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quarta-feira, 15 de maio de 2013

RETORNAR À CASA VERDE, RETROCEDER E INSTITUCIONALIZAR A LOUCURA? OU SOMOS “TODOS” LOUCOS?



Imagem publicada – uma cabeça humana dividida em áreas, com cores diferentes, representando as características que deveriam (ou segundo alguns ainda hoje em dia) compor uma unidade do cérebro com a mente, criada pela Frenologia. Segundo seu fundador, o médico austríaco Franz Gall, a mente e seu órgão físico não podem ser separados. Antecipadores de algumas descobertas das neurociências, ainda no Século XIX, os frenologistas tornaram-se os melhores cirurgiões do cérebro. Entretanto, usaram outros métodos diagnósticos e classificatórios. Através de um exame exterior da cabeça de um indivíduo, afirmavam determinar nas nossas dobras e protuberâncias cerebrais, as nossas dobras interiores da Moral, das Faculdades Intelectuais, da Benevolência, da Combatividade, da Destrutividade e outras que nos tornariam “portadores de boa saúde” física e mental. Em alguns caminhos trilhados nos EUA se aproximou da Eugenia, e constitui-se um dos primórdios dos modelos que desejam inclusive diagnosticar o grau de criminalidade possível de cada um, singularmente, pelos caroços e imperfeições de nossa calota craniana.

“Torrente de loucos.
Três dias depois, numa expansão íntima com o boticário (farmacêutico) Crispim Soares, desvendou o alienista o mistério do seu coração.
- A caridade, Sr. Soares, entra decerto no meu procedimento (hoje seria ou será o seu DSM ou a internação compulsória?), mas entra como tempero, como o sal das coisas, que é assim que interpreto o dito de S. Paulo aos coríntios: ‘ Se eu conhecer quanto se pode saber, e não tiver caridade não sou nada’. O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu coração. “Creio que com isso presto um bom serviço à humanidade...” (O Alienista – Machado de Assis, 1882).

Eis um menino que poderíamos ter tornado um “caso clássico para um tratamento clássico”. Machado de Assis era negro, pobre, gago e epiléptico. Um menino mestiço que nasceu de uma família extremamente humilde, no Morro do Livramento, uma comunidade, uma favela, no Rio de Janeiro, em 1839.

Entretanto foi, quem sabe, esta origem que lhe permitiu vislumbrar uma das mais importantes obras que criticam, em literatura, a institucionalização da Loucura. O seu Alienista, como no texto acima, desejava o que a Psiquiatria, também nascida nesse século XIX, estudar e classificar todos os quadros de anomalias mentais e psicopatias.

A evocação literária deste escritor-maior é para colocar em questionamento a atual produção de subjetividades adoecidas pelo modelo de controle, higienização, internação compulsória e falsa solução de todos os chamados transtornos mentais e os abusos de drogas.

Uma das alegações mais frequentes nas páginas de jornal, revistas, manchetes, destaques, falas apocalípticas pela TV, sobre os que são e estão nesse campo das saúdes mentais, é que ao ‘soltá-los dos hospícios, clínicas, comunidades, manicômios’, com as ditas reformas os ‘deixamos abandonados à própria sorte’... E os loucos pululam (pós-Lulam?) e poluem as nossas ruas, calçadas e embaixo dos viadutos.

Qual então será a solução se continuamos, alienistas e higienistas, buscando uma Sociedade limpa, organizada, normal, feliz, sem conflitos, sem dramas pessoais ou coletivos? Pelo olhar do personagem machadiano da Casa Verde, os Simãos Bacamartes, hoje neo-alienistas, primeiramente deveriam estar todos incluídos nos esquadrinhamentos e estatísticas sobre as loucuras. Todo mundo lá pode estar, ficar e nunca sair.

Essa é, então, a solução encontrada recentemente pela chamada ‘Bíblia da Psiquiatria’, o DSM, que indo para sua 5ª Edição, o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em tradução livre).

