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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

SOB O "DOMÍNIO" DAS TELETELAS...

Imagempublicada– uma "auto"-fotografia publicada recentemente com a “plateia” de Mark Zuckerberg, leia-se Facebook, durante a última edição da Mobile World Congress–todos devidamente equipados com o Samsung Gear VR, alegremente (como são descritos em matéria citada) ignorando tudo o que ocorria ao redor, incluindo a passagem do sujeito ilustre. Estão todos sentados com ‘óculos de realidade virtual’ (Virtual Reality) no rosto, com uma uniformidade de suas roupas (ternos¿), aparentando serem na maioria do sexo masculino, recebendo uma ‘carga’ de informações sobre essa ‘nova’ e descartável tecnologia de ponta. Todos se vestem de azul, inclusive Zuckerberg, apenas com a diferença de que ele está de camiseta, calça jeans e tênis (descubra qual é a marca, e compre um par igual, mesmo que falsificado...). Fotografia difundida pelo Mark - I just joined Samsung to launch their new Galaxy smartphones and talk about the future of virtual reality.I told the... (Publicado por Mark Zuckerberg em Domingo, 21 de fevereiro de 2016)

Há uma naturalização de nossos tempos de “all by my SELFIES”: - NÃO SOU SE NÃO ME CONECTO. NÃO ME CONECTO, PORTANTO NÃO SOU.  SEM MEU SELFIE NÃO POSSO TER UM “SELF”? Todos os meios midiatizáveis, até os in-possíveis, contribuem para esta “modernidade” que nos faz querer apenas o ‘instantâneo’, mesmo que massificado e falso.

A robotização de nossos corpos já é considerada “normal” e tem mais um filme sobre nossas ‘pulsões’ (instintos¿) artificializadas. E vamos sorrir, pois o golfinho, o poeta ou o touro indomável que aparecerá compondo meu autorretrato pode já ter morrido, ou então é mortal, no seu duplo sentido.

Em artigo com o título: Em um futuro de tecnologias invisíveis, "offline" pode não ser mais uma opção, de Carlos Ferreira, no CanalTech, encontrei uma pérola. Uma gritante preciosidade da naturalização de nossos corpos defeituosos que virão a ser, um dia, “perfeitos”. Seremos todos, como no filme, Ex Machinas. Eis o que se constrói com pequenos e contínuos grãos de informação reificada. (ver a matéria completa em link ao final deste texto)

Diz o artigo: Talvez não seja arriscado dizer que uma tecnologia é tão boa quanto mais facilmente ela puder se fazer invisível”. E o autor arremata: “-. Em plena era digital – apesar do referido culto -, o que se vê é uma integração cada vez maior entre o indivíduo e as inúmeras ferramentas do dia a dia. Mas não apenas isso: conforme avançamos por este período orquestrado pela internet, torna-se mais e mais evidente certa fusão entre o universo virtual e o físico. Senão, basta andar pelas ruas: deve demorar bem pouco para que o primeiro sujeito corcunda apareça, andando decidido enquanto envia mensagens no WhatsApp, se guia pelo GPS ou dá lances em leilões online. E isso deve ser apenas o começo”...

Foi aí que me lembrei de Quasímodo (o quase perfeito), aprisionado e isolado do mundo no alto da catedral Notre Dame. E imaginei o que o autor pretendia com a palavra ‘’sujeito corcunda’’. Seríamos e seremos, em futuro próximo, todos neo-quasímodos¿

E por que nesse mundo integrado das máquinas e de nossos corpos estaríamos todos “tortos”, “defeituosos”, e “dobrados “¿ Será porque nos des/dobramos para caminhar entre nossos semelhantes, curvados sobre os smartphones¿ ou o peso simbólico que nos conectaria ao mundo internético global seria mais forte que nossas colunas de sustentação sapiens¿

Não tenho essas respostas, embora as deseje. Nossos tempos de velocidade e hiperconexão já foram uma preocupação para mim. Hoje, “naturalmente”, tenho de re-conhecer como estou imbricado, implicado e transversalizado por todas essas ‘tecnologias’. Entretanto, para não me curvar ainda mais, já que meus parafusos de titânio não me permitem, continuo buscando a postura mais poética, micropolítica e crítica possível. Afinal não quero descobrir que sou apenas um robô, uma ex_machina aperfeiçoada e cada dia mais in-sensível.

Nesse campo das sensibilidades e dos afetos é que encontro meus antídotos. Nessas buscas para além do que as novas ‘máquinas de escrever’ notebooks me proporcionam. Nesses abusos que me permito nas buscas de ferramentas dentro das buscas. Nas ultra/passagens e interrogações do que estamos a construir ou destruir para nossos próprios ‘futuros’.

Não consigo me desconectar, não tenho como. Acho que todos os ‘on line’ que estiverem lendo este texto sabem o que digo. Somente os que estão ainda considerados ‘off line’ (um grande número de habitantes do planeta, a sua metade) é que não acessaram estas perguntas sem respostas. Já fiz parte de um grupo que desejo um Livro Verde para a inclusão digital. Já acreditei que poderíamos ampliar e melhorar todas as vidas, até as mais miseráveis, se distribuíssem máquinas conectadas, mesmo que alimentadas por velhas mecânicas ou manivelas.

Hoje, após ler o artigo e ver o filme, sou obrigado a voltar à interrogação do texto que escrevi em 2012: seremos no futuro, todos ciborgues¿ ou já nos tornaram um pouco mais que isso: trans humanos que se auto iludem sobre os seus poderes, mesmo que os falsos “micro poderes”. Os micros poderes que não são atos de micropolítica. São apenas ‘propaganda’ e identificação projetiva banal...

 Aqueles que nos fazem difundir e ampliar a alienação e a vontade de micro fascistação do viver. Os mesmos que, ao negarmos nossas historicidades, propagam, imediatamente, quaisquer agressões, homofobias, racismos, misoginias, neo-fascismos e apologias da violência militarizada do viver. TUDO QUE ESTÁ NA INTERNET É FATO, mesmo que uma in-verdade, E NÃO FACTÓIDE!
Em tempos de microcefalias, que não devem ser ‘exterminadas’ e contágios de vírus que tenham também a função do barrar os contatos, se faz urgente uma reflexão sobre o quanto agora estamos, para além do domínio do medo, impregnados e sob o domínio das ‘teletelas’. E que George Orwell me autorize a cópia in-de-vida.

