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domingo, 11 de setembro de 2011

NOSSAS IN -DEPENDÊNCIAS da DONA MORTE em 11/09/11


Imagem Publicada - a capa de DVD do filme "11"09'01", realizado por 11 diretores de diferentes nacionalidades, culturas e pontos de vista acerca do ataque terrorista às Torres do WTC, em Nova York, em 11 de setembro de 2001. São episódios de curta duração, alguns minutos que condensam a sensibilidade e a diversidade humana diante de tragédias coletivas. A capa traz recortes, fotográficos, dos episódios, como se fossem as torres gêmeas, e o nome de todos os 11diretores de cinema abaixo do título,11 de Setembro, em letras vermelhas.


Caríssima e sempre atemorizadora Sra.
Dona Morte

Assisti muito pouco da cerimônia de homenagem aos mortos das duas torres. Apenas observei, quando despertava de mais uma noite mal dormida, por minhas dores, que as dores dos familiares ainda estavam presentes nesse espetáculo-lembrança. Lá estavam, atrás de vidro blindado, os presidentes, o passado Bush e a atualidade Obama.

Cara Dona Morte, ultimamente reforçou-se em mim as lembranças de um velho livro: A NEGAÇÃO DA MORTE. Nele seu autor, Ernest Becker nos traz uma das mais preciosas leituras sobre as nossas in-dependências da morte. Nele se explica um pouco do modelo norte-americano agora reificado e midiatizado, a transformação de nossos heroísmos codificados em solução para as nossas mortes em massa. Apesar de querermos ser livres na sua presença oculta em nós, por temor e terror, somos seus melhores aliados quando se fala sobre e com as massas.

Se estivesse podendo convidá-la para assistir a uma boa reflexão sobre nossos modos biopolíticos de lidar com esse evento, a queda do World Trade Center, a convidaria para assistir o filme coletivo ''11'09''01". Esse precioso trabalho foi realizado pelos cineastas: Samira Makhamalbaf (Irã), Claude Lelouch (França), Youssef Chahine (Egito), Danis Tanovic (Bósnia), Idrissa Ouedraogo (Burkina Faso), Ken Loach (Reino Unido), Alejandro González Iñárritu (México), Amos Gitai (Israel), Mira Nair (Índia), Sean Penn (EUA) e Shohei Imamura (Japão).

Já citei a beleza e reverência, sem extensão, ao episódio construído pela direção de Samira Makhamalbaf. Eu a citei no meu texto em homenagem aos professores: Um pedaço de giz na lousa digital. O que esta cineasta iraniana nos traz é um pouco mais de reflexão, quiçá o melhor e mais ético episódio do filme, através de uma professora cheia de realismo.

Tudo começa em uma olaria, um local pobre, na fronteira do Irã, onde um homem morre ao cair em um poço. O importante, a seguir, é o que a professora faz para chamar a atenção das crianças que estão amassando barro. Ela vem distribuindo livros. Eles, então, se reúnem em um espaço onde se sentam sobre o chão. O quadro negro é precário, e nele a professora representará do que ocorreu naquele dia 11 de setembro de 2011.

Essa professora de Samira interroga aos seus alunos, assim como aos espectadores, se sabem o que aconteceu de importante nessa data. Elas, respondem sobre a presença concreta de sua digníssima pessoa: a Dona Morte. Uma menina fala dos homens que caíram no poço em busca da água, quando um deles morreu, e outra da sua tia que foi morta apedrejada por talibãs no Afeganistão. São todos ali um resultado das guerras e dos processos geopolíticos de migração após as mesmas.

A naturalização de sua presença, Dona Morte, faz com que essas crianças só conheçam um presente muito fugaz. Estão fazendo tijolos para se abrigarem de ''bombas'' que podem ter de enfrentar logo depois de suas aulas. Afinal lá também se temem homens-bombas e exércitos estrangeiros.

Dona M., se assim posso lhe chamar, ficam explicados pelo realismo de Samira a sua atividade criativa de Vida naquela aldeia miserável do Irã. Lá onde, até hoje, refugiados afegãos esperam uma espécie de ''solução final". Porém lá não há campos de extermínio eficazes como os nazi-fascistas. Lá só permanecem campos de exílio ou de refúgio.

A persistente e resiliente professora é um baluarte da compreensão que todos deveríamos ter. Ela instiga seus educandos, com os pés descalços, a responder o que aconteceu lá longe. Ela lhes conta das torres gêmeas. As crianças afegãs não conhecem torres imperiais. Ela lhes mostra então as chaminés, fumegantes, feitas de tijolo.

