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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

SEREMOS TRANSMISSORES EM 2011?



Imagem Publicada - uma fotografia montada com imagem de uma mulher grávida, com um cabelo esvoaçante em cores avermelhadas e alaranjadas, como saindo uma série de chamas deles, com uma luz de fundo, como contraluz, que realça seu corpo feminino e sua condição de possibilidade de geração e transmissão de Vida.

NA TRAVESSIA DE MAIS UM ANO - 2010/2011

Aos amigos, amigas, leitores, leitoras,difusores e difusoras do Blog INFOATIVO DEFNET dedico um desejo profundo de que possamos construir novas formas de afetar e sermos afetados, novos caminhos que se construirão a cada passo dado, novos amigos e amigas que serão conquistados a cada abraço sincero e doce, novas intensidades amorosas que se realizarão com novos e intensos amores, novos sentidos e novas subjetividades a serem criadas, produzidas e multiplicadas para todos os cidadãos e cidadãs do Brasil que agora se conjuga no feminino... e se o Mundo é um Útero que venham os "nascimentos" de novas formas de sensibilidade e suavidade nas ações macropolíticas de nosso Brasil... que possamos, micropoliticamente, acender a qualidade de vida onde ela ainda não exista, desejando a criação coletiva de novas cartografias do viver. E, que as mulheres, não se tornando enrijecidas pelos Poderes, possam nos ensinar/aprender a aprender, mais uma vez, que:

SOMOS TRANSMISSORES

Somos, ao viver, transmissores de vida.
Quando deixamos de transmitir vida, ela a vida também deixa
de fluir em nós.

Isto é parte do mistério do sexo, é um fluxo à frente.
Gente assexuada não transmite nada.

Mas se chegamos, trabalhando, a transmitir vida ao trabalho,
a vida, ainda mais vida, se lança em nós compensando, se mostrando
disposta a tudo
e pelos dias que vêm nos encrespamos de vida.

Mesmo que seja uma mulher fazendo um simples pudim, ou um homem
fazendo um tamborete,
se a vida entrar nesse pudim ele é bom
bom é o tamborete,
contente fica a mulher, com a vida nova que a encrespa,
contente fica esse homem.

Dê que também lhe será dado
é ainda a verdade da vida.
Mas não é assim tão fácil. Dar vida
não quer dizer passá-la adiante a algum bobo indigno, nem deixar que os
mortos-vivos te suguem.
Quer dizer acender a qualidade de vida onde ela não se encontrava,
mesmo que seja apenas na brancura de um lenço lavado.


Tradução: Leonardo Froés - Ed. Alhambra
POEMAS DE D.H.LAWRENCE - Edição bilíngue do centenário - Ed. Alhambra, Petrópolis, 1985
.

SEREMOS TRANSMISSORES EM 2011? responda com paciência, persistência e doçura, assim imaginaria D. H. Lawrence nossas práxis e idéias para um Mundo, que como a poesia, estaria em permanente criação... autopoesis.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A MÁQUINA DA EMPATIA - incluindo a reinvenção do Outro

IMAGEM PUBLICADA - um grupo crianças agrupadas em uma escola mostram alguns golfinhos feitos de papel multicolorido, estão sorridentes, e, quem sabe, empáticos, após uma aula sobre as relações que são nutridas pelos golfinhos, baseadas na Empatia, em sua capacidade de viver e aprender em grupalidade sobre a construção de um respeito às diferenças e aos seus semelhantes. Um caminho que ainda estamos trilhando no mundo globalizado em busca da reinvenção do Outro e o re-conhecimento do mesmo.

Tudo em tudo 
Cada homem em todos os homens
Todos os homens em cada homem
Todos os seres em cada ser
Cada ser em todos os seres
Toda distinção é mente, pela frente, na mente, da mente
Sem distinção não há mente para distinguir
. (Laços, Ronald Laing, 1970


Hoje acordei com as minhas dores, aliás dormi com elas apenas um pouco. Logo ao acordar já apresentei a minha filha a solução de uma tarefa escolar do dia anterior. A Isadora recebeu como lição de casa desenvolver uma ideia que envolvesse a "criação científica" de uma tecnologia ou recurso que NÃO existe ainda. Além disso teria de desenhá-la e explicá-la, em texto livre, de como funcionaria este invento. O objetivo seria que esta tecnologia pudesse ajudar uma pessoa no dia a dia ou nosso planeta. Eu lhe sugeri a criação de uma "máquina da empatia".