BEM VINDOS ao mundo do “exército de alienados” virtuais, Zuckerberianos ou verdeamarelistas, que se dobram, inconscientes e desejantes, ao convite ‘quase’ erótico das Ex Machinas que desejam nosso controle.

Descubram os mais da contramão, sem serem neo-luditas, na foto, que sempre há alguém que olha para trás, mesmo quando nos dizem que o passado nada tem a nos mostrar ou ensinar.

Copyright/left jorgemárciopereiradeandrade  2016-ad infinitum (favor citar as fontes e o autor em republicações ‘livres’ pela Internet ou quaisquer meios de mídia e comunicação sobre e para as massas) TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025

FONTE – Matéria citada completa:
(O conteúdo do Canaltech é protegido sob a licença Creative Commons (CC BY-NC-ND). Você pode reproduzi-lo, desde que insira créditos COM O LINK para o conteúdo original e não faça uso comercial de nossa produção.)

Foto de Mark Zuckerberg na MWC 2016 pode dizer muito sobre nosso futuro https://www.tecmundo.com.br/mark-zuckerberg/100968-foto-mark-zuckerberg-mwc-2016-dizer-nosso-futuro.htm


Para ler e interrogar sobre o QI - Intelligent people have one thing in common https://www.ideapod.com/idea/Intelligent-people-have-one-thing-in-common/557678ba0a70e37c2f2d5277 (O ‘mundo’ já saberá em breve quantas horas estamos a=cor=dados ou já o sabe¿)

Sci-fi dreaming to desk-side vacations: The evolution of Virtual Tourism (A VIDA VIRTUAL)  https://mashable.com/2016/04/02/virtual-tourism-evolution-brandspeak/?utm_cid=p-LV-tw-bc#pGgAj_5KYPq

Óculos do Facebook é acusado de passar informações dos usuários para empresas https://olhardigital.uol.com.br/pro/noticia/-culos-do-facebook-e-acusado-de-passar-informacoes-de-usuarios-para-empresas/56965 

FILME INDICADO – EX MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL  https://www.adorocinema.com/filmes/filme-219931/

Ex_ Machina - Official Trailer (2015) [HD]  https://www.youtube.com/watch?v=XYGzRB4Pnq8
(Ex Machina (estilizado como EX_MACHINA) é um filme britânico de 2015 de ficção científica e suspense sobre um andróide com inteligência artificial. Foi escrito e dirigido pelo autor e roteirista Alex Garland, tendo sido a sua estreia como diretor. O filme foi protagonizado por Domhnall Gleeson, Alicia Vikander e Oscar Isaac, segundo - https://pt.wikipedia.org/wiki/Ex_Machina_(filme)

LEIA TAMBÉM NO BLOG –


SEREMOS, NO FUTURO, CIBORGUES? PARA ALÉM DE NOSSAS DEFICIÊNCIAS HUMANAS https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/seremos-no-futuro-ciborgues-para-alem.html



RACISMOS, BARBÁRIES, FUTEBOL... ONDE ENTRECRUZAM AS VIOLÊNCIAS SOCIAIS? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/05/racismos-barbaries-futebol-onde.html

MOVIMENTOS, MASSAS, MANIFESTOS E HISTÓRIA: POR UMA MICROPOLÍTICA AMOROSA, URGENTE. https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/06/movimentos-massas-manifestos-e-historia.html

domingo, 6 de julho de 2014

FUTEBOL, VÉRTEBRAS, CLONES E TRANSFORMERS – A PRODUÇÃO DO ESPETÁCULO DA VIOLÊNCIA.

Imagem publicada- foto da maquete tridimensional de propaganda do filme, recém lançado: Transformers 4, a Era da Extinção, onde  ‘caminhões-robôs’, são transformam em gigantescos e super armados Autobots e Deceptions, que hora defendem ou ameaçam a Terra e os humanos de sua extinção e aniquilamento total. Essa versão de número 4 inclui também o retorno de míticas figuras, como da foto, de monstros pré-históricos, qual dragões aliens ou dinossauros hipermetálicos, que são os meios de ataque ou de destruição a serem combatidos. Na foto há um robô  hipermetálico “cavalgando” uma dessas feras, dessas bestas deste Apocalipse, um Tiranossauro futurista, com vértebras de aço ou titânio. Entretanto tudo acontece, segundo a sinopse do filme porque: “um grupo de cientistas e empresários que buscam aprender com as invasões passadas dos Transformers, acabam levando a tecnologia a limites para além do que eles podem controlar...”. A utilização dessa imagem é uma aproximação da influência que estas ‘feras’ têm de humano. É a constatação de como, cada dia mais, o ato violento é legitimado, naturalizado, inclusive para supostas defesas patrióticas contra os ‘alienígenas’ ou quaisquer um que se torne, ou seja, tornado uma ameaça ou oponente... Como diz o cartaz: ‘agora não é guerra, é a extinção’. É o matar ou morrer. Na ficção naturaliza-se a tele visão da banalização da violência, em qualquer campo, inclusive os de futebol.

“Há diversos aspectos violentos, diretos ou indiretos, de caráter mais geral que ocorrem no futebol, mas não são exclusividade dele. Vejam só: o tráfico de drogas e de armas, o alcoolismo, a corrupção, a impunidade, a homofobia, competição excessiva, opressão, covardia (inclua-se o racismo) são práticas de violência que acontecem no futebol” (Maurício Murad, pág. 220).

Os jogadores do futuro usarão novamente armaduras ou camisas hiper tecnológicas? Ou duras armas letais que nos saciaram as nossas buscas de superação de nossas finitudes? Serão imbatíveis, heroicos, incansáveis, insensíveis, insípidos e, principalmente, indestrutíveis, como se fossem verdadeiras máquinas de fazer gols, mesmo que para isso fosse preciso passar como um trator sobre o outro que não veste a mesma camisa? O gramado que era verde poderá se tingir de vermelho, sem passar pelo amarelo?

