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quarta-feira, 29 de junho de 2011

ORGULHOS ´MÚLTIPLOS' - no combate a todos os preconceitos


imagem publicada - Um cérebro,com seus dois hemisférios, visto de cima com suas circunvoluções coloridas de diferentes cores e matizes, trazendo a frase a seu redor: Every Brain is Beatiful (Todo cérebro é belo), que é uma imagem utilizada no Autism Pride Day, ou seja o Dia do Orgulho Autista, quando autistas norte-americanos, em 18 de junho de 2005, afirmaram: "Não nos tratem como "doentes”. Somos diferentes, sim. Mas não precisamos de remédio ou de cura, mas de uma chance de sermos nós mesmos..." (http://neuropride.livejournal.com/) . Esse cérebro ''diferente e colorido'' traz as cores do arco-íris, alusão a um símbolo hoje do direitos de pessoas LGBTT, com vermelho, amarelo, verde, azul e laranja reforçando a noção de diversidade de modos de ser e estar em nosso planeta Terra, também multicolorido.

"Da Igualdade - como se me incomodasse dar a outros as mesmas oportunidades e direitos que tenho, como se para os meus próprios direitos não fosse indispensável que outros também os tivessem", Walt Whitman (1819-1892) - Folhas das Folhas da Relva


Na continuidade da busca de demolição de todas as formas de preconceitos e discriminações, assim como homenagem, mesmo que tardia ao Dia do Orgulho Autista, pensei bastante sobre os múltiplos orgulhos que passamos a comemorar. E me perguntei por que temos de ter ainda ORGULHO? me lembrei da leitura afetiva dos primeiros textos de Frantz Fanon. Os mesmos textos que me despertaram o que é o Orgulho Negro. Hoje digo que ele está englobado pelo Orgulho Afrodescendente, em homenagem a um novo olhar contra todos os racismos. 


Mas que orgulho é esse? é apenas brio ou reatividade à alguma forma de segregação ou humilhação que foi sofrida/inflingida aos meus ancestrais? Não, é o orgulho que passamos a ter quando nos identificamos, nos re-conhecemos e nos damos o direito à uma diferença. Como nos dicionários é quando passamos a 'ter um elevado conceito de si mesmo'. Ou seja re-existimos diante de qualquer forma, tipo ou ação preconceituosa.

É quando nos incluímos antes mesmo que nos ofereçam uma inserção condescendente ou por culpa. Cuidamos para não colar mais na nossa pele nenhum rótulo, estereótipo ou estigma. Nos orgulhamos, enfim, do que somos, como somos e por que queremos/desejamos ser/estar múltiplos ou singulares. E comemoramos publicamente, seja em Maio ou Novembro,e agora em Junho. 

No dia 18 de junho comemoramos o orgulho de quem vive com um transtorno: o Autismo. Depois, com uma das maiores manifestações de massa, a Parada do Orgulho Gay, de São Paulo,comemoramos os que escolhem, experimentam, se orientam e vivem como Lésbicas, Transsexuais, Bissexuais,Transgêneros, Homoeróticos, Travestis, Gays, e outras formas de ser e estar que são aglutinadas, respeitadas suas diferenças, sob a sigla LGBTT. Já conseguiram sua replicação para além de São Paulo e afetaram todos os cantos do Brasil. Faça chuva ou sol, sem temor de quaisquer repressões policiais ou políticas do passado.

O movimento de Orgulho Gay nasceu de uma afirmação de direitos civis nos EUA. O Gay Pride Day tornou-se um dia para marcar a conquista dos mesmos direitos que todos os outros cidadãos e cidadãs tinham, têm e terão. O movimento de orgulho gay começou após a Rebelião de Stonewall em 1969, quando os homossexuais em bares locais enfrentaram a polícia de Nova Iorque durante uma disputa inconstitucional. A afirmação de direitos foi a progressiva conquista resultante de Paradas que estão sendo realizadas anualmente até hoje. O orgulho passou a ser afirmação contrária à vergonha imposta pelos preconceitos contra a homossexualidade e outras formas de viver as sexualidades humanas.

