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domingo, 10 de setembro de 2017

CARTA (DE) VIDA AOS JOVENS SUICIDADOS.

Imagem Publicada- um poemapictórico meu onde sobre o fundo de cor preta está a frase – Es Cre Ver sobre o Preto  para que o Negro vire Poesia e Não apenas a Capa Preta da Realidade Obs escurecida... Com pequenos ”riscos” em vermelho para nos lembrar dos riscos que corremos quando negamos o quanto somos vulneráveis, e o quanto nos submetem à vulneração hoje em dia. A vocês, mesmos temerosos, a afirmação de novas cartas e cartografias para o Viver, apesar e além de todas as de-pressões ou lutos ou lutas.

“Não pode ser próprio do poeta entregar a humanidade à morte. E, com consternação que ele, que não se fecha a ninguém, percebe o poder crescente da morte em tantas pessoas. Mesmo que  a todos pareça façanha inútil, o poeta vai pôr-se a sacudir esse poder e jamais, em hipótese alguma capitulará...”  
(Elias Canetti, A Consciência das Palavras, pág.322, a última)

Jovens, vocês são, nós somos, e serão, o motivo e o objetivo principal de minha carta subjetiva. É uma 'missiva' dos tempos dos furações, das opressões, dos desfiliados, das violências naturalizadas, das banalizações dos espetáculos do Estado, das farsas macropolíticas  a favor da Sociedade de Controle. Tempos de Vidas Desperdiçadas dirá Zygmunt Bauman.

Como escrever para nossa juventude que passa mais de 04 horas, em média ou mais, conectada a um smartphone? A mesma que tentam compreender, inventar subjetividades, produzi-las, além de prender e tentar matar, principalmente se sua pele for negra?

Talvez, seguindo a máxima do Canetti, tenha que lhes provocar poeticamente. Quem sabe minhas palavras com alguma consciência, vinda ainda do Século XX, quiçá visionárias, possam lhes afetar. Como lhes ajudar a resistir aos mensageiros do Nada?

Não posso ir além dos limites das letras e dos espaços de repetição. A síntese que me pedem é quase impossível para uma mente e um coração poéticos. Não sei se já me excedi aos 140 caracteres ou às frases de efeito das redes sociais.

Só peço então que me acompanhem em uma re-descoberta de um Poeta. Um daqueles que pode ter sido suicidado ainda jovem. Embora, com certeza, alguns só o leiam pelo viés ideológico, lógico que irei seguir meu desejo de lhes dar VIDA e não mais uma pá do cale-se dos tempos de temor e não de amor.

Convido a que leiam comigo este poema. Foi escrito por MAIAKÓVSKI (1894-1930), o poeta russo, dos anos pós-Revolução Soviética, para um amigo: Sergei Iessiênin (1895-1925). Esse amigo, também poeta, suicidou-se num quarto do hotel Inglaterra, em São Petersburgo (Leningrado). Ele, ao se sangrar, escreveu com o próprio sangue seus últimos versos: “Morrer não é novidade nesta vida. Mas viver, com certeza, não é mais novo”.

Como sei que não há palavras soltas, mas que gostaríamos de não aprisioná-las. Escrevendo como um poeta, ou seu arremedo, sinto que preciso das palavras de um poeta revolucionário para tentar essa sensibilização sobre o suicidar-se ou ser suicidado. Não as Cartas a um jovem poeta do Rilke. São apenas como diziam, antigamente, as ‘mal traçadas’ linhas com tinta escorrendo entre elas. E, críticos e descrentes, possam questionar e se questionar com elas.

Deixou-nos o poeta russo essas provocações. Peço que tenham a paciência da degustação de seu modo único de escrita e sensibilidade:

“PARTITES como dizem
Para o outro mundo
O vazio...
Estás planando
Até o céu bordado de estrelas.
Chega de adiamentos e de vodka.
Sobriedade.

Não, Iessiênin, isto não é zombaria.
Na minha garganta
Nada de escárnio
Mas uma bola de tristeza.
Eu vos vejo com uma mão de cera
Hesitando agitar o saco
De vossos próprios ossos.
Parai, deixai para trás!
Que ideia é essa de derramar
No vosso rosto esse giz mortal?
Vós que sabeis escrever coisas
Como ninguém no mundo.

Por quê? E como?
Derramam-se em hipóteses
Os críticos gaguejam:
De quem é a culpa?
Muito a dizer...

