Mostrando postagens com marcador Afeto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Afeto. Mostrar todas as postagens

domingo, 10 de setembro de 2017

CARTA (DE) VIDA AOS JOVENS SUICIDADOS.

Imagem Publicada- um poemapictórico meu onde sobre o fundo de cor preta está a frase – Es Cre Ver sobre o Preto  para que o Negro vire Poesia e Não apenas a Capa Preta da Realidade Obs escurecida... Com pequenos ”riscos” em vermelho para nos lembrar dos riscos que corremos quando negamos o quanto somos vulneráveis, e o quanto nos submetem à vulneração hoje em dia. A vocês, mesmos temerosos, a afirmação de novas cartas e cartografias para o Viver, apesar e além de todas as de-pressões ou lutos ou lutas.

“Não pode ser próprio do poeta entregar a humanidade à morte. E, com consternação que ele, que não se fecha a ninguém, percebe o poder crescente da morte em tantas pessoas. Mesmo que  a todos pareça façanha inútil, o poeta vai pôr-se a sacudir esse poder e jamais, em hipótese alguma capitulará...”  
(Elias Canetti, A Consciência das Palavras, pág.322, a última)

Jovens, vocês são, nós somos, e serão, o motivo e o objetivo principal de minha carta subjetiva. É uma 'missiva' dos tempos dos furações, das opressões, dos desfiliados, das violências naturalizadas, das banalizações dos espetáculos do Estado, das farsas macropolíticas  a favor da Sociedade de Controle. Tempos de Vidas Desperdiçadas dirá Zygmunt Bauman.

Como escrever para nossa juventude que passa mais de 04 horas, em média ou mais, conectada a um smartphone? A mesma que tentam compreender, inventar subjetividades, produzi-las, além de prender e tentar matar, principalmente se sua pele for negra?

Talvez, seguindo a máxima do Canetti, tenha que lhes provocar poeticamente. Quem sabe minhas palavras com alguma consciência, vinda ainda do Século XX, quiçá visionárias, possam lhes afetar. Como lhes ajudar a resistir aos mensageiros do Nada?

Não posso ir além dos limites das letras e dos espaços de repetição. A síntese que me pedem é quase impossível para uma mente e um coração poéticos. Não sei se já me excedi aos 140 caracteres ou às frases de efeito das redes sociais.

Só peço então que me acompanhem em uma re-descoberta de um Poeta. Um daqueles que pode ter sido suicidado ainda jovem. Embora, com certeza, alguns só o leiam pelo viés ideológico, lógico que irei seguir meu desejo de lhes dar VIDA e não mais uma pá do cale-se dos tempos de temor e não de amor.

Convido a que leiam comigo este poema. Foi escrito por MAIAKÓVSKI (1894-1930), o poeta russo, dos anos pós-Revolução Soviética, para um amigo: Sergei Iessiênin (1895-1925). Esse amigo, também poeta, suicidou-se num quarto do hotel Inglaterra, em São Petersburgo (Leningrado). Ele, ao se sangrar, escreveu com o próprio sangue seus últimos versos: “Morrer não é novidade nesta vida. Mas viver, com certeza, não é mais novo”.

Como sei que não há palavras soltas, mas que gostaríamos de não aprisioná-las. Escrevendo como um poeta, ou seu arremedo, sinto que preciso das palavras de um poeta revolucionário para tentar essa sensibilização sobre o suicidar-se ou ser suicidado. Não as Cartas a um jovem poeta do Rilke. São apenas como diziam, antigamente, as ‘mal traçadas’ linhas com tinta escorrendo entre elas. E, críticos e descrentes, possam questionar e se questionar com elas.

Deixou-nos o poeta russo essas provocações. Peço que tenham a paciência da degustação de seu modo único de escrita e sensibilidade:

“PARTITES como dizem
Para o outro mundo
O vazio...
Estás planando
Até o céu bordado de estrelas.
Chega de adiamentos e de vodka.
Sobriedade.

Não, Iessiênin, isto não é zombaria.
Na minha garganta
Nada de escárnio
Mas uma bola de tristeza.
Eu vos vejo com uma mão de cera
Hesitando agitar o saco
De vossos próprios ossos.
Parai, deixai para trás!
Que ideia é essa de derramar
No vosso rosto esse giz mortal?
Vós que sabeis escrever coisas
Como ninguém no mundo.

Por quê? E como?
Derramam-se em hipóteses
Os críticos gaguejam:
De quem é a culpa?
Muito a dizer...

Mas, sobretudo lhe faltava ‘conexão’ ou ‘ligação’?
O resultado?
Muita cerveja ou aguardente?
Dizem que se vós deveríeis ter trocado a boêmia
Pela burguesia;
A classe vos teria influenciado,
Fim das lutas.

Mas essa classe a sua sede
Ela sacia com kvas (bebida russa não alcóolica)?
A Classe ela também, para beber
Entende bastante.

Dizem que se houvessem juntado
Alguém de ‘Sentinela’ (vigilância dos escritores ‘proletários’)
Teríeis feito muitos progressos:
Poderia a cada dia
Escrever vossos cem versos,
Enfadonhos e compridos
Como Doronine.        (poeta soviético – 1900 – 1978)

Para mim este delírio
Se tivesse realizado
Vós teríeis muito mais cedo
Sobre vos mesmo se atacado.
Melhor morrer de Vodka
Do que de Tédio!

Nem a forca, nem a faca
Nos darão a chave desta perda.
Talvez se tivessem tinta no Hotel Inglaterra
O Senhor poderia ter evitado
De se cortarem as veias.

