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domingo, 10 de setembro de 2017

CARTA (DE) VIDA AOS JOVENS SUICIDADOS.

Imagem Publicada- um poemapictórico meu onde sobre o fundo de cor preta está a frase – Es Cre Ver sobre o Preto  para que o Negro vire Poesia e Não apenas a Capa Preta da Realidade Obs escurecida... Com pequenos ”riscos” em vermelho para nos lembrar dos riscos que corremos quando negamos o quanto somos vulneráveis, e o quanto nos submetem à vulneração hoje em dia. A vocês, mesmos temerosos, a afirmação de novas cartas e cartografias para o Viver, apesar e além de todas as de-pressões ou lutos ou lutas.

“Não pode ser próprio do poeta entregar a humanidade à morte. E, com consternação que ele, que não se fecha a ninguém, percebe o poder crescente da morte em tantas pessoas. Mesmo que  a todos pareça façanha inútil, o poeta vai pôr-se a sacudir esse poder e jamais, em hipótese alguma capitulará...”  
(Elias Canetti, A Consciência das Palavras, pág.322, a última)

Jovens, vocês são, nós somos, e serão, o motivo e o objetivo principal de minha carta subjetiva. É uma 'missiva' dos tempos dos furações, das opressões, dos desfiliados, das violências naturalizadas, das banalizações dos espetáculos do Estado, das farsas macropolíticas  a favor da Sociedade de Controle. Tempos de Vidas Desperdiçadas dirá Zygmunt Bauman.

Como escrever para nossa juventude que passa mais de 04 horas, em média ou mais, conectada a um smartphone? A mesma que tentam compreender, inventar subjetividades, produzi-las, além de prender e tentar matar, principalmente se sua pele for negra?

Talvez, seguindo a máxima do Canetti, tenha que lhes provocar poeticamente. Quem sabe minhas palavras com alguma consciência, vinda ainda do Século XX, quiçá visionárias, possam lhes afetar. Como lhes ajudar a resistir aos mensageiros do Nada?

Não posso ir além dos limites das letras e dos espaços de repetição. A síntese que me pedem é quase impossível para uma mente e um coração poéticos. Não sei se já me excedi aos 140 caracteres ou às frases de efeito das redes sociais.

Só peço então que me acompanhem em uma re-descoberta de um Poeta. Um daqueles que pode ter sido suicidado ainda jovem. Embora, com certeza, alguns só o leiam pelo viés ideológico, lógico que irei seguir meu desejo de lhes dar VIDA e não mais uma pá do cale-se dos tempos de temor e não de amor.

Convido a que leiam comigo este poema. Foi escrito por MAIAKÓVSKI (1894-1930), o poeta russo, dos anos pós-Revolução Soviética, para um amigo: Sergei Iessiênin (1895-1925). Esse amigo, também poeta, suicidou-se num quarto do hotel Inglaterra, em São Petersburgo (Leningrado). Ele, ao se sangrar, escreveu com o próprio sangue seus últimos versos: “Morrer não é novidade nesta vida. Mas viver, com certeza, não é mais novo”.

Como sei que não há palavras soltas, mas que gostaríamos de não aprisioná-las. Escrevendo como um poeta, ou seu arremedo, sinto que preciso das palavras de um poeta revolucionário para tentar essa sensibilização sobre o suicidar-se ou ser suicidado. Não as Cartas a um jovem poeta do Rilke. São apenas como diziam, antigamente, as ‘mal traçadas’ linhas com tinta escorrendo entre elas. E, críticos e descrentes, possam questionar e se questionar com elas.

Deixou-nos o poeta russo essas provocações. Peço que tenham a paciência da degustação de seu modo único de escrita e sensibilidade:

“PARTITES como dizem
Para o outro mundo
O vazio...
Estás planando
Até o céu bordado de estrelas.
Chega de adiamentos e de vodka.
Sobriedade.

Não, Iessiênin, isto não é zombaria.
Na minha garganta
Nada de escárnio
Mas uma bola de tristeza.
Eu vos vejo com uma mão de cera
Hesitando agitar o saco
De vossos próprios ossos.
Parai, deixai para trás!
Que ideia é essa de derramar
No vosso rosto esse giz mortal?
Vós que sabeis escrever coisas
Como ninguém no mundo.

Por quê? E como?
Derramam-se em hipóteses
Os críticos gaguejam:
De quem é a culpa?
Muito a dizer...

Mas, sobretudo lhe faltava ‘conexão’ ou ‘ligação’?
O resultado?
Muita cerveja ou aguardente?
Dizem que se vós deveríeis ter trocado a boêmia
Pela burguesia;
A classe vos teria influenciado,
Fim das lutas.

Mas essa classe a sua sede
Ela sacia com kvas (bebida russa não alcóolica)?
A Classe ela também, para beber
Entende bastante.

Dizem que se houvessem juntado
Alguém de ‘Sentinela’ (vigilância dos escritores ‘proletários’)
Teríeis feito muitos progressos:
Poderia a cada dia
Escrever vossos cem versos,
Enfadonhos e compridos
Como Doronine.        (poeta soviético – 1900 – 1978)

Para mim este delírio
Se tivesse realizado
Vós teríeis muito mais cedo
Sobre vos mesmo se atacado.
Melhor morrer de Vodka
Do que de Tédio!