Mas, sobretudo lhe faltava ‘conexão’ ou ‘ligação’?
O resultado?
Muita cerveja ou aguardente?
Dizem que se vós deveríeis ter trocado a boêmia
Pela burguesia;
A classe vos teria influenciado,
Fim das lutas.

Mas essa classe a sua sede
Ela sacia com kvas (bebida russa não alcóolica)?
A Classe ela também, para beber
Entende bastante.

Dizem que se houvessem juntado
Alguém de ‘Sentinela’ (vigilância dos escritores ‘proletários’)
Teríeis feito muitos progressos:
Poderia a cada dia
Escrever vossos cem versos,
Enfadonhos e compridos
Como Doronine.        (poeta soviético – 1900 – 1978)

Para mim este delírio
Se tivesse realizado
Vós teríeis muito mais cedo
Sobre vos mesmo se atacado.
Melhor morrer de Vodka
Do que de Tédio!

Nem a forca, nem a faca
Nos darão a chave desta perda.
Talvez se tivessem tinta no Hotel Inglaterra
O Senhor poderia ter evitado
De se cortarem as veias.

Os imitadores se alegram: “Bis”!
Todo um pelotão que faz
Sobre si mesmo, justiça.

Por que aumentar o número de suicídios?
Melhor seria aumentar a produção de tinta!
Para sempre agora esta língua
Fica presa entre os dentes,
É duro e deslocado fazer mistérios
O povo aquele que cria a língua
Perdeu um de seus artesãos
Farristas e sonoros.
E trazem as quinquilharias
Dos versos funerários
Quase os mesmos desde o último enterro.
Deveríamos dispensar o féretro
Com um cajado
Estes versos inexpressivos.

É assim que se homenageia um poeta?
Ainda não vos construíram um monumento;
Onde estão os quilos de bronze
Ou os gramas de granito?
Que diante da grade da lembrança já tragam
As bugigangas das homenagens e dedicatórias.
O vosso nome é colocado em lenços.

O tenor Sobinov baba as vossas palavras
E sob uma árvore magrinha ele agoniza:
‘Nem mais uma palavra, meu amigo,
Nem um suspi-i-ro’
Ah! É de outra forma que deveríamos
Falar de Leonid Lohegrin!

Levantar-se em fulminante escândalo,
-Eu não permito que se mastigue
E se massacre assim os versos!
Assoviar com os dedos até deixa-los surdos
E mandá-los aos infernos!
Que fujam esses detritos sem talento,
Enchendo as velas se seus paletós
Que o crítico Kogan levado em sua debandada
Espete os transeuntes com seu bigode.
A sacanagem  hoje em dia ainda não ficou rara.
A tarefa é grande mal bastamos.

É PRECISO REFAZER A VIDA,
UMA VEZ REFEITA PODEREMOS CANTÁ-LA.
O NOSSO TEMPO, PARA PENA GERAL, NÃO É MUITO FÁCIL.

Mas digam-me os ‘inválidos’, os impotentes,
Onde e quando aqueles que são grandes
Escolheram os caminhos traçados e fáceis?
A palavra capitaneia a força humana.
PARA FRENTE, ANDEMOS,
E que o tempo estoure em bombas
Que o vento sopra para os dias passados
Só de leve mechas de cabelos misturados.
PARA A ALEGRIA O NOSSO PLANETA
ESTÁ MAL PREPARADO.
É preciso extorquir a alegria aos dias futuros.
NESTA VIDA MORRER NÃO É DIFÍCIL
CONSTRUIR A VIDA É BEM MAIS DIFÍCIL ”.

Sim construir vidas é bem mais difícil. É muito fácil para os hipercapitalismos de desastre as destruí-las depois das ondas e dos ventos dos tsunamis, e dos Estados de Exceção. Foram jovens estudantes que levaram, em 1930, ao Poeta, que antes fora consagrado pela Revolução Soviética (1917), em 04 de Abril de 1930, aos 36 anos, nos deixasse também pelo suicídio.  Ele era acusado de usar ‘palavras indecentes’ e de ser “... incompreensível para as massas’’.

Ele replicou aos jovens do LBM da época: “Quando eu morrer, vocês vão ler meus versos com lágrimas de enternecimento”. Hoje, nenhum daqueles jovens insuflados por ideologia e desejo de poder, hoje também por dinheiro, é ou foi lembrado com o poeta.

Por isso vos digo como quem já teve a Dona Morte nos calcanhares, e, hoje a hospeda apenas na varanda de sua/minha verdadeira morada, meu/nosso corpo: “Não neguem o temor de Viver, intensamente, quando for preciso RE-EXISTIR ao caminho mais simples: a alienação de si mesmos” (jmpa2017).

