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segunda-feira, 26 de abril de 2010

QUEM NÃO GOSTARIA DE VIVER 100 ANOS?


Imagem publicada- uma ampulheta, o mais conhecido dos relógios marcadores de tempo com areia, que quando escorre entre os dois bulbos de vidro que a compõem sintetiza de forma clara a passagem do Tempo (Cronos). Nessa ampulheta na parte de cima encontra-se um ser humano sentado a uma mesa escrevendo enquanto a areia escorre pelo gargalo para parte de baixo. Eis a vida, que ao nascer, viram de cabeça para baixo as nossas ampulhetas individuais.

InfoAtivo DefNet nº 4400

"Antes de tudo, há o homem só.
Que nasce sozinho, que morre sozinho
e que sozinho vai vivendo, no seu ente mais fundo..."
(Mais Profundo que o Amor - D. H. Lawrence - poemas)

Será que muitos dos seres humanos não respondem negativamente, de acordo com as suas condições de vida, a este interrogar sobre a longevidade?

Principalmente, quando suas vidas tornam-se descartáveis e insípidas? Muitos, porém, me dizem que gostariam de viver e comemorar estes 100 anos, ainda mais agora com as possibilidades biomédicas de extensão e prolongamento da vida, esperando-se que, bioéticamente, com dignidade e qualidade. A idade, biológica e cronológica, de todos nós ainda é um dos parâmetros para que façamos a medida da vida. É ainda uma bio-ampulheta...

Porém a sobrevivência não é proporcional ao que chamo de 'supervivência", ou melhor da vida que se viva com intensidade e profundo sabor de vida, como nos sugeriu o título daquele suave-alegre-triste filme: o Tempero da Vida... 

A vida precisa de tempero, de bom cozimento, de hora certa para alguns ingridientes, de temperatura adequada para seu preparo, de igualdade e proporcionalidade das diferentes especiarias, uma pitada de ousadia e uma dose de poesia, e mais ainda de muita delicadeza e de arte para sua cozinha política, assim como também um educação do gosto para aprender a valorizá-la em suas diversas apresentações e diversificados odores e sabores, tudo regado por um salutar encontro na mesa grande da família humana e sua diversidade afetivo-culinária. (como o nome grego do filme - Politiki Kouzina, de Tassos Boulmetis).

O Tempero da Vida é uma obra que enternece. E mais ainda pelos ensinamentos do modo educar em cinema que propicia.Trata com suavidade a finitude e a infinitude do viver. Estou estes dias, uns mais dolorosos que outros, pensando/matutando muito o que escrever sobre um acontecimento familiar que me aguarda lá nas Minas Gerais. Há que temperar a vida... e homenagear nossas origens.

No dia 30 de abril de 1910 nasceu o homem que me gerou ao ser afetado por minha mãe, contribuindo para a luz/areia em minha vida com data de vencimento marcada. Ele conseguiu, com nobreza e dignidade, chegar aos 100 anos. Isto muito me orgulha e estimula, pois sua vida e trajetória é marcada por muitos acontecimentos e incidentes, uns trágicos outros cômicos. 

Como, por exemplo, o que ouvi em família quando ele, ao passar em frente a casa de sua futura noiva, minha mãe ANA, o jovem motociclista Arnaldo, sofreu um acidente por ficar olhando para a beleza dela. Ele acabou com uma '' fratura amorosa" de seu braço e de seu "coração"...tudo isso pela persistência de sua conquista afetiva. Aos 98 anos por outra paixão, o vinho, fraturou o fêmur, colocou platina em seu corpo, e em dois meses já caminhava com muito mais galhardia que eu e minha coluna e seus parafusos de titânio.

Costumo dizer que a vida de meus pais me ensina com clareza inevitável o entendimento de nossa transitoriedade humana. Ele, o meu pai fará 100 anos, e minha mãe, que já faleceu, só viveu até a proximidade dos seus anos 50-60. Ela faz parte dos episódios e vivências intensas que o velho Arnaldo teve de enfrentar, pois seu fim de viver foi arrastado, de forma irreversível, pela doença de Alzheimer. Por isso digo que já vivi bastante, e, do mesmo modo, diria como Neruda que "confesso" que vivo intensamente. 

A Dona Morte já me atormentou, mas depois da última cirurgia e seu pós-cirurgico hiperdoloroso, acho que aprendi um pouco mais de resiliência: nóis inverga mais nóis num quebra, diria o matuto, quando nóis ama profundamente a VIDA.

