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terça-feira, 6 de maio de 2014

RACISMOS, BARBÁRIES, FUTEBOL... ONDE ENTRECRUZAM AS VIOLÊNCIAS SOCIAIS?

Imagem publicada – foto colorida de uma intervenção com arte e provocação nas ruas de Maceió, Alagoas, onde performers, pessoas vestidas de ternos enlameados com argila, com os olhos vendados, ‘com passos lentos e gestos delicados’, caminharam e provocaram os transeuntes para uma reflexão sobre nossas instituições. Nessa fotografia de Jonathan Lins, estão perfilados diante do Quartel Geral da Polícia Militar, batendo continência.

Pode uma intervenção nas ruas provocar em nós alguma forma de reflexão crítica sobre nossos mais recentes atos de violência social? Ou estamos tão anestesiados que a suavidade dessa performance não nos sensibiliza mais?

 Acho e espero que sim, pois essa intervenção que é parte de um evento cultural, o Palco Giratório, promovido pelo Sesc, intrigou e mexeu com os que puderam ver/assistir estes “Cegos”. A nossa ‘cegueira branca’ (Saramago) nos foi desnudada, denunciada e tornou-se pública. Deixemos,então, de ser apenas telespectadores (as).

Entretanto, para além dessas intervenções estamos precisando, urgentemente, de uma resposta coletiva diante de outros ‘espetáculos’ de horror, racismos e barbárie.

Atiram-se corpos dançantes em lajes de supostamente pacificadas comunidades UPP, jogam-se vasos sanitários sobre torcedores supostamente indesejáveis como nossos próprios dejetos. Arrastam-se corpos de mulheres, ou negras ou nomeadas “bruxas”, pelos morros e morrinhos, nos Rios ou Guarujás... Corpos ultrajados e linchados se tornam espetáculo para redes sociais.

Somos, nesse triste momento, a Sociedade do Espetáculo que se deixa iludir, que pede mais violações de direitos humanos, que justifica os linchamentos através de âncoras da TV. Somos alienados, todos e todas, um pouco Sheherazades? Aprovamos a espetacularização da ‘justiça’ feita com as mãos sujas de sangue ou de ignorância?

Sim, não saímos às ruas mais, as aguardarmos nos nossos sofás. Não continuamos, ainda, o amanhã de Junho de 2013. Não mais nos indignamos, no âmago, com bananas racistas jogadas sobre e para os campos de futebol.

Associam-nos, midiática e proveitosamente, a nossos darwinianos ancestrais. Somos todos “macacos”? Ou somos apenas humanos bem adestrados? Ninguém deixou de ir aos estádios. A bola rola e o futebol nos encanta... Melhor que a sala ou a cozinha, aguardamos também nossa Copa das Copas.

Pelo contrário, daqui alguns dias, estaremos em festa. Nossas ruas, nossos corpos, nossas casas se enfeitarão. Bandeirolas verdes-amarelas tremularão, inclusive nas favelas e em outras janelas com vista para o mar. Seremos apenas torcedores fanáticos que gritarão na hora de nosso gol de supostos campeões?

Esqueceremos, como de hábito e por história, da turba e das massas arruaceiras. As massas humanas que podem fazer uma onda nas arquibancadas. As mesmas que irão violentar e espancar, até a morte, alguém que, por sua cor, sua miséria, suas marginalidades, ou supostas “maldades”, se tornem a diferença a ser eliminada.

Seriam esses Outros a projeção encarnada de nossas mais inconscientes monstruosidades? Dentro ou fora dos estádios, das novas arenas que não são ágoras.

Os racismos, por exemplo, cada dia mais, são e serão visibilizados/espetacularizados e difundidos. Espero eu combatidos e erradicados. Há ainda muitas bananas invisíveis e suas cascas no meio do caminho. Nelas ainda vamos escorregar, não bastará engolirmos os frutos dos nossos preconceitos.

Entretanto, para além desses discursos antirracistas, muitos atos continuam enraizados institucionalmente. São racismos que se definem pela hierarquia suposta da superioridade de brancos sobre negros. É o naturalizado racismo ambiental ou institucional.

Racismo institucional pode ser definido como o fracasso coletivo das instituições em promover um serviço profissional e adequado às pessoas por causa da sua cor, conforme boletim do IPEA.

Porém o chamado “fio branco” segregador hoje é mais visível nas ações de cunho ideológico contra mulheres. As Cláudias arrastadas ou as Fabianes de Jesus espancadas como maléficas proliferam nos mapas de violência recentemente publicados. Só não ganham notoriedade e manchetes de jornais. As suas mortes devem ser contabilizadas com outros milhares de corpos banalizados.

Segundo um documento do Geledés, Racismo Institucional: uma abordagem conceitual, esse tipo de racismo é “um dos modos de operacionalização do racismo patriarcal heteronormativo”. Ainda tem os ranços históricos do modelo patriarcal do Brasil Colônia e suas senzalas.

O documento nos indica, na proposta de construção de políticas públicas de proteção de mulheres negras, deve-se, entre outras coisas, se considerar:
1.    Que o racismo institucional ou sistêmico garante as condições para a perpetuação das iniquidades socioeconômicas que atingem a população negra e outras atingidas pelo racismo.
2.    Que o racismo institucional se associa a outras iniquidades, produzindo ou ampliando as desigualdades experimentadas pelas mulheres negras e as demais atingidas pelo racismo patriarcal. Da mesma forma, associando-se a diferentes eixos de subordinação, agrava as condições de vida e aprofunda iniquidades.
3.   Que o racismo institucional traduz escolhas institucionais atuais ou passadas reeditadas por decisão ou inércia. E sua destruição requer novos compromissos, processos e práticas.

Portanto, como disse outro dia, não bastará superamos os racismos, temos a urgência de sua erradicação. Muitos ainda se apoiam, fragilmente, na ideia de um país que é cordial para com sua população de pele escura. Continuaremos sendo confusos cafusos e mamelucos mulatizados?

Com certeza sei que não somos orangotangos. Somos negros e negras. Somos os que ocupam a maior estatística de extermínio de jovens, quando comparados os números de mortos pela polícia militar em relação a jovens brancos; vejam a Cor dos Homicídios: “... a tendência geral desde 2002 é: queda do número absoluto de homicídios na população branca e de aumento nos números da população negra. E essa tendência se observa tanto no conjunto da população quanto na população jovem...”.