Assim como os homossexuais, também os autistas foram e ainda estão sob a preconceituosa visão biomédica de serem apenas ''doentes''. E, apesar de já se ter esclarecido que ambas condições devem ser, hodiernamente, compreendidas como apenas formas diferenciadas de orientação sexual ou de funcionamento do SNC (Sistema Nervoso Central) há um olhar preconceituoso que os discrimina.

O movimento Aspies for Freedom gerou a iniciativa do Dia do Orgulho Autista. Este grupo milita pelos direitos das diferentes formas de autismo, buscando a educação e publicação de esclarecimentos, bem como a conquista de políticas públicas dedicadas para estes sujeitos, tendo como combate principal a genêse de todos os preconceitos: a ignorância.

Os preconceitos, biopoliticamente, como formas exclusão, controle e poder, podem ser assemelhados aos Impérios. Estes recrudescem, enrijecem e envelhecem nos estertores de suas quedas. Tornam-se mais ríspidos, grosseiros, violentos e, defensiva e consequentemente, mais brutais. Desses processos naturalizados e institucionalizados nasceram, historicamente, muitas ditaduras e ditadores. 

Estes herdeiros de tempos imperialistas no temor de que suas práticas macropolíticas e suas ideologias fossem demolidas, com a retirada de cada tijolo ou pedra de seus alicerces, aprenderam, com o tempo, a construção de Muralhas. Para alguns ainda deveríamos construir espaços segregados para autistas ou homossexuais, com muralhas invisíveis que nos protejam das fobias que despertam, em nós, diante de suas diferenças consideradas ''extravagantes'' ou ''fora das normas ou padrões''.

Estas são como as Muralhas da China de Kafka. Porém, com o tempo, tornam-se-ão prisioneiros de seus próprios cerceamentos, com fragilidades que reforçam seus engessamentos institucionais. No Brasil estamos assistindo o espetáculo proporcionado por representantes políticos e radicais religiosos contra todas as mudanças de paradigmas. Reagem de forma agressiva a qualquer mudança, principalmente quando estas autorizam a inclusão nos mesmos direitos os que por suas ideologias devem continuar em segregação.

Em muitos momentos nos sentimos orgulhosos nos novos tempos de Marchas e de Liberdades. Nos sentimos e nos autorizamos a sentir orgulhos que possam ser expressados ''publicamente". Por isso um dia para comemorar qualquer forma de Orgulho de ser ou pertencer é um dia muito especial para quem o vivencia. Na compreensão psicanalítica de Frantz Fanon, um homem martinicano e negro, só quando trabalhamos as alienações que são produzidas em nossas subjetividades é que começamos a nos libertar do que colonizou nossos inconscientes.

Como os ''multiplos orgulhos'' sendo cartograficamente exercidos também nos libertamos das formas como nos propõem, no social, a incorporação de modelos identitários que neguem as singularidades e as diferenças. Quando, caminhando e cantando, com garra e determinação, individual ou coletivamente, compartilharmos novos espaços de liberdade. Espaços que, segundo Toni Negri em carta a Guattari, situam-se no intervalo entre o poder e o saber, o espaço onde o amor, com o concebe Spinoza, pode ser a melhor ligação entre eles.

Por isso o tema da Parada Gay é instigante: Amai-vos uns aos Outros... Hoje, constitue-se para além dos conservadorismos religiosos ou dos falsos guardiões da moral, um espaço livre para a visibilização social desses cidadãos e cidadãs orgulhosos de suas orientações sexuais.

Com as recentes conquistas de direitos para pessoas LBGTT, que vão da união estável ao uso do nome social, também estão em movimento conquista de projetos de Lei para garantir a inclusão de autistas no campo educacional, protegidos pelos mesmos direitos que já dispõem as pessoas com deficiência. E conquistarão mais políticas públicas dedicadas aos chamados transtornos do espectro autista caso seja aprovado o Projeto de Lei do Senado de número 168. 

E desejo que este número nos relembre um ano de grandes mudanças culturais e de transformações políticas, quando muitos de nós acreditávamos em um outro mundo possível, com o Sol sob o asfalto e gritávamos, contra todas as ditaduras e preconceitos: queremos apenas Paz e Amor.