 Um doceabraço a todos e todas que ainda se sentirem afetados e tocados pela e com a Poesia e pelas Artes.

Copyright/left 2017 ad infinitum, com todos os direitos reservados, favor citar o autor em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação e dominação de massas.    TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025

LEITURAS CRÍTICAS:

A CONSCIÊNCIA DAS PALAVRAS – Elias Canetti, Companhia das Letras.

VIDAS DESPERDIÇADAS – Zygmunt Bauman, Jorge Zahar Editor.

MAIAKÓVSKI – Vida e Obra – Editora Martin Claret.


Preventing suicide: a resource for media professionals - update 2017 WHO https://www.who.int/mental_health/suicide-prevention/resource_booklet_2017/en/

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terça-feira, 29 de abril de 2014

ENVELHE=SER ou TORNAR-SE, + 1, VELHO?

Imagem publicada – fotografia que fiz de meu pai ao por do sol, em Cambuquira, MG, em contraluz, há muitos, muitos, muitos anos atrás, pois agora, somente agora, aos 104 anos completos, sua silhueta começa a apresentar os chamados sinais físicos do envelhecimento. A sua memória e seu humor continuam os mesmos. Não conhecem esse crepúsculo, que para mim e muitos se antecipa: o não aprender a ser, apenas ao falso aprendizado do conformar-se, ao consumir-se a si próprio.

“A liberdade e a lucidez não servem para grande coisa, se nenhum objetivo nos solicita mais: elas têm um grande valor se ainda somos habitados por projetos. A maior sorte do velho, mais que gozar de boa saúde, é sentir-se que para ele, o mundo ainda está povoado de fins...” (Simone de Beauvoir, A Velhice).

Eu, aqui indagante, conheço um que ainda nutre projetos, romarias e caminhadas, rumo a um Norte de fé e solidariedade. E, se lhe for perguntado se teme as bolhas nas solas dos pés, o frio ou as distâncias, responde lúcido e livre, sem medo, visível, da Dona Morte: “eu ainda não morri”.

Tento seguir na sua trilha existencial, uma vereda imprevisível e sempre tortuosa, vencendo montanhas de temores ou amores, entretanto, uma pergunta me assombra nos tempos atuais: Envelhe=ser ou Tornar-se Velho? Essa inevitável pergunta me acompanha há alguns dias. Hoje me ficou mais próxima e íntima, mais intensa com esse aniversário de meu pai centenário. Um espelho vivo e intenso no qual tento me admirar.

A filósofa que cito, Simone de Beauvoir já me trouxe, há muito tempo, a revelação de que: Mulher não se nasce, Torna-se Mulher... E, usando e abusando dessa interpretação do feminino, reflui para o questionamento acima apresentado. Tornamo-nos apenas velhos? Velhos saudáveis sem projetos?

Repasso-lhes, sem respostas definitivas, a indagação: vamo-nos tornar apenas ‘velhos’, eternamente rejuvenescidos? Obsoletos? Asilados ou Exilados? Antigos ou “artigos científicos” de engenharia genética sem éticas que nos prometem a imortalidade ou a perfeição? Ou seremos, bioéticamente, os que querem re-nascer aprendendo a morrer?

Somos todos seres em processo, biológico e humano, em um processo vital chamado de envelhecimento. Nascemos já mortos. Nascemos já imperfeitos e na incompletude de nos sabermos mortais, finitos. Essa finitude nos leva a buscar asilo e abrigo na defesa inconsciente de uma eterna juventude.

Abrigamo-nos sob as asas obscuras da nossa própria obscenidade, nossos fins como obsoletos. Tudo muda com o tempo. Tudo se esvai. Somos, todos e todas, dispensáveis, quiçá, como diz Baumann, somos hodiernamente descartáveis. Poderíamos, ao menos, sermos, no futuro, corpos recicláveis?

Entretanto, quando nos defrontamos com nossos próprios estreitamentos daquela vereda e trilha existencial, o horizonte, que só era para os Outros, se torna mais próximo. Mais visível na estrada aberta em processo de fechamento, de sol poente. Um crepúsculo existencial, hora de chegada que também é uma partida, como disse Milton Nascimento. Um trem ou um treco?

