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domingo, 8 de abril de 2012

RISCOS DE UMA ANENCEFALIA DA/NA JUSTIÇA SUPREMA


Imagem Publicada – Uma foto colorida que é parte do filme Balada de NARAYAMA; tem um homem japonês, de meia idade, carregando nas costas uma mulher idosa, com seus 69/70 anos, e que de forma pungente a levará, como se levavam as ‘’inúteis’’ pessoas com deficiência para o alto da montanha nos tempos Greco-espartanos. No fim do século XIX, em um pequeno vilarejo japonês, o morador que completa 70 anos de idade deve subir ao topo de uma sagrada montanha e aguardar por sua morte. Aquele que se recusa a cumprir a tradição traz a desonra para sua família. Mas para Orin (Sumiko Sakamoto), uma senhora de 69 anos, procurar uma esposa para o seu filho mais velho, Tatsuhei (Ken Ogata), é mais preocupante do que cumprir a amarga tradição. Vencedor da palma de Ouro no Festival de Cannes em 1983, balada de Narayama é um belo e sensível filme do diretor Shohei Imamura, o primeiro realizador japonês a receber duas Palmas de Ouro no Festival.


“Se não nos assombramos a todo momento com a consciência, é porque ela é muito disponível, fácil de usar, elegante em seus espetaculares aparecimentos e desaparecimentos diários. Mas, quando nos pomos a refletir sobre ela, todos nós, cientistas ou não cientistas, ficamos perplexos...” (Antonio Damasio)

Há alguns dias pensei, mais uma vez, nas conversas com a Dona Morte e as cartas que lhe devo mandar, mesmo sem sua reciprocidade. A Justiça tinha me trazido essa pulsão tanática novamente ao meu âmago. 

Há sempre a possibilidade de que quando alguém lhe julga, assim como a sua causa, de fazê-lo de forma discriminatória. E é nessa hora que a ausência de ‘’cérebro’’ pode pesar. Ele pode nos ajudar em nossos próprios julgamentos mortais e irrevogáveis. Aos que nos julgam o que pesa?

No Dia Mundial da Saúde, 07 de abril, estamos informados pela OMS de que teremos de viver com uma inversão de dados populacionais: “Em 2050 haverá cerca de 400 milhões de idosos com mais de 80 anos, frente aos 14 milhões que havia em meados do século 20”. Teremos muito mais idosos que jovens e crianças. Como promover, então, o direito à Saúde, à Vida e à Morte com Dignidade agora e visar o futuro?

A minha citação do filme Balada de Narayama é uma alegoria de nosso possível futuro? Em condições de extrema necessidade de sobrevivência, o que faremos com os nossos ‘’velhos’’? 

Em que precipício ou exposição à morte pela Natureza iremos “sacrificar” essas novas “velhas e encarquilhadas Vidas Nuas”? Não praticamos, há séculos, outras formas de eugenia ou eliminação de indesejáveis ou anormais? As neves de Narayama nos esperarão?

Nosso futuro com o envelhecimento se afigura, então, como um tempo de exclusões. Teremos então a opção entre o morrer com dignidade ou morrer à mingua. As economias estão fundamentando alicerces para estes cadafalsos que nos retirarão todo ar, toda a vida, todos os direitos.

Os primeiros cortes econômicos recentes, como os 5,4 bilhões, foram da Saúde, apesar de os recursos de outras áreas do Governo Federal ainda alimentarem diferentes tipos de má-gestão, desvios ou corrupção. E, lá fora, como em velhos tempos, o FMI determina mais corte em anos das aposentadorias e direitos conquistados. Chegaremos lá?

Há uma dura certeza: iremos ter no futuro muito mais “trabalho” árduo para todos. As condições de vida precarizada, sem precisar do amanhã, já estão levando ao suicídio um homem idoso na Grécia atual. Nesse mesmo futuro, todos e todas, mantida a lógica do hipercapitalismo, terão de render mais para abastecer os fundos de aposentadoria. E demorarão em conquistá-la, muito menos usufruí-la sem seus direitos efetivados.