Eu, por tudo isso, acredito na construção de um sólido alicerce para viver e suportar viver. Viver não é moleza, diziam os meus ancestrais mineiros. E digo que esta vida que ando levando, pois sigo o poeta Fernando Pessoa em seu Dessassossego: "Viva a tua vida, não seja vivido por ela.".., o aprendizado da re-existência e do humor tem sido uma boa saída. A todo dia tem muitas coisas, pessoas ou fatos que lhe ajudam a despejar mais um pouco de areia-vida do outro lado da ampulheta... Mas resistir é preciso, viver não é preciso, além de navegar (hoje na Internet é claro)...

A longevidade tem de ser temperada pela arte-vidade, a amorosidade, a Transitoriedade,,,precisamos buscar, olhando para a imensidão do Universo, qual o astrônomo e astrofísico do filme grego, buscar alguma forma de amor intenso, nascido entre temperos, mas que nos faz ter a compreensão de despedida em cada encontro, em cada paisagem, em cada estação de trem ou local de partida. 

E olhando os planetas e o Sol compará-los, poeticamente, com todos as especiarias que um ente querido nos ensina utilizar para uma boa fermentação de nossas vidas. As mesmas vidas que correm o risco de serem transformadas em Vidas Nuas.

Como o velho avô que sonhava retornar a sua terra grega, o astrônomo aprendeu a gastronomia da vida. Eu aprendi com um antigo romeiro, daqueles que caminham a pé, até Aparecida do Norte, que, para superar nossas bolhas nos pés e nossos cansaços físicos, há que buscar alguma transcendência, um além de nossas mesquinhas condiçóes biológicas. Um Zarathustra andarilho que possa estender um tênue fio entre a vida vivida e um além do abismo que nos atrai todos os dias, a tal da pulsão de morte freudiana, mais conhecida como DonaThanatós.

Queria deixar aos meus seguidores e seguidoras, visitantes e leitores do blog um brinde a VIDA e escolher com eles/elas um canto, entre as folhas da relva, de Walt Whitman para homenagear ao meu pai e sua longevidade. 

Acho que o Canto à Estrada Aberta seria um bom brinde aos 100 anos de Arnaldo Pereira de Andrade, a quem dedicarei um grande cartaz/banner com os dizeres: "Arnaldo 100 você eu não estaria aqui...". E talvez responda a curiosa pergunta sobre o "segredo" de como ele chegou a esta idade: caminhar, caminhar, caminhar para além do corpo e sua limitações, como diz o poeta:
"A pé e de coração leve
Eu enveredo pela estrada aberta..."


referências no texto:
Ampulheta
http://www.museutec.org.br/previewmuseologico/a_ampulheta.htm

TEMPERO DA VIDA (FILME)
http://www.adorocinema.com/filmes/tempero-da-vida

DAVID HERBERT LAWRENCE - D. H. LAWRENCE
http://pt.wikipedia.org/wiki/D._H._Lawrence

CANTO A ESTRADA ABERTA- WALT WHITMAN
http://epifaniasvirtuais.wordpress.com/2008/02/13/54/

LIVRO DO DESASSOSSEGO - BERNARDO SOARES&FERNANDO PESSOA
http://livro-do-desassossego.blogspot.com/

ASSIM FALOU ZARATHUSTRA - NIETZSCHE
http://pt.wikipedia.org/wiki/Assim_Falou_Zaratustra

LEIAM TAMBÉM NO BLOG -  
O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E ENTRE TANTOS, O MEU PAI FAZ 102 ANOS - http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/04/o-mundo-envelhece-as-injusticas-ainda.html

sexta-feira, 16 de abril de 2010

POR QUE AS TECNOLOGIAS NOS AFETAM?


imagem publicada - duas crianças, um menino e uma menina, comendo pipoca, sentados em um sofá, assistindo a uma cena em 3D em anúncio de uma televisão em terceira dimensão, usando os óculos especiais para esta finalidade. Eles estão boquiabertos com a sensação provocada pela tecnologia 3D. E ficarão mais surpresos ainda com as que o Futuro nos reserva? ou não haverá surpresas com nossos caminhos sendo cruzados pelas diferentes tecnologias no Futuro?

"Os direitos nascem quando o aumento de poder do homem sobre o homem - que acompanha, inevitavelmente, o processo tecnológico ( a capacidade de dominar a natureza e os outros homens)- ou cria novas ameaças à liberdade do indivíduo, ou permite novos remédios para suas indigências." Norberto Bobbio (A Era dos Direitos)

Devido a um recente aviso da Samsung sobre o efeito danoso de uso de Televisores com 3D para mulheres grávidas, alcóolatras e pessoas idosas, com a presença de "efeitos colaterais", como: "Visão alterada, sensação de enjôo, movimentos involuntários como espasmos musculares, confusão, náuseas, perda de consciência, convulsões, cãibras ou desorientação", interroguei o que as altas (high) Tecnologias causam de 'mal' aos consumidores?