Segundo a APA (Associação Americana de Psiquiatria (American Psychiatric Association, ou APA, na sigla em inglês), os “novos diagnósticos”, resultantes do trabalho de especialistas, “...poderão impactar o diagnóstico de doenças mentais, em um momento em que, segundo estudo da Universidade de Harvard, quase metade dos americanos adultos em algum momento da vida sofrem de algum transtorno mental”.

Mas será que devemos nos incluir entre estes insanos, drogados, marginalizados, empobrecidos, excluídos e desfiliados? Quem sabe hoje o ‘mulato de Assis’ teria utilizado um ‘machado frenológico’ para criar um divisor de águas.

De um lado os habituais frequentadores da Casa Verde, inclusive todas as Câmaras, nas três ou mais esferas de poder, que lá iriam só de passagem. Nesse grupo de elite estariam os que são íntegros, de bom caráter, sem impulsividades ou compulsividades (em especial a cleptomania ou outras psicopatias corruptíveis dos bons).

Porém, dentro no outro grupo maior e mais ativo socialmente, estaríamos, nessa perspectiva, todos e todas incluídos. Os cidadãos e cidadãs, essa população inteira sem equilíbrio total das faculdades mentais.

 Uma população que tende sempre para as transgressões, para as perversões, neuroses, psicoses e outros novos quadros classificados pela DSM. Há ainda que incluir os que, parvos, cretinos, imbecis e débeis, cometem os Sui-CID-ios, ou que, na sua santa e sacrossanta debilidade mental, nem têm capacidades para tal ousadia.

Já que nosso padrão internacional, oriundo de apenas um país, onde a democracia, inclusive a racial, é ‘mentalmente perfeita’, afirma cientificamente que 50% dos seus habitantes é passível de diagnóstico psiquiátrico, quem somos nós os ‘cucarachas’ latino-americanos para contestá-los?

Lá não se praticam os mesmos atos de vandalismo, as mesmas barbaridades, as mesmas loucuras sociais. Lá não se matam pessoas com crueldade. Não cometem esse distúrbio ignóbil de atirar a esmo. Não violentam e nem discriminam negros, homossexuais, pessoas com deficiência, mulheres ou crianças. Muito menos abandonam os seus velhos e suas velhacarias. Tendem ou para angelicais ou semideuses?

 E, no nosso reinado, frenológicamente diagnosticável, da imperfeição intelectual e das qualidades mentais, esses ‘subdesenvolvidos mentais’, abaixo do Muro do México, pela visão eugênica e racista, quem sabe não são 100% enquadráveis nas novas nosologias e patologias? Somos, então, mesmo no luto ou na tristeza, passíveis do ‘remédio universal’ de Simão Bacamarte.

Resta, porém, até mesmo nos Paraísos Artificiais, nos mais ‘desenvolvidos mentalmente’, os que se colocam como os filósofos, na dúvida e no questionamento dessas tabulas rasas e desses enquadramentos. Se não o que já nos teria acontecido?

Há os que pautados pela ética e pela bioética gostam de duvidar, questionar e interrogar: "Como presidente da Força-Tarefa do DSM-IV, eu devo assumir responsabilidade parcial por essa inflação de diagnósticos. Decisões que pareciam fazer sentido foram exploradas por empresas farmacêuticas em campanhas de marketing agressivas e enganosas. Elas venderam a ideia de que problemas da vida cotidiana são na verdade doenças mentais, causadas por desequilíbrios químicos e curadas com uma pílula", diz Frances, que é professor emérito da Universidade de Duke, na Carolina do Norte, e um dos maiores críticos do DSM-5.

O temos de inventar ou criar para controlar as manifestações mais recentes de cunho populacional ampliado? Como resolver as resultantes sociais e patológicas do crescente consumo de substâncias psicoativas proibidas? Como solucionar o crescente e estimulado número de pessoas que vivem em situação de rua? E os meninos e meninas que se alimentam de luz e cola, como resolver sua proliferação? Como classificar os atiradores que entram em cinemas, escolas, universidades e matam indiscriminadamente?

Aos menores quem sabe alguns dirão que cabe uma institucionalização compulsória. Afinal para que esse tal de Estatuto? ECAS não aprenderam ainda que esses seres proliferam como essas bactérias super resistentes aos antibióticos? Se aplicarmos as medidas a este infratores menores com penalizações maiores não estaremos reduzindo este número exponencial e sem controle biopolítico?