Se nos transportamos para este cenário, se nos sentarmos naquele chão batido e sofrido, talvez respondêssemos como as crianças, de 5 para 6 anos. Diríamos que foi Deus que destruiu as torres. Porém uma das crianças retruca que não foi, pois 'Deus não destrói as coisas, mas apenas os homens', nós a parte carnal de sua criação. Teríamos, então, uma boa discussão politica e teológica, e, quem sabe, encontraríamos as respostas sobre o que os terroristas em aviões pensaram minutos antes de obrigarem dois aviões causarem aquela demolição do símbolo máximo dos EUA.

Creio como Becker que estes estavam imbuídos, no seus fanatismos, do contrário que as crianças refletem nesse lindo episódio fílmico. Eles, sob a alegação do extremismo ideológico, passam a se crerem também ''superiores'' àqueles que devem exterminar. Repetem como os criadores de câmaras de gás ou de cremação a mesma transformação em Vidas Nuas a existência de um Outro e suas diferenças a destruir.

Houve um outro 11 de setembro a para não apagar da História, lá no Chile também se praticou esse tipo de terrorismo e ideologia da superioridade. Lá o extermínio foi iniciado em campos de futebol.

Digo-lhe, então, que os Pinochets tornam-se muito próximos de nós, independente de sua nacionalidade, seja o recente terrorista Breivik (ing) ou de nosso exterminador da Escola de Realengo. Todos acreditam não ter medo da Senhora Dona Morte. 
Ao contrário, eram, são e serão seus adoradores, psicopaticamente, tendo-a como uma redenção de suas próprias vidas amargas. Para eles outras vidas dos outros não são Vidas.

Os extremistas, em seus narcisismos das pequenas diferenças negam as vias políticas para resolução dos messianismos ou dos fundamentalismos. Aproximam-se de mártires religiosos e crêem, piamente, em suas 'outras vidas'.

O que Samira Makhamalbaf faz com sua micropolítica representada por seus ''alunos'' afegãos é romper, silenciosamente, com esta visão. Ela aponta o medo que temos da Dona Morte e por isso precisamos, artesanalmente, de amassar o barro, endurecê-lo e com ele construirmos, juntos, um minuto, apenas um minuto de reverência a Morte do Outro, dos Outros, mesmo que nomeados "nossos inimigos". Não importa quantos quilômetros nos separem no mundo globalizado. Somos todos "vizinhos-próximos" da Senhora Dona Morte.

Por isso, Dona Morte, mesmo que, assombradamente me perturbe, nos últimos dias, levando-me parte de meu coração, ainda quero me afastar das soluções geradas pelo ''terror'' de sua vinda e presença. Prefiro reler e revisar minhas leituras dos anos 70, como o livro de Becker, ou procurar uma resposta em afirmações de vida, sem as prerrogativas de encontrar meus entes queridos em "outra vida''. A vida feita em tijolos é ainda a realidade que gostaria de mudar.

Não creio, como solução, nas demolições de torres ou em campos de concentração, de extermínio ou Guantánamos da vida. Quanto mais deixarmos de temê-la e propagá-la como temor, Dona Morte, mais vidas lhe obrigaremos a não ceifar.

Aos que me deixam, quando a Senhora ganha terreno e nos obriga a reconhecer sua irreversibilidade, dedico hoje minha reverência pessoal. Dedico ainda a minha reverência, como Samira, aos que sobre-vivem indefesos para além de vidros blindados. Dedico minha total e silenciosa consternação aos que ainda estão morrendo por tentarem salvar das cinzas os que tombaram nas torres. E deixo para todos e todas o convite à reflexão, não distanciada, dos outros episódios dos diretores do filme "11'09''01".

Dona Morte há nesse filme, também, o que nos pode salvar. 

É o humor do diretor Idrissa Quedraogo, que nos traz também crianças como protagonistas principais. Eles são os meninos que creem, à época, terem visto Osama Bin Laden, e partem para a sua captura, pois, afinal, sua cabeça custava mais de $25 milhões de dólares. E, nós, os que vivem abaixo do Equador, principalmente em Burkina Fasso, sonhamos em sair da miséria, comer bem, vestir um sapato e até andar de ''cadilacs''...

