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sábado, 22 de junho de 2013

ABRAM A PORTA DA SALA... A RUA ESTÁ ENTRANDO POR ELA.

Imagem publicada – uma fotografia em preto branco de um homem, de camiseta, segurando potentes binóculos, apoiados sobre um tripé, junto a uma janela, como quem olha alguém ou alguma coisa à distância, porém curiosamente. É um dos trechos do filme Memórias do Subdesenvolvimento, do cineasta cubano Tomás Gutierrez Alea, no período pós-revolucionário, em 1962, em Cuba. Uma Revolução pode mudar um país, entretanto, quando se tornar micropolítica poderá também ser a liberdade de um sujeito ou cidadão(ã), uma pessoa, um indivíduo? Pode se tornar um devir?

SOMOS NÓS OU É O BRASIL QUE MUDOU? OU MUDAMOS JUNTOS? OU MUDAREMOS?

Pode o Cinema nos ajudar a compreender e questionar nossas produções de subjetividade? Podem os filmes ser tão marcantes, a ponto de ser como um bárbaro que invade nossos Impérios narcisistas e destrói todas as nossas defesas? Pode esses convidados e desejados invasores de nossos inconscientes abalarem nossas confortáveis posições de meros espectadores? Espectadores que vão às telas, inclusive às atuais tele telas, apenas em busca do sonho ou da fantasia, os que pensam que querem apenas sonhar?

“HOJE é apenas mais um dos dias seguintes, aparentemente menos ruidosos e “bombásticos”, quando tudo “volta à Normalidade e à Rotina”. Tudo como dantes nos quartéis e nas casas. Um bom dia para irmos ao Cinema, esse calmo e frio dia, depois do quente e incendiado 20 de junho de 2013. Ou será apenas um bom momento para se refletir sobre as ruas e as massas que as ocuparam ontem e antes também, usando o Cinema?

 Tenho me lembrado, no calor do Fogo do Passe Livre, de uma cena cinematográfica.  É aquela lá em cima, apenas um homem na janela, com os binóculos telescópicos, de seu apartamento, distanciado e protegido de uma revolução que ocorria lá na ruas.

É uma das muitas cenas emblemáticas do filme, já transformado em cult, “Memórias de um Subdesenvolvimento”. Uma memória do meu desenvolvimento político, em tempos do amadurecimento forçado após os Anos de Chumbo. Anos que necessitavam e necessitam da palavra implicação e da perda de temores, quiçá de muitos amores políticos e revolucionários.

O filme é uma boa metáfora e alegoria para o que ainda está ocorrendo no país. Estamos tele assistindo a essa magnífica e analisadora ação das jovens massas ocupando as ruas?

 O personagem central da película, Sérgio, aos 38 anos, se vê sozinho e abandonado por sua mulher e família que “fogem” para Miami. A sua cidade, Havana, o seu país, Cuba, estavam em um processo revolucionário. À distância ele podia ver cenários de ruínas como se os prédios fossem feitos de papelão. Fidel e Che Guevara derrubaram, pelas armas, a Ditadura de Batista.

A sua óptica da vida passa, então, a ser o olhar telescópico, que o protege das movimentações de massas e tropas vistas da sua janela burguesa. Uma sólida janela que hoje pode ser chamada de Classe Média Alta. Entretanto, como todos os mortais, Sérgio tem de sair, ou é obrigado a sair, um dia de seu casulo. E aí começam as aventuras, questionamentos e os imprevistos que trarão para ele toda uma inusitada poesia (poésis) e efeitos micropolíticos em seu corpo e mente.

Como ele, nestes tempos da Cultura do Medo, a princípio, ficamos muitas vezes temerosos,  ao sairmos de nossos confortáveis espaços domésticos. Estamos, os tele espectadores globais sendo chamados pelos manifestantes, com o Vem prá Rua, Vem! As nossas tele-visões, mesmo que globalmente maquiadas para serem assustadoras, são mais tranquilas que o risco das balas de borracha hiper certeiras em nossos olhos ou corpos não periféricos? 

A lógica que subjaz em nós ainda é diaspórica, como diz Zymunt Bauman, pois “não admira que muitos habitantes das cidades se sintam apreensivos e ameaçados quando expostos não apenas a estranhos (a vida urbana sempre significou estar cercado de estranhos), mas a estranhos de um novo tipo, nunca visto antes, e assim, presumivelmente ‘não domesticados’ e ‘ sem controle’, ameaças desconhecidas”.