Mas como explicar para uma criança de 10 anos a Empatia? E a minha tarefa conjunta matutina desdobrou-se em milhares de exemplos. Primeiramente, como um pai sonhador e ativista de direitos humanos, lembrei-lhe como tentar vestir a "pele" de crianças do mundo. Passei pelo Haiti e acabei pousando, de forma sensata, nas relações de bullying no meio escolar que ela conhece melhor do que eu. Ela se apropriou da ideia e foi além. Assim poderá constituído e vir a ser um processo 'metadialógico' entre um pai e uma filha.

A Máquina da Empatia já passeia na minha mente há muitos anos. Em 2005 tive a honra de fazer uma conferência no XV COLE (Congresso de Leitura do Brasil, da ALB), com uma apresentação de um artigo: TELEPATIA, EMPATIA, ANTIPATIA: POR ONDE CAMINHAMOS NAS TRILHAS DA DIFERENÇA. Nessa ocasião disse serem "três palavras ao léu ou três movimentos que podemos realizar no tabuleiro das relações humanas, quando nos aproximamos/afastamos do Outro? Este encontro de três palavras nos empurra na direção de uma encruzilhada de labirintos teóricos e de práticas ligadas aos sujeitos e à diferença".

Nesses tempos Idade Mídia, atualmente labirínticos, quando os Morros são ocupados militarizadamente, a Cólera é transmitida por soldados no Haiti, o controle biopolítico justifica novos e aperfeiçoados métodos de esquadrinhamentos e controle populacionais, a homofobia e outros modos de negação das diversidades humanas justificam novos microfascismos, afirmo que as práticas educacionais e filosóficas de construção de conceitos se tornam, bio e eticamente, indispensáveis.

Tenho de retomar meu discurso de 2005, e, como no texto sobre a Violência nossa de Cada Dia, me sinto ainda mais futurista, pois ainda precisamos, urgentemente, de: "...para além das hecatombes e violências do cotidiano precisamos buscar um 'metadiálogo’, ou seja uma conversa acerca deste problemático caminhar nas trilhas da diferença em um tempo de homogeneização e de produção serializada de subjetividades"

Meus caminhos pela estrada do empatizar são antigos... Vem da Psicanálise. Para o psicanalista vienense, Heinz Kohut, o termo EMPATIA é indispensável ao exercício da psicanálise. Em 1959 publicou um artigo que enfatizou o papel do narcisismo e da empatia na teoria e na clinica psicanalítica. Ele alinhavou algumas aquisições no desenvolvimento das formas de narcisismo que vivemos e da integração de personalidade de um sujeito.

Kohut indica uma série de aquisições que culminariam com a Sabedoria em nossa jornada rumo ao autoconhecimento, e uma visão mais humanitária de nossas relações, indicando-nos que: “ a empatia é o modo pelo qual coletamos dados psicológicos acerca das outras pessoas e pelo qual, quando elas dizem o que pensam ou sentem, imaginamos sua experiência interior, mesmo que não esteja aberta à observação direta".

Minha interlocutora Isadora me colocou novamente diante de Heinz Kohut. Ela perguntou se: ..."as pessoas,mesmo passando pela Máquina da Empatia, continuassem sendo e fazendo o que antes acontecia...", ou seja não tivessem mudando um pingo na sua posição egoísta e narcisista  Kohut, concorda com ela, e nos adverte que, desejando empaticamente o melhor para todos os nossos semelhantes, deveríamos para atingir uma incerta/insegura sabedoria.

Ele alinha como outras aquisições indispensáveis a criatividade dos homens, seu senso de humor e sua capacidade de encarar a sua própria transitoriedade, enfim de saber e reconhecer-se finito e mortal, atingindo a integração e superar nosso narcisismo inalterado”, aceitando e reconhecendo nossas limitações físicas, intelectuais e emocionais.