Estamos agora cantando, novamente, como uma nova revolução molecular em ação, aos quatro cantos da Terra, em alto e bom som: Gay is Beatiful e Every Brain is Beatiful. E o novo paradigma ético e estético guattariniano se fará um rompedor das muralhas dos preconceitos redividos... 

Em meus recônditos da memória continua o meu orgulho singular, na voz da saudosa Elis Regina: Black is beatiful... e quero continuar tendo o direito a ter meus ''múltiplos'' orgulhos...e repito Walt Whitman: "...como se para os meus próprios direitos não fosse indispensável que outros também os tivessem'' .


copyright jorgemarciopereiradeandrade 2010/2012/AD INFINITUM  (favor citar o autor e fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Fontes para informação:

Dia do Orgulho Autista - https://pt.wikipedia.org/wiki/Orgulho_gay


Hoje é Dia do Orgulho Autista - conheça melhor esse transtorno https://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2011/06/27/hoje-e-dia-do-orgulho-autista-conheca-melhor-esse-transtorno/

Orgulho Gay - https://pt.wikipedia.org/wiki/Orgulho_gay

Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista - https://www.senado.gov.br/atividade/materia/getPDF.asp?t=92246&tp=1

Referência bibliográfica -
Os Novos Espaços de Liberdade
- Félix Guattari&Toni Negri - Centelha Ed. - Coimbra - Portugal, 1987.


Leia também no Blog -
Asperger: uma Síndrome de Mentes Brilhantes ou não? 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/11/asperger-uma-sindrome-de-mentes.html

Qual é a tua Raça? Nada a declarar. - https://infoativodefnet.blogspot.com/2010/11/imagem-publicada-uma-foto-em-preto-e.html

Vulneração e Mídia no Cotidiano das Deficiências - https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/04/vulneracao-e-midia-no-cotidiano-das.html

A Terra é Azul e o Autismo também - https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/03/terra-e-azul-e-o-autismo-tambem.html

Um Autista pode vir a ser Artista com a Água? - https://infoativodefnet.blogspot.com/2010/04/um-autista-pode-vir-ser-um-artista-com.html

Leia também NOTÍCIAS sobre AUTISMO(S) NO INFONOTÍCIAS DEFNET -

AUTISMO/MÚSICA -LOU, eu me chamo LOU - Lou, je m" appelle Lou Video- sobre artista francês "autista" e cego 

https://infonoticiasdefnet.blogspot.com.br/2013/08/lou-eu-me-chamo-lou-lou-je-m-appelle.html

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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

QUAL É A SUA RAÇA? - Nada a declarar...


Imagem Publicada - uma foto em Preto e Branco de Martin Luther King Jr, o homem negro e ativista de direitos civis, um norte americano que não retornou à África, conforme o desejo de seu presidente Abraham Lincoln, mas afirmou " Eu tenho um sonho..." ( I have a dream) e morreu em 04 de abril de 1968, em Memphis, assassinado... mas deixou o caminho aberto que culminou na presidência dos EUA, agora com um negro.
Foi também perseguido e difamado, como tentativa de apagá-lo da História.

" Vós e nós somos raças diferentes. Existe entre ambas uma diferença maior do que aquela que separa quaisquer outras duas raças. Pouco importa se isto é verdadeiro ou falso, mas certo é que esta diferença física é uma grande desvantagem mútua, pois penso que muitos de vós sofrem enormemente ao viver entre nós, ao passo que os nossos sofrem com a vossa presença..."

De quem é esse pensamento? de Martin Luther King Jr. é que não é... esta é uma afirmação de Abraham Lincoln quando convocou um grupo de negros americanos, hoje chamados de afrodescendentes ou melhor afro-americanos, para um "diálogo" na Casa Branca. Isso ocorreu em 14 de agosto de 1862, quando o presidente tentava lhes explicar o seu desespero quanto ao futuro da "raça" negra nos EUA e o seu interesse em esquemas que os mandasse de volta para a 'mamma' África. Assim começa a história da LIBÉRIA...

No ano passado quando estava imóvel e superdoloroso em minha cama, após a minha neurocirurgia, resolvi começar este Blog. Foi em 14 de novembro de 2009. A primeira postagem era sobre a necessidade de se comprovar o crime de racismo. A primeira postagem teve como título: Atitude racista deve ser comprovada, quando em Minas Gerais o TJ, por maioria de votos negou pedido de indenização por danos morais, pelo servidor R.P.P contra I.A, acusada de atitude racista, por não haver prova suficiente nos autos.