Desde o Século XVIII estamos nos aperfeiçoando, mundialmente, para que as formas de controle biopolítico e social se alicercem nas ciências e nas práticas sociais da Educação e da Saúde. No campo da saúde mental já vivemos muitos processos de hiper institucionalização e hospitalização da loucura e dos loucos.

No nosso país assistimos ou participamos de um processo de desHospitalização, ou melhor uma desinstitucionalização, que vem sendo questionadas e discutidas, principalmente pelo chamo de contrarreforma psiquiátrica. Há uma intenção de apresentar todo o processo de construção de políticas públicas de saúde mental como unicamente centradas nos Centros de Atenção Psicossocial.

Nos Caps, como uma das tecnologias possíveis, temos de cuidar intensamente da sua exclusão e seu processo de reterritorialização, principalmente nos estados mais conservadores como São Paulo. Há que promover uma intensa discussão sobre a sua transformação lenta e progressiva em novas Casas Verdes. E, mirando a desinstitucionalização, aceitar as ambiguidades que acabamos por promover junto com o Estado e os Estados.

Não são somente os Centros de Atenção que podem dar conta de tamanha população bacamartiana. São hoje e serão mais ainda pelo DSM os frequentadores cotidianos de novos mini-cômios que estão para ser construídos dentro de grandes hospitais. Veja(m) o que já escrevi sobre a reinserção e manutenção, apesar e fora da lei 10216, de CAPS dentro de Hospitais.

Preciso, por força de hábito e experiências, de repetir: SAÚDE MENTAL? QUANDO INTERNAMOS OS CENTROS DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL?

Se formos também diagnosticar quais são as mazelas de nossos equipamentos criados para substituir os modelos higienizadores, com o cuidado de autocrítica e reflexão coletiva, encontraremos em ação alguns efeitos colaterais ou repetições que nos comprometem com a visão bacamartiana.

Não fechamos as portas e os portões como no passado? Não buscamos o enquadramento dos ‘pacientes usuários’ em nossos conhecidos e velhos diagnósticos? Não lhes prescrevemos mais medicamentos?  Não centralizamos as ações dos chamados territórios em um único espaço físico? Não nos isolamos das ‘comunidades’ que nos cercam ou cerceiam?

Há muitos anos atrás quando iniciava meus caminhos na psiquiatria me indaguei das relações e origens comuns entre a Psiquiatria, a Psicanálise e a Religião. Hoje, com a recorrência de títulos das matérias sobre o novo manual DSM, tenho uma sensação de dejá vu. Não é apenas um significante que se apresenta com esta nova ‘Bíblia’ para os especialistas.

É também a recorrência e a repetição de um movimento conservador que, utilizando nossos próprios ‘diagnósticos institucionais’, nos diz que estamos falidos ou fracassados se não seguirmos um novo/velho dogma: constituir e instituir novas Casas Verdes.

Não é por simples conhecimento bíblico que Machado de Assis nos cita São Paulo. É que em seu tempo, para ele que viveu na pele a  exclusão e preconceito por sua cor e epilepsia, já se manifestavam as técnicas e métodos de cura ou de tratamento pela hospitalização.

Quando o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras nasceu, em 1839, já tinham nascido nos estertores do Século anterior os progressos da medicalização fisicalista e rigorosa, como diz Foucault, também “militante e dogmática, da sociedade, por uma conversão quase religiosa, e a implantação de um clero de terapeutas...”.

O que o alienista acreditava é uma ‘saúde da alma’. E para conquistá-la ou promovê-la a sua ciência “tem o inefável dom de curar todas as mágoas”. Como um ‘verdadeiro médico’, como já se esperava de um higienista, em sua Itaguaí, criticou a vereança pelo descaso com os dementes.

Naquele município, como muitos ainda dizem ocorrer séculos depois: “... é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinda defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua...”.