Portanto caríssima senhora, envio mais esta missiva, em tempos de criação de anti-heróis na vida prática, com a permanência de busca de heróis que possam morrer de overdose, para que a distinta possa nos assolar menos, dando-nos um tempinho para tomar fôlego para aprendermos a reconstruir nossas metas e criarmos nossas novas cartografias e ecosofias aliadas. Em tempos de GPS e localização imediata de onde estamos geograficamente, ainda não respondemos a algumas perguntas:

"Na misteriosa rota em que a vida nos é concedida na evolução deste planeta, isso nos empurra na direção de nossa própria expansão. Não o compreendemos simplesmente por não conhecermos a finalidade da criação; somente sentimos a vida latejando em nós e vencemos os outros enquanto se entredevoram. A vida tenta propagar-se em uma direção desconhecida por motivos desconhecidos..." (Ernest Becker)

Texto em homenagem póstuma a um ''índio'' da floresta amazônica que amava a floresta da Tijuca e o Rio de Janeiro... e lá se despediu em busca de seu abraço, apenas por amor...

copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011-2012 - 2021 ad infinitum  (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa, todos os direitos reservados TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

FILME - ''11'09'01'' - França - 2002 -
 https://cinema.terra.com.br/ficha-filme/0,,OI678-EI1176,00+11+de+Setembro.html

VIDEO NO YOUTUBE Assistam o trailer, procurem o filme - 11'09"01 - September 11 https://www.youtube.com/watch?v=3haDg8wk3BE

Referências no texto: A NEGAÇÃO DA MORTE - Ernest Becker - Editora Csírculo do Livro, São Paulo, SP, 1977.

Leia também no BLOG
UM PEDAÇO DE GIZ NA LOUSA DIGITAL -
https://cinema.terra.com.br/ficha-filme/0,,OI678-EI1176,00+11+de+Setembro.html

A MORTE DO FANÁTICO NÃO MATOU O FANATISMO - https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/04/morte-do-fanatico-nao-matou-o-fanatismo.html

A TOLERÂNCIA É MAIS QUE UM FEIJÃO COM ARROZ NO MEU BACALHAU? https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/07/tolerancia-e-mais-que-um-bacalhau-no.html

AOS PAIS QUE APRENDERAM COM (AR)DOR AS PERDAS - https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/08/aos-pais-que-aprenderam-com-ar-dor-as.html

terça-feira, 19 de abril de 2011

A MORTE DO FANÁTICO NÃO MATOU O FANATISMO

imagem publicada - a foto recente de Charles Manson, um homem branco de 76 anos, com barba branca, de olhar sem expressão e brilho, com uma suástica nazista tatuada no meio da testa; o homem (Man) que é filho (son) das mesmas "des-humanidades" de todos os outros que cometeram, cometem e cometerão assassinatos. Crimes hediondos e extraordinários que geram perplexidade, repúdio e indignação, que quase sempre foram, são e serão fundamentados em fanatismos ou radicalismos que nascem dentro do ventre das Religiões e da Política. E que insistimos em imputá-los à doença mental, à loucura, esse depositário de nossas indagações racionais sem respostas imediatas.
( in memoriam dos que não devem morrer em vão em Realengo)

"Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais, no entanto o que é um alimento, para ela é uma impureza?" (Castoriadis, 1987)

Vivemos há séculos com a ideia de purificação dos Outros. Mantemo-nos banalizando e naturalizando as diferentes guerras santas, as cruzadas e os extermínios dos ''impuros''. E ainda nos chamamos de civilizados. Os bárbaros são sempre os outros. 

Quanto mais somos levados para a homogeneização cultural e sua unificação, mais ainda nos tornamos intolerantes e mais ainda desejamos a morte do Outro e de sua cultura, principalmente se não podemos converter a todos à nossa crença ou ideologia.

Há outros homens, sob a hipnose dos fanatismos, que matam e morrem por não conseguirem, na sua solidão enlouquecida ou imersos nas massas, se tornarem criadores da história. Tornam-se vítimas e vitimizadores. Tornam-se assassinos paranoicos de sua humanidade.

Há um corpo não reclamado e indesejável no Instituto Médico Legal. Ele, apesar de reconhecido e, agora com seu nome inscrito na História, permanece entre os proscritos. O nome Wellington de Oliveira permanecerá em muitas mentes, em muitos corações, como uma lembrança amarga ou um amargo pesadelo. Mas para que ele seja parcialmente esquecido e sua ação criminosa melhor compreendida devemos ''enterrá-lo" com todas as suas ideias e todos os alicerces de seu ato, a meu ver, profundamente revelador. 

