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quarta-feira, 8 de abril de 2015

SAÚDE, BIOÉTICA E POLÍTICA – Vendem-se corpos e compram-se consciências?

Imagem publicada – uma foto colorida que fiz de uma matéria televisiva sobre o uso de robôs e novas tecnologias a serviço das guerras, de indústrias de ponta nos Eua, onde um manequim é cirurgicamente operado por um robô, que é teleguiado e projetado para servir remotamente a cirurgiões, que irão abreviar atendimento emergencial de soldados feridos em combate. A legenda diz: um robô que pode realizar cirurgias no campo de batalha. Matéria do Discovery Channel onde a robótica é utilizada para criação de drones, robôs espiões e desarmadores de bombas à distância.

“... Ao final do século XX, o fenômeno que mais se destaca é que a compra e venda não dizem respeito ao corpo como um todo, mas envolvem as partes individuais do homem. Assistimos, em outras palavras, à fragmentação comercial do ser humano. Os limites entre os usos e abusos do corpo tornaram-se gradualmente mais sutis e imprecisos...” (Giovanni Berlinguer & Volnei Garrafa, in Mercado Humano, 1996)

In memoriam de Giovanni Berlinguer (1924- 06/04/2015)

Sempre me perguntam se faria uma nova cirurgia. Sempre me indagam se não há um ‘’novo’’ tratamento, para minhas perdas, inclusive da mobilidade física. Sempre se surpreendem quando digo que estou à espera dos robôs da Nasa ou de alguma invenção das biotecnologias que irão trocar toda a minha coluna vertebral e não apenas colocar novos parafusos de titânio. Ainda prefiro a re-existência titânica do viver.

Assisti, recentemente, um desses programas de TV, da Discovery, onde um robô estava a ser testado, como na foto que tirei, para ‘realizar (em tempo recorde e veloz) uma cirurgia em campos de batalha’. Me vi ali deitado e sendo, então, novamente operado. E o bisturi, tele manipulado como nossas atuais consciências, me abria novamente pelas costas.

Hoje uma amiga me telefona, após muitos anos de distanciamento geográfico, e me sugere que façamos, visto essa minha tendência robótica de introduzir titânio no meu corpo, uma campanha para que vá para uma frente de batalha no Afeganistão. Lógico que só com passagem de ida, pois a volta, após a identificação de meu “sanguíneo conteúdo” político, pode ser direta para Guantánamo.

Tenho um belo livro para releitura e reflexão: O Mercado Humano – Estudo bioético da compra e venda de partes do corpo. É o mesmo citado lá em cima. Nele há interrogações sobre nossos tempos de transplantes de órgãos, fecundação artificial, engenharia genética, e, interessantemente, a questão da ‘escravidão ao mercado tecnológico’.

De lá, o livro é de 1996, para os nossos dias de Século XXI posso ter de responder com um sim às suas indagações: “Pode tudo ser realmente comprado ou mesmo roubado? Os órgãos para transplantes, o sangue para as transfusões, os recém-nascidos para as adoções, as meninas para as prostituições?”. Se alguém tem dúvidas busquem, em separado, as perguntas, e as respostas, no grande dicionário digital, o Google.

A realidade cruenta, por exemplo, da questão de tráfico de órgãos veio novamente à tona por causa de médicos lá no Sul de Minas. Não muito longe de minha terra natal e suas águas medicinais. Lá na pacata estância hidromineral de Poços de Caldas. Lá ocorreu o chamado Caso “Paulinho Pavesi”, um menino de 10 anos que teve seus órgãos retirados, segundo matéria de jornal, “enquanto ainda estava vivo”.

Esses e outros ‘’casos’’ estão relatados em jornais de imprensa local e de outros veículos, dos quais listei apenas alguns. O que ligou às notícias foi o título do livro de Berlinguer e Garrafa. Além disso, o surgimento fugaz em redes sociais de matérias midiatizadas recentemente. Não estou e estarei aqui para o julgamento da ‘’Máfia dos órgãos’’, mas para tentar compreender de onde nascem as raízes desse mercado.

Estamos assistindo, tele e midiaticamente, um recrudescimento de atitudes preconceituosas em Faculdades de Medicina. Recentemente vimos ‘veteranos’ com as fardas e capuzes da Klu Khux Khan, estavam em suas ‘fantasias’ e trotes reproduzindo o martírio de negros nos corpos dos ditos ‘bichos ou calouros’, lá na Unesp. Entretanto já tínhamos precedentes. 

Antes tivemos os estupros e as violências dentro das ‘festas’ de iniciação da vetusta Faculdade de Medicina da Usp. Cito apenas estas duas ocasiões violentadoras, em espaços de formação acadêmica, uma que foi naturalizada e outra que passou até por uma CPI, e como “notícias”, em tempos voláteis, só voltarão quando novos casos surgirem.

No texto que escrevi sobre o Holocausto brasileiro promovido, historicamente, lá em Barbacena, MG, já fiz as devidas ligações entre o comércio de corpos do hospício para as mesas de dissecção anatômica das faculdades de medicina. Eu, lamentavelmente, vi e tive esses cadáveres anônimos como ‘’lições’’ de anatomia humana, cheios de formol e de pele totalmente endurecida. Eram os Anos 70.

Creio que a dissolução, possíveis escrúpulos ou humanidades, no mais profundo de nossos inconscientes sobre o homem como sujeito, na formação dos profissionais de saúde, em especial os médicos, ocorrem nessa ‘iniciação’ onde temos uma ‘’oração do cadáver anônimo’’, mas podemos, no futuro, transplantá-lo a categoria de homem-objeto.