Os imitadores se alegram: “Bis”!
Todo um pelotão que faz
Sobre si mesmo, justiça.

Por que aumentar o número de suicídios?
Melhor seria aumentar a produção de tinta!
Para sempre agora esta língua
Fica presa entre os dentes,
É duro e deslocado fazer mistérios
O povo aquele que cria a língua
Perdeu um de seus artesãos
Farristas e sonoros.
E trazem as quinquilharias
Dos versos funerários
Quase os mesmos desde o último enterro.
Deveríamos dispensar o féretro
Com um cajado
Estes versos inexpressivos.

É assim que se homenageia um poeta?
Ainda não vos construíram um monumento;
Onde estão os quilos de bronze
Ou os gramas de granito?
Que diante da grade da lembrança já tragam
As bugigangas das homenagens e dedicatórias.
O vosso nome é colocado em lenços.

O tenor Sobinov baba as vossas palavras
E sob uma árvore magrinha ele agoniza:
‘Nem mais uma palavra, meu amigo,
Nem um suspi-i-ro’
Ah! É de outra forma que deveríamos
Falar de Leonid Lohegrin!

Levantar-se em fulminante escândalo,
-Eu não permito que se mastigue
E se massacre assim os versos!
Assoviar com os dedos até deixa-los surdos
E mandá-los aos infernos!
Que fujam esses detritos sem talento,
Enchendo as velas se seus paletós
Que o crítico Kogan levado em sua debandada
Espete os transeuntes com seu bigode.
A sacanagem  hoje em dia ainda não ficou rara.
A tarefa é grande mal bastamos.

É PRECISO REFAZER A VIDA,
UMA VEZ REFEITA PODEREMOS CANTÁ-LA.
O NOSSO TEMPO, PARA PENA GERAL, NÃO É MUITO FÁCIL.

Mas digam-me os ‘inválidos’, os impotentes,
Onde e quando aqueles que são grandes
Escolheram os caminhos traçados e fáceis?
A palavra capitaneia a força humana.
PARA FRENTE, ANDEMOS,
E que o tempo estoure em bombas
Que o vento sopra para os dias passados
Só de leve mechas de cabelos misturados.
PARA A ALEGRIA O NOSSO PLANETA
ESTÁ MAL PREPARADO.
É preciso extorquir a alegria aos dias futuros.
NESTA VIDA MORRER NÃO É DIFÍCIL
CONSTRUIR A VIDA É BEM MAIS DIFÍCIL ”.

Sim construir vidas é bem mais difícil. É muito fácil para os hipercapitalismos de desastre as destruí-las depois das ondas e dos ventos dos tsunamis, e dos Estados de Exceção. Foram jovens estudantes que levaram, em 1930, ao Poeta, que antes fora consagrado pela Revolução Soviética (1917), em 04 de Abril de 1930, aos 36 anos, nos deixasse também pelo suicídio.  Ele era acusado de usar ‘palavras indecentes’ e de ser “... incompreensível para as massas’’.

Ele replicou aos jovens do LBM da época: “Quando eu morrer, vocês vão ler meus versos com lágrimas de enternecimento”. Hoje, nenhum daqueles jovens insuflados por ideologia e desejo de poder, hoje também por dinheiro, é ou foi lembrado com o poeta.

Por isso vos digo como quem já teve a Dona Morte nos calcanhares, e, hoje a hospeda apenas na varanda de sua/minha verdadeira morada, meu/nosso corpo: “Não neguem o temor de Viver, intensamente, quando for preciso RE-EXISTIR ao caminho mais simples: a alienação de si mesmos” (jmpa2017).

 Um doceabraço a todos e todas que ainda se sentirem afetados e tocados pela e com a Poesia e pelas Artes.

Copyright/left 2017 ad infinitum, com todos os direitos reservados, favor citar o autor em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação e dominação de massas.    TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025

LEITURAS CRÍTICAS:

A CONSCIÊNCIA DAS PALAVRAS – Elias Canetti, Companhia das Letras.

VIDAS DESPERDIÇADAS – Zygmunt Bauman, Jorge Zahar Editor.

MAIAKÓVSKI – Vida e Obra – Editora Martin Claret.


Preventing suicide: a resource for media professionals - update 2017 WHO https://www.who.int/mental_health/suicide-prevention/resource_booklet_2017/en/

Leiam também no blog –


sexta-feira, 29 de abril de 2016

A MEU PAI NOS SEUS 106 ANOS - O TEMPO DAS MÃOS

Imagem publicada- uma foto que fiz, em 2015, do encontro de minha mão que segura suavemente a mão que o Tempo não endureceu: a mão afetuosa de meu pai. Um filósofo pré-socrático, Anaxágoras, escreveu há milhares de séculos: 'o Homem pensa porque tem mãos...", e essa frase faz parte de meu caderno de poesias dos tempos de ginásio... Continuarei à procura desse encontro com a ternura, que depois do olhos, só se revelam, intensamente, com as mãos. E com o respeito pelo que elas podem escrever ou deixar como registro histórico ou marcas indeléveis como aquelas que só sabem obedecer, ordenar, cumprir, iludir, torturar e por fim assassinar... sejam com bombas, balas ou até canetas de tinta cheias de dores e não de amores. As mãos da foto, uma lavrou a terra quase 100 anos, a minha ainda quer deixar aqui outras sementes... me ajudem a semear...

