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segunda-feira, 23 de março de 2015

AS MASSAS, AS ÁGUAS, AS FLORESTAS E NOSSAS VIOLÊNCIAS...

Imagem publicada – fotografia publicada no site das Nações Unidas (Onu) com um grande poço de água, rodeado de uma quase centena de seres humanos, uma massa de sedentos, em pleno deserto da África, lançando seus baldes em busca desse vital elemento. Um elemento-vida que comemoramos ao mesmo tempo em que esgotamos. Uma pequena amostra de homens e muitas mulheres, com suas vestes típicas, suas moringas, seus potes de barro. O mesmo barro que soprado poderia criar o Homem, mas que estamos tornando cada dia mais seco, mais árido, menos Terra e mais devastação. E, juntos, poderíamos tentar mudar esse rumo. Entretanto, só usamos os barros para novos muros, novas segregações, foi-se o “tijolo” da conscientização política de Paulo Freire? Entram em cena as máscaras e as encenações, hipermidiáticas e hipercapitalizadas, que não educam e nem transformam.

“Nenhum homem é capaz de mostrar um rosto para si mesmo e outro na multidão por muito tempo sem acabar confuso em relação ao verdadeiro” (Nataniel Hawthorne – A letra escarlate)

Você deve estar se perguntando qual a relação ou aproximação que este título tem entre os termos e seus significados (e significantes). Porque relacionar as massas, hoje tão “populares”, televisivas e festivas, nas chamadas ‘’manifestações’’, com as águas, as florestas, que desaparecem? E, enfim, com nossas violências que recrudescem?

Primeiro como repetição, lembrar que estamos em tempos do que chamo de IDADE MÍDIA, depois lhes avisar que os temas são mais amplos e mais oceânicos do que minha vã pretensão. Não tenho como atingir em um texto, embora extenso para alguns, todas as dimensões destas transversalizações. Lembro que estamos em dias que se ‘’comemoram’’ como segregação, na visão local e minúscula, embora todos conjuntamente, propagamos como os ‘’dias internacionais’’, portanto universalizantes e igualitários.

Como assim? Os símbolos de massas atuais estão muito próximos do que Elias Canetti denominou e classificou em MASSA E PODER. Quando milhares que se pretendem milhões levantam suas faixas e seus “protestos” fico mais ainda convicto das lições dessa fundamental, não fundamentalista, leitura dentro de um viés de uma “antropologia patológica” sobre as interações do poder com as massas, seus cristais, seus símbolos, suas múltiplas facetas.

As massas recentemente revelaram um discurso de ódio, de discriminação e de dominação. Estiveram mais uma vez globais, convocando um ‘’vem pra rua”, mais uma vez pedindo: - “Veja, aceite como verdade e se aliene”. Essas maltas elitizadas que usaram, ao máximo, suas máscaras, ou personas, como se fosse uma manifestação de todo um povo, todo um país, toda uma nação.

Gritaram, fingiram-se ‘’revoltados’’, tiraram as roupas amarelo-verdes da Copa e, depois, de uma nova Marcha da Família pela Pátria, agregando desde golpistas, saudosistas da Ditadura, evangelizadores fundamentalistas, neo-nazistas até a  TFP. Passado o domingo e sua exibição, voltaram para seus sofás e suas varandas.

Demonstrou-se, entretanto, claramente, para os que querem enxergar, que podemos todos nos torna uma massa corrompida que cospe a Mentira e a Agressão para sua própria produção de farsa, daquilo que julga, freneticamente, combater: a corrupção.

Estes recentes fatos massificantes, que antevi em 2013, também confirmam como, por que e para quem podem se tornar um mar falso revolto,  por ondas fascistantes, areias movediças dos preconceitos e velhos rios turbulentos das Águas de Março de um Golpe civil-militar. Águas barrentas, vistas apenas um temporal, hoje só uma chuva que decantou essas areias, demonstrou que o “mar não tem limites internos e não está dividido em pequenos povos e territórios”.

O Tsunami instituído e politicamente desejado ainda não veio. Entretanto, mais uma vez, como repetição neurótica e histriônica, nos mostrou a máscara triste e carrancuda dos micro-fascismos instituídos e latentes em nós. Os monstros fardados, aparentemente adormecidos-anistiados, dos porões da Ditadura foram invocados, militarescamente, seriam e serão, como velhos refrões e clichês: os restabelecedores da Ordem e do Progresso.