Nem a forca, nem a faca
Nos darão a chave desta perda.
Talvez se tivessem tinta no Hotel Inglaterra
O Senhor poderia ter evitado
De se cortarem as veias.

Os imitadores se alegram: “Bis”!
Todo um pelotão que faz
Sobre si mesmo, justiça.

Por que aumentar o número de suicídios?
Melhor seria aumentar a produção de tinta!
Para sempre agora esta língua
Fica presa entre os dentes,
É duro e deslocado fazer mistérios
O povo aquele que cria a língua
Perdeu um de seus artesãos
Farristas e sonoros.
E trazem as quinquilharias
Dos versos funerários
Quase os mesmos desde o último enterro.
Deveríamos dispensar o féretro
Com um cajado
Estes versos inexpressivos.

É assim que se homenageia um poeta?
Ainda não vos construíram um monumento;
Onde estão os quilos de bronze
Ou os gramas de granito?
Que diante da grade da lembrança já tragam
As bugigangas das homenagens e dedicatórias.
O vosso nome é colocado em lenços.

O tenor Sobinov baba as vossas palavras
E sob uma árvore magrinha ele agoniza:
‘Nem mais uma palavra, meu amigo,
Nem um suspi-i-ro’
Ah! É de outra forma que deveríamos
Falar de Leonid Lohegrin!

Levantar-se em fulminante escândalo,
-Eu não permito que se mastigue
E se massacre assim os versos!
Assoviar com os dedos até deixa-los surdos
E mandá-los aos infernos!
Que fujam esses detritos sem talento,
Enchendo as velas se seus paletós
Que o crítico Kogan levado em sua debandada
Espete os transeuntes com seu bigode.
A sacanagem  hoje em dia ainda não ficou rara.
A tarefa é grande mal bastamos.

É PRECISO REFAZER A VIDA,
UMA VEZ REFEITA PODEREMOS CANTÁ-LA.
O NOSSO TEMPO, PARA PENA GERAL, NÃO É MUITO FÁCIL.

Mas digam-me os ‘inválidos’, os impotentes,
Onde e quando aqueles que são grandes
Escolheram os caminhos traçados e fáceis?
A palavra capitaneia a força humana.
PARA FRENTE, ANDEMOS,
E que o tempo estoure em bombas
Que o vento sopra para os dias passados
Só de leve mechas de cabelos misturados.
PARA A ALEGRIA O NOSSO PLANETA
ESTÁ MAL PREPARADO.
É preciso extorquir a alegria aos dias futuros.
NESTA VIDA MORRER NÃO É DIFÍCIL
CONSTRUIR A VIDA É BEM MAIS DIFÍCIL ”.

Sim construir vidas é bem mais difícil. É muito fácil para os hipercapitalismos de desastre as destruí-las depois das ondas e dos ventos dos tsunamis, e dos Estados de Exceção. Foram jovens estudantes que levaram, em 1930, ao Poeta, que antes fora consagrado pela Revolução Soviética (1917), em 04 de Abril de 1930, aos 36 anos, nos deixasse também pelo suicídio.  Ele era acusado de usar ‘palavras indecentes’ e de ser “... incompreensível para as massas’’.

Ele replicou aos jovens do LBM da época: “Quando eu morrer, vocês vão ler meus versos com lágrimas de enternecimento”. Hoje, nenhum daqueles jovens insuflados por ideologia e desejo de poder, hoje também por dinheiro, é ou foi lembrado com o poeta.

Por isso vos digo como quem já teve a Dona Morte nos calcanhares, e, hoje a hospeda apenas na varanda de sua/minha verdadeira morada, meu/nosso corpo: “Não neguem o temor de Viver, intensamente, quando for preciso RE-EXISTIR ao caminho mais simples: a alienação de si mesmos” (jmpa2017).

 Um doceabraço a todos e todas que ainda se sentirem afetados e tocados pela e com a Poesia e pelas Artes.

Copyright/left 2017 ad infinitum, com todos os direitos reservados, favor citar o autor em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação e dominação de massas.    TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025

LEITURAS CRÍTICAS:

A CONSCIÊNCIA DAS PALAVRAS – Elias Canetti, Companhia das Letras.

VIDAS DESPERDIÇADAS – Zygmunt Bauman, Jorge Zahar Editor.

MAIAKÓVSKI – Vida e Obra – Editora Martin Claret.


Preventing suicide: a resource for media professionals - update 2017 WHO https://www.who.int/mental_health/suicide-prevention/resource_booklet_2017/en/

Leiam também no blog –


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O SUICÍDIO E A DOR

Imagem publicada – uma pintura que fiz há algum tempo atrás, e a memória me falha, de uma série a partir da foto que fiz de uma estátua de uma madona clássica, grega, e seu filho nos braços... Com tons predominantes em azul, violeta, cinza e fundo em amarelo, o amarelo que usam para simbolizar este mês dedicado à prevenção do suicídio, ao Alzheimer e outros padecimentos, desesperos ou temas esquecidos na velocidade em que se apagam as memórias do hoje. A foto, a fiz nos anos 80 em preto e branco. A memória evocada é a dos filhos e nossos filicídios praticados desde a Esparta bélica ontem até às praias da Turquia dos refugiados sírios da guerra suicida de hoje.