Nós, aqui, os habitantes da Aldeia Global, portadores da nova doença heteronômica, que abre espaço para uma nova iatrogênese (doenças causadas ou inventadas pela medicina), veremos os novos Simãos Bacamartes, pedir às autoridades dos Governos uma reforma nova desses costumes tão ruins.

Simão, no texto “machadiano“,,, pediu licença à Câmara para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio (hoje um financiamento governamental), que a Câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer...”.

E que existam hoje os milhares de sujeitos com esquizofrenia, bipolaridade, drogadição, depressões e neuroses graves não se pode negar. Entretanto, eu aqui com minhas mazelas psíquicas e físicas, me dou o direito de não enquadrar meus lutos ou perdas em sintomas de novos estresses pós-traumáticos.

Não deixaremos de ter nossas ‘torrentes de novos loucos’. Não deixaremos de ter sofrimentos psíquicos ou dramas existenciais. Não deixaremos de ter ideações confusas, delirantes ou paranoicas, principalmente estas últimas tão em moda em alguns macropolíticos evangelizadores.

A única diferença entre nós e o alienista de Machado será apenas a de uma distância temporal e histórica? Ou estamos no retorno da Casa Verde, retrocedendo, mais uma vez, diante dos avanços, mesmo que tortuosos, que a Saúde Mental conquistou no Brasil?

Há um para além desse momento que desejamos construir? Que temores temos de fugir às padronizações e protocolos internacionais diante de nossas singulares formas de enlouquecer, neurotizar ou adoecer em verde amarelo? Nossos grandes alcoolismos são menores por não serem dependências apenas do uísque?

Podemos ir além dos Serviços Residenciais Terapêuticos, dos Caps, CapsAD, dos Centros de Convivência, dos demais equipamentos que norteiam e se consolidam como os locais substitutivos aos velhos manicômios e seus antigos portões e arquiteturas panópticas?

Recentemente foi feita uma comemoração da Luta Antimanicomial em Porto Alegre onde se propuseram, com a Arte na Rua, além das ações artísticas, também trocar em improvisados ‘consultórios’ na rua o mal-estar dos transeuntes.

“Por meio do grupo de voluntários do grupo Espaço Liso, coordenado por professores da Ufrgs, um pseudo-consultório psiquiátrico foi montado no meio do Largo. Artistas e psicólogos usavam jalecos e sentados a uma mesinha realizavam consultas na hora. Os pacientes não eram convidados e mesmo assim, fizeram do espaço um dos mais requisitados da oficina. “Eu vi o pessoal da medicina aqui e sentei para conversar um pouco”, relatou Jorge A. M da S, como mais um típico brasileiro, que parou para um ‘atendimento’.

Ele, como muitos Outros, ao verem alguém com um jaleco ou identificados como médicos buscam seu número na CID 10 ou no DSM. Lá naquela rua: “Sem saber que não se tratavam de médicos ou psiquiatras, o senhor de 59 anos parou e realizou longa conversa com as ‘doutoras’. Ao final, recebeu um receituário especial que na verdade o recomendava seguir falante e animado com a vida, além de alguns pequenos chocolates coloridos, para simular medicamentos”.

Eu andante de outras ruas e outras esquinas de dúvidas lhe receitaria, como Guattari, apenas um pouco de poesia... Ou Machado de Assis.
OU seja, o Outro Jorge também sabe que, mesmo nos iludindo, somos todos a-normais. 

E uma consulta regada por arte, poesia ou fantasia talvez, sem nenhuma intenção diagnóstica ou terapêutica, possa artisticamente nos curar de nossa mais profunda aspiração: tornarmo-nos corpos perfeitos, imortais e sem nenhuma doença ou imperfeição.

Corpos e mentes irremediavelmente humanos e incuráveis, em nossa finitude e transitoriedade, pois, no fim das contas nenhum de nós é tão belo como a Angelina e nem tão puros e ungidos como o Feliz sem ano.
Até mesmo um poeta, Walt Whitman, em 16 de julho de 1849, buscou a Frenologia. A saúde, principalmente a física, era uma de suas paixões. Pela quantia de três dólares, um ‘frenólogo’, Lorenzo Fowler, “examinou a parte externa do crânio de Whitman para determinar força e a proporção de suas faculdades mentais”.