Os gregos tinham uma visão de arte para a palavra "Techné ou Tykne" (técnica), que implicava em dar um 'sentido' para seu signicado e significante; eles, como Aristóteles, em a Ética para Nicômano", tinham a Techné como uma representação das realidades sobre as quais o homem poderia intervir, indagando-se com um "para quê", qual a finalidade, portanto não era apenas um mero instrumento ou meio. Deveriam, e devem as tecnologias, existir em um contexto social e ético, no qual se produzia um valor de uso ao se indagar o 'como' produzir, criar, inventar e o indispensável ' para que e para quem'?.

Por isso, por exemplo, as tecnologias educacionais já foram, são e serão um indispensável ferramenta para determinadas pessoas como as que vivenciam deficiências. Ao se reconhecer que instrumentos ou meios podem desde facilitar, até radicalmente mudar, a visão ou outro de nossos sentidos ou funções corporais. Ao se reconhecer que os mesmos podem equiparar oportunidades e direitos ao remover as barreiras, com uso e acesso universal a todas as tecnologias. Sejam as visíveis ou as invisíveis. Sejam elas 'sociais' ou 'midiáticas ou novas tecnologias de informação e comunicação'.

Esta semana algumas novas tecnologias de acessibilidade e de comunicação estarão sendo apresentadas para pessoas surdas, cegas, com paralisias cerebrais, paraplégicos e outras formas de deficiências. Trata-se da Reatech, uma feira que traz no seu nome a implicação com as tecnologias, em especial as chamadas tecnologias assistivas ou as ajudas técnicas, que muitas vezes mudam e afetam, criativamente, a vida de pessoas com deficiência. 

Nesse campo tecnológico, que pode ser definido como um campo onde se criam ou inventam-se soluções e engenhocas, desde as mais rudimentares às mais sofisticadas, como as que dependem de meios eletro-eletrônicos, encontramos diferentes profissionais dedicando-se de corpo e alma para que as tecnologias estejam a serviço do ser humano. É uso bio-ético possível de uma invenção ou adaptação técnica ou tecnológica.

Eu, no momento, experimento uma adaptação que me tem permitido escrever deitado. É uma simples adaptação de um mesa dobrável com um braço de sustenção que suporta peso do laptop de forma segura. 

Assim como com uma inclinação, por um mecanismo sob a madeira desta mesa para notebook, tornando-a ergométrica e ajustável à melhor posição do seu usuário. É a tecnologia que se torna dobrável ao meu desejo de escrever e de me comunicar por este blog, e não o contrário. Não fosse esta mesa e a sua simples e econômica tecnologia não haveria, logo após a minha cirurgia de coluna vertebral, a possibilidade e a facilidade de usar minhas mãos, idéias e sentimentos para a escrita no notebook, mais ainda se este não existisse...

Por isso é que os gregos tinham o mesmo verbo "tictein"como conjugação tanto para a palavra "técnica" como para a "tecnologia". Eram nascentes da mesma raiz verbal. Este verbo que poderia ainda ser o preciso significado/sentido destas palavras, que o tempo se encarregou de tornar polissêmicas e, às vezes, desvirtuadas e banalizadas, já teve outra inventividade e poesis (capacidade de duplicação e multiplicação vital).

Talvez devessemos e possamos fazer a indagação: os gregos tinham a razão ou a emoção no ato de "criar, conceber, produzir, dar à luz"?. Retomo aqui o que já escrevi há alguns anos atrás (2003), acerca das exclusões de acesso às novas tecnologias e a urgência de sua socialização:

 "A 'naturalização' das tecnologias pode vir a ser enfrentada com resistência, como possibilidade de uma mudança e transformação de nossas condições de sujeitamento e submissão, a partir de uma tomada de posição política e social, na qual coletivamente possamos assumir e concretizar o desejo de que as tecnologias se tornem públicas, universais e democráticas...".

Então, nos perguntamos por quê alguns irão ver em 3D e outros em uma única dimensão: suas realidades ainda são em preto e branco? e ainda assim alguns serão excluídos por seus 'efeitos colaterais'? As mulheres por colocarem sua vida e a de sua concepção ainda intra-útero? os idosos por suas fragilidades geradas pelo envelhecimento biológico ou ou envelhecimento e exclusão por sua invalidez, na sociedade e nas famílias? e os "bêbados" por já estarem, para além de sua dependencia química, vendo e sentindo a vida embriagada em todas as suas duplicidades e esfumaçamentos?

Não, apenas como telespectadores estarão estes 'excluídos da Tv 3D', segundo uma fabricante de televisores e outros eletro-eletrônicos "lembra(ndo) que ver televisão em 3D pode causar desorientação no espectador..."