Este texto é dedicado aos que demolem, demoliram e demolirão todas as arrogâncias, as onisciências e onipotências, mesmo daqueles ou daquelas que o abraçam ou abraçarão em seu último salto vital... em vão ou não...

Hoje se fala com maior clareza sobre um tema que já foi negado, proibido e excomungado: o Suicídio. Nos dicionários ainda o definem como o ”ato de tirar voluntariamente a própria vida’’. Mas o que seria esse ”tirar’’, ele pressupõe que ela, a Vida, nos é dada, ou que teria e tem um sentido de valor, seja individual ou societariamente. Continuamos nos interrogando.

Desde Albert Camus não mais podemos nos negar a encarar sua relação íntima com outra palavra e experiência humana: a Dor. Camus, em seu Sísifo mítico, nos diz “que não há mais do que um problema filosófico verdadeiramente sério: o do suicídio. Julgar que a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão primordial da filosofia...”. Para a filosofia, desde Epicuro ou Empédocles, já tínhamos as implicações de dor/felicidade, viver in-tensamente, superar a dor do viver ou morrer.

Assisti hoje pela TV a campanha de prevenção de suicídios, e a repórter fez a conexão dos termos, temos hoje um grande número de suicídios, principalmente de jovens, que se matam (além dos que são mortos ou 'suicidados) não apenas pela dor, mas “pela certeza de que ela não cessará”. O que levaria, então, a tantos buscarem o suicidar como saída de algo que não cessa e nem cessará jamais...

Segundo a Radio Onu: “...o primeiro relatório sobre prevenção ao suicídio da Organização Mundial da Saúde, OMS, fez um alerta:  mais de 800 mil pessoas cometem suicídio por ano no mundo. Isso representa uma morte a cada 40 segundos”.  Para a OMS desses 800.000 mil são, na maioria, jovens entre 15 e 29 anos que se suicidam por ano. Já em matéria daqui crescem o número para 1.000.000 de suicídios, em estatísticas que merecem atenção, mas também um olhar crítico e bioético. Publicam que temos 25 suicídios por dia no Brasil.

Portanto, não bastará um mês, este setembro. Um dia, uma semana ou uma campanha internacional vestindo o amarelo alerta para interromper todas as dores que assolam e se recrudescem globalmente. A produção dos padecimentos, perdas, ruínas, guerras, desfiliações, migrações forçadas, desamparos, depressões, desempregos, trabalhos escravos, gentrificações, pauperizações e desastres econômicos continuam a produzir a serialização de aflitos e de desesperanças no viver.

Morrer se naturaliza e se torna banal. E há os que ainda pregam e legitimam mais armas em todas as mãos...

Não há apenas os que suicidam, na concepção do “tirar” a própria vida, muitas delas já foram “roubadas, vilipendiadas, extorquidas, humilhadas, miserabilizadas”, e daí surgem, como diria Artaud sobre Van Gogh, ‘os suicidados pela Sociedade’. Portanto, repensando a visão ainda condenatória do sujeito, há que repensar a ‘culpabilidade e irresponsabilidade’ dos que, moralisticamente, se sentem violentados pelas dores que os suicídios e suicidas causam.

No Nepal, lá nas alturas, onde se espera que o espiritual seja tão rico como as neves do Himalaia, após o último terremoto, já meio esquecido pelo Ocidente, de acordo com a matéria Agencia EFE: “O número de pessoas que tiram a própria vida subiu no Nepal, com um aumento do 41,24% nos três meses posteriores ao terremoto que castigou o país em abril, em comparação aos três meses anteriores...”.

A maioria, pelos mesmos motivos que afligem a Síria, Ruanda, Haiti, Sudão ou qualquer outro país onde a terra é varrida por bombas, terrorismos ou por tremores, da Gaia ou dos Homens. Há os que são e serão afogados no Mediterrâneo ou no Egeu. Fogem de terrores nas suas terras de origem e se afogam nas águas que podem levar para uma neo escravidão e segregação, quiçá ‘menos’ terrível do que já viviam. Muitos, depois, não suicidarão...

A hora é de resgatar o poeta Jonh Donne e repicar os sinos que também dobram por nós, nós que também somos tão tristemente humanos como o menino sírio na praia turca. Nós que também somos suicidados embora naturalizemos nossas cotidianas e quase invisíveis formas de nos matar. Nós que julgamos covardes ou egoístas os que desistem de atravessar outros mares ou quando não há mares, só desertos e solidão.

Retomo aqui o binômio do texto, há sempre dor no suicídio. Seja dos que o cometem, seja dos que os padecem, experimentam sem tréguas ou dos que a negam tê-la infligido. Abdulá Kurdi, o pai sírio, assim como eu já o fui, deve ter pensado nesse último refúgio diante da perda irreparável.

Aos que não escutam ainda o que é dor do Outro reflitam sobre a frase de uma enfermeira especializada em cuidar e manejar essas dores: “A dor é qualquer coisa que a pessoa que a experimenta diz que é, e existe sempre que essa pessoa diz que existe.” (Margo McCafferty). Talvez isso possa não aliviar e nem diminuir a dor. Com certeza poderá criar o segundo que preciso ter antes de saltar da ponte ou se imaginar nos braços da Dona Morte.

