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quarta-feira, 17 de junho de 2015

O MEDO TEM MAIORIDADE!! CRIANÇAS LOUCAS E ABUSADAS OU ADOLESCENTES SELVAGENS, QUEM SOMOS?

Imagem publicada – a foto que tirei do cartaz do filme RELATOS SELVAGENS, com os atores principais na capa do DVD, em especial Ricardo Darin, grande ator argentino, ao centro, no seu papel de um engenheiro, especialista em demolições, dirigido por Damián Szifron, tendo ao lado os outros atores, à direita , três pessoas, duas mulheres (uma com um facão na mão e outra de avental, com o homem de terno) e um homem, à esquerda dois homens e uma mulher, essa com um vestido de noiva manchado, descrito como sendo: - “Diante de uma realidade crua e imprevisível, os personagens deste filme caminham sobre a linha tênue que separa a civilização da barbárie...”. Sob o título a frase tema: QUALQUER UM PODE PERDER O CONTROLE. (cartaz que estava no Cine Topazio no dia de seu fechamento em um shopping aqui em Campinas, SP)

 “... A liberdade vem, como parte de um pacote promocional, junto com a desigualdade: minha liberdade se manifesta e será medida pelo grau em que consigo limitar a liberdade de outros que reivindicam ser meus iguais...” (Zygmunt Baumman)

Tive que ver o filme em meio a uma plateia que ria com tranquilidade das barbáries trazidas à tona pelos “selvagens” relatos sem querer se ver no espelho. Os circunstantes espectadores na sala escura não poderiam se identificar projetivamente melhor do que conseguiam. Possivelmente a maioria daquele dia era de nossa chamada ‘classe média’ ou a que esta em ‘ascensão para seu declínio’. O ‘mocinho’ do Audi nos diz: -‘Sabe que você é um negro ressentido. Animal’, para o ‘bandido’ no seu carro mais que velho e cheio de ferramentas de trabalho manual.

Mantive-me, silencioso e reprimida mente, contendo um grito ou uma blasfêmia muitas vezes, principalmente quando a marca de um automóvel de mais de 100 cavalos legitima uma agressão a um veículo comum que traz um ‘cavalo-humano’ comum. Os desfechos deixarei para a curiosidade dos que ainda não se viram nesses ‘relatos’. Espero que alguns de meus leitores possam ter a chance de assisti-lo na tela grande, pois atualmente é um privilégio dos canais a cabo, caso não retorne em salas ditas ‘Cult’...

Ou o ‘baixamos’ pela Internet?Porque trazemos este filme argentino para este momento em que 'legitimados' pelo medo e pela propaganda muitos aceitam a farsa sobre a ‘maioridade penal’? Direi que são pela presença ativa de velhos e desgastados ressentimentos, agora renovados nessa luta atual e contínua pela redistribuição de poder e prestígio. Nossos ressentimentos estão sendo aguçados pelas ‘perdas de posições econômico-sociais’, e propagandeados ‘empobrecimentos’ de nossa middle class.

Os tempos são de novas biopolíticas, aquilo que Zizek chamou de “biopolítica pós-política”, onde desejosos estaríamos de “deixar para trás os velhos combates ideológicos, para se concentrar, por outro lado na gestão e administração especializadas”. E as biopolíticas terem como principal objetivo a ‘regulação da segurança e do bem estar das vidas humanas’.

Então porque novamente reiteramos na proposta de encarcerar os que fazem parte dessa ameaça à nossa segurança, os chamados ‘di menor’? Aí é que naturalizamos, a 'maioridade' penal, apesar de ser comprovado pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) de que é baixo o percentual dos crimes que são cometidos pelos ‘menores’. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de 2011, mostram que 70% dos adultos presos reincidiram na prática de crimes. Enquanto que o percentual de adolescentes reincidentes, em 2010, segundo o CNJ, ficou em 12,8%.

 A paixão desmedida que se midiatiza em torno de seus atos de infração ou de atitudes ditas antissociais, é transformada em aprovação de uma ‘maioria dos brasileiros e brasileiras’. O medo desses ‘perigosos’ e ‘potenciais’ infratores é insuflado e hiper dimensionado. E, nós nas nossas poltronas, de casa até o cinema, “realmente’’ o sentimos. O medo desses desviantes é alimentado e forjado pelo próprio medo de ter medo.

Esses são, pois, os tempos de massas que agem como autômatos guiados pelas mídias. Massas on line, ditas majoritárias, que passaram a crer, por exemplo, que é muito saudável eliminar todos os infratores, principalmente os ditos ‘menores de idade’, com seu neo encarceramento legal. O seu Estatuto vira uma ‘eca’, é tornado criança e adolescente socialmente perigoso, delinquente. E o controle penal nega as origens de todas as violências sociais a eles relacionados.

