6949/2009
3ª ed- rev - Brasília - Secretaria de Direitos Humanos - Secretaria de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência , 2010.
Na internet -
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm

O Preconceito - Julio Lerner Editor - São Paulo, Imprensa Oficial do Estado - 1996-1997.

A CONVENÇAO SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA COMENTADA - Coordenação de Ana Paula Crosara de Resende e Flavia Maria de Paiva Vital - Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos - Corde - 2008.
Na Internet - https://www.bengalalegal.com/convencao-comentada

PRUDENCE MABHENA - MUSIC BY PRUDENCE -
ver/ler/ difundir o texto A Música que Encanta Depende dos Olhos? https://infoativodefnet.blogspot.com/2010/03/musica-que-encanta-depende-dos-olhos.html

Para ouvir e se encantar - VEJA O VIDEO - COM A MUSICA AMAZING GRACE https://www.youtube.com/watch?v=llVp22UuVTg&feature=player_embedded

RIADIS - http://www.riadis.net/
CONECTAS - https://www.conectas.org/index.php/Home/index

domingo, 28 de novembro de 2010

A VIOLÊNCIA NOSSA DE CADA DIA... Dai-nos também.

Imagem Publicada - uma montagem em foto com o Cristo Redentor, com um jato de combustão saindo de sua base, como se este ícone do Rio de Janeiro,em sua base no Morro do Corcovado, estivesse sendo lançado ao espaço sideral. Uma alusão aos tempos de "fogo" cruzado vividos recentemente na cidade "maravilhosa", e sua posterior pacificação naturalizada através da combinação de forças armadas e ações governamentais. (imagem publicada no jornal The Economist)

A violência, ou melhor, as variadas formas de violência institucionalizadas e naturalizadas tornaram-se banalizadas. Então, cabe a todos nós, e não apenas para alguns o dever de questioná-las, analisá-las e propor saídas e soluções coletivas, para que, ao sermos novamente paralisados, não tenhamos nossas asas cortadas, pois como diz uma estória: o passarinho, aparentemente frágil, quando entra em pânico, é a melhor vítima do bote de uma serpente, sempre que ele se esquecer de sua diferença desta, ou seja: alguns pássaros podem voar...

O texto abaixo foi publicado em Maio de 2006 - edição especial do InfoATIVO DefNet Nº 2531, republicado na Internet e em outras mídias...

O reapresento com algumas inclusões e atualizações, que surgiram após o tempo de exposição prolongada às notícias das recentes soluções militares para a chamada "guerra urbana" na cidade do Rio de Janeiro contra o narcotráfico, e a ocupação hoje do chamado "complexo do Alemão"... relembrando a atemporalidade da Violência e de nossas medidas de extermínio ou controle social do que re-produzimos incessantemente...

A VIOLÊNCIA URBANA: Ontem, Hoje e Sempre?
Jorge Márcio Pereira de Andrade

“A violência sendo instrumental por natureza, é racional até o ponto de ser eficaz em alcançar a finalidade que deve justificá-la...” (Hannah Arendt)

Dai-nos a violência cotidiana de cada dia... é o pedido que a Idade Mídia eleva em preces ao Estado, à Sociedade e ao Mundo Globalizado. Segundo Zygmunt Baumann, em Vidas Despedaçadas, brilhantemente identifica a presença de um Estado que se retroalimenta de nossa vulneração cotidiana. Diz o autor:“A vulnerabilidade e a incerteza são as principais razões de ser de todo poder político. E todo poder político deve cuidar da renovação regular de suas credenciais...”.

Nossos tempos não estão mais nem menos violentos que os de nossos ancestrais. Hoje a violência, chamada urbana, pois as outras não têm tanta midiatização, tornou-se um espetáculo.

Segundo a óptica de Arendt, esses recentes atos de terror e pânico promovidos pela criminalidade, podem ser vistos como uma tentativa de atração de olhares e de mentes apavoradas, pois: “a violência não promove causas, nem a história nem a revolução, nem o progresso, nem a reação, mas pode servir para dramatizar reclamações trazendo a atenção do público...”.

Abaixo reproduzo, na íntegra o que já pensei, escrevi e agora tenho de repensar:

Fiquei muito incomodado, ainda estou com a paralisação que todos tivemos de exercitar nos dias de maior intensidade das ações de pressão do crime organizado, quando São Paulo entrou em pânico. Chegava a Campinas, à noite, vindo de Brasília, da 1ª Conferência de Direitos das Pessoas com Deficiência,(maio de 2006) onde defendi ativamente os Direitos Humanos. 

Lá somente os ecos distantes, dentro das televisões e jornais, me mostravam ônibus incendiados, rebeliões em presídios, atentados a polícia, etc...., não me assustaram tanto. Parece que, quando estamos no ‘planalto do Poder’, ficamos atravessados pela geopolítica, meio distantes das agruras que acometem os que a ele e ela estão submetidos.