Os primeiros ‘poços’ profundos, ou gênesis, de nossa posterior desumanização dos corpos pode fincar as raízes nesse solo acadêmico. Afinal o que nos separaria dos médicos nazistas que, como nos diz Agambem, faziam experimentações com as cobaias humanas, as ‘versuchem person’, onde os judeus ou pessoas com deficiência eram submetidos às mais baixas temperaturas, ou extração ‘a frio’ de órgãos para fins dos ‘avanços da medicina germânica, e a proteção do exército do Reich’? Mas seriam necessárias biopolíticas, leis, e, principalmente escolas da  de-formação da Juventude Hitlerista ou das Faculdades de Medicina, ou não?.

Não estou trazendo de volta o fantasma de Mengele, mas que há um ‘cheiro’ mortal e incômodo de nazifascismo no ar não há como negar. As banalizações e naturalizações de violências estão autorizando, mesmo que não explicitamente, a ‘neomercantilização’, ‘neoescravidão’ e ‘neoexploração’ de nossos corpos insurgentes (como filme dos adolescentes). O Grande Irmão global nos incentiva à neo-guerra. Forjamos novas escolas hipermidiáticas do ódio e de novas Ondas? Ou apenas, neurótica e perversamente, repetimos os nossos passados?

As nossas raízes culturais também se alimentam de trans históricas posições eugênicas dos médicos e educadores do século XX. Lá em São Paulo nos anos 20 podíamos ainda ter a contribuição de eminentes escritores, intelectuais e ‘elites’ sociais que legitimavam a distinção de ‘corpos válidos’ e ‘corpos descartáveis’.

A Vida Nua pode ser captada como um discurso de Eugenia e Poder, segundo estudo de Vera Regina Beltrão Marques, no discurso de Monteiro Lobato, o mesmo das Reinações de Narizinho, que dizia: “-Muito cedo chegou o americano à conclusão de que os males do mundo vinham de três pesos mortos que sobrecarregavam a sociedade- o vadio, o doente e o pobre... A eugenia deu cabo do primeiro, a higiene do segundo e a eficiência do último...”.

E o escritor tinha relações muito próximas com os higienistas e eugenistas brasileiros. Para eles, que se consideravam uma ‘elite’, a eliminação ‘radical’, assim como propõem os fascismos, é a melhor solução para “a América (incluam o nosso país) aproximar-se de um tipo de associação já existente na natureza, a colmeia – mas uma colmeia da abelha que pensa”.

Eis aí um discurso que estamos sendo obrigados a escutar, ver e ler nos nossos tempos de Idade Mídia. Arautos do ‘bom combate’ das nossas corrupções, projetadas apenas no socius, dizem que devemos dar o poder político de gerir o país e a Vida aos que são ‘puros, imaculados e nascidos em berços esplêndidos das classes mais afortunadas’.

Aos outros, aqueles que contaminam nossos shoppings ou nossas periferias, cabe a continuidade do extermínio por ‘golpes brandos’. Mantem-se a alienação, o racismo, as discriminações e o trabalho escravo como naturais. Esses outros são as nossas misérias ou serão.

A exclusão social retoma seus ares de horror econômico e a cultura do medo retoma sua posição a favor de novas e sutis repressões, inclusive políticas. Os corpos são novamente Vidas Nuas, homo sacer.

E, aqueles dos quais se esperava o cuidado com a Saúde, em especial a pública e universal, chamada ainda de SUS, podem nos submeter às desqualificações e desumanizações que justifiquem esse novo mercado privado e altamente rentável. Seremos os novos pacientes doadores espontâneos dos nossos órgãos. E os úteros já estão alugados.

Portanto, não estreitando nossos olhares e visões, acredito que temos de buscar urgentemente uma ressignificação e revitalização de nossos corpos trabalhadores. Já nos terceirizam e comercializam, até quando nos prostituirão as consciências críticas e políticas? Até quando nos darão olhos biônicos e televisivos que nos afastam do Outro e nos dão uma sórdida ilusão de Poder?

A medicalização do viver tem andado passo a passo no mesmo caminho tortuoso da militarização da Vida. Os novos casos, sempre meninos ou meninas, que perdem suas partes fragmentadas, ou por balas de fuzil ou por bisturis eletrônicos, passarão a categoria perversa de ‘efeitos colaterais’ de nossos progressos? Ou são apenas vidas descartáveis que atrapalham as novas tanatocracias ditatoriais ou seus projetos globais, sejam elas nas Áfricas, na Ucrânia, na Síria ou no Brasil?

Portanto, dentro dessa minha visão, que não desejo ser antevisão, espero não ter o falso gozo de me tornar mais uma cobaia humana. As alianças das biotecnologias, das engenharias, das genéticas e das biopolíticas não aliviarão, nem aliviam, os meus mais profundos e poéticos ardores.

Eu, brasileiro, negro, e Lobatianamente descartável, prometo me manter na Re-existência e na Resiliência, política e micropolítica, para além do fato de ser mais um que deseja um envelhecimento com dignidade para a Medicina, em busca de um aprender a construir, bioéticamente, novas pontes para o Futuro ...

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2015/2016 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e/ou outros meios de comunicação para e com as massas. TODOS DIREITOS RSERVADOS 2025)

INDICAÇÕES PARA LEITURAS CRÍTICAS –

O MERCADO HUMANO – Estudo Bioético da Compra e Venda de Partes do Corpo, Giovanni Berlinguer &Volnei Garrafa, Editora UNB, Brasília, DF, 1996.

A MEDICALIZAÇÃO DA RAÇA – Médicos, Educadores e Discurso Eugênico, Vera Regina Beltrão Marques, Editora UNICAMP, Campinas, SP, 1994.

O QUE É VIOLÊNCIA SOCIAL – Jorge P. de Andrade et alii, Escolar Editora, Lisboa, Portugal, 2014.


