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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

MULHER (ES), PODER (ES) E O(S) MEDO (S)...

Imagem publicada – uma foto (de uma série) da minha janela voltada para o pôr do sol (da deusa Disis), que intensifiquei como fogo no céu, acentuando os alaranjados, os azuis e os amarelos (próximos do que amo em Van Gogh), tempo visível com a sombra dos prédios que todos os dias posso avistar de minha janela aprisionada pelo tempo visto como passado, mas que se torna uma fulgurante demonstração de como podemos rever e transver nossas próprias horas, e se torna um tempo-vida-imaginação...

...’Esqueço as horas pensando em outras horas de quem tem poucas horas ou muitas horas. Ora Hora!... Não penso nas horas; elas e que me pensam’...

Preciso do silêncio e da negação de todos os sons para tentar pensar. Outro dia fui lembrado, nas ‘altas horas da madrugada’ que precisava me cuidar com a passagem do Tempo. Lembravam-me que, humano ainda, tenho um corpo físico e uma suposta saúde a deixar descansar. Este texto, como parto prolongado, nasceu em horas sem ruídos metálicos ou zumbidos alienantes. Em horas que não cabem nos relógios digitais ou ampulhetas.

Respondi com a frase acima, relâmpago afetivo, mais ou menos, sobre minha relação com as horas. As horas são e serão sempre femininas. As horas, conforme a mitologia grega são mulheres. Seriam as mulheres de Atenas? Aquelas cuja cidadania era negada, aquelas equiparadas apenas aos escravos. Ou seriam e são as guardiãs do Olimpo que organizam a passagem das estrelas? As que trazem a fertilidade da mudança?

Na versão apresentada pela Wikipédia são: - “As horas (em grego:  Ώρες, em latim: horae) constituíam, na mitologia grega, um grupo de deusas que presidiam as estações do ano. Filhas de Zeus e Têmis eram três deusas que personificavam a ordem do mundo. Eunômia (Εὐνομία, "legalidade") representa a legalidade, a boa ‘ordem’, as leis cívicas. Eirene ou Irene (Εἰρήνη, "paz") representa a paz. Dikê ou Dice (Δίκη, "justiça") representa a justiça”.

As horas também têm suas versões latinas. São também o tempo, as estações, as passagens dos momentos, das atividades de um dia ou as épocas. Quais seriam, hoje, as épocas que vivemos ou que nos dizem ou permitem ser vividas?  Vivemos o tempo em que a(s) Mulher (es), o(s) Poder(es) e o(s) Medo(s) encontram-se na(s)  mesma(s) encruzilhada(s)?

Como disse são, hoje, agora, nesse instante fugaz, nesse segundo, quando toco as teclas das letras que elas, as horas, aquelas deusas me assombram. Permitem-me, reles mortal, a aspirar com elas ainda sonhar com utopias, com as outras invenções gregas, tal qual a democracia. Entretanto, nesse mesmo passado do relógio, a História me diz que as deusas passaram a servir a outros ordenadores burocráticos do mundo.

Onde foram parar, pelo menos nesses territórios mais próximos, agora recriadores de novos muros e novas instituições, a legalidade, a Paz e aquela que pendula entre a espada e a balança? Passaram a ser apenas servas do Estado Nação ou de um novo Estado de Exceção?

Porém, se são Mulher (es) como já escrevi nos seus Dez(s) Mandamentos por aqui, não seguem os caminhos predeterminados pelos governantes mortais. Não se tornam, apesar de nossa persistência histórica, em escravas de um Tempo dos temores e dos desamores. Não se deixam capturar, completamente, pelas novas formas sutis de colonização de seus corpos e mentes.

O feminino e seu gozo não são visíveis. Não há e nem haverá a possibilidade de sua total dominação. Nem mesmo pelas armas ou pelos exércitos ou pelas microfascistações do cotidiano e suas falsas horas. São, mesmo as mais humilhadas, ricas de outro modo de devir, outros poderes, outras desterritorializações e fugas. São e serão, mesmos as mais duras, profundamente, como as deusas, inspiradas pelas suavidades, caso contrário seus opostos se tornam soberanos.

As mulheres podem vestir togas, podem usar fardas, podem e devem cair nas homogeneizações e binarizações/dualidades. São sujeitos sociais, assim como todos os gêneros e indivíduos. Mas nenhum de seus uniformes retirará de seus corpos as suas castrações, ao contrário, podem acentuar suas falicidades. Como horas, passantes, mutantes e mutáveis, surpreendem e se surpreendem, como as heterogeneidades de formas de amar, apaixonar ou inventar. Elas são e serão uterinas, mesmo quando histerectomizadas pelos homens ou pelas novas tecnologias. Ou mesmo por outras mulheres in-vestidas de autoridade(s).

Para que continuemos a busca do feminino como liberdade, embora nos tenham levado às ilusões temerosas, cabe à(s) mulher (es) o restabelecimento do equilíbrio que as horas, não mais reificadas ou endeusadas, nos ensinaram e ensinam a desejar ir além dos permitidos. Ir além, dos preconceitos, das discriminações, dos mitos, das falácias, dos podres poderes e, principalmente do Medo.

Como, então, a partir das muitas feminilidades, das muitas multiplicidades, das singularidades e das pluralidades de ser e existir poderemos enfrentar essa Cultura do Medo? A resposta recente me veio de releituras de Espinosa e as novas de Antonio Negri sobre o filósofo polidor de lentes e mentes. De lá extrai o conceito de tempo vida e não de temporalidade. O viver como duração e não durabilidade.

Para A. Negri: “A filosofia de Espinosa exclui o tempo-medida. Ela apreende o tempo-vida. É por isso que Espinosa ignora a palavra ‘tempo’ – mesmo fixando seu conceito entre vida e imaginação. De fato, para Espinosa o tempo só existe como liberação. O tempo libertado se faz imaginação produtiva, radicada na ética. O tempo liberado não é nem devir, nem dialética, nem mediação. Mas ser que se constrói, constituição dinâmica, imaginação realizada. O tempo não é medida, é Ética...”.

O tempo é da ‘hora’ que retoma a Eunomia. Tal como o corpo feminino pode, se for libertado, se tornar o ser da revolução, da contínua escolha ética da produção. Do direito de não ser apenas um corpo reprodutor, mas aquele que enriquece o ser.

Pelos corpos que mesmo negados, ou ainda sob desmandos, ou sob midiatizações espetaculares, é que afirmo que a hora é a do ser-mulher, como forma de potência e transformação. Afirmo que, diante dos nossos desencantamentos coletivos, não nos iludamos com as organizações, mesmo as globais ou globalizantes.

A hora é a do desafio da quebra de alguns paradigmas. Macro e micropolitica-mente. A hora é do afirmar o respeitar as ‘minas’, mas tomando cuidado para pisar nas mesmas que alguns querem, belicosamente, semear em nossos caminhos e passos.

Quando, dos poderes visíveis, das ditas autoridades do alto, nos vem o anúncio de novos muros, novas discriminações, novas guerras, que muitos aqui não vêem como já existentes, as horas se tornam mais urgentes. Precisamos das outras horas, pois há sim outras deusas-horas, como Disis, que era a deusa da finalização do dia, o por do sol.

Este texto não crepuscular é um apelo, não uma alegoria, que convoca/provoca às mais poderosas e destemidas, às que podem abrir as portas de corações, podem encantar avenidas, podem desafiar ditadores, podem lançar foguetes no espaço, podem revelar verdades e desmitificar as ondas de alienação e submissão. À(s) Mulher(es) com o(s) Poder(es) de demolir(em) todo(s) o(s) Medo(s)...