Um ato resultante, eminentemente, do caldeirão de ódios e xenofobias que os tempos pós-modernos reproduzem: o cruzamento e a interpenetração de fanatismos religiosos com os fanatismos políticos. Um ato para vir a ser um analisador.

Há quem esteja refletindo ou continuando a repensar o que foi a vida e a obra "maligna" desse criminoso. Hoje li uma reportagem sobre um velho criminoso, que escapou da cadeira elétrica, e agora se reconhece apenas com uma pessoa MÁ e SUJA: Charles Manson. Ele cometeu um dos mais comentados assassinatos nos anos 60/70. Ele e seus seguidores, sua "Família", assassinaram Sharon Tate e mais 6 pessoas. 

Ela, uma linda e famosa atriz, na época a esposa grávida do controvertido cineasta Roman Polanski. Ainda me lembro de sua performance em um dos seus fílmes: a Dança dos Vampiros (1967). A entrevista de Mason nos revela como podem existir e continuar existindo pessoas que respondem às diferentes formas de exclusão, violências, misérias ou dramas com o exercício de atos cruéis baseando-se apenas nos seus fanatismos.

Uma das reflexões que me fez pensar o título deste texto veio deste depoimento à revista Vanity Fair. Charles Manson, que liderava o grupo de assassinos, pregava uma espécie de cruzada para a eliminação dos ''impuros''. Ele propunha uma guerra racial entre brancos, sua gang a moda da Klu Klux Klan, e os negros, com o nome de Helter Skelter. E na mistura de ideias racistas e genocidas propunha, fanaticamente, a morte como redenção religiosa. 

E isso ele ainda defende dizendo: "Todos somos mártires. O amor é um mártir. Por isso é que Cristo chama a atenção. Por isso foi crucificado”, sentencia Manson, que acrescenta que “mais cedo ou mais tarde a vontade de Deus se vai impor sobre todos vós, e a mim condenaram-me por ser a vontade de Deus”.

Foi necessário uma aproximação de fanatismos, típicos dos anos 60, para que o ato de assassinar 07 pessoas, com requintes de crueldade, sendo uma delas uma mulher grávida, no caso Sharon Tate, pudesse ocorrer. E, na minha opinião, aí se encontram as raízes históricas que vem atravessando e transversalizando as diferentes manifestações de violências contra quem é denominado indefeso e objeto de projeção das ''IMPUREZAS". Sejam elas determinadas pelos eugenismos, racismos ou fanatismos religiosos. 

Todas essas ideologias são alimentadas pela mesma fonte: o ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros, e esse Outros podem ser desde meu vizinho a um transeunte desconhecido, alguém com outra visão do mundo, de outra religião, outro partido, outra classe social, outras sexualidades, outras línguas, outras etnias ou outras deficiências.

Para que os deixemos de amar basta que estejam, por exemplo, na mesma Escola, no mesmo Bairro, na mesma Cidade, no mesmo Mundo. Pode ser em Realengo ou em Columbine. O meu ódio dos outros, quaisquer que sejam, e ainda mais se parecerem comigo ou com vocês, passam a ser os objetos dos quais nos livramos, do que nos assombra e nos divide. O cadáver e o 'fantasma' de Wellington ainda está repleto dessas percepções em muitas mentes no mundo. A presença de seus adeptos ainda será, tristemente, revista.

Por isso precisamos ir, respeitosamente, ao enterro dos fanáticos, dos racistas, dos fascistas e dos intolerantes. Não será sua morte física que poderá destruir seus vampiros ideológicos. Estes nem mesmo aparecem nos espelhos como na Dança dos Vampiros. E, por mais que a Sociedade do Controle instale câmeras ou grades ou guardas, também não serão detectados a priori.

Ilude pensar que as cercas elétricas ou as vigilâncias os deterá. Eles foram gestados nos campos de extermínio, da Alemanha Nazi-fascista aos campos da morte do Khmer vermelho como o sangue cambojano. Ainda podem ser gestados em Guantánamo, Abu Gharib ou nos presídios de máxima segurança.

Por isso precisamos, indo além das explicações sobre a psicopatologia dos crimes e dos criminosos, buscar a parte que nos cabe deste latifúndio gerador de ódios. Não pendemos inteiramente para os anjos, por mais que a Mídia e sua Era nos tente convencer. Precisamos buscar, individual e coletivamente, outros modos nos educar e re-conhecer. O cadáver insepulto e dissecado do ''chamado monstro de Realengo" não deixou de ser humano, demasiadamente humano. 