Notícias pesquisadas na Internet –

CRM absolve médicos condenados por tráfico de órgãos em Poços de Caldas (MG) https://noticias.r7.com/minas-gerais/crm-absolve-medicos-condenados-por-trafico-de-orgaos-em-pocos-de-caldas-mg-14022014  (vejam a quem pertence a empresa MG Sul Transplantes)

'Eles sabiam que a criança estava viva', diz juiz sobre tráfico de órgãos https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2014/02/eles-sabiam-que-crianca-estava-viva-diz-juiz-sobre-condenacoes.html


Em 24/03/2015 - Médicos acusados de retirada ilegal de órgãos são presos em Poços



LEIAM TAMBÉM AQUI NO BLOG –



SAÚDE MENTAL: quando a Bioética se encontra com a Resiliência.

OS MORTOS-VIVOS DO HOSPICIO QUE ENSINAVAM AOS VIVOS SOBRE A VIDA NUA... BARBACENAS NUNCA MAIS! https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/10/os-mortos-vivos-do-hospicio-que.html

ROBÔS, POLÍTICA E DEFICIÊNCIA https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/07/robos-politica-e-deficiencia.html

OS DES(Z) MANDAMENTOS DO CORPO FEMININO https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2015/03/os-desz-mandamentos-do-corpo-feminino.html

TIROS REAIS EM REALENGO - a violência é uma péssima pedagoga https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/04/imagem-publicada-imagem-de-bracos-e.html


SAÚDE, BIOÉTICA E POLÍTICA – Vendem-se corpos e compram-se consciências?

Imagem publicada – uma foto colorida que fiz de uma matéria televisiva sobre o uso de robôs e novas tecnologias a serviço das guerras, de indústrias de ponta nos Eua, onde um manequim é cirurgicamente operado por um robô, que é teleguiado e projetado para servir remotamente a cirurgiões, que irão abreviar atendimento emergencial de soldados feridos em combate. A legenda diz: um robô que pode realizar cirurgias no campo de batalha. Matéria do Discovery Channel onde a robótica é utilizada para criação de drones, robôs espiões e desarmadores de bombas à distância.

“... Ao final do século XX, o fenômeno que mais se destaca é que a compra e venda não dizem respeito ao corpo como um todo, mas envolvem as partes individuais do homem. Assistimos, em outras palavras, à fragmentação comercial do ser humano. Os limites entre os usos e abusos do corpo tornaram-se gradualmente mais sutis e imprecisos...” (Giovanni Berlinguer & Volnei Garrafa, in Mercado Humano, 1996)

In memoriam de Giovanni Berlinguer (1924- 06/04/2015)

Sempre me perguntam se faria uma nova cirurgia. Sempre me indagam se não há um ‘’novo’’ tratamento, para minhas perdas, inclusive da mobilidade física. Sempre se surpreendem quando digo que estou à espera dos robôs da Nasa ou de alguma invenção das biotecnologias que irão trocar toda a minha coluna vertebral e não apenas colocar novos parafusos de titânio. Ainda prefiro a re-existência titânica do viver.

Assisti, recentemente, um desses programas de TV, da Discovery, onde um robô estava a ser testado, como na foto que tirei, para ‘realizar (em tempo recorde e veloz) uma cirurgia em campos de batalha’. Me vi ali deitado e sendo, então, novamente operado. E o bisturi, tele manipulado como nossas atuais consciências, me abria novamente pelas costas.

Hoje uma amiga me telefona, após muitos anos de distanciamento geográfico, e me sugere que façamos, visto essa minha tendência robótica de introduzir titânio no meu corpo, uma campanha para que vá para uma frente de batalha no Afeganistão. Lógico que só com passagem de ida, pois a volta, após a identificação de meu “sanguíneo conteúdo” político, pode ser direta para Guantánamo.

Tenho um belo livro para releitura e reflexão: O Mercado Humano – Estudo bioético da compra e venda de partes do corpo. É o mesmo citado lá em cima. Nele há interrogações sobre nossos tempos de transplantes de órgãos, fecundação artificial, engenharia genética, e, interessantemente, a questão da ‘escravidão ao mercado tecnológico’.

De lá, o livro é de 1996, para os nossos dias de Século XXI posso ter de responder com um sim às suas indagações: “Pode tudo ser realmente comprado ou mesmo roubado? Os órgãos para transplantes, o sangue para as transfusões, os recém-nascidos para as adoções, as meninas para as prostituições?”. Se alguém tem dúvidas busquem, em separado, as perguntas, e as respostas, no grande dicionário digital, o Google.

A realidade cruenta, por exemplo, da questão de tráfico de órgãos veio novamente à tona por causa de médicos lá no Sul de Minas. Não muito longe de minha terra natal e suas águas medicinais. Lá na pacata estância hidromineral de Poços de Caldas. Lá ocorreu o chamado Caso “Paulinho Pavesi”, um menino de 10 anos que teve seus órgãos retirados, segundo matéria de jornal, “enquanto ainda estava vivo”.

Esses e outros ‘’casos’’ estão relatados em jornais de imprensa local e de outros veículos, dos quais listei apenas alguns. O que ligou às notícias foi o título do livro de Berlinguer e Garrafa. Além disso, o surgimento fugaz em redes sociais de matérias midiatizadas recentemente. Não estou e estarei aqui para o julgamento da ‘’Máfia dos órgãos’’, mas para tentar compreender de onde nascem as raízes desse mercado.

Estamos assistindo, tele e midiaticamente, um recrudescimento de atitudes preconceituosas em Faculdades de Medicina. Recentemente vimos ‘veteranos’ com as fardas e capuzes da Klu Khux Khan, estavam em suas ‘fantasias’ e trotes reproduzindo o martírio de negros nos corpos dos ditos ‘bichos ou calouros’, lá na Unesp. Entretanto já tínhamos precedentes. Antes tivemos os estupros e as violências dentro das ‘festas’ de iniciação da vetusta Faculdade de Medicina da Usp.
Cito apenas estas duas ocasiões violentadoras, em espaços de formação acadêmica, uma que foi naturalizada e outra que passou até por uma CPI, e como “notícias”, em tempos voláteis, só voltarão quando novos casos surgirem.