Segundo o ofendido, entre as agressões verbais, ela o teria chamado de “ladrão”, manifestando preconceito racial por declarar que ele deveria voltar para a senzala. E essa afirmação eu já a conhecia muito bem. A minha condição de afrodescendente me chamava para um protesto, para um manifesto e para um alívio de minhas dores. Nasceu e começou assim a história de libertação da dor, como uma chibata, com o blog Infoativo.DefNet.

A atitude de permanência do diversos tipos de racismo na história da humanidade é um fato indiscutível. Podemos separá-lo, a partir de ideologias ou outros modos políticos, da sua existência e persistência, mas não poderemos nunca negar sua presença ainda viva em muitos corações e mentes. As observações de A. Lincoln nos refletem quanto à crença uma ''diferença'' nas relações entre pessoas de raças diferentes, o que não ocorreria entre as pessoas de uma mesma raça. Esquecemos, por isso, que esta visão de 1862, ainda atravessando os séculos, também se permeia de causas políticas, econômicas e sociais.

Ontem deveríamos ter feito uma busca de harmonia com os nossos Diferentes. Ontem poderíamos ter feito uma experiência de educação em Direitos Humanos e Tolerância. Em 16 de Novembro de 1996, a Assembléia Geral da UNESCO convidou os Estados Membros a celebrar o Dia Internacional da Tolerância , de cada ano, com atividades dirigidas às escolas e ao público em geral (resolução 51/95, de 12 de Dezembro). 

Hoje, passados alguns anos, ainda precisamos reafirmar a possibilidade de convivência pacífica com os que denominamos de "diferentes de nós"... dias atrás alguns de nós, racistas de plantão, ainda pretendia, por motivos racistas e excludentes, "afogar" aqueles que ainda usam os paus-arara para migrarem do Nordeste e ajudarem a construir o Sudeste.

Por isso é que a tolerância vem se tornando cada dia mais uma resultante, ou melhor, uma atitude reativa à intolerância, principalmente a que nos é provocada pela violência, pelos movimentos xenofóbicos, homofóbicos, pelo racismo, pela discriminação de pessoas com deficiência, pela segregação de pessoas com transtornos mentais, enfim, todos os movimentos que alicerçam as desigualdades sociais e promovem a Exclusão.

Mas como combater todos estes “males” que estão, transcultural e históricamente, enraizados em nossas mentes e corações? Como combater um preconceito permanente contra toda forma de alteridade ou diferença? O Outro é trasmutado, sempre, em um alienígena que virá nos destruir ou tomar a nossa querida e preciosa Terra ou território identitário.

Para sua exclusão ou até seu ''extermínio'' não precisamos mais apenas dos discursos eugênicos, à moda de Francis Galton ou nazistas, basta que os transformemos em ''pássaros pintados" de outras cores, outras idéias, outros partidos, outras diferenças, outros modos de ser e estar no mundo globalizado. Renasce, então, a busca de uma "raça pura" a ser produzida pelas biotecnologias a serviço de um mundo homogêneo e homegeneizador. O mundo dos ''sem defeitos genéticos ou raciais".

A idéia de raça, portanto, é uma ótima oportunidade para a segregação e para o exercício de "narciscismos das pequenas diferenças", como bem já o demonstrou Freud. É na idéia de que o Outro tem algum atributo, hiper qualificado ou totalmente desqualificado, que o colocamos como "sangue ruim", maléfico e contagiante. O outro passa a ser a encarnação do Mal. E muita gente, em especial alguns políticos neo-liberais, recentemente procuraram se associar à imagem de serem os "homens do Bem".

O Outro, na Idade Mídia, passa a ser visto como o ‘mal’, pois é radicalmente uma invenção maléfica, como o disse Frederick Jameson: “o mal é caracterizado por qualquer coisa que seja radicalmente diferente de mim, qualquer coisa que, em virtude precisamente dessa diferença, pareça constituir uma ameaça real e urgente a minha própria existência....” ,

Assim sendo podemos localizar os “bárbaros” fora de nossa sacrossanta e pura imagem de nós mesmos, afinal ‘malvados’ sempre serão os outros, que podem ser tanto um índio, um morador de rua, um doente mental, um favelado, um deficiente intelectual ou alguém que é estranho ou fala uma outra língua.