Como o Sérgio e sua intelectualidade podemos estar assustados com esse ‘povo desconhecido’, pois, como em Esparta não são “homoi”, iguais em cidadania e direitos, mas sim os Outros, os “periféricos”, os que foram e são produzidos em massa. Tememos essa nova Horda? Diante dos instrumentalizados e úteis vândalos, tememos ter de repetir uma nova Ordem? Uma nova Revolução? Ou uma neo-ditadura militarizada e espartana?

Talvez, sim, pois podemos sentir o temor de sermos tocados. Todos nos sentimos mais próximos da xenofobia, o temor ao estrangeiro, ao que é considerado o outro que não fala a nossa língua, não come nosso arroz com feijão cotidiano. E o temor é muitas vezes o primeiro passo para minha intolerância ou radicalismo acerca dessa diferença de mim. E do meu Ego.

Há, contudo, momentos mais “quentes” de nossas Histórias onde se incendeiam as ruas, e começam a agir os “analisadores históricos”. O que aconteceu com o personagem de Alea é exatamente, a meu ver, essa ruptura da calma, da repetição neurótica, do cotidiano garantido e da segurança de não ser tocado, por nada e, principalmente, por ninguém. Mas ele precisa de, em algum momento, do chamado calor humano. A sua couraça afetiva lhe incomoda como as armaduras medievais. Ele “sonha” com seu país livre que agora o “aprisiona”.

Um contraponto interessante sobre como se “blindar”, isolar ou se refugiar diante de analisadores históricos das revoluções é o filme “Os Sonhadores”, de Bertolucci. Nele os possíveis encontros disruptivos e avassaladores, são expostos pelas triangulações afetivas, amorosas e sexuais.

 Nestes tempos pastorais, fundamentalistas e homofóbicos, por exemplo, estas multiplicidades e singularidades podem ser perturbadoras da ordem ou das normas, e, principalmente, dos nossos tabus. Tabus que são trans-históricos e hiper resistentes às mudanças, mesmo as revolucionárias e aos próprios revolucionários.

 No “Sonhadores” não há a solidão explícita e o individualismo sendo confrontados. Só a cena final nos situa no meio do fogo, nas intensidades de Maio de 68, em Paris.  A única coincidência é que ambos os diretores discursam, respeitadas suas linguagens e culturas diferenciadas, sobre revoltas e revoluções dos anos 60.

A transversalidade destes movimentos de massa revolucionária é exibida em flashes, como invasões da privacidade, como uma pedra que quebra um vidro, vindo do mundo em crise lá fora para os Sonhadores. Ou com o cubano sendo interrogado sobre suas condições de habitação, ou seu envolvimento sexual e afetivo com uma mulher do “povo”.

No filme de Gutierrez Alea, temos ainda uma diferença a notar, pois é a história de um homem solitário que aprende, poeticamente, a olhar os outros e as ruas com um novo e afetado olhar. 

Ele metaforicamente é uma parte do povo cubano que permanece na ilha. Insulado e isolado, a seu contragosto  aprende,  que ao se misturar com os Outros da Revolução e do cotidiano, pode se tornar mais humano, mais sensível, com mais humor e, consequente, com novas formas criativas e inusitadas de amor e de amar.

Alea mistura com maestria a realidade da Revolução com a re-evolução de Sérgio. O cinema documentário está presente, como História real, dentro da ficção.  Acho que se filmasse, como um Eduardo Coutinho, esse nosso momento quente e intenso das ruas, também nos denunciaríamos uma outra História que ainda está debaixo do tapete de nossas salas.

Somos então, nessa média idade, mais para bombeiros que incendiários, os “velhos” Sérgios demais à espera, de nosso “choque de realidades”? Ou somos e seremos jovens, a la Bertolucci, que montam uma barraca de lençóis dentro de um apartamento, onde outros choques, outras realidades também podem ser experimentadas?

O desmoronamento do mundo pequeno-burguês de Sérgio, assim o de muitos que se sentem ainda ameaçados pelas atuais massas chamadas de “vândalos”, é subjetivamente tão violento quanto as ruas. Muito embora não tenha, nele, um tiro e nenhuma morte. A grande confusão é a violência dos preconceitos do personagem. Ele tem de se descobrir apenas mais um nessa multidão em mudança histórica.