No texto que escrevi sobre o Holocausto brasileiro promovido, historicamente, lá em Barbacena, MG, já fiz as devidas ligações entre o comércio de corpos do hospício para as mesas de dissecção anatômica das faculdades de medicina. Eu, lamentavelmente, vi e tive esses cadáveres anônimos como ‘’lições’’ de anatomia humana, cheios de formol e de pele totalmente endurecida. Eram os Anos 70.

Creio que a dissolução, possíveis escrúpulos ou humanidades, no mais profundo de nossos inconscientes sobre o homem como sujeito, na formação dos profissionais de saúde, em especial os médicos, ocorrem nessa ‘iniciação’ onde temos uma ‘’oração do cadáver anônimo’’, mas podemos, no futuro, transplantá-lo a categoria de homem-objeto.

Os primeiros ‘poços’ profundos, ou gênesis, de nossa posterior desumanização dos corpos pode fincar as raízes nesse solo acadêmico. Afinal o que nos separaria dos médicos nazistas que, como nos diz Agambem, faziam experimentações com as cobaias humanas, as ‘versuchem person’, onde os judeus ou pessoas com deficiência eram submetidos às mais baixas temperaturas, ou extração ‘a frio’ de órgãos para fins dos ‘avanços da medicina germânica, e a proteção do exército do Reich’? Mas seriam necessárias biopolíticas, leis, e, principalmente escolas da  de-formação da Juventude Hitlerista ou das Faculdades de Medicina, ou não?.

Não estou trazendo de volta o fantasma de Mengele, mas que há um ‘cheiro’ mortal e incômodo de nazifascismo no ar não há como negar. As banalizações e naturalizações de violências estão autorizando, mesmo que não explicitamente, a ‘neomercantilização’, ‘neoescravidão’ e ‘neoexploração’ de nossos corpos insurgentes (como filme dos adolescentes). O Grande Irmão global nos incentiva à neo-guerra. Forjamos novas escolas hipermidiáticas do ódio e de novas Ondas? Ou apenas, neurótica e perversamente, repetimos os nossos passados?

As nossas raízes culturais também se alimentam de trans históricas posições eugênicas dos médicos e educadores do século XX. Lá em São Paulo nos anos 20 podíamos ainda ter a contribuição de eminentes escritores, intelectuais e ‘elites’ sociais que legitimavam a distinção de ‘corpos válidos’ e ‘corpos descartáveis’.

A Vida Nua pode ser captada como um discurso de Eugenia e Poder, segundo estudo de Vera Regina Beltrão Marques, no discurso de Monteiro Lobato, o mesmo das Reinações de Narizinho, que dizia: “-Muito cedo chegou o americano à conclusão de que os males do mundo vinham de três pesos mortos que sobrecarregavam a sociedade- o vadio, o doente e o pobre... A eugenia deu cabo do primeiro, a higiene do segundo e a eficiência do último...”.

E o escritor tinha relações muito próximas com os higienistas e eugenistas brasileiros. Para eles, que se consideravam uma ‘elite’, a eliminação ‘radical’, assim como propõem os fascismos, é a melhor solução para “a América (incluam o nosso país) aproximar-se de um tipo de associação já existente na natureza, a colmeia – mas uma colmeia da abelha que pensa”.

Eis aí um discurso que estamos sendo obrigados a escutar, ver e ler nos nossos tempos de Idade Mídia. Arautos do ‘bom combate’ das nossas corrupções, projetadas apenas no socius, dizem que devemos dar o poder político de gerir o país e a Vida aos que são ‘puros, imaculados e nascidos em berços esplêndidos das classes mais afortunadas’.

Aos outros, aqueles que contaminam nossos shoppings ou nossas periferias, cabe a continuidade do extermínio por ‘golpes brandos’. Mantem-se a alienação, o racismo, as discriminações e o trabalho escravo como naturais. Esses outros são as nossas misérias ou serão.

A exclusão social retoma seus ares de horror econômico e a cultura do medo retoma sua posição a favor de novas e sutis repressões, inclusive políticas. Os corpos são novamente Vidas Nuas, homo sacer.

E, aqueles dos quais se esperava o cuidado com a Saúde, em especial a pública e universal, chamada ainda de SUS, podem nos submeter às desqualificações e desumanizações que justifiquem esse novo mercado privado e altamente rentável. Seremos os novos pacientes doadores espontâneos dos nossos órgãos. E os úteros já estão alugados.

Portanto, não estreitando nossos olhares e visões, acredito que temos de buscar urgentemente uma ressignificação e revitalização de nossos corpos trabalhadores. Já nos terceirizam e comercializam, até quando nos prostituirão as consciências críticas e políticas? Até quando nos darão olhos biônicos e televisivos que nos afastam do Outro e nos dão uma sórdida ilusão de Poder?

A medicalização do viver tem andado passo a passo no mesmo caminho tortuoso da militarização da Vida. Os novos casos, sempre meninos ou meninas, que perdem suas partes fragmentadas, ou por balas de fuzil ou por bisturis eletrônicos, passarão a categoria perversa de ‘efeitos colaterais’ de nossos progressos? Ou são apenas vidas descartáveis que atrapalham as novas tanatocracias ditatoriais ou seus projetos globais, sejam elas nas Áfricas, na Ucrânia, na Síria ou no Brasil?

Portanto, dentro dessa minha visão, que não desejo ser antevisão, espero não ter o falso gozo de me tornar mais uma cobaia humana. As alianças das biotecnologias, das engenharias, das genéticas e das biopolíticas não aliviarão, nem aliviam, os meus mais profundos e poéticos ardores.

Eu, brasileiro, negro, e Lobatianamente descartável, prometo me manter na Re-existência e na Resiliência, política e micropolítica, para além do fato de ser mais um que deseja um envelhecimento com dignidade para a Medicina, em busca de um aprender a construir, bioéticamente, novas pontes para o Futuro ...