 Essa mesma ordem que suprime o que mais precisamos: a diversidade, a floresta tropical dos conhecimentos ou atlântica das liberdades civis. Sabemos que árvores, simbólica e ordenadamente enfileiradas, lembram bem as milícias, as patrulhas e os exércitos.

Nenhum dos seus “indivíduos” escapará, como um símbolo, da atração pelo fogo grupal e seu incêndio, à destruição de sua própria existência. Como diz Canetti, dentro dessa imobilidade múltipla, com raízes bem duras e fincadas, os troncos (indivíduos) podem ser cortados, mas não movidos. Ficam como os campos arrasados ou minados. Restos de árvores que podem ou não renascer.

Segundo ele, “a floresta se converteu num símbolo do exército: um exército em formação, um exército que não foge (à luta) em circunstância nenhuma; que se deixa despedaçar até o último homem antes de ceder um único palmo de terreno”. 

Assim também se criam desertos e homogeneidades ideológicas. Assim, naturalizamos e banalizamos as violências dessas chamadas “manifestações pacíficas”, apesar de seu claro desejo de devastação do que escolhem como os “inimigos”: desde um Partido/Governo até os sem-teto, os sem-terra, os off-line.

Os “novos” oponentes ou ameaças, ou mesmo os que ficaram e ficarão fora, como já o são estes “divergentes embora emergentes” na Sociedade de Consumo e do Espetáculo. Para tanto basta que os marquemos com uma estrela vermelha ou mesmo aquela amarela do nacional-socialismo alemão. Um estigma, uma discriminação e identidade. Então viram menores infratores ou maiores delatores.

Os antigos “bodes expiatórios” só trocam o pijama listrado por uniformes pardos. Os velhos guerrilheiros pelas novas/velhas calças jeans desbotadas ou surradas.  E, alinhados com os nacionalismos, serão alistados nesse exército da salvação, vestirão novos ternos e novas gravatas políticas ou jurídicas. Proclamam sempre um novo país, mas mantem as velhas posturas despolitizantes das maiorias.

Surgem aí as violências subterrâneas, enraizadas historicamente nos muitos anos de colonização e escravatura. Os bem-nascidos continuam sendo uma suposta “classe”. A chamada “elite”, branca, culta, muito ou pouco rica e que não precisa de cotas. Uma parcela que se diferencia e tem como identidade a sua individualista forma de viver. Dizem-na sempre “média”. Para mim tornou-se mais que isso: supõem-se mais “normais” e “íntegros” do que qualquer Outro das chamadas classes subalternas ou inferiores.

 Incomodam-se com essa ascensão desses Outros, na maioria afrodescendentes ou ‘mestiços sócio-econômicos’, aos direitos sociais e às galerias dos shoppings, onde ameaçam os novos grupelhos de “nossos filhos com escola privada, smartphones e roupas de grife (mesmo que estas sejam fruto de trabalho escravo)”. Seriam eles os novos bárbaros? Ou apenas são descendentes de outras raças, outras terras, outros planetas?

Nesses dias, tão comemorativos, inclusive daqueles que chamamos de pessoas com Síndrome de Down, muitas vezes vistos ainda com extraterrestres ou mongóis, portanto invasores, assim como os meninos e meninas negros em um shopping, é que percebemos o quanto ainda discriminamos, rejeitamos e fingimos aceitar essas diferenças e diferentes em nosso casto e puro mundo idealizado. Para eles abrimos espaços, já que estiveram muitos séculos fora-das-leis e dos direitos, em novas massas a serem incluídas.

E desejamos tanto usar o discurso da inclusão que acabamos por criar novos e sutis modos de exclusão, ou mesmo de extermínio, inclusive com as biopolíticas e as engenharias genéticas. Usaremos tanto o discurso da prevenção dos erros genéticos como os discursos falaciosos de suas proteções. Serão todos homogeneizados, todos reformados ou remodelados. A sua presença não significará sua garantia de re-conhecimento.

Se nos faltar a água, se cortamos todas as árvores, se secarmos todas as nascentes, desmatarmos e des-florestarmos nossas relações e afetos, assim massificados não escaparemos dessa insensibilidade cruel. Uma cruel compaixão.  O Outro excluído  pode ser a fonte a ser destruída. Ele encarna o que nos dizem ser o “Mal” ou “Mau”.