(copyright/left jorgemárciopereiradeandrade 2017 ad infinitum após 2024, favor citar o autor em republicações livres pela Internet e outros meios de difusão, comunicação ou manipulação de massas... TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025 )

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domingo, 18 de dezembro de 2011

A ARTE DE RE-VIVER - Quando morrem o Teatro, o Carnaval e a Música? Nunca...



Imagem publicada - a capa do livro A ARTE DA VIDA, de Zygmunt Bauman, com uma imagem esmaecida de um rosto feminino que se apoia em um ombro de um homem com um cigarro à boca, sendo sobrepostos por um ponteiro e um relógio, havendo sombras humanas ao fundo. Uma alegoria da nossa passagem pelo ‘’túnel ou máquina’’ do tempo da modernidade líquida e veloz. O fundo é como uma pintura onde o branco predomina, o mesmo que pensamos vestir quando passamos pelo Ano Novo... (Autoria Sérgio Campante sobre fotos de Steve Woods, Leroy Skalstad e Jay Simmons)

Quando é que aprenderemos que sem a Arte a vida é vazia de sentido? E quando é que ela fica vazia de sentido quando perdemos nossos artistas? E quando é que nos descobrimos precisando ser artífices de nossas próprias artes de viver e morrer?

Estas interrogações não parecem combinar com os tempos pré-natalinos e festivos para alguns. Mas o fim de um ano pode trazer um pouco de reflexão... Principalmente se a Senhora Dona Morte nos ceifar alguns intensificadores da alegria do viver...
Nesse pré-Natal de 2011, Dona Morte, mais três poderão alegrar, encantar e musicalizar o chamado “outro mundo”. Morreram Sergio Britto, Joãozinho Trinta e Cesária Évora.

Mas não devemos lamentar ou lamuriar. Devemos evocar e homenagear, pois o que deixaram por aqui é muito diferente do que alguns andam provocando e criando. E esses, também midiatizados e midiatizáveis, parecem imortais como o que causam.


Hoje custosa e cara Senhora mais uma carta tenho de escrever-lhe. A missiva (carta em português arcaico) é para lhe lembrar de que nesse fim de ano muitas coisas andaram mortais pelo Planeta Terra. Muita propaganda, muito estímulo ao consumo e as velhas promessas macropolíticas de erradicação da miséria, ou será dos miseráveis?

A Caríssima Senhora e seu amigo Cronos (o Tempo) nos arrebataram três grandes seres humanos. O Joãozinho, revolucionário e lúcido, que valia por trinta outros. Mostrou-nos, sem destemor, no Reinado de Momo, que a alegria para os excluídos é imprescindível, principalmente na miséria impingida. Agora é carnavalesco em outras bandas... Devia estar faltando humor, beleza e criatividade no seu reinado, Dona obscura e repentina?

A digníssima se lembra de quando ele teve de cobrir o Cristo Redentor? Ainda continuamos tapando com panos quentes as nossas desigualdades... Agora estamos em plena higienização social pré-Copa e Olimpíadas. Nossas periferias e seus diferentes marginais estão ficando “clean”. Nem se parecem com o seu enredo dos “Ratos e Urubus, Larguem a minha fantasia”.

Precisamos, por isso, sim das fantasias, como nos palcos dos teatros. Ali, usando personas (máscaras), escancaram-se para poucos o desnudamento de nossas tristes e confusas humanidades tropicais. Houve este homem teatral, de dedicação ímpar a esta arte: Sérgio Britto.

O Sérgio deverá cuidar agora de outra peça, outro palco, outra plateia, sob sua direção e ato. Talvez agora nos apresente um magnifico espetáculo pós- futurista, com voz tonitruante avisará: na Sociedade do Espetáculo agora vale a verdade e a ética, todas as farsas, principalmente, as políticas não mais nos iludem.

Nesse mesmo instante sonhado e futuro, a Cesária nos lembrará de que a Somália foi liberada da fome e dos mercenários, pois seu sangue é africano. A moda do Cabo Verde, e com seu português típico nos cantará, destoando dos cantos hiperindustrializados, que a ‘sodade’ não é nostalgia, muito menos desejo de viver sempre no passado. É o desejo de lembrar que ainda sonhamos, de pés descalços, com outras formas de amar, existir e re-viver.

Para quem aproveitar estas perdas para uma breve reflexão, a arte do re-viver se tornará um bom aprendizado. Eu, aqui nessas conversas sem resposta com a Senhora Dona Morte ainda não desisti de suas devoluções. Agora mesmo estou lendo e relendo A ARTE DA VIDA do Zygmunt Bauman... É a hora de repensar que ‘’presentes’’ estamos vendendo/comprando?

Para este autor, refletindo sobre nossa incansável indagação, o que é há de errado com a felicidade hoje (?), nos provoca e responde que: - “O caminho para a felicidade passa pelas lojas e, quanto mais exclusivas, maior a felicidade alcançada. Atingir a felicidade significa a aquisição de coisas que outras pessoas não têm chance nem perspectivas de adquirir. A felicidade exige que se pareça estar à frente dos competidores...” (p. 36).

Nós, por aqui como telespectadores, ainda estamos assistindo as Primaveras, e nossas massas povoam os shoppings, vez por outra algumas praças ou linhas de trem. Acho, olhando para o céu das minhas Minas Gerais que entramos em um Verão, a ser mais caudaloso do que o já visto. Não quero rever as velhas enxurradas de explicações sobre os nossos desmoronamentos, ainda mais quando os montes não são mais belos, todos são inundáveis.

Esquecemo-nos depressa demais de nossas tragédias pessoais ou coletivas. Os tempos tão velozes que nos assustam são também nossos melhores lenitivos ou anestésicos para as dores que não se calam ou silenciam rápido demais. A Senhora, Dona Morte, é que se regala e banqueteia com muitos novos corpos, novas Vidas Nuas de tragédias anunciadas.

Novamente Bauman nos abre os olhos, com a liquidez dos tempos em que a arte da vida deveria ser a afirmação de nosso desejo de sermos mais felizes. Ele diz que: -“Num tom um pouco mais sério, o mundo líquido-moderno está num estado de revolução permanente, um estado que não admite as revoluções de uma só vez, os “eventos singulares” que constituem lembranças dos tempos da modernidade “sólida”... (p. 87)

Qual seria, então, o presente ‘’revolucionário’’ singular que nos legaram estes artistas que nos deixaram: Évora, Britto e Trinta?

Talvez uma advertência para além dos comerciais e das propagandas, onde as inovações são sempre “revolucionárias”. Como Bauman nos avisaram com festa, música, teatro e alegorias, que só uma renovada intensidade amorosa em busca do Outro e dos Outros pode alicerçar as mais sinceras criações.

Somos assim artistas do re-viver e da vida, organizando o Caos e sendo organizados pelo Tao. Desiguais, diferentes, diversos, heterogêneos, plurais e múltiplos, mas, singularmente criativos e empáticos. E, lamento informa-la, Dona Morte, que assim nos tornamos artistas como eles.

Eles partiram bem perto de outras festas, como também o fazem poetas e filósofos, e nos deixam mais indagações do que respostas. Em sua memória é que podemos nos tornar verdadeiros artífices de vida, ou melhor, grandes artistas da vida privada ou coletiva.

Para uma parábola zen budista ao ser instigado um homem para que pinte um dragão em um mosteiro, como desafio, um mestre lhe responde:"Torne-se um dragão"... Para nós talvez nesse desejo apenas de alegria, sem encarar também os sofrimentos ou dores, fica um desafio para que, cada um e todos/todas juntos, nos tornemos o ‘’fogo” que alimente nossos Teatros, nossas Músicas e os nossos futuros Carnavais.

Eles morreram, mas seu espírito continua soprando sobre nossas argilas...

