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segunda-feira, 23 de março de 2015

AS MASSAS, AS ÁGUAS, AS FLORESTAS E NOSSAS VIOLÊNCIAS...

Imagem publicada – fotografia publicada no site das Nações Unidas (Onu) com um grande poço de água, rodeado de uma quase centena de seres humanos, uma massa de sedentos, em pleno deserto da África, lançando seus baldes em busca desse vital elemento. Um elemento-vida que comemoramos ao mesmo tempo em que esgotamos. Uma pequena amostra de homens e muitas mulheres, com suas vestes típicas, suas moringas, seus potes de barro. O mesmo barro que soprado poderia criar o Homem, mas que estamos tornando cada dia mais seco, mais árido, menos Terra e mais devastação. E, juntos, poderíamos tentar mudar esse rumo. Entretanto, só usamos os barros para novos muros, novas segregações, foi-se o “tijolo” da conscientização política de Paulo Freire? Entram em cena as máscaras e as encenações, hipermidiáticas e hipercapitalizadas, que não educam e nem transformam.

“Nenhum homem é capaz de mostrar um rosto para si mesmo e outro na multidão por muito tempo sem acabar confuso em relação ao verdadeiro” (Nataniel Hawthorne – A letra escarlate)

Você deve estar se perguntando qual a relação ou aproximação que este título tem entre os termos e seus significados (e significantes). Porque relacionar as massas, hoje tão “populares”, televisivas e festivas, nas chamadas ‘’manifestações’’, com as águas, as florestas, que desaparecem? E, enfim, com nossas violências que recrudescem?

Primeiro como repetição, lembrar que estamos em tempos do que chamo de IDADE MÍDIA, depois lhes avisar que os temas são mais amplos e mais oceânicos do que minha vã pretensão. Não tenho como atingir em um texto, embora extenso para alguns, todas as dimensões destas transversalizações. Lembro que estamos em dias que se ‘’comemoram’’ como segregação, na visão local e minúscula, embora todos conjuntamente, propagamos como os ‘’dias internacionais’’, portanto universalizantes e igualitários.

Como assim? Os símbolos de massas atuais estão muito próximos do que Elias Canetti denominou e classificou em MASSA E PODER. Quando milhares que se pretendem milhões levantam suas faixas e seus “protestos” fico mais ainda convicto das lições dessa fundamental, não fundamentalista, leitura dentro de um viés de uma “antropologia patológica” sobre as interações do poder com as massas, seus cristais, seus símbolos, suas múltiplas facetas.

As massas recentemente revelaram um discurso de ódio, de discriminação e de dominação. Estiveram mais uma vez globais, convocando um ‘’vem pra rua”, mais uma vez pedindo: - “Veja, aceite como verdade e se aliene”. Essas maltas elitizadas que usaram, ao máximo, suas máscaras, ou personas, como se fosse uma manifestação de todo um povo, todo um país, toda uma nação.

Gritaram, fingiram-se ‘’revoltados’’, tiraram as roupas amarelo-verdes da Copa e, depois, de uma nova Marcha da Família pela Pátria, agregando desde golpistas, saudosistas da Ditadura, evangelizadores fundamentalistas, neo-nazistas até a  TFP. Passado o domingo e sua exibição, voltaram para seus sofás e suas varandas.

Demonstrou-se, entretanto, claramente, para os que querem enxergar, que podemos todos nos torna uma massa corrompida que cospe a Mentira e a Agressão para sua própria produção de farsa, daquilo que julga, freneticamente, combater: a corrupção.

Estes recentes fatos massificantes, que antevi em 2013, também confirmam como, por que e para quem podem se tornar um mar falso revolto,  por ondas fascistantes, areias movediças dos preconceitos e velhos rios turbulentos das Águas de Março de um Golpe civil-militar. Águas barrentas, vistas apenas um temporal, hoje só uma chuva que decantou essas areias, demonstrou que o “mar não tem limites internos e não está dividido em pequenos povos e territórios”.

O Tsunami instituído e politicamente desejado ainda não veio. Entretanto, mais uma vez, como repetição neurótica e histriônica, nos mostrou a máscara triste e carrancuda dos micro-fascismos instituídos e latentes em nós. Os monstros fardados, aparentemente adormecidos-anistiados, dos porões da Ditadura foram invocados, militarescamente, seriam e serão, como velhos refrões e clichês: os restabelecedores da Ordem e do Progresso.

 Essa mesma ordem que suprime o que mais precisamos: a diversidade, a floresta tropical dos conhecimentos ou atlântica das liberdades civis. Sabemos que árvores, simbólica e ordenadamente enfileiradas, lembram bem as milícias, as patrulhas e os exércitos.

Nenhum dos seus “indivíduos” escapará, como um símbolo, da atração pelo fogo grupal e seu incêndio, à destruição de sua própria existência. Como diz Canetti, dentro dessa imobilidade múltipla, com raízes bem duras e fincadas, os troncos (indivíduos) podem ser cortados, mas não movidos. Ficam como os campos arrasados ou minados. Restos de árvores que podem ou não renascer.

Segundo ele, “a floresta se converteu num símbolo do exército: um exército em formação, um exército que não foge (à luta) em circunstância nenhuma; que se deixa despedaçar até o último homem antes de ceder um único palmo de terreno”. 

Assim também se criam desertos e homogeneidades ideológicas. Assim, naturalizamos e banalizamos as violências dessas chamadas “manifestações pacíficas”, apesar de seu claro desejo de devastação do que escolhem como os “inimigos”: desde um Partido/Governo até os sem-teto, os sem-terra, os off-line.

Os “novos” oponentes ou ameaças, ou mesmo os que ficaram e ficarão fora, como já o são estes “divergentes embora emergentes” na Sociedade de Consumo e do Espetáculo. Para tanto basta que os marquemos com uma estrela vermelha ou mesmo aquela amarela do nacional-socialismo alemão. Um estigma, uma discriminação e identidade. Então viram menores infratores ou maiores delatores.

Os antigos “bodes expiatórios” só trocam o pijama listrado por uniformes pardos. Os velhos guerrilheiros pelas novas/velhas calças jeans desbotadas ou surradas.  E, alinhados com os nacionalismos, serão alistados nesse exército da salvação, vestirão novos ternos e novas gravatas políticas ou jurídicas. Proclamam sempre um novo país, mas mantem as velhas posturas despolitizantes das maiorias.

Surgem aí as violências subterrâneas, enraizadas historicamente nos muitos anos de colonização e escravatura. Os bem-nascidos continuam sendo uma suposta “classe”. A chamada “elite”, branca, culta, muito ou pouco rica e que não precisa de cotas. Uma parcela que se diferencia e tem como identidade a sua individualista forma de viver. Dizem-na sempre “média”. Para mim tornou-se mais que isso: supõem-se mais “normais” e “íntegros” do que qualquer Outro das chamadas classes subalternas ou inferiores.

 Incomodam-se com essa ascensão desses Outros, na maioria afrodescendentes ou ‘mestiços sócio-econômicos’, aos direitos sociais e às galerias dos shoppings, onde ameaçam os novos grupelhos de “nossos filhos com escola privada, smartphones e roupas de grife (mesmo que estas sejam fruto de trabalho escravo)”. Seriam eles os novos bárbaros? Ou apenas são descendentes de outras raças, outras terras, outros planetas?

Nesses dias, tão comemorativos, inclusive daqueles que chamamos de pessoas com Síndrome de Down, muitas vezes vistos ainda com extraterrestres ou mongóis, portanto invasores, assim como os meninos e meninas negros em um shopping, é que percebemos o quanto ainda discriminamos, rejeitamos e fingimos aceitar essas diferenças e diferentes em nosso casto e puro mundo idealizado. Para eles abrimos espaços, já que estiveram muitos séculos fora-das-leis e dos direitos, em novas massas a serem incluídas.