PARA AQUELE QUE SEMPRE DISTRIBUIU O LEITE OU O AFETO, NUNCA PRECISOU ROUBÁ-LO.

Venho de muitas histórias, e muitas outras ‘’estórias’’, lá nas Minas que não são minhas nem nunca serão. Lá tenho hoje, mesmo à distância que contar um ‘causo verídico’. Contar um pouco da vida sempre resiliente de meu pai. Hoje passei o dia pensando e lhe desejando mais um ano, com dignidade e lucidez, mas também para que possa no próximo ano estar contando um pouco mais de suas sobre vivências. Quem sabe os seus bisnetos um dia o lerão.

Meu pai, embora filho do dono da fazenda e uma mulher negra,  Julia Maria da Conceição, minha avó em sua certidão, passou um bom tempo na função de empregado, de ‘retireiro’’. Aquele que cuida das vacas e delas tira o espumante leite logo cedo, antes do galo cantar. Viveu e sobreviveu um tempo que não sei dizer por lá. A sua certidão de filho bastardo só foi feita 05 (cinco) anos após seu nascimento, em 1915. Por ela agora ultrapassaria os 100 anos de vida, mas acho que já seriam suficientemente seculares as suas aprendizagens.

Há, apesar das lendas e estórias, entretanto e apropriadamente aos tempos que somos forçados a viver, uma “grande” experiência super vivida nessa época de Três Corações. Eram os anos da chamada Revolução de 1930, quando gaúchos e mineiros, insatisfeitos politicamente organizaram o Golpe que derrubou o presidente Washington Luiz, eleito, impediu a posse de outro presidente, Júlio Prestes, acabou com a “República Velha” e a “política do café com leite”, quando os cafeicultores paulistas romperam sua aliança com os mineiros. Começam aí algumas de nossas “diferenças” macropolíticas.

 O meu ‘velho’ só tinha então 20 anos, nasceu em 30 de abril de 1910. A quebra da bolsa de Nova Iorque repercutia no país. E mais uma vez em nome da ‘salvação da pátria’. Os sempre mesmos da oligarquia (governo de poucos) e das elites (os escolhidos, a escol, os mais ilustrados ou  mais espertos) geraram uma crise entre Minas e São Paulo.

Vieram então os anos 32 e ele aos 22 anos foi o único que permaneceu na fazenda. O único que não fugiu para as matas e embrenhados quando disseram que as tropas ‘paulistas’ vinham tomar o quartel de Três Corações. Como único que lá estava quando as tropas, provavelmente não muito numerosa, e com suas matracas (aparelhos que imitavam metralhadoras, já que o ‘exército’ constitucionalista não tinha nem armas e nem munições, apesar dos esforços das elites industriais de SP).

Eis então, o que pode ser parte de outra história ou estória: o único refém do ali, não muito longe do Túnel da Mantiqueira, o último bastião paulista, era o cuidador da fazenda. Segundo o que ouviu muitas vezes, até dele, sei que é não era uma invenção. Já havia lido nos livros de História sobre nossas ‘revoluções e seus golpes’.

Então, ele o super vivente, destemido, simplório, teve de cozinhar, alimentar, cuidar dos animais e ainda indicar as trilhas que poderiam levar essa tropa na direção certa. O que encontrei nas minhas pesquisas, como resumo, é que nesse tempo de guerra, que durou poucos meses, com São Paulo é que os paulistas ‘constitucionalistas’ foram derrotados pelos ‘’federalistas’’ da ditadura de Getúlio Vargas. Como se faz nos regionalismos ou separatismos: os 09 de julho passaram a ser feriado, e não os 02 de outubro, que teve aqui Campinas o último reduto paulista a se render.

E, você, seguidor ou não do blog, me leu o texto homenagem até aqui, ficará se indagando porque tanta descrição de um tempo já passado (?). Lá longe entre as Mantiqueiras, nossos crepúsculos e as águas minerais...

É que não poderia lhes falar do que mais aprendi com meu pai, principalmente ao caminhar junto dele, na beira da estrada entre Cambuquira e Três Corações, no caminho da roça, aquela que sempre amou: o exercício imprescindível, para além de quaisquer tempos ou guerras, da resiliência.

Essa capacidade de supervivência que pode até nos livrar dos sedutores abraços da Dona Morte. Um e-terno desejo de sobreviver, mas com dignidade e sem a necessidade de exterminar ou dominar o Outro. Muito pelo contrário como uma arte de buscar sempre aprender, aprender com o solo, mesmo o aparentemente árido, com a chuva que não veio, com a geada que virá, com as folhas que secam, com o frio que congela sementes ou o calor ensolarado que secará os grãos de café.

Tudo isso, história, “grandes Guerras Mundiais”, “revoluções”, “golpes de Estado”, “Ditaduras”, “Anos de Chumbo”,  “porões” e todos os mais intensos momentos da vida política brasileira puderam ser transversalizadores do Seu Arnaldo/corpo/vida, dito do Bar, mas que sempre fugiu para o chão a ser semeado, em busca de Paz com seus chamados “camaradas” do campo.

 Invejo hoje, e o confesso, a sua memória trans-lúcida do que viveu e aprendeu. Contento-me com o fato de ter podido inclusive, com ele, ter visto como se fazia a política dos tempos de UDN e dos Magalhães Pinto. Como eram vendidos, comprados e ‘santificados’ os políticos de carreira e suas promessas de campanha. Pela oposição ferrenha de minha mãe, e por seu caráter e honestidade, nunca se deixou trocar de papéis como ator social. Nunca precisou prometer o leite ou pão aos que precisavam em troca de votos.