As múltiplas violências, em especial as que se praticam, instituem-se e se tornam mutiladoras, são um campo fértil de multiplicação também do uso da violência do Estado.

 A violência, que se torna um conceito vazio para o viver em comum, em especial para os jovens tornou-se uma porta de saída, uma alternativa, inclusive para a sobrevivência. Um menino excluído mata um professor, negro, incluído, por causa de um celular...

Nesses tempos de bárbaros, fardados ou em massas ensandecidas, como então esclarecer que os Direitos Humanos não são apenas de encarcerados? Abriremos as portas da sala para nos tornar novamente uma multidão contestadora?

O problema é que essa porta também nos leva a um “beco sem saída”: como educar para e em direitos humanos e práticas de tolerância, convívio e respeito ao outro, quando o tornar-se violento é a única opção que resta ou restou?

Vamos, iludidos pelos boatos ou falsas notícias, atirar também pedras ou balas nos corpos marcados para morrer? Ou estamos apenas na antevéspera de uma grande festa, um grande espetáculo dentro nas Arenas, com manifestantes outsiders sendo massacrados por brucutus e representantes policiais da Ordem e do Progresso, do lado de fora?

Enfim, sem respostas definitivas, pergunto-me: como transformar essa transversalidade dos racismos, das barbáries, das múltiplas violências visíveis e do espetáculo do futebol em potência de vida, para além de suas funções e finalidades biopolíticas?

Façam suas apostas. Seremos e continuaremos os campeões? Ou, então, entrem junto comigo no beco de muitas saídas e muitas linhas de fuga...

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2014 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação com e para as massas. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Matérias recentes relacionadas com o texto e o contexto:





Indicações para leitura –

Boletim de Análise Político Institucional – 4 – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, Brasília, 2011.

Racismo: uma abordagem conceitual – Geledés, Instituto da Mulher Negra & Cfemea, Consultoria e redação: Jurema Werneck, 2012.

Waiselfisz, Julio Jacobo, Mapa da Violência 2012 – A Cor dos Homicídios no Brasil, Cebela&Flacso¨& SEPPIR/PR, Brasília, DF, 2012 (1ª edição em PDF) – https://mapadaviolencia.org.br/pdf2012/mapa2012_cor.pdf

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –
O MARTELO NAS BRUXAS - COMO "QUEIMAR", HOJE, AS DIFERENÇAS FEMININAS?
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/11/o-martelo-nas-bruxas-como-queimar-hoje.html

RAÇA, RACISMO E IDEOLOGIA: ZUMBI ERA UM VÂNDALO, UM BLACK O QUÊ? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/11/raca-racismo-e-ideologia-zumbi-era-um.html


MOVIMENTOS, MASSAS, MANIFESTOS E HISTÓRIA: POR UMA MICROPOLÍTICA AMOROSA, URGENTE.
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/06/movimentos-massas-manifestos-e-historia.html

AS SELEÇÕES: OS ESTÁDIOS, OS PARADIGMAS E UM NOVO GAME https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/06/as-selecoes-os-estadios-os-paradigmas-e.html  

quinta-feira, 21 de março de 2013

COMO ROMPER CONCEITOS PARA DEMOLIR PRECONCEITOS na Sociedade do Espetáculo?


Imagem publicada – Uma de minhas fotografias em preto e branco com uma criança negra, em primeiro plano, ao lado de outras crianças, chamadas de lulinhas, que segurava um cata-vento de papel, e que fazia parte de uma manifestação pública de apoio à candidatura do ex-presidente Lula da Silva pelo PT, em 1989, “sem medo de sermos felizes”. Uma criança em nós, que hoje deve estar refletindo sobre sua implicação e participação histórica nas mudanças que o Brasil realizou no campo dos conceitos e dos preconceitos. Aqueles que se alicerçam sobre e em política, principalmente quando não mais ocuparmos, com a mesma garra e desejo, as praças e ruas em defesa da democracia, dos direitos humanos e da VIDA LIVRE. Hoje são novos conceitos e ventos políticos que nos impulsionam, mas há ainda velhos preconceitos que não demolimos. Não há ventos para novos cataventos?

Os que me perguntam sobre a minha implicação com a publicação de ideias, matérias, notícias e textos na Internet sempre questionam minha “velocidade” e “intensidade” com que publico e difundo “novidades”.

O que explico, sem a pretensão de ser compreendido, é que não podemos deixar de buscar estas rupturas que as informações e seu conteúdo podem causar. Muito embora nos/me saiba imerso na sua hiper exposição midiática. Somos todos midiatizados.

 Quanto a essas “informações” precisamos dizer é não há como torná-las ácidas ou suficientemente demolidoras para o rompimento de todas as correntes que nos aprisionam.

Estas correntes muitas vezes não são tão visíveis e identificáveis. Tendemos na nossa voragem de modernidades e soluções rápidas, naturalizar os aprisionamentos, internações, institucionalizações e outros meios de contenção. Somos apenas consumidores amedrontados com o “futuro”.

Este dia 21 de Março é propício para tentarmos romper alguns desses conceitos que sustentam os nossos preconceitos.

Porém, são os últimos que geraram e geram a comemoração do DIA INTERNACIONAL DE COMBATE AO RACISMO. O outro é do DIA INTERNACIONAL DA SÍNDROME DE DOWN. Ambos estão e são transversalizados pela comemoração da Unicef do DIA MUNDIAL DA INFÂNCIA.

São três temas, três questões, três diferenças HUMANAS e  que precisam continuar sendo debatidas e esclarecidas. Primeiramente porque todas as três formas de ser e estar no mundo atual são ainda submetidas a situações de vulneração.

E além destas ainda teríamos de comemorar o DIA MUNDIAL DO TEATRO e o DIA MUNDIAL DA POESIA, bem como o DIA MUNDIAL DA ÁRVORE, mas estas comemorações não são nem cultural ou socialmente consideradas tão marcantes.

Em nossas noites globais e globalizantes, onde todos os homens tornam-se pardos, vislumbro uma longa caminhada para que não associem negros afrodescendentes com maldições.