Nos suicídios, nos diferentes suicídios, somos ‘refugiados’ da Dor ou de outras dores....

(copyright/left jorgemárciopereiradeandrade 2015-2016 favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de e para as massas)

IN MEMORIAM de AYLAN KURDI (poema publicado no Facebook 03/09/2015)

NOS MEUS BRAÇOS, ME DEIXAM NATIMORTO...
 (jorgemárciopereiradeandrade 2015)

Nos meus, nos seus, nos nossos braços
Depositam-nos mais um natimorto...
Nasceu como os outros, quase cresceu,
Mas ao mar dos sargaços e dos sarcasmos
Lançados, despejados e quase vivos jogaram...

Nos braços hiper capitais
E de capitães de econômicas areias movediças,
São lançadas, como grãos dessas areias, aos milhares, aos milhões,
Muitas outras, muitos Outros, muitas nuas e re-vestidas
Crianças apátridas e filhotes de guerras,
Filhotes, que não são nossos filhos...

À distância são e serão primeiro Zoé, coisa e bicho,
Depois, como Homo Belicus, nos dizem que somos Bios, somos gente de bem,
Mas nos tratam como nosso próprio lixo, escombros de bombas e perdidas balas...

Já esses/essas que nascem previamente mortos,
Pela falta de preço e apreço, ou royalties bélicos, tão numéricos,
Nas margens onde os crio sem os amar, se tornam Mar,
Oceanos ou barrentos Rios, cheios meninos, meninas naturalmente mortos,
Ou serão eles seus próprios e futuros ontem assassinos¿...

TIREM URGENTE-MENTE, ESSES MENINOS OU MENINAS DOS MEUS BRAÇOS!
QUE AS ONDAS DE NOSSA PUREZA SOCIAL
LIMPEM DE NOSSAS PRAIAS E CONFORMES,
ESSES INCONTÁVEIS, POLUENTES E INFAMES...
LIMPEM NOSSOS TELESCÓPIOS, BINÓCULOS,
E/OU LENTES TELEVISIVAS,
 POIS QUE NOSSAS ‘BOAS’ CONSCIÊNCIAS,
SÓ CHOCAM QUANDO OS ENXERGAMOS BEM DE PERTO...

(COPYRIGHT AD INFINITUM - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS AO AUTOR 2025)

Matérias publicadas sobre prevenção de suicídios:

Brasil tem 25 suicídios por dia. Estado lança campanha de prevenção https://www.bemparana.com.br/noticia/404829/brasil-tem-25-suicidios-por-dia.-estado-lanca-campanha-de-prevencao





Atualização em 2021 - PANDEMIA DE COVID-19 AUMENTA FATORES DE RISCO PARA SUICÍDIO - https://www.paho.org/pt/noticias/10-9-2020-pandemia-covid-19-aumenta-fatores-risco-para-suicidio

O AUMENTO DE SUICÍDIO ENTRE JOVENS É FENOMENO MUNDIAL - https://sinapsys.news/o-aumento-do-suicidio-entre-os-jovens-e-um-fenomeno-mundial

LEIAM TAMBÉM NO BLOG:


OS NOSSOS CÃES desCOLORIDOS - Nossas "depressões" e o Dia Mundial da Saúde Mental  https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/10/os-nossos-caes-descoloridos-nossas.html


A DONA MORTE É GLOBAL, MAS NOSSO TESTAMENTO PODE SER VITAL. https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/09/a-dona-morte-e-global-mas-nosso.html

CRIANÇAS SÃO MORTAIS! - O Suicidado pedagógico https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/09/criancas-sao-mortais-o-suicidado.html

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O SUICÍDIO, ADENTRANDO AO MAR E AO NÃO HÁ MAR...

Imagem publicada – a capa do filme Mar Adentro com o rosto do ator Javier Bardem, usando uma blusa de lã de gola alta, e com um leve sorriso nos lábios. Ele está interpretando o marinheiro Ramón Sampedro, no filme de Alejandro Almenábar. Ramón (Javier Bardem) é um tetraplégico que está preso a uma cama há trinta anos. A sua única janela para o mundo é a do seu quarto, perto do mar, mar em que tanto viajou. O mar onde teve o acidente que lhe roubou a juventude e a vida. Desde então que Ramón luta pelo direito a pôr termo à vida dignamente, luta pelo direito à eutanásia através de um suicídio assistido. Uma história verídica que nos instiga à reflexão sobre o viver e sobre o morrer, com dignidade.

Texto para os seres humanos que se cansam de esperar outro diálogo com a Senhora Vida... Outro encontro acolhedor... Outra saída para a Dor.

Em 2005, exatamente no dia 18 de fevereiro, me afetei e “assisti” um suicídio assistido. Não, não estava presente a este ato. Estive, para além da identificação projetiva, é vendo-o através do magnífico filme: Mar Adentro. Estive intensamente presente sim ao ver Ramón San Pedro sair voando pela janela, como seu desejo e sobrevoar, imaginariamente, até praias e um possível amor.