QUE O NOVO ANO SEJA REALMENTE INSPIRADOR E CRIATIVO, e que nossas misérias sejam realmente combatidas, com justiça, ética, alegria e determinação... tendo sempre como fundamento os direitos humanos, e o desejo de sermos TRANSMISSORES DE VIDA.


Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011-2012 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Notícias sobre os Três e suas artes da vida
:

Morre Joãosinho Trinta, carnavalesco polêmico e revolucionário
https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2011/12/17/morre-joaosinho-trinta-carnavalesco-polemico-e-revolucionario.jhtm

Morreu Cesária Évora 
https://aeiou.expresso.pt/morreu-cesaria-evora=f694993

Morre aos 88 anos o ator e diretor Sérgio Britto -
https://diversao.terra.com.br/gente/noticias/0,,OI5523165-EI13419,00-Morre+aos+anos+o+ator+e+diretor+Sergio+Britto.html

Indicação de leitura e reflexão: A Arte da Vida - (Zygmunt Bauman) – Download do livro: https://www.baixedetudo.net/livro-a-arte-da-vida Em papel - Editora Zahar, Rio de Janeiro, RJ, 2009.

Leia também no BLOG:
s A MÚSICA QUE ENCANTA DEPENDE DOS OLHOS? https://infoativodefnet.blogspot.com/2010/03/musica-que-encanta-depende-dos-olhos.html

SEREMOS TRANSMISSORES EM 2011?  https://infoativodefnet.blogspot.com/2010/12/seremos-transmissores-em-2011.html

quinta-feira, 28 de abril de 2011

VULNERAÇÃO E MÍDIA NO COTIDIANO DAS DEFICIÊNCIAS


Imagem Publicada - um homem com deformidades físicas no rosto, na cabeça, denominado Homem-Elefante, que esta atrás de uma porta de correr, com uma grade de ferro de porta de elevador, que sugere seu encarceramento e isolamento. Foto, em preto e branco, de divulgação do filme que levou ao público a dramática história de John Merrick(1862-1890), um cidadão inglês, que por ter a maior parte de seu corpo deformado por uma síndrome neurológica, a Neurofibromatose múltipla. Ele foi por longo tempo considerado um "deficiente mental", e viveu exposto, espancado e explorado em um show ambulante, até que um cirurgião, Dr. Frederick Treves, o levou para um hospital, e, dentro das limitações de seu tempo (a chamada era Vitoriana) buscou promover um pouco de dignidade a quem estava sendo motivo apenas do riso e do temor em espetáculo circense. Ele viveu em Londres onde hoje a pompa e circunstância ainda encobrem muitas formas de discriminação, segregação e exploração midiática desses que são chamados de "anormais ou aberrações humanas".

"Assim como o conceito de deficiência é construído e contextualizado, as vulnerabilidades também têm gênese social como um discurso em construção e em questionamento pelos bioeticistas, como faz Macklin, ao indagar: ”O que torna indivíduos, grupos e até países inteiros vulneráveis? E por que a vulnerabilidade constitui uma preocupação da bioética?”. Essas duas perguntas, segundo a autora, devem ser afirmadas e respondidas pela existência de que diante do poder e da exploração de sujeitos vulneráveis, temos de ter uma postura ética. Uma postura de cunho bioético e de proteção.

Essas posturas e questões têm grande amplitude, indo desde a ética clinica, da ética em pesquisas que envolvem seres humanos, e, em especial, na ética em políticas públicas. No campo político, ou melhor, dos biopoderes, ao avaliarmos a condição de pessoas vulneradas, com sua possível posição de exploração, podemos incluir as pessoas com deficiência, que, historicamente, estiveram em situação de vulneração e exclusão pelos estigmas a que foram submetidos".


Esses dois parágrafos acima fazem parte de um artigo que publiquei na Revista Saúde e Direitos Humanos, Ano 6, nº 6, 2009. O tempo passou e cada dia mais me convenço das minhas proposições de cunho bioético para o campo das deficiências.

Me sinto reforçado na indagação de Macklin quando assisto na TV a concepção que vem sendo midiatizada sobre os que são chamados de ''portadores'' de deficiências. Creio que a última atitude bizarra nos foi apresentada por um programa de Comédia onde se ridicularizava, de forma grotesca e proposital, a condição de pessoas com Autismo. A chamada Casa dos Autistas, em seu processo de reprodução dos estigmas, conseguiu gerar indignação, repúdio e ações que incluíram atitudes do Ministério Público e de parlamentares na Câmara Federal.


Ainda não conseguimos demolir alguns dos estigmas que são impostos a PESSOAS COM DEFICIÊNCIA. Isso mesmo, são sujeitos COM direitos humanos, são cidadãos e cidadãs, e sua nomeação e terminologia são muito importantes. NÃO PODEMOS RECUAR NO AVANÇO CONQUISTADO COM A CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA. A sua condição humana diferenciada e singular não deve ser nomeada como ''necessidades especiais'' e muito menos como ''invalidez'' ou ''doença'', e com estes paradigmas biomédicos, ainda em ação, promover sua espetacularização pela TV.



Os autistas podem ser também artistas. Mas não sem respeito às suas vulnerabilidades. Não se promovendo sua caracterização como ''alienados'' ou ''bobos da corte''. Muito menos como um grupo que, se confinado, à moda do BBB, possa constituir uma casa da loucura sem racionalidade e comportamentos considerados ''anormais'. O que a MTV promoveu foi a sua vulneração pela esterotipia e pela estigmatização tele-visiva.

Nesse sentido é que a busca de um olhar para além dos discursos vigentes sobre pessoas com deficiência se faz imprescindível. Temos que, pesquisar como se constroem novos paradigmas, agora com a ativa participação dos sujeitos com deficiência, como o que ocorreu na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (Nações Unidas – ONU – dezembro de 2006). Historicamente este tratado internacional foi antecedido na América Latina, pela chamada Convenção da Guatemala, em 1999, que confirmou a existência primordial de fatores sociais e econômicos como geradores de situações de deficiência.

Esta Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas com Deficiência, proclamada em 1999, foi reconhecida pelo Governo Brasileiro, através do Decreto Nº 3956 (de 08/10/2001), afirma que as deficiências decorrem/surgem da interação das características de cada um com a produção de barreiras na sociedade para as suas diferenças, que ao limitar a suas capacidades de exercer as atividades da vida diária, portanto, são “causadas ou agravadas pelo ambiente econômico ou social”. 

E suas incapacidades tornam-se agravadas com o uso, aético e inconsequente, na socialização de estereótipos ou estigmas impostos aos que são chamados de deficientes, anormais, loucos, autistas ou qualquer outro termo ou diagnóstico aplicável aos fora da norma ou da normalidade científica.

Quando produzimos a hiperexposição midiática, de forma ridicularizada, de um ou mais grupos de pessoas com alguma forma de diferença, para um grande público consumidor, os telespectadores em alienação acrítica, estamos reforçando sua condição deficitária como monstruosidade, como Mal e enfermidade. Estamos os estigmatizando para nos mantermos em busca de uma sacrossanta idealização de pureza, normalidade, sanidade ou perfeição. 

O grotesco e o hilário não podem ficar associados, por mais audiência que provoquem, a uma exploração, hoje hipermidiatizada, das imagens, cenas, situações ou aparências diferenciadas vividas por pessoas com deficiência ou outras formas de incapacidades. A MTV fez isso e me levou de volta ao passado. Retomei, quando vi indignado o que eles chamaram de a Casa dos Autistas, antigos personagens do cinema, do teatro e da literatura. 