E desejamos tanto usar o discurso da inclusão que acabamos por criar novos e sutis modos de exclusão, ou mesmo de extermínio, inclusive com as biopolíticas e as engenharias genéticas. Usaremos tanto o discurso da prevenção dos erros genéticos como os discursos falaciosos de suas proteções. Serão todos homogeneizados, todos reformados ou remodelados. A sua presença não significará sua garantia de re-conhecimento.

Se nos faltar a água, se cortamos todas as árvores, se secarmos todas as nascentes, desmatarmos e des-florestarmos nossas relações e afetos, assim massificados não escaparemos dessa insensibilidade cruel. Uma cruel compaixão.  O Outro excluído  pode ser a fonte a ser destruída. Ele encarna o que nos dizem ser o “Mal” ou “Mau”.

Esse Mal, o mesmo que ouvi gritarem das janelas e sacadas, que foi midiaticamente localizado em uma figura de poder. Esse Mal que ocupa mais espaço nas redes sociais que todas as vacinas para o HIV. Esse Mal que “tem de ser cortado pela raiz”, o mesmo que é banalizado quando olharmos para esses dados: “no Mundo 768 milhões de pessoas ainda não tem acesso à agua tratada; 2,5 bilhões de pessoas têm condições sanitárias ruins ou  péssimas; 1,3 bilhão não tem acesso à eletricidade...”(*).

 E, por exemplo, mesmo que sejamos uma parte invisível de mais de 25 milhões de pessoas com deficiência, ainda, para além das Leis de Inclusão, continuamos diferentes e desiguais. Afinal, a desigualdade já é ”natural e da Natureza” (inclusive da “humana”). Estes sujeitos ainda continuam, assim como os marginalizados, fazendo parte destes números apresentados acima. Ocupam, junto de jovens, negros, mulheres, lésbicas, trans, homossexuais, pobres e outros desfiliados a massa quase líquida como sua modernidade. Ainda são descartáveis. São "menores"?.

Não importa a falta de água, da privada ou da luz acesa, na casa ou teto desses “incômodos e estranhos vizinhos”. Importa, cada dia mais, o quanto de grana conseguimos ganhar, gastar ou poupar para nossos consumos autorizados, compulsivos e sacralizados. A escassez, inclusive de afetos, que produzimos ou somos coautores não nos sensibilizou nem um pouco. Esses Outros são apenas os que são “portadores” ou “desviantes”.

E o nosso vizinho, aquele ali do lado no condomínio (fechado ou sob vigilância crescente), é apenas um brasileiro “normal”. Mas se aplicarmos as lentes da Arendt, olhando-o trans historicamente, ele fica parecido com o ‘bom’ homem que foi Eichmann.  Como o oficial burocrático do campo de concentração nazista do passado, hoje, podemos ser apenas um bom pai, ou boa mãe, um sujeito de boa família, com um bom sobrenome, de tradição e de direitos. Somos e seremos aqueles que “nunca transgrediram ou transgredirão, ou violaremos uma lei, ou estacionamos em vagas prioritárias, ou nem vemos placas de trânsito sobre nossos tempos da velocidade”. Como dizem: estes seremos, os imaculados cidadãos e cidadãs “que nunca se corromperam e nem se corromperão”.

Entretanto, quando perdidos diante da seca e do incêndio da floresta, suplicantes por uma gota de chuva iluminadora, diante do enorme buraco negro de nossas securas humanas, nos tornaram uma máquina, um exterminador, ou um perigoso e voraz animal. A sua e a nossa banalizada violência agora pode ser grupal. Valerá tudo para que tenhamos o “poder” de “limpar a sociedade” dos que se tornaram os “culpados” de toda essa “desordem político-institucional e socioeconômica”.

Mais uma vez lembro Canetti: “No tratamento dos judeus (e todos os dissidentes políticos, ideológicos, raciais ou sexuais), o nacional socialismo (nazismo para os que ainda não sabem disso) repetiu da forma mais exata possível o processo da inflação. Primeiro eles foram atacados como maus e perigosos, como inimigos; depois foram sendo cada vez mais desvalorizados (associados à inflação e desvalorização do marco alemão);... e, no final, eles eram considerados literalmente como ‘insetos nocivos’, que podiam ser exterminados aos milhões”. E lema ainda é usado pelas corporações: Arbeit Macht Frei – O trabalho liberta...

Os “homens e mulheres do Bem”, nessa Idade Mídia, com suas cruzes ou seus tabletes, armados e municiados da mais pura alienação ideológico-política, tornam-se os “novos cruzados”. Reapresentam a suástica no mesmo cartaz ou faixa que pede intervenção militar. Os anunciadores do apocalipse da Terra Brasilis vestem seus uniformes. Hasteiam a bandeira da Tradição, da Família e da Propriedade. Tingem os rostos como de fosse para uma guerra santa. Iludem-se, quiçá, alucinam, com a miragem que lhes foi vendida como oásis.

 E, aí, deixam o homem “comum” se tornar uma das forças do Mal. O mesmo que lá nas histórias totalitárias se transfigurava em legítima violência em nome da Segurança Nacional. Aquele que pode legitimar as piores torturas ou aprisionamentos. E, sedentos de identidade, tentarão, como massa inflacionária, como uma dengue, uma epidemia “legal”, contaminar o máximo possível em direção às massas que se pretendem um milhão.

Eles e elas, ao se vestirem em suas uniformidades bicolores, nacionalistas e excludentes, acabam por esquecer as cores de seus próprios corações. Afinal ainda dizem que nosso sangue comum é vermelho. Passam e desfilam em avenidas, mas nunca irão conhecer as vielas, as ruelas e os becos transversais. Afinal ainda reservam esses locais para o ‘’proletariado’’, “pobres”, “povo” ou “favelados”. Cuidado ali é uma comunidade onde as balas se perdem, os corpos podem ser arrastados, e, para sua segurança, procure a Rota.

Passado o calor do pequeno incêndio explorado por lentes de aumento, não desprezando seu potencial virulento e dessensibilizante, as panelas voltam para as mãos das empregadas domésticas. O nosso pão de cada dia é recheado de manteiga, os afagos nas PMs desaparecem, enchemos os nossos poluidores veículos com os combustíveis antes do fim do pré-sal, e nossas mesas fartas/opulentas continuam, assim como as televisões de tela plana e mentes também, imóveis como os eucaliptos em falsas florestas. Até sermos abatidos.

O único risco que corremos e corremos, se continuar essa Onda, é que tenhamos de lembrar que revoltadas deveriam estar essas pessoas off-line, marginalizadas de todas as redes, hora esquecidas e, apenas eleitoralmente, hiper “incluídas”. Entretanto, permanecem ainda vítimas de todas as violências, desde as urbanas visíveis às domésticas invisíveis. Violências e vulnerações já naturalizadas, em especial contra, aqueles que classificamos, como no Espetáculo das Raças, como vulneráveis, desviantes, desnaturados, desfiliados ou incapazes da auto-defesa.

Eles tenho certeza, não são e nem serão os que mais esperdiçam as águas, desmatam o futuro, mas podem vir a ser as massas que terão o papel de enfrentamento das neo-colonizações e dos novos Impérios.

ENTÃO, em seu nome, sem sua autorização, podemos, todos e todas, com “classe”, comemorar os dias ‘’internacionais”: da Criança, da Síndrome de Down, da Eliminação da Discriminação Racial e do Racismo, da Poesia, das Florestas, da Água.