Para ele dedico hoje minha escrita, em prosa, ainda espero o sopro inspirado de alguma poética para estes tempos onde se vende e compram até os mais legítimos votos. Tempos onde sob a ameaça de novas ditaduras ou democracias neoliberais, forjadas pelos mais vis espetáculos e midiatizações, me vejo mais envelhecido do que um homem livre de 106 anos. E, por isso, estou muito mais triste, muito mais desvitalizado do que ele.

PARA TODOS NÓS que podemos ainda respeitar os seus muitos anos vividos, sobrevividos e supervividos, deixo uma reflexão de Henry David Thoureau (1817-1862), no livro A Desobediência Civil –

“... Assim, a massa de homens serve ao Estado não na qualidade de homens, mas como máquinas, com seus corpos. São o exército permanente, as milícias, os carcereiros, os policiais, os membros de destacamentos, etc. Na maioria dos casos, não há, em absoluto, o livre exercício do julgamento ou do senso moral; ao contrário, eles se rebaixam ao nível da madeira, da terra e das pedras; e homens de madeira talvez pudessem ser manufaturados para servir aos mesmos propósitos [...] 

No entanto, homens assim são geralmente estimados como bons cidadãos. Outros – como a maioria dos legisladores, políticos, advogados, ministros e funcionários públicos – servem ao Estado, sobretudo com a cabeça; e, como raramente fazem qualquer distinção moral, podem tanto servir ao Diabo, sem ter a intenção, como a Deus. Pouquíssimos – tais como os heróis, patriotas, mártires, reformadores em sentido amplo e homens – servem ao Estado também com sua consciência, e portanto necessariamente resistem a ele a maior parte do tempo; e costumam ser tratados por ele como inimigos. Um homem sábio só será útil na condição de homem, e não se rebaixará a ser “barro” e “tapar um buraco para deter o vento”, mas  deixará esta tarefa, quando muito, para suas cinzas.” (págs.10-11)

(copyright/left jorgemárciopereiradeandrade abril de 2016 até o dia que as cinzas forem levadas pelos ventos livres... favor citar o autor e autores em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação para as massas. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

LEIAM TAMBÉM NO BLOG -

ENVELHE=SER OU TORNAR-SE, + 1 VELHO  

MEU PAI, NOSSAS MONTANHAS E NOSSOS CREPÚSCULOS  (UMA HOMENAGEM AOS SEUS 105 ANOS) 

O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS PERSISTEM, ENTRETANTOS O MEU PAI FAZ 102 ANOS ...

sábado, 8 de março de 2014

MULHERES PODEM SE TORNAR DEVIR, NÃO SÃO E SERÃO UM DEVER....

Imagem publicada – fotografia que fiz da capa da Revista Caros Amigos, de novembro de 2004, há quase 10 anos atrás, quando Cecília Maria Bouças Coimbra, então presidente do Grupo Tortura Nunca Mais RJ, concedeu uma entrevista que recebeu a manchete: “Abram os arquivos da Ditadura”, na qual ela já pedia o exercício de uma busca da memória e da história do Brasil. Ela afirmava, então: “Nunca se chegou publicamente a dizer: - ‘o Estado foi terrorista’ e o Estado covardemente assassinou, sequestrou, desapareceu com corpos.”. Muitos desses corpos eram de mulheres, como Sônia Stuart Angel, que acreditavam na re-existência feminina à qualquer forma de totalitarismo, mesmo que isso implicasse no risco de suas próprias vidas. Afirmaram o quanto é preciso de coragem e determinação na defesa de direitos humanos, nos quais se incluem, hoje, os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Hoje, para além das conquistas legais, muitas ainda terão de lutar pelos seus direitos...

Mulheres, como lembrar, para homenagear, o que significa um ser, um gênero, uma diferença humana, singularidades que nem mesmo Freud ousou decifrar?

 Lembrar, então, de modo mais simples e nada profundo, que já houve, como vida, na existência de qualquer um a presença feminina. Indecifráveis. Elas..., mães, singulares mulheres de todos e todas...

Eu, aqui, recentemente recuperei uma histórica e importante presença delas que me povoa e alicerça. Reencontrei uma velha reportagem da revista Caros Amigos, de 2004. Nela, relembrei, afetuosamente, uma antiga companheira de lutas: Cecília Coimbra.

Ela, na época contava sua história pessoal e de seu ativismo político, revelando a ‘caixa-preta da Ditadura’, mas também a dura experiência de seus porões e seus torturadores, a serviço de um Estado terrorista e de exceção.

Passei um tempo a refletir sobre mulheres que, para além da Ditadura, persistem na direção oposta do retrocesso histórico. Estiveram como Cecílias, caminhando, sem marchar militarescamente, para se tornarem devir e, por isso, continuam questionando os “deveres” impostos à condição feminina.

Reencontrei-me, também, com meu tempo de ‘bendito o fruto’(embora não ‘abençoado’ e único) em um grupo majoritário de mulheres. Fui, na minha memória já falha, de volta ao criativo e pensante grupo de mulheres do Núcleo. Estas “psis”, psicólogas e psicanalistas, que desejavam uma Klínica para além das instituições oficiais.

Sim, um núcleo dissidente destas instituições, nos anos 80 para os 90. O Núcleo Psicanálise e Análise Institucional. Foi lá que pude me aproximar de alguns conceitos que me nutrem até os dias de hoje. Foi, então, com as minhas amigas de debates e de buscas instituintes, que tentei entender o significado do “devir-mulher”.