Se formos, mineiramente, como meu ‘velho’, atrás da linha, atrás das Marias Fumaças, em cada estação, em cada parada, levando nossos sentimentos- locomotivas, nossos devires. Encontramos novas linhas, novas fugas, novos túneis. Ao fim deles sempre houve uma curva nas minhas serras geraes. Aos nossos fins também gostaríamos de saber quem e o que nos esperará na plataforma das próximas e insondáveis Estações.

O QUE CHAMAMOS, então, de VELHO, ao nos sentirmos assim?

Aquele jeans que já lavamos diversas vezes? Contraditoriamente, como a vida, a sua cor desbotada torna-se por isso mesmo o símbolo de juventude e, como antigamente, a roupa mais ‘cara’, como sentido de desejada. Já foram até artigo de luxo ou classificação. Hoje, dentro do modo shopping de ser, se tornam mais caros ainda se forem a farrapos. Como alguns seres humanos, hora depreciados como velhos e usados, hora inflacionados como moda.

Aquele que caminha sobre as três patas, interrogando-se sobre o Enigma da Esfinge, é o jovem ou o velho, o que decifra ou que é antecipadamente morto? Ambos acabam usando o cajado, a bengala, o suporte ou a morte. O seu entardecer vital já visível, sobre um apoio extra para sua caminhada, vira um símbolo da sua dependência, tanto para a marcha como do mundo, para uma posição curvada que o torna menos nobre, menos desejável? Não poderia tornar-se uma alavanca?

Ao completar os 60 anos? A idade que nos permitirá algumas ‘regalias’ ou ‘aposentadorias’? Aquele momento de encanecimento das mechas de nossos cabelos, pele e pelos, dos mais visíveis aos mais íntimos? Há, porém aqueles que nos dizem ser a melhor idade, o momento do sentir-se sábio, experiente e com a vida dos que só descansam, mesmo que o dia inteiro de pijamas?

Entretanto, pelas minhas vivências mais próximas e familiares venho aprendendo a desaprender esses conceitos eivados de preconceitos, de mitos e de falácias. O meu próprio pai, aqui lembrado e homenageado, com o texto e a poesia que segue, ultrapassa amanhã, no dia 30, os 104 anos. Ultrapassa muito mais ainda por continuar sendo querido, respeitado e amado.

E, para os que ainda lhe perturbam, como os médicos e as medicinas, ele diz, bem humorado: -“amanhã, vou ao consultório e luto boxe com eles... e verão como ainda estou forte”. Prova não de vigor físico, mas de sua outra força: o humor, bom e gozado, que não deveríamos jamais esquecer ou perder. Com certeza, hoje com os seus 104 anos já tem outros diálogos com a Vida e com a Dona Morte.

Quem sabe já encontrou algumas das suas quase respostas. Eu, aqui, buscador de novas veredas, cartografias e afetos, tento me/nos alertar ou alegrar com poesia e arte.

ENVELHE-SER

SERÁ APENAS VERBO, RIMA, DESFECHO,
SABÊ-LO É UMA SINA?
VERBO QUE PODE SE CONJUGAR, RIMAR OU TER DESCOMPASSO
COM O NASCER...! OU, COM ANGÚSTIA, APENAS SER...
 EM MOMENTOS DE LUCIDEZ FERINA QUE FERE,
ENQUANTO A MUITOS SUBJUGA,
EM OUTROSMOMENTOS, OUTRAS ÁGUAS LÚCIDAS,
ATORMENTA.

QUEM SABE E ESPICHA PARA ALÉM DO CORPO,
MUITO POUCOS AINDA ÁVIDOS, MESMO QUE JÁ PERDIDOS,
OUTRAS BÚSSOLAS, OUTROS NORTES, OUTRAS SORTES,
ORIENTA-LHES O PERDER-SE PARA VIVER...
EM-VELHO-SER

UM DITO ANTIGO E BEM DITO
QUIÇÁ EPICÚRICO E NÃO DE CIANURETO,
A CADA RUGA, A CADA UMA DAS RUSGAS,
INSISTE E RE-EXISTE, TEIMA E APRENDE,
A CADA GESTO MAIS LENTO,
NAQUILO QUE PERDE DE MEMÓRIA E MOVIMENTO,
A LEMBRANÇA DO ÁGIL, DO RÁPIDO E FORTE,
TORNAM-SE APENAS PROVOCAÇÃO...