Escrevi ontem, após mais um jogo da Copa do Mundo: “#NEYMAR EU SEI O QUE É DOR - PELA NÃO NATURALIZAÇÃO E BANALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA DENTRO E FORA DO CAMPO - Neymar tem um FRATURA DE VÉRTEBRA (após anúncio “oficial”, via televisão, com  lesão na região lombar, da vértebra L 3,  para mim como agressão intencional), e Zuniga (jogador da Colômbia) nem remorso têm de sua deslealdade e violência? VALE TUDO.... UFUTEBOLCLUBE - UFC? Ou será apenas o UtilitarismoFIFAcomCerteza?

Há quase um ano atrás, por vários motivos, inclusive as manifestações das ruas, interessava-me questionar a produção social das violências. Estava atendendo a um pedido que me veio para um artigo sobre o que é Violência Social? Vinha lá da África, onde violências são, como aqui, parte do cotidiano. Logo de princípio reuni os livros que tinha sobre o tema. Um deles agora me incomoda e convida a relê- novamente: A Violência no Futebol, dele sai a citação lá em cima.

Não estaria escrevendo agora, com o sol já nascendo e me iluminando, ontem a noite dolorosa e a madrugada insone me colocaram em total implicação e empatia com um jogador de futebol: Neymar. E, graças à insônia e a inquietude diante da violenta cena de um “joelhaço” premeditado, resolvi provocar nas redes sociais uma fagulha de indignação, de revolta, mas também de reflexão. Valerá uma taça tantos “heróis”, suas vértebras ou mitos quebrados?

Vi, recentemente, um pequeno desenho animado com os jogadores sendo substituídos por CLONES: PERFECT, como propaganda da NIKE, que no Brasil recebeu o nome de o “ÚLTIMO JOGO”, como parte de uma série #arrisque tudo. Nela os grandes jogadores de futebol do mundo seriam substituídos por seus clones.

E Ronaldo, o fenômeno que negou a Copa, é encarregado de dizer aos ‘verdadeiros’ originais: “_ Vocês fazem o jogo, vocês não tem medo de arriscar... lembrem-se que vocês jogam como se fosse um jogo... eles jogam como se fosse um emprego...”. Mas como vencer um jogo contra nossos próprios espelhos? Contra nós mesmos?

 E, ironicamente, sabemos qual é o preço de cada um desses “corpos”, volantes ou atacantes, no mercado, ou não?

Mas não é o seu valor de mercado que está em questão para mim. Já se naturalizou a frase: a vida (útil) de um jogador é curta. As suas pernas e seus passes serão precocemente exauridos. E o seu corpo-jogador será aposentado. Nós também ‘penduramos as chuteiras’? Sim, em outras condições e por outras perdas, assim como outros mínimos valores. Eles, entretanto, serão ‘eliminados’, ou em breve substituídos, após contusões, lesões e vértebras fraturadas? As suas carreiras, à exceção de alguns Garrinchas, podem ser “transformadas”.

O que poderá acontecer, por exemplo, com os que mordem, atropelam, violentamente ou ‘’falso intencionalmente’’, deixam seu corpo quebrar o desses outros, os que mais ganham, tanto sucesso como dinheiro, quando são driblados? Perguntem ao uruguaio Luiz Soares ou ao colombiano Camilo Zuniga, um deles já está com um contrato de 75 a 90 milhões de euros com o Barcelona.

Como eles vão vencer os ‘clones’ perfeitos? Tornar-se-ão avatares de clones criados para eliminar quaisquer adversários, com dentadas ou joelhaços. Vale tudo. Diz a propaganda da Perfect Nike: “vocês arriscam tudo... TUDO... para VENCER”, custe o que custar, inclusive o sacrifício espetacular dos seus ou dos corpos de outros jogadores.

 CORPOS VIDAS NUAS como os dos gladiadores, na neo-arenas, nos gramados ou competições, treinados para reações, em breve, aos seus pés, braços ou cérebros com chips implantados, assim como os que já existem dentro das bolas. Tornam-se máquinas, robôs ou seres trans humanos que poderão ser controlados e manipulados a bel prazer dos interesses, desde os macropolíticos até os empresariais/industriais do futebol. É só vestir uma camisa com novas tecnologias já idealizadas, com microfones, microcâmeras, e, quiçá, com possíveis monitoramentos dos movimentos e até das emoções dos competidores.

A comparação de jogadores com neogladiadores, tão sutil e presente, virará realidade? Já questionei em 2010 essa onda crescente de naturalização e banalização do que acontece dentro dos estádios, desde tempos ditatoriais. A ideia de que é natural em um ‘esporte de contato viril’, jogo para machos escolhidos a dedo, se confrontarem até o ‘mata-mata’, revela os significantes necessários para a análise do que é vir a ser o ‘campeão nas arenas’.

A violência no futebol também é a “do” futebol. Apenas uma representação de um fenômeno considerado social, e, portanto, também um fenômeno humano. Entretanto se o vislumbramos como uma “paixão coletiva”, conforme se reforçam nos mitos, aí temos de lembrar-se das arquibancadas, dos torcedores.

Nesse campo já somos campeões. Como nos diz o livro A VIOLÊNCIA NO FUTEBOL, de Maurício Murad, sobre mortes de torcedores: “...O que dizer dos dados de 2009 e 2010? Chegamos a 9 e 12 mortos por ano, respectivamente. A grave conclusão da pesquisa, no entanto,  é que 78,8% são de torcedores com nenhuma ligação com grupos organizados e responsáveis por atos e comportamentos marginais...”

E, dentro do panorama Copa, quando essas violências, com múltiplas facetas, são exercitadas agora contra os que ficam fora do perímetro dos estádios? Lá também está a presença, mesmo não visível, do modelo gerado pela Sociedade do Espetáculo, lá está presente, com a força truculenta das polícias e suas tropas de choque, o Estado Espetáculo. E são também naturalizadas as atitudes repressivas ou violadoras de direitos humanos, em nome da ordem e do progresso. Aí também está o “vale tudo”.
E, durante entrevista, o técnico da Seleção Brasileira, nos traduz o que fica aparentemente encoberto sobre essa violência naturalizada: “sabíamos que o Neymar seria caçado, desde o início da Copa...”. Há a caça, o caçado e o neo-caçador de chuteiras. Teremos, então, de nos preparar para assistir, em futuro não muito longínquo, o no ROLLER-FOOTBALL?