Eles voltaram ''assustadoramente'' a minha memória. Eles, por suas ''taras, defeitos, manchas, estigmas ou corcundas", podem ser denominados ''homens e mulheres elefantes'', ou de neo- Quasímodos. É, então a hora de rever e relembrar um filme: O Homem Elefante (David Lynch). Eles e elas, com suas deformidades físicas (que presupõem as mentais) foram, são e devem ser cobertos com burkas ou máscaras que nos ajudem a evitar o olhar espelhado para sua ''feiura e miséria humana''. A nossa visão narcísica pode sofrer profundos abalos com uma possível identificação projetiva com esses seres anômalos.

A eles e elas, historicamente, se destinavam os espetáculos grotescos dos circos dos horrores ou, então, como o médico interpretado por Anthony Hopkins, um pequeno quarto de hospital para que pudessem ser ''examinados'', "diagnósticados", "expostos como um caso clínico aberrante". E, nas boas intenções da medicina da época, "protegidos e cuidados", apesar de terminarem sendo apenas mais um objeto de pesquisa: cobaias humanas.

O personagem real John Merrick consegue, no filme e na sua história de vida, até impressionar uma atriz, mas não consegue ser amado por ela. Não podemos nos encontrar em um Outro tão aberrante de nossa imagem e semelhança. Ainda que ele possa ser também um artista,ou mesmo um poeta. Não aprendemos ainda, bioéticamente, a amar as cobaias. Muito menos os monstros em nós.

Por isso é que seria uma parcial reparação se o "preconceituoso" canal de TV, após suas desculpas públicas e já notórias, pudesse realizar um Ciclo de Cinema e Deficiência, seguido sempre com debates esclarecedores e críticos, a serem conduzidos pelas próprias fontes de ''diversão'', ou seja pelas pessoas com deficiência. 

Quem sabe, como já fez Chaplin, ampliassemos a sensibilização das platéias entorpecidas, em especial dos canais abertos, com o surgimento do direito à diferença, com o direito à audiodescrição, com o direito ao close caption e as legendas (para os surdos), com o direito à provocação do espanto e da indagação diante de outras formas de ser e estar no mundo e na Vida. E para tanto nem precisaríamos nos tornar ''mudos e em preto e branco".

Senhores e Senhoras, Respeitável Público: - agora no meio do palco, no meio do picadeiro, fora das jaulas, dentro do coração e das mentes de nossos telespectadores, novos atores com suas cegueiras, bizarrices, paralisias cerebrais, deficits, transtornos, distúrbios, surdez e incapacidades de toda ordem. As telinhas, ou melhor, todas as telas irão se encher de panorâmicos seres humanos que nos espelharão, nos confrontarão e nos obrigará a buscar outras maneiras de os respeitar, re-conhecer e amar. 

Em cena, os Autistas, que não cabem, por sua pluralidade, nessa mísera casa dos comediantes da MTV, irão nos levar a outras sensibilidades, outras máquinas desejantes, outros devires, outras formas de afetar e sermos afetados, a desejada criação de novas cartografias para o viver e Vida. Para além de todas as vulnerações e suas perpetuações.


Copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o Autor e referências do texto em republicações e difusões livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Um dos motivos desse texto:
MTV faz campanha depois de polêmica - http://odia.terra.com.br/portal/diversaoetv/html/2011/4/mtv_faz_campanha_depois_de_polemica_160747.html

Abaixo-assinado Contra o Programa da MTV Casa dos Autistas
http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2011N9211

Indicações de sensibilização e educação pelo Cinema:
O HOMEM ELEFANTE - filme de David Lynch - 1980 - http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Homem_Elefante

“Wretches & Jabberers" - Documentário de Gerardine Wurzburg - 2011 - http://pt.euronews.net/2011/04/18/a-voz-dos-autistas-wretches-jabberers/

TEMPLE GRANDIN - filme biográfico da HBO - 2010 -
http://www.soshollywood.com.br/temple-grandin/

Referências no Texto
VULNERABILIDADE E VULNERAÇÃO, QUANDO AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA SÃO QUESTÕES DE DIREITOS HUMANOS? - Jorge Márcio Pereira de Andrade - Revista Saúde e Direitos Humanos - Ministério da Saúde - Fundação Oswaldo Cruz - Brasília, DF, 2010 (Ano 6, nº 6, 2009)

Leiam, Comentem e reflitam também no BLOG:

EUGENIA - COMO REALIZAR A CASTRAÇÃO DE HOMENS E MULHERES COM DEFICIÊNCIA? 
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/01/eugenia-como-realizar-castracao-e.html

A PERFEIÇÃO RACIAL E A DESTRUIÇÃO NASCEM DO MESMO NINHO...
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/07/a-perfeicao-racial-e-destruicao-nascem.html

Um AUTISTA pode vir a ser um ARTISTA da água? - http://infoativodefnet.blogspot.com/2010/04/um-autista-pode-vir-ser-um-artista-com.html


A Terra é Azul e o AUTISMO também -
 http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/03/terra-e-azul-e-o-autismo-tambem.html

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A MÁQUINA DA EMPATIA - incluindo a reinvenção do Outro

IMAGEM PUBLICADA - um grupo crianças agrupadas em uma escola mostram alguns golfinhos feitos de papel multicolorido, estão sorridentes, e, quem sabe, empáticos, após uma aula sobre as relações que são nutridas pelos golfinhos, baseadas na Empatia, em sua capacidade de viver e aprender em grupalidade sobre a construção de um respeito às diferenças e aos seus semelhantes. Um caminho que ainda estamos trilhando no mundo globalizado em busca da reinvenção do Outro e o re-conhecimento do mesmo.

Tudo em tudo 
Cada homem em todos os homens
Todos os homens em cada homem
Todos os seres em cada ser
Cada ser em todos os seres
Toda distinção é mente, pela frente, na mente, da mente
Sem distinção não há mente para distinguir
. (Laços, Ronald Laing, 1970


Hoje acordei com as minhas dores, aliás dormi com elas apenas um pouco. Logo ao acordar já apresentei a minha filha a solução de uma tarefa escolar do dia anterior. A Isadora recebeu como lição de casa desenvolver uma ideia que envolvesse a "criação científica" de uma tecnologia ou recurso que NÃO existe ainda. Além disso teria de desenhá-la e explicá-la, em texto livre, de como funcionaria este invento. O objetivo seria que esta tecnologia pudesse ajudar uma pessoa no dia a dia ou nosso planeta. Eu lhe sugeri a criação de uma "máquina da empatia".

Mas como explicar para uma criança de 10 anos a Empatia? E a minha tarefa conjunta matutina desdobrou-se em milhares de exemplos. Primeiramente, como um pai sonhador e ativista de direitos humanos, lembrei-lhe como tentar vestir a "pele" de crianças do mundo. Passei pelo Haiti e acabei pousando, de forma sensata, nas relações de bullying no meio escolar que ela conhece melhor do que eu. Ela se apropriou da ideia e foi além. Assim poderá constituído e vir a ser um processo 'metadialógico' entre um pai e uma filha.

A Máquina da Empatia já passeia na minha mente há muitos anos. Em 2005 tive a honra de fazer uma conferência no XV COLE (Congresso de Leitura do Brasil, da ALB), com uma apresentação de um artigo: TELEPATIA, EMPATIA, ANTIPATIA: POR ONDE CAMINHAMOS NAS TRILHAS DA DIFERENÇA. Nessa ocasião disse serem "três palavras ao léu ou três movimentos que podemos realizar no tabuleiro das relações humanas, quando nos aproximamos/afastamos do Outro? Este encontro de três palavras nos empurra na direção de uma encruzilhada de labirintos teóricos e de práticas ligadas aos sujeitos e à diferença".

Nesses tempos Idade Mídia, atualmente labirínticos, quando os Morros são ocupados militarizadamente, a Cólera é transmitida por soldados no Haiti, o controle biopolítico justifica novos e aperfeiçoados métodos de esquadrinhamentos e controle populacionais, a homofobia e outros modos de negação das diversidades humanas justificam novos microfascismos, afirmo que as práticas educacionais e filosóficas de construção de conceitos se tornam, bio e eticamente, indispensáveis.