Da mesma forma sonho há anos com a quebra do preconceito com pessoas com Síndrome de Down como “retardadas mentais”. Há muitos que ainda as segregam, diagnosticam, institucionalizam ou “des-colegam”, ou seja, por estas práticas e discursos os marginalizam.

O “descolegar” seria deixá-las sem a chance da fuga que três atores puderam realizar no filme Colegas. Aqueles sonhadores Down, fantasiados, fugindo das polícias, construíram um modelo micropolítico de aliança e suavidade na busca do mar, do vento, do amor e da liberdade.

Este verbo necessitaria para o combate ao preconceito de um novo verbo e conceito: “colegar-se”, tornar-se mais 01 colega. Mais um  parceiro destes sonhos. Eis, portanto, um verbo a incluir em nossas práticas para combater sua exclusão, tanto educacional como social, mais ainda política.

E, se ambas as condições forem de encontro com a infância teremos aí um prato cheio para o debate sobre como construímos, reconstruímos e tentamos manter em pé  algumas velhas e corroídas instituições ou paradigmas sobre suas diferenças e sua estigmatização.

O que me anima, nesses tempos pastorais de entrega dos Direitos Humanos a quem mais os violenta, é a certeza de que sob estas reterritorializações há ainda espaço para revoluções moleculares.

Na nossa Sociedade do Espetáculo muitas vezes o que nos apresentam como personalização do poder não passa de uma bela armadilha. Não podemos esquecer que os Direitos Humanos são interdependentes. 

As outras “comissões” ou “frentes” parlamentares têm de combaterem, é o que esperamos, os artifícios, dentro desse “teatro político” para que as outras máscaras (personas) possam cair. Continuaremos sendo suas fontes contribuintes e alimentadoras com nossos votos e campanhas?

 Por exemplo, enquanto nos indignamos com os Pastores ainda não resolvemos o problema das “cabras marcadas para morrer”. Um dado cruel e nacional é que não reduzimos, nem mesmo com a Maria da Penha, a violentação, prostituição, desqualificação e assassinato de mulheres.

E, hoje mesmo vi em um canal de TV, acho que a Rede de um Pastor, uma matéria sobre meninas, de pouca puberdade e adolescência, que fazem da prostituição infantil a sua sobrevivência no Amapá. Uma delas diz que precisa de se “vestir bem, comer do bom e do melhor, ganhar fácil”, e os programas da noite geram uma média de R$300,00 (trezentos reais) em Macapá. São meninas que se tornam mães, gestações de risco e possibilidade de maiores vulnerabilidades, a partir dos 10 ou 12 anos.

Então, como mudar esta panorâmica e de muitas longitudes situação brasileira do preconceito que se alimenta de falsos conceitos?

Não somos capazes de dar conta de toda essa “complexidade” geográfica e geopolítica. Sejamos, porém, combativos e determinados a tentar mesmo que micropoliticamente gerar uma ou muitas possibilidades de acontecimentos.

Enfim, podemos, como adolescentes despolitizadas e empobrecidas, nos tornamos também endividados. O hipercapitalismo nos compra “facilmente”, empresta seu dinheiro à noite, ou mesmo de dia, e nos cobra os juros mortais nesse mercado o resto do ano.

 Por isso, não podemos deixar de lado nossas indignações. Atualmente vivemos o tempo das massas que retomam as ruas e as praças. E, como os colegas, sonho com uma multidão gritando contra os racismos, as intolerâncias, os falsos profetas, os mercadores capitalísticos, ou, por exemplo, o preconceito com crianças com deficiência intelectual.

Isso tudo me faz pensar em nossas “caras pintadas” e nossos sonhos de outros tempos e outras políticas para nosso país e o mundo. Porém apesar de nossa suposta integração global ainda não estamos realmente incluídos nas soluções globais. Não devemos é aceitar passivamente novos espetáculos fascistantes ou fascinantes do mundo político.

Somos ainda, muitas vezes, meros espectadores do BBB e outros reality Shows, ou seja, vemos a vida sendo confinada, porém, não conseguimos deixar de sonhar com o milhão solucionador de nossas dívidas e outros consumos. Ou então nos tornamos crentes e messiânicos. Um novo “pai” ,seja político ou religioso, trará a cura, a salvação e a remissão de todas as nossas dores, dívidas e dúvidas.

Não bastará, portanto, que não sejamos mantidos em nossa confortável posição de passividade político-ético- social. Nossa época tem propiciado aos cidadãos e cidadãs outra porta de saída. Não temos em todos os espaços das nossas vidas sociais “boates Kiss” se tornando câmaras de gás mortal e asfixias. Não podemos é continuar reproduzindo-as.

Estamos, enquanto massa de tele-espectadores, muito mais para o papel de ribeirinhos. Aqueles que são acusados das tragédias nas serras, que se recusam, por não ter outras saídas, a se mudarem da beira dos rios e suas enchentes, inclusive de preconceitos.

 Não nos informam, para além da contagem de mortos e desaparecidos, quais foram as verbas do Capitalismo de Desastres desviadas para encher outros bolsos. E, para os que persistiram em sua territorialização marginal só restou e restará engolir mais barro, barrancos, mortes, riscos e violências.

 Inclusive as dos discursos oficiais de nossas estrelas políticas, nossos “representantes governamentais”. Os mesmos velhos discursos que já deveríamos ter desnaturalizado. Continuamos sendo re-presentados?

Apesar de todas essas situações o que vemos é a busca de outras saídas, individual ou coletivamente. Ao menos se quebram, para uma parcela “incluída e bem informada” nos meios informatizados da população, as correntes da desinformação. Porém, a meu ver, o conhecimento e a sabedoria não se multiplicam nessa nova inteligência coletiva.

Nessas redes que hoje nos aprisionamos/libertamos, como o Facebook ou Twitter, apresentamos nossos protestos, nossas manifestações ou manifestos cibernéticos. Também super, hiper expomos, inclusive quando clicamos “curtir” todas nossas próprias privacidades misturadas com todo tipo de ideias, conceitos e ideologias. Somos apenas cidadãos e cidadãs de “vidro”?