Esta possibilidade pequena, sensível e diferenciada, a partir da leitura de Deleuze e Nietzsche, e, suavemente, com Suely Rolnik e Felix Guattari, que nos obrigava muitas outras grandes e profundas leituras, muitos outros caminhos à moda de Heráclito. Nada era totalmente conhecido, nossos passos conjuntos criavam e inventavam novos passos, novos caminhos, novas veredas. Novas interrogações sem certezas.

O devir-mulher, assim como outros devires (devir-animal, devir-invisível, devir-molécula,...), é uma resultante de seres que estão em permanente e intenso fluxo. Constroem-se, a partir de alianças onde há uma suavidade e amizade, alianças afetivas que fazem sempre escapar das políticas de identidades.

Fazem também escapar do modelo de dever ser mulher ou homem. O dever de estar de acordo com o desejo de um Outro onipresente, aquilo que foi chamado de falocracia. Um modelo machista, que também pode atingir e contaminar o corpo feminino, quando este fica tão próximo do poder e da violência.

Os pensadores Brucker e Finkielkraut nos interrogam ao afirmar que: “... homens e mulheres, vocês acreditam estar falando, a nova linguagem da liberação, mas ainda há muitos obeliscos em seus fantasmas,..., vocês são objetivamente culpados da Cârencia (falta) que se acreditam subjetivamente isentos...”.

Os filósofos, mais que os psicanalistas, têm nos advertido da permanência do falocentrismo. A sua invisível presença, já o disse antes, se faz com as macropolíticas enrijecedoras e castradoras ao mesmo tempo. Não bastará termos ‘presidentas’ ou ‘senadoras’. Ainda mais quando se tornam ‘damas de ferro’ ou sósias da solidão do poder.

Revi, estes dias, o filme “Hannah Arendt”, de Margareth Von Trotta,  pude ver na história da filósofa e suas ideias o quanto é possível esse devir-mulher superar quaisquer dos deveres impostos ao feminino. Foi lendo seus textos sobre os riscos de nossos fascínios pelos modelos totalitários, que encontrei esta possibilidade. A sua leitura da violência é fundamental.

Ao lembrar-se da lúcida Cecília e das outras amigas ficou mais claro ainda que não poderemos silenciar a História dos Anos de Chumbo no Brasil. Como nos diz Arendt: “...Não há dúvida de que é possível criar condições sob as quais os homens são desumanizados – tais como os campos de concentração, a tortura, a fome -, mas isso não significa que eles se tornem semelhantes aos animais...”.

Não há raiva e revisionismo em quem foi torturado, como esta amiga, há é uma indignação quando “há razão para supor que as condições poderiam ser mudadas, mas não o são’’. E não serão as marchas retrógradas, com ou sem a Família, que trarão o regime e o pavor militar como solução final para o Brasil.

Lá, nos tempos nuclêicos, como gosto de lembrar estes encontros rizomáticos, aprendíamos que o devir-mulher, como parte de nossa luta libertária para não reproduzir os jogos de poder, nos poderia criar/inventar possíveis novas subjetividades ainda não capturadas pelas formas de existir do hipercapitalismo.

Essas amigas eram implicadas, de corpo e ‘alma’, com outras lutas, nos mais diversos espaços, da Universidade aos consultórios privados. Como Cecília Coimbra, com o Grupo Tortura Nunca Mais. Essas mulheres me mostraram, também, que não há e nem pode haver a dicotomia entre a nossa micropolítica e nossos desejos de trans-formação do mundo.

Fiquei e ficarei, portanto, com as suas marcas indeléveis, suas novas suavidades, suas poéticas lembranças e uma indestrutível amizade e cumplicidade, para além do Tempo.

Hoje, quando reflito ou assisto esse novo mundo dito líquido moderno, vejo e sinto a retomada de um corpo feminino que, do evangélico pastoral ao banal carnavalizado, ainda não rompeu com as correntes que podem aprisionar seus devires.

Por isso fui buscar as antigas companheiras, in memoriam também a que chamou afetuosamente de ‘capitão’ de nossa nau de insensatos corações, Maria Beatriz Sá Leitão, como alento e esperança para as mulheres a quem desejo um novo devir. Um novo mundo Outro, com os úteros como força transformadora de subjetividades capturadas e alienadas.

Somente as linhas de fuga, como diziam Guattari e Deleuze, podem romper os modelos binários e dicotômicos com o devir-mulher. Este devir não flui somente nas mulheres. Aliás, não deveria ser tomado como ‘privilégio’ ou ‘característica’ do feminino. A potência de criar vida está em todos os corpos. Sem a distinção sexista e binária de gênero masculino/feminino.

Em tempos de recrudescimento e de apologia da violência, tanto a social, com os justiciamentos e os racismos, assim como a do Estado, na criação de leis de ‘endurecimento’ contra manifestações populares, apelando para o autoritarismo e novas micro fascistações (os fascismos em nós), é a hora de apontar para novos devires.

Sós ou grupalizados, seres humanos afetados uns pelos outros podem, nas ruas, nas redes sociais, nos blocos ou em outros carnavais buscar como a Cecília, ao historicizar a relação entre a Psicologia e os Direitos Humanos, entender que “ é no nível das práticas cotidianas, micropolíticas, que podem estar alguns caminhos...”.  Segundo ela: “Aprendemos a caminhar neste mundo guiados por modelos. Estes nos dizem o que fazer e como fazer, ocultando sempre o ‘para quê fazer’...”.