E, como todo dia é de reinvenção e poesis, quem sabe um dia, em sonho e porvir, inventemos a não repetição de milhares ‘’Noites dos Cristais” de massa, milhares de dias de Muros a derrubar, seja em Berlim ou na Palestina ou no México,  milhares de Golpes a desmantelar já que nos demolem direitos humanos, milhares de  Falsas Re-involuções ou Massas Fanáticas, que não distribuem rosas ou cravos, mas sim distribuem, sem distinção de classes sociais ou econômicas, os piores espinhos ou venenos ideológicos.

Enfim, semeiam, mesmo nas mentes mais desérticas, os narcisismos das pequenas diferenças e o ódio ao Outro e à Diferença... Já nos re-conhecemos como massa, quando seremos uma multidão? Quando seremos nossa mais im-pura água semeadora de múltiplas florestas humanas, como plural das diversidades e das diferenças desejantes?

Copyright/left jorgemárciopereiradeandrade 2015-16 ad infinitum - todos direitos reservados 2025 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios ou mídias de e para as massas)

LEITURAS CRÍTICAS PARA OS NEO-REvoltaDOS E DES-MATADORES DO FUTURO (assim como releitura para os que ainda sonham e são chamados de utópicos ou ‘vermelhos’, pois eu sei que sou e serei, poeticamente, sempre PRETO, trans-portando a combinação de todas as cores):

MASSA E PODER – Elias Canetti, Editora da UNB/Melhoramentos, Brasília, DF, 1983.
O ESPETÁCULO DAS RAÇAS (Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil)– Lilia Moritz Schwarcz, Editora Companhia das Letras, São Paulo, SP, 1993.

EICHMANN EM JERUSALEM (Um relato sobre a Banalidade do Mal – Hannah Arendt, Editora Companhia das Letras, São Paulo, SP, 1999.

SOCIALISMO OU BARBÁRIE (O Conteúdo do Socialismo) – Cornelius Castoriadis, Editora Brasiliense, São Paulo, SP, 1983.

O SILÊNCIO DO ALGOZ (Face a face com um torturador do Kmer Vermelho) – François Bizot, Editora Companhia das Letras, São Paulo, SP, 2014.

O QUE É VIOLÊNCIA SOCIAL - Antônio Zacarias, Daniel dos Santos, Jorge Márcio Pereira de Andrade, Ricardo Arruda, Escolar Editora, Coleção Cadernos de Ciências Sociais (Org. Prof. Carlos Serra), Lisboa, Portugal.

Indicações de matérias da Internet ligadas ao texto:


No Dia Internacional das Florestas, ONU lembra que 1,6 bilhão de pessoas depende delas para viver https://nacoesunidas.org/em-dia-internacional-das-florestas-onu-lembra-que-16-bilhao-de-pessoas-depende-delas-para-viver/

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –

ÁGUA PARA QUE TE QUERO? Dia Internacional da Água https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/03/agua-para-que-te-quero-dia.html

A CORÉIA DO FANATISMO POLITICO E O FANATISMO RELIGIOSO DO PASTOR: estamos no Século XXI? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/04/a-coreia-do-fanatismo-politico-e-o.html


RACISMOS, BARBÁRIES, FUTEBOL... ONDE ENTRECRUZAM AS VIOLÊNCIAS SOCIAIS? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/05/racismos-barbaries-futebol-onde.html

MOVIMENTOS, MASSAS, MANIFESTOS E HISTÓRIA: POR UMA MICROPOLÍTICA AMOROSA, URGENTE. https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/06/movimentos-massas-manifestos-e-historia.html

A MÁQUINA DA EMPATIA – INCLUINDO A REINVENÇÃO DO OUTRO https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/12/maquina-da-empatia-incluindo-reinvencao.html

quarta-feira, 26 de junho de 2013

FUNDAMENTALISMO, FASCISMO E INTOLERÂNCIA SÃO INCURÁVEIS? E OS GAYS?

Imagem publicada- uma foto de minha autoria, que denominei de uma Saudação ao Futuro? Primariamente colorida, transformada digitalmente em preto e branco, como nos Anos 60. Foi feita durante a manifestação popular aqui em Campinas, no dia 20 de junho de 2013. É o instante de um jovem com o braço erguido, com vários cartazes à sua volta, e se destacava um deles: Feliciano sai do armário. Há nesta foto, para mim, um movimento dos corpos que protestavam, indignados, na rua contra muitas das violências invisíveis a que todos e todas fomos e somos submetidos. Existe também nela uma reprodução de uma saudação com os punhos cerrados. Este gesto foi feito por negros, por brancos, por diferentes seres humanos. Teve a cada tempo uma simbologia. A que me ligou o olhar foi a que lembra os braços em ordem e progresso, alinhados e serializados dos tempos fascistas da nossa História ocidental. Ou será uma história acidental? Uma história repetitiva? ou um alerta para novos Fascismos?

Não dormi direito esta noite novamente, e acho isso vai continuar. Eu tive um motivo extra para minha insônia já cotidiana. Passei um tempo tentando usar as comunicações das redes sociais para levar um pouco de minhas reflexões. Podem dizer para que os meus leitores e leitoras tenham paciência, fôlego e persistência. Os temas acima me exigiram também emoções.

Ainda tento modificar e questionar a constatação de Bauman: “Nenhuma das explosões populares de protesto estimuladas pela Internet e eletronicamente ampliadas conseguiu remover os motivos da raiva e do desespero das pessoas”. Será?

Os discursos extremados e extremistas, que trouxeram um cheiro podre de golpe e de re-militarização da vida esses dias, me provocaram. Meu/nosso cartaz na manifestação era: “64 Nunca Mais – Direitos Humanos Sempre”!

Eis-me refletindo sobre a nossa força virtual ou presencial nestes dias de apaixonadas manifestações por todo o país. Por isso temos agora, após as suas espetacularizações, um momento impar de diálogo aberto com o que chamamos de Governo.

Temos a rara oportunidade de uma maior politização social, e, por conseguinte, do ato de esclarecer nossos concidadãos, brasileiros e brasileiras, sobre as midiatizações bem ou mal intencionadas. O momento é de combater e denunciar, principalmente, os atos de Intolerância e Terror Policial que foram, estão e podem sendo cometidos no país.

Disse concidadãos (ãs) para não usar o termo compatriota. O patriotismo já revela e revelou nos seus “ismos” recentes como os slogans fascistas nele podem se esconder. Lembre-se de cartazes ou faixas que dizem: -“Meu partido é o meu País”. Os fascistas gostam de homogeneidade e desaparecimento de qualquer manifestação de diferença.

Os criadores dos partidos Fascistas na Itália ou na Alemanha também utilizaram a ideia inicial do apartidarismo como forma de captura, por exemplo, dos desejos das massas italianas ou alemãs, principalmente os jovens. Depois propuseram a ideia do Partido único e hegemônico.

Por isso seus líderes máximos tiveram seu apogeu nos períodos de guerra na Europa, no início do Século XX. E arrastaram o Mundo e arrasam muitas massas. Na construção de seres matáveis e sacrificáveis, como no Holocausto, eliminaram muitos corpos considerados ou impuros eugenicamente ou inúteis.

Uma grande Onda, um Tsunami ideológico, conquistou e envolveu o “povo”. Essa massa humana, presa às inflações econômicas e éticas, tinha a crença de uma “nova” forma de populismo ultranacionalista.

Uma massa que se considerava uma verdadeira “floresta” em marcha, um exército a ser invencível, um grupo de eleitos por outra massa inflacionada que poderia “salvar” todo o mundo e dominá-lo.  Porém precisavam de culpados por suas falências.