 Fowler para elogiar, após várias características descobertas pelas medidas cranianas, este ilustre frenólogo, disse sobre o poeta:” Este homem possui uma grande construção física e força para viver até uma idade avançada. Ele sem dúvida descende da raça mais rija e sadia...”.

De quem seria esse cérebro medido em suas partes apenas mais brilhantes? É o de um dos mais reverenciados poetas norte-americanos, ele escreveu as Folhas da Relva, naqueles tempos de Guerra Civil Norte-Sul, de um povo nada belicoso. Considerado, pois um dos mais sadios de seu país, pois segundo essa visão da Frenologia. Diziam “... Toda beleza vem do sangue belo e de um cérebro belo”.

Em qual gaveta ou diagnóstico fechado estaria hoje Whitman? Afinal além de poeta, vendedor de livros, jornalista, enfermeiro e profundamente humanitário, ele era homossexual. E, por essa visão distorcida de alguns psicólogos e pastores deveria, moral, evangélica e modernamente, ser submetido a algum processo de ‘cura’ de suas homem-sexualidades.

E, para os curiosos ou que leram todo o texto, o gran finale do Alienista deixo, para que os que não leram ou o conhecem pessoal e intimamente como eu, buscarem a resposta.

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa .TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)



LEITURAS PARA CRÍTICA, REFLEXÃO E DIFUSÃO –

O ALIENISTA – MACHADO DE ASSIS – Princípio Editora, São Paulo, SP, 1993.

A EXPROPRIAÇÃO DA SAÚDE – NÊMESIS DA MEDICINA – IVAN ILLICH, Editora Nova Fronteira,

Discapacidad Intelectual inclusión y derechos (Via Internet – disponível para Dowload, em formato PDF grátis)

O PODER PSIQUIÁTRICO – MICHEL FOUCAULT, Editora Martins Fontes, São Paulo, SP, 2006.

FONTES – 
NA INTERNET – matérias citadas ou indicadas no/pelo texto:

Nova 'Bíblia da psiquiatria' amplia lista de transtornos e gera polêmica


Movimento antimanicomial (Conheçam a História para entender a necessidade e sua implicação com esse movimento) https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_antimanicomial

O Marketing da Loucura *(VIDEO) https://www.youtube.com/watch?v=OhxqNqQDxwU

JUIZO – Documentário  de Maria Augusta Ramos – sobre jovens infratores e suas realidades - https://www.youtube.com/watch?v=EDtN2Xs_eMU


Papel no Varal traz a loucura em forma de poesia https://www.alagoas24horas.com.br/conteudo/?vCod=147394



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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

UM DIA NÓS SEREMOS QUAL CIF? As Deficiências e sua(s) Classificação(ões)


Imagem publicada – uma gravura antiga com um cérebro que tem múltiplas divisões, como um mapa de classificação de comportamentos humanos desviantes, que era utilizado “cientificamente” para classificar, de acordo com a Frenologia, as alterações de conduta humana que decorreriam de ‘’lesões do caráter” e nossas características de personalidade, inclusive sobre sua/nossa propensão à criminalidade, pela forma de nosso crâneo (cabeça). Desenvolvido por médico alemão Franz Joseph Gall por volta de 1800, e muito popular no século XIX, está agora desacreditada e classificada como uma pseudociência.

Como parte de uma videoconferência a ser realizada estou retomando o tema da Classificação Internacional sobre Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, a CIF, criada pela OMS (Organização Mundial de Saúde), lançada em 2001. Mais uma classificação que tem por objetivo: “proporcionar uma linguagem unificada e padronizada, e uma estrutura que descreva a saúde e os estados relacionados à saúde”.

Se nos preocuparmos com sua utilização, em complementação a CID-10 (Classificação Internacional de Doenças e Problemas relacionados à Saúde), poderemos entrar no campo do futuro das mudanças de paradigmas quanto às Deficiências.

As diversas e diferentes formas de ser e estar com uma ou mais deficiências têm gerado, há muito tempo, a construção de meios de codificação e quantificação estatística de suas realidades no mundo. Nosso último Censo do IBGE nos deu mais um empurrão para que retomemos a discussão sobre o que é, ou melhor, o que são as deficiências (?).