E, para lembrar Zumbi e sua potência a comemorar, apenas um "negro"... E aí nascem um dos mais persistentes modos de excluir e de estigmatizar esses outros de coloração epidérmica diferenciada. Nascem e renascem, de modo sútil, no reino da democracia étnico racial do Brasil, os novos racismos.

AOS VISITANTES, LEITORES, COMENTARISTAS, COLABORADORES E SEGUIDORES DO BLOG INFOATIVO.DEFNET ENVIO HOJE MEU AGRADECIMENTO E UM DOCE ABRAÇO PELOS MAIS DE 15.000 ACESSOS AO BLOG. E TODOS E TODAS CONVOCO PARA UMA REFLEXÃO SOBRE NOSSOS MAIS ÍNTIMOS E RECÔNDITOS PRECONCEITOS, POIS "NÃO PENDEMOS INTEIRAMENTE PARA O LADO DOS ANJOS"...


NÃO PRECISAMOS COMPROVAR, CONFORME A DECISÃO DO TJMG, A PRESENÇA DA DISCRIMINAÇÃO E DA SEGREGAÇÃO, MUITO MENOS O DESEJO DE ALGUNS DA PERMANÊNCIA DA ESCRAVIDÃO, DO TRABALHO ESCRAVO E DA DESFILIAÇÃO SOCIAL PARA HOMENS, MULHERES, CRIANÇAS, IDOSOS, QUE TENHAM SIDO CLASSIFICADOS OU DE PARDOS OU DE NEGROS NO ÚLTIMO RECENSEAMENTO DO IBGE. O CENSO DIRÁ, OS NÚMEROS AINDA CONFIRMARÃO...

Por isso ainda precisamos nos lembrar de ZUMBI DOS PALMARES... Resistir é preciso, viver é im-preciso. Se me perguntarem qual é a minha raça, sabendo-me apenas humano, demasiadamente humano, responderei: NADA A DECLARAR, como aquele histórico personagem dos anos de chumbo da Ditadura no Brasil, pois já me reconheci em meu NEGRUME. E dele, poeticamente, me apropriei... como Frantz Fanon e Beatriz Nascimento. E, no meu âmago, não preciso explicar que, continuarei de muitas e múltiplas cores, dores, amores, odores e dissabores, tentando vencer meus próprios preconceitos.

copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar as fontes e autores em reproduções livres pela internet ou meios de comunicação de massa - TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

INDICAÇÕES PARA LEITURA:

A IDÉIA DE RAÇA - Michael Banton, Edições 70, Lisboa, Portugal, 1977

O RACISMO EXPLICADO A MINHA FILHA - Tahar Ben Jelloun, Ed. Via Lettera, São Paulo, SP, 2000.

*SOBRE A LIBÉRIA - https://pt.wikipedia.org/wiki/Lib%C3%A9ria

ATITUDE RACISTA DEVE SER COMPROVADA
https://infoativodefnet.blogspot.com/search/label/Racismo

COMO FAZER A CABEÇA COM BEATRIZ NASCIMENTO
https://infoativodefnet.blogspot.com/search/label/Beatriz%20Nascimento

NA NOITE GLOBAL TODOS OS SERES TORNAM-SE PARDOS https://infoativodefnet.blogspot.com/search/label/Frantz%20Fanon


MARTIN LUTHER KING Jr.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Luther_King_Jr.

vídeo - I HAVE A DREAM - https://www.history.com/videos/martin-luther-king-jr-i-have-a-dream

LEIA TAMBÉM NO BLOG -
RACISMO, HOMOFOBIA, LOUCURA E NEGAÇÃO DAS DIFERENÇAS: AS FLORES DE MAIO https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/05/racismo-homofobia-loucura-e-negacao-das.html

RACISMOS, NEGRITUDES E INTOLERÂNCIAS, CONSCIÊNCIA PARÁ QUÊ? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/11/racismos-negritudes-e-intolerancias.html