Essas inflações, com várias origens, inclusive as crises monetárias, foram imputadas aos “diferentes”: fossem judeus ou comunistas, pessoas com deficiência ou homossexuais, ciganos ou dissidentes políticos, todos, ideologicamente, foram, cada grupo ao seu tempo, “incluídos no estigma de insetos nocivos para a Sociedade”. Tornaram-se o “mal” a ser eliminado.

Após a retomada de alguns textos importantes para nossas reflexões, e a análise mais detalhada das fotos que fiz no dia 20 de junho, no início da manifestação aqui em Campinas, amenizei as outras dores do meu corpo e mente conectados com as massas.

O título escolhido para este texto é uma provocação para a urgente compreensão das raízes subterrâneas, não rizomáticas, duras e nefastas que já estavam sendo plantadas contra esse movimento popular histórico. Não há mágicas para explicar essa explosão, esse “enxame humano” que está ocupando as ruas do Brasil. Há é gêneses políticas e socioeconômicas. Não são só os 20 centavos do MPL.

Reli e sugiro leitura urgente alguns capítulos do livro TEMPOS DE FASCISMOS. Lá há uma importante conceituação sobre a INTOLERÂNCIA. Este termo é transversal tanto para os Governadores, como Cabral ou Alkmin e outros, como para outros gestores, e, principalmente para o tipo de Polícias, repressões e Políticas que estão em ação no Brasil.

A INTOLERÂNCIA, em um importante glossário e dicionário construído na Itália, durante os ANOS FASCISTAS de Mussolini, em uma visão enciclopédica, é definida como sendo: “a atitude de quem, tanto na religião como na política, sente um apego tão forte às próprias ideias, opiniões, sentimentos, que não pode admitir de nenhuma maneira a MANIFESTAÇÃO de um pensamento diferente, ao qual, com base unicamente em tal deformidade nega qualquer validade...”.

O interessante e histórico é que esse verbete, que faz parte da Enciclopédia Italiana, criada à sombra do regime fascista entre 1929 e 1939, foi escrito por Alberto Pincherle, um professor judeu de história das religiões na Universidade de Roma, e depois na de Cagliari. Ele próprio sofreu perseguições e foi vítima da intolerância fascista. Foi afastado do mundo acadêmico em 1938. 

Foi excluído pelo decreto de expulsão de todas as “pessoas judias” da escola italiana de qualquer “grau ou ordem”. Por aqui essa perseguição, com muitos exilados, torturados ou presos, foi o mote dessa caça aos “professores comunistas” ou “vermelhos (simpatizantes de partidos de esquerda)” em muitos períodos da Ditadura Militar.

A definição de Pincherle tem o cuidado de esclarecer ainda mais esse mecanismo e atitude tão atravessador das histórias do mundo. Por negar qualquer validade a outras formas de pensamento é que os intolerantes: “... considera(m) também a polêmica apenas como um meio destinado a uma finalidade mais geral. Tal atitude nasce da convicção de possuir uma verdade absoluta e imutável, por isso a intolerância distingue-se também da intransigência, que é predominantemente de ordem prática...”.

Para um mundo que vem assistindo como diz Giorgio Agambem uma perpetuação do que ele denuncia: “... A tradição dos oprimidos nos ensina que o Estado de Exceção em que vivemos é na verdade uma regra geral. Precisamos construir um conceito e História que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa tarefa é criar um verdadeiro Estado de Emergência”.

Porém o que estamos hoje, ouvindo, assistindo e promovendo é uma ‘urgência de outro Estado’, e os ‘golpistas’, aliados aos fundamentalistas, reivindicam o trono e a glória. Anunciam-se como donos da Verdade, não a da Comissão, como os arautos salvadores de um Brasil Novo, quiçá um Estado Novo remodelado.

E, para aplacar essas ondas e massas, com múltiplos interesses ou reivindicações, o Governo Federal e nossa Presidente se apressam na proposição de pactos e de um Plebiscito. Porém o que permanece claro para os indignados, agora mais provocados ainda, é que se associam os governistas hegemônicos, PT e aliados, com os que querem evangelizar o Planalto.

O protesto que se anuncia, quando os 20 centavos, a PEC 37 e um novo ordenamento político anti-corrupção se pronunciam, momentaneamente, solucionados, agora é pela luta contra a intolerância e fundamentalismo na recente aprovação da chamada “Cura Gay”.

E um ícone pastoral surge, novamente, para além dos cartazes e faixas como o novo “inimigo do povo” a ser derrotado. Porém corremos um risco aí da suposta ingerência do Executivo no Legislativo, que não se fez e nem se fará, e o Feliz sem ano continuará, mesmo a contragosto popular, “gerenciando” felicianamente os Direitos Humanos e as Minorias.

Por isso associei a não “cura” possível desses “males”: o fundamentalismo religioso e os fascismos. As suas raízes “pangenéticas”, ou seja, múltiplas, nascem, pelo que aprendemos da História, do próprio desejo das massas.

No verbete intolerância ainda podemos compreender melhor essa faceta, esse rosto de Jano dos intolerantes, fascistas e fundamentalistas. Para eles, como foi definido por Pincherle: “... A intolerância, em outros termos, pressupõe uma ortodoxia, ou seja, trata-se não somente de defender a verdade, mas impedir que os outros caiam em erro (acrescentaria o Pecado), considerado por si só pernicioso, aliás, o pior dos males, a ser evitado mesmo a custo de consequências gravíssimas.”

Foi essa a gravidade de uma sorrateira ação fundamentalista do Pastor. Foi e é nessa forma de intolerância que não deve ser apenas quanto às escolhas ou modos de vida sexual, que uma Comissão de “Direitos Humanos” alegou o direito de escolha para serem curados os que considerarem suas homossexualidades um “mal a ser curado”, mesmo que isso implique em uma nova forma de “castração psicológica” ou “arrependimento de um grave pecado”.

Caso não consigam entender como podem ser fascistantes estas perigosas ações dos fundamentalistas, reforço que eles/elas, muitas vezes investidos de nossos representantes, se outorgam ter, por Amor, a capacidade de escolher o que é melhor para os outros mortais. Basta que lembremos que suas palavras são meras repetições de suas Bíblias, suas afirmações são mais que ortodoxas, são dogmáticas. As suas bocas vociferam A VERDADE.

Por isso, não podemos cair na ‘pastorfobia’, na ‘deputadofobia’, na ‘políticofobia’. Não tenhamos essas arrogâncias ou “doenças” fascistantes. Estes, dessa lista, querem impor sua verdade, como vimos, e se tornam totalitaristas. Hoje se transmutam em utilitaristas já que muitos dos seus eleitores são apenas “consumidores” de suas pregações e convicções. E, muitos creem neles ou nelas.

Para fanáticos ou fascistas não há nem diversidade, nem diferença, somente uma identitária e ortodoxa igualdade... Vestem os mesmos uniformes, ternos ou longas saias encobridoras de desejos, aspiram purezas imaginadas em corpos doutrinados, marcharam no mesmo passo repetitivo e alienante.  

Por isso podem destruir com a mesma dureza quaisquer uns que lhes pareçam ser ameaça às suas verdades. São, porém mais sutis que os partidários de Mussolini. Os novos campos de exceção ou de doutrinamento primordiais foram montados em velhos cinemas. Lá já encontraram o palco e a tela. Os seguidores já sabiam previamente do Espetáculo.