Por mais que nos arvoramos a compreendê-lo e, em nossas vãs especializações científicas, determinar a origem psíquica de seus atos horripilantes. Mas ele, como nós todos, é e será mais insondável, obscuro e desconhecido. Mesmo que, como Mason, estivesse apenas encarcerado perpetuamente... Até seus videos, previamente póstumos, são uma produção destes mundos que o cercavam, cercearam e o desprezaram, segundo a sua convicção fanatizada.

A possível única in-certeza é que nos Mason-Wellington, ainda em serialização no mundo hipercapitalista atual, há uma raiz psicossociológica a ser pesquisada, e ser combatida, de forma micropolítica e rizomática. Revelando-se os modos de produção de subjetividade que os clona, talvez, possamos não nos arrepiar de medo de ''seres humanos maus''. 

Iremos buscar as raízes, as fontes, as gêneses e os primeiros passos de de-formação do sujeito, mas não para resolver por meios ortopédicos ou judiciais a sua mudança e civilização. Iremos, transcultural e historicamente, re-existir. Inventamos os Direitos Humanos e podemos inventar novos modos de viver.

Não bastará a criação de punições aos alunos que desafiam, agridem ou são indisciplinados com seus professores, conforme recente projeto de lei em curso na Câmara Federal. A reabilitação da palmatória jurídica não irá produzir, com sua violência, a "prevenção" de futuros serial killers. Talvez, como no caso do Bullying, possa até ser a melhor justificativa dos assassinos. 

Nesse, momento pós-traumático para a Escola Tasso será ideal que possamos nos conscientizar da presença simbólica da dor, da perda, do luto por lá. Mas também do que indelevelmente permanecerá: o ex-aluno que se justificou nas agressões, nos preconceitos e nas discriminações para se tornar o 'exterminador do futuro'.

O assassino Manson e o Oliveira, um vivo e outro morto, se fundamentaram na ideia de pureza de seus corpos e suas mentes, considerando-se primariamente homens "limpos" e "bons", por isso puderam concretizar a projeção do mal, da sujeira e da impureza nas suas vítimas. E, nós devemos reconhecer aí uma outra gênese dos micro fascismos cristalizados e encrustados nos âmagos humanos. Somente com a construção dessa visão religiosa e politicamente perfeccionista é que fundamos nossos primeiros passos do fanatismo rumo à barbárie. Está aí a germinação do suicídio dos ''semelhantes'' do Wellington.

Midiaticamente, falou-se hoje no Twitter, em seu formato sintetizador: " Agora a Escola Tasso da Silveira não tem de que reclamar: colocaram 4 guardas municipais pra vigiar a entrada"... 

Então, há um reflexão para ser feita, qual será a nossa SAÍDA? O cadáver inominável e abominável disse: ..." descobriram quem sou, da maneira mais radical, numa ação que farei pelos meus semelhantes que são humilhados, agredidos, desrespeitados em vários locais, principalmente em escolas e colégios, por serem diferentes, por não fazerem parte dos infiéis, dos falsos, dos corruptos, dos maus, são humilhados por serem bons.".

Durante a entrevista, para a '' Feira das Vaidades", Charles Mason chegou a usar uma expressão muito típica em Espanhol, aplicando-a à sua pessoa: “La mala hierba nunca muere” [qualquer coisa como ‘a erva daninha nunca morre’]. 

Vamos lenta e vagarosamente, mas com crítica e análise filosófica, em princípio, caminhando com os cadáveres insepultos desses que demoram para se autodenominarem mártires, mas que arrastam consigo muitos outros féretros, mortes e lutos prolongados. Vamos, juntos ou solitariamente, pela estrada aberta, levar uma "rosa azul" para Hiroxima e outra para Realengo. E deixar uma outra naquela sepultura, sem sensacionalismo.

copyright jorgemarciopereiradeandrade(2011-2024 ad infinitum  todos os direitos reservados ) - favor citar o autor e as fontes em republicação livre pela Internet ou meios de comunicação de massa.    TODOS DIREITOS RESERVADOS - 2024 - 2025

REFERÊNCIAS NO TEXTO:
Líder de um grupo de assassinos que chocou a América - Charles Manson assume ser um “homem mau” em entrevista à “Vanity Fair”


Consulta e pesquisa nos VIDEOS deixados por Wellington de Oliveira - You Tube


INDICAÇÕES PARA LEITURA-
Psicossociologia - Análise Social e Intervenção - André Lévy, André Nicolaï, Eugene Enriquez, Jean Dubost - organizado e traduzido por Marilia Novais de Mata Machado et al. - Belo Horizonte, MG, Editora Autêntica, 2001.
Massa e Poder - Elias Canetti- Brasília, Editora UNB/Melhoramentos, 1983.