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2015/2016 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e/ou outros meios de comunicação para e com as massas. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

INDICAÇÕES PARA LEITURAS CRÍTICAS –

O MERCADO HUMANO – Estudo Bioético da Compra e Venda de Partes do Corpo, Giovanni Berlinguer &Volnei Garrafa, Editora UNB, Brasília, DF, 1996.

A MEDICALIZAÇÃO DA RAÇA – Médicos, Educadores e Discurso Eugênico, Vera Regina Beltrão Marques, Editora UNICAMP, Campinas, SP, 1994.

O QUE É VIOLÊNCIA SOCIAL – Jorge P. de Andrade et alii, Escolar Editora, Lisboa, Portugal, 2014.


Notícias pesquisadas na Internet –

CRM absolve médicos condenados por tráfico de órgãos em Poços de Caldas (MG) https://noticias.r7.com/minas-gerais/crm-absolve-medicos-condenados-por-trafico-de-orgaos-em-pocos-de-caldas-mg-14022014  (vejam a quem pertence a empresa MG Sul Transplantes)

'Eles sabiam que a criança estava viva', diz juiz sobre tráfico de órgãos https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2014/02/eles-sabiam-que-crianca-estava-viva-diz-juiz-sobre-condenacoes.html


Em 24/03/2015 - Médicos acusados de retirada ilegal de órgãos são presos em Poços



LEIAM TAMBÉM AQUI NO BLOG –



SAÚDE MENTAL: quando a Bioética se encontra com a Resiliência.

OS MORTOS-VIVOS DO HOSPICIO QUE ENSINAVAM AOS VIVOS SOBRE A VIDA NUA... BARBACENAS NUNCA MAIS! https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/10/os-mortos-vivos-do-hospicio-que.html

ROBÔS, POLÍTICA E DEFICIÊNCIA https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/07/robos-politica-e-deficiencia.html

OS DES(Z) MANDAMENTOS DO CORPO FEMININO https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2015/03/os-desz-mandamentos-do-corpo-feminino.html

TIROS REAIS EM REALENGO - a violência é uma péssima pedagoga https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/04/imagem-publicada-imagem-de-bracos-e.html


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O DIREITO A DOIS CADERNOS, QUAL É A NOSSA PREFERÊNCIA? Incluir e/ou Excluir?

Imagem publicada – uma fotografia colorida de um mural, em um prédio, no Bairro da Liberdade, São Paulo, SP, com 08 cachorros diferentes, de cores diferentes (azul, laranja, rosa, verde, amarelo, vermelho, laranja com marrom nos olhos), segurando dois grandes cartazes, onde está escrito: EDUCAÇÃO BÁSICA DE QUALIDADE PARA TODOS e ACABAR COM A FOME E A MISÉRIA, com um poste à esquerdade PROIBIDO ESTACIONAR, com prédios desenhados ao fundo e nuvens, na direita um osso desenhado com a autoria do mural -foto de meu arquivo pessoal.)

“... a discriminação negativa não consiste somente em dar mais àqueles que têm menos; ela, ao contrário, marca seu portador com um defeito quase indelével. Ser discriminado negativamente significa ser associado a um destino embasado numa característica que não se escolhe, mas que os ‘Outros’ nos devolvem como uma espécie de estigma...” (A Discriminação Negativa – Cidadãos ou Autóctones? Robert Castel, 2008).

Somos nós, os Outros, como grifei no texto de Castel, que temos a alteridade e a também certa autoridade para forjarmos a exclusão desses diferentes de nós.

Peço desculpas aos meus leitores e leitoras, desde junho não conseguia escrever para vocês. Minha própria auto exclusão se fazia motivo de meu silêncio de escrevinhador. Sim, escrever é um ato doloroso e espinhoso, parece fácil, mas não é como a simplificação do que fazemos diante dos nossos cotidianos como excludentes, não como excluídos.

Resolvi revirar meu baú de textos, estava com a reflexão sobre as multidões que vivemos recentemente. Fui passear há 11 anos atrás, em 2002, quando publiquei um texto, em fevereiro, como o título: O Direito a dois cadernos. Vou reproduzi-lo, parcialmente, e tentar reacender e reviver o momento que o desencadeou. Caso encontrem algumas coincidências é mera responsabilidade de todos nós como autores, atores ou espectadores, ou melhor, se fôssemos espect.-atores.

CENA 1 – Supermercado da Rede SUPER. Uma grande cidade, uma metrópole. Um menino. Uma fila de consumidores. 01 Caderno e uma 01 caixa de ovos. Um olhar.

Há dias, escrevi lá no passado, venho me questionando acerca da literatura, principalmente do uso pouco criativo, na televisão e na vida de todos nós, do visionário e escritor George Orwell (1903/1950). É o conhecido autor do romance ‘1984’. O Grande Irmão (Big Brother) naturalizou-se e foi banalizado. Mas uma vez a Sociedade do Espetáculo e do Controle nos enfeitiça e domina. Outra vez a mais não olharemos para outros monitores ou tele telas que nos seduzem.

Indagava-me há tantos anos o mesmo que agora, diante de um mundo pós-Snowden, sobre os nossos modos de ver e se distanciar do que Bauman chama de “vidas desperdiçadas”, ou seja, o que ele chama de ‘refugos humanos’, ou melhor, os seres humanos tornados descartáveis, como efeitos de nossas novas economias neoliberais do hipercapitalismo.

Voltemos, então, a Cena 1: Eis que estou, como natural que é, numa fila de consumidores, dentro de um supermercado. Obedientemente empurrando o meu carrinho de compras, poucas. Olho em volta e tudo é estímulo para o consumo. Novas marcas, novos marketings, novas seduções, novos e brilhantes produtos embalados.