Tenho de retomar meu discurso de 2005, e, como no texto sobre a Violência nossa de Cada Dia, me sinto ainda mais futurista, pois ainda precisamos, urgentemente, de: "...para além das hecatombes e violências do cotidiano precisamos buscar um 'metadiálogo’, ou seja uma conversa acerca deste problemático caminhar nas trilhas da diferença em um tempo de homogeneização e de produção serializada de subjetividades"

Meus caminhos pela estrada do empatizar são antigos... Vem da Psicanálise. Para o psicanalista vienense, Heinz Kohut, o termo EMPATIA é indispensável ao exercício da psicanálise. Em 1959 publicou um artigo que enfatizou o papel do narcisismo e da empatia na teoria e na clinica psicanalítica. Ele alinhavou algumas aquisições no desenvolvimento das formas de narcisismo que vivemos e da integração de personalidade de um sujeito.

Kohut indica uma série de aquisições que culminariam com a Sabedoria em nossa jornada rumo ao autoconhecimento, e uma visão mais humanitária de nossas relações, indicando-nos que: “ a empatia é o modo pelo qual coletamos dados psicológicos acerca das outras pessoas e pelo qual, quando elas dizem o que pensam ou sentem, imaginamos sua experiência interior, mesmo que não esteja aberta à observação direta".

Minha interlocutora Isadora me colocou novamente diante de Heinz Kohut. Ela perguntou se: ..."as pessoas,mesmo passando pela Máquina da Empatia, continuassem sendo e fazendo o que antes acontecia...", ou seja não tivessem mudando um pingo na sua posição egoísta e narcisista  Kohut, concorda com ela, e nos adverte que, desejando empaticamente o melhor para todos os nossos semelhantes, deveríamos para atingir uma incerta/insegura sabedoria.

Ele alinha como outras aquisições indispensáveis a criatividade dos homens, seu senso de humor e sua capacidade de encarar a sua própria transitoriedade, enfim de saber e reconhecer-se finito e mortal, atingindo a integração e “superar nosso narcisismo inalterado”, aceitando e reconhecendo nossas limitações físicas, intelectuais e emocionais.

Dedico, pois, este texto a todos e todas que estão nas escolas brasileiras, trilhando as veredas do campo da inclusão e da reinvenção do Outro, com especial carinho e orgulho à minha filha, nos seus 10 anos de vida.

Em sua Máquina da Empatia, no seu texto escolar, ela escreveu: "a máquina da empatia faz (trans-forma) as pessoas que não são empáticas serem pessoas melhores, mais agradáveis, que dão valor aos sentimentos das outras pessoas. Bem, se pelo menos 10 pessoas, em uma cidade, fossem empáticas ela poderia ser até mais alegre..."

E, transversalizados por esta máquina inovadora e renovadora, mais empáticos, quem sabe, até nos tornemos um pouco mais telepáticos e menos televisivos.

Portanto, e enfim, para que não me torne "antipático", sem desejar a simpatia, reapresento o texto final da conferência apresentada no XV COLE:

UM METADIÁLOGO COM A POÉTICA DIFERENÇA DO FOGO

Imaginemos, então um diálogo entre um pai e sua filha, que prepara com sua mochila para uma viagem através do mundo, aos dezoito anos, sobre as três possíveis trilhas, ou a possibilidade de seu inevitável entrecruzamento:

Filha – Como é que medimos as distâncias entre as pessoas?

Pai – é incomensurável o que nos distancia, assim como o que nos aproxima... Mas podemos dizer que há três movimentos em direção a uma outra pessoa ou coisa, que diríamos está em Empédocles??

Filha – em Empédocles, o filósofo grego, pré-socrático, aquele do Etna?

Pai – é aquele que nasceu no século V antes de Cristo, que segundo o Dicionário Oxford de Literatura Clássica, era: filósofo e cientista natural de Acragás (Agrigento), na Sicília...; pertencia a uma família abastada e ilustre, e, segundo constava, foi-lhe oferecido várias vezes o trono de sua cidade, mas o filósofo recusou-o... era um gênio extremamente versátil, e interessou-se pela biologia, pela medicina e pela física (deve-se lhe a descoberta de que o ar é uma substância, distinta do espaço vazio)...

Filha – Então ele aprendeu-ensinou que as substâncias, assim como nós, tem diferenças?

Pai – Ele nos ajudará a entender que podemos, segundo a sua filosofia, tentar reconciliar a percepção dos fenômenos cambiantes com a concepção lógica de uma existência imutável subjacente...

Filha – Como ele chegou a esta ideia?

Pai – Ele desvendou/descobriu o que o poeta-Prometeu D. H. Lawrence nos anunciou alguns muitos séculos depois, que somos, basicamente, ‘elementares’, ou seja, há quatro elementos inalteráveis – a terra, o ar, a água e o fogo – de cuja interação, associação ou dissociação se produzem as mutações do mundo como o conhecemos...

Filha – É aí que ele afirma a existência de forças antagônicas, como nós entendemos o que chamamos de AMOR x ÓDIO?

Pai - Sim, não apenas como antagônicas, mas muito próximo do que os filósofos do TAO chamaram de yin e yang, com a CONCÓRDIA disputando com a DISCÓRDIA, construindo, destruindo e reconstruindo infinitamente...

Filha – Mas pai, o que afinal tudo isso tem a ver com aquela conversa metadialógica sobre a Telepatia, a Empatia e a Antipatia?

Pai – para esta resposta teria que ter tido a ousadia de Empédocles que se atirou no vulcão Etna, e, segundo Bachelard, em seus “fragmentos para uma poética do fogo”: Empédocles é uma das maiores imagens da poética do aniquilamento. No ato empedocliano, o homem é tão grande quanto ao fogo. O homem é o grande ator de um cosmodrama verdadeiro...!”

Filha – Então o que teremos de fazer é nos deixarmos levar pelo fogo essencial que há dentro de todos nós. Mas a chama que me abrasa é a mesma que abrasa o cerne de todos os outros? Seria isso que nos fez ficarmos próximos apenas quando acendíamos o fogo há milênios, e diante dele nos colocávamos em roda, invertendo, nesse preciso momento, nosso temor de sermos tocados pelo Outro?

Pai – quem sabe a poesia do Lawrence possa nos ajudar? Posso lê-la?

Filha – melhor seria se nos empatizarmos com ele, mas pelo menos poderemos nos forçar a sermos transmissores de sua poética do fogo, aquele poema em que ele diz ser “mais profundo que o amor...”, o fogo primordial ... conectado ao ingnoscível fogo mais remoto de todas as coisas...

ELEMENTAR

Por que é que as pessoas não param de ser amáveis

Ou de pensar que são amáveis, ou de querer ser amáveis,

E passam a ser um pouco elementares?

Como o homem é feito de elementos, do fogo, chuva, ar e barro

E como nada disso é amável

Mas elementar,

O homem não pende inteiramente para o lado dos anjos
... 
DH Lawrence

Aos que buscam como tirar as fraldas do processo de inclusão escolar envio a minha sugestão de que promovam "metadiálogos" provocativos em seus relacionamentos mais próximos, bem antes de levá-los às salas de aula, pois os nossos narcisismos das pequenas diferenças começam, primordialmente, e ainda na intimidade de nossos territórios afetivos ...

copyright/left  jorgemarciopereiradeandrade 2010-2011 ad infinitum após 2021 (favor citar o autor e as fontes em republicação livre pela Internet, todos direitos reservados... 2025)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS _

Laing, R. D ( 1982). – Laços – Petrópolis, Editora Vozes.