É nesse oceano de multiplicidades de interesses e novidades que venho tentando introduzir, sem pretender o sucesso, algumas provocações à reflexão. Por isso é que insisto, apesar de quase sempre “bloqueado”, na publicação de novas e presentes informações. É preciso navegar, navegar somente e para além da Internet é in-preciso.

Finalizando relembro que todos os nossos conceitos são construídos, que todos eles podem ser base e gênese social e histórica de nossas visões do mundo e do Outro. E que dependendo das distorções que as ideologias, as crenças somadas com os fanatismos ou fundamentalismos lhes imprimam e estimulem, podem eles, os conceitos, se tornarem até “cientificamente” comprovados.

Para os eugenistas de plantão, os que ainda falam ou escrevem ditatorialmente, os colegas psis que naturalizam a tortura ou a internação compulsória, os conselheiros que não tutelam, mas podem ser prostituídos, para racistas que justificam na pureza a discriminação e a morte, para os que fazem propaganda de outras formas de ocupação dos territórios marginalizados, e para os que lendo versículos prometam milagres enquanto enriquecem,,,

ENFIM, para os que não vislumbram o respeito e o direito a um mundo de “diferentes” que não querem ser homogeneizados e esterilizados, aqui fica, sem nenhum tom de pregação, a pro-vocação de que se insurjam contra eles/elas as novas massas alegres, amorosas, suaves, plurais e sempre libertárias. Vamos dizer “presentes” nessa necessária e urgente revolução molecular.

Ainda que em frequências tão baixas que só os que marcharem nas praças e nas ruas consigam ouvir...

E o 21 de março deixará de ser apenas espaço para estas importantes comemorações, será também um dia que um(a) ator(iz) down, um(a) poeta negro(a), uma criança só infância sem pobreza, como milhares de árvores da liberdade estarão, rizomaticamente, se espalhando por toda a Terra.
 Eu tenho esse sonho.

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2013-2014 (favor citar o autor e as fontes nas republicações livres pela Internet ou quaisquer outros meios de comunicação de massa - TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Notícias citadas no texto –


Dia Internacional da Síndrome de Down – World Day Down Syndrome https://www.worlddownsyndromeday.org/

Dia Mundial da Infância – UNICEF  https://www.unicef.pt/  (Lembrando das crianças na Síria)

Infância Roubada: flagrantes mostram a prostituição infantil no Amapá

COLEGAS, O FILME – https://blogcolegasofilme.com/

Indicações para leitura crítica e reflexão –

O ESTADO ESPETÁCULO – ENSAIOS SOBRE E CONTRA O STAR SYSTEM  EM POLÍTICA -  Roger Gérard Schwartzenberg , Editora DIFEL, Rio de Janeiro, 1978.

TEMPOS DE FASCISMOS – Ideologia- Intolerância- Imaginário – Maria Luiza Tucci Carneiro & Federico Cruci (orgs.) –EDUSP, São Paulo, SP, 2010.

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –
01 NEGRO + 01 DOWN + 01 POETA = UM DIA PARA NÃO SE ESQUECER DE INCLUIR - https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/03/01-negro-01-down-01-poeta-01-dia-para.html

O VIGÉSSIMO PRIMEIRO DIA – CINEMA E SÍNDROME DE DOWN  https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/03/o-vigessimo-primeiro-dia-cinema-e.html




OS DESASTRES, OS HAITIS E AS SERRAS NO HIPERCAPITALISMO-

terça-feira, 19 de abril de 2011

A MORTE DO FANÁTICO NÃO MATOU O FANATISMO

imagem publicada - a foto recente de Charles Manson, um homem branco de 76 anos, com barba branca, de olhar sem expressão e brilho, com uma suástica nazista tatuada no meio da testa; o homem (Man) que é filho (son) das mesmas "des-humanidades" de todos os outros que cometeram, cometem e cometerão assassinatos. Crimes hediondos e extraordinários que geram perplexidade, repúdio e indignação, que quase sempre foram, são e serão fundamentados em fanatismos ou radicalismos que nascem dentro do ventre das Religiões e da Política. E que insistimos em imputá-los à doença mental, à loucura, esse depositário de nossas indagações racionais sem respostas imediatas.
( in memoriam dos que não devem morrer em vão em Realengo)

"Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais, no entanto o que é um alimento, para ela é uma impureza?" (Castoriadis, 1987)

Vivemos há séculos com a ideia de purificação dos Outros. Mantemo-nos banalizando e naturalizando as diferentes guerras santas, as cruzadas e os extermínios dos ''impuros''. E ainda nos chamamos de civilizados. Os bárbaros são sempre os outros. 

Quanto mais somos levados para a homogeneização cultural e sua unificação, mais ainda nos tornamos intolerantes e mais ainda desejamos a morte do Outro e de sua cultura, principalmente se não podemos converter a todos à nossa crença ou ideologia.

Há outros homens, sob a hipnose dos fanatismos, que matam e morrem por não conseguirem, na sua solidão enlouquecida ou imersos nas massas, se tornarem criadores da história. Tornam-se vítimas e vitimizadores. Tornam-se assassinos paranoicos de sua humanidade.

Há um corpo não reclamado e indesejável no Instituto Médico Legal. Ele, apesar de reconhecido e, agora com seu nome inscrito na História, permanece entre os proscritos. O nome Wellington de Oliveira permanecerá em muitas mentes, em muitos corações, como uma lembrança amarga ou um amargo pesadelo. Mas para que ele seja parcialmente esquecido e sua ação criminosa melhor compreendida devemos ''enterrá-lo" com todas as suas ideias e todos os alicerces de seu ato, a meu ver, profundamente revelador. 

Um ato resultante, eminentemente, do caldeirão de ódios e xenofobias que os tempos pós-modernos reproduzem: o cruzamento e a interpenetração de fanatismos religiosos com os fanatismos políticos. Um ato para vir a ser um analisador.

Há quem esteja refletindo ou continuando a repensar o que foi a vida e a obra "maligna" desse criminoso. Hoje li uma reportagem sobre um velho criminoso, que escapou da cadeira elétrica, e agora se reconhece apenas com uma pessoa MÁ e SUJA: Charles Manson. Ele cometeu um dos mais comentados assassinatos nos anos 60/70. Ele e seus seguidores, sua "Família", assassinaram Sharon Tate e mais 6 pessoas. 