Criem-se, então, novos espaços de punição e de segregação. Os nossos velhos hospícios ou manicômios judiciários poderão ser reaproveitados, desde sua lógica até a sua arquitetura, na construção de novos presídios, novas técnicas de vigiar ou punir. Rebaixem a maioridade penal e autorizem as judicializações de todos os campos e espaços do viver. Naturalizem-se as ‘leprificações’ e ‘gentrificações’ das ‘cracolândias,’ assim como a prisão compulsória dos que nunca irão à Disneylândia.

Assim os nossos ‘relatos selvagens’, por mais que estejam na tela dos cinemas, podem ser suprimidos e substituídos pelos jornalísticos canais de televisão e sua selvageria por audiência, por espectadores ávidos da violência social banalizada.

Recentemente, muitos espectadores piscaram e acenderão suas luzes sob o comando de Datenas e das antenas, pensaram estar protestando contra as mortes em seu bairro esquecido. Hoje, nesse segundo, nem os que me leem se lembram deles e das ruas sangrentas ao leste de São Paulo. Copiam as panelas das varandas que ainda as segregam e delas querem distância.

Os mesmos distanciamentos gerados pelos racismos, homofobias, discriminações de gênero, intolerâncias religiosas, ou quaisquer dos preconceitos contra os sujeitos e suas diferenças, a exemplo de pessoas com deficiência. Os mesmos que ocupam as classificações e as anomalias sociais. Se não são desviantes ideológicos se tornarão institucionais.

Eles e elas, os anormais ou as ‘doenças’, devem ser, institucionalmente, reificados assim como tornados o alimento invisível das sanhas e dos discursos violentadores e segregadores. Qual então é sua proposta de solução final? O admirável mundo limpo e higienizado dos hospitais e dos ‘reformatórios’ modernos, não os hospícios, serão o ideal, assim como os mini manicômios invisibilizados dessas mentes, no social e nas suas redes oficiais. Ironicamente, chamamos a Fundação para esses menores desviantes de “Casa”, mesmo que seu sótão ainda seja FÉ BEM.

Senão, vejamos como estes dis-criminados, são motivo de ‘postagens’, hiper compartilhadas, no Facebook. Esquecemos, como convém que outro dia amarrássemos jovens negros, infratores, pobres e sem direitos aos postes das ruas. Meninos e meninas que, diz a mídia, precisam ser responsabilizados, criminalmente, a partir dos seus 14/16 anos ou menos, por suas próprias discriminações. E, assim serem ‘tratados’ e ‘ressocializados’, ou então, linchados. Afinal, eles não marginais? Sobre eles só temos os 'relatos selvagens'?

Recente matéria sobre o Mapa da Violência no Brasil nos deu, novamente, a informação confirmada de que são estes os que mais morrem por bala e polícia. São, portanto, os que deverão, segundo nossos imaginários e futuros manicômios pós-modernos, ocupar os novos containers-prisões privadas das neo-terapias das Laranjas Mecânicas. E qual será a estatística da cor de sua pele e da sua classe social? Quem gerenciará e administrará essa nova biopolítica? Quem lucrará com essas vidas nuas tornadas ‘maiores’, por força da Lei, enquanto ‘menores’ em todos os seus direitos humanos?

À espera dos novos bárbaros e das novas barbáries, convivendo com as farsas macropolíticas, assistindo a des-laicização do Estado e sua ‘’evangelização’’ cruenta, onde as pedras e apedrejamento dos tempos bíblicos se tornam ‘comuns’ e cotidianos, continuo sofrendo uma profunda tristeza diante desse grave quadro. Meu cerne continua doce, mas me forjam uma carapaça depressiva e neurótica que, lentamente, se associa com nossas pulsões de Morte e negação de meus ‘narcisismos das pequenas diferenças’.

Nessa Idade Mídia reificada, é que, finalmente, me questiono e os questiono: o que, para quê e no que estamos nos tornando? Regressivamente crianças loucas, sádicas e abusadas, realimentadas de ódios políticos, que desejam uma Ordem Ditatorial novamente?  Ou, fascinados por nossos podres poderes, somos apenas os adolescentes protraídos que selvagemente nos recusamos nossa própria maioridade civilizatória e cultural? Quem queremos nos tornar ou re-existir?

Se abrirmos nossos corpos, como máquinas de destruição do Outro e da Diferença, qual crueldade restará nessa menor ou maior parte/partícula de nossas menosVidas?