Lá fora, na porta de entrada, a violência explícita (o olhar fiscalizador dos seguranças). No perímetro do caixa, limite e limitação, meu olhar consumido é despertado. Passa um garoto, sandálias de borracha, calças curtas e olhar vago ou pedinte (ainda não encontrei outros modos de descrevê-los). Visivelmente pobre, visivelmente empobrecido, visivelmente excluído (como o que nos disse Castel).

Ele traz nas mãos: 01 (um) caderno espiral, desses de 200 folhas e uma 01 (uma) caixa de ovos tipo extragrande. Ele passa e pede aos participantes das filas: - “Moço, moça, paga para mim essas coisas...”.

Todos olham, se entreolham, disfarçam, ele passa, o Supermercado está lotado. É dia do pagamento dos assalariados. Como já naturalizamos também nossa permanência em filas (Bancos, Correios, INSS, Loterias, Hospitais, etc...), ele passa... Ele se afasta. Em seguida abandona o caderno numa prateleira de papel higiênico. E continua a sua peregrinação suplicante. Os autorizados na fila enfileirados, ordeiramente, apenas nos entreolhamos de novo.

CENA 2 - A caixa do supermercado, a fila, o olhar desconfiado, a insegurança.

Eis que surge a pérola que me fez pensar sobre os 02 (dois) cadernos: uma mulher, negra como eu, também excluída como alguns ali presentes, mas que não se deu conta, ainda, da sua condição, olha para algumas pessoas enfileiradas e se justifica: -“se ele tivesse apenas pedido os ovos, eu até pagaria...”

CENA 3- 01 (um) Outdoor enorme, uma imagem de um computador e seu processador de dados, uma família reunida em torno dele, felizes.

O outdoor anuncia a chamada para o lançamento da Intel e do novo Windows, com uma frase rica de significados e significantes: “INVISTA NO SEU FILHO, ELE PODE RENDER UM GÊNIO”. Lá estão estampados uma menina, um menino, um laptop e o rosto de Einstein (sem a língua para fora!).

Autorizei-me, e ainda não me arrependi, em ‘compartilhar’ minhas indagações surgidas desse encontro triste. A primeira é: qual é a minha, a nossa dívida para com estes meninos e meninas que estão nessa situação de rua?

Vocês primeiro interrogaram se eu paguei os ovos ou o caderno? Eu também não paguei os ‘dois’ cadernos que o menino (a) trazia na mão. Eu também não retruquei à senhora que falou da sobre a escolha (que não era de Sofia). E, mais ainda, não me indignei, naquela hora, com toda essa situação. Por quê? Temor da atitude grosseira dos seguranças que expulsam essas crianças desses espaços?

Não, apenas era mais um nessa fila dos que pensam: quem sabe isso é uma ‘pegadinha’. Ou pior, no modelo panóptico e paranoico do orwelliano 1984, não agir é porque não estamos em uma gravação feita por uma câmera de segurança, ou uma câmera de televisão que nos mostrará para todo o país. Não me sentia, naquele instante, diante do refugo social, tão ‘global’ ou minimamente solidário.

Era, ou melhor, continua sendo, apenas mais um na fila. Era, lamentavelmente, e continua sendo apenas uma cena ‘local’. Triste, repetitiva e banalizada. Ou seja, natural, comum, rotineira, cotidiana, sempre igual. Mas a visão não é do antigo Big Brother, que estava, segundo Bauman, “preocupado em ‘incluir’ – integrar, colocar as pessoas na linha e mantê-las assim...”.

No nosso reality show pós-moderno estamos aplicando um novo Big Brother. Sua função e eficácia é a Exclusão. Como diz o sociólogo para: “identificar as pessoas ‘desajustadas’ no lugar onde estão, bani-las de lá e deporta-las para o lugar ‘que é delas’, ou melhor, jamais permitir que se aproximem...”.

CENA 4 – A caixa reclama, o segurança age, a fila permanece, e todos e todas pagam suas compras.

Acho que apenas alguns se interrogaram: Meninos e meninas com fome de quê? Eram 22 (vinte e duas) horas e o Supermercado Brasil estava fechando suas portas, para que os telespectadores da vida pudessem assistir ao ‘’Big Brother” da Rede Globo, em dobro. Um último olhar do consumidor me lembra na porta: “Sorria você está sendo filmado”... Estamos, enfim, seguros e vigiados.

Ora, ora, alguém vai perguntar: hoje nessa nossa evolução social e econômica não retiramos esses refugos da marginalidade, da fome e das ruas?
Porém, hoje, estou renascendo de minhas próprias cinzas escrevinhadoras para lembrar que já naquela época estive, também, anestesiado. Mas, entretanto, contudo e todavia tenho que lembrar também que já me indagava sobre as cenas e sua relação com as pessoas com deficiência.

Me perguntei se naquela cena dos pedidos à fila do supermercado, numa nova classificação sobre deficiências, se o ‘menino(a)’ pedinte não poderia ser ‘incluído’ como uma criança em situação de deficiência. Quem sabe, talvez, pela naturalização os ovos seriam pagos por mim ou outro ‘filante’, como manifestação de piedade ou caridade? Quase certo que sim, pois estávamos em um ambiente, como os shoppings de hoje, ‘totalmente seguros e assegurados’.

Não nos encontrávamos, fechando os vidros dos carros, nos cruzamentos das ruas, nos semáforos. E o pedido de pagamento não era um pedido de resgate, apenas, nos gerava aquela repulsa ou preconceito que já deixamos lá no cantinho dos nossos inconscientes.
Afinal para quê alimentar de ‘ luz’ àqueles que só reclamam de um ronco na barriga? Nós, os da fila, não acreditamos ainda na dicotomia entre intelecto, aprendizagem e estômagos?