Ela, uma linda e famosa atriz, na época a esposa grávida do controvertido cineasta Roman Polanski. Ainda me lembro de sua performance em um dos seus fílmes: a Dança dos Vampiros (1967). A entrevista de Mason nos revela como podem existir e continuar existindo pessoas que respondem às diferentes formas de exclusão, violências, misérias ou dramas com o exercício de atos cruéis baseando-se apenas nos seus fanatismos.

Uma das reflexões que me fez pensar o título deste texto veio deste depoimento à revista Vanity Fair. Charles Manson, que liderava o grupo de assassinos, pregava uma espécie de cruzada para a eliminação dos ''impuros''. Ele propunha uma guerra racial entre brancos, sua gang a moda da Klu Klux Klan, e os negros, com o nome de Helter Skelter. E na mistura de ideias racistas e genocidas propunha, fanaticamente, a morte como redenção religiosa. 

E isso ele ainda defende dizendo: "Todos somos mártires. O amor é um mártir. Por isso é que Cristo chama a atenção. Por isso foi crucificado”, sentencia Manson, que acrescenta que “mais cedo ou mais tarde a vontade de Deus se vai impor sobre todos vós, e a mim condenaram-me por ser a vontade de Deus”.

Foi necessário uma aproximação de fanatismos, típicos dos anos 60, para que o ato de assassinar 07 pessoas, com requintes de crueldade, sendo uma delas uma mulher grávida, no caso Sharon Tate, pudesse ocorrer. E, na minha opinião, aí se encontram as raízes históricas que vem atravessando e transversalizando as diferentes manifestações de violências contra quem é denominado indefeso e objeto de projeção das ''IMPUREZAS". Sejam elas determinadas pelos eugenismos, racismos ou fanatismos religiosos. 

Todas essas ideologias são alimentadas pela mesma fonte: o ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros, e esse Outros podem ser desde meu vizinho a um transeunte desconhecido, alguém com outra visão do mundo, de outra religião, outro partido, outra classe social, outras sexualidades, outras línguas, outras etnias ou outras deficiências.

Para que os deixemos de amar basta que estejam, por exemplo, na mesma Escola, no mesmo Bairro, na mesma Cidade, no mesmo Mundo. Pode ser em Realengo ou em Columbine. O meu ódio dos outros, quaisquer que sejam, e ainda mais se parecerem comigo ou com vocês, passam a ser os objetos dos quais nos livramos, do que nos assombra e nos divide. O cadáver e o 'fantasma' de Wellington ainda está repleto dessas percepções em muitas mentes no mundo. A presença de seus adeptos ainda será, tristemente, revista.

Por isso precisamos ir, respeitosamente, ao enterro dos fanáticos, dos racistas, dos fascistas e dos intolerantes. Não será sua morte física que poderá destruir seus vampiros ideológicos. Estes nem mesmo aparecem nos espelhos como na Dança dos Vampiros. E, por mais que a Sociedade do Controle instale câmeras ou grades ou guardas, também não serão detectados a priori.

Ilude pensar que as cercas elétricas ou as vigilâncias os deterá. Eles foram gestados nos campos de extermínio, da Alemanha Nazi-fascista aos campos da morte do Khmer vermelho como o sangue cambojano. Ainda podem ser gestados em Guantánamo, Abu Gharib ou nos presídios de máxima segurança.

Por isso precisamos, indo além das explicações sobre a psicopatologia dos crimes e dos criminosos, buscar a parte que nos cabe deste latifúndio gerador de ódios. Não pendemos inteiramente para os anjos, por mais que a Mídia e sua Era nos tente convencer. Precisamos buscar, individual e coletivamente, outros modos nos educar e re-conhecer. O cadáver insepulto e dissecado do ''chamado monstro de Realengo" não deixou de ser humano, demasiadamente humano. 

Por mais que nos arvoramos a compreendê-lo e, em nossas vãs especializações científicas, determinar a origem psíquica de seus atos horripilantes. Mas ele, como nós todos, é e será mais insondável, obscuro e desconhecido. Mesmo que, como Mason, estivesse apenas encarcerado perpetuamente... Até seus videos, previamente póstumos, são uma produção destes mundos que o cercavam, cercearam e o desprezaram, segundo a sua convicção fanatizada.

A possível única in-certeza é que nos Mason-Wellington, ainda em serialização no mundo hipercapitalista atual, há uma raiz psicossociológica a ser pesquisada, e ser combatida, de forma micropolítica e rizomática. Revelando-se os modos de produção de subjetividade que os clona, talvez, possamos não nos arrepiar de medo de ''seres humanos maus''. 

Iremos buscar as raízes, as fontes, as gêneses e os primeiros passos de de-formação do sujeito, mas não para resolver por meios ortopédicos ou judiciais a sua mudança e civilização. Iremos, transcultural e historicamente, re-existir. Inventamos os Direitos Humanos e podemos inventar novos modos de viver.

Não bastará a criação de punições aos alunos que desafiam, agridem ou são indisciplinados com seus professores, conforme recente projeto de lei em curso na Câmara Federal. A reabilitação da palmatória jurídica não irá produzir, com sua violência, a "prevenção" de futuros serial killers. Talvez, como no caso do Bullying, possa até ser a melhor justificativa dos assassinos. 

Nesse, momento pós-traumático para a Escola Tasso será ideal que possamos nos conscientizar da presença simbólica da dor, da perda, do luto por lá. Mas também do que indelevelmente permanecerá: o ex-aluno que se justificou nas agressões, nos preconceitos e nas discriminações para se tornar o 'exterminador do futuro'.

O assassino Manson e o Oliveira, um vivo e outro morto, se fundamentaram na ideia de pureza de seus corpos e suas mentes, considerando-se primariamente homens "limpos" e "bons", por isso puderam concretizar a projeção do mal, da sujeira e da impureza nas suas vítimas. E, nós devemos reconhecer aí uma outra gênese dos micro fascismos cristalizados e encrustados nos âmagos humanos. Somente com a construção dessa visão religiosa e politicamente perfeccionista é que fundamos nossos primeiros passos do fanatismo rumo à barbárie. Está aí a germinação do suicídio dos ''semelhantes'' do Wellington.