RAÇA, RACISMO E IDEOLOGIA: ZUMBI ERA UM VÂNDALO, UM BLACK O QUÊ? 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/11/raca-racismo-e-ideologia-zumbi-era-um.html

domingo, 22 de novembro de 2009

NA NOITE GLOBAL TODOS OS SERES TORNAM-SE PARDOS

imagem publicada de foto de FRANTZ FANON, como descrição para pessoas cegas  ou com deficiências visuais-  onde o psicanalista e psiquiatra martinicano está com a projeção de seu rosto duplicada em fundo preto e branco. Psicanalista e revolucionário defensor da descolonização dos inconscientes coletivos, que faz parte da história de libertação da Argélia, e deixou obras insuperáveis que são os referencias para os estudos pós-coloniais e diferentes campos do conhecimento...

NA NOITE GLOBAL TODOS OS SERES TORNAM-SE PARDOS

"(...) Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não têm, nem entendem em nenhuma crença. (...) Portanto Vossa Alteza, que tanto deseja acrescentar à santa fé católica, deve cuidar de sua salvação. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim." Carta de Pero Vaz de Caminha, 1/5/1500.

A Carta de inauguração textual desse novo território de 'gente' diferente, a partir do olhar eurocêntrico, lavrada pelo nosso primeiro missivista é uma revelação que todos podem questionar. 

Ela é datada, historiograficamente, mas a cito como reafirmação de uma questão ainda atual. O desejo inerente ao pensamento colonialista e dominador que atravessa todo discurso que fala em, 'tornar o Outro livre' ou a ele oferece alguma forma de redenção ou salvamento, ou de incluir os selvagens ao mundo civilizado. Pero Vaz de Caminha apenas traduziu um dos eixos centrais do modelo de colonização a que fomos, a Terra Brasilis, submetidos.

E um dia, logo após a morte de Zumbi, fez-se uma noite global, a Terra, Gaia, escureceu, quando todos os homens e mulheres, todos os seres humanos, ficaram pardos...

Escrevi há algum tempo um artigo, instigado por uma amiga, sobre a presença/ausência, nos textos sobre multiculturalismo, de um dos mais combativos psiquiatras e psicanalistas da des-colonização de nossos inconscientes coletivos: Frantz Fanon.

Para quem não o conhece passo algumas informações rápidas: Fanon nasceu preto e martinicano, portanto falando/aprendendo francês na Martinica, então colônia francesa, participou da II Guerra Mundial, fez Medicina na Faculdade de Medicina em Lyon, onde se formou em Psiquiatria, tendo a oportunidade de uma sólida formação em filosofia e literatura, passando por cursos de Merleau-Ponty e Jean Lacroix, convivendo com Lacan, fez incursões literárias em Hegel, Marx, Husserl, Heidegeer, Freud e Sartre. A este último coube o privilégio de prefaciar a obra que culmina com a época de sua morte, por leucemia, em 1961: Os Condenados da Terra.

Trago a memória de Fanon para nossos tempos, afetado que sou pelos seus textos, para uma compreensão do que tratamos como preconceito ligado à epiderme, ou outras originalidades, do Outro. Preconceito que nada mais é do que a tentativa de justificar o controle e a negação da Diferença, como nos explicou, em seu livro Pele Negra-Máscaras Brancas, este raro psicanalista negro: "-Negro sujo' ou simplesmente 'Olhe, um negro'. Vim ao mundo, preocupado em dar um sentido às coisas, querendo ser na criação do mundo e eis que me descubro objeto no meio de outros objetos..." (1).

Fanon em sua biografia deixou-nos também um exemplo da implicação com a vida e contra qualquer forma de opressão ou preconceito. Ele tornou-se um cidadão argelino, quando de sua vivência das atrocidades promovidas pelos franceses na luta de resistência pela independência da Argélia. Lá pode viver na pele a imposição de um regime colonialista, uma verdadeira escola de tortura e torturadores, que bestializava os afro-argelinos, mesmo que pertencentes à chamada África Branca, com a finalidade de justificar a dominação dos países africanos pelas potências europeias  Lá o modelo das Cruzadas era mantido também a ferro e fogo.