A "gestação" e construção da CIF se deram pela incompletude e pela visão puramente biomédica e fisicalista da sua antecessora classificação de pessoas com deficiência: a CIDID (Classificação Internacional das Deficiências, Incapacidades e Desvantagens). Este manual foi publicado originalmente em inglês, em 1980 e, subsequentemente, traduzido em mais de doze línguas.

Encontramos na CIDID a referência a três classificações distintas, cada qual relacionada com uma consequência diferente de doença. Está aí a concepção que ainda atravessa milhares de mentes, de instituições e de práticas do cuidado e das tecnologias para pessoas com deficiência.

Estas construções de conceitos foram: (1) - Deficiências (em inglês ‘impairments’) que dizem respeito à perda ou anormalidade de estrutura de estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica. Em princípio, as deficiências representariam distúrbios no nível do órgão.

O código a classificava apenas com dois dígitos antes e um dígito após um ponto decimal. Era a aplicação do mesmo modo classificatório já existente na CID. E seu fundamento era da pré-existência indispensável de uma doença que levasse à deficiência. Eis a base do modelo reabilitador.O defeito está e era do sujeito.

O segundo conceito (2) era o das Incapacidades (em inglês, ‘disabilities’) que refletiriam, segundo o CIDID, as consequências das deficiências em termos de restrição ou falta de habilidade para realizar uma atividade de uma maneira ou dentro da amplitude normal para o ser humano. Nesta visão as incapacidades refletem distúrbios no nível da pessoa.

O terceiro conceito (3) era o das Desvantagens (em inglês, ‘handicaps’) que seriam as resultantes ou de uma deficiência ou de uma incapacidade, dentro de uma linearidade de resultados. Estas chamadas desvantagens limitariam ou impediriam o cumprimento de um papel que é ‘’normal’’ (dependendo da idade, do sexo e de fatores sociais e culturais) para um indivíduo.

Os chamados ‘’handicaps’’ foram uma construção a partir de uma visão preconceituosa. O termo deriva da sua colagem, em inglês, com o termo ‘’deficiente’’ (carente, imperfeito, defeituoso, insuficiente, inválido), como uma provável perda de capacidade ou função do corpo.

Corresponde ao termo ‘’hand in cap’’, com a mão no boné, um costume dos países anglo-saxões. Os cavaleiros ou jóqueis mais cotados, em corridas de cavalos, eram obrigados a correr com o boné na mão, portanto tinham de competir com uma (1) só mão. Era a desvantagem...

Daí derivou, há alguns anos atrás, as concepções que nos tornava ‘’portadores’’. Segundo Elio Sgreccia, em seu Manual de Bioética: “A desvantagem no campo médico significa que o portador de deficiência, física ou mental, é considerado como um usuário a meio caminho dos serviços médicos...”. O autor completa ainda que serão considerados doentes apenas nas fases agudas ou por causa de outras doenças específicas.

Essa concepção ainda permanece atravessando a ruptura e a transição de paradigmas que vivenciamos. Ainda muitos serão chamados de “portadores”, “pessoas com necessidades especiais”, “excepcionais”, “incapazes”, “inválidos”. Estas terminologias trazem subjacentes as ideologias que fundamentaram o modelo biomédico e o modelo reabilitador. É preciso que existam os ‘’doentes e seus corpos’’ para que possamos então ‘’classificá-los’’, identificando sua diferença como doença.

Como ultrapassar o modelo biomédico de deficiência? A possível mudança radical, em processo desde 2001, é a aplicação da nova Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, que traz uma ênfase na saúde.

A afirmação de sua mudança de paradigmas, radicalmente, será sair dos modelos que, ainda são puramente médicos e centrados na doença e nos sujeitos considerados doentes. Mas, mesmo ela carecerá de uma vigilância ética e bioética de sua a aplicação.