Midiaticamente, falou-se hoje no Twitter, em seu formato sintetizador: " Agora a Escola Tasso da Silveira não tem de que reclamar: colocaram 4 guardas municipais pra vigiar a entrada"... 

Então, há um reflexão para ser feita, qual será a nossa SAÍDA? O cadáver inominável e abominável disse: ..." descobriram quem sou, da maneira mais radical, numa ação que farei pelos meus semelhantes que são humilhados, agredidos, desrespeitados em vários locais, principalmente em escolas e colégios, por serem diferentes, por não fazerem parte dos infiéis, dos falsos, dos corruptos, dos maus, são humilhados por serem bons.".

Durante a entrevista, para a '' Feira das Vaidades", Charles Mason chegou a usar uma expressão muito típica em Espanhol, aplicando-a à sua pessoa: “La mala hierba nunca muere” [qualquer coisa como ‘a erva daninha nunca morre’]. 

Vamos lenta e vagarosamente, mas com crítica e análise filosófica, em princípio, caminhando com os cadáveres insepultos desses que demoram para se autodenominarem mártires, mas que arrastam consigo muitos outros féretros, mortes e lutos prolongados. Vamos, juntos ou solitariamente, pela estrada aberta, levar uma "rosa azul" para Hiroxima e outra para Realengo. E deixar uma outra naquela sepultura, sem sensacionalismo.

copyright jorgemarciopereiradeandrade(2011-2024 ad infinitum  todos os direitos reservados ) - favor citar o autor e as fontes em republicação livre pela Internet ou meios de comunicação de massa.    TODOS DIREITOS RESERVADOS - 2024 - 2025

REFERÊNCIAS NO TEXTO:
Líder de um grupo de assassinos que chocou a América - Charles Manson assume ser um “homem mau” em entrevista à “Vanity Fair”


Consulta e pesquisa nos VIDEOS deixados por Wellington de Oliveira - You Tube


INDICAÇÕES PARA LEITURA-
Psicossociologia - Análise Social e Intervenção - André Lévy, André Nicolaï, Eugene Enriquez, Jean Dubost - organizado e traduzido por Marilia Novais de Mata Machado et al. - Belo Horizonte, MG, Editora Autêntica, 2001.
Massa e Poder - Elias Canetti- Brasília, Editora UNB/Melhoramentos, 1983.

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domingo, 6 de dezembro de 2009

POR UMA MÍDIA QUE SE PREOCUPE COM A SUA LÍNGUA...


POR UMA MÍDIA QUE SE PREOCUPE COM SUA LÍNGUA...

e as possíveis consequências ético-político-estéticas de sua responsabilidade social

InfoAtivo.DefNet 4312 - Ano 13 - 06 de Dezembro de 2009.
imagem publicada - foto da matéria jornal - com o jovem Guilherme, que é pessoa com paralisia cerebral, em sua cadeira de rodas, em um corredor onde se vêem outras pessoas caminhando em direção oposta, e uma pessoa realizando filmagem para uma mídia televisiva sobre Guilherme. Autor: Luís Félix/GES

Dizem que o melhor e fiel escudeiro de Hitler, o seu Ministro da Propaganda, Sr. Paul Joseph Goebbels, tinha como alguns porta-vozes oficiais de Governo, à mesma maneira do que ainda assistimos muitas vezes, um bordão, ou seja um clichê, ou seja uma frase de efeito dos que desejam o controle ou a mistificação através da informação. Ele gostava de afirmar que uma ''mentira cem vezes dita, torna-se uma verdade". A partir deste modelo ainda frequente na Sociedade do Espetáculo é que proponho uma preciosa crítica e atenção para o que nos é dito, escrito, lido e televisionado. No campo das minorias e marginalizados cada dia mais temos de cuidar da linguagem e dos termos de uso comum que se naturalizam, assim como os usos e costumes da moda na e da Mídia. Acho que devemos olhar o que há debaixo da língua da Mídia, quando esta faz suas reportagens ou seus informes.

O que escrevo agora é uma continuidade do que escrevi há alguns dias. Era um desejo-antevisão dos 300 que entrariam/entrarão na Universidade pela porta da frente, sem escadarias ou barreiras atitudinais, comunicacionais, de informação e de "linguagem". Era uma opinião sobre o direito de uso de ajudas técnicas, tecnologias assistivas e todas as formas de facilitação e suplementação que permitiriam a acessibilidade e o acesso de um jovem com paralisia cerebral às Provas do Enem. Guilherme Finotti fez a prova do Enem. Assim espero. Ele conseguiu sua participação, escoltado por "agentes'" do INEP e da Polícia Federal.

Me lembrei de imediato, ao ler a reportagem, das imagens de crianças negras sendo escoltadas, pelo Exército, no Arkansas, EUA, para entrarem nas escolas públicas, por ordem presidencial de Eisenhower, no árduo processo de afirmação dos direitos civis dos negros na história norteamericana. Porém há que notar nessas aparentes cenas superpostas no meu imaginário, que lá, em 1957, entravam pelo menos umas 10 ou mais crianças nas escolas 'only for White', e aqui, nesse momento histórico, estamos com um (01) jovem gaúcho com paralisia cerebral, escoltado, que fez sua autodefesa e não teve nenhuma determinação presidencial para que lhe 'abrissem todas as portas da Educação'... A ele não foi negado o acesso, em princípio, mas sim negado que ele tem e terá sempre algumas diferenças a serem respeitadas e reconhecidas.