Re-trabalharemos por mais horas apesar de todos os avanços. O reino de Cronos (o Tempo) devorará toda a privacidade e o ócio? Apesar de toda a virtualidade, se não comprometermos a Humanidade com uma mudança de paradigmas, na direção de novas cartografias do viver e dos Direitos Humanos, que tempo vivido nos restará?

Temos de ouvir o aviso que nos dá o presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Francisco Batista Júnior: “A maior ameaça [à saúde no mundo] é o momento político. Em função de uma crise estrutural, a saúde está cada vez mais ameaçada pela possibilidade de ser transformada única e exclusivamente em mercadoria e não tratada como direito do ser humano”.

Já trocamos um rim por um IPad na China. E milhares de corpos são diariamente transformados em mercadoria no mercado de órgãos, portanto sua saúde já esta mercantilizada. O precisamos é refletir os diferentes riscos que se afiguram com as crises capitalisticamente produzidas. Temos apenas a produção de vidas comercialmente ‘’matáveis’’?

Temos também muitos outros riscos e ameaças que nos vulnerabilizam, sempre em associação com as práxis políticas. Temos os velhos hábitos, velhas batinas, velhos coturnos e as velhas togas que ainda atravessam os direitos humanos. A saúde de cada um e de todos passa ainda por muitos preconceitos arraigados e entranhados nas diferentes culturas do mundo globalizado.

Estes são os alicerces de nossas vulnerações atuais... Quando “velhos” não significar apenas passagem do tempo e idade biológica ou psicológica, mas sim fundamentalismos e conservadorismos ideológicos, como os apegos aos pijamas dos tempos da Ditadura militar brasileira.

O que teremos de lidar nos próximos dias nos demonstrará essa tríplice aliança entre a Política, a Religião e a Justiça. Em poucos dias teremos de ouvir nosso STJ (Supremo Tribunal de Justiça) determinar uma resolução sobre as mulheres que tem ou não o direito a uma antecipação de seu parto.

Isso mesmo, antecipar um parto. Não é o que estão alardeando com abertura para um abortamento injustificado, ou como dizem um aborto generalizante de qualquer forma de vida.

Há evangelizadores fanáticos que usam as ignorâncias sobre o assunto, apregoam um falso respeito à vida, contanto que lhes tragam mais poder e enriquecimento, inclusive político. Estes constroem, com seu eleitorado cativo e alienado, um verdadeiro lobby no atual Governo Federal.

A realidade que cerca a maioria das mulheres que trouxeram ou trazem um concepto com anencefalia estão nas camadas menos favorecidas de nosso país. Muitas delas foram impedidas de acesso a seus direitos por preconceitos religiosos.

E a anencefalia foi gerada, na maioria dos casos, pelas próprias condições ambientais e alimentares destas cidadãs, não por sua crença ou afiliação partidária. Elas são simplesmente parte de um país que é campeão em algumas mazelas, e o 4º em anencefalias. 

As recentes atitudes ligadas ao campo dos Direitos Reprodutivos e Sexuais de mulheres nos desapontam. A atitude da Suprema Corte de absolvição de um ato de violência sexual contra meninas, que foi condenada internacionalmente, nos deixa com a preocupação dos rumos desta futura decisão sobre o corpo e a vida no feminino.

Se pudermos justificar, legalmente, um estupro também poderíamos ver justificada a negação do direito das mulheres sobre seu corpo e suas vidas? Perigamos cair nessa mesma atitude, ela sim portadora de uma anencefalia histórico-jurídica, e ver negado o direito de não sofrimento às mulheres com gravidezes com anencefalia.

O tema já tem alguns anos para chegar a dias a uma decisão. Em março de 2004, por uma ação conjunta do Anis (Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero) e Themis (Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero), pela primeira vez na história brasileira, chegou ao STJ o processo em busca da autorização por antecipação de parto por anencefalia. (*)

Há um excelente documentário a ser visto por todos os que ainda se apegam às afirmações de crime contra a vida para as mulheres que buscam solução para os casos de anencefalia. Trata da história, com o olhar bioético de Debora Diniz e Ramon Navarro, sobre o sofrimento de Tatielle, uma mulher do interior de Goiás. Há ainda milhares delas no Brasil...