Um espetáculo, na Alemanha , denominado Triunfo da Vontade, que uma cineasta alemã, Leni Rienfenstahl soube muito bem, em 1934, captar no e para o Nazismo. Apenas localizou e ampliou os ângulos de crescimento e força das massas nacional socialistas de Hitler. E, magistral e cinematograficamente, valorizou um gesto: Heil Hitler! E multidões, muito bem adestradas e serializadas, gritavam em uníssono em grandiosos cenários públicos, como o de Nuremberg.

Tomemos, portanto, cuidado ao erguermos nossas mãos. Podemos estar realizando o mesmo movimento, a mesma ONDA, os mesmos símbolos e as mesmas intolerâncias que Mussolini ou Hitler propunham para os Fascistas e os Nacionais Socialistas. 

Temos nas vivências mais simples a possibilidade de reproduzir esses tiranos, mesmo nas nossas mais microscópicas relações. Essas microfascistações estão no âmago dos seres humanos  ditos modernos e revolucionários.

Esse é, então, o mesmo cuidado e carinho que devemos ter ao buscar no movimento atual das multidões brasileiras. Não podemos generalizar ou simplificar. Há uma complexa engrenagem social, econômica e um grande Analisador Histórico em ação.

Não estamos nas barricadas da Comuna de Paris, em 1867, como no filme os Miseráveis, muito menos na Presidente Vargas de 1964. Só não podemos nos arvorar a reproduzi-las, pois já deveríamos ter aprendido algumas coisas, por exemplo, como são analisadoras essas lições das ruas e das “revoluções” populares do passado da Humanidade.

Os analisadores históricos são importantes para trazer à tona as partes submersas dos ‘parcialmente’ visíveis icebergs das sociedades. Ontem, antes de ontem e, quiçá, amanhã as mídias simplificaram e naturalizaram como Vandalismos as violências dos violentados. 

Ocorreram e ocorrerão exageros e depredações. Foram e serão reativas, assim como provocativas, a uma eficiente máquina policial repressora chamada de Choque. A mesma que troca a munição de borracha por chumbo grosso quando entra na “pacífica e higienizadora” tomada das favelas.

O cenário que se construiu, midiática e espetacularmente, aproximou-se do chamado Caos. Este caos de fumaças, bombas, lágrimas violentadas, corpos arrastados e outras violências visíveis e tele visíveis, forma anunciados como a antevéspera dos fins e dos apocalipses.

Eram, a meu ver, apenas resultantes dessas mútuas intolerâncias surgidas de confrontos políticos latentes. E do lado dito popular tenho minhas indagações certeiras sobre suas infiltrações fascistantes e direitistas. Os que se chamam de “carecas”, em outros confrontos, por exemplo, gostam desses exercícios de força e de lutas. Eis um exemplo de intolerância que se encaixa “perfeitamente” no conceito de Pincherle.

Esses, em suas homofobias e racismos múltiplos (de negros a judeus, passando por moradores de rua e gays), são um exemplo típico da violência intolerante. Lembremos que, recentemente, isso foi evidenciado pelos ataques a homossexuais por skinheads na Avenida Paulista e outros locais do Brasil. São, porém, apenas  a ponta minoritária do iceberg dos fanatismos políticos fascistas.

Os episódios dos Choques que foram e estão sendo explorados midiaticamente, geram falas endireitadas e perigosas, a ponto de termos de ouvir um SemAntena falar sobre a urgente “hora da revisão Constitucional” diante da “falta de política e de políticos honestos”. Hora da generalização e do sensacionalismo.

Outras redes de televisão exploram os diferentes focos de fogo ou insurgência popular, e, novamente os manifestantes tornam-se os porta-vozes de uma “urgente reforma política, com novas eleições”. 

E as redes sociais reproduzem até o pedido de Impeachment a la Collor. Começam dizendo que a marcha é “pacífica”, mas têm os vândalos infiltrados para provocar uma dura repressão. A energia desse “fogo” das ruas deverá ser aplacada.

Discursos competentes que reproduzem, a meu ver, também essas intolerâncias subjacentes e não visíveis dos atuais movimentos e manifestos. E o discurso “oficial”, vem dias depois, se associar a esta fala televisiva que nos distancia de uma real visão analítica implicada dos acontecimentos. 

Como acalmar os ânimos dos rebeldes? Como responder ao “clamor” dessas massas? Novos pacotes, novos acordos, novos pactos, novas leis, novos endurecimentos da governamentabilidade ameaçada?

Há como já escrevi, relembrando um texto de 25 anos atrás, a insurgência e a emergência dos rancores reprimidos contra o Estado de Exceção. É aí que corremos o risco do amor fanático à Cólera coletiva. E todos levam a mão ao peito, erguem o punho, e cantam emocionados o Hino Nacional. A que ou ao que estamos e estaremos saudando? Ou o que e quem esperamos salvar?

Surgem, portanto, nesse cenário de força criativa das multidões, dois caminhos possíveis: a despolitização dessas massas ou a sua hiperpolitização falsa ao lhe dar um caráter de totalidade de todo um “povo brasileiro”. 

Nem a aversão aos partidos e seus/nossos representantes como solução, nem a ideia e pensamento mágico de mudança utópica apenas pela nossa expressão massiva de opiniões e queixas do Estado e seu modelo democrático.  Há alguma forma de “cura” profilática ou higienizadora que dê conta dessas convulsões sociais?

Não podemos ter a pretensão totalitária de “curar” as atitudes dos que agora dizem ouvir as ‘vozes e clamores da multidão’.

Os manifestantes, segundo a Globo emitem “gritos de guerra”. Já estão gritando velhos e conhecidos refrãos pelos direitos civis. Todos dizem: , ARROZ E FEIJÃO! SAÚDE, EDUCAÇÃO. Porém a transversalidade do momento histórico nos revela que a descrença na política e nos políticos não se resolve de forma vertical e hierárquica.

“Eles” lá no PlanALTO  e nós sob os paralelepípedos, blocos de cimento ou asfalto das ruas intensificadas.

A história nos diz que, em 1968, quando éramos “os jovens”, ou apenas meninos e meninas sonhadores, sob as pavimentações das ruas estavam intensos e múltiplos sóis ou luas. Os novos tempos demonstram que há uma micropolítica emergente, milhares de intensidades se manifestando ao ar livre.  A Rocinha, que não é rural, só pede saneamento básico, saída para os esgotos que se derramam no mesmo mar do Leblon, no Rio de Janeiro.

Porém como já disse há a permanência de alguns fanáticos ou fascistas e suas intolerâncias que nos querem “manter engarrafados”, não apenas na Marginal como marginais ou periféricos.

Querem é nos asfixiar com suas “verdades” fundamentalistas. E, asfixiados por estas bombas e gases invisíveis deixarmos a indignação de lado. Então, novamente seduzidos pela Sociedade do Espetáculo e do Controle passarmos para o seu caminho endireitador e biopolítico de corpos em serialização.

Não se derrubaram Pinochets, Médicis, Videlas e outros generais fascistas e suas ditaduras apenas com a molecularidade revolucionária dispersa das ruas ocupadas. Elas foram, são e serão indispensáveis. Segundo Canetti as multidões tem como metáfora as fogueiras. E se o fogo for cívico ou tender para o fanatismo fará com que tenhamos o resultados históricos diferentes dessas labaredas das massas.

Escrevi hoje sobre um cidadão que resolveu quebrar a calçada de um órgão público, uma Secretaria da Saúde, para construir ali um direito por ser um cadeirante: uma rampa. Disse a respeito da matéria: “- um homem sozinho pode quebrar algumas ou muitas barreiras... entretanto, quando as gotas de água do Rio humano se unem e aglutinam podemos até transformá-las em cascatas, cachoeiras, TROMBAS D'ÁGUA, em ENCHENTES DE GENTES...”.