Depois, no auge do movimento de direitos civis de negros, o presidente Kennedy, nos anos 60 confirmou essa cena, quando teve de colocar também o Exército, para garantir a entrada e permanência de a necessidade de 01 cidadão negro à Universidade, em um estado sulista e reduto da KKK (Ku-Klux-Klan), o famoso Mississipi (em chamas). O seu governo tinha de cumprir uma determinação de 1954, quando a Suprema Corte, respeitou o posicionamento de seu juiz Earl Warren, que afirmou: "A segregação de crianças em escolas públicas baseada apenas na raça, mesmo que as instalações físicas e outros fatores sejam iguais, privam as crianças do grupo minoritário de oportunidades de igual educação? Acreditamos que sim (...) no campo da educação pública a doutrina "separados, mas iguais" não tem mais lugar. Escolas separadas são intrinsecamente desiguais. Além disso, defendemos que os litigantes e outros que estejam em situação semelhante (. ..) estão, pelas razões de segregação alegadas, [privados da igual proteção das leis e da 14ª Emenda]" (tradução livre) (1).
O que ficamos sabendo pela mídia, e que foi divulgado, muito ajudou a mudar a história de Guilherme. Nesse ponto reafirmo a responsabilidade da socialização de todos os acontecimentos, fatos ou dados. Obviamente sem o sensacionalismo e as distorções que uma notícia pode ela, sim, sofrer.
No século passado, a principal demanda era poder entrar, no caso norte-americano, nas instituições de ensino segregantes, o que assistimos hoje é um outro momento, mas ainda segregante quando um sujeito com deficiência desejava apenas fazer uma prova, com os devidos apoios de um computador E TECNOLOGIAS ASSISTIVAS. (LEIA O TEXTO publicado, EM 17/11/09, aqui no blog- "Seremos 300? Um pc para cada PC... - iNFOATIVO.DEFNET Nº 4303).

Será importante para a mídia, do jornal local ao Jornal Nacional, esclarecer e elucidar que ele, assim como outros jovens e crianças, NÃO SOFREM DE OU COM A PARALISIA CEREBRAL, pois esta condição neuro-psicomotora e física, não é motivo de sofrimento contínuo e progressivo.
A paralisia cerebral dele é decorrente de possível situação de má oxigenação de seu cérebro, ocorrida antes, durante ou depois de seu parto. É preciso dizer e publicar que seu Sistema Nervoso Central, ou seja seu cérebro, tão aficcionado à Astronomia, por mais que tenha uma lesão do passado é o mesmo que lhe leva hoje a tentar entrar para a Uni - diversidade. Muito embora, se saiba que a sua condição diversa e diferente lá também encontrará, sem dúvida,muitas barreiras.
Há sofrimento quando um sujeito, como ele, é visto como único responsável por sua condição e incapacidades, e não o que lhe foi imposto a partir das limitações e das barreiras que lhe foram e são impostas pela sociedade e o meio que o cercam. E o cercam literalmente.

Recomendo que conheçam uma história de um outro jovem com paralisia cerebral, que também teve barreiras enfrentadas e demolidas. Assistam ao documentario: KING GIMP. É o resultado de trabalho sério e dedicado de 12 anos, nos quais dois cineastas acompanharam e filmaram a vida de Dan Keplinger. Hoje ele é um reconhecido artista plástico, e para tal é só acessar seus trabalhos em: https://www.kinggimp.com/film.html (site com versão acessível), com uma história de vida e determinação, daí ser nomeado um Rei Coragem, apesar de Gimp também significar 'aleijado'. Os cineastas, Susan Hadary e Willian Whiteford, ganharam o Oscar de melhor documentário em 2000. Dan usa uma ponteira na cabeça tanto para fazer o roteiro desse documentário premiado, assim como ainda hoje para digitar e fazer suas obras de arte. Pela matéria do jornal, podemos saber que também Guilherme utiliza uma ponteira para estes fins. As suas 'artes' e intervenções são em outros campos. Elas porém precisam de ajudas técnicas e de tecnologias assistivas para serem transformadoras. Vejam e ouçam o King Gimp. O documentário já foi exibido com legendas na HBO, quem sabe um dia entrará nos canais abertos?
A similitude entre Dan e Guilherme, porque foram veiculados em canais de mídia, é que ambos persistiram, com os indispensáveis apoios de outras pessoas, inclusive de familiares, para que as barreiras, de todo tipo, fossem superadas e removidas de seu caminho educacional. Mas estas barreiras não são removidas facilmente. Nem mesmo a existência de leis, como o Decreto 5296, assim com a recente Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência (Decreto 186-08), tem providenciado, como por exemplo atitudes de respeito às mesmas, pois até nossos gestores, governantes e representantes legislativos ou executivos, quicá o judiciário, tem feito O QUE É POSSÍVEL, a não ser nos seus espaços dedicados apenas a pessoas com deficiência. AFIRMAMOS QUE O ACESSO E A ACESSIBILIDADE TEM AMBOS SUA INTERDEPENDÊNCIA, como DIREITOS HUMANOS, e uma exigente implantação e realização dessas leis e direitos.
Basta o exemplo de Guilherme, que precisou de muita luta para estar na prova do Enem. Lembrando que ele, apesar de não conseguir guardar dólares nas meias ou cuecas, ficou numa sala 'cercado de agentes'. Talvez essa proteção, além do risco dele 'colar' pelo computador, tenha sido por sua 'periculosidade imanente". Ele e os supostos 300 que virão empurrar as portas fechadas das Universidades brasileira, nos dizem que é IMPOSSÍVEL DETER A 'ONDA', A TSUNAMI DE TRANSFORMAÇÃO DOS DIREITOS SAINDO DO PAPEL, apesar da VONTADE, NA SOCIEDADE DE CONTROLE, de fazê-lo. Eles e suas diferenças estão chegando e sonho, como Martin Luther King, serão incluídos em todos os espaços sociais.
Cada dia mais novas brechas e novos ares estão se abrindo para nossas mentes e corações. Aí, nesses interstícios e espaços de liberdade, como as 'extintas' rádios-livres, é onde deveríamos e devemos manter nossas revoluções moleculares contra todas as barreiras, todas as formas de discriminação ou segregação. As similitudes de imagens, histórias ou de desejos poderá ainda ser maior se, no mundo das mídias, houvesse uma preocupação ética-política e estética. Se na Idade Mídia não mais se transmitissem, reforçassem ou naturalizassem os preconceitos. Isso vale também para todos e todas que militam ou atuam em defesa dos direitos das pessoas com deficiência ou outros sujeitos em discriminação ou segregação. Nós também estamos imersos, ou até submersos, na mesma sociedade que desejamos mudar...