Eu, aqui, quase sempre re-existente continuo não aceitando o que dizem ser desejo das maiorias. Elas é que se tornam as massas fascistantes e que acreditam nessa falsa solução das maioridades penais ou das prisões no lugar de escolas, educação laica, em e para os direitos humanos, assim como a não homogeneização dos desejos e sonhos como singularidades.

Copyright/left jorgemárciopereiradeandrade 2015-2016 (favor DIREITOS RESERVADOScitar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massas e para elas modificados...TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

FILME CITADO – RELATOS SELVAGENS - https://www.adorocinema.com/filmes/filme-221270/
TRAILER LEGENDADO - Relatos Selvagens - Relatos salvajes, 2014

LEITURAS PARA QUE REPENSEMOS NOSSOS ‘’RELATOS SELVAGENS’’-

O QUE É VIOLÊNCIA SOCIAL? VIOLÊNCIAS NO PLURAL SE MULTIPLICAM EM TEMPOS DE BIOPOLÍTICAS – Jorge Márcio Pereira de Andrade - in O que é Violência Social? (Jorge P. Andrade, Antônio Zacarias, Ricardo Arruda e Daniel Santos), Escolar Editora, Lisboa, Portugal, 2014.

VIOLÊNCIA – Slavoj Zizek, Boitempo Editorial, São Paulo, SP, 2014.

A ÉTICA É POSSÍVEL NUM MUNDO DE CONSUMIDORES - Zigmunt Baumman, Editora Zahar, Rio de Janeiro, RJ, 2014. (em PDF https://www.zahar.com.br/sites/default/files/arquivos//t1278.pdf)

Notícias que não se tornam ‘’virais’’ nas ‘’redes sociais’’
O Adolescente em Conflito com a Lei e o Debate sobre a Redução da Maioridade Penal: esclarecimentos necessários – IPEA – (documento em PDF) https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/nota_tecnica/150616_ntdisoc_n20




AÇÃO URGENTE: Brasil não deve deixar que adolescentes sejam julgados como adultos (Anistia Internacional) - https://anistia.org.br/entre-em-acao/email/acao-urgente-brasil-nao-deve-deixar-que-adolescentes-sejam-julgados-como-adultos/
Leiam também no blog –

O DIREITO A DOIS CADERNOS, QUAL É A NOSSA PREFERÊNCIA? Incluir e/ou Excluir? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/09/o-direito-dois-cadernos-qual-e-nossa.html

O RETORNO DA INCLUSÃO PELA INTEGRAÇÃO: Novos muros nas Escolas, Fábricas e Hospitais. https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/12/o-retorno-da-integracao-pela-inclusao.html


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

RACISMOS, NEGRITUDES E INTOLERÂNCIAS, CONSCIÊNCIA PARA QUÊ?

Imagem publicada – foto que fiz de um panfleto do Movimento Negro RJ, na comemoração do centenário da Abolição da Escravatura, tendo ao alto: 1888 LEI ÁUREA 1988, sendo 1888 em rosa, LEI em branco, ÁUREA em rosa e 1988 em branco, seguida da fotografia de uma pintura do século XIX, com a representação dos castigos corporais impostos aos negros e negras escravizados, tendo um capataz que segura uma mulher negra, junto ao que aplica uma palmatória em outra escrava, ajoelhada em sua frente, com uma criança ao lado, tendo três outros homens negros, em primeiro plano ao centro, com uma roda de carro de bois, com mais outros escravos ao fundo, aguardando seus castigos, principalmente aos que eram chamados de “negros rebeldes ou fujões”. Segue-se em letras vermelhas: NADA MUDOU. Abaixo está a fotografia de um policial militar que traz um grupo de homens negros amarrados por cordas nos pescoços, uns aos outros, em fila, com quatro deles em primeiro plano... Segue-se, em baixo dessa foto, do ano 1988, a convocação: VAMOS MUDAR, convocando para a MARCHA CONTRA A FARSA DA ABOLIÇÃO (Participe – 11 de maio – 16 horas – Candelária – Movimento Negro – RJ). Será preciso descrever mais? Ou ainda continuamos convivendo com uma nova “cegueira branca”?

“2.4 A tolerância pode ter a forma da marginalização dos grupos vulneráveis e de sua exclusão de toda participação na vida social e política e também a da violência e da discriminação contra os mesmos. Como afirma a declaração sobre a Raça e os Preconceitos Raciais, “Todos os indivíduos e todos os grupos têm o direito de ser diferentes” (art. 12)

A citação é parte da Declaração de Princípios sobre a Tolerância, uma declaração da Unesco, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura reunidos em Paris em virtude da 28ª  Reunião da Conferência Geral, que proclamou o dia 16 de novembro como o Dia Internacional da Tolerância.