Outra óptica possível que o filme me evoca é a crítica aos rumos totalitários que a Revolução Cubana tomou. O anacronismo de Sérgio é a melhor crítica do diretor ao modelo socialista da ilha.  Pode ser visto também com uma refinada crítica ao nosso individualismo e narcisismo. Não nos permite acomodação conformista, por sua óptica documental histórica.

Convoca-nos, ou melhor, a mim me convocou, para sair da poltrona, abrir a porta e deixar as lufadas de intensidades vindas da rua. Eu o assisti nos Anos pós-Ditadura e de reconquista dos direitos humanos no Brasil. E as passeatas pediram Diretas Já! Não pintamos o rosto, mas o verde amarelo coloria nossos corações e corpos constituintes e instituintes.

Passar de testemunha ocular para um agente, um participante ou mesmo um agitador das ruas é um convite muito sério. Não podemos nos deixar levar pela simplificação, pelo momento acrítico e a despolitização que estamos assistindo pelos telescópios midiáticos modernos. A onda de jovens sonhadores que desejam “A” revolução não pode deixar de conhecer o antes da outra chamada Revolução em 64.

Não precisamos sair na capa das revistas ou dar entrevistas ou virar motivo de notícia urgente, mas podemos escolher qual a matéria real e verdadeira estará estampada ou difundida nesses meios de comunicação de massa. O foco sobre os atuais cartazes nos revelam ainda textos e contextos já vividos. Os problemas acumulados pela negligência macro política fazem parte dessa explosão de reivindicações.

Sim, todos queriam ARROZ, FEIJÃO, SAÚDE E EDUCAÇÃO. Porém, o grito e o slogan, agora, são da Ordem Econômica que nos Governa. São as passagens e o transporte e seu preço que ocuparam o centro das questões nesse modo hipercapitalista do viver urbano. O quanto gastamos em Copas e Diversão, deixando de construir salas de aula ou novos hospitais. O quanto há de corrupção e impunidade em altos escalões deixando para a punição imediata outra parcela da população.

Misturam-se às recusas às velhas bandeiras partidárias. As bandeiras que Sérgio vê de sua janela, ou as que os personagens de Bertolucci agitam em frente às universidades de Paris. Porém nem estes, como eu, já envelhecidos pela lembrança de 68, nem os sonhadores de 2013 podemos negar que já não somos mais os mesmos do mês passado.

Podemos, portanto, além de abrir a porta, pois as ruas por elas estão entrando, abrirmos, urgentemente, uma pequena fresta nas janelas de nossos olhares, miradas e mentes para o que está realmente se passando no Brasil. Uma janela sem binóculos ou telescópios, pois não há mais distâncias ou velamentos que nos protejam do Futuro que nós mesmos semeamos.

ABRAM AS SUAS JANELAS, COMO UMA TELA DE CINEMA, E NÃO DE TELEVISÃO. HÁ UM HORIZONTE PARA ENTRAR POR ELAS...

MEMÓRIAS PARA NOSSO DESENVOLVIMENTO. PODEREMOS SONHÁ-LAS JUNTOS OU TORNÁ-LAS INESQUECÍVEIS INDIVIDUALMENTE?

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de MASSA) TODOS DIREITOS RESERVADOS 2024 2025...

INDICAÇÕES PARA LEITURA CRÍTICA –

O CINEMA PENSA – uma introdução à Filosofia através do Cinema – Julio Cabrera, Editora Rocco, Rio de Janeiro, RJ, 2006.

SOBRE EDUCAÇÃO E JUVENTUDE – Zygmunt Bauman, Editora Zahar, Rio de Janeiro, RJ, 2013.

Memórias do Subdesenvolvimento, arte e revoluções https://www.diplomatique.org.br/acervo.php?id=2821

INFORMAÇÕES sobre o filme que transverzaliza  e ao texto, espero que ao contexto–

"Memórias do Subdesenvolvimento" chega em DVD no Brasil (‘somente em 2006’) https://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u60700.shtml

Trecho do filme - https://www.youtube.com/watch?v=MSnyuh_xY54  (com Sérgio e intromissão dos afetos em sua vida distanciada deles... o amor/paixão também podem ser revolucionários? Ou somente  o Povo?)