Dedico, pois, este texto a todos e todas que estão nas escolas brasileiras, trilhando as veredas do campo da inclusão e da reinvenção do Outro, com especial carinho e orgulho à minha filha, nos seus 10 anos de vida.

Em sua Máquina da Empatia, no seu texto escolar, ela escreveu: "a máquina da empatia faz (trans-forma) as pessoas que não são empáticas serem pessoas melhores, mais agradáveis, que dão valor aos sentimentos das outras pessoas. Bem, se pelo menos 10 pessoas, em uma cidade, fossem empáticas ela poderia ser até mais alegre..."

E, transversalizados por esta máquina inovadora e renovadora, mais empáticos, quem sabe, até nos tornemos um pouco mais telepáticos e menos televisivos.

Portanto, e enfim, para que não me torne "antipático", sem desejar a simpatia, reapresento o texto final da conferência apresentada no XV COLE:

UM METADIÁLOGO COM A POÉTICA DIFERENÇA DO FOGO

Imaginemos, então um diálogo entre um pai e sua filha, que prepara com sua mochila para uma viagem através do mundo, aos dezoito anos, sobre as três possíveis trilhas, ou a possibilidade de seu inevitável entrecruzamento:

Filha – Como é que medimos as distâncias entre as pessoas?

Pai – é incomensurável o que nos distancia, assim como o que nos aproxima... Mas podemos dizer que há três movimentos em direção a uma outra pessoa ou coisa, que diríamos está em Empédocles??

Filha – em Empédocles, o filósofo grego, pré-socrático, aquele do Etna?

Pai – é aquele que nasceu no século V antes de Cristo, que segundo o Dicionário Oxford de Literatura Clássica, era: filósofo e cientista natural de Acragás (Agrigento), na Sicília...; pertencia a uma família abastada e ilustre, e, segundo constava, foi-lhe oferecido várias vezes o trono de sua cidade, mas o filósofo recusou-o... era um gênio extremamente versátil, e interessou-se pela biologia, pela medicina e pela física (deve-se lhe a descoberta de que o ar é uma substância, distinta do espaço vazio)...

Filha – Então ele aprendeu-ensinou que as substâncias, assim como nós, tem diferenças?

Pai – Ele nos ajudará a entender que podemos, segundo a sua filosofia, tentar reconciliar a percepção dos fenômenos cambiantes com a concepção lógica de uma existência imutável subjacente...

Filha – Como ele chegou a esta ideia?

Pai – Ele desvendou/descobriu o que o poeta-Prometeu D. H. Lawrence nos anunciou alguns muitos séculos depois, que somos, basicamente, ‘elementares’, ou seja, há quatro elementos inalteráveis – a terra, o ar, a água e o fogo – de cuja interação, associação ou dissociação se produzem as mutações do mundo como o conhecemos...

Filha – É aí que ele afirma a existência de forças antagônicas, como nós entendemos o que chamamos de AMOR x ÓDIO?

Pai - Sim, não apenas como antagônicas, mas muito próximo do que os filósofos do TAO chamaram de yin e yang, com a CONCÓRDIA disputando com a DISCÓRDIA, construindo, destruindo e reconstruindo infinitamente...

Filha – Mas pai, o que afinal tudo isso tem a ver com aquela conversa metadialógica sobre a Telepatia, a Empatia e a Antipatia?

Pai – para esta resposta teria que ter tido a ousadia de Empédocles que se atirou no vulcão Etna, e, segundo Bachelard, em seus “fragmentos para uma poética do fogo”: Empédocles é uma das maiores imagens da poética do aniquilamento. No ato empedocliano, o homem é tão grande quanto ao fogo. O homem é o grande ator de um cosmodrama verdadeiro...!”

Filha – Então o que teremos de fazer é nos deixarmos levar pelo fogo essencial que há dentro de todos nós. Mas a chama que me abrasa é a mesma que abrasa o cerne de todos os outros? Seria isso que nos fez ficarmos próximos apenas quando acendíamos o fogo há milênios, e diante dele nos colocávamos em roda, invertendo, nesse preciso momento, nosso temor de sermos tocados pelo Outro?

Pai – quem sabe a poesia do Lawrence possa nos ajudar? Posso lê-la?