Esse Mal, o mesmo que ouvi gritarem das janelas e sacadas, que foi midiaticamente localizado em uma figura de poder. Esse Mal que ocupa mais espaço nas redes sociais que todas as vacinas para o HIV. Esse Mal que “tem de ser cortado pela raiz”, o mesmo que é banalizado quando olharmos para esses dados: “no Mundo 768 milhões de pessoas ainda não tem acesso à agua tratada; 2,5 bilhões de pessoas têm condições sanitárias ruins ou  péssimas; 1,3 bilhão não tem acesso à eletricidade...”(*).

 E, por exemplo, mesmo que sejamos uma parte invisível de mais de 25 milhões de pessoas com deficiência, ainda, para além das Leis de Inclusão, continuamos diferentes e desiguais. Afinal, a desigualdade já é ”natural e da Natureza” (inclusive da “humana”). Estes sujeitos ainda continuam, assim como os marginalizados, fazendo parte destes números apresentados acima. Ocupam, junto de jovens, negros, mulheres, lésbicas, trans, homossexuais, pobres e outros desfiliados a massa quase líquida como sua modernidade. Ainda são descartáveis. São "menores"?.

Não importa a falta de água, da privada ou da luz acesa, na casa ou teto desses “incômodos e estranhos vizinhos”. Importa, cada dia mais, o quanto de grana conseguimos ganhar, gastar ou poupar para nossos consumos autorizados, compulsivos e sacralizados. A escassez, inclusive de afetos, que produzimos ou somos coautores não nos sensibilizou nem um pouco. Esses Outros são apenas os que são “portadores” ou “desviantes”.

E o nosso vizinho, aquele ali do lado no condomínio (fechado ou sob vigilância crescente), é apenas um brasileiro “normal”. Mas se aplicarmos as lentes da Arendt, olhando-o trans historicamente, ele fica parecido com o ‘bom’ homem que foi Eichmann.  Como o oficial burocrático do campo de concentração nazista do passado, hoje, podemos ser apenas um bom pai, ou boa mãe, um sujeito de boa família, com um bom sobrenome, de tradição e de direitos. Somos e seremos aqueles que “nunca transgrediram ou transgredirão, ou violaremos uma lei, ou estacionamos em vagas prioritárias, ou nem vemos placas de trânsito sobre nossos tempos da velocidade”. Como dizem: estes seremos, os imaculados cidadãos e cidadãs “que nunca se corromperam e nem se corromperão”.

Entretanto, quando perdidos diante da seca e do incêndio da floresta, suplicantes por uma gota de chuva iluminadora, diante do enorme buraco negro de nossas securas humanas, nos tornaram uma máquina, um exterminador, ou um perigoso e voraz animal. A sua e a nossa banalizada violência agora pode ser grupal. Valerá tudo para que tenhamos o “poder” de “limpar a sociedade” dos que se tornaram os “culpados” de toda essa “desordem político-institucional e socioeconômica”.

Mais uma vez lembro Canetti: “No tratamento dos judeus (e todos os dissidentes políticos, ideológicos, raciais ou sexuais), o nacional socialismo (nazismo para os que ainda não sabem disso) repetiu da forma mais exata possível o processo da inflação. Primeiro eles foram atacados como maus e perigosos, como inimigos; depois foram sendo cada vez mais desvalorizados (associados à inflação e desvalorização do marco alemão);... e, no final, eles eram considerados literalmente como ‘insetos nocivos’, que podiam ser exterminados aos milhões”. E lema ainda é usado pelas corporações: Arbeit Macht Frei – O trabalho liberta...

Os “homens e mulheres do Bem”, nessa Idade Mídia, com suas cruzes ou seus tabletes, armados e municiados da mais pura alienação ideológico-política, tornam-se os “novos cruzados”. Reapresentam a suástica no mesmo cartaz ou faixa que pede intervenção militar. Os anunciadores do apocalipse da Terra Brasilis vestem seus uniformes. Hasteiam a bandeira da Tradição, da Família e da Propriedade. Tingem os rostos como de fosse para uma guerra santa. Iludem-se, quiçá, alucinam, com a miragem que lhes foi vendida como oásis.

 E, aí, deixam o homem “comum” se tornar uma das forças do Mal. O mesmo que lá nas histórias totalitárias se transfigurava em legítima violência em nome da Segurança Nacional. Aquele que pode legitimar as piores torturas ou aprisionamentos. E, sedentos de identidade, tentarão, como massa inflacionária, como uma dengue, uma epidemia “legal”, contaminar o máximo possível em direção às massas que se pretendem um milhão.