Enfim, tudo isso que escrevi e refleti são apenas ‘cenários’? Ou seja, será que ele só inventou ou é apenas uma ficção ‘real’? Tudo isso foi, é e continuarão sendo cenários para falarmos de uma exclusão que está imbricada com a inclusão. A existência das fomes, todas as fomes, principalmente aquela que preocupava Paulo Freire, a educação, como um direito inalienável dos cidadãos e cidadãs, acaba sendo denunciada pela a sua ausência.

Recentemente, uma ameaça partida de não sei onde, gerada por interesses que não sei de quem, mas todos, excepcionalmente, sabem, fez um termo velho, ‘preferencialmente’, ser motivo de uma grande e polêmica disputa. Os meninos ou meninas dos Supermercados Brasil, mais ou menos uns 03(três) milhões, fora da escola devem ser ‘incluídos’, preferencialmente, em uma escola especializada em prevenção de futuras atitudes violentas ou transgressoras? A fundação que cuida deles e delas não é chamada também de centro de reabilitação? Essa fundação não é uma escola ‘especial’?

Voltemos, enfim, às cenas e às suas interrogações necessárias. Disse no passado e agora confirmo: - é aí que surgem as exclusões sociais e os discursos que as legitimam. Na pobreza e na miséria, humanas, dizem que quem tem um “ovo” torna-se rei, é soberano. Portanto, para quê os da fila se indignarem com essas exclusões? Para quê precisamos de cadernos de papel? Os direitos não são, também, de papel?

Por essas perguntas que não tenho o dever de responder sozinho, já que a gramática que pode mudar radicalmente os paradigmas não aceita ser apenas preferencial e exclusiva, é que insisto e lanço mais uma pergunta: Porque não damos 02(dois) cadernos, o de papel e o digital, para todos os meninos e meninas, com ou sem deficiências (inclusive as sociais), para que juntos, com todos os recursos e respeito às suas singularidades, exatamente por suas diferenças, eles e elas não tenham de escolher apenas um caderno? Ou não queremos quebrar esses ovos?

 Ou então, para acabar com as querelas e continuar na fila, com os corações blindados e as mentes capturadas, vamos distribuir, preferencialmente, à mão cheia, um único caderno onde se escreve repetidas vezes: - Eu não sou parte daquele show, eu não pertenço àquele mundo, eu sou do time que fica de fora, muito embora me convidem para uma breve passagem pelo grande campo, também excludente, chamado de Inclusão.

Já mandamos restaurar os nossos sofás que recentemente foram parcialmente danificados pelas imagens teleguiadas, porém vandalizadoras daqueles baderneiros que queriam erradicar, radicalmente, essas exclusões?  Não se esqueçam de que a rede social dos Supermercados Brasil está promovendo, com toda segurança, o lançamento do meio de controle de nossas necessidades básicas: o ‘embolsa tudo’. Com satisfação e gozo garantidos, sem ter qualquer dinheiro de volta.

AVISO AOS NAVEGANTES (também chamados hoje, pós tempos de espionagem virtual e até presidencial, after Snowden, de cidadãos e cidadãs de ‘vidro’, ou seja, total e amplamente transparentes para o Estado e o Mercado): quem encontrar um menino ou menina pedintes de ovos e/ou cadernos favor me avisar por meio das nossas redes includentes e cibernéticas, muito embora saiba que ainda resta um grande número deles que não sabe nem o que é Internet.

Copyright/left – favor citar o autor e as fontes, mesmo as inexistentes, em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa (ou serão multidões? TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

INDICAÇÕES PARA LEITURA CRÍTICA –

A DISCRIMINAÇÃO NEGATIVA – CIDADÃOS OU AUTÓCTONES? , Robert Castel, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 2008.

VIDAS DESPERDIÇADAS – Zygmunt Bauman, Editora Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, RJ, 2005.

LEIA TAMBÉM NO BLOG –

O RETORNO DA INCLUSÃO PELA INTEGRAÇÃO: Novos muros nas Escolas, Fábricas e Hospitais.


INCLUSÃO/EXCLUSÃO: DUAS FACES DA MESMA MOEDA DEFICITÁRIA? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/02/inclusaoexclusao-duas-faces-da-mesma.html


A PARÁBOLA DA ROSA AZUL – https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/05/parabola-da-rosa-azul.html

terça-feira, 5 de outubro de 2010

UM PEDAÇO DE GIZ NA TELA DIGITAL - Dia Mundial do(a) Professor(a)


Imagem publicada - uma professora afegã, representada no filme 11 de Setembro, 11 minutos, 9 segundos e um frame (fotografia que forma a imagem em movimento), no curta de Samira Makhmalbaf, cineasta iraniana, com seus alunos realizando um ato ético de respeito à um momento histórico do ocidente, diante de uma chaminé de uma olaria (onde se fazem tijolos de barro), com 01 minuto de silêncio pelas vítimas norte-americanas do World Trade Center.

" O professor é aquele que faz brotar duas idéias onde antes só havia uma". (Elbert Hubbard)


Hoje dia 05 de outubro comemora-se o Dia Mundial do Professor, mais um dia ao qual expresso minha homenagem e minha lembrança para todos e todas que me fizeram brotar ideias e afetos.

A minha primeira lembrança, ao tomar contato com esta comemoração mundial, é de uma frase que lancei ao ar, há muitos anos atrás, em palestra na UERJ, justamente para homenagear professoras e professores presentes: " me lembro, hoje, com carinho de minhas primeiras professoras como quem deve se lembrar de um(a) lapidador(a)... pois se acredito que somos todos diferentes pedras preciosas in natura, somos também qual pequeninos diamantes que com a devida e afetuosa lapidação educacional, podemos ver retiradas nossas jaças e nossas carapaças de qualquer ordem... 

E digo que: quem sabe se foi por essas mãos-guias, que serão na maioria das vezes esquecidas, é que, talvez, um dia possamos realmente brilhar e encantar no futuro... e/ou, então, ao descobrirmos nossas imperfeições e diferenças, singular e eticamente, re-conhecer que somos capazes de produzir falsos valores e falsas admirações..."