HÁ QUEM AINDA ACREDITE QUE SE ESTÁ FAZENDO O MELHOR, "DENTRO DAS POSSIBILIDADES", QUANDO AJUDAMOS A VIDA DE GUILHERMES OU DAN, ESSES SERES APARENTEMENTE PARALISADOS, USANDO DAS MUITAS LÍNGUAS E PODERES QUE UMA MÍDIA PODE TER... MAS SE ELA NÃO CUIDAR DE SUA FORMA DE USO DESTAS LINGUAGENS, DA ESCRITA, DA IMPRENSA, INDO DA TELEVISÃO AO CINEMA, O QUE ESTAREMOS FAZENDO É 'PROPAGANDA'. O QUE ESTAREMOS REPETINDO É A POSIÇÃO DO VELHO MINISTRO NAZISTA, MESMO QUE SUBLIMINARMENTE. ESTAREMOS COLOCANDO, POR EXEMPLO, O SOFRIMENTO ONDE NUNCA DEVERIA ESTAR NA PONTA DA NOSSA LÍNGUA: A FAMOSA VOX POPULI. EXPLICO: POR EXEMPLO NESSA REPORTAGEM, SE O GUILHERME "SOFRE DE PARALISIA CEREBRAL", PARA ALGUNS CIDADÃOS E CIDADÃS QUE LERAM O JORNAL DIÁRIO CANOENSE, ESTÁ IMPLICITA A SUA CONDIÇÃO DE ' DOENÇA' OU 'INVALIDEZ', QUE DE IMEDIATO SE CONSTROE COMO UMA VERDADE COM ESTA LINGUAGEM E TERMINOLOGIA. MAS ELE NEM É PORTADOR E NEM É UM SOFREDOR DE UMA DEFICIÊNCIA. AS DEFICIÊNCIAS NÃO SÃO DOENÇAS, NEM PRECISAM DE NOSSA CURA OU PIEDADE.

O QUE PRECISAMOS, então, DESTA MÍDIA? PRECISAMOS, URGENTEMENTE, É QUE DOBRE A SUA LÍNGUA E RE- DIGA:

JOVEM COM PARALISIA CEREBRAL, POR SEU ESFORÇO E DETERMINAÇÃO, REALIZOU HOJE A PROVA DO ENEM.
Guilherme Finotti utilizou um teclado adaptado e poderá entrar na Feevale.


AOS NOSSOS CINEASTAS, JORNALISTAS, MIDIATIZADORES E TODOS QUE TRABALHAM COM A COMUNICAÇÃO E OS VEÍCULOS DE INFORMAÇÃO DE MASSA, UM ÚLTIMO APELO: PROCUREM OS PRÓPRIOS SUJEITOS COM CONDIÇÕES HETEROGÊNEAS E DIVERSAS DE SER E ESTAR NO MUNDO, A EXEMPLO DOS QUE COSTUMAM, POR FALTA DE ESPAÇO NO JORNAL, SEREM DENOMINADOS DE DEFICIENTES, PARA LHES AJUDAR A MUDAR SEUS PRÉ-CONCEITOS....
Pessoas em situação de deficiência vivem uma diversidade funcional, que podemos afirmar lhes permite, para além das limitações visíveis ou invisíveis, ultrapassar o que lhe impomos como barreiras. Mas estas só caem se retirarmos o nosso tijolinho, de cada um, de preconceito, o qual ajudamos a sedimentar nesse novo/antigo e renovável muro da exclusão e da desigualdade.

PS- Não seria interessante que alguém começasse a acompanhar a historia e a trajetória do Guilherme? Quem sabe um dia alguém possa dizer que o viu na telinha da Globo ou da Band? E o melhor ainda é que ele possa ser visto "por cegos", ouvido "por surdos", entendido "por pessoas com deficiência intelectual", e até pelos surdo-cegos, que conseguem afetar-se pelo seu "tato" e sensibilidade, quando distribuídas, garantidas e mantidas as tecnologias, com indispensável audiodescrição e o desenho universal nas telecomunicações. Bem como, quando nosso Ministro das Comunicações, não repetindo o Ministro da Propaganda do passado, lembrar que NÃO PODEMOS NOS OMITIR E MENTIR SOBRE DIREITOS JÁ GARANTIDOS NA LEI, PARA ALÉM DE QUAISQUER PRESSÕES GLOBAIS OU INTERESSES POLÍTICOS... E nesse passo oferecer e garantir acesso a todas as forma de comunicação e todos os avanços tecnológicos que garantirão a ACESSIBILIDADE UNIVERSAL, da Escola, da Rua, da Cidade, da Internet e todos os espaços onde a vida EXIGE MOVIMENTO. jorgemarciopereiradeandrade copyright 2009-2010 TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025.

1 No original : "Does segregation of children in public schools solely on the basis of race, even though the physical facilities and other "tangible" factors may me equal, deprive the children of the minority group of equal educational opportunities? We believe that it does... in the field of public education the doctrine of "separate but equal" has no place. Separate educational facilities are inherently unequal. Therefore, we hold that the plaintiffs and other similarly situated... are, by reason of the segregation complained of, deprived of [equal protection of the laws under the Fourteenth Amendment]". In: COOTER, Robert D. The Strategic Constitution. Princeton: Princeton University Press, 2000. p. 336

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MATÉRIA VEICULADA NO JORNAL DIARIO DE CANOAS 05/12/2009
Hamburguense com paralisia cerebral faz a prova do Enem na Feevale


O pai de Guilherme Finotti também responde às questões do Exame Nacional do Ensino Médio.

Novo Hamburgo - O estudante hamburguense Guilherme Finotti, 17 anos, que tem paralisia cerebral, realiza neste sábado o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no Centro Universitário Feevale. Sem outros estudantes na sala, o jovem tem a companhia de agentes do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e da Polícia Federal durante a prova, que ele responde em um computador.
Seu pai, Luis Carlos Finotti, também fez o Enem, porém, no Colégio 25 de Julho.
Guilherme lutava há meses para prestar o exame em condições especiais, com computador, mouse, a colmeia (que protege o teclado para quem sofre de paralisia cerebral) e a ponteira, utilizada para acionar os botões
. https://www.diariodecanoas.com.br/site/noticias/ensino,canal-8,ed-149,ct-730,cd-231899,manchete-true.htm#