Ela está grávida de um feto que não sobreviveria ao parto. Porém um padre que sequer a conhece a impede da antecipação do parto. Ela é mandada embora do hospital. Tatielle agonizou cinco dias as dores de um parto proibido pela Religião e pela Justiça. O nome do documentário diz tudo: HABEAS CORPUS.

Desejo que possamos fazer a maior difusão possível de alguns passos já dados pela Bioética. Como no desejo de seu criador, Van Rensselaer Potter, esta complexa área pode nos ajudar a construir uma ponte para o futuro. É a mesma ponte do passado que liga a personagem japonesa Orin à vida real de Tatielles brasileiras.

E essa ponte nos impõe dilemas que vão do início até o fim da Vida. Das vidas severinas mais humildes e humilhadas até as mais poderosas e ricas. As últimas ainda podem pagar por órgãos no mercado ou não frequentarem clínicas de aborto clandestinas... e sobrevivem.

Na montanha de Narayama dos tempos futuros continuariam sendo as mulheres, idosas ou não, os corpos sacrificáveis em nome de alguma convenção, norma ou tradição político-religiosa-cultural? Ou por novas políticas de saúde? Ou serão novas leis que, ao acompanhar a História, farão justiça real e efetiva para elas?

ENFIM, o que podemos pedir, humildemente, à nossas Supremas Justiças? Que primeiramente, para além dos cânones e dos princípios romanos do Direito, utilizem seus “mais uterinos” afetos, mas principalmente que julguem utilizando todos os recursos de seus cérebros, mentes e corações (selfs).

Segundo Damasio foram os cérebros que criaram os homens e sua consciência, assim como sua Humanidade, e não o contrário. Para o autor “...mais do que buscar a morada da mente, do self e da consciência no cérebro é levantar possibilidades de como essas capacidades surgem...”. Essas capacidades que nos auxiliariam a estabilidade de nossos organismos e a previsão do futuro.

Somente com um cérebro, com todas as suas possibilidades e limitações é que podemos refletir sobre a VIDA. Não precisa ser normal, nem mesmo perfeito, mas é preciso para a vida biológica que esteja lá.

A anencefalia, pelo não fechamento do tubo neural, é uma determinação intraútero da impossibilidade biológica de uma mente. Precisamos de um mínimo de self e consciência, mesmo que venham a ser totalmente incapazes de julgar, criticar ou condenar, após nosso nascimento. Afinal, somos ou não somos todos imperfeitos seres humanizados?

Portanto, pensando e refletindo sobre nossos futuros é que não podemos sacrificar nossos envelhecimentos, não podemos decretar a imortalidade, não devemos buscar corpos eugenicamente perfeitos, e, mais, não podemos negar a morte quando ela já se decretou dentro de útero...

LIVREM-SE OS CORPOS FEMININOS DE NOSSOS FARDOS E PRECONCEITOS, DE QUALQUER ESPÉCIE, TIPO, GÊNERO OU IDEOLOGIAS.... E seus direitos de Saúde Sexual e Reprodutivos sejam comemorados depois dessa semana na mais alta corte de Justiça de nosso país.

Não nos basta viver com dignidade, mas é indispensável e um direito humano o morrer com dignidade. Não é um direito a ser concedido ou julgado. É APENAS UM DIREITO... Humanamente vital, assim como a Saúde é fundamental para o gozo e exercício de todos os outros direitos.

E assim poderei reencontrar em mim o desejo indispensável de acreditar na chamada Justiça dos homens... E das mulheres.


PS- me desculpem caso o texto não agrade a todos e todas, mas o meu/nosso direito à opinião é e deve ser garantido, e minha saúde está afetada nestes dias. Além das dores habituais e velhas companheiras a minha mente foi turvada por uma sinusite aguda e a necessidade de antibioticoterapia. Retomo a luta pela Grande Saúde. Fizeram-me, as dores, buscar o recurso de meu self e da crítica para não deixar passar em branco e ao léu esses momentos jurídico-legais que virão nessa semana... assim com os que espero ter o direito de exercer no futuro.


Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2012-2013 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

NOTÍCIAS citadas no texto na INTERNET -

OMS alerta sobre desafio de um mundo com mais idosos que crianças 


Após 8 anos, STF decidirá sobre aborto de anencéfalos 

Autorizada interrupção de gravidez de feto anencéfalo http://bioeticaebiodireito.blogspot.com.br/search/label/Anencefalia

Crise econômica é a maior ameaça à saúde no planeta, alerta CNS 

Acusado de estuprar prostitutas menores é inocentado no STJ



China prende cinco em caso de garoto que vendeu o rim para comprar iPad http://www.bbc.co.uk/portuguese/ultimas_noticias/2012/04/120406_china_rim_ipad_cc.shtml


FILMES CITADOS NO TEXTO:

A BALADA DE NARAYAMA – direção Shohei Imamura, Japão, 1983

HABEAS CORPUS - um filme de Debora Diniz e Ramon Navarro

LEITURAS INDICADAS-
E o CÉREBRO CRIOU O HOMEM – Antonio Damasio, Editora Companhia das Letras, São Paulo, SP, 2011.

TÓPICOS EM BIOÉTICA (*Interrupção da gestação em casos de anencefalia: opinião de mulheres de classes populares em Teresina – Gisleno Feitosa) – Sérgio Costa, Malu Fontes e Flavia Squinca (Orgs.), Editora Letras Livres, Brasília, DF, 2006.

LEIA TAMBÉM NO BLOG


SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS COMO DESAFIO ÉTICO PARA A CIDADANIA https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/06/saude-mental-e-direitos-humanos-como.html

A SAÚDE E O SENTIDO PARA A VIDA II

MULHERES, SANGUE E VIDA, para além de sua exclusão histórica https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/03/mulheres-sangue-e-vida-para-alem-de-sua.html

domingo, 24 de outubro de 2010

QUEM SÃO ELAS? O ABORTAMENTO ´POLÍTICO' DO ABORTO


imagem publicada - Uma mulher indiana, deitada, em uma maca, olha para um bebê branco,caucasiano, que ela gestou por 09 meses, e dele terá de se despedir nesse instante. Esta é uma das cenas do filme, produzido e dirigido pelo cineasta de Tel Aviv, Zippi Brand Frank, que examina as maneiras pelas quais a globalização e o hipercapitalismo da reprodução assistida, difundiu e complicou ainda mais a indústria da fertilização. Google Baby, no entanto, também é a crônica de uma ideia concebida por um empreendedor israelense chamado Doron, que entrou no negócio usando doadoras de óvulos dos Estados Unidos e barrigas de aluguel da Índia para atender aos "sem-filho" do mundo ocidental. A necessidade pode ser a mãe da invenção. Mas quem é o pai de uma criança quando o esperma vem de Israel, o óvulo dos Estados Unidos, e a gravidez de aluguel tem lugar em Gujarat, Índia? Bem vindos ao mundo real e capitalista dos nascimentos de bebês subcontratados no Oriente, via internet, para "fregueses e freguesas" do Ocidente.

Saindo de cena e entrando no debate

Já escrevi e reescrevo "todo mundo é um útero... todo útero é um mundo...". Mas precisamos afirmar que nem toda mulher é apenas um útero. Hoje, em tempos eleitorais, digo: "todas as mulheres são eleitoras, mas algumas podem ser mais que isso...". Elas podem escolher o que gestar e gerar para o mundo, para além de quaisquer macropolíticas, preconceitos ou ideologias. Como dizia poeticamente Walt Whitman: " uma mulher me espera: ela tem tudo, nada está faltando...", contrariando a imposição de uma posição de falta e castração. " Elas não tem um ponto a menos que eu,..."

Tenho estes dias um 'treco' entalado na garganta, ou melhor um "trem ruim", como dizem em minha terra natal. Essa desagradável sensação decorre da exploração política de um tema delicado. Uma questão feminina, que me é muito cara, sendo também importante e, bioéticamente falando, fundamental na vida humana. Para quem acredita na concepção primordial de Van Renssalear Potter que: "A BIOÉTICA É A CIÊNCIA DA SOBREVIVÊNCIA HUMANA",na perspectiva de defesa da dignidade humana e da qualidade da vida.