Ramón Sampedro é uma boa referência para este momento onde o tema do suicidar-se retorna às manchetes e à hipermidiatização. Estes dias o ator Robin Williams e seu suicídio, levou-nos à manifestações sobre o tema e o ato. Esse ato que nos obriga a pensar sobre a finitude do viver e/ou desejo dela. Um tema ao qual negamos a devida atenção e reflexão. Estaria eu e nós todos/todas pensando sobre o assunto sem o nosso ‘professor’ que nos estimulava para o Carpe Diem?

O assunto sempre me foi importante, e se tornou mais ainda quando conheci a vida e obra de Florbela Espanca. É dela uma das mais contundentes afirmações sobre quem escolhe morrer por suas convicções ou dores profundas. A poetisa que se suicidou aos 36 anos, quem sabe por profundo amor, nos disse: “Quem foi que um dia ousou lançar a um papel as letras ultrajantes da palavra covardia, essa suprema afronta, esse insultante escarro, à face dos que querem morrer!?...”. Ela também se despediu de nós, em 07 de dezembro de 1930, desejando repousar perto do oceano.

Ela nos diz também da ‘coragem desdenhosa’, da ‘altiva serenidade’, do ‘profundíssimo desprezo’, às ‘almas que partiram por querer’. E sabemos que qualquer morte nos assusta, surpreende e desgosta.

A Dona Morta que vive passeando em nossas varandas da morada do corpo, sempre fiel e presente, só entra em nossos mais íntimos sótãos ou cama se a convidarmos, insistentemente. Vivemos negando a sua convivência e coexistência com a Senhora Vida.

O espanhol Ramón ficou paraplégico ao mergulhar no mar. Era o dia de maré baixa. Ele passou então, aos 25 anos, a lutar pelo direito à própria morte. Enfrentou todas as instituições, pois depois de 30 anos utilizando-se de sua boca deixou-nos também poesia e indignação em seu livro Cartas do Inferno.

Somente 30 anos depois em 1993, com auxílio de amigos e amigas, conseguiu um suicídio assistido. O que ele acreditava como dignidade para o morrer era o protesto contra sua forma de viver, e o cineasta Alejandro Amenábar o imortalizou, através de Javier Bardem, com o cinema e para além deste.

Ao assistir o filme, lá em 2005, fui mais uma vez lançado ao angustiante tema bioético do direito à morte com dignidade. Propus-me, então, uma metáfora com o título do filme: adentrando no mar, Morto! Muitas vezes é possível que ao se matar o sujeito já se considere ou se sinta de modo fúnebre, já falecido. E esquecido...

Esta metáfora é porque creio que estamos vivendo, todos, na chamada modernidade líquida e aniquiladora, a viver em estados quase paralisados, um tempo de alta salinidade de desamor, com uma dose de estagnação afetiva. Estamos imersos no novo e global mundo Mar Morto. Sobrenadamos, boiamos e continuamos superficiais, inclusive sobre o suicídio.

Pior ainda é quando o banalizamos e o ridicularizamos temerosos, usando discursos fanáticos para apressadamente o conectarmos com um desapego à Vida. Não podemos reduzir esse ato de tanta ousadia ou desespero ao modelo sociológico de Durkeim, apenas à anomia. Precisamos ir além da psiquiatria, da psicologia ou da psicanálise. Precisamos encará-lo como uma questão de saúde e bioética.

O século XXI, assim como o que passou, provocou enormes buracos negros em nossas singularidades. Disse-me em 2005 e repito: estamos em um mar sem ondas, sem pedras ou areias no percurso, um mar onde não pudéssemos ou poderemos nos suicidar pelo afogamento, pois, como já disse, nele boiamos e persistimos superficiais eternamente.

A palavra, e não apenas o ato, ”suicídio” ainda continua um tabu, um dogma ou uma ameaça. Temos de direito e também o dever de ampliar nossas visões, ideias, convicções ou conhecimentos sobre o suicidar-se. Temos de ir além, buscar, além do coletivo, o que faz o sujeito buscar seu próprio assujeitamento à Dona Morte. Quais são os diálogos possíveis com a Senhora Vida que nos levariam a seu pré-conhecimento e, quiçá, novos afetos que não deixariam secar o desejo de viver em nós? Há o direito de sua versão eutanásica?

As estatísticas de ocorrência de suicídios no Brasil dizem ser uma média de 25 pessoas por dia, há, então, alguma outra causa mortis tão presente ao mesmo tempo em que tão invisível? Podemos dizer que o tema é mais grave do que o número de pessoas com chamados transtornos mentais?

Estas são as pessoas que estão, na maioria dos casos, em situação de vulneração e vulnerabilidade para as tentativas e para o suicídio. Entretanto, não devemos ter como principal causa apenas as depressões graves ou persistentes. Há outras situações que nos empurram para a varanda, para convidar a Dona Morte, como solução ou resposta, por exemplo, às desilusões em nossos amores e outros dissabores do viver com intensidade ou tensão.

Há ainda que discuti-lo quando a terminalidade do viver está no ápice do sofrimento e da dor, seja ela psíquica ou física. Os estados terminais, onde os cuidados paliativos não mais aliviam, podem nos tornar ainda mais próximos do que chamo da “visitante da varanda”.

O morrer e a morte não devem ter o mesmo significado, muito embora esteja transversalizados ou subjacentes, um ao outro. Compreendemos e aceitamos os testamentos vitais dos nossos moribundos? Os náufragos sem nenhuma tábua ou resto de seus navios, aqueles que onde não há mais o mar e nem o amar?