REAPRENDER É SEMPRE IMPRECISO,
NÃO BASTA NAVEGAR, CARO POETA,
OS HERÓIS ARGONAUTAS, OS DESTEMIDOS,
AGORA GERÔNTICOS, SÓ APRENDEM, NESSAS ÁGUAS,
QUAIS INICIANTES, COMO SEUS DISCÍPULOS,
QUE SEU NORTE AGORA É DA DONA MORTE...

E, COMO A AREIA NÃO CESSARÁ SEU DESPERDÍCIO,
É HORA DE NÃO SE INCOMODAR, NEM DE SUPLÍCIO,
CONTINUA, CAMINHA, NAVEGA, SE PERDE
 E APRENDE, APRENDE
QUE SÓ SENTE, MENOS SOZINHO,
QUANDO A MÃO QUE É PRÓPRIA LHE ASSEGURA,
MAS QUE TAMBÉM SERÃO AS MÃOS ALHEIAS,
MESMO QUE DESBOTADAS, OU ATÉ FERIDAS,
QUE O REAFIRMAM,
COMO CORPO, COMO CARTOGRAFIA,
COMO DEVIR, O SEU INVISÍVEL CORPO, SÓ SEU QUE É NOSSO,
E DO PRÓXIMOPORQUEMPASSO,
 O PRÓXIMO QUE NÃO SOU EU...

E A SUA MIRADA AGORA VOLTADA PARA O FUTURO,
MIOPEMENTE, MIRAGEM QUE NECESSITAMOS,
ENXERGA, PREFERIVELMENTE LONGE, UMA FIGURA,
UMA SOMBRA, QUEM SABE UMA ASSOMBRAÇÃO
PARA OS ASSUSTADOS E TEMOROSOS,
MAS NÃO MAIS QUE DESATINO, NEM MESMO DESTINO,
PARA OS QUE NA POPA, NÃO NA PROA,
DESSE NAVIO, DESSA NAU DOS SEMPREMENINOS,
AQUELES, NÃO OS AQUILES, MAS SIM OS POR ELE DESAFIADOS,
NESSE COMBATE CONTRA ONDAS E HORDAS,
PARA OS SEMPREMENINOS,
EMBORA AGORA SABIAMENTE ENVELHECIDOS,
NEM SEMPRE AS SOMBRAS SÃO DA DONA MORTE...

COMO OS MARINHEIROS DE MUITOS PORTOS,
DE MUITAS SORTES, ENCARAM, ARREGANHAM OS DENTES,
MERGULHAM NO NOVO VASTO E INCÓGNITO OCEANO...

POR ISSO NÃO TEMO, NÃO TEMEREMOS,
ASSIM IMPRUDENTES NOS LANÇAR DENTRO DESSE REDEMOINHO...
ENVELHE/SER
ESMAE/SER
A NOITE/SER

CONVITE IRRECUSÁVEL DO HOLANDÊS E SEU TRIGAL,
PARA ESSAS TRÊS PINCELADAS INTENSAS,
N0 ONÍRICO TEMPO DO QUAL E AO QUAL PERTENÇO,
SEM ENSAIOS OU ANTEVISTOS,
ESSE NOVO ANTIGO QUADRO PINTO E FOTOGRAFO,
TRATO E RETRATO O ESMAECIDO,
PARA VIVER COMO NA TELA DAQUELA NOITE TÃO ESTRELADA,
UMA SÉRIE DE AZUIS CIRCUNSCRITOS, NOSSSOS CREPÚSCULOS,
NOSSAS MEMÓRIAS DAQUELES REDEMOINHOS,
SEM NENHUM BRILHO OPACO...

QUANDO DIANTE DESTE VAN GOGH ESTARRECIDO
IDENTIFICO-ME, E MOLECULAR EU FICO,
VEJO DE NOVO, SEMPRE O NOVO, O MOMENTO,
EIS A INTENSA IDADE QUE ME PROJETO,
UM ANOITECER RENOVADO, SABIAMENTE TECIDO,
MESMO QUE SOBRE UMA TELA OU PAPEL ENVELHECIDOS,
É O QUE SE DESENHA E SE MISTURA COM AS PRÓPRIAS TINTAS,
SUPOSTAS LINHAS, SUPOSTOS FIOS, SUPOSTAS TRILHAS...