Filme citado no texto – Os Sonhadores – Bernardo Bertolucci (2003) https://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Sonhadores

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –
DEMOLINDO PRECONCEITOS, RE-CONHECENDO A INTOLERÂNCIA E A DESINFORMAÇÃO https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/06/demolindo-preconceitos-re-conhecendo.html

MOVIMENTOS, MASSAS, MANIFESTOS E HISTÓRIA: POR UMA MICROPOLÍTICA AMOROSA, URGENTE. https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/06/movimentos-massas-manifestos-e-historia.html

A PRAÇA É DO POVO? AS RUAS SÃO DOS AUTOMÓVEIS E DOS ÔNIBUS? E OS DIREITOS HUMANOS SÃO DE QUEM? - https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/06/a-praca-e-do-povo-as-ruas-sao-dos.html

A ILHA DO FELIZ SEM ANO E O SEU INTRUSO, E, NÓS TAMBÉM (apenas um re-conto) https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/05/a-ilha-de-feliz-sem-ano-e-seu-intruso-e.html

A CORÉIA DO FANATISMO POLITICO E O FANATISMO RELIGIOSO DO PASTOR: estamos no Século XXI? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/04/a-coreia-do-fanatismo-politico-e-o.html

sexta-feira, 8 de março de 2013

MULHERES, DIREITOS HUMANOS HOJE E SUA EXCLUSÃO, em tempos pastorais...


Imagem publicada - uma fotografia em preto & branco de minha autoria. Eu a fiz em uma esquina do centro de Campinas, perto de uma Faculdade de Direito, onde se lê como aviso de trânsito: PARE.  E, sendo colada, por algum cidadão ou cidadã, logo abaixo, as palavras: “de ser indiferente”. Um apelo, criativo, necessário e urgente: PARE DE SER INDIFERENTE.

“Trespasse as montanhas, em vez de escalá-las, escave a terra em vez de aplainá-la, abra buracos no espaço em vez de mantê-lo uniforme, transforme a Terra em um queijo suíço”. Gilles Deleuze e Félix Guattari (Mil Platôs – Mille Plateaux)

Há uma indiferença massificada para a afirmação de que somos des-iguais, quando se reflete sobre as condições da maioria das mulheres e seus Direitos Humanos. Temos, porém de reconhecer que nessa invenção do Século XX: os Direitos Humanos, ainda não aprendemos muito sobre o feminino e suas multiplicidades. Mas ficamos sabendo, impotentes, de suas violações e vulnerações.

Estive forçado pelas minhas limitações humanas, assim como por um triste olhar sobre como somos, como estamos e para onde caminhamos, in-diferentes, afastado do exercício desta necessidade e urgência de escrever.

Somente a minha própria re-leitura, olhando para o Feminino em nós, relembrando que o ÚTERO É O MUNDO E O MUNDO É UM ÚTERO, é que decidi me forçar a “pena” árdua de usar a pena, como diriam os que se escreviam as cartas de papel e tinta há alguns séculos atrás.

Os escritos indignados nem sempre trazem a força do que desejamos colocar ou expressar através deles.

Hoje, 08 de março de 2013, estamos vendo como é possível a “venda”, sob o modelo “utilitarista’’ do mundo capitalístico, aquilo que também pareceria invendável: os direitos humanos.

Uma venda que também pode ser dita como a mesma que impede a Justiça de enxergar claramente e “direito” os nossos direitos sendo aviltados... A mesma Senhora Vetusta que, por força desses vedamentos e pelo andar da carruagem da História do mundo, caminha a passos rápidos em direções mais destras do que sinistras.

Um pastor, que não é de rebanhos não dóceis, foi levado como oferta política para a condução dos Direitos Humanos e das MINORIAS, no Planalto Central. As Minorias, aquelas que se confundem com as marginalizações, foram excluídas em uma “eleição” a portas fechadas.

 E, para dentro de um espaço dito democrático, mesmo que com as portas e os ouvido fechados aos protestos, sob contenção, do lado de fora, o Deputado Federal Marco Feliciano foi “ungido” como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias.