Kohut, Heinz, Self e Narcisismo (1984) – Rio de Janeiro, RJ – Zahar Editores

Bachelard, Gaston ( 1990) – Fragmentos de uma poética do fogo – São Paulo, SP – Editora Brasiliense.

Lawrence, D. H ( 1985) – Poemas ( edição bilíngue do centenário) – Rio de Janeiro, RJ – Editora Alhambra.

Leia também no Blog:

terça-feira, 5 de outubro de 2010

UM PEDAÇO DE GIZ NA TELA DIGITAL - Dia Mundial do(a) Professor(a)


Imagem publicada - uma professora afegã, representada no filme 11 de Setembro, 11 minutos, 9 segundos e um frame (fotografia que forma a imagem em movimento), no curta de Samira Makhmalbaf, cineasta iraniana, com seus alunos realizando um ato ético de respeito à um momento histórico do ocidente, diante de uma chaminé de uma olaria (onde se fazem tijolos de barro), com 01 minuto de silêncio pelas vítimas norte-americanas do World Trade Center.

" O professor é aquele que faz brotar duas idéias onde antes só havia uma". (Elbert Hubbard)


Hoje dia 05 de outubro comemora-se o Dia Mundial do Professor, mais um dia ao qual expresso minha homenagem e minha lembrança para todos e todas que me fizeram brotar ideias e afetos.

A minha primeira lembrança, ao tomar contato com esta comemoração mundial, é de uma frase que lancei ao ar, há muitos anos atrás, em palestra na UERJ, justamente para homenagear professoras e professores presentes: " me lembro, hoje, com carinho de minhas primeiras professoras como quem deve se lembrar de um(a) lapidador(a)... pois se acredito que somos todos diferentes pedras preciosas in natura, somos também qual pequeninos diamantes que com a devida e afetuosa lapidação educacional, podemos ver retiradas nossas jaças e nossas carapaças de qualquer ordem... 

E digo que: quem sabe se foi por essas mãos-guias, que serão na maioria das vezes esquecidas, é que, talvez, um dia possamos realmente brilhar e encantar no futuro... e/ou, então, ao descobrirmos nossas imperfeições e diferenças, singular e eticamente, re-conhecer que somos capazes de produzir falsos valores e falsas admirações..."

Hoje, portanto, deveríamos nos lembrar de quem nos ajudou ou ajuda nas nossas "lapidações da subjetividade''. Estes que, só aparecem na mídia, como responsabilizados por falhas na educação, ou então quando exercem seu direito de greve por melhores condições de trabalho ou de salários.

Quanto ganha hoje uma professora da educação fundamental? Na minha terra natal eram as chamadas professoras ''primárias'', tinham uma respeitabilidade e papeis sociais reconhecidos. Isso acompanhado de um salário digno e classes com um número de alunos diferente da dura realidade de hoje. 

Eram, merecida e reflitamente, nossas segundas projeções de afeto e de respeito, vinham logo após nossas mães e familiares, mas hoje temos ou preservamos esse respeito reverencial e amoroso para com os nossos mestres ou mentores?


Segundo notícia do Jornal o Globo: "Até 2015, 99 países vão precisar de mais 1,9 milhão de professores em sala de aula para conseguir universalizar a educação básica".Qual será a atitude política que todos os Governos, em especial dos países emergentes e em desenvolvimento para dar respota a essa urgência mundial? Para a Unesco " o tema das comemorações deste ano é A Reconstrução Começa pelos Professores. 

A intenção é destacar o papel crucial que os educadores desempenham em áreas que estão em situação de emergência, em momentos pós-conflitos e de crise social, econômica ou humanitária". E essa afirmação da reconstrução é um dos principais exercícios no Haiti Vivo e em seu ressurgimento pós-terremoto.

Há um lindo exemplo dessa reconstrução e construção de novas subjetividades no curta de Samira Makmalbaf no filme sobre o 11 de Setembro, com 11 minutos de curta metragem, por 11 diretores de cinema de diferentes nacionalidades.

Nesse curta Samira traz uma professora de refugiados afegãos em uma olaria, que ao fazerem tijolos, tem uma improvisada sala de aula, onde ela, após arrebanhar as crianças, meninos e meninas, os leva a fazerem um minuto de silêncio pelas vítimas do atentado terrorista em Nova York.


As crianças sentadas sobre os tijolos que amassaram com os próprios pés nos dão, nesses 11 minutos, a lição de uma eternidade da capacidade de uma educadora no respeito ético à vida humana, apesar do temor de que eles próprios pudessem ser ''destruídos' pelos EUA.

Ao final todos olham para um torre de tijolos, uma chaminé e sua fumaça negra, que se ergue qual uma das torres gêmeas apontando para o futuro de nossa humanidade. É uma alegoria do que ainda poderemos construir dentro de uma visão de inclusão, ecosofia, bioética e respeito aos direitos humanos no ato de educar. A cada um de nós caberá amassar, com muito carinho e intensidade, nossos próprios tijolos da subjetividade produzida na reconstrução de um outro mundo possível. Sempre com o respeito às pessoas que nos educam e suas escolas.

Ouçamos a professora que ecoa em nossos inconscientes, e que Samira nos apresenta: "... Venham crianças para a classe. Vocês não podem parar bombas atômicas apenas com esses tijolos..." E nós o que podemos começar a construir de futuro se abraçarmos amanhã, e depois, com todo respeito e carinho, um professor ou professora?

Talvez possamos olhar, juntos, para a reconstrução de nossas próprias humanidades, micropolitica e molecularmente, para além de todas as biopolíticas e todas as suas artimanhas. Talvez nos colocando diante do futuro, pessoal e coletivamente, digamos em coro, olhando para a estrada aberta, que queremos aprender a aprender a mudar o mundo globalizado. E, então, brotarão não mais duas, mas múltiplas, diversas, diferentes e criativas idéias... E aí surge a Educação Inclusiva...

UMA ÚLTIMA PERGUNTA: diante das notícias sobre as opiniões sobre o aborto e sua criminalização, os que se candidatam a ser nosso futuro presidente(a) não precisam de alguma forma de um bom professor(a) para sua lapidação bioética?

copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar a fonte em republicações livres na internet ou por outros meios de comunicação de massa, favorecendo um outro modo de produzir a difusão e socialização de conhecimentos)

DIA MUNDIAL DO PROFESSOR
http://www.5oct.org/index.php/es/inicio

UNIVERSALIZAR A EDUCAÇÃO BÁSICA REQUER 1,9 MILHÃO DE NOVOS PROFESSORES ATÉ 2015, ESTIMA UNESCO:
http://oglobo.globo.com/educacao/mat/2010/10/05/universalizar-educacao-basica-requer-1-9-milhao-de-novos-professores-ate-2015-estima-unesco-922707319.asp

SAMIRA MAKHMALBAF
http://www.makhmalbaf.com/persons.php?p=4

11 de SETEMBRO - 11'9'1 - CURTA METRAGEM
http://omelete.com.br/cinema/i11-de-setembroi-os-curtas-metragens

LEIA(M) TAMBÉM SOBRE O TEMA NO BLOG:

TIROS REAIS EM REALENGO: A VIOLÊNCIA É UMA PÉSSIMA PEDAGOGA 
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/04/imagem-publicada-imagem-de-bracos-e.html

O JUQUINHA E SUA CADEIRA - POR UMA EDUCAÇÃO DIFERENTE 
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/07/juquinha-e-sua-cadeira-por-um-educacao.html

DIREITOS HUMANOS COMO QUESTÃO PARA A EDUCAÇÃO INCLUSIVA http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/05/imagem-publicada-uma-foto-de-tres.html

POR QUE AS TECNOLOGIAS NOS AFETAM? 

http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/04/por-que-as-tecnologias-nos-afetam.html

A EDUCAÇÃO DE PÉS DESCALÇOS
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/06/educacao-de-pes-descalcos.html

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O APRENDIZADO DA DOR - o alívio da dor é um direito humano?


imagem publicada - foto de uma mulher negra, da Àfrica, deitada sobre o chão, com uma expressão de dor intensa em seu rosto, com sua mão apoiando seu rosto, tendo ao fundo um filhote de ave, como contraponto a sua situação de sofrimento. Foi publicada na matéria sobre Margaret Somerville que é diretora do Centro de Medicina, Ética e Direito na Universidade McGill e autor de A Imaginação Ética : Viagens do Espírito Humano. Nessa matéria interroga-se se o alívio da dor extrema não é um direito humano?