Aos que desconhecem a realidade vivida por muitas mulheres no Brasil acerca do abortamento, da interrupção da gravidez ou do que chamamos, com nossos reducionismos de "aborto", recomendo: assistam o documentário "QUEM SÃO ELAS", de Débora Diniz.

Usem 20 minutos de suas preciosas horas vividas, e respondam a essa indagação. Depois conversamos e discutiremos sobre o direito das mulheres que estão ou estiveram com fetos anencéfalos como questão de vida. E mais ainda a resposta à pergunta: quem já abortou? quem já tentou? quem são elas, estas mulheres que abortam?

Este documentário conta a história quatro mulheres, no período de 2 anos, tendo como fio condutor histórico de que todas vivenciam "força e resignação diante do luto precoce". E o título desse filme resultou da indagação de um Ministro do STF, que indaga: "quem são elas? eu, nunca as vi...". Foi no Supremo Tribunal de Justiça que a pergunta, com esta "superioridade", foi formulada. Em julho de 2004 a Justiça brasileira havia autorizado que mulheres grávidas de fetos anencéfalos interrompessem a gestação. Após quatro meses essa autorização foi abortada... por pressão e recursos conservadores...

Agora reedita-se uma posição de midiatização e espetáculo em torno da questão do aborto, de forma superficial e semelhante. Ao invés de um debate aberto com as forças conservadoras, o que assistimos é a biopolitização do tema. É a sua retomada como uma questão de opinião ou de convicção religiosa ou ideológica. Enquanto isso, elas continuam sendo mais vítimas que rés. Continuam sendo penalizadas com suas internações no SUS,onde chegam das clínicas clandestinas, ou seu padecimento físico e psíquico por serem impedidas de realizar uma antecipação de parto em casos de anencefalia...

Abortar o aborto do cenário político e introduzí-lo no cenário do debate bioético é imperioso para o momento brasileiro. Já que engravidamos a Mídia do tema Aborto, é a hora de falar, pensar e refletir sobre a interrupção da gestação. Vamos interrogar o dilema bioético: "quando começa a Vida?". Porém com um outro olhar e abordagem. E as respostas que ainda não temos poderá vir de um amplo debate nacional. 

Temos de construir uma visão bioética e não uma reedição conservadora e a falsa ideologização, que, sob o manto da sacralização, continuam a ser gestadas nas entranhas dos mais antigos mitos, as mais antigas tradições religiosas, dos mais reacionários modos gestão e controle biopolítico da vida.

Pela vida não deixei de lutar e isso traduz-se em meu artigo Direito à Vida do livro Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência Comentada, onde afirmo: "O Direito à Vida exige a segurança social, a habitação, condições de alimentação e sobrevivência com dignidade, condições, em um mundo de exploração hipercapitalista, necessariamente ligadas aos direitos econômicos, o que nos alerta permanentemente para uma defesa intransigente e aguerrida de que a Vida tem de ser protegida e, é dever de todos os Estados a sua promoção e qualificação"

Não podemos continuar confundidos na questão de um abortamento, com casos de estupro e anencefalia, por exemplo, pois em ambos já há previsão jurídica e penal. Mas ainda, em ambas situações, há alegações de cunho moral ou religioso, e deles devemos retirar quaisquer dos ranços de eugenia ou de seleção do melhores para a vida. E isso já apontei como uma ponte para o futuro no texto Apagar-se uma pessoa com Síndrome de Down.

Os tempos modernos que são vividos pelo corpo feminino, e seu devir, traçam novas cartografias pelos campos da reprodução assistida, das manipulações genéticas, da hiperexposição ou da negação de sexualidades, e, até, da exploração de úteros de aluguel, como nos mostra um duro documentário exibido pela HBO recentemente: //Google_Baby. Nesse documentário, com a imagem reproduzida acima, retrata-se o uso de úteros de mulheres indianas que são "mães de aluguel" da Índia oferecidas ao Ocidente via espermática de Israel pela Internet. O útero foi globalizado...