Para que não sejam acionadas judicialmente, no futuro, pelos bêbados e equilibristas, a empresa não nos adverte para não vermos os Big Brothers e outros reality shows da vida, mas 'para não colocarmos os aparelhos de TV perto de sacadas ou escadas'... Ou seja não nos adverte sobre como evitar o maior dos efeitos colaterais: nossa alienação dos direitos e a perda progressiva de nossas liberdades.

Ironia ou Desprezo por nossas capacidades de crítica e/ou lucidez diante deste recall tecno-eletrônico pós-surrealista?

Agora serão os mercados capitalísticos eletro-eletrônicos os nossos presente-futuros estimuladores de uma falácia: há tecnologias que nos fazem mal. Vamos voltar aos modelos tradicionais de tele-visão. Não importará que, no futuro, tenhamos uma microcâmera orwelliana embutida nestes aparelhos de lazer e controle remoto dos seus espectadores passivos. 

As tecnologias em si, como já disse pela etimologia, não são necessariamente nem boas nem maléficas. As tecnologias, inclusive as biotecnologias, conforme a visão bioética, necessitam é de um maior controle e re-visão de seu uso, finalidades econômico-políticas e de sua forma de produção no Hipercapitalismo.

Muitos dirão que gostamos da idéia da tridimensionalidade dos espetáculos, sejam na tela pequena da tv ou das panorâmicas telas do Cinema, como o recente Avatar de James Cameron, é certo. 

Mas temos de colocar outros óculos além dos adaptados à 3D. Principalmente, diante dos usos de tecnologias reificadas, inescrupulosas e consumistas: o indispensável telescópio/microscópio da crítica ao utilitarismo e à negação dos princípios de proteção da Vida Humana e de todos os seres vivos, bioéticamente, em nome do progresso e da falsa modernização descartável das tecnologias, em todos os campos da Ciência, do Mercado e da Invenção.

TECNOLOGIA PARA O ACESSO ÀS NOVAS TECNOLOGIAS OU ACESSO UNIVERSAL A TODAS AS TECNOLOGIAS? continuarei indagando e questionando...

PS- Senhores Políticos, Sr. Ministro das Comunicações e demais autoridades do campo das Telecomunicações: quando é que reconheceremos o direito à "coisas telecomunicantes" menos 'perigosas' à Saúde Pública que a TV 3 D, por exemplo: para as pessoas cegas, com a Audiodescrição e para as pessoas surdas, como todos os programas, universalizantemente, com Closed Caption?

Fontes:

II REATECH - Feira de Tecnologias em Reabilitação, Acessibilidade e Inclusão
http://www.reatech.tmp.br/
Local - Centro de Exposições Imigrantes - Rodovia dos Imigrantes - Km 1,5 - São Paulo - SP - DE 15 A 18 DE ABRIL.

Grávidas, idosos e bêbados devem evitar TV 3D, alerta Samsung
https://tecnologia.ig.com.br/noticia/2010/04/15/gravidas+idosos+e+bebados+devem+evitar+tv+3d+alerta+samsung+9459008.html

Tecnologia assistiva para o acesso universal ou acesso universal às tecnologias? Jorge Márcio Pereira de Andrade
https://www.cidec.futuro.usp.br/artigos/artigo9.html

Exemplo de Tecnologias Assistivas já produzidas para Pessoas com Deficiência aplicáveis na Educação: https://www.clik.com.br/intelli_01.html

Audiodescrição - 
hhttps://blogdaaudiodescricao.blogspot.com/2009/10/saga-da-audiodescricao-no-brasil.html

Closed Caption - https://pt.wikipedia.org/wiki/Closed_Caption

Inclusão Digital ainda é desafio para o Brasil ( 2017) 
https://www.meioemensagem.com.br/home/ultimas-noticias/2017/03/03/inclusao-digital-ainda-e-desafio-para-o-brasil.html

INFOATIVO DEFNET 4394 - abril de 2010

Referências bibliográficas -

'Para além das exclusões: por uma Sociedade da Informação rumo à Sociedade do Conhecimento e das Diferenças' - 
Jorge Márcio Pereira de Andrade, In "Políticas Públicas: Educação, Tecnologias e Pessoas com Deficiências - Shirley Silva e Marly Vizim (orgs.) - Editora Mercado de Letras &ALB (Associação de Leitura do Brasil), Campinas, 2003.

Tecnologia Educacional - política,história e propostas - Edith Litwin - Editora Artes Médicas - Porto Alegre - RS - 1997.

LEIAM TAMBÉM NO BLOG - 
ROBÔS, POLÍTICA E DEFICIÊNCIA 
http://sinfoativodefnet.blogspot.com.br/2012/07/robos-politica-e-deficiencia.html