Há apesar dos anos e lutas, a manutenção da imagem da foto de 1988? Lamento dizer que sim, apenas os meios de aprisionamento, encarceramento e de violentação, assim como vulneração, dos corpos e das vidas de negros é que se tornam menos ‘visivelmente acorrentadas e acorrentadoras’. As novas e modernas cordas em nossos pescoços são mais sutis e aperfeiçoadas. Estão também em nossos inconscientes colonizados e colonizadores.

Muitos ainda questionam o porquê e para que termos de inventar/respeitar um Dia da Consciência Negra? Aos que ainda têm dúvidas e aos intolerantes envio alguns dados:
 - A maioria dos homicídios que ocorrem no Brasil atinge pessoas jovens: do total de vítimas em 2010, cerca de 50% tinham entre 15 e 29 anos. Desses, 75% são negros.
- Segundo o Mapa da Violência (2013): “... Podemos verificar que no conjunto da população:
• O número de vítimas brancas caiu de 18.867 em 2002 para 13.895 em 2011, o que representou um significativo decréscimo: 26,4%.
• Já as vítimas negras cresceram de 26.952 para 35.297 no mesmo período, isto é, um aumento de 30,6%.
• Assim, a participação branca no total de homicídios do país cai de 41% em 2002, para 28,2% em 2011. Já a participação negra, que já era elevada em 2002, 58,6% cresce mais ainda, vai para 71.4%.
• Com esse diferencial a vitimização negra passa de 42,9% em 2002 – nesse ano morrem proporcionalmente 42,9% mais vítimas negras que brancas – para 153,4% em 2011, em um crescimento contínuo, ano a ano, dessa vitimização”.

Em artigo de minha autoria publicado no livro O que é Violência Social, que está sendo lançado na III Conferência Internacional - Dinâmicas Sociais em África: Rupturas e Continuidades, na Universidade Eduardo Mondlane e seu Centro de Estudos Africanos, em Maputo, Moçambique, afirmo, ao analisar estes e outros dados de nossas exclusões e segregações sociais alimentando o genocídio de toda uma juventude negra, quando se trata da questão da cor da pele no Brasil, que: “Entre 2002 e 2010, segundo os registros do Sistema de Informações de Mortalidade, morreram assassinados no país 272.422 cidadãos negros, com uma média de 30.269 assassinatos ao ano. Só em 2010 foram 34.983...; um dado que confirmava também o decréscimo de mortes da população branca, com um crescimento de mortes violentas, principalmente junto à juventude, de cidadãos e cidadãs negros...”.

Nesse quadro, já comprovado e denunciado teríamos ainda dúvidas sobre a necessidade de estímulo das nossas “consciências”,  para além de que etnias, raças ou cores estivermos sendo biopoliticamente classificados?

A questão de aceitação do Outro e das suas diferenças é que nos dá parâmetros e limites para o que chamamos de Tolerância? Sempre digo que temos que ir além da aceitação, precisamos antes do re-conhecimento desse Outro, dessa Alteridade, no mais profundo de cada um de nós. Um dia apenas de conscientização não mudará todas as ‘más-consciências’ e nem aplacará a nova Onda de intolerância, fascismos e/ou racismos de todas as colorações e conotações.

Precisamos, urgentemente, da prática ético-política cotidiana dessa construção de novas culturas e mentalidades. Conseguiremos afrouxar os grilhões e mordaças que nos impuseram? Precisamos nos re-conhecer como in-tolerantes do Outro e dos Outros além de nós.

Por isso é que afirmei estarmos ainda com várias cordas e cordões nos aprisionando, visíveis e invisivelmente, transversalizando nossas relações, sejam sociais, micropolíticas e/ou amorosas. Há ainda debaixo dos tapetes de nossas culturas e história uma densa camada de poeira dos preconceitos mais arraigados. Entre eles está a presença negada desses escravizados que nos tornam seus afrodescendentes.

Avisem os ex-presidentes que “todos temos os pés na cozinha da mãe África preta e retinta”. Somos todos e todas mais Libéria do que libertos por nossas áureas leis. Somos na essência do humano e da humanidade mais negros, embora nos distanciemos do continente multifacetado e multicultural que chamamos de Mãe África.