Não tenho estas respostas, como não acho que nenhum filósofo já as tenha como certeza, mesmo concordando com Albert Camus. Podemos nos afogar em imensos oceanos de debates sobre Thanatós, Eutanásia, Ortotanásia ou Distanásia. Só não podemos fugir da perspectiva e expectativa de que a Dona Morte ainda é o mais “democrático” de todos os acontecimentos, escapando, como areia no mar, de todas nossas explicações ou teorias.

Para alguns deixo a provoca-ação de vida e ideias de Deleuze, para quem nada há para interpretar ou compreender, mas sim para experimentar, intensamente viver, deixando-se no “mar à deriva”, novos argonautas Pessoanos(como Álvaro de Campos) que se indagam: “Se queres te matar, porque não te queres matar?”.

Então vejamos que ‘Pontes’ para o futuro estamos construindo para os que se suicidam ou tentam morrer. Vejamos nossas multiplicidades, bem como as singularidades. Aquelas que o Mar Adentro pode provocar diferente e multiculturalmente, pois até o Gilles também escolheu se despedir de nós, após lenta e sofrida escalada de sua doença e sofrimento, assim como o fez Freud, que pediu ao seu médico, Max Schur, um único e último alívio. Ambos podem ser tomados como suicídio, os meios e métodos é que foram diferentes: um solitário e o outro assistido.

O SUICÍDIO NÃO É UM FIM,NEM PRECISARIA SER, SÓ QUANDO NEGADO, INVISIBILIZADO, NATURALIZADO.

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2014/2015 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação para as massas, TODOS OS DIREITOS RESERVADOS 2025 ,,,)

Onde procurar ajuda quando o suicídio passar pela cabeça e pelo coração

Sociedade Amigos da Vida (Campinas e região) - https://www.sociedadeamigosdavida.org.br/estatisticas.htm

Indicações de leituras ligadas ao texto

Cartas do Inferno – Ramón Sampedro , Editora Planeta, São Paulo, SP, 2005.

Diário do Último Ano – Florbela Espanca, Ed. Publicações D. Quixote, Lisboa, Portugal, 1985.

Manual de Prevenção de Suicídio – dirigido a profissionais das equipes de Saúde Mental

Suicídio - Os Desafios para a Psicologia – CFP – Conselho Federal de Psicologia – (pdf) https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2013/12/Suicidio-FINAL-revisao61.pdf

O Suicídio (estudo sociológico) – Emile Durkheim – versão em PDF -  https://minhateca.com.br/atilamunizpa/Documentos/DURKHEIM+Emile+O+Su*c3*adcidio,3015822.pdf

Suicídio (ver fatores predisponentes e alguns mitos) https://oficinadepsicologia.com/depressao/suicidio

Indicações de filme para reflexão e discussão:
Mar Adentro, Alejando Amenábar, Espanha, 2005 (DVD) – dublado: https://www.youtube.com/watch?v=9boX5jeckrA
A Ponte, Eric Steel, Documentário,  Eua, Imagem Filmes, 2006 (legendado): https://www.youtube.com/watch?v=OCfhdVArDnI
Solitário Anônimo, Debora Diniz,  Documentário, 2007 (DVD)

Sobre os citados no texto –

Leiam também no blog –

O SUICÍDIO E A DOR - https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2015/09/o-suicidio-e-dor.html

A DONA MORTE É GLOBAL, MAS NOSSO TESTAMENTO PODE SER VITAL. https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/09/a-dona-morte-e-global-mas-nosso.html




OS NOSSOS CÃES desCOLORIDOS - Nossas "depressões" e o Dia Mundial da Saúde Mental https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/10/os-nossos-caes-descoloridos-nossas.html

No INFONOTÍCIAS DEFNET:
BIOÉTICA/SUICÍDIO - Na Inglaterra está em discussão o suicídio assistido como direito - Luta de britânicos por suicídio assistido vai a Parlamento https://infonoticiasdefnet.blogspot.com.br/2014/06/bioeticasuicidio-na-inglaterra-esta-em.html 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

AOS 103 ANOS AINDA SE APRENDE ALGUMA COISA?


imagem publicada – a foto em preto e branco de uma matéria da Revista Fatos e Fotos – Gente, de 28 de Abril de 1980, uma publicação Bloch, onde aparece à direita uma mulher realizando uma mamografia, como forma de prevenção do câncer de mama, e, em tamanho menor, uma fotografia em preto e branco com um homem negro, com cabelo Black Power, com uma mão repousando sobre a testa, em posição semelhante a quem está pensando sobre a Vida. O retratado sou eu. A reportagem fala sobre o nosso temor da morte pelo câncer e a busca pelas e nas drogas de um alívio desse temor. (fotografia de João Poppe)

A Morte deve ser uma mulher extraordinária. Nos pega na mão e nós temos de seguir atrás dela. Somos obrigados. É esse rumo desconhecido que me fascina e que faz com que não tenha medo da morte.” Léo Ferré.