Como responderíamos, se nossa memória fosse mais viva, à indagação de onde estávamos no ano passado? Nas ruas ou nos nossos sofás? Acho que preferiríamos continuar mais um tempo, confortavelmente, ou nos sofás ou nos lugares de alguns que conseguiram ingressos para estar nos estádios/arenas. Não é mais seguro e menos arriscado nos mantermos nesses campos?

É-nos mais habitual ficarmos de espectadores do que espect-Atores? Melhor a primeira condição do que a exigente segunda, afinal ter de se re-inventar e, a cada momento, ter de se assumir produzindo, social ou individualmente, nossos próprios gozos ou sofrimentos.

 E, assim ficamos de costas para as nossas próprias penalidades. Nossos clones trocados por belicosos “transformers” resolverão todas as disputas, todas as querelas, e, como os heróis míticos, nos levarão para um futuro sempre vencedor e glorioso. Como máquinas-de-guerra aperfeiçoadas não mais precisaremos nem mesmo de biotecnologias, apenas bioengenharias que nos tornem “quase-perfeitos”, “quase-imortais”. Seremos todos ciborgues ou Robocops?

Em tempos de drones, clones, busca de perfeição e aprimoramento das máquinas futebolísticas e espetacularizantes, qual então será nossa proposta para enfrentamento, para além dos racismos e das discriminações, das bananas nos gramados às condenações de Zunica por sua pele e não por sua deslealdade violenta, para que recuperemos nossos sentidos éticos para todos os nossos jogos, todas nossas disputas e jogadas, todos os nossos “encontrões e trombadas” com o Outro e as alteridades?

Vamos “aprender a aprender”, ou melhor, inventar e re-inventar, como linhas de fuga e suaves cartografias coletivas, outros modos de viver mais humanos e menos cópias perfeitas de nós mesmos? E que tal recuperarmos nossos sentidos de multidão, sem temor das repressões, para além de massas passivas que podem ser esmagadas pelos viadutos, superfaturados e desestruturados, que só nos levam em direção dos estádios? Ou dos espetaculares estádios que nos fazem esquecer aqueles que os construíram e sob suas ferragens deixaram alguns “soterrados”?

E, se possível, dizermos, para além dos hinos ou dos patriotismos: NÃO VALE TUDO PARA VENCER EM QUALQUER CAMPO OU GRAMADO...

E a próxima Copa já começou... Continuaremos apenas campeões de audiência, passividade e ausência, insensibilizados e anestesiados diante da Era da Extinção, aquela que nós mesmos produzimos?

PS- Dona Fifa acrescente nas suas faixas:  SAY NO VIOLENCE IN FOOTBALL, além do RACISM que também se fundamenta em outras sutis e históricas violências.

Copyright/left – jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação e manipulação de massas. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

LEITURAS CRÍTICAS INDICADAS –

A VIOLÊNCIA NO FUTEBOL – Maurício Murad, Editora Benvirá, Saraiva, São Paulo, SP, 2012.

VIOLÊNCIA E CIDADANIA, Práticas Sociológicas e Compromissos Sociais – José Vicente Teixeira dos Santos et allii (orgs), Editora UFRGS/Sulina, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 2011.

NOTÍCIAS NA INTERNET – *(relacionadas com o texto)

Nike Futebol lança animação "O Último Jogo" vejam em: 

Copa do Mundo 2014 | Neymar, o gladiador abatido pela violência desleal do colombiano Zuñiga https://www.jornalgrandebahia.com.br/2014/07/copa-do-mundo-2014-neymar-o-gladiador-abatido-pela-violencia-desleal-do-colombiano-zuniga.html



Infográfico: a computação vestível e o futuro das camisas de futebol https://idgnow.com.br/ti-pessoal/2014/05/20/infografico-a-computacao-vestivel-e-o-futuro-das-camisas-de-futebol/

DIRETO DO TWITTER -  Guerra do futuro pode ter ‘transformers’ e drones impressos em 3D 
https://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/guerra-do-futuro-pode-ter-transformers-drones-impressos-em-3d-13156602

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –

RACISMOS, BARBÁRIES, FUTEBOL... ONDE ENTRECRUZAM AS VIOLÊNCIAS SOCIAIS? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/05/racismos-barbaries-futebol-onde.html


EM BUSCA DE UM CORPO “PERFEITO” PERDIDO, NO TEMPO DAS OLIMPÍADAS... https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/08/em-busca-de-um-corpo-perfeito-perdido.html

SEREMOS NO FUTURO, CIBORGUES? PARA ALÉM DE NOSSAS “DEFICIÊNCIAS” HUMANAS https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/seremos-no-futuro-ciborgues-para-alem.html

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

DEFICIÊNCIAS, MEMÓRIA E ENVELHECIMENTO – Qual é o nosso futuro?

Imagem publicada – uma fotografia colorida, que foi tirada com apoio e ajuda de uma jovem de 12 anos, minha filha, feita em plena manifestação de Junho de 2013, em uma Avenida de Campinas, onde vemos sentada, em primeiro plano, uma senhora, negra, segurando duas muletas, sentada no ponto de ônibus, tendo atrás dela, em pé e na rua, diversos jovens, em destaque uma jovem de costas com a bandeira do Brasil enrolada no corpo. Fiz essa foto para me lembrar do que poderia ser, além dos vinte centavos, outro motivo digno de manifestações ou de revoltas das multidões: o ‘esquecimento’ de nossos velhos, dos que estão sentados em outros bancos, principalmente de hospitais ou filas da Previdência. Esperando, esperando o futuro que passa, vestido de nacionalismos, cartazes que passam e rebelião popular que se esquece. Esquece de dirigir seu olhar e respeito para com esta que poderá vir a ser a sua própria imagem, um retrato que ainda está em seu devir...(fotografia de meu arquivo pessoal).

“...A memória dos velhos desdobra e alarga de tal maneira os horizontes da cultura e faz crescer junto com ela o pesquisador e a sociedade onde ele se insere.... Se alguém colhe um grande ramalhete de narrativas orais, tem pouca coisa nas mãos. Uma história de vida não é feita para ser arquivada ou guardada numa gaveta como coisa, mas existe para transformar a cidade onde ela floresceu. A pedra de toque é a leitura crítica a interpretação fiel, a busca do significado, que transcende aquela biografia: é o nosso trabalho e muito belo seria dizer, a nossa luta”. (Bosi, 2003a, p. 69)

Hoje, mais um dia de me lembrar, eis a memória, das minhas dores físicas. Elas se tornaram fiéis escudeiras do meu viver? Acho que sim, mas me fazem também refletir sobre uma encruzilhada na qual se encontram três “entidades”, ou melhor, acontecimentos existenciais: nossas deficiências, a nossa memória e o nosso envelhecimento.