E se, na história oficial, nós os ìn-dios (sem deus) fomos 'descobertos' pelos europeus, a eles e sua Santa Fé deveríamos prestar obediência e servidão, ad infinitum, assim também funcionou a máquina de colonização no continente africano. Mas Fanon não fugiu à sua plural e humanitária formação. Ele se tornou um ativista da resistência argelina, reconhecendo, naquele momento histórico dos anos 60, que a violência tornara-se uma resistência, principalmente cultural, à opressão e à colonização. 

E por entrar de corpo e alma na guerra de libertação argelina sofreu diversos atentados e tentativas de assassinato, mas nunca desistiu do enfrentamento da divisão da sociedade em colonizados e colonizadores. Para ele o inconsciente de um antilhano negro é o mesmo de um europeu branco, como um psicanalista sempre soube que nossos inconscientes não tem cor de pele, muito menos o ideológico preconceito de raça...

DENTRO DO "GARRAFÃO MULTI-TRANS-INTERCULTURAL"

"Sou um homem e devo remontar ao passado do mundo... Todas as vezes que um homem fez triunfar a dignidade do espírito, todas as vezes em que um homem disse não a uma tentativa de escravização de seu semelhante, senti-me solidário com teu ato.." (1) F. Fanon

Aqui, segundo Fanon, não se está aprisionando o homem no passado, mas projetando-o para o futuro, pois quando não podemos mais respirar, por força e ação de qualquer forma de opressão ou despotismo, qualquer um nós ou muitos se revoltam. Mesmo que isso possa levar muito tempo.

 E, na atualidade, a cada dia, nos vemos mais e mais imersos em processos sutis de aprisionamentos, alguns deles, para brancos e negros, ou de outras epidermes coloridas, tomando nossos inconscientes, a exemplo dos nossos narcismos das pequenas diferenças. 

Aquele que nos distingue até entre os que identificamos como parte ou integrantes de nossa 'gang', 'tribo', 'comunidade do Orkut' (que foi extinta), 'membros da mesma confraria', 'parceiros do Facebook', 'inseridos em nossos grupelhos', 'fiéis da mesma igreja', 'idênticos em nossos bandos', 'identitários por nossas corporações', 'filiados a nossos clubes', 'fixados nos mesmos sermões, crenças ou dogmas', 'consumidores da mesmice', 'membros do mesmo cartão de fidelidade', 'usuários das mesmas drogas', 'vestindo a camisa do nosso time', ou do 'nosso uniforme', 'escolhidos de nossa elite', ou do 'nosso partido'..., pois para o poeta Carlos Drummond de Andrade: 

"(...) Contudo, o homem não é igual a nenhum outro 
Homem, bicho ou coisa.

Ninguém é igual a ninguém.

Todo ser humano é um “estranho ímpar.” (2)

Porém, apesar dessa constatação poética, estamos cada dia mais tendo de escrever sobre inclusão e o reconhecimento da Diferença do Outro, para além de nossa estranheza, atração ou repulsa pelos nossos semelhantes. Escrevi, no artigo citado: " Na noite global todos os homens são pardos" (2005), sobre o paradoxo de estarmos vivendo um processo em que nos movemos divididos, narcisística e individualizadamente, o qual chamamos de globalização. 

Para um tempo que prefiro chamar de Era do Acesso (Rifkin), onde, por exemplo emblemático temos a Internet, onde alguns 'tocam na minha Banda Larga' e maioria, do lado de fora, nem mesmo ouve os seus ruídos de informação, faço a proposta de um 'koan' (dilema Zen). 

Estaríamos, metaforicamente, vivendo como pequeninos gansos que, ao nascer, foram colocados dentro de uma grande garrafa: o 'garrafão multi-trans-intercultural', hoje denominado de Mundo Globalizado, Hipermidiatizado e Hipercapitalista. Então, a nós, apresenta-se a seguinte interrogação: "Há muito tempo um homem colocou um ganso no interior de uma garrafa. Ele cresceu tanto que de lá não pôde mais sair. Como poderá o homem retirá-lo da garrafa, sem quebrá-la nem ferir o animal?” (3)

Então, como mais uma provoc-ação e estimulo às nossas imaginações, que podem ser quase estagnadas, vamos refletir o seguinte:vários homens e mulheres, quando ainda infantes e incipientes, de diferentes hordas, tribos e grupos étnicos, linguísticos e culturais, fomos sendo colocados em um imenso garrafão, um “garrafão mult-trans-intercultural”, tal qual as redomas protetoras de filmes de ficção científica. Algum tempo depois, após diferentes movimentos e acomodações, após alguns séculos de processo dito civilizatório e controle de nossas pulsões e subjetividades, nos ficaram as seguintes interrogações: como permaneceremos neste garrafão? 