Filha – melhor seria se nos empatizarmos com ele, mas pelo menos poderemos nos forçar a sermos transmissores de sua poética do fogo, aquele poema em que ele diz ser “mais profundo que o amor...”, o fogo primordial ... conectado ao ingnoscível fogo mais remoto de todas as coisas...

ELEMENTAR

Por que é que as pessoas não param de ser amáveis

Ou de pensar que são amáveis, ou de querer ser amáveis,

E passam a ser um pouco elementares?

Como o homem é feito de elementos, do fogo, chuva, ar e barro

E como nada disso é amável

Mas elementar,

O homem não pende inteiramente para o lado dos anjos
... 
DH Lawrence

Aos que buscam como tirar as fraldas do processo de inclusão escolar envio a minha sugestão de que promovam "metadiálogos" provocativos em seus relacionamentos mais próximos, bem antes de levá-los às salas de aula, pois os nossos narcisismos das pequenas diferenças começam, primordialmente, e ainda na intimidade de nossos territórios afetivos ...

copyright/left  jorgemarciopereiradeandrade 2010-2011 ad infinitum após 2021 (favor citar o autor e as fontes em republicação livre pela Internet, todos direitos reservados... 2025)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS _

Laing, R. D ( 1982). – Laços – Petrópolis, Editora Vozes.

Kohut, Heinz, Self e Narcisismo (1984) – Rio de Janeiro, RJ – Zahar Editores

Bachelard, Gaston ( 1990) – Fragmentos de uma poética do fogo – São Paulo, SP – Editora Brasiliense.

Lawrence, D. H ( 1985) – Poemas ( edição bilíngue do centenário) – Rio de Janeiro, RJ – Editora Alhambra.

Leia também no Blog:

segunda-feira, 26 de abril de 2010

QUEM NÃO GOSTARIA DE VIVER 100 ANOS?


Imagem publicada- uma ampulheta, o mais conhecido dos relógios marcadores de tempo com areia, que quando escorre entre os dois bulbos de vidro que a compõem sintetiza de forma clara a passagem do Tempo (Cronos). Nessa ampulheta na parte de cima encontra-se um ser humano sentado a uma mesa escrevendo enquanto a areia escorre pelo gargalo para parte de baixo. Eis a vida, que ao nascer, viram de cabeça para baixo as nossas ampulhetas individuais.

InfoAtivo DefNet nº 4400

"Antes de tudo, há o homem só.
Que nasce sozinho, que morre sozinho
e que sozinho vai vivendo, no seu ente mais fundo..."
(Mais Profundo que o Amor - D. H. Lawrence - poemas)

Será que muitos dos seres humanos não respondem negativamente, de acordo com as suas condições de vida, a este interrogar sobre a longevidade?

Principalmente, quando suas vidas tornam-se descartáveis e insípidas? Muitos, porém, me dizem que gostariam de viver e comemorar estes 100 anos, ainda mais agora com as possibilidades biomédicas de extensão e prolongamento da vida, esperando-se que, bioéticamente, com dignidade e qualidade. A idade, biológica e cronológica, de todos nós ainda é um dos parâmetros para que façamos a medida da vida. É ainda uma bio-ampulheta...

Porém a sobrevivência não é proporcional ao que chamo de 'supervivência", ou melhor da vida que se viva com intensidade e profundo sabor de vida, como nos sugeriu o título daquele suave-alegre-triste filme: o Tempero da Vida... 

A vida precisa de tempero, de bom cozimento, de hora certa para alguns ingridientes, de temperatura adequada para seu preparo, de igualdade e proporcionalidade das diferentes especiarias, uma pitada de ousadia e uma dose de poesia, e mais ainda de muita delicadeza e de arte para sua cozinha política, assim como também um educação do gosto para aprender a valorizá-la em suas diversas apresentações e diversificados odores e sabores, tudo regado por um salutar encontro na mesa grande da família humana e sua diversidade afetivo-culinária. (como o nome grego do filme - Politiki Kouzina, de Tassos Boulmetis).

O Tempero da Vida é uma obra que enternece. E mais ainda pelos ensinamentos do modo educar em cinema que propicia.Trata com suavidade a finitude e a infinitude do viver. Estou estes dias, uns mais dolorosos que outros, pensando/matutando muito o que escrever sobre um acontecimento familiar que me aguarda lá nas Minas Gerais. Há que temperar a vida... e homenagear nossas origens.