Como diz, humildemente, Eclea Bosi, no texto de abertura, as nossas histórias de vida não são feitas para os arquivos, para o mofo ou o esquecimento, aí significando o abandono ou desprezo. Nossas histórias merecem outro cuidado diante dessa encruzilhada que o mundo nos apresenta, principalmente por sua lógica do descarte e do consumo.

Ouvimos, falamos, repetimos e naturalizamos a previsão e o agouro de que todos nós nos tornamos pessoas com deficiência, no futuro. Nesse momento, pela óptica biomédica, estamos ainda “com saúde”. Ideal e econômicamente saudáveis, como nas propagandas dos planos de 'saúde'.

Porém o que temos de refletir é como isso poderá ser modificado. Nossa atual concepção/paradigma de uma deficiência depende totalmente  do meio no qual se produzem as barreiras, os preconceitos e as limitações que levam um ser humano às denominadas situações de deficiência. É o novo paradigma social que muda nossos velhos conceitos sobre ser, estar e ficar com uma deficiência.

Não nascemos já com algumas "deficiências"? SIM, não nascemos na perfeição, no modelo eugênico e ideal, além de racista, de seres sem nenhuma mácula, defeito, imperfeição, falha, incapacidade ou qualquer estigma. Somos, desde sempre, quiçá para o futuro, os “portadores da vida imperfeita”. Apenas humanos, demasiadamente humanos. E também "portadores da transitoriedade e da finitude".

Hoje muitos estarão falando dos “velhos”. Senhores e senhoras. Os que recebem nessa data uma comemoração internacional. Um momento de lhes assegurar seu Estatuto e suas questões de vida e sobrevivência fundamentadas pelos direitos humanos. Porém, não lhes daremos nosso espelhamento e nossa re-visão crítica, aquela que a Ecléa nos pede e ensina. Nosso espelho do futuro está coberto?

Precisamos de outro e novo olhar para aquilo e aqueles que denominamos “velhos”. Prefiro como sempre disse usar o termo “antigo” para me referir ao que muitos dizem ser nossa Terceira Idade, nosso fim e terminalidade. Vejo aí sempre aquele olhar que se reproduz no símbolo que está nos estacionamentos, metrôs e outros espaços públicos onde passamos a ser a prioridade apenas com uma bengala. Curvados pelo Tempo.

Todos terão, como eu, de usar apoios ou meios de locomoção que são também símbolos significantes do nosso desgaste físico corporal. Serão todos corpos com o significante permanente da perda, do passado sem futuro, da história a ser esquecida? Não, temos de buscar essa encruzilhada e conversarmos cara a cara com a Memória, essa amiga próxima e íntima da Dona Morte.

E é a Dona Morte que nos assusta que muitas vezes nos rouba o que chamamos de memória. A memória mais roubada é a dos fatos recentes, a que chamamos de anterógrada. Porém, nessa óptica apenas neuropsíquica, o que mais temos temor de perda são as memórias do passado. Já que as cultivamos, como uma flor destinada a murchar, as nossas lembranças, nossos velhos retratos, nossas antigas músicas e amores. Principalmente os amores regados com a nova suavidade dos encontros alegres.

Por isso hoje temos de rever esses conceitos naturalizados sobre uma época do viver que todos e todas temos de viver: o tornar-se idoso. Na nossa sociedade, ainda é regida pelo Estado do Bem Estar e da Saúde Eterna, continuamos na busca alquímica da “fonte da juventude”. Simbolizamos aí o nosso temor/terror da pele enrugada, dos movimentos lentos, das falhas e lapsos da memória, dos conflitos transgeracionais, e, “naturalmente”, nos tornarmos os “rabugentos”.

Uma mão com sua pele encarquilhada, com suas veias mais visíveis, com sua motricidade fina diminuída, com a lentificação dos movimentos, independentemente, do poder segurar um pincel e repintar, finamente, a própria imagem, hoje, pelas novas tecnologias, não encontrará nenhuma barreira se as puder utilizar sem barreiras. Porém o tornar-se mais um na deficiência está acompanhado, quase sempre, de uma probabilidade de não acesso a estes recursos ou tecnologias assistivas.

O pensar o nosso, o seu, o meu e o de todos, envelhecer em uma sociedade de vidas descartáveis é uma reflexão indispensável. Ou melhor, deve ser pensável e imprescindível. As vulnerações, ou seja, a produção de novas vulnerabilidades, em tempos de incertezas, desde o macropolítico até ao micropolítico, nos apresenta outra encruzilhada: - o aumento de nossas expectativas de vida, com ele o aumento das ‘deficiências’ dos sistemas de proteção social e previdenciária, e, inevitavelmente, o incremento de barreiras que propiciem mais marginalização e/ou exclusão social.

Portanto, ainda estamos nessa busca de qualificar quem, que mecanismos, que lógicas e que políticas tem produzido os mitos que cercam essa tal ‘feliz idade’. Os mitos que as colocam como beneficiárias e não como agentes da mudança de suas vidas. Presas fáceis dos modelos reabilitadores e biomédicos e suas mitificações, quase religiosas ou milagrosas. O mito de uma vida de eterna juventude.

Reforçam-se aí os mitos quando estes 'velhos' são excluídos do mercado de trabalho, com sua retirada para os aposentos domésticos. Os mitos que as convertem e novos e dependentes endividados dos empréstimos bancários especiais para estes aposentados. E, finalmente, os mitos, reforçados pelos ideais de Saúde plena, com sua re-habilitação  que se torna exclusivamente dependente dos avanços da medicina e das biotecnologias. Ficam, então, reféns da visão de que realmente estão mais próximos da Dona Morte do que da Vida.

É este o futuro que desejamos? É este o futuro que estamos providenciando e produzindo? Um duro e não harmônico futuro. Não aprendemos, ainda,  ir em busca da velha tradição oral? Que tal reaprendermos a escutar atentamente os nossos “velhos”.  Enfim, para uma escuta sensível e não como uma escuta que reforce nossos preconceitos ou mitos sobre o envelhecer.