Recomendo a todos a leitura atenta do texto: Bioética e Aborto, de Debora Diniz (em Tópicos de Bioética), que nos esclarece sobre as diferentes formas de interrupção de gestação, que vão desde a Interrupção Eugênica da Gestação (ieg) até a Interrupção Voluntária da Gestação. Nesse texto podemos reconhecer os direitos reprodutivos das mulheres, as que, em princípio, deveríamos escutar e respeitar quanto às questões que envolvem sua singularidade, gênero, corpo e vida.

A autora nos mostra, com argumentação bioética, que: "...o respeito à autonomia reprodutiva é um princípio inalienável para qualquer decisão...", onde a legitimidade de um procedimento de antecipação, por exemplo, terapêutica é "uma vontade expressa da mulher".

 E, então, podemos responder aos ministros, aos bispos e aos políticos: - ELAS SÃO APENAS MULHERES COM DIREITOS HUMANOS, ONDE A AUTONOMIA E A TANGIBILIDADE DA VIDA SÃO FUNDAMENTOS PARA QUE CONTINUEM SENDO AS DOBRAS DE ONDE SE DESDOBRARAM OS HOMENS.

Quanto á escolha de quem nos dirigirá presidencialmente, se um homem ou uma mulher, afirmo que devemos e podemos escapar de mais um espetáculo macropolítico que se utilizará de dilemas morais para outros fins.

Tenho a esperança de todos brasileiros que olham, micropolíticamente, para o futuro que podemos gestar e parir. E se refluirmos para o paradigma da Exceção e dos Homo Sacer (Giorgio Agambem), tornando-se um grande risco biopolítico para a autonomia e para a igualdade de direitos, seja para a vida coletiva ou para a de cada um, que tenhamos a coragem de abortar..., para além de quaisquer dilemas, quaisquer formas ou práticas de autoritarismos ou ditaduras... Os eugenistas estão de prontidão ainda.

Aos nossos atuais representantes políticos, aos bispos, aos Ministros, aos que chamo de "sinistros" e "falsos" defensores da Vida, com todo respeito, é a hora de lutarmos pela concretização de um Conselho Nacional de Bioética. E, se tiverem coragem, convoquem as mulheres, cuja voz e direito foram cassados, para presidirem esse novo espaço político e ético. Tenho a certeza de que lá elas irão também implantar um novo paradigma estético e amoroso...

Saiamos, urgentemente, do uso banalizado do termo, deixemos o Estado Espetáculo, façamos uma outra cena: vamos, coletiva e individualmente, parar de abortar o aborto de nossas mentes conservadoras, parar de negar suas realidades multifacetadas em um país de muitas ''caras''....

Vamos afirmar que, hoje, vejam a pesquisa abaixo, o aborto não mais apenas uma "opinião", é um grave problema da Saúde Coletiva no Brasil. E ainda podemos criar em breve alguns meios internáuticos de produção de seres serializados, eugênicos e de ''baixo custo", usando o Facebook, o Twitter e até o Orkut, bastando para isso manter a situação de miséria,analfabetismos, exclusões e desfiliações sociais, especialmente de mulheres... Virá, então, o útero cibernético, de mulheres pobres, naturalmente!.

copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar as fontes e autores em reproduções livres pela internet ou meios de comunicação de massa)

INDICAÇÕES, ver, repensar, refletir, recomendar:

QUEM SÃO ELAS? - documentário - Debora Diniz - Imagens Livres - 2006 (20 min)
UMA HISTÓRIA SEVERINA - documentário - Débora Diniz & Eliane Brum - Imagens Livres -
À MARGEM DO CORPO - documentário - Debora Diniz - Imagens Livres - 2006 (43 min)
HABEAS CORPUS - documentário - Debora Diniz & Ramon Navarro - Imagens Livres - 2005 (20 min)
HOMO SAPIENS 1900 -, documentário - Peter Cohen - Versátil Home Videos - Suécia, 1988.
//GOOGLE_BABY - documentário - Zippi Brand Frank - HBO - 2007.

contatos para os filmes Debora Diniz:
www.anis.org.br
Google_Baby:
http://www.hbo.com/documentaries/google-baby/index.html
A Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência Comentada - http://www.bengalalegal.com/comentada.php