O tempo não passa? Uma homenagem aos que têm do direito de viver e morrer em paz... E ficarem na memória

Encontrei outro dia uma velha reportagem. Meus velhos papéis que precisavam ser jogados fora me trouxeram de volta minhas memórias. Era uma reportagem na qual eu dizia em Abril de 1980:...”Isto acontece visto que todos nós curtimos intimamente o desejo da imortalidade, e o câncer não deixa de ser uma pedra no caminho, uma ameaça imediata e concreta dessa pretensa imortalidade”.

O título da matéria, que hoje pareceria atual, era “CÂNCER – A cura pelas drogas?” tendo como subtítulo – “Cientistas utilizam a maconha no tratamento médico”. Lembrete aos desavisados eu já discutia, nesse tempo de resquícios da Ditadura Militar a questão da ‘descriminalização da maconha’ e a despenalização dos usuários. Tínhamos de combater um grave preconceito que associava os 'maconheiros' e os 'subversivos' contra a Segurança Nacional, assim como os 'bons costumes'...

 Já afirmava: - “Eu acho altamente questionável o uso da maconha no tratamento do câncer, como os cientistas americanos vêm fazendo, embora acredite que a droga possa ser utilizada como um paliativo, uma espécie de substitutivo provisório, e, neste sentido, eu sou altamente a favor.”

Digo novamente eram os Anos 80 começando. E os Anos de Chumbo ainda queimavam, mas começavam a se derreter diante dos nossos anseios de democratização...Porém o que me leva a escrever hoje é muito mais a questão que levantei no meio da matéria: a indagação sobre nosso desejo de imortalidade. Hoje e nos próximos dias tenho de refletir muito e vivenciar mais ainda essa questão.

O meu pai longevo fará aniversário e completará os seus 103 anos. E a minha pedra no sapato, a minha pedra de Sísifo volta a incomodar com um velho calo nos dedos dos pés do sapato novo, mas sempre apertado da Vida. Somos ou desejamos tanto essa longevidade, a que preço ou valor?

A Dona Morte rondava ainda nossos ares nos Anos 80 com os ranços do que vivemos há poucos anos antes. Ainda respirávamos um pouco dos resíduos ativos da visão conservadora e ditatorial dos Anos de Chumbo, que só começariam a se dissipar quatro anos depois. Nessa  época é que já pensava, reflita, questionava e trabalhava, como diz a matéria da Revista Gente, o cuidado com os mais vulneráveis. Trabalhava com pessoas vivendo os limites de seus corpos com câncer.

Esse trabalho repercutia em mim o aprendizado de com podemos vivenciar tanto a felicidade como a dor. E a ideia e prática que criticava, sem saber que já existia a Bioética, era o uso de substâncias psicoativas sem as devidas pesquisas e investigações científicas. Já estava, um jovem médico, incipiente com a psiquiatria e a psicanálise, buscando formas menos “químicas” de enfrentamento de nossas limitações e finitude vital.

Por ter acompanhando muitos casos de terminalidade vital por doenças crônicas, nessa época, aprendi muito sobre uma palavra: a transitoriedade. Ainda não falávamos ou praticávamos denominando os cuidados paliativos, mas os vivenciávamos a beira dos leitos de pacientes considerados “sem saídas terapêuticas”.

Exercia, sem denominar, o que hoje chamamos de Klínica, pois lidar com a morte cotidianamente pode ensinar ir além do simples fato de nos ‘’inclinarmos’’ sobre os leitos e os pacientes. Tínhamos, principalmente diante dos cânceres infantis, de aprender o sentido da escuta sensível e da implicação. Eu, modestamente, acho que aprendi.

A Dona Morte que eu via era um simulacro, um fantasma do que realmente ocorria no âmago dos que realmente estavam morrendo. Sempre procuramos nos distanciar do morrer imaginando que superamos com essa atitude nossos temores da tal Senhora. Não! quanto mais se foge ou dela fugimos mais se está em sua companhia.

A tal Dona Thanatos foi, por exemplo, para Freud, uma fiel companheira de todos os seus dias e escritos. Diria até, ousadamente, que transversalizam uma boa parte de suas indagações que geraram o que temos, para além de Lacan ou outros atualizadores, de Psicanálise ainda hoje. Afinal ele teve no próprio corpo a experiência do câncer. E, no encontro final solicitou a ação de alívio de seu médico Max Schur.

Ele viveu o tempo que lhe foi possível e suportável. Por isso penso que devemos aprender a respeitar o cada um entende e sente como o limite suportabilidade de suas próprias existências.  Aí se incluem alguns que deixaram as mais profundas e reflexivas poesias sobre o viver e o morrer. Os seus corpos expiraram, porém, suas mentes deixaram marcas indeléveis. Exemplos? Fernando Pessoa, aos 47 e Florbela Espanca, aos 36 no dia de seu aniversário.

Com seus trinta ou quarenta e poucos anos biológicos de viver conseguiram ser os bólidos, cometas ou meteoros-vivos que transformaram muitas outras vidas após as suas finitudes e fim. Este é um ponto de vista que já ressaltava lá nessa reportagem.

Lá está registrado, para mim e para vocês todos e todas que: “...acredita o psiquiatra (eu) que todas as pessoas cancerosas devem estar conscientes de que, na vida, o mais importante não é a quantidade de vida, mas sim a qualidade (da vida e do viver, individualmente ou no coletivo)”.