Eu, aqui, como já disse no início, continuarei meu aprendizado, embora árduo, do conviver com um corpo que não é mais o dos “vinte anos”. E não usarei o vinho ou outros componentes que nos embriagam com a ideia fantasiosa de que “quanto mais velho, melhor”. Este é outro mito a ser superado. Só somos melhores quando nossas qualidades do viver também o são. Quando a vida é digna e os direitos não são só de papel.

Eis, então, a questão: mudaremos nossos paradigmas sobre as deficiências, as memórias e os diferentes, diversos, plurais e humanos envelhecimentos? Um belo fim para alguns pode ser diferente do que outras pessoas, nas suas diferenças, desejem e aspirem para seu futuro. O que podemos, então, a elas, humanas, demasiadamente humanas, dizer sobre o futuro?

Não tenho a sua resposta, não tenho mais que a permanência na dúvida e na indagação, estas que fazem com que supere quaisquer das minhas atuais limitações. São as mesmas que fazem que eu queira ter direito ao meu Testamento Vital. As mesmas que me impedem do afundar ou desaparecer dentro das areias movediças das certezas científicas ou dos dogmas religiosos.

Enfim, para não prolongar o texto, apenas para lembrar este contexto, esta crônica de uma comemoração do Dia Internacional do Idoso, desejo que nossos corpos, corações e mentes, não perdendo a paixão e o vigor, busquem, individual ou coletivamente, uma nova visão micropolítica e cartográfica do viver, mesmo com os limites, sem pedidos de complacência ou desejos de retorno ao suposto nirvana dos úteros maternos.

Não deixemos apagar a Memória. Principalmente aquela que exige um respeito e reaprendizagem: a da nossa História. A mesma, ouvida dos velhos, sobre as nossas naturalizações e banalizações das violências, das vulnerações e nossa capacidade de destruir, em segundos, o que levamos séculos para produzir, construir, arquitetar e transformar em beleza.

Avancemos, com dignidade e luta, para os braços da Dona Morte, com a certeza de escrevemos, conjuntamente, outra história sobre o viver e o Super-viver, não apenas o sobreviver. E os de mais idade, mais tempo cronológico e biológico, estarão entre nós...

E deixaremos envelhecidas memórias, um tanto ‘deficientes’, mas não escondidas nas gavetas de “velhas escrivaninhas” neo-tecnológicas chamadas de computadores.

Eu, solidariamente, estarei mais velho quando o meu pai fizer os seus 104, 105 e 106 anos...

Copyright/left – jorgemarciopereiradeandrade 2013/futuro (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

LEITURAS CRÍTICAS INDICADAS –

Memória e sociedade: lembranças de velhos. Ecléia Bosi, São Paulo: Companhia das Letras. (1994 – um texto sempre renovador e implicado com a vida, sem temor da finitude).

Bosi, E. (2003). O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. São Paulo: Ateliê EditoriaI.

SOBRE O DIA INTERNACIONAL DO IDOSO - Dia Internacional do Idoso comemora expectativa de vida na terceira idade https://www.jornalnanet.com.br/noticias/7520/dia-internacional-do-idoso-comemora-expectativa-de-vida-na-terceira-idade

Notícia acrescentada em 2015 - Vivemos mais mas isso não quer dizer que sejamos mais saudáveis (diz a OMS) https://www.noticiasaominuto.com/mundo/461954/vivemos-mais-mas-isso-nao-quer-dizer-que-sejamos-mais-saudaveis

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sábado, 14 de agosto de 2010

FAHRENHEIT 451.0 ou O LIVRO ELETRÔNICO?

Imagem publicada - a capa do filme em DVD:  Fahrenheit 451, de François Truffaut, já lançada em dvd, com a figura de seus dois personagens principais: Montag (Oscar Werner), um dócil "bombeiro", cuja tarefa em um Estado futurista, não é um apagador de incêndios, mas um incinerador de livros e dos que os leem e suas bibliotecas proibidas, colocado em conflito após o encontro com Clarisse (Julie Christie), que no livro é uma jovem, uma adolescente, e no filme uma extrovertida e alegre mulher. Nesse hiper futuro que já é ontem, naquela sociedade fria e mecânica seria o oposto do que Montag compartilha com sua esposa. No mundo de Montag, que já pode ser o nosso mundo de agora (o texto de Ray Bradbury é de 1953), na frase em inglês, é que se provoca a interrogação sobre a censura do conhecimento que está nessa capa, separando os personagens com uma chama de fogo: o que aconteceria se você não tivesse o direito de ler?

Há dias em que um livro é indispensável. Isso mesmo, é um livro daqueles que, se deixamos próximo à janela, ouvimos o farfalhar de folhas de papel. Eu tive de colocar um livro, El Analizador y El Analista, de Georges Lapassade, ao sol. Textos impressos como estes, e seus releitores, precisam de ar, vento e sol na medida certa. Cada livro contêm uma essência de liberdade, não podem ser aprisionados e esquecidos em estantes esquadrinhadoras

Por isso ao me tomar novamente pela imobilização, com recomendação de repouso absoluto, após um tratamento medicamentoso anti inflamatório injetável, para tentar cessar uma dupla e incapacitante bursite nos quadris, resolvi retomar velhos livros e velhas leituras. E velhas indagações e outras memórias.

Tudo isso por estar impossibilitado, como um amante dos livros, de visitar a Bienal Internacional do Livro em São Paulo. Será, hoje, uma pequena e doce vingança com a releitura de velhos textos, uma bela compensação de minha frustração. Nenhum livro novo e cheirando a papel e tinta. Quero folhas manchadas pelo tempo e pela sabedoria de um livro ancião. Quero o bom, às vezes perigoso para alérgicos, cheiro de um velho e provocante livro.

Mas tenho, por isso, também uma reflexão feita após um inusitado encontro estes dias atrás. Eu andava, ou melhor, me locomovia, vagarosamente, com as minhas 7 pernas, quatro do andador, mais uma da velha bengala, por uma rua próxima à clínica de fisioterapia, aqui em Campinas. 