No dia 30 de abril de 1910 nasceu o homem que me gerou ao ser afetado por minha mãe, contribuindo para a luz/areia em minha vida com data de vencimento marcada. Ele conseguiu, com nobreza e dignidade, chegar aos 100 anos. Isto muito me orgulha e estimula, pois sua vida e trajetória é marcada por muitos acontecimentos e incidentes, uns trágicos outros cômicos. 

Como, por exemplo, o que ouvi em família quando ele, ao passar em frente a casa de sua futura noiva, minha mãe ANA, o jovem motociclista Arnaldo, sofreu um acidente por ficar olhando para a beleza dela. Ele acabou com uma '' fratura amorosa" de seu braço e de seu "coração"...tudo isso pela persistência de sua conquista afetiva. Aos 98 anos por outra paixão, o vinho, fraturou o fêmur, colocou platina em seu corpo, e em dois meses já caminhava com muito mais galhardia que eu e minha coluna e seus parafusos de titânio.

Costumo dizer que a vida de meus pais me ensina com clareza inevitável o entendimento de nossa transitoriedade humana. Ele, o meu pai fará 100 anos, e minha mãe, que já faleceu, só viveu até a proximidade dos seus anos 50-60. Ela faz parte dos episódios e vivências intensas que o velho Arnaldo teve de enfrentar, pois seu fim de viver foi arrastado, de forma irreversível, pela doença de Alzheimer. Por isso digo que já vivi bastante, e, do mesmo modo, diria como Neruda que "confesso" que vivo intensamente. 

A Dona Morte já me atormentou, mas depois da última cirurgia e seu pós-cirurgico hiperdoloroso, acho que aprendi um pouco mais de resiliência: nóis inverga mais nóis num quebra, diria o matuto, quando nóis ama profundamente a VIDA.

Eu, por tudo isso, acredito na construção de um sólido alicerce para viver e suportar viver. Viver não é moleza, diziam os meus ancestrais mineiros. E digo que esta vida que ando levando, pois sigo o poeta Fernando Pessoa em seu Dessassossego: "Viva a tua vida, não seja vivido por ela.".., o aprendizado da re-existência e do humor tem sido uma boa saída. A todo dia tem muitas coisas, pessoas ou fatos que lhe ajudam a despejar mais um pouco de areia-vida do outro lado da ampulheta... Mas resistir é preciso, viver não é preciso, além de navegar (hoje na Internet é claro)...

A longevidade tem de ser temperada pela arte-vidade, a amorosidade, a Transitoriedade,,,precisamos buscar, olhando para a imensidão do Universo, qual o astrônomo e astrofísico do filme grego, buscar alguma forma de amor intenso, nascido entre temperos, mas que nos faz ter a compreensão de despedida em cada encontro, em cada paisagem, em cada estação de trem ou local de partida. 

E olhando os planetas e o Sol compará-los, poeticamente, com todos as especiarias que um ente querido nos ensina utilizar para uma boa fermentação de nossas vidas. As mesmas vidas que correm o risco de serem transformadas em Vidas Nuas.

Como o velho avô que sonhava retornar a sua terra grega, o astrônomo aprendeu a gastronomia da vida. Eu aprendi com um antigo romeiro, daqueles que caminham a pé, até Aparecida do Norte, que, para superar nossas bolhas nos pés e nossos cansaços físicos, há que buscar alguma transcendência, um além de nossas mesquinhas condiçóes biológicas. Um Zarathustra andarilho que possa estender um tênue fio entre a vida vivida e um além do abismo que nos atrai todos os dias, a tal da pulsão de morte freudiana, mais conhecida como DonaThanatós.

Queria deixar aos meus seguidores e seguidoras, visitantes e leitores do blog um brinde a VIDA e escolher com eles/elas um canto, entre as folhas da relva, de Walt Whitman para homenagear ao meu pai e sua longevidade. 