 Lá fora gritavam deitados no chão, os expulsos brasileiros e brasileiras: - NÃO PODEMOS CAIR NESSA CONTRADIÇÃO ESTATAL; UM RACISTA, UM HOMOFÓBICO NÃO TEM COMO SE DIZER E AFIMAR  UM DEFENSOR DESSES DIREITOS, AGORA, POR ELE BEM- DITOS: HUMANOS.  Assistimos a mais uma encenação, no ventre dos Poderes, forjada evangélica e macro politicamente

E, caros amigos e amigas, que me desculpem, se não entendi. O Pastor me/nos pede uma chance para provar sua capacidade de nos defender?

Estou nesses dias Marco Felicianos de Cristandades Falsas, embora descontente e indignado, refletindo e repensando como homenagear as mulheres.

O calor gerado pelas manifestações contrárias a este pastor, que não é de cabras não cegas, me fez desejar que a DOÇURA OU A FORÇA FÊMEA, incluída em nossos corpos e mentes, me possuíssem e reinstalassem meu desejo de outro mundo possível. Um mundo da afirmação de nossos devires-mulher.

Ficamos todos e todas, muito desiludidos? Talvez sim, no primeiro choque com a notícia. E, após uma reflexão das minorias como potências, NÃO. Somos cientes de que as alianças macropolíticas encenadas em nossas CÂMARAS, das municipais até as federais, sempre foram urdidas para a manutenção de uma ORDEM e de um PROGRESSO.

 Há e houve, entretanto, em nossa história democrática as criações de brechas, rachaduras moleculares e os rizomas, que espalhando indignação ou conscientização geram e geraram os pequenos furos sociais, as linhas de fuga, por onde a liberdade se instalou e pode ser vivenciada.

O dia 08 rememora as mulheres que cruzaram seus braços e decretaram que não mais iriam tecer ou fiar. Foi há mais de um século e meio, em Nova Iorque, na busca da sonhada igualdade de condições de trabalho e das horas de fiação sob o comando de homens.

As mulheres, com sua força para fiarem, tecerem e, como as Penélopes, desfazerem seus próprios tecidos, inclusive os mais fecundos de seus úteros, foram e são também as protagonistas políticas dessas re-evoluções nas quais nos prendemos e nos soltamos.

Hoje são elas, como vi recentemente no campo da Medicina, que passam a ser o a “maioria”. Porém permanecem, para além de sua crônica desqualificação trabalhista e profissional, alguns estigmas que nos fizeram e ainda fazem torná-las ainda bruxas ou feiticeiras.  Hoje inventamos fogueiras sutis e menos visíveis do que na Inquisição para “queimar” suas diferenças.

Os tempos digitais não descobriram o seu potencial feminino não analógico. Ainda somos mecânicos com elas. Ainda as violentamos em muitos países, em diferentes culturas, mas com as mesmas castrações e esterilizações.

Ainda, como Freud, em 1933, nos surpreendemos com as MULHERES e suas capacidades, para além da tecelagem de um tapete ou malha, feita por Anna Freud, sua filha-discípula e solteirona.  Segundo Sadie Plant: “Sigmund Freud fez a tentativa final de solucionar o enigma da feminilidade...”. 

Ele escreveu “que as mulheres só deram umas poucas contribuições às invenções e descobertas da história da civilização...”. Porém, foi uma de suas analisandas, a analista Marie Bonaparte, que lhe salvou a pele diante do nazi-fascismo a peso de ouro de Napoleão Bonaparte.

Como diriam Guattari e Deleuze, o pai da Psicanálise se manteve apenas preso a um “olhar edipiano”, reducionista e até ridículo sobre as mulheres, inclusive as que formavam os primordiais círculos psicanalíticos. Mas o doutor Freud era do Século XIX.

As mulheres, diriam os dois anti-edípicos e visionários pensadores franceses, são muito mais rizomáticas, relvas que se espalham, do que árvores com uma única e sedentária raiz fixada ao chão, masculino e machista. São Gaia, são Terra.

 “Um rizoma não tem começo nem fim; está sempre no meio, entre coisas”. As relvas, as epífitas, as samambaias e os bambus, que não respeitam territórios fixos, não têm raízes, mas rizomas.

Podem crescer e se multiplicar subterraneamente, assim agiram Emma Goldman, Rosa de Luxemburgo, Zuzu Angel, Sonia Moraes Angel, e muitas outras guerreiras ou revolucionárias. São, foram e serão sempre “subversivas”.

 Elas estão mais próximas das Folhas das Folhas da Relva do poeta Walt Whitman, que em sua orientação sexual divergente já as elogiava e reconhecia como as dobras das quais, desdobradas, vinham e virão nascer os grandes homens.