Vamos lembrar que um pequeno grupo de mães e avós, uma gota lúcida nas águas turvas da Ditadura Argentina, chamadas de “loucas”, as Madres e Abuelas de Mayo, conseguiram, também, denunciar e combater os desaparecimentos políticos da co-irmã ditadorial dos Anos 70. Mantêm sua roda em frente à Casa Rosada até este instante de hoje. Os fascismos e fanatismos em nós precisam de combate cotidiano e persistente.

Aprendemos que, mesmo denominada Las Locas, persistiram e não arredam os pés e lenços da sua vigília cívica na Plaza de Mayo.  Aqui no Brasil também já temos nossas Mães de Maio, lutam por, em e para Direitos Humanos. Também viram seus filhos serem assassinados.

 Nossas mães têm uma história que as motiva e alimenta como às argentinas, lutam, cotidianamente: “Em memória das 13 vítimas da Chacina da Maré e do jovem Jackson de Itacaré-BA (25/06/2013), das 3 vítimas da Favela Funerária (22/06/2013); das 8 vítimas da Baixada Santista (última semana) e demais vítimas da repressão em todo Brasil”.  Serão também chamadas de “malucas”, “loucas”, “doidas”?

Até quando estamos dispostos a manter nossas passeatas e manifestações para além do virtual, para contrariar algumas expectativas oficiais, para além das redes sociais ou dos outros modos de distanciamento do Outro e da política?

Não poderemos curar os pastores homofóbicos, se ficarmos imobilizados, pois seus corpos e mentes já foram ou se sentem salvos. Não há como dizer para eles que não existe essa Verdade absoluta e totalitária de um mundo só de seres totalmente idênticos e iguais. Muito menos lhes explicar o que significa e se enraíza neles de uma adoecida e envelhecida intolerância brutal.

Oportunamente, diante das manifestações que usam seu nome nas faixas e cartazes, o Infeliz Sem Ano, anuncia, provavelmente com seu cartel já instalado em Brasília, que “não existe cura gay, pois a homossexualidade não é uma doença”...

Porém, homossexuais, lésbicas, transexuais, travestis e outros desviantes sexuais, continuarão sendo alvo da intolerância, por pastores homofóbicos e seguidores, como uma “aberração” contra os princípios de uma verdade bíblica e dogmática. Estes cidadãos e cidadãs são “amaldiçoados”, e nós, os negros também nos incluímos aí...

Provavelmente irão, diante das iras populares incendiadas, que a mídia oficial chamou de “vândalos”, enterrar esse projeto que autoriza a chamada “cura gay”, com tratamentos psicológicos. Não dirão que há, no magma destas terapias, um passado de lobotomias, eletrochoques, experimentações médicas, castrações, tratamentos hormonais, trabalhos forçados, reconversão com uso de prostitutas, extermínio e campos de concentração.

A construção da Anormalidade sempre justificou medidas terapêuticas biopolíticas, panópticas, manicomiais, de isolamento social, repressivas e, se necessário, de eliminação dessas Vidas Nuas. Como recurso final, deveríamos internar compulsoriamente estes anormais?

Concluo, então, que os PASTORES FUNDAMENTALISTAS, RACISTAS E HOMOFÓBICOS, NÃO TÊM “CURA”, ASSIM COMO A INTOLERÂNCIA E O FASCISMO. Não podemos usar a sua lógica perversa e aética  para aplicar a eles a mesma terapêutica ou conversão.

Todos têm história, enraizamento, plateia, seguidores e formam outra “rede” ideológica, como uma cruzada, na qual querem “incluir” todo o MUNDO... E CONTINUAREMOS ASSIM, OS INFIÉIS, OS ÍNDIOS, SEM O DEUS DELES, MORTAIS E TERNAMENTE INCURÁVEIS.

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2013/2014/ 2024 ad infinitum, atualizado e revisto em 11 de janeiro 2023, após invasão do Congresso, Palácio do Planalto e STF por bolsonaristas insuflados por seu fascismo- Todos os direitos RESERVADOS 2025 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de Massas)

Notícias na INTERNET conectadas no texto:



Tempos de NeoCura Gay - Terapia de Reversão Sexual incluiram Lobotomia, Choques e Castração, é desumano!

PARA OS QUE AINDA LEGITIMAM, usando inclusive a Constituição, o retorno a um passado de preconceito, eugenia e intolerância - recomendo a leitura de Triângulo Rosa — Um Homossexual no Campo de Concentração Nazista https://acervo.revistabula.com/posts/livros/triangulo-rosa-um-homossexual-no-campo-de-concentracao-nazista

Hoje(01/10/2011) na História: 1944 - Nazistas iniciam experiências de castração em gays nos campos de concentração https://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/15630/hoje+na+historia+1944++nazistas+iniciam+experiencias+de+castracao+em+gays+nos+campos+de+concentracao.shtml

Para quem não leu a HISTÓRIA E AS SUAS RAÍZES- Nazistas tentavam 'curar' gays com prostitutas e tratamento hormonal https://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/2013/06/1297868-nazistas-tentavam-curar-gays-com-prostitutas-e-tratamento-hormonal.shtml


Resposta do Movimento Mães de Maio ao convite da Presidenta Dilma Rousseff para importante reunião! https://racismoambiental.net.br/2013/06/resposta-do-movimento-maes-de-maio-ao-convite-da-presidenta-dilma-rousseff-para-importante-reuniao/

LIVRO CITADO –

TEMPOS DE FASCISMOS – Ideologia – Intolerância – Imaginário – Maria Luiza Tucci Carneiro & Federico Croci (Orgs.) – Editora EDUSP, São Paulo, SP, 2010.

FILME citado no texto –
O TRIUNFO DA VONTADE (TRIUMPH DES WILLENS) – Leni Rienfenstahl – 1935 - DVD- Excertos do filme https://www.youtube.com/watch?v=KQxKvg_CDLQ

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MOVIMENTOS, MASSAS, MANIFESTOS E HISTÓRIA: POR UMA MICROPOLÍTICA AMOROSA URGENTE 
A PRAÇA É DO POVO? AS RUAS SÃO DOS AUTOMÓVEIS E ÔNIBUS? E OS DIREITOS HUMANOS SÃO DE QUEM?

A TOLERÂNCIA É MAIS QUE UM BACALHAU NO MEU ARROZ COM FEIJÃO? – EM BUSCA DA EMPATIA, PARA ALÉM DA ANTIPATIA... https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/07/tolerancia-e-mais-que-um-bacalhau-no.html

A COREIA DO FANATISMO POLÍTICO E O FANATISMO RELIGIOSO DO PASTOR: ESTAMOS NO SÉCULO XXI?
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/04/a-coreia-do-fanatismo-politico-e-o.html

sábado, 13 de abril de 2013

A COREIA DO FANATISMO POLÍTICO E O FANATISMO RELIGIOSO DO PASTOR – estamos no Século XXI?

..Resultado de imagem para marcha da familia + 1964 + tv brasil

Imagem publicada – foto em preto e branco, histórica, colhida na Internet, no link tvbrasil.ebc.com.br, sobre a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, um movimento que reuniu milhares de brasileiros e brasileiras fervorosos; uma multidão, uma massa de brasileiros e brasileiras que carregam  faixas, bandeiras e cartazes, sendo em primeiro plano vemos uma bandeira com uma cruz cercada de estrelas, com cartaz bem no centro que diz: “QUEREMOS GOVERNO CRISTÃO”, com outro em seguida que diz: “Despertai povo de Santos” ao lado de “ Verde Amarelo sem Foice nem Martelo”; A mais emblemática é apenas uma imagem de uma águia que pousa sobre uma cruz com a palavra LIBERDADE logo acima; com manifestações populares conservadoras em todo o País, e, que em 19 de março de 1964, em São Paulo, legitimavam o que viria ser o golpe de estado de 31 de março de 1964, que mudou a nossa história democrática, e, que com apoio de políticos, deputados, padres, cristãos, evangélicos, governadores, empresários privados e, intelectuais, ‘anti-comunistas’, consolidaram os futuros 20 anos de Ditadura Militar e Anos de Chumbo no Brasil. E a História registra o depois.