Nessa homenagem a estas e todas as mulheres nos meus des-caminhos, como desejo de contaminar outras do desejo de novas cartografias, é que reafirmo Nietzche: - “Diz-se que a mulher é profunda- por quê? Se nela jamais chegamos ao fundo. A mulher não é nem sequer (ou se deseja) plana...”.

(A todas as outras ‘nuclêicas’: Cecília, Ana, Heliana, Tânia, Janne, Denise, Azoilda, Regina(s), Elaine, Leila, Maria Cristina, Isabel, Vera, Zelina, Kátia, Maria Lúcia, Ana Lúcia, Andréa, Cristina, Lília (terna parceira de ideias e textos, na dupla pós-68), e às outras que a Dona Memória não me permitiu recordar, envio, hoje, amanhã e no por vir meu mais doceabraçocomdevirmulhersempre...
E, como docelembrança, ficará para sempre Maria Beatriz Sá Leitão no coração do seu ‘capitão’ da Nau das Insensatas).

Copyright/left –jorgemarciopereiradeandrade 2014/2015 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação coma as massas. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Cecília Maria Bouças Coimbra - Psicóloga, professora adjunta da Uff (Universidade Federal Fluminense), Pós-doutora em Ciência Política pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, Ex-Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ, Ex-presidente da Comissão de Direitos humanos do Conselho Federal de Psicologia.

ALGUMAS LEITURAS CRÍTICAS INDICADAS –

Micropolítica. Cartografia do desejo: Felix Guattari & Suely Rolnik, Petrópolis, Ed. Vozes, 1989.

Clio-Psyché/Paradigmas: Historiografia, Psicologia, Subjetividades – Ana Maria Jacó-Vilela, Antônio Carlos Cerezzo, Heliana de Barros Conde Rodrigues, Rio de Janeiro, Ed. Relume Dumará, Faferj, 2003.

A Nova Desordem Amorosa – Pascal Bruckner e Alain Finkenkraut, São Paulo, SP, Ed. Braziliense, 1981.

Revista Caros Amigos, Ano VIII nº 92, Novembro de 2004 – “Abram os arquivos da Ditadura” – Entrevista explosiva: Cecília Coimbra, do Grupo Tortura Nunca Mais.
Sobre a Violência – Hannah Arendt, 3ª edição, Rio de Janeiro, RJ, Ed. Civilização Brasileira, 2011.

Crepúsculo dos Ídolos ou a Filosofia a Golpes de Martelo, F. Nietzsche, São Paulo, SP, Ed. Hemus, 1976.

PARA VER, ASSISTIR E REVER –

Hannah Arendt – Margarethe Von Trotta (atriz Barbara Sukova), Ano 2012: 

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –

TODO UM ÚTERO É UM MUNDO

AS BRUXAS RE-EXISTEM? COMO MANTER OU DEMOLIR UM PRECONCEITO.

O MARTELO NAS BRUXAS – COMO QUEIMAR, HOJE, AS DIFERENÇAS FEMININAS? 

MULHERES, SANGUE E VIDA, para além de sua exclusão histórica 


EUGENIA – Como realizar a castração e esterilização de mulheres e homens com deficiência? 

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E, ENTRETANTOS, MEU PAI FAZ 102 ANOS...


Imagem publicada – uma foto colorida que tirei lá em Minas Gerais, na minha terra natal, Cambuquira, onde se vê um vasto céu azul ao fundo, com árvores em segundo plano, todas vicejando e verdes-vivas, no primeiro plano aparecem, em destaque no céu, galhos secos e velhos que fazem parte de um árvore-envelhecida. Um detalhe nos chama atenção que é a casa de barro de um pássaro: o João de barro. É, nesses aparentes galhos que se lançam ao céu como veias e artérias, que o passarinho encontrou seu melhor abrigo e futuro protegido, e lá permanecerá até que a velha árvore caia...

“A vida é uma viagem experimental, feita involuntariamente. É uma viagem do espírito através da matéria, e como é o espírito que viaja, é nele que se vive. Há, por isso, almas contemplativas que têm vivido mais intensa, mais extensa, mais tumultuariamente do que outras que têm vivido externas. O resultado é tudo. O que sentiu foi o que se viveu...” (Fernando Pessoa através Bernardo Soares)

Estamos cansados de nossas dores? E das dores do mundo também? Qual será nossa pro-cura?

HÁ TEMPOS EM QUE SONHAMOS COM OUTRO MUNDO, OUTRA NÃO FINITUDE DA VIDA.Eis que aquela Senhora Dona Morte nos incomoda e nos toma por inteiro. Eu aqui Outro Pessoanamente dessassossegado, por mais que lhe escreva novas cartas de-vidas, ela continua ainda sem me dar as respostas definitivas. E sinto que os anos da velhice já se anunciam.

O mundo esta envelhecendo. A notícia de que me 2050 teremos muito mais pessoas idosas do que jovens me preocupa. A minha atual situação me faz pensar na transitoriedade e no fim de todos e todas.Porém há um aviso que vem junto com esta constatação da OMS: teremos triplicado também o número de idosos com demências.

Segundo a especialista: "Minha mensagem é que o envelhecimento da população é algo que deve ser abordado. Há uma mudança dramática que atingirá tanto o mundo em desenvolvimento como o desenvolvido", disse Somnath Chatterji, coordenadora do estudo Global sobre o Envelhecimento e a Saúde Adulta da Organização Mundial da Saúde (OMS.