Hoje, portanto, deveríamos nos lembrar de quem nos ajudou ou ajuda nas nossas "lapidações da subjetividade''. Estes que, só aparecem na mídia, como responsabilizados por falhas na educação, ou então quando exercem seu direito de greve por melhores condições de trabalho ou de salários.

Quanto ganha hoje uma professora da educação fundamental? Na minha terra natal eram as chamadas professoras ''primárias'', tinham uma respeitabilidade e papeis sociais reconhecidos. Isso acompanhado de um salário digno e classes com um número de alunos diferente da dura realidade de hoje. 

Eram, merecida e reflitamente, nossas segundas projeções de afeto e de respeito, vinham logo após nossas mães e familiares, mas hoje temos ou preservamos esse respeito reverencial e amoroso para com os nossos mestres ou mentores?


Segundo notícia do Jornal o Globo: "Até 2015, 99 países vão precisar de mais 1,9 milhão de professores em sala de aula para conseguir universalizar a educação básica".Qual será a atitude política que todos os Governos, em especial dos países emergentes e em desenvolvimento para dar respota a essa urgência mundial? Para a Unesco " o tema das comemorações deste ano é A Reconstrução Começa pelos Professores. 

A intenção é destacar o papel crucial que os educadores desempenham em áreas que estão em situação de emergência, em momentos pós-conflitos e de crise social, econômica ou humanitária". E essa afirmação da reconstrução é um dos principais exercícios no Haiti Vivo e em seu ressurgimento pós-terremoto.

Há um lindo exemplo dessa reconstrução e construção de novas subjetividades no curta de Samira Makmalbaf no filme sobre o 11 de Setembro, com 11 minutos de curta metragem, por 11 diretores de cinema de diferentes nacionalidades.

Nesse curta Samira traz uma professora de refugiados afegãos em uma olaria, que ao fazerem tijolos, tem uma improvisada sala de aula, onde ela, após arrebanhar as crianças, meninos e meninas, os leva a fazerem um minuto de silêncio pelas vítimas do atentado terrorista em Nova York.


As crianças sentadas sobre os tijolos que amassaram com os próprios pés nos dão, nesses 11 minutos, a lição de uma eternidade da capacidade de uma educadora no respeito ético à vida humana, apesar do temor de que eles próprios pudessem ser ''destruídos' pelos EUA.

Ao final todos olham para um torre de tijolos, uma chaminé e sua fumaça negra, que se ergue qual uma das torres gêmeas apontando para o futuro de nossa humanidade. É uma alegoria do que ainda poderemos construir dentro de uma visão de inclusão, ecosofia, bioética e respeito aos direitos humanos no ato de educar. A cada um de nós caberá amassar, com muito carinho e intensidade, nossos próprios tijolos da subjetividade produzida na reconstrução de um outro mundo possível. Sempre com o respeito às pessoas que nos educam e suas escolas.

Ouçamos a professora que ecoa em nossos inconscientes, e que Samira nos apresenta: "... Venham crianças para a classe. Vocês não podem parar bombas atômicas apenas com esses tijolos..." E nós o que podemos começar a construir de futuro se abraçarmos amanhã, e depois, com todo respeito e carinho, um professor ou professora?

Talvez possamos olhar, juntos, para a reconstrução de nossas próprias humanidades, micropolitica e molecularmente, para além de todas as biopolíticas e todas as suas artimanhas. Talvez nos colocando diante do futuro, pessoal e coletivamente, digamos em coro, olhando para a estrada aberta, que queremos aprender a aprender a mudar o mundo globalizado. E, então, brotarão não mais duas, mas múltiplas, diversas, diferentes e criativas idéias... E aí surge a Educação Inclusiva...

UMA ÚLTIMA PERGUNTA: diante das notícias sobre as opiniões sobre o aborto e sua criminalização, os que se candidatam a ser nosso futuro presidente(a) não precisam de alguma forma de um bom professor(a) para sua lapidação bioética?

copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar a fonte em republicações livres na internet ou por outros meios de comunicação de massa, favorecendo um outro modo de produzir a difusão e socialização de conhecimentos)

DIA MUNDIAL DO PROFESSOR
http://www.5oct.org/index.php/es/inicio

UNIVERSALIZAR A EDUCAÇÃO BÁSICA REQUER 1,9 MILHÃO DE NOVOS PROFESSORES ATÉ 2015, ESTIMA UNESCO:
http://oglobo.globo.com/educacao/mat/2010/10/05/universalizar-educacao-basica-requer-1-9-milhao-de-novos-professores-ate-2015-estima-unesco-922707319.asp

SAMIRA MAKHMALBAF
http://www.makhmalbaf.com/persons.php?p=4

11 de SETEMBRO - 11'9'1 - CURTA METRAGEM
http://omelete.com.br/cinema/i11-de-setembroi-os-curtas-metragens

LEIA(M) TAMBÉM SOBRE O TEMA NO BLOG:

TIROS REAIS EM REALENGO: A VIOLÊNCIA É UMA PÉSSIMA PEDAGOGA 
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/04/imagem-publicada-imagem-de-bracos-e.html

O JUQUINHA E SUA CADEIRA - POR UMA EDUCAÇÃO DIFERENTE 
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/07/juquinha-e-sua-cadeira-por-um-educacao.html

DIREITOS HUMANOS COMO QUESTÃO PARA A EDUCAÇÃO INCLUSIVA http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/05/imagem-publicada-uma-foto-de-tres.html

POR QUE AS TECNOLOGIAS NOS AFETAM? 

http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/04/por-que-as-tecnologias-nos-afetam.html

A EDUCAÇÃO DE PÉS DESCALÇOS
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/06/educacao-de-pes-descalcos.html