O título pode parecer um pouco confuso. E o é, pois retrata os tempos de confusão politico-religiosas que estamos assistindo. A encenação do Estado Espetáculo precisa de uma Sociedade do Espetáculo. E, atualmente, os espetáculos mais midiatizados são o exagero de alguns “cultos”, porém não muito cultos.

Não há teatro sem palco ou espectadores. Não há ou haverá representantes políticos ou religiosos caso não haja ou houver seus partidários ou seus seguidores.

E, em tempos de ameaça do sujeito autônomo e mal-estar-na-civilização, proliferam os seus novos atores, as novas encenações: os messianismos, os mistificadores e os apocalípticos. E reaparecem as paranoias.

O Brasil está assistindo a um grande espetáculo provido por um Pastor. Eu, aqui na minha própria “crença” de não-crer à toa e alienadamente, me recuso a dizer o seu “sacralizado” nome.

Ao me referir sobre seu “papel e representação política” pode  não ser muito pouco, como mídia. Porém, o que já foi feito e divulgado por todo tempo de sua permanência na presidência, contestada, de uma Comissão de Direitos Humanos é muito.

O que estou tentando quando falo da Coréia dos fanatismos não apenas apontar meus mísseis de tinta digital para o culto à personalidade do comunista norte-coreano.

Há outros cultos às personalidades pseudo-páticas que estão também na primeira página dos jornais, capas de revistas e se tornam virais na Internet. E são tão contagiantes como a música que fazia milhares de pessoas dançarem de forma ‘’louca’’ e extravagante nos séculos XIV e XVIII, “espumando pela boca e até desmaiarem de cansaço”, em êxtase.

Por isso resgato na etimologia da palavra Coréia a atualidade dos fanatismos. Esta palavra, no grego, khoreia, nos remete à dança que em sua origem mítica que se associava à dança do ventre e às mulheres, que, como a dança dos “sete véus” de Salomé, enlouqueciam até os reis, e conquistavam até a cabeça decapitada de João Batista. As coreias podiam e podem enlouquecer?

 Como todos os termos polissêmicos, também podem denominar deste uma terra dividida como as Coreias, com uma Terra de Ninguém no meio, assim como doenças neuro degenerativas incuráveis, e que ainda causam estranheza e preconceitos pelos sintomas, como Huntington ou Sydenhann.

Os que sofrem destas doenças são acometidos de movimentos semelhantes às danças gregas, com movimentos involuntários, irregulares e, principalmente, repetitivos. Há também os que os associavam, nos cultos onde a dança era predominante, com as possessões demoníacas. Alguns, profeticamente, prometem curá-las, mas é preciso se alienar ou fingir que recebeu um milagre.

Hoje elas atacam muito mais a multidões. São as neo-coreias, mais de cunho histeriforme, onde os mitos e ritos político-religiosos predominam. Misturam com eficácia, como no passado: Deus e Democracia.

São massas humanas em busca de respostas para seus sofrimentos, misérias e sua própria exploração hipercapitalista. São, na sua maioria, o nosso “povo”, considerados incultos e privados de acesso ao conhecimento de sua própria escravidão.

A Coréia, ou melhor, a dança dos fanatismos políticos é o melhor termo para nos chamar a atenção para além das ogivas que são utilizadas para uma nova corrida armamentista e bélica.

O que tememos realmente? O “terror atômico”? O “horror econômico”? Ou uma nova “onda” fascistantes de escravidão e Vidas Nuas?

Há um fio invisível, porém duradouro, que une e fortalece essa nova dança contagiante de um fanatismo político a um fanatismo religioso. Uma nova “dançomania”. Os dois fanatismos se transversalizam há muitos anos...

Os fanatismos políticos, historicamente, sempre se sustentaram em cima de símbolos não-pagãos. A suástica é apenas a reapresentação de um símbolo muito mais antigo. As duas cruzes eram parte da “roda da verdade” que os monges budistas, no Tibet, incluíam em mandalas, com outra significação e simbolismo, muitos séculos antes de Hitler.

Por isso Castoriadis dizia que as religiões, no sentido arcaico do ‘religare’, nos instituía e institui como seres heterônimos. Somos indivíduos que inventam e dependem da existência de um Sagrado e da transcendência.

Para os atuais proliferadores e mistificadores da fé do outro essa necessidade humana é um prato cheio. Estamos, sob pena de exclusão ou danação, de não sermos mais os escolhidos, os ungidos, os eleitos para o Reino dos Céus. Somos hereges?

Temos, então, de nos tornar todos e todas em “crentes”. Os que não creem estão condenados ao fogo, assim como foram as mulheres, como bruxas, na Idade Média.
Retomamos essas práticas inquisitórias? Melhor então render homenagens e até oferecer cargos e privilégios políticos para quem possa nos retribuir com votos ou graças divinas. Vamos, então, render graças pelos “direitos” recebidos. Não há direitos adquiridos inerentemente por nossa condição de humanos.

Para escapar de novas práticas sutis de tortura, os fanatismos, com sua oferta sedutora, nos propõem uma redenção. Não importa se afirmamos a separação entre os Poderes. Nosso corpo e sua suposta liberdade nunca deixaram de ser do Estado.

Teríamos de afirmar como Fernando Pessoa que “a Liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo...”. 

E esse desassossegado poeta nos causará, por isso, um enorme desassossego. Afinal, no primeiro artigo de nossa Declaração não é dito que “... todos os homens nascem livres...”?

Creio que os que utilizam as técnicas de poder e controle de massas já descobriram o lado obscuro dessa afirmação do poeta. Temos ser coletivos enquanto acreditamos, mas só somos individualistas que aplicam o narcisismo das pequenas diferenças.

Por exemplo, agora, historicamente, estamos confirmando no Brasil como a religião é consubstancial a todo o corpo social. E que toda a forma de governar esse fragmentado e ameaçador corpo é, hoje, estimulada dentro de templos evangélicos.

Lá ninguém escapa de outro tipo de servidão sem crítica. E, de camarote, como meros espectadores assistimos a sua bancada revogando ou criando novas leis para todos e todas. Os seus partidos defendem o Pastor, mas muito mais ainda suas posições ideológicas, que devem ser eternamente: conservadoras, intolerantes, sexistas, homofóbicas, racistas, individualistas e segregadoras de quaisquer diferenças.

Nessas templárias construções é que Pastores como o moço feliz e vociferante afirmam que “Jesus não é para enfeitar pescoço de homossexual ou pederasta”. E, como estas condições ou diferenças podem levar às novas fogueiras, ou do Inferno ou dos novos fornos crematórios, muitos preferirão optar pela sua conversão.

Estes cenários, com palcos amplos, com luzes bem direcionadas, com microfones potentes e alto falantes que penetram na Alma são hoje também o melhor palco para uma eleição. E lá vamos nós de novo para uma Coréia coletiva de mãos erguidas em busca da salvação. “Levanta-te, ser impuro, e em mim deposita todos os seus votos”... E na minha conta bancária também.

Afinal, o que se chamou de “voto de cabresto” antigamente, é hoje transformado em um voto de protesto e santo. Entre os que só são apresentados como corruptos políticos e os que são livres desse pecado, em quem o nosso povo in-crédulo poderia e poderá votar?