Escrevi no texto anterior sobre a necessidade de mantermos a presença do que chamamos de nossa Mente quando se decidir sobre a anencefalia. A expectativa que me causa medo agora, quiçá até certo pânico, é essa trágica perda de contato com o mundo, mesmo que envelhecido, para os que vivenciarão este prognóstico demenciador.

Como não temer esse futuro? Talvez eu não tenha as respostas para nossos tremores e temores. As respostas sempre são múltiplas e plurais. Porém, posso tentar lhes avisar sobre algumas reflexões que já foram feitas por quem estudou e analisou essas psicologias do viver e do morrer.

Há em todos e todas as criaturas com Vida um temor ou medo da Morte e do Morrer. Eu já experimentei esse fel, ou melhor, esse doce veneno.
Principalmente quando tenho de enfrentar situações onde a injustiça ou negação de seu acesso esteve presente. Eis um estímulo final para a gota que enche o copo que já estava cheio de depressão.

Há sempre os que se supõem capazes, especialistas ou dotados de poder, que se sentem nesse lugar supremo. Os que podem mudar as leis sobre a aposentadoria, os que podem cassar e reduzir o tempo de alguns que desejam sair da vida laborativa, os que doutos se sentem para instituir o que eles próprios nunca vivenciarão: asilos, isolamentos, pauperização ou mesmo a morte solitária.

Há, então, que repensar nossos desejos de fazê-los apenas “nossos velhos”. Como no texto anterior, lembrando-se de Narayama, ainda temos de derrotar nossos preconceitos e estigmas sobre a velhice. Vivenciamos no atual modelo de vida sócio-político e jurídico, o risco de nos tornarmos uma Sociedade que pratica e praticará o “gerontocídio”.

Os que se vestem de fardas, togas ou ternos pretendentes a um lugar de eterna autoridade podem ainda causar muitos estragos nesse processo do envelhecimento da Gaia. Assim como dos nossos idosos, ou melhor, todos e todas nós...

São os que ocupam papéis de decisão sobre os rios, as matas, os bichos, os índios, as florestas, incluindo aí dos os dilemas bioéticos do nascer ao morrer da Vida. Estão, como se não fossem envelhecer, lá Câmara, no Palácio, no Senado ou nos seus supremos assentos...

Porém esses senhores e senhoras também estão envelhecendo. E, recentemente, o mundo pode assistir com uma Dama de Ferro, inglesa, após sua senectude pronunciada pode tornar-se pateticamente mais uma pessoa demenciada. Há e haverá muitas Margareths ainda na História esse mundo que caminha com passos largos para sua própria devastação.

Poderá a Terra também tornar-se “demente”? Sim e ainda poderá apresentar algumas convulsões, algumas formas estranhas de tique, e, principalmente, voltar-se para a barbárie aceitando as falsas falas de extremistas de direita como Breivik, lá na Noruega.

Tivemos esses dias mais um DIA DA TERRA. Acho que a maioria do mundo nem se mexeu na direção de sua real comemoração: a sua redenção e urgente salvamento. Esquecida a data mundial a cada dia temos mais Sírias a resolver. Temos mais malárias a combater, e a tuberculose agora é um “privilégio” de quem depende do Crack, no presente de seu aniversário. Por aqui os ruralistas e os seus interesses irão destruir mananciais.

A Terra pode realizar os filmes futuristas de devastação, solidão, medo, isolamento e completar seu desfecho abraçando-se com a Dona Morte. Ou, então, reproduzir o que a propaganda da TV já naturaliza quando, saturada, ela nos “espirra” e lança no espaço todos os seus habitantes humanos.

Mas ainda podemos crer como dizia Erich Fromm em uma ‘’revolução da esperança’’. Aliás, essa palavra já foi até associada a uma de nossas mais brasileiras maneiras de ser e sonhar. Este psicanalista, ao vivenciar a crise mundial de 1968, já apontava o nosso risco de mecanização do viver e as tecnocracias tornando-se mais forte que a esperança.

Entretanto, ele acreditava que em um renascimento do humanismo e fazia um apelo à ação grupal. Ele interrogava: “De que maneira o homem, no auge da sua vitória sobre a natureza, torna-se prisioneiro de sua própria criação e corre sério perigo de se destruir?”.

Tentando, com olhar voltado para mim mesmo, responder a sua indagação é que retornei à foto e ao dia em que a tirei. Ela é um pedaço da terra onde até hoje meu pai insiste em plantar e colher. Um homem rural que não se tornou nunca um ruralista, muito mais um fervoroso aprendiz do meio ambiente.

Ele, que agora no dia 30 de abril, completa os seus 102 (cento e dois) ANOS. O meu querido Arnaldo sempre foi um homem do mato. Ele é que levava pelas estradas que nos conduzem ao respeito à Terra, a terra e seus mananciais. Com ele aprendi serenamente a observar como semear e como tentar colher. Ele já tinha um código de ética com as florestas...

A ele estarei rendendo todas as minhas homenagens possíveis. Ele me revelou como é preciso ser “camarada” e “velho companheiro” da nossa uterina mãe Gaia. Talvez, quem sabe, este velho romeiro e caminhante tenha me trazido os primeiros ensinamentos ecosóficos. Ainda que não tivesse todos os saberes, os mesmos que me proporcionou com seu trabalho e as mãos calejadas na roça.

Aos filhos, fazendo coro com minha mãe, só um grande legado e herança: o conhecimento. Esta seria talvez uma das saídas para responder ao que indagamos. Sair de um modelo e paradigma tecnocrático e desumanizador para um novo paradigma ético, estético e político como queria Guattari.