Fiquei, então, perplexo ao ver a cidade onde moro em total silêncio e toque de recolher. Pensei ao trafegar em um automóvel quase solitário, como se pode produzir tamanha comoção social? Estávamos no que se chama de Estado de Sítio? Havia um silêncio amedrontador e triste nas ruas da cidade. Todos os locais de comércio noturno, bares, postos de gasolina, supermercados 24 horas, etc..., estavam de portas cerradas, desde às 20 horas. 

Senti uma profunda preocupação com o futuro de minha filha de 05 anos, naquele momento cidadão e morador de uma cidade vazia, como o futuro de todas as crianças brasileiras, principalmente as que não têm como escapar destes momentos de terror e de violência organizada. Não era o meu corpo e a minha integridade física que estavam sob ameaça, estávamos atravessando uma ‘cidade fantasma’, sem ‘viva alma’, sem Vida em público, com praças e ruas totalmente desertas. Uma cidade transpirando o medo e o pânico paranoicos. Nem os 'camburões' trafegavam.

Sim a violência de hoje e dos poucos dias atrás continua sendo alimentada, embora não tenha outra finalidade que a de criar pânico e estagnação, a meu ver. Concordo, então, que ela não é produtiva, mas sim um 'produto', quiçá uma mercadoria, a ser pensado(a), refletido(a) e analisado(a) com todos os recursos possíveis, em especial por parte dos cientistas políticos, sociólogos e analistas institucionais.

Pelo clima generalizado de insegurança consequente aos recentes ataques, embora as ruas paulistanas já tenham sido reconquistadas pelos seus legítimos donos: os chamados cidadãs e cidadãos, não há como negar a existência ou o aumento de violência, tanto do crime organizado como das forças instituídas para sua repressão, nesse momento político social brasileiro. Porém não podemos cair na armadilha fácil de elaborar ‘propostas imediatistas’ e soluções apenas macropolíticas, ouvindo-se inclusive o pedido enganoso de uso das ‘Forças Armadas’ ou da “pena de morte”. 

Não há como negar a imprescindível análise crítica do que está subjacente a esta violência espetacularizada, pois como nos diz Lorenz: "o homem que cessa de refletir corre o risco de perder todas as qualidades e realizações especificamente humanas". Ele próprio experimentou a crítica a suas ideias e seus escritos, principalmente os que se aproximaram das ideologias fascistantes.

Chego perto de afirmar que os provocadores do recente pânico social estiveram sendo orientados por quem já leu, ou eles próprios tem a intuição e prática sobre o que escreveu Carl Von Clauzewitz, em seu livro Da Guerra, ao nos dizer que: “o êxito estratégico é a preparação favorável da vitória tática...".

..."Quanto mais a estratégia puder, graças às suas combinações, depois da aquisição de sua vitória, incluir acontecimentos nos seus efeitos, mais ela se libertará das ruínas completas, cujas fundações terão sido sacudidas pela batalha; quanto mais ela arrebatar grandes massas o que tem de ser penosamente ganho, pedaço a pedaço, no decurso da própria batalha maior será seu êxito.” Cito Clauzewitz para datar a longevidade da questão de enfrentamento da guerra e o problema da paz. Este tratado teve a sua primeira publicação em 1832.

Ele já demonstrava que os atos de guerra, quando violentos, são “destinados a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade”, que para “defrontar a violência, a violência mune-se com as invenções das artes e das ciências”. Entra em cena então o nosso modelo de Estado Espetáculo, e nada mais eficiente para a construção do medo e do pânico do que a sua espetacularização, de ambos os lados da “guerra urbana”.

Portanto há alguma coisa ainda sem resposta sobre as recentes ‘explosões com Molotov’. Principalmente quando a finalidade destas é a conquista de uma “surpresa”, que já fora anunciada aos órgãos oficiais com antecedência, empregando forças de ataque a partir de várias bases, buscando o apoio da população com sua histeria coletiva, para um possível efeito moral, criando um ‘teatro de guerra’, reproduzindo o modelo de territórios, fatiando a cidade em pedaços, apoiado nas comunicações de massa a fim de promover possíveis e inconscientes mecanismos de defesa coletivos, onde a crença de que o poder destes agressores é muito maior do que nossas possibilidades de reagir ou atacá-los.

Afinal estes agressores estão em “segurança máxima”, e nós? na “insegurança infinita”?

Encontrei, porém, no passado, mais uma vez, alguns indicadores para a leitura crítica que deveremos empreender. Em um artigo intitulado: “Violência: reflexões sobre a banalidade do cotidiano em São Paulo”, de Luciano Kowarick e Clara Ant, de 1981, que nos afirmam: O grave é que, ao se focalizar o problema exclusiva ou preponderantemente sobre o crime, mobiliza-se a opinião pública sobre este aspecto importante, mas não único, da violência urbana, que caracterizam o cotidiano da vida e do trabalho nas cidades”.