Acho que o Canto à Estrada Aberta seria um bom brinde aos 100 anos de Arnaldo Pereira de Andrade, a quem dedicarei um grande cartaz/banner com os dizeres: "Arnaldo 100 você eu não estaria aqui...". E talvez responda a curiosa pergunta sobre o "segredo" de como ele chegou a esta idade: caminhar, caminhar, caminhar para além do corpo e sua limitações, como diz o poeta:
"A pé e de coração leve
Eu enveredo pela estrada aberta..."


referências no texto:
Ampulheta
http://www.museutec.org.br/previewmuseologico/a_ampulheta.htm

TEMPERO DA VIDA (FILME)
http://www.adorocinema.com/filmes/tempero-da-vida

DAVID HERBERT LAWRENCE - D. H. LAWRENCE
http://pt.wikipedia.org/wiki/D._H._Lawrence

CANTO A ESTRADA ABERTA- WALT WHITMAN
http://epifaniasvirtuais.wordpress.com/2008/02/13/54/

LIVRO DO DESASSOSSEGO - BERNARDO SOARES&FERNANDO PESSOA
http://livro-do-desassossego.blogspot.com/

ASSIM FALOU ZARATHUSTRA - NIETZSCHE
http://pt.wikipedia.org/wiki/Assim_Falou_Zaratustra

LEIAM TAMBÉM NO BLOG -  
O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E ENTRE TANTOS, O MEU PAI FAZ 102 ANOS - http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/04/o-mundo-envelhece-as-injusticas-ainda.html

sexta-feira, 26 de março de 2010

ÁGUA PARA QUE TE QUERO? Dia Internacional da Água


IMAGEM publicada: mostra a fotografia de Samah, uma menina palestina de 9 anos, bebendo ÁGUA diretamente de uma torneira, que faz parte de um acervo fotográfico do projeto "Humanizando o Desenvolvimento", como parte da Campanha Global promovida pelo Centro Internacional de Políticas Públicas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG) das Nações Unidas (ONU) - foto de Mustafa Hassona.

InfoAtivo DefNet nº 4376 - Ano 14 - 26 de março de 2010.

“ O real desenvolvimento acontece no coração das pessoas. Significa permitir que a natureza humana desabroche e evolva. Onde há razão e amor, há forca e poder para lidar com as dificuldades da vida. Encorajar as pessoas a governarem suas vidas e a si mesmas, e alcançarem o mais alto de seus potenciais – isto é desenvolvimento. Devemos reconhecer aqueles que são grandes a despeito e as vezes em razão das dificuldades que enfrentam. Devemos encorajar a humanidade em cada um de nós – a capacidade de Ser tanto dos pobres quanto dos não-pobres
”.


Dizem que "fechar a torneira" é uma expressão de solução para muitas questões, problemas ou momentos de dificuldade. No mundo capitalizado é comum associar a frase ao ato de restringir o uso de DINHEIRO, como se do cano saíssem as moedas ou notas, e ao fechar a torneira estamos resolvendo um problema de escassez, excesso ou de dívidas monetárias.

A comparação com uma cornucópia é muito comum e banal no cotidiano, e, é esta solução usada geralmente por quem detem o poder da grana e sua manipulação. Ou são os banqueiros, os governantes ou até mesmo os nossos familiares.

"Fecha a torneira que esse ou essa aí vai endireitar", uma frase muito comum de pais, dos tempos passados e autoritários, que queriam ver seus filhos no "bom caminho". Será que foi isso que mudou as veredas trilhadas pelas gerações dos anos 60/ 70? Podemos pensar que foi isso que gerou os "bons comportamentos e a ética" dos que agora têm nas mãos as 'torneiras' de recursos que podem mudar as politicas públicas de água e seu abastecimento?

Não, não deveríamos deixar fechar apenas essas falsas torneiras simbólicas e macropolíticas. Não deveríamos fechar mas aprender a aprender a fechar outras torneiras ou outros meios de controle, privados, do desperdício de água, e não apenas, urgentemente, de dinheiro publico

Cada dia que passa ao ver a água que jorra em nossos lares, escolas, hidrantes ou mesmos calçadas, sem nenhum motivo vital ou uso consciente, contribui-se para que outros recursos, principalmente públicos, estejam indo pelo ralo ou bueiros. E para nossos descendentes um dia, quem sabe, essa água faltará.