LEIA TAMBÉM NO BLOG -
TIROS REAIS EM REALENGO - A Violência é péssima Pedagoga? 

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A TOLERÂNCIA É MAIS QUE UM BACALHAU NO MEU FEIJÃO COM ARROZ? EM BUSCA DA EMPATIA, PARA ALÉM DA ANTIPATIA https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/07/tolerancia-es-mais-que-um-bacalhau-no.html

sexta-feira, 4 de junho de 2010

AS SELEÇÕES: OS ESTÁDIOS, OS PARADIGMAS E UM NOVO GAME


Imagem publicada - O cartaz do filme Rollerball, os Gladiadores do Futuro (1975) que traz o ator James Caan, personagem principal do filme vestido com um capacete e com sua mão em riste, com uma luva cheia de pontas, como parte da "armadura" que os jogadores devem vestir, nessa distopia filmica que fala de um futuro (2005) onde não havendo mais guerras, os países seriam substituídos por corporações, e este game novo seria disputado em arenas lotadas, como um jogo violento que serviria para aliviar as tensões e controlar a população, demonstrando-se a futilidade do individualismo.

Em tempos de futebol global, de novas "cóleras étnicas" e novas administrações de combates estatais das epidemias planetárias, com o porquinho gripal nos ameaçando a vida, com um passado recente de uma outra gripe que batia asas e colocava os ovos de serpente dos fascismos, faz-se necessário retomar a questão da BIOPOLÍTICA.

A produção da homogeneidade não exige mudanças de paradigmas mas sim a sua conservação e institucionalização, quase sempre de forma sedutora e muito bem desejada pelas massas. Já lotamos estádios de futebol com milhares de corpos humanos, tanto para as Copas como para o emparedamento de chilenos na era Pinochet. O campo de disputa lúdica, hoje uma grande máquina-indústria esportiva, pode ser o mesmo para a eliminação da discordância ou dissidência política.

Bastou trocarmos as chuteiras por botas militares... a única diferença é o rumor de torcida que não se ouviu no controle autoritário e ditatorial de prisioneiros políticos, mas a bandeira da pátria tremulava, e alguma forma de biopolítica serviu para justificar a sua '' eliminação ", tudo em nome do nacionalismo.

Para ajudar na compreensão do que escrevi anteriormente na linha de cruzamento entre a Biopolítica e a Bioética, e devido à proximidade da IV Conferência Nacional de Saúde Mental, estou trazendo algumas linhas já escritas sobre a questão do Paradigma Biomédico questionando seus fundamentos, história, sua ligação com a Biopolítica e os questionamentos que devemos produzir.

É uma tentativa de lembrar que os nossos paradigmas, ou seja normas ou padrões, ao se tornarem instituídos, naturalizados e ‘cientificamente’ comprovados, muitos deles podem perder suas forças instituintes, seu potencial de sonho e transformação, tornando-se fechados e rígidos. Passam de possibilidades de avanço para uma confirmação de retrocesso.

O paradigma biomédico é historicamente ligado ao surgimento de uma concepção de ‘normatização da vida’, uma proposta que foi denominada de ‘biopolítica’ pelo pensador Michel Foucault. Este paradigma era fundamentado na visão fisicalista e orgânica da vida, como uma nascente de um modelo, nos fins do século XVIII, de administração e controle dos corpos e uma nova ‘gestão calculada’ da vida (Foucault, 1978).


Pela primeira vez nesse período da história, o biológico ingressa no registro da política: a vida entra, através de um esquadrihamento estatístico, demográfico, uma concepção de doença e controle das epidemias, no espaço do controle do saber e da intervenção do poder estatal.

Os sujeitos, cidadãos e cidadãs, na qualidade de sujeitos de direitos, se necessário com a perda destes, passam a ocupar um segundo plano em relação à preocupação política de maximizar o vigor e ‘não-doença’ (aqui um conceito próprio para não me referir à saúde, como nos termos atuais propostos pela OMS). 

Para  Michel Foucault deveríamos, então, falar de uma ‘biopolítica’ para designar o que faz com que a vida e seus mecanismos possam entrar no domínio de cálculos explícitos, e o que transforma o saber-poder em um agente de transformação da vida humana.