E, como passageiros desse instante de uma Gaia Terra que, apesar do seu recente dia, vê-se arrastada por buscas fanáticas, principalmente de cunho religioso/político, de imortalização narcísica. Primeiro eu serei, na minha ignorância e credulidade, a ser salvo nos tempos apocalípticos, e, mesmo me tornando escravo de uma mistificação ou de uma manipulação ideológica, quero essa ‘vida do além’. E o meu dízimo ou voto legitimam uma grande farsa na Sociedade do Espetáculo e do Controle.

Temos, então, diante dessa proliferação dos fanatismos, como já disse no texto anterior, de aprender um pouco sobre nossas perdas.

Perdemos a rebeldia da juventude? Diria que sim se me retomasse apenas nos Anos 70 o ar irrespirável das torturas e dos desaparecimentos políticos; os Anos 80 engoliram nossa Contracultura e o Maio de 68. Entretanto, diante de novos e aperfeiçoados ardis de controle estatal ou social vemos novas bandeiras de liberação sendo agitadas.

Hoje, com novos olhares sobre o tempo, agora líquido e fugaz, encontramos os “mais velhos”, de mãos dadas,  andando ao lado de quem combate todas as formas de preconceitos e discriminações. Porém para isso precisamos da ressignificação do que entendemos como essa sabedoria dos antigos ou ancestrais.

A minha aprendizagem ainda não terminou, o meu buscar aprender com as perdas também. Disse estes dias atrás, em estímulo a quem está com lutos atravessando suas vidas, que diante dos entes que se vão ou outras formas de perdas é indispensável aprender e reaprender.

Precisamos, a meu ver, aprender a ser sem o apego gorduroso sobre a Vida.  Disse lá no Face-livro: - O aprendizado das perdas é uma das muitas formas de engrandecimento de nossas vidas... Aprender a se despedir... Aprender a deixar partir... Aprender a ir embora... Aprender/desaprender a viver e aprender a morrer... Como dizia a poetisa Florbela: “e se ei de ser cinza, pó e nada... que seja o meu Dia uma Alvorada... que me saiba perder para me encontrar”.

Hoje, com as limitações físicas que adquiri, estou caminhando na direção, sem complacência ou auto piedade, do estar, intensamente vivo ao lado dos “mais jovens” diante de nossas finitudes semelhantes: somos todos apenas mortais sonhadores. Ou, será que somos sonhadores mortais?

Tendo nascido filho de um simples, porém, sempre amoroso ancião, repito o que disse ao jovem repórter Péricles Santana, há 33 anos: “Devemos mostrar a essas pessoas (há época meus pacientes com câncer ou seus familiares) um outro lado das coisas (e do viver), fazendo-as ver (e desejar) que tudo na vida é passageiro, sendo, portanto mais importante essa trajetória (e o aprendizado humilde de nossa transitoriedade existencial).

Então, além do resgate de minhas ideias e vivencias médicas lá nos Anos 80, quando também me impliquei com o cuidado com as cicatrizes da ditadura através do Grupo Tortura Nunca Mais RJ, reforço ainda que precisamos de buscar uma serena sabedoria.

Uma sabedoria que ainda encontro nos sorrisos de meu velhinho, lá nas Minhas Minas Gerais? Sim, uma sabedoria que consiste em uma forma sensível de ser, estar e viver. Uma sabedoria que, entretanto, pode ser complexa: - não devemos perder a “fé” no Outro e nos Outros além de mim, mas também não podemos estragar nosso próprio bem estar já conquistado.

Enfim, em tempos de retomada dos outros meios modernos de alívio de nossas dores e finitudes, compreender que nenhuma droga inventada ou comercializada pode, ‘prozaquianamente’, como um “hiper antidepressivo global”, nos aliviar de todos os sofrimentos existenciais. Insistimos na busca do Admirável Mundo Novo de Huxley?

Estas novas drogadicções ou dependências de uma química tornaram-se, como retrocesso histórico, até o mote para novas e aprimoradas técnicas de aprisionamento, inclusive com a legitimação psiquiátrica ou dos poderes políticos.
Como dizia lá naqueles primórdios: a Vida não tem cura, pois o Guimarães já disse que é e será muito perigoso viver. A vida se tiver prospecções ou invenções de novas cartografias do viver, é apenas a pró-cura.

Por isso não lhes garanto a imortalidade. Posso apenas, com profunda e afetiva sinceridade, desejar que possam ter os olhos e o coração de meu pai de 103 anos.

Lá, nesses olhos/coração singelos, com toda certeza há memórias que todos e todas merecemos experimentar, independentemente de sermos apenas passageiros, marinheiros, argonautas, barqueiros, remadores ou pescadores cruzando o tal rio, aquele que o Pessoa disse ser apenas com curvas, e a Morte seria e será apenas mais uma curva do rio.

Navegar é preciso, hoje é apenas im-preciso ainda, mas vale a pena tentar...

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Indicações para Leitura crítica e reflexiva –

LÉO FERRÉ – Seleção e tradução de poemas, canções e da carta inédita (Luiza Neto Jorge) – Ulmeiro e os Autores, Lisboa, Portugal, 1984.

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO - Aldous Huxley - https://pt.wikipedia.org/wiki/Admir%C3%A1vel_Mundo_Novo

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