Os autores nos fazem interrogar sobre o papel dos meios de comunicação de massa, que antes dos acontecimentos recentes, centram suas atenções no campo da delinquência, dos crimes e das violências físicas, em especial das classes mais desfavorecidas, minimizando, segundo os autores, o arbítrio policial e omitindo que, na realidade, os acidentes de trabalho, a desnutrição e a miséria vitimam um número muito maior de habitantes de nossas grandes cidades”. (Ruben George Oliven).

Falando na possibilidade de uma impostura com a hipermidiatização da violência podemos lembrar de perguntar onde é que estão nossos impostos? Em recente matéria do Jornal do Senado, ano IV, nº. 121, 8 a 14 de maio de 2006, diz-se que os “Brasileiros estão de olho no imposto”, e ficamos sabendo que: “a soma de todos os bens produzidos pelos brasileiros, o chamado produto interno bruto (PIB), foi de R$1,94 trilhão em 2005, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os impostos pagos pelos brasileiros à União, aos estados e municípios totalizaram 37,82% do PIB, de acordo com o IBPT... Os tributos devem retornar ao Cidadão em forma de benefícios, como educação, saúde, SEGURANÇA, previdência...”.

Esta matéria ainda informa que: “Cada cidadão trabalha pelo menos 04 meses e 25 dias por ano para o Fisco”, mostrando em estatística comparativa que nos Anos 70, os Anos de Chumbo da Ditadura Militar, se trabalhava apenas 2 meses e 16 dias para pagar todos os impostos, e que, com certeza, a “impostura” oficial através das mídias era muito maior, e a violência do Estado também, com consequente desrespeito aos Direitos Humanos de todos os brasileiros e brasileiras.

Ainda não pagamos todas as nossas dividas pela defesa de nossa Constituição de 1988? Mas o que é que tem esta história com os acontecimentos atuais? Perguntará algum céptico das possibilidades de uma participação cidadã na busca de uma aplicação transparente e fiscalizada por todos nós de todo esse dinheiro arrecadado dos trabalhadores (as), exigindo-se que o Estado faça a sua parte. Deveríamos responder que têm a ver com nosso desejo de um futuro diferente entre os diferentes, com respeito e justiça para todos e todas, um tempo com o mínimo de sofrimento ético-político.

¨*Reconheço, que hoje em 2010, passados os anos o panorama social e econômico mudou. Mas mudou a situação da fome, onde ainda 11 milhões encontram-se na "insegurança alimentar", segundo o IBGE. Os tempos passam mas algumas das misérias que retroalimentam as diferentes e sutis formas de violência social perduram. Como, então responder a velhas e repetidas indagações sobre nosso futuro?

E o futuro? O de sempre? A violência, ou melhor, as variadas formas de violência institucionalizadas e naturalizadas tornaram-se banalizadas. Então, cabe a todos nós, e não apenas para alguns o dever de questioná-las, analisá-las e propor saídas e soluções coletivas, para que, ao sermos novamente paralisados, não tenhamos nossas asas cortadas, pois como diz uma estória: o passarinho, aparentemente frágil, quando entra em pânico, é a melhor vítima do bote de uma serpente, sempre que ele se esquecer de sua diferença desta, ou seja: alguns pássaros podem voar. 

Você que conseguiu ler até aqui este texto me responda: quem são os verdadeiros ‘engaiolados’, com a máxima segurança, dessa história dos tempos de cólera e impostura criminal e neoliberal?

copyright Jorgemarciopereiradeandrade 2006/2011(em caso de republicação solicito citar a fonte e o autor(es) TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Referências bibliográficas--
Ant, Clara & Lucio Kowarick , Violência e Cidade – in Violência : Reflexões sobre a banalidade do cotidiano em São Paulo, Zahar Editores, Rio de Janeiro, RJ, 1982.

- Arendt, Hanna, Da Violência, Editora Universidade de Brasília, Brasília, DF, 1985.

- Bauman, Zygmunt, Vidas Desperdiçadas, Jorge Zaha Editor, Rio de Janeiro, RJ, 2005.

- Clausewitz, Carl Von, Da Guerra, Martins Fontes Editora, São Paulo, SP, 1979.

- Lorenz, Konrad, Os oito pecados mortais do homem civilizado, Editora Brasiliense, São Paulo, SP, 1991.

- Oliven, Ruben George, Violência e Cidade – in Chame o ladrão: as vítimas da violência no Brasil, Zahar editores, Rio de Janeiro, RJ, 1982.

TEXTO ORIGINAL publicado em https://www.direitos.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1461&Itemid=2

LEIAM TAMBÉM NO BLOG -

UMA VIOLÊNCIA COTIDIANA E BANAL? A VIOLAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS DE CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIA - 

FUTEBOL, VÉRTEBRAS, CLONES, TRANSFORMERS - A PRODUÇÃO DO ESPETÁCULO DA VIOLÊNCIA -

RACISMOS, BARBÁRIES, FUTEBOL - ONDE SE ENTRECRUZAM AS VIOLÊNCIAS SOCIAIS -

TIROS REAIS EM REALENGO - A VIOLÊNCIA É UMA PÉSSIMA PEDAGOGA