Hoje é mais seguro vender a alma. Houve um tempo que se trocava por camisetas, sapatos ou dentaduras. Uma nova e eficiente máquina de sedução e captura política nasce exatamente de nos tornamos tementes, novamente. O que desejavam as massas que construíram os nazismos e os fascismos? Diriam os marqueteiros: apenas uma suposta LIBERDADE e SUPREMA FELICIDADE. E a Salvação é claro!

E não me venha dizer que Hitler era um “louco”. Não, assim com os atuais mistificadores de massa ou pastores das maltas, era apenas mais um Presidente Schreber. Era um paranoico, com uma massa ávida de encontrar um alemão que falasse de e para uma “raça pura” e “superior”.

Schreber, um alemão que foi presidente do Senado de Dresden, foi o mais clássico caso de paranoia descrito desde Freud. Em seu livro “Memórias de um Doente dos Nervos”, apresentou-se ao mundo como um homem culto e inteligente. Ficou internado por sete anos em várias clínicas psiquiátricas. Ao sair escreveu o que pode nos ajudar a entender, ainda hoje, como funciona a mente de um paranoico delirante.

Ele, como nos diz Elias Canetti em seu Massa e Poder: “...estava tão firmemente convencido da exatidão e do significado de sua religião autocriada que assim que recebeu alta (do hospital) mandou publicar seu texto...”. Schreber, como alguns hoje em dia, diante de plateias ululantes, afirmava que seu corpo humano tratava-se de um “corpo celeste”, quiçá celestial.

Ele escreve em 1903: “Um relacionamento regular de Deus com as almas humanas somente ocorre após a morte. Deus pode aproximar-se dos cadáveres sem perigo, para retirar seus nervos do corpo e para despertá-los para uma nova vida celestial”.

Porém, como os paranoicos da modernidade, ele afirmava que Deus só pode usar nervos humanos “puros”. Seria esse Deus um eugenista? Teria Schereber (1842-1911) conhecido, como leitor/seguidor, as obras de Francis Galton (1822-1911)? Para que, os seres mundanos pudessem atingir a via rumo ao Céu seus “nervos” precisavam ser revistos e purificados. Tornar-se-iam superiores.

Este magistrado saído do hospício apresentava um sistema delirante de uma pessoa perseguida por Deus. Seu discurso apontava para uma existência terrível: sem estômago, laringe, perseguições de pássaros etc. Ele se transformaria em uma mulher que engravidaria de Deus.

E, como nos discursos evangelizadores ou sedutores modernos, este precursor dizia que alguns eram melhores e mais puros que outros. No seu céu todas as pessoas esqueciam-se de que eram humanos, menos os homens eminentes como Goethe ou Bismarck. Porém nessa “democracia” celestial até os poderosos um dia esqueciam sua condição humana.

No ápice, ou melhor, na sua maior “clarividência” místico paranoica  ele, sob a influência de visões que eram “parcialmente de caráter terrificante, mas em parte, também, de grandeza indescritível” convenceu-se da iminência de uma grande catástrofe:  o fim do mundo.

Nas suas alucinações auditivas, as “vozes” lhe disseram que todos os milênios da Terra vieram para nada, e só restariam mais 212 anos para a humanidade. Porém, quando retornou à clínica do Dr. Flechsig, tornou-se crente de que esse tempo já havia passado.  Entretanto, ele seria o “único” homem se salvaria desse Apocalipse.

Acredito, ou melhor, reflito que há quem ainda creia e jure que há esta proximidade do Fim. Recentemente muitos temeram o fim do ano passado como nossa terminalidade terrestre.

As mídias tonitruantes, as mesmas que concentram suas atenções para as bravatas e os discursos do Pastor, ajudaram também a uma multiplicação de protestos em massa. Portanto, há também o outro lado dessa moeda. O único risco é de sua captura por outros fanatismos políticos discriminatórios: as microfascistações em nós.

Hoje mesmo indaguei em uma rede dita social, acerca das profecias do Pastor: O que dizer aos seus seguidores fanáticos? O que dizer aos que ainda acreditam nessa ditadura dos termos retrógrados deste Exmo. Sr. que pula e GRITA?

Os seus vídeos, que não são autobiográficos como o livro de Schreber, mas passíveis de uma análise crítica, não apenas psicanalítica, também, uma visão psicossociológica nos faz “crer” que há um movimento mais antigo e enraizado que alinha os fanáticos políticos com os religiosos.

 Assistam aos vídeos e reflitam sobre os que estão atrás do Pastor e à sua frente na grande plateia do seu “teatro” e a sua coreia histérica a falar de cantores, de Caetano a John Lennon. Gravem bem estas imagens, pois esse passado de hoje ainda estará presente no futuro, em outros novos políticos ou mistificadores religiosos.

As manifestações tiveram e têm seu papel na reivindicação dos direitos humanos como direitos a serem efetivados. Devem e podem continuar, mas não podem cair na “tentação” de ser também a única forma de revolução ou rebeldia.

Quando lidamos com o ressurgimento de movimentos paranoicos, de seus representantes, sejam políticos ou religiosos, ou as duas coisas, temos de reler e refletir o que disse Canetti.

Gostaria de nos lembrar que Schreber dizia que a ‘humanidade’ toda seria exterminada pois ousou ficar ‘contra ele’: “Nisto ele não se mostra apenas como paranoico; é a tendência mais profunda de todo ‘poderoso’ IDEAL ser o último a permanecer com vida. O poderoso envia os demais à morte para que ele mesmo seja perdoado pela morte: ele a desvia de si. A morte dos demais não lhe é apenas indiferente; tudo o impele a provocá-la de maneira maciça...”.

E não devemos nos sentir convidados ou atraídos para estas novas Coreias, para além das geopolíticas mundiais e capitalísticas, que apenas estão maquiando velhos e consagrados meios de controle e biopolíticas. Portanto não basta afirma a laicidade do Estado Espetáculo. É preciso confirmar a minha livre e singular condição humana para além de todos os preconceitos.

Ao Pastor e suas hordas envio a minha 'vigilância' e gramática civil: meus direitos não são desumanos quando o Outro é a minha/nossa diferença e alteridade. Não busco a sua extinção. Só aceito seu convite à dança quando é para não repetir os mesmos passos errados que já demos no Salão de DANÇAS da Vida, que, tenham certeza, não é nome de nenhum culto ou espaço de alienação política.

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2013-2014 e depois AD INFINITUM (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de “massas”- TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025) todos direitos reservados.

Indicações de matérias/fontes na INTERNET –


FREUD, Sigmund. XII. O Caso Schreber, Artigos sobre Técnica e Outros Trabalhos (1911-1913) (Volume XII) para Dowload https://pt.scribd.com/doc/68594953/FREUD-Sigmund-XII-O-Caso-Schreber-Artigos-sobre-Tecnica-e-Outros-Trabalhos-1911-1913-Volume-XII


INDICAÇÕES PARA LEITURA E REFLEXÃO CRÍTICA –

MASSA E PODER – Elias Canetti – Editora UNB, Brasília,DF, 1983.

PSICOSSOCIOLOGIA - Análise Social e Intervenção – André Levy, Andre Nicolai, Eugène Enriquez, Jean Dubost – Editora Autêntica, Belo Horizonte, MG, 2001.

O CASO SCHREBER" E OUTROS TEXTOS - Obras completas volume 10 - Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia ("O caso Schreber"), Artigos sobre técnica e outros textos(1911-1913) – Sigmund Freud, Editora Companhia das Letras, São Paulo, SP, 2010.

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