TAMBÉM SUPOSTOS ENLOUQUECIDOS,
OS QUE ENVEREDAM E SE EMBRIAGAM COM O PRÓPRIO NÉCTAR,
LUTAM E RE-EXISTEM À SUA PRÓPRIA VERVE,
ALMA PICTÓRICA, DE HORIZONTES SOLITÁRIOS,
DE CORVOS QUE SOBREVOAM NOSSOS TRIGAIS,
ONDE DEVERIA ESTAR EM REPOUSO, AS AVES NÃO FÊNIX,
PELA SUA FORÇA DE FOGO E IMPRESSÃO DELE,
SEMPRE RESSUSCITA, MESMO QUE SUICIDADO,
SEMPRE RENASCE, MESMO QUE MAL-DITO...
PARA UM DIA, UM DIA AINDA NÃO PRESCRITO...

AÍ, SENDO COMO SOMOS, SÓS, SOLITÁRIOS,
 NÃO MAIS FINITOS,
SÓ MÁQUINAS OU ROBÔS SEM MIRAGENS E SONHOS,
ESTAR SÓS NOS ADMIRANDO, FEITO NARCISOS,
NO VASTO LAGO, APAIXONADOS, MOUCOS E SEM ECOS,
A MORRER DO PRÓPRIO ENVELHE/SER...
EM MIM, EM TI INDAGO:
SOMOS APENAS DURAÇÃO OU DURÁVEL-IDADE...?
(jorgemarciopereiradeandrade e ciailimitada)

Copyright e left – jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações infinitas na Internet, com seu Marco Civil, e em outros meios de comunicação para e com as massas. todos direitos reservados 2025 ,,,)

LEITURAS QUE NÃO ENVELHECEM:

A VELHICE – Simone de Beauvoir, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ, 1990.
UMA MORTE MUITO SUAVE – Simone de Beauvoir, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ, 1984.

LEIA TAMBÉM NESTE BLOG:

POR UMA MEDICINA QUE ENVELHEÇA COM DIGNIDADE

O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E, ENTRETANTOS, MEU PAI FAZ 102 ANOS...



sexta-feira, 26 de abril de 2013

AOS 103 ANOS AINDA SE APRENDE ALGUMA COISA?


imagem publicada – a foto em preto e branco de uma matéria da Revista Fatos e Fotos – Gente, de 28 de Abril de 1980, uma publicação Bloch, onde aparece à direita uma mulher realizando uma mamografia, como forma de prevenção do câncer de mama, e, em tamanho menor, uma fotografia em preto e branco com um homem negro, com cabelo Black Power, com uma mão repousando sobre a testa, em posição semelhante a quem está pensando sobre a Vida. O retratado sou eu. A reportagem fala sobre o nosso temor da morte pelo câncer e a busca pelas e nas drogas de um alívio desse temor. (fotografia de João Poppe)

“A Morte deve ser uma mulher extraordinária. Nos pega na mão e nós temos de seguir atrás dela. Somos obrigados. É esse rumo desconhecido que me fascina e que faz com que não tenha medo da morte.” Léo Ferré.

O tempo não passa? Uma homenagem aos que têm do direito de viver e morrer em paz... E ficarem na memória

Encontrei outro dia uma velha reportagem. Meus velhos papéis que precisavam ser jogados fora me trouxeram de volta minhas memórias. Era uma reportagem na qual eu dizia em Abril de 1980:...”Isto acontece visto que todos nós curtimos intimamente o desejo da imortalidade, e o câncer não deixa de ser uma pedra no caminho, uma ameaça imediata e concreta dessa pretensa imortalidade”.

O título da matéria, que hoje pareceria atual, era “CÂNCER – A cura pelas drogas?” tendo como subtítulo – “Cientistas utilizam a maconha no tratamento médico”. Lembrete aos desavisados eu já discutia, nesse tempo de resquícios da Ditadura Militar a questão da ‘descriminalização da maconha’ e a despenalização dos usuários. Tínhamos de combater um grave preconceito que associava os 'maconheiros' e os 'subversivos' contra a Segurança Nacional, assim como os 'bons costumes'...

 Já afirmava: - “Eu acho altamente questionável o uso da maconha no tratamento do câncer, como os cientistas americanos vêm fazendo, embora acredite que a droga possa ser utilizada como um paliativo, uma espécie de substitutivo provisório, e, neste sentido, eu sou altamente a favor.”

Digo novamente eram os Anos 80 começando. E os Anos de Chumbo ainda queimavam, mas começavam a se derreter diante dos nossos anseios de democratização...Porém o que me leva a escrever hoje é muito mais a questão que levantei no meio da matéria: a indagação sobre nosso desejo de imortalidade. Hoje e nos próximos dias tenho de refletir muito e vivenciar mais ainda essa questão.