Nascemos delas, delas ainda, todos e todas, descenderemos. E não será um processo de serialização por reprodução assistida em laboratório que as descartarão em futuro próximo. O seu útero ainda é sua maior, inigualável e insubstituível força. Até mesmo quando tentamos castrá-lo, mesmo que virtualmente.

Por isso, temos de buscar essas Mulheres Digitais e Mãe-trix que nos superarão para o futuro. Isso se não forem reprimidas, violentadas, condicionadas e aprisionadas em nossos modelos binários e binarizantes de macho e fêmea.

O Pastor ainda funciona nessa visão estreita e preconceituosa – homem é homem, índio é índio, negro é negro, mas os homo-sexuais não são e serão além de coisas aberrantes e anormais, também coisas demoníacas...

Como algumas mulheres. E o casamento entre diferenças pode ser o fim da humanidade. Para impedir essas aberrações só a família, com a mulher como propriedade do homem, pode combater e reprimir esses desviantes ou diferentes seres.

Somos e continuaremos sendo, humanamente e demasiado, muito além das limitações a que nossos séculos de doutrinações, sejam políticas, ideológicas, religiosas ou mesmo científicas, tornaram redutíveis às nossas superfícies biológicas e sexuais.

Não podemos esquecer, por Deleuze e Guattari, que o Estado e seus mecanismos de controle biopolítico agem por conversão dos fluxos moleculares e desinstitucionalizadores em segmentos molares, novas instituições.

Portanto, não estranhemos que entreguem os Direitos Humanos para quem os viola. É a reterritorialização estatal de nossos potenciais e desejos de revoluções micropolíticas e moleculares. Os discursos sobre estes direitos não mais os efetivam, apesar de serem interdependentes, sem ativa participação das chamadas minorias.

A maior profundidade que podemos atingir não passa de nosso maior órgão do corpo humano: a pele. Por isso devemos combater, todos os dias, essas pregações de cunhos fundamentalistas e de gênero.

Somos múltiplos, como as mulheres, somos plurais e podemos ser muitos e muitos Outros em apenas um de nós mesmos. O poeta Pessoa não me deixa omitir ou negar.

E, docemente, peço que não reduzam esta afirmação ao seu cunho apenas de prosa ou poesia, pois é sim “poesis”.

Afirmemos o sentido de poesis como geração, ou melhor, gestação, de muitas formas de Vida, para além da visão de Vidas Nuas. Façamos os resgates que o Feminino Plural deve tomar em suas mãos e corpos para que a trans-formação de nosso mundo continue em marcha e evoluindo. O Futuro está nas mãos e corpos das filhas, das filhas das filhas de minhas filhas...

Destas que herdarão o que semearmos agora, seja em direitos ou em exclusões e miséria, é que devemos esperar, para além do modelo reality-show da Sociedade do Espetáculo, a construção de outra “gramática civil”, outra indispensável liberdade e cidadania. Outros caminhos, outras veredas e cartografias do viver e re-existir.

Copyright/left, a destra e a sinistra, jorgemarciopereiradeandrade 2013=2014 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa. Todos os direitos reservados 2025...)

LEITURAS INDICADAS NO/PARA ALÉM DO TEXTO E DO CONTEXTO –

MIL PLATÔS  Capitalismo e Esquizofrenia - Gilles Deleuze & Félix Guattari – Editora 34, Rio de Janeiro, RJ, 1995-1997.leia resenha em 

MULHER DIGITAL – O FEMININO E AS NOVAS TECNOLOGIAS – Sadie Plant, Editora Rosa dos Ventos, Rio de Janeiro, RJ, 1999.

LEIA(m) TAMBÉM NO BLOG –

OS DES(Z) MANDAMENTOS DO CORPO FEMININO https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2015/03/os-desz-mandamentos-do-corpo-feminino.html

O MARTELO NAS BRUXAS – COMO “QUEIMAR”, HOJE, AS DIFERENÇAS FEMININAS?

MULHERES SANGUE E VIDA, PARA ALÉM DE SUA EXCLUSÃO HISTÓRICA.

TODO ÚTERO É UM MUNDO.

EUGENIA, COMO REALIZAR A CASTRAÇÃO E ESTERILIZAÇÃO DE MULHERES E HOMENS COM DEFICIÊNCIA?