"O vivido de uma dor é sempre o vivido da minha dor. Cada um sofre à sua maneira, qualquer que seja o motivo de seu sofrimento. Todas as vezes que uma dor nos aflige, venha ela do corpo ou da mente, ela se mistura inextricavelmente à mais antiga dor que revive em nós..." J.-D. Nasio ( A Dor Física)

Enquanto a macropolítica  temporariamente, nos inebria, entontece e anestesia, há outras sensações e vivências subjetivas que não podem ser aplacadas com este momento político e social. São as que "vivemos na pele", oriundas de um aprendizado da dor. São as que nascem somente no âmago de quem as experimenta, por longo período. Eu aqui, resilientemente, venho aprendendo com a convivência diuturna do ser e estar com a dor em meu corpo/mente.

Recebi uma matéria de um jornal de Bioética: The American Journal of Bioethics, que me fez refletir sobre minha condição cidadã e meu ser vivo em estado de dor. O artigo é de uma bioeticista, Margaret Somerville, que vivenciou na "pele" como é absurdo o pouco cuidado da dor humana.

E este absurdo se torna ainda maior quando as condições de vida e dignidade não são incluídas no respeito ao ser humano em situação de dor extrema. Principalmente quando isso ocorre com os excluídos. A exclusão, de qualquer tipo ou ordem, também acentua outras dores, outras intensidades.

A própria bioeticista relata sua experiência com seu pai: "Em 1983, meu pai estava doente terminal com câncer de próstata com metástase para os ossos. Eu estava em Montreal, quando ele me telefonou e disse que ele estava prestes a morrer , então entrei em um avião e fui para a Austrália".

Ela relata que teve de criar uma grande confusão no hospital universitário onde ele se encontrava. Ela, após seu estardalhaço, conseguiu um especialista em dor para ver seu pai: o Dr. Michael Cousins, um anestesista australiano. Ele é o médico que ajudou a coordenar uma Declaração em Montreal sobre o Alívio da Dor como um Direito Humano, que apresento uma tradução livre lá embaixo.

O mais interessante é a afirmação do pai desta médica, que ainda sobreviveu por mais nove meses. Ele disse: "Eu quero viver enquanto eu puder, Margo, mas eu não quero viver se isso significar viver com uma dor tão terrível . É ótimo o que você fez por mim, mas nem todo mundo tem uma filha que pode " perder as estribeiras 'para obter -lhes o alívio da dor que eles precisam. Você tem que fazer algo para ajudar outras pessoas com dor". Desde então ela tem procurado ajudar na difusão de uma plataforma de reivindicações dos direitos de pacientes com dor por todo o mundo, em especial nos chamados países em desenvolvimento ou emergentes.

Freud em seu câncer de mandíbula, após diversas intervenções cirúrgicas, também solicitou a seu médico e amigo Max Schur um alívio. Ele recebeu o seu direito humano de morrer com dignidade. O seu médico atendeu a seu pedido "in extremis", ou seja quando nada mais podia ser feito, quando nem os cuidados paliativos já amorteciam a dolorosa e sofrível situação do pai da Psicanálise.
  Foi ele que nos legou esse conhecimento: "O eu (ego) é antes de tudo um eu (ego) corporal; não é apenas um ser de superfície (psíquica), mas é ele próprio a projeção de uma superfície[ a superfície do corpor, isto é a pele]... Por longos anos vivenciou dores e sua inexorável insuportabilidade psíquica ao se prolongarem. Em 23 de setembro de 1939 descansou com a ajuda de Max Schur.

Nessa perpectiva de alívio da dor é que devemos, médicos e seus ''pacientes'', buscar um modo ético e bioético de cuidar e diminuir o sofrimento humano provocado pela dor. Não somos todos budistas, mas o somos na sua afirmação da universalidade da dor. Não há ser humano que não a tenha experimentado, física e psíquicamente, sem guardar uma lembrança.

Daí que, teremos sempre dores antigas, dores atuais e até dores ''amigas''. Aprendemos a conviver e respeitar nossa frágil condição humana corpórea quando ela se apresenta e persiste. Aprendemos também que devemos combatê-la quando nos incapacita. Mas ainda precisamos aprender a respeitar a intensidade e o desejo de alívio de quem a sente como insuportável.

'Em sua "Declaração sobre o Acesso a Cuidados com a DOR como um Direito Humano Fundamental", os delegados e participantes do Congresso Internacional da Dor propuseram que todas as pessoas:
1- Têm o direito de acesso ao cuidado da dor sem discriminação.
2- Tem o direito a ser informados sobre como sua dor pode ser avaliada e acompanhada através do registro de um quinto sinal vital, e informados sobre as possibilidades de tratamento.
3- Tem o direito de acesso a um conjuto adequado das estratégias de gestão eficaz da dor, a serem alicerçadas em políticas e procedimentos apropiados para cada quadro particular de saúde pessoal e os profissionais da saúde que os empregam.
4- Tem o direito de acesso a medicamentos adequados, inclusive, mas não limitados, ao uso de opióides, bem como o acesso a profissionais de saúde especializados no uso destes medicamentos.
5- Têm o direito de avaliação e atendimento por uma equipe devidamente instruída e treinada interdisciplinarmente em todos os niveis de atenção
6- Tem o direito à politicas públicas de saúde em cujos quadros possam participar do tratamento da dor, em nível social, econômico e ambiental, baseados na compaixão, na empatia e na informação acessível e clara.
7- Tem o direito de acesso às melhores práticas, aos métodos não-medicamentosos do cuidado da dor ( variando desde métodos de relaxamento ou fisioterapia até o tratamento cognitivo comportamental), assim como a métodos intervencionais por especialistas em dor, dependendo dos recursos de cada país.
8- Temos o direito de ser reconhecido como tendo uma manifestação da doença, exigindo-se o acesso aos mesmos patamares de cuidado de outras doenças consideradas crônicas.
Adicionalmente, a declaração propõe que:
1- Os profissionais da Saúde têm a obrigação de oferecer aos pacientes com dor os mesmos cuidados que seriam oferecidos, razoavelmente, por profissionais atentos e competentes na área da saúde.
2- Os Governos e as instituições de saúde devem estabelecer leis, políticas públicas e sistemas que promovam/estimulem - e não inibir - os cuidados, a gestão e o acesso aos tratamentos da dor".


ESTE TEXTO FOI ESCRITO EM HOMENAGEM A TODOS OS QUE NÃO PODERÃO COMPARECER ÀS URNAS PARA VOTAR, POR ESTAREM SE SUBMETENDO, TALVEZ NESSE INSTANTE, A UM PROCESSO DE TRATAMENTO INTENSIVO PARA DORES EM FUNÇÃO DE UM CÂNCER, UMA RADIOTERAPIA, UM AGUDIZAÇÃO DE QUADRO INFECCIOSO, UMA RECIDIVA DE SEU QUADRO DE IMUNOSUPRESSÃO POR HIV, UMA CONDIÇÃO PÓSTRAUMÁTICA NEUROLÓGICA, OU QUALQUER OUTRA CONDIÇÃO DE VIDA E SAÚDE ONDE A DOR ESTEJA IMPEDINDO-OS DO EXERCÍCIO DE SUA CIDADANIA.