O meu pai longevo fará aniversário e completará os seus 103 anos. E a minha pedra no sapato, a minha pedra de Sísifo volta a incomodar com um velho calo nos dedos dos pés do sapato novo, mas sempre apertado da Vida. Somos ou desejamos tanto essa longevidade, a que preço ou valor?

A Dona Morte rondava ainda nossos ares nos Anos 80 com os ranços do que vivemos há poucos anos antes. Ainda respirávamos um pouco dos resíduos ativos da visão conservadora e ditatorial dos Anos de Chumbo, que só começariam a se dissipar quatro anos depois. Nessa  época é que já pensava, reflita, questionava e trabalhava, como diz a matéria da Revista Gente, o cuidado com os mais vulneráveis. Trabalhava com pessoas vivendo os limites de seus corpos com câncer.

Esse trabalho repercutia em mim o aprendizado de com podemos vivenciar tanto a felicidade como a dor. E a ideia e prática que criticava, sem saber que já existia a Bioética, era o uso de substâncias psicoativas sem as devidas pesquisas e investigações científicas. Já estava, um jovem médico, incipiente com a psiquiatria e a psicanálise, buscando formas menos “químicas” de enfrentamento de nossas limitações e finitude vital.

Por ter acompanhando muitos casos de terminalidade vital por doenças crônicas, nessa época, aprendi muito sobre uma palavra: a transitoriedade. Ainda não falávamos ou praticávamos denominando os cuidados paliativos, mas os vivenciávamos a beira dos leitos de pacientes considerados “sem saídas terapêuticas”.

Exercia, sem denominar, o que hoje chamamos de Klínica, pois lidar com a morte cotidianamente pode ensinar ir além do simples fato de nos ‘’inclinarmos’’ sobre os leitos e os pacientes. Tínhamos, principalmente diante dos cânceres infantis, de aprender o sentido da escuta sensível e da implicação. Eu, modestamente, acho que aprendi.

A Dona Morte que eu via era um simulacro, um fantasma do que realmente ocorria no âmago dos que realmente estavam morrendo. Sempre procuramos nos distanciar do morrer imaginando que superamos com essa atitude nossos temores da tal Senhora. Não! quanto mais se foge ou dela fugimos mais se está em sua companhia.

A tal Dona Thanatos foi, por exemplo, para Freud, uma fiel companheira de todos os seus dias e escritos. Diria até, ousadamente, que transversalizam uma boa parte de suas indagações que geraram o que temos, para além de Lacan ou outros atualizadores, de Psicanálise ainda hoje. Afinal ele teve no próprio corpo a experiência do câncer. E, no encontro final solicitou a ação de alívio de seu médico Max Schur.

Ele viveu o tempo que lhe foi possível e suportável. Por isso penso que devemos aprender a respeitar o cada um entende e sente como o limite suportabilidade de suas próprias existências.  Aí se incluem alguns que deixaram as mais profundas e reflexivas poesias sobre o viver e o morrer. Os seus corpos expiraram, porém, suas mentes deixaram marcas indeléveis. Exemplos? Fernando Pessoa, aos 47 e Florbela Espanca, aos 36 no dia de seu aniversário.

Com seus trinta ou quarenta e poucos anos biológicos de viver conseguiram ser os bólidos, cometas ou meteoros-vivos que transformaram muitas outras vidas após as suas finitudes e fim. Este é um ponto de vista que já ressaltava lá nessa reportagem.

Lá está registrado, para mim e para vocês todos e todas que: “...acredita o psiquiatra (eu) que todas as pessoas cancerosas devem estar conscientes de que, na vida, o mais importante não é a quantidade de vida, mas sim a qualidade (da vida e do viver, individualmente ou no coletivo)”.

E, como passageiros desse instante de uma Gaia Terra que, apesar do seu recente dia, vê-se arrastada por buscas fanáticas, principalmente de cunho religioso/político, de imortalização narcísica. Primeiro eu serei, na minha ignorância e credulidade, a ser salvo nos tempos apocalípticos, e, mesmo me tornando escravo de uma mistificação ou de uma manipulação ideológica, quero essa ‘vida do além’. E o meu dízimo ou voto legitimam uma grande farsa na Sociedade do Espetáculo e do Controle.

Temos, então, diante dessa proliferação dos fanatismos, como já disse no texto anterior, de aprender um pouco sobre nossas perdas.