Estamos em meio à uma campanha de utilização consciente dos recursos hídricos potáveis da Gaia. A água, assim como o afeto materno, é doce mas não é inesgotável. É tempo de refletir sobre o planeta-água. Sim, somos muito mais ÀGUA DO QUE TERRA. Como já disse, poética e proféticamente, Saint-Exupery: "Só o Espírito soprando sobre a Argila pode criar o Homem". Sem o barro não há o homem, sem a àgua não há o sopro da vida...


Em 1992 foi criado o DIA INTERNACIONAL DA ÁGUA pela ONU (Organização das Nações Unidas), tendo como data a comemorar o dia 22 de março, que foi celebrado 01 ano depois. Desde essa época apenas anualmente o Dia da ÁGUA chama nossa atenção para a sua preservação ou uso sustentável. Mas a água é muito mais que uma necessidade básica dos seres humanos. Ela é parte constitutiva da sua própria vida entendida como 'BIOS', por isso mesmo se tornar um excenlente meio de controle biopolítico das sociedades através dos tempos.

Segundo a ONU, atualmente cerca de 1.1 bilhão de seres humanos ainda não tem acesso à agua de boa qualidade. Essa parcela da população do planeta convive com sua escassez, sua ausência ou sua contaminação, sendo vulnerável às diversas doenças ou sofrimentos acarretados por esta situação.


Vimos essa crueza,quando nos falta a água, nos canos expostos e destroçados pelos recentes terremotos do Haiti e do Chile. As veias e artérias de água alimento e vida desaparecem. E, lá também ficaram expostas as razões de desespero diante da ausência total de água potável ou limpa. É a hora em que os seres humanos podem revelar sua possibilidade de retorno à barbárie por algumas gotas deste precioso líquido vital.

Será que podemos mudar o atual panorama mundial de escassez da água? Estamos empenhados para afirmar o direito à água limpa como um direito humano fundamental?

O que podemos fazer para ajudar na preservação das fontes de água limpa e extremamente saudáveis, como as fontes de água mineral de minha terra natal? O que fazer para que acordemos para a desertificação, contaminação e desaparecimento dos rios, lagos, lençóis pluviais, e todos os reservatórios naturais de água doce, fontes passíveis do uso salvador pelos milhares de pessoas do planeta que morrem após ingerir água contaminada? Os milhares que também morrem por sua falta total...


Em muitos lugares do mundo, nesse momento, algumas torneiras não jorram mais água. Em muitos lugares as fontes secaram. Em muitos lugares deste planeta estamos nos tornando mais secos e impermeáveis às condições de vida dos que não-tem-água...

Talvez tenhamos não só nos esquecido desses outros sedentos e invisíveis, assim como das crianças de Dafur, do Haiti, do Saara, ou mesmo no meio do Piauí? Quem sabe, estejamos nos tornando menos elementares, embora mais superficialmente amáveis.


Um de meus poetas preferidos, D. H. LAWRENCE, já se pronunciou há muito tempo sobre a necesssidade de sermos ELEMENTARES:
"... Como o homem é feito de elementos,
de fogo, chuva, ar e barro,
e como nada disso é amável
mas elementar
o homem não pende inteiramente para o lado dos anjos.
Quero que os homens recuperem seu perdido equilíbrio
entre os elementos
e sejam mais fogosos ao menos, tão incapazes de mentir
como o próprio fogo
Quero que eles sejam fiéis à variação natural , que nem a água.
que passa da nascente ao vapor e chega ao gelo
sem perder a cabeça...".


Portanto, po-éticamente não somos puros nem anjos. Podemos nos tornar, pelas cristalizações fascistantes, cada dia menos elementares. Precisamos, por isso, refletir sobre o que chamamos de desenvolvimento humanizado e inclusivo.
Há progressos no ar, na terra e no mar. Há novos ventos capitalísticos soprando o nosso tradicional ufanismo brasileiro. Somos capazes de extrair, mais e mais, o ouro negro do fundo do mar, mas não somos capazes de impedir uma devastação de nossas ricas e invejadas fontes de preservação de água.