Eu aqui, mesmo como as minhas dores e dissabores, estarei buscando no voto, na urna, e no exercício de minha condição cidadã a esperança de outro modo de cuidar, olhar e respeitar esses Outros que aprendem a dura convivência com a dor. A esperança pode ser um gramática civil de um outro modo de re-conhecer a dor que nos é imposta com a negação de nossas diferenças e singularidades, para além de nossas diversidades e pluralidades.

Espero que nossos representantes políticos, ao serem eleitos, possam entender que: os gastos com o alívio da dor, tanto para os cidadãos e cidadãs, assim como para os Estados têm ocupado a terceira posição dos gastos totais em Saúde (WHO) dos países industrializados. Por que então estes cuidados não tem a mesma atenção que os dedicados às outras formas de adoecimento e sofrimento humano no Brasil e no mundo globalizado?

FONTES DE PESQUISA: 
 Is Pain relief a human right?
http://www.mercatornet.com/articles/view/is_pain_relief_a_human_right/

13º Congresso Mundial sobre a Dor - Montreal 2010
http://communities.canada.com/montrealgazette/blogs/healthbites/archive/2010/09/03/montreal-declaration-proposes-pain-strategies.aspx

A DOR FÍSICA (uma teoria psicanalítica da dor corporal) - J.-D. Nasio, Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, RJ, 2008.

Indicação para leitura -
Hospital: Dor e Morte como Ofício
- Ana Pitta, Editora Annablumme/Hucitec, 5ª ed., São Paulo, SP, 2003.

LEIAM TAMBÉM NO BLOG -
NENHUMA DOR A MENOS OU MAIS  http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/10/nenhuma-dor-menos-ou-mais.html

domingo, 23 de maio de 2010

A PARÁBOLA DA ROSA AZUL


Imagem publicada - foto do filme Beleza Americana onde uma jovem, loira e com sua nudez recoberta por pétalas de rosas, é o motivo de sonhos e fantasias de um personagem (Kevin Spacey). Ela está, simbolicamente, em um "mar de rosas vermelhas", as rosas americanas que não tem espinhos nem odor, são quase artificiais por isso com muito menos calor humano a transmitir. E me interrogarão: onde é que  a encontramos nesse mar as Rosas Azuis?

BIOPOLÍTICA, BIOÉTICA E NOSSOS CORPOS CONTEMPORÂNEOS

"Mas Diadorim, conforme diante de mim estava parado, reluzia no rosto, com uma beleza ainda maior, fora do comum. Os olhos - vislumbre meu - que cresciam sem beira, dum verde dos outros verdes, como nenhum pasto...." Guimarães Rosa ( Grande Sertão: Veredas)

Houve um tempo em que existiram, um jardim, um jardineiro e uma roseira. O jardineiro sabia-se apenas um cuidador das flores e plantas do jardim. O jardim era seu éden, quase perfeito e tinha um único dono. 

Coube ao jardineiro tentar uma experiência e pesquisa científica com essa roseira, que em tempos primaveris e com boa rega e adubos, produzia rosas de diferentes cores. Eram como as sexualidades humanas: multicoloridas, múltiplas e sempre mutantes, apesar dos espinhos. Não lhes faltavam rosas com a cor da dor ou do amor e seus variados perfumes sutis.

Como o dono do jardim quis provar, cientificamente, que poderia alterar gênese e função estética, além de seguir um padrão uniforme de toda a vizinhança, solicitou ao jardineiro que ‘normatizasse’ as rosas dessa roseira multicolorida.

Estabeleceu como ideal que ele provocasse uma mutação, um novo enxerto ou "terapia hiper-eugênica" para que a roseira só produzisse rosas com uma nova e intensa cor perfeita: Azul. Como o jardineiro, a moda do jardim de Alice no País da Maravilhas, tentasse obedecer a este amo e senhor, buscou fielmente a realização de seu desejo.

Mas a vida, assim como as rosas, não obedece a todos os nossos parâmetros de perfeição, e as flores antes multicoloridas e de diferentes perfumes, ao serem padronizadas passaram a ser tomadas como um ideal nas redondezas. Toda uma população contaminada e identitária passou a ‘pintar’ suas rosas para que essa nova cor da moda fosse presença em todos os jardins.. Nascia mais um império monocromático.

Como dizem, o que é bom dura pouco. Devido à sua perda precoce de pétalas, sua fragilização dos espinhos e progressivo envelhecimento precoce, surgiu, então, um problema e dilema, para que as rosas se tornassem apenas azuis.

Havia que também passar, necessariamente, por uma modificação genética e uma experiência nanotecnológica com transformação, através de pílulas e injeções, das mãos do próprio jardineiro. Tudo que ele passasse a tocar tornar-se-ia monocromático, apenas uma cor seria visível. E, progressivamente, seu próprio corpo também se tornaria perfeito: azul como aquela propaganda de celular.

Até um arco-iris, se possível de ser tocado, passaria apenas a traduzir em seu espectro luminoso o azul. Desde então o jardineiro está confinado em um laboratório de experimentação de drogas da indústria de pesticidas e invenção de rosas perfeitas e eternas. O jardim vem morrendo pelo aquecimento global, gerado pela hiper-industrialização e comercialização de rosas de plástico, que inclusive, tornaram-se as ‘culpadas’ de um novo tipo de lixo não reciclável, o seu dono está cada vez mais imperial e determinado a criar um ‘mundo global perfeito e sob controle’.

E as rosas? como dizia o doce Cartola: as rosas não falam, simplesmente exalam o perfume que roubam de ti... Por fim surgiram rosas simulacros e de cor única, todas de plástico e imortais. Para sempre azuis. E o mundo continuou a girar e gerar progresso, lucro e alienação.

Será apenas ficção ou cinema quando nossos corpos são utilizados para a experimentação científica? Ou cada dia mais estamos nos tornando cobaias e objeto de pesquisas em nome da Ciência e do Progresso? O quanto de biopolítica poderia se tornar uma ecopolítica bioéticamente "sustentável"?

Meta-parábola interrogante e dilemática do jardineiro infiel: a criação de rosas perfeitas, cuja beleza americana(1) é o paradigma da nossa sociedade pós-hiper-capitalista.... ou ainda podemos diversificar e multicolorir os nossos heterogêneos jardins da subjetividade humana?

Como então não cair nos espaços hipercapitalistas de criação de corpos e vidas nuas que se tornam qual cyborgs, que quando "recoloridos" cairão em um espaço de troca de peças, recall, manutenção preventiva e recauchutagem? Como em Gattaca seremos como novos ‘veiculos’- máquinas impulsionadas pelo modelo biomédico de produção serializada de corpos perfeitos e esteticamente ideais, escolhidos em laboratórios, mas precisando do sangue dos "inválidos"?.


E os olhos de Diadorins se apagarão para sempre...

(copyright jorgemarciopereiradeandrade 2010-2011 - ad infinitum - favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massas)

REFERÊNCIAS NO TEXTO:
1- Beleza Americana - filme do diretor Sam Mendes (1999) - http://pt.wikipedia.org/wiki/Beleza_Americana

2- Gattaca (a Experiência Genética) - filme do diretor Andrew Niccol (1997) - http://pt.wikipedia.org/wiki/Gattaca

3- Ciborgue - Cyborgs - http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciborgue

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SAÚDE, BIOÉTICA E POLÍTICA - VENDEM-SE CORPOS, COMPRAM-SE CONSCIÊNCIAS 
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