O psicanalista também interrogava como podemos estar produzindo pessoas doentes para que possamos ter uma economia sadia. Eis que, cada dia mais, o hipercapitalismo se locupleta com as desgraças, as epidemias e os sofrimentos dos desfiliados e excluídos.

O mundo envelhece, as injustiças persistem, mas há lá em Minas um senhor com 102, caminhando para os 103 anos, que olha ainda com ternura para o futuro de seus bisnetos.

Lembrei-me de meu pai com a matéria sobre o hindu que correu uma MARATONA em 08 horas. O meu velho já caminhou muitas maratonas em sua forma humilde e mansa, sempre com uma fé incomensurável, nas milhares de romarias a pé até Aparecida do Norte, cruzando a Serra da Mantiqueira. Invejo e respeito seu fervor que supera quaisquer dores ou cansaços em nome de sua fé na Vida e nos Homens.

Como então levar um pouco desse senhor idoso para o coração e as mentes daqueles que se negam a reconhecer seu próprio envelhecimento das ideias, das emoções e de seus saberes?

A ELE DEDICO ESTE TEXTO-ESPERANÇA na crença de que muitas revoluções moleculares ainda se darão, e os nossos devir-criança nos trarão de volta o prazer de pisar na terra, no chão e nele cultivar o desejo de um OUTRO MUNDO, sem a negação da diversidade, da diferença e da multiplicidade dos seres humanos. Comecemos cuidando de todas as nossas cachoeiras e das águas que turvamos e poluímos.

Ao envelhecimento e ao processo de “alzheimerização” previsto pela OMS, desejo que possamos ter muito mais Arnaldos do que Anas. Explico, é que minha mãe vivenciou, assim como nós seus amados, a experiência do Alzheimer. Digo sempre que me encontro na encruzilhada genética destes dois seres humanos, muitas vezes caminhando mais para a direção de minha mãe. Entre a longevidade com saúde e a morte precoce com uma demência.

Decorre daí o temor de nossos futuros demenciados. Não podemos perder a esperança de outras formas de viver e super-viver. Temos de ser futuristas, porém, com um olhar e sentimento bioético para com a sua, a nossa e a VIDA DA TERRA.

E, hoje, novamente eufóricos, podemos anunciar uma revolução gerada pelas ciências, vinda lá de Portugal: “Uma equipe de investigadores da Universidade de Coimbra (UC), através do seu Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS), produziu uma molécula única - PiB (composto B de Pittsburgh) – que possibilita a detecção da doença de Alzheimer antes de os sintomas clínicos se revelarem, permitindo ainda distinguir esta patologia de outras formas de demência..;”

O futuro dependerá, então, de nossa mais profunda e radical revolução. Continuaremos mortais, nossas mentes-cérebros poderão demenciar, nossos corpos tornar-se-ão ciborgues, nossos corações podem vir a ser pura lata ou platina, mas podemos, apesar de tudo e todos, manter um pouco de sabedoria dos nossos velhos.

E que venha o Futuro, pois um século e dois anos o meu pai já VIVEU: intensa e amorosamente.

O mundo pode renascer! A Justiça tornar-se justa e equânime. E o meu pai terá feito parte do meu legado de sabedoria a deixar como semente.


Copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa - TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025 ...)

Notícias citadas da Internet –

Organização Mundial de Saúde- Demência afeta 35,6 milhões e triplicará até 2050
https://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=2413153&seccao=Sa%FAde

Em 14 anos, São Paulo terá mais idosos que crianças https://www.estadao.com.br/noticias/cidades,em-14-anos-sao-paulo-tera-mais-idosos-que-criancas,533252,0.htm

Em 2050, mundo terá mais idosos que crianças https://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI1543102-EI294,00-Em+mundo+tera+mais+idosos+que+criancas.html

Universidade de Coimbra produz molécula para detecção precoce da doença de Alzheimer https://www.rcmpharma.com/actualidade/id/23-04-12/universidade-de-coimbra-produz-molecula-para-deteccao-precoce-da-doenca-de-a

Homem de 100 anos completa maratona
https://www.jn.pt/VivaMais/Interior.aspx?content_id=2061898
LIVROS para reflexão e crítica –

LIVRO DO DESASSOSSSEGO – Fernando Pessoa, Vol. II, Editora Unicamp, Campinas, SP, 1994)
PSICOLOGIA DA MORTE – Robert Kastenbaum e Ruth Aisenberg, Editora Universidade de São Paulo, São Paulo, SP , 1983.
A REVOLUÇÃO DA ESPERANÇA, por uma tecnologia humanizada – Erich Fromm, Editora Círculo do Livro & Zahar Editores, Rio de Janeiro, RJ,

LEIA TAMBÉM NO BLOG:

QUEM NÃO GOSTARIA DE VIVER 100 ANOS?
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/04/quem-nao-gostaria-de-viver-100-anos.html

SEREMOS, NO FUTURO, CIBORGUES? Para além de nossas deficiências humanas
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/seremos-no-futuro-ciborgues-para-alem.html

A PARÁBOLA DA ROSA AZUL
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/05/parabola-da-rosa-azul.html

ALZHEIMER NÃO É UMA PIADA, mas pode ser poesia de vida
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/06/alzheimer-nao-e-uma-piada-mas-pode-ser.html

POR QUE AS TECNOLOGIAS NOS AFETAM?
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/04/por-que-as-tecnologias-nos-afetam.html