Nessa caminhada por calçadas inacessíveis é que pude encontrar uma cena digna de ser fotografada e memorizada: uma demolição em ação, onde uma biblioteca era lançada à caçamba dos entulhos. Eram diversos livros de capa dura, envelhecidos, de folhas tomadas pelo tempo, destinadas ao lixo. Era um descarte sem reflexão ou crítica.

Isso me deixou triste, pois quem reconhece em um livro mais que um simples amontoado de letras impressas ou de folhas de papel, isso nos perturba, nos afeta.

Nesse caso, como em um pequeno Farol da Alexandria, nos deixa indignados. Aqueles volumes, possivelmente até alguns clássicos ou enciclopédias, considerados 'velhos' ou 'inúteis' estavam sendo descartados junto a pedaços de tijolos, madeira e restos de demolição. Pensei em intervir, mas minha condição física não seria suficiente para um bom combate com este descarte demolidor.

Pensei em mil maneiras de salvar os livros... mas como já estava atrasado para meu próprio alívio temporário das dores, tive de seguir em frente, resolvi que iria memorizar e depois escrever este texto. Não tinha nenhuma mágica ou forças para esse resgate.

Lembrei-me, então, do filme Fahrenheit 451, de François Truffaut, e da visão futurista, do livro de Ray Bradbury, onde o saber e o conhecimento, representados pelos livros em papel, seriam (ou são) incinerados à temperatura ideal para o total desaparecimento das letras impressas, sejam textos de literatura clássica, poesia ou mesmo fantasias ficcionais futuristas, como o livro de Bradbury. Os livros criavam ou criam aqueles que são chamados de 'subversivos' nas distopias?

Mas aí me veio a ideia de que há um renascimento dos livros, não previsto por Truffaut, pois hoje a Amazon Books já vende mais livros "eletrônicos" do que impressos, e muitos que antes estavam sem acesso a eles agora estão mais próximos da total digitalização dos textos. Estamos na cibercultura e nos tempos digitais da Era do Acesso.

Basta que reconheçamos o direito à leitura de todos os livros impressos aos cegos que, por exemplo, hoje já tem diferentes ferramentas e novas tecnologias que os equiparam a todos nesse direito inalienável: ler. Eles, e os que resistem às segregações e exclusões, a cada dia mais lutam pela universalização e socialização do livro digital.

Já escrevi um texto sobre essa resistência e o apresentei no XVI Cole, Congresso de Leitura do Brasil (2007). Um semi-conto ficcional/realista em homenagem a primeira surdo-cega, Gennet de Corcuera, que entrou em uma universidade na Espanha. Neste meta-conto já apelava para que buscássemos Uma Luz no Fim do Livro, ou seja um manifesto a semear uma outra leitura.

Agora relembro-me dessa defesa apaixonada pelo livro acessível a todos e todas. Agora em confrontação com a nova-velha forma de descarte dos livros considerados 'velhos', qual a visão dos que são considerados incapazes, me fiz algumas indagações: será que ainda assistiremos uma substituição de todos os velhos livros pelo novos livros eletrônicos? Pagaremos 360 dólares por um e-kindle, a segunda versão de leitor de e-books da Amazon? Como oferecer essa nova versão à milhões de brasileiros e brasileiras? Não somos ainda campeões nos diferentes analfabetismos, do funcional ao digital? 

O que aconteceria se fôssemos proibidos de ler, por lei e pela força? E se as formas de controle da Sociedade chamada da Informação estiverem sendo cada dia mais publicáveis? Em qual crematório, lixeiras ou lixões ou disco rígido estarão todos os livros produzidos até agora no mundo?

Não pude ir presencialmente à Bienal do Livro. Estou acompanhando, com 'àgua na boca' e comichões na mente, as reportagens e as comunicações via redes sociais da Internet. Descobri, por exemplo, que ocorrerá o lançamento de apenas 07 novos títulos sobre o tema "inclusão", muito embora haja lançamentos em braille, da Fundação Dorina Nowill para o público infantil. Eu espero que tenha alguém, nesse momento, escrevendo sobre o tema, alguém deve estar se preparando para a próxima Bienal.

Espero também que possam me reportar como foi respeitado conceito de Acessibilidade, em todas longitudes e latitudes do termo, nesse evento que marca a presença dos livros no Brasil. Espero, assim como desejo, que tenham convocados e respeitados os cadeirantes, os cegos, os surdos, as pessoas com todas as condições e formas de ser estar deficientes, pois os faço meus representantes, e que lá visitem e possam saborear, como todos os sentidos, os novos ou velhos títulos expostos ou vendidos.

E que o retrato a ser construído para o nosso futuro da leitura seja como disse em 2007: "“se a gente retirar as pedras, por direito e justiça, do meio do caminho dessa gente que chamamos, pejorativamente, de inválidos, paralíticos, malucos, esquisitos, anormais, incapazes, sem jeito, surdos, ceguetas, pretos, menores, índios, pobres, mulheres, marginais e deficientes, talvez eles e elas, unidos, possam construir com essas pedras (e muitos livros) uma estrada para o futuro”. E a luz no fim do livro se fará, luminescente, livre, instigante, curiosa, criativa, e, se apropriada pelo letramento, pode virar a própria re-evolução...

e que continuemos lutando contra todos os autoritarismos e seu fogo destruidor das memórias...

copyright jorgemarciopereiradeandrade (2010-2011) (solicitando a difusão e reprodução livre pela Internet sem deixar de citar as fontes e a autoria do texto) - todos direitos reservados.

"A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2007, revelou que cerca de 39% dos 95,6 milhões de leitores brasileiros têm entre cinco e 17 anos. A estatística aumenta na faixa etária dos 11 aos 13 (8,5 livros por ano) e cai levemente entre os jovens de 14 a 17 anos (6,6). O estudo demonstra, ainda, a importância da escola e da família como incentivadores do hábito de ler."