Qual será a saída para que possamos, tal como porcos espinhos, nos colocarmos próximos/afastados, incluindo/excluindo, aceitando/rejeitando as diferenças? 

Como lidar com esta inadiável inversão do temor de sermos tocados, pelo Outro, pelos Outros, esses ‘estranhos ímpares”, ainda mais depois que fomos regados com um 'molho crítico-filosófico' de Spinoza, Foucault, Fanon, Bauman ou Deleuze? Como poderíamos sair deste garrafão caso nossa convivência humano/animal nos tornassem insuportáveis ao nosso mais próximo vizinho? Como não cair na 'tentação' da homogeização de nossos afetos, ideias, sensações e comportamentos, a fim de nos libertar destes ‘aprisionamentos’?.

MAS COMO FAZER OMELETE, SEM QUEBRAR A CASCA DO OVO?

Por isso é que a nossa re-visão desnaturalizadora dos paradigmas torna-se urgente. Não podemos nos tornar a 'todos e todas' PARDOS. No período colonial os pardos eram os que se distinguiam dos negros, pois eram os 'nascidos em liberdade', filhos de alforriados. Porém, no alfabeto libertário de Fanon esta liberdade 'concedida' apenas seria o mote para uma boa anedota:
"Um dia , São Pedro vê chegar na porta do paraíso três homens, um Branco, um Pardo, um Negro. " - O que você deseja? pergunta ao Branco. " - Dinheiro . " - E você? pergunta ao Pardo. "- A Glória. "- Dirigindo-se ao Negro, este lhe responde, com um grande sorriso aberto. "- Eu vim trazer a mala destes senhores".(4)

Portanto, a nós brasileiros e brasileiras, que durante muito tempo negamos nossa negritude, mesmo carregando uma pesada mala sem alça colonialista, já estamos conseguindo, após indignação e midiatização, devolver aos ingleses o seu cargueiro cheio de seu próprio lixo, talvez possamos criar/inventar outras linhas de fuga ou outras formas de resistência ativa se, não caindo na armadilha atraente de um 'garrafão aconchegante e hiper saciador', tivermos a ousadia de quebrarmos as cascas de nossos próprios ovos de serpente.

Aos meus 'estranhos ímpares' um brinde à Frantz Fanon: reconhecer-se Homem, só, mortal, finito, transitório, sujeito, muitas e infinitas vezes a ser apenas um objeto diante do Outro e sua incompreensível alteridade/multiplicidade, e, com uma indispensável qualidade: o humor.

Com vocês deixo a próxima piada desnaturalizadora e demolidora de estereótipos e estigmas, mas peço que a re-contem sem a finalidade de naturalizar o preconceito, portanto não valem piadas sobre: negros, mulheres loiras de mini-saia, pessoas com deficiências intelectuais, cegos, surdos, anões, albinos, nossos queridos portugueses ou japoneses e judeus, homoeróticos, transexuais, índios, carecas, obesos, 'mulatos', ..., e, principalmente de loucos e psiquiatras. A não ser que sejam agora de "humor branco", o humor dito negro agora não é mais politicamente correto. Ou então um novo humor ao 'molho pardo'? que tal?

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
(1) e (4) Frantz Fanon - Pele Negra, Máscaras Brancas - Ed. Outra Gente/Fator, Rio de Janeiro, RJ, 1983.

(2) Carlos Drummond de Andrade – Igual-desigual – A Paixão Medida – José Olympio Ed., Rio de Janeiro, RJ, 1983.

(3) Daisetz Teitaro Suzuki – Introdução ao Zen-Budismo, Ed. Civilização Brasileira, RJ, 1973, pág. 44.

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