Ainda jovem, muito influenciado pelas Marchas pelos Direitos Civis, por Martin Luther King, Malcolm X, Angela Davis e outros negros e negras “rebeldes”, que desejavam outro lugar social e político, escrevi um poema que chamei de Negrume. Dizia, se lembro destes anos ginasiais, perto de 1968, que ‘devíamos nos livrar do que nos impunham... pois já havíamos lavado com sangue coagulado... a mancha de nosso, do só nosso, do meu  e do seu: Negrume”. Anos depois descobri minhas novas implicações. Tornei-me, temporariamente, mais uma negritude.

Um efeito e contágio com a poesia de Aimée Cesaire.  Sempre a poesia, aquela que me trouxe a compreensão de que há um Outro, que este não é um lado “negro”, mas que nos habita que deseja sempre mais liberdade, mas ar, mais espaço, mais tempo, enfim, mais Vida. O conceito de negritude tornou-se, por sua radicalidade de orgulho e valorização da cultura negra, minha nova arma de luta contra todas as discriminações. Os eurocentrismos em mim se desmontavam, desfaziam-se ...

Por isso desejo que possamos combater novamente com “novas” negritudes, tornadas novos rizomas para criar novas cartografias. Em tempos de ódios, além dos raciais, também macropolíticos, ainda acredito que alguns possam se contagiar dessa busca onde o cultural poderá ficar acima do político e dos políticos. Onde se ultrapassaria, como os tigres e suas tigritudes, ir além dessas negritudes do passado. Ir além do consciente autorizado, buscar a radicalidade de liberação dos nossos inconscientes sob eterna captura e colonização.

Como no texto inicial deixar florescer em nós, e além de nós, rompendo todos os limites e limitações, a afirmação da Diferença não só como direito ou necessidade, da diferença que nos torna mais Potência Zumbi, libertária, do que a ruptura de conceitos e preconceitos, inclusive dos racismos enquanto ideologias.

Em tempos, de marchas ré, de neo-pastores fundamentalistas, fascistas de plantão, intolerantes pelo indiferentismo, lobinhos maus, lobões, espertos ao contrário, falsos tolerantes e negociadores dos medos que apregoam a Ordem como segurança, urge e ruge em mim o desejo de ir além, o desejo que vai além da vacina para o Ebola. O desejo sem fronteiras, para além das Áfricas. Em mim, urge, como poesis, sob a pele indelevelmente negra, o apelo para a re-existência e a resiliência.

Como no pedaço de meu papel rabiscado dentro do livro sobre Billie Holiday e a biografia de uma canção – Strange Fruit: -
 “Ai quem me dera um dia, apenas um dia sem dor ...
A dor de ser demasiada e apaixonadamente  humano,
Sempre com a mesma cor, sempre Negro
Entretanto, apenas um Outro, um Outro Pessoa...”

Quem sabe me acordo, como já recordei, em um mundo e tempo onde já sonhei, com menos meninos e meninas negras vulnerados e violentados?  E, po-éticamente, alguma consciência despertarei?

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação para e com as massas. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2925...)

INDICAÇÕES PARA LEITURAS CRÍTICAS, REFLEXÕES E COMBATE DAS DISCRIMINAÇÕES E RACISMOS –

VIOLÊNCIA CONTRA A JUVENTUDE NEGRA NO BRASIL – Pesquisa de Opinião Pública Nacional – DATA SENADO – Novembro de 2012 - https://www.senado.gov.br/senado/datasenado/pdf/datasenado/DataSenado-Pesquisa-Violencia_juventude_negra.pdf

JUVENTUDE VIVA - Homícidios e Juventude no Brasil – Mapa da Violência - Julio Jacobo Waiselfisz, Brasília, 2013 https://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2013/mapa2013_homicidios_juventude.pdf

MÍDIA E TOLERÂNCIA – A ciência construindo caminhos de liberdade – Margarida Maria Krohling – Roseli Fischmann (Orgs.), Editora EDUSP/Unesco, São Paulo, SP, 2002.

O QUE É VIOLÊNCIA SOCIAL - Antônio Zacarias, Daniel dos Santos, Jorge Márcio Pereira de Andrade, Ricardo Arruda, Escolar Editora, Coleção Cadernos de Ciências Sociais (Org. Prof. Carlos Serra), Lisboa/Maputo, Portugal/ Moçambique.

Na Internet –

LEIA TAMBÉM NO BLOG –

RAÇA, RACISMO E IDEOLOGIA: ZUMBI ERA UM VÂNDALO, UM BLACK O QUÊ? 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/11/raca-racismo-e-ideologia-zumbi-era-um.html

RACISMO, HOMOFOBIA, LOUCURA E NEGAÇÃO DAS DIFERENÇAS:as flores de Maio 
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