No próprio manual editado pela OMS há a indicação desta questão. Estabelecem as seguintes diretrizes éticas para a utilização da CIF:
1) A CIF deve ser utilizada sempre de maneira a respeitar o valor inerente e a autonomia dos indivíduos.
2) A CIF NUNCA deve ser utilizada para ROTULAR AS PESSOAS ou identifica-las em termos de uma ou mais categorias de incapacidade (aí prefiro o termo Deficiência).
3) Na clínica, a CIF deve ser sempre utilizada com o conhecimento pleno, cooperação e consentimento das pessoas cujos níveis de funcionalidade estão sendo classificados. Se as limitações da capacidade cognitiva de um indivíduo impedirem este envolvimento, as instituições de apoio ao indivíduo devem ter participação ativa.
4) As informações codificadas pela CIF devem ser consideradas informações pessoais e sujeitas às regras reconhecidas de confidencialidade apropriadas segundo a forma como utilizados.

Por estas diretrizes é que esta “nova” classificação deverá ser tornada motivo de ampla e imprescindível discussão, debate, apropriação e difusão. Ainda é uma forma de classificação que precisa de muitas reflexões, principalmente na sua aplicação na formulação de políticas públicas para pessoas com deficiência. Afinal, somos agora mais de 45 milhões de brasileiros e brasileiras (Censo IBGE).

Os campos da Saúde, da Educação e da Assistência Social estão, aqui e em outros países, fazendo a progressiva capacitação de seus peritos médicos, assistentes sociais e educadores. Porém, como já foi alertado temos de cuidar para que não se torne apenas uma extensão da aplicação ‘’numerológica’’ que se faz da CID. Tornou-se uma naturalização darmos um número às doenças e aos doentes.

É muito mais fácil, menos complicado, menos complexo, e, quem sabe sem muitas implicações éticas, a aplicação de um código ao mal-estar, sofrimento ou enfermidade desses Outros. Nomeamos um número e uma doença. Não teremos de cuidar de todas as questões de seu contexto sócio, politico e econômico com os principais geradores de seu quadro.

Para a aplicação da CIF é lembrado que “todo ser humano pode experimentar problemas de saúde e, consequentemente, alguma incapacidade, (dentro dela alguma deficiência, limitação ou restrição de atividade), delas decorrentes...”.

Esta mudança sai do modelo que busca só as causas (etiologias) para o surgimento de incapacidades, busca também a presença de seu impacto e dos fatores contextuais que se modificam com os múltiplos e plurais estados de saúde.

Saímos da CID em direção a CIF, que, com certeza, também será ultrapassada um dia. E, aí quem sabe, qual será minha nova codificação, minha nova ‘’patologia’’, ‘’defeito’’, ou, quiçá ‘’diversidade funcional’’?

Porém tudo isso dependerá de uma mudança de nossos paradigmas. E, apesar de todas as ‘’revoluções’’ e ‘’primaveras’’, há sempre novas barreiras em construção. As mais recentes dizem respeito à Educação Inclusiva, onde um novo decreto retrocede alguns anos de conquista, saindo do ‘’forno legislativo’’ antes mesmo de ser mais bem apresentado para as massas que por ele podem ser afetadas.

Por isso, pela afirmação de que não bastam termos novas formas de classificar as deficiências, é que teremos de romper com a visão medicalizada, reabilitadora e assistencialista das pessoas com deficiência e seus direitos. A eficácia de normas ou de políticas públicas depende também de mudanças culturais e de mentalidade. Caso contrário mantemos, com re-institucionalização, o passado que pretendemos deixar para trás.

Houve um tempo, desde os séculos XVIII e XIX, que o chamado biopoder com suas práticas disciplinares, buscava a docilização e o adestramento dos corpos. Nascia a biopolítica, segundo Foucault, em consequência das instituições (hospitais, escolas, prisões, fábricas, casernas, etc..) com a visão do corpo como ‘’máquina’’. A mesma máquina, a ser aperfeiçoada, segundo as visões “científicas” da Frenologia e da Eugenia...

Hoje já temos os nossos corpos capazes de serem movidos por exoesqueletos. Somos trans-humanos? Nossas incapacidades, deficiências ou limitações de participação podem simplesmente desaparecer. São as biotecnologias em pleno avanço, tanto para o bem como para o mal...