O nosso país que um dia teve o Rio Amazonas excluído do mapa, no tempo das Capitanias Hereditárias, como questão geopolitica para evitar a sua exploração por outros colonialistas (espanhóis, franceses e/ou piratas a serviço destes), é hoje visto biopolíticamente como o 'reservatório ecológico' do planeta.

Pode ser que a Terra Brasilis, agora de vento em popa no Capital Mundial Integrado, como dizia Guattari, possa inverter o modelo eurocêntrico de cartografia das riquezas e dos tesouros do mundo globalizado. Yes, nós temos ÁGUA!. E se um dia se fizeram expedições, guerras e colonizações por pimenta e especiarias, talvez possamos aguardar a Era da globalização da água.

Mas, mesmo assim há muitos brasileiros e brasileiras que ainda não conhecem água além das cacimbas ou das cisternas. E, então,não podemos nos vangloriar ainda de termos matado todas as nossas próprias sedes. Não podemos oferecer, por mais que se afirme macropoliticamente, um exemplo de desenvolvimento sustentável na distribuição de água. Nossos governantes não se apropriaram, de coração, ainda dessa 'bandeira' que, olhando e indo além do olhar , incentivará um uso ecosófico da água limpa ou potável.

Será que nesse ano dito 'das eleições' veremos algum partido, algum candidato, alguma candidata, algum brasileiro ou brasileira postulante a nos representar, e não nos reprimir, bradando o slogan: EU BEBO ÁGUA SIM, NÓS BEBEMOS SIM, E ESTOU VIVENDO, TEM GENTE QUE NÃO BEBE ÁGUA LIMPA E ESTÁ MORRENDO.

O DIA INTERNACIONAL DA ÁGUA já passou. E como outros dias internacionais teremos de esperar o próximo ano para comemorá-lo ou esquecê-lo. Eu aqui que já tive esse ano, na mesma época do Haiti, a ausência de àgua em minha vida doméstica e tudo o que isso acarreta, lhes digo que, mesmo assim, ainda não aprendemos a fechar o registro ou a torneira. 

Só passamos a valorizar aquilo que perdemos? Não, apenas não nos foi, profundamente, ensinado que uma gota de água contêm um dos elementos vitais para que respeitemos a nossa e, eticamente, a Vida dos Outros.

O novo brado, parodiando o Socialismo ou Barbárie de Castoriadis, poderá ser: ÁGUA PARA O MUNDO no FUTURO OU BARBÁRIE.


Será a água a moeda principal do mundo pós-apocalítico do futuro? O Cinema nos apresenta suas visões e vislumbres futuristas, com heróis, como os Moisés bíblicos redivivos, conduzindo/controlando, biopolíticamente, uma massa sedenta e bárbara, em busca de salvação ou redenção.

O valor político e de controle da água é bem representado nos filmes Water World:O Segredo das Águas (Kevin Costner) e no Livro de Eli (Denzel Washington)... mas será preciso primeiro arrasar a terra, destruir seu potencial verde, doce e aqüifero, para depois descobrirmos que o deserto ou a inundação total produzidos não terão oásis, terra firme, portos seguros e lindos lagos cercados de palmeiras?

Fica a pergunta que me fiz, faço e farei: ÁGUA PARA QUE TE QUERO?

copyright jorgemarciopereiradeandrade 2010-2011 - favor citar a fonte em futuras reproduções e difusões na Internet, estimulando a multiplicação do texto e das idéias desse autor...e dos autores citados no mesmo TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025.


Fontes:
Foto - Campanha Mundial de Fotografia "Humanizando o Desenvolvimento" - ONU , que tem como um de seus objetivos:
Combate a privação e expansão do acesso a alimentação, água, saneamento, educação, saúde e serviços aos mais pobres.

https://www.ipc-undp.org/photo/index_pt.htm

WORLD WATER DAY https://www.worldwaterday2010.info/

Referências Bibliográficas -
Poemas - D. H. LAWRENCE - Edição Bilíngue do Centenário - Editora Alhambra - Rio de Janeiro - 1985
Capitães do Brasil - EDUARDO BUENO - Editora Objetiva - Rio de Janeiro - RJ - 2006

LEIA TAMBÉM NO BLOG -
O AMBIENTE EXIGE RESPEITO - https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2009/12/ambiente-exige-respeito.html