Referências no Texto:
Fahrenheit 451 = 232,7 º Celsius

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fahrenheit_451

Fahrenheit 451 - filme de François Truffaut, França-Reino Unido, 1966
https://videotecaferina.blogspot.com/2010/06/fahrenheit-451.html

O Cheiro do Livro - entrevista com Ray Bradbury
http://helderbastos.blogspot.com/2009/07/o-cheiro-do-livro.html

Livros eletrônicos
http://tecnoblog.net/2403/voce-gastaria-360-dolares-em-um-livro-eletronico/

21ª Bienal Internacional do Livro - São Paulo - SP 12 a 22 de agosto de 2010
http://www.bienaldolivrosp.com.br/

Retratos da Leitura no Brasil
http://www.cultura.gov.br/site/2009/10/13/brasil-de-leitores-artigo/
http://blogs.cultura.gov.br/bibliotecaviva/2009/01/22/pesquisa-retratos-da-leitura-no-brasil/
http://www.prolivro.org.br/ipl/publier4.0/dados/anexos/48.pdf

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domingo, 23 de maio de 2010

A PARÁBOLA DA ROSA AZUL


Imagem publicada - foto do filme Beleza Americana onde uma jovem, loira e com sua nudez recoberta por pétalas de rosas, é o motivo de sonhos e fantasias de um personagem (Kevin Spacey). Ela está, simbolicamente, em um "mar de rosas vermelhas", as rosas americanas que não tem espinhos nem odor, são quase artificiais por isso com muito menos calor humano a transmitir. E me interrogarão: onde é que  a encontramos nesse mar as Rosas Azuis?

BIOPOLÍTICA, BIOÉTICA E NOSSOS CORPOS CONTEMPORÂNEOS

"Mas Diadorim, conforme diante de mim estava parado, reluzia no rosto, com uma beleza ainda maior, fora do comum. Os olhos - vislumbre meu - que cresciam sem beira, dum verde dos outros verdes, como nenhum pasto...." Guimarães Rosa ( Grande Sertão: Veredas)

Houve um tempo em que existiram, um jardim, um jardineiro e uma roseira. O jardineiro sabia-se apenas um cuidador das flores e plantas do jardim. O jardim era seu éden, quase perfeito e tinha um único dono. 

Coube ao jardineiro tentar uma experiência e pesquisa científica com essa roseira, que em tempos primaveris e com boa rega e adubos, produzia rosas de diferentes cores. Eram como as sexualidades humanas: multicoloridas, múltiplas e sempre mutantes, apesar dos espinhos. Não lhes faltavam rosas com a cor da dor ou do amor e seus variados perfumes sutis.

Como o dono do jardim quis provar, cientificamente, que poderia alterar gênese e função estética, além de seguir um padrão uniforme de toda a vizinhança, solicitou ao jardineiro que ‘normatizasse’ as rosas dessa roseira multicolorida.

Estabeleceu como ideal que ele provocasse uma mutação, um novo enxerto ou "terapia hiper-eugênica" para que a roseira só produzisse rosas com uma nova e intensa cor perfeita: Azul. Como o jardineiro, a moda do jardim de Alice no País da Maravilhas, tentasse obedecer a este amo e senhor, buscou fielmente a realização de seu desejo.

Mas a vida, assim como as rosas, não obedece a todos os nossos parâmetros de perfeição, e as flores antes multicoloridas e de diferentes perfumes, ao serem padronizadas passaram a ser tomadas como um ideal nas redondezas. Toda uma população contaminada e identitária passou a ‘pintar’ suas rosas para que essa nova cor da moda fosse presença em todos os jardins.. Nascia mais um império monocromático.

Como dizem, o que é bom dura pouco. Devido à sua perda precoce de pétalas, sua fragilização dos espinhos e progressivo envelhecimento precoce, surgiu, então, um problema e dilema, para que as rosas se tornassem apenas azuis.

Havia que também passar, necessariamente, por uma modificação genética e uma experiência nanotecnológica com transformação, através de pílulas e injeções, das mãos do próprio jardineiro. Tudo que ele passasse a tocar tornar-se-ia monocromático, apenas uma cor seria visível. E, progressivamente, seu próprio corpo também se tornaria perfeito: azul como aquela propaganda de celular.

Até um arco-iris, se possível de ser tocado, passaria apenas a traduzir em seu espectro luminoso o azul. Desde então o jardineiro está confinado em um laboratório de experimentação de drogas da indústria de pesticidas e invenção de rosas perfeitas e eternas. O jardim vem morrendo pelo aquecimento global, gerado pela hiper-industrialização e comercialização de rosas de plástico, que inclusive, tornaram-se as ‘culpadas’ de um novo tipo de lixo não reciclável, o seu dono está cada vez mais imperial e determinado a criar um ‘mundo global perfeito e sob controle’.

E as rosas? como dizia o doce Cartola: as rosas não falam, simplesmente exalam o perfume que roubam de ti... Por fim surgiram rosas simulacros e de cor única, todas de plástico e imortais. Para sempre azuis. E o mundo continuou a girar e gerar progresso, lucro e alienação.

Será apenas ficção ou cinema quando nossos corpos são utilizados para a experimentação científica? Ou cada dia mais estamos nos tornando cobaias e objeto de pesquisas em nome da Ciência e do Progresso? O quanto de biopolítica poderia se tornar uma ecopolítica bioéticamente "sustentável"?

Meta-parábola interrogante e dilemática do jardineiro infiel: a criação de rosas perfeitas, cuja beleza americana(1) é o paradigma da nossa sociedade pós-hiper-capitalista.... ou ainda podemos diversificar e multicolorir os nossos heterogêneos jardins da subjetividade humana?

Como então não cair nos espaços hipercapitalistas de criação de corpos e vidas nuas que se tornam qual cyborgs, que quando "recoloridos" cairão em um espaço de troca de peças, recall, manutenção preventiva e recauchutagem? Como em Gattaca seremos como novos ‘veiculos’- máquinas impulsionadas pelo modelo biomédico de produção serializada de corpos perfeitos e esteticamente ideais, escolhidos em laboratórios, mas precisando do sangue dos "inválidos"?.


E os olhos de Diadorins se apagarão para sempre...

(copyright jorgemarciopereiradeandrade 2010-2011 - ad infinitum - favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massas)

REFERÊNCIAS NO TEXTO:
1- Beleza Americana - filme do diretor Sam Mendes (1999) - http://pt.wikipedia.org/wiki/Beleza_Americana

2- Gattaca (a Experiência Genética) - filme do diretor Andrew Niccol (1997) - http://pt.wikipedia.org/wiki/Gattaca

3- Ciborgue - Cyborgs - http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciborgue

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SAÚDE, BIOÉTICA E POLÍTICA - VENDEM-SE CORPOS, COMPRAM-SE CONSCIÊNCIAS 
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