Estamos no tempo das células tronco que podem mover, mesmo que 100 metros, um paraplégico na Bahia. Estamos na nova Era da Idade Mídia. Mas, sem ruptura dos velhos paradigmas podemos nos tornar tão engessados como os cruzados em sua guerra santa, acreditando, mistificadamente, que os nossos castelos ideológicos são inexpugnáveis e indestrutíveis.

Retomo, então, a necessidade de uma ampliação de conceitos, terminologias ou de classificações acerca e dentro das deficiências. E, nessa busca crítica, poderemos aprender a refletir e ampliar o uso de todas as ferramentas, todas as legislações, todos os instrumentos de poder.

Há sempre a possibilidade de ir além, de subverter e de transformar, individual e coletivamente, o que se considerar nossa atual realidade, principalmente no campo das políticas sociais. Nesse campo a CIF pode ir além de todas as CIDs.
Nessa ação micro e macropolitica podemos afirmar a nova visão em Direitos Humanos que embasa nossa melhor conquista do século XXI: a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

Para que, enfim, possamos ter uma real e efetiva mudança de paradigmas, com a perspectiva de que dois modelos de deficiência podem coexistir, um tradicional (biomédico/reabilitador) e pelo menos um novo (social e biopsicossocial), vamos propor revoluções ‘moleculares’. Elas, que ainda estão se processando, devem ser estimuladas para que continuemos sonhando com uma grande revolução molar dos conceitos e preconceitos sobre a deficiência.

Continuo, continuemos, interrogando: um dia, no futuro, qual será o meu número na CIF? E o seu? Será que, com as multidões e massas que revolucionam todos os dias as redes sociais, produzindo novas e intrigantes cartografias, conflitando os discursos totalizantes ou universais, haverá o nascimento de um para além de todas as classificações?

Então, os nossos olhos não serão mais que olhos. Veremos também pelas janelas da alma. As estruturas do olho, como na CIF pelos códigos de s 210 a s 230, serão muito úteis para outro Censo. O senso da sensibilidade das diferenças, das heterogeneidades, das multiplicidades e das pluralidades do que se chama de ser humano, ESSA ALTERIDADE INDIZÍVEL E INCOMENSURÁVEL, SEM CLASSIFICAÇÃO POSSÍVEL.


(Este texto foi escrito especialmente para ser difundido no SEMINARIO OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA, promovido pelo GEDEF – Ministério Público da Bahia, Salvador, BA, nos dias 28 e 29 de novembro de 2011, com minha participação, à distância, por videoconferência com o tema: “A importância da adoção da Classificação Internacional da Funcionalidade, Incapacidade e Saúde - CIF, para classificação das deficiências e inclusão social das pessoas com deficiências.”)

“Los derechos que no se garantizan igualmente para todos y todas, se convierten en privilégios”
(frase no livro de Pilar de Samaniego Garcia Capítulo VI- Hacia una Educación Inclusiva – resultado de uma séria pesquisa na América Latina sobre a inclusão escolar de pessoas com deficiência).

Copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou em outros meios de comunicação de massa TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

FILME citado no texto-

JANELA DA ALMA – (2001) – João Jardim e Walter Carvalho (Direção) – Sobre o olhar, o ver, o enxergar e o ir além desta janela..., e além de nossas ‘’cegueiras brancas’’.
https://www.youtube.com/watch?v=56Lsyci_gwg (sem legendas)
https://video.google.com/videoplay?docid=1046435147561692538# (com legendas em francês)
https://www.interfilmes.com/filme_13649_janela.da.alma.html (dvd sinopse)

Sobre FRENOLOGIA - https://pt.wikipedia.org/wiki/Frenologia

Livros indicados:

Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, 2003.

Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas relacionados à Saúde (Décima Revisão) – Volume 2 - Manual de Instrução (OMS – Centro Colaborador da OMS para a Classificação de Doenças em Português – Universidade de São Paulo) EDUSP, São Paulo, SP, 2001.

Manual de Bioética – II – Aspectos Médico-Sociais, Elio Sgreccia, Edições Loyola, São Paulo, SP, 1997 (2ª Ed 2004).

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