Na biopolítica, os corpos e a população devem ser submetidos a um novo e sutil modo de controle. Passamos da Sociedade Disciplinar para a Sociedade do Controle. Viva o Big Brother dos corpos "saudáveis e válidos" que foram "selecionados". Para isso precisamos da naturalização de uma visão hegemônica e dominante da condição de ser, do homem e do conhecimento, que a História demonstra o quanto de exclusão, discriminação, segregação, racismos e eugenia puderam ser confirmados em fundamentos "científicos e biomédicos". Assim o Estado pode transformar muitas vidas humanas em "vidas nuas" (Giorgio Agamben).

Dentro dessa visão do Poder do Estado de Exceção é que podemos afirmar que um paradigma também é uma representação mental, socialmente aceita e legitimada, que se torna um marco conceitual para tudo o que pensamos, sentimos, fazemos ou dizemos. Passa ser o modo a partir do qual veremos a realidade, e, portanto, o substrato de nossas ações. Eis a Questão Humana?

Eis o momento ideal para o surgimento de nossas ‘cegueiras brancas’, como nos ensina e adverte Saramago. Bastará lembrarmos o que se constituiu o modelo biopolítico do Nacional Socialismo, da medicina nazista e fascista, que experimentou suas primeiras formas de controle, com extermínio e experimentações científicas, de milhares de pessoas com deficiência. Foram estas pessoas as primeiras, assim como ciganos e homossexuais, que sofreram os campos de extermínio e concentração, depois vieram os judeus, dissidentes políticos e demais ‘parasitas sociais’. A alegação principal é, eugenicamente, da ‘purificação da raça e da sociedade’.

Em seu nome temos uma transformação do corpo de todos os seres humanos, como nos transmitiu Bettelheim, transformados em “mercadoria’: “Tanto os campos de concentração quanto os de extermínio, e o que ocorria neles, era uma aplicação irracional do conceito de trabalho como uma mercadoria. Nos campos, não só o trabalho humano como a pessoa como um todo transformavam-se em mercadoria. As pessoas eram’ manuseadas’ como se fossem feitas de encomenda. Eram usadas e substituídas ao bel-prazer do freguês, no caso, o Estado. Quando não prestavam mais, eram jogadas fora, mas com cuidado, para que não se desperdiçasse nenhum material aproveitável...”.

No final do século XVIII, em passagem para o século XIX, houve uma ruptura de paradigma no interior do saber e da prática médica; a medicina segundo a conceituação de Foucault deixa de ser classificatória para tornar-se anátomo-clínica. Bichat, um anatomista, ao estudar as superfícies tissulares do corpo humano, inaugurou uma nova concepção, denominada por Foucault de ‘medicina moderna’. Nessa perspectiva, passa-se a pensar a doença como localizada no corpo humano, e a anatomia patológica, até então sem nenhuma função para uma medicina eminentemente erudita, insere-se na prática médica.

Uma das mais importantes vertentes do paradigma biomédico, no século XVIII para o XIX, que irá atravessar ‘corpos deficientes ou inválidos’, é a do higienismo, confirmada por Canguilhem em seus Escritos sobre a Medicina: “A vigilância e a melhoria das condições de vida foram o objeto de medidas e de regulamentos decididos pelo poder político solicitado e esclarecido pelos higienistas. Medicina e política, então, se encontraram em uma nova abordagem das doenças, da qual temos uma ilustração convincente na organização e nas práticas de hospitalização.”

Para este autor, analisando particularmente seu país, a França, no decorrer da Revolução, houve um empenho em substituir os hospícios, asilos de acolhimento de doentes quase sempre abandonados (os loucos de toda sorte, alienados, miseráveis, débeis mentais, bastardos, prostituídos, etc...) pelo local higienizado do hospital, assim como ‘uma máquina de curar’, onde estes sujeitos passam a ser catalogados, vigiados, cuidados e analisados. No século seguinte proliferaram os Tratados de higiene industrial, chegou o tempo de um paradigma biomédico preocupado com a saúde das populações operárias.

Hoje com o crescimento demográfico e as epidemiologias nossos olhares biopolíticos, sem o atravessamento crítico da bioética, pode ser desviado na direção de novas formas de controle e de escaneamento das maneiras "sadias" ou "ideais" de vida coletiva e produtiva. A minha/nossa medicina dos dias de hoje tem um compromisso bioético de rever as suas práticas ao estar mais a serviço do Estado do que chamamos de sujeitos, cidadãos e cidadãs.