Fontes bibliográficas -
- Bioética e Saúde- novos tempos para mulheres e crianças - Fermin Roland Scharamm e Marlene Braz, Editora Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ, 2005.
- Ensaios: Bioética- Sérgio Costa e Débora Diniz , Editora Brasiliense &Letras Livres, São Paulo/Brasília, 2006.
- Princípios de Ética Médica - Tom Beauchamp & James Childress, Edições Loylola, São Paulo,SP, 2002
- Tópicos em Bioética - Sérgio Costa, Malu Fontes e Flavia Squinca (orgs), Letras Livres, Brasília, DF, 2006.
- Introdução Geral à Bioética- História,Conceitos e Instrumentos - Guy Durand, Edições Loylola/Centro Univ. São Camilo, São Paulo, SP, 2007.
- A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência Comentada - Ana Paula C. Resende e Flavia Maria P. Vital - Corde/SEDH, Brasilia, 2008.


PESQUISA NACIONAL DE ABORTO é uma pesquisa nacional desenhada para representar o que ocorre na vida reprodutiva das mulheres urbanas alfabetizadas de 18 a 39 anos no Brasil, cuja pergunta principal é Você já fez Aborto?
Os resultados referem-se ao ano de 2010, no Brasil urbano.
FONTE

*Ao completar 40 anos cerca de uma em cada cinco (mais exatamente, 22%) das mulheres já fez um aborto.

*Contrariamente a uma idéia muito difundida, o aborto não é feito apenas por adolescentes ou mulheres mais velhas. Na verdade, cerca de 60% das mulheres fizeram seu último (ou único) aborto no centro do período reprodutivo, isto é, entre 18 e 29 anos, sendo o pico da incidência entre 20 e 24 anos (24% nesta faixa etária apenas).

*Como abortar é um fato cumulativo, naturalmente a proporção de mulheres jovens que já fizeram um aborto ao longo da vida é menor, mas ainda assim é alta, sendo 6% entre as mulheres com idades entre 18 e 19 anos. Em outras palavras, já no início da vida reprodutiva uma em cada 20 mulheres fez aborto.

*A maior parte das mulheres que realizou aborto teve filhos.

*A PNA também mostrou que há uma distribuição espacial clara sobre a prática do aborto. Sua prática é mais comum nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e tem menor incidência na região Sul do país.

*Os níveis de internação pós-aborto são elevados e colocam indiscutivelmente o aborto como um problema de saúde pública no Brasil. Cerca de metade das mulheres que fizeram aborto recorreram ao sistema de saúde e foram internadas por complicações relacionadas ao aborto.

*A incidência de aborto entre as mulheres de diferentes religiões é praticamente igual.

*Como a PNA reflete a composição religiosa das mulheres urbanas brasileiras, pouco menos de dois terços das mulheres que fizeram aborto são católicas, um quarto protestantes ou evangélicas e menos de um vigésimo, de outras religiões.

*Cerca de metade das mulheres que fizeram aborto utilizaram algum tipo de medicamento para induzi-lo. Os abortos ilegais realizados com medicamentos tendem a ser mais seguros que os que utilizam outros meios, em particular quando o medicamento usado é o misoprostol, popularizado no Brasil na década de 1990. Se fossem feitos sob atenção médica adequada, seriam extremamente seguros.

*Os níveis de internação pós-aborto são elevados e colocam indiscutivelmente o aborto como um problema de saúde pública no Brasil. Cerca de metade das mulheres que fizeram aborto recorreram ao sistema de saúde e foram internadas por complicações relacionadas ao aborto.

*Cerca de 8% das mulheres do Brasil urbano foi internada em razão do aborto realizado.

Se o aborto seguro fosse garantido, a maior parte dessa internação poderia ser evitada.

DIA 28 DE SETEMBRO - DIA INTERNACIONAL PELA DESPENALIZAÇÃO DO ABORTO NA AMÉRICA LATINA E CARIBE.


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RISCOS DE UMA ANENCEFALIA DA/NA  JUSTIÇA SUPREMA http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/04/riscos-de-uma-anencefalia-dana-justica.html

EUGENIA - COMO REALIZAR A CASTRAÇÃO DE MULHERES E HOMENS COM DEFICIÊNCIA? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/01/eugenia-como-realizar-castracao-e.html