Perdemos a rebeldia da juventude? Diria que sim se me retomasse apenas nos Anos 70 o ar irrespirável das torturas e dos desaparecimentos políticos; os Anos 80 engoliram nossa Contracultura e o Maio de 68. Entretanto, diante de novos e aperfeiçoados ardis de controle estatal ou social vemos novas bandeiras de liberação sendo agitadas.

Hoje, com novos olhares sobre o tempo, agora líquido e fugaz, encontramos os “mais velhos”, de mãos dadas,  andando ao lado de quem combate todas as formas de preconceitos e discriminações. Porém para isso precisamos da ressignificação do que entendemos como essa sabedoria dos antigos ou ancestrais.

A minha aprendizagem ainda não terminou, o meu buscar aprender com as perdas também. Disse estes dias atrás, em estímulo a quem está com lutos atravessando suas vidas, que diante dos entes que se vão ou outras formas de perdas é indispensável aprender e reaprender.

Precisamos, a meu ver, aprender a ser sem o apego gorduroso sobre a Vida.  Disse lá no Face-livro: - O aprendizado das perdas é uma das muitas formas de engrandecimento de nossas vidas... Aprender a se despedir... Aprender a deixar partir... Aprender a ir embora... Aprender/desaprender a viver e aprender a morrer... Como dizia a poetisa Florbela: “e se ei de ser cinza, pó e nada... que seja o meu Dia uma Alvorada... que me saiba perder para me encontrar”.

Hoje, com as limitações físicas que adquiri, estou caminhando na direção, sem complacência ou auto piedade, do estar, intensamente vivo ao lado dos “mais jovens” diante de nossas finitudes semelhantes: somos todos apenas mortais sonhadores. Ou, será que somos sonhadores mortais?

Tendo nascido filho de um simples, porém, sempre amoroso ancião, repito o que disse ao jovem repórter Péricles Santana, há 33 anos: “Devemos mostrar a essas pessoas (há época meus pacientes com câncer ou seus familiares) um outro lado das coisas (e do viver), fazendo-as ver (e desejar) que tudo na vida é passageiro, sendo, portanto mais importante essa trajetória (e o aprendizado humilde de nossa transitoriedade existencial).

Então, além do resgate de minhas ideias e vivencias médicas lá nos Anos 80, quando também me impliquei com o cuidado com as cicatrizes da ditadura através do Grupo Tortura Nunca Mais RJ, reforço ainda que precisamos de buscar uma serena sabedoria.

Uma sabedoria que ainda encontro nos sorrisos de meu velhinho, lá nas Minhas Minas Gerais? Sim, uma sabedoria que consiste em uma forma sensível de ser, estar e viver. Uma sabedoria que, entretanto, pode ser complexa: - não devemos perder a “fé” no Outro e nos Outros além de mim, mas também não podemos estragar nosso próprio bem estar já conquistado.

Enfim, em tempos de retomada dos outros meios modernos de alívio de nossas dores e finitudes, compreender que nenhuma droga inventada ou comercializada pode, ‘prozaquianamente’, como um “hiper antidepressivo global”, nos aliviar de todos os sofrimentos existenciais. Insistimos na busca do Admirável Mundo Novo de Huxley?

Estas novas drogadicções ou dependências de uma química tornaram-se, como retrocesso histórico, até o mote para novas e aprimoradas técnicas de aprisionamento, inclusive com a legitimação psiquiátrica ou dos poderes políticos.
Como dizia lá naqueles primórdios: a Vida não tem cura, pois o Guimarães já disse que é e será muito perigoso viver. A vida se tiver prospecções ou invenções de novas cartografias do viver, é apenas a pró-cura.

Por isso não lhes garanto a imortalidade. Posso apenas, com profunda e afetiva sinceridade, desejar que possam ter os olhos e o coração de meu pai de 103 anos.

Lá, nesses olhos/coração singelos, com toda certeza há memórias que todos e todas merecemos experimentar, independentemente de sermos apenas passageiros, marinheiros, argonautas, barqueiros, remadores ou pescadores cruzando o tal rio, aquele que o Pessoa disse ser apenas com curvas, e a Morte seria e será apenas mais uma curva do rio.

Navegar é preciso, hoje é apenas im-preciso ainda, mas vale a pena tentar...

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Indicações para Leitura crítica e reflexiva –

LÉO FERRÉ – Seleção e tradução de poemas, canções e da carta inédita (Luiza Neto Jorge) – Ulmeiro e os Autores, Lisboa, Portugal, 1984.

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO - Aldous Huxley - https://pt.wikipedia.org/wiki/Admir%C3%A1vel_Mundo_Novo

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