A questão da Loucura e dos loucos, nesse momento da busca de uma afirmação de novas formas de cuidado e novas tecnologias para a transformação da promoção de saúde, nos deve inspirar um ativo cuidado ético e bioético com os paradigmas.

Ainda temos muitos desses ‘velhos’ paradigmas atravessando e transversalizando nossos novos modelos de prática na Saúde, na Educação e na formulação de políticas públicas. Somos nós, ainda, herdeiros de um modelo biomédico que negligencia as importantes contribuições do meio ambiente, das relações sociais e da existência de uma subjetividade singular, ao procuramos afirmar todas as nossas incapacidades, nossas deficiências, nossos corpos 'defeituosos', nossas mentes conturbadas e transtornadas, apenas dentro de uma visão quase exclusiva de explicações genéticas ou fisicalistas?


A que interesses estamos submetidos no mundo hipercapitalista das biotecnologias que, por exemplo, no campo dos sofrimentos psiquiátricos cada dia mais se produzem novos "diagnósticos", novas "terapêuticas", novas "medicações" e consequentemente novas formas de produção de subjetividade e de controle biopolítico desses corpos?

Então os anormais serão normatizados, todos os 'inválidos' serão reabilitados, e os matáveis poderão ser eliminados em um novo jogo de "roller ball"... VAMOS VESTIR NOSSAS CAMISAS/UNIFORMES PARA A PRÓXIMA SELEÇÃO? Dizem que o novo "game" se chama: "FAIXA DE GAZA" ou será de nossa própria seleção verdeamarela.

EM TEMPO - este texto foi escrito após uma estimulante ajuda que prestei à minha filha de 09 anos em um exercício da sua escola sobre todos os Estádios de futebol da atual COPA MUNDIAL DE FUTEBOL na África do Sul, alguns desses estádios já foram palco do APARTHEID e de outras formas de utilização biopolítica pelos colonialistas em tempos pré-MANDELA.

 Aliás o Estadio Nelson Mandela não é que tem a maior capacidade de público ou de superpopulação. Podemos também não esquecer que em 1978, a setecentos metros do estádio, encontramos a Escola da Armada, hoje um arquivo da Memória da Ditadura Argentina, onde os gols foram ouvidos pelos muitos torturados, depois assassinados, assim como pelos seus algozes e torturadores. E, há registros históricos, de que, nessa época, contavam com o apoio irrestrito de nossos dirigentes ligados à Fifa... enquanto a bola rolava também se aplicavam choques elétricos nos prisioneiros dessa "Escola"...

copyright jorgemarciopereiradeandrade 2010/2020 (favor citar a autoria e as fontes indicadas na republicação e multiplicação livre pela Internet)

INDICAÇÕES de leitura:

Nascimento da Biopolítica - Michel Foucault - Ed.Martins Fontes - São Paulo-2008
O Poder Psiquiátrico - Michel Foucault - Ed. Martins Fontes - São Paulo - 2006
Homo Sacer - o poder soberano e a vida nua - Giorgio Agamben - Ed. UFMG - Belo Horizonte - 2007

Referências no texto:
Bettelheim, Bruno, O Coração Informado – autonomia na era da massificação, Rio de Janeiro, RJ, Editora Paz e Terra, 1985.

Canguillem, Georges, Escritos sobre Medicina, Rio de Janeiro, RJ, Ed. Forense Universitária, 2005.

Ortega, Francisco, Biopolíticas da Saúde: reflexões a partir de Michel Foucault, Agnes Heller e Hannah Arendt, Revista Interfaces, Comunicação, Educação e Saúde, V. 8, Nº 14, pág. 9-20, set 2003-fev2004

Indicação de Filmes -
Rollerball - os Gladiadores do Futuro - Lançamento: 1975 - Direção: Norman Jewinson - Genero: ficção científica (?)
http://www.adorocinema.com/filmes/rollerball/

A Questão Humana - Lançamento: 2007 - Direção: Nicolas Klotz - Gênero: drama
http://omelete.com.br/cinema/a-questao-humana/

matéria publicada no informativo (também) - iNFO ATIVO 4421 junho 2010

LEIA TAMBÉM NO BLOG - 

A PARÁBOLA DA ROSA AZUL - https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/05/parabola-da-rosa-azul.html

RACISMOS, BARBÁRIES, FUTEBOL... ONDE SE ENTRECRUZAM AS VIOLÊNCIAS SOCIAIS? 
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DEMOLINDO PRECONCEITOS, RE-CONHECENDO A INTOLERÂNCIA E A DESINFORMAÇÃO
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