Eles e elas, ao se vestirem em suas uniformidades bicolores, nacionalistas e excludentes, acabam por esquecer as cores de seus próprios corações. Afinal ainda dizem que nosso sangue comum é vermelho. Passam e desfilam em avenidas, mas nunca irão conhecer as vielas, as ruelas e os becos transversais. Afinal ainda reservam esses locais para o ‘’proletariado’’, “pobres”, “povo” ou “favelados”. Cuidado ali é uma comunidade onde as balas se perdem, os corpos podem ser arrastados, e, para sua segurança, procure a Rota.

Passado o calor do pequeno incêndio explorado por lentes de aumento, não desprezando seu potencial virulento e dessensibilizante, as panelas voltam para as mãos das empregadas domésticas. O nosso pão de cada dia é recheado de manteiga, os afagos nas PMs desaparecem, enchemos os nossos poluidores veículos com os combustíveis antes do fim do pré-sal, e nossas mesas fartas/opulentas continuam, assim como as televisões de tela plana e mentes também, imóveis como os eucaliptos em falsas florestas. Até sermos abatidos.

O único risco que corremos e corremos, se continuar essa Onda, é que tenhamos de lembrar que revoltadas deveriam estar essas pessoas off-line, marginalizadas de todas as redes, hora esquecidas e, apenas eleitoralmente, hiper “incluídas”. Entretanto, permanecem ainda vítimas de todas as violências, desde as urbanas visíveis às domésticas invisíveis. Violências e vulnerações já naturalizadas, em especial contra, aqueles que classificamos, como no Espetáculo das Raças, como vulneráveis, desviantes, desnaturados, desfiliados ou incapazes da auto-defesa.

Eles tenho certeza, não são e nem serão os que mais esperdiçam as águas, desmatam o futuro, mas podem vir a ser as massas que terão o papel de enfrentamento das neo-colonizações e dos novos Impérios.

ENTÃO, em seu nome, sem sua autorização, podemos, todos e todas, com “classe”, comemorar os dias ‘’internacionais”: da Criança, da Síndrome de Down, da Eliminação da Discriminação Racial e do Racismo, da Poesia, das Florestas, da Água.

E, como todo dia é de reinvenção e poesis, quem sabe um dia, em sonho e porvir, inventemos a não repetição de milhares ‘’Noites dos Cristais” de massa, milhares de dias de Muros a derrubar, seja em Berlim ou na Palestina ou no México,  milhares de Golpes a desmantelar já que nos demolem direitos humanos, milhares de  Falsas Re-involuções ou Massas Fanáticas, que não distribuem rosas ou cravos, mas sim distribuem, sem distinção de classes sociais ou econômicas, os piores espinhos ou venenos ideológicos.

Enfim, semeiam, mesmo nas mentes mais desérticas, os narcisismos das pequenas diferenças e o ódio ao Outro e à Diferença... Já nos re-conhecemos como massa, quando seremos uma multidão? Quando seremos nossa mais im-pura água semeadora de múltiplas florestas humanas, como plural das diversidades e das diferenças desejantes?

Copyright/left jorgemárciopereiradeandrade 2015-16 ad infinitum - todos direitos reservados 2025 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios ou mídias de e para as massas)

LEITURAS CRÍTICAS PARA OS NEO-REvoltaDOS E DES-MATADORES DO FUTURO (assim como releitura para os que ainda sonham e são chamados de utópicos ou ‘vermelhos’, pois eu sei que sou e serei, poeticamente, sempre PRETO, trans-portando a combinação de todas as cores):

MASSA E PODER – Elias Canetti, Editora da UNB/Melhoramentos, Brasília, DF, 1983.
O ESPETÁCULO DAS RAÇAS (Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil)– Lilia Moritz Schwarcz, Editora Companhia das Letras, São Paulo, SP, 1993.

EICHMANN EM JERUSALEM (Um relato sobre a Banalidade do Mal – Hannah Arendt, Editora Companhia das Letras, São Paulo, SP, 1999.

SOCIALISMO OU BARBÁRIE (O Conteúdo do Socialismo) – Cornelius Castoriadis, Editora Brasiliense, São Paulo, SP, 1983.

O SILÊNCIO DO ALGOZ (Face a face com um torturador do Kmer Vermelho) – François Bizot, Editora Companhia das Letras, São Paulo, SP, 2014.

O QUE É VIOLÊNCIA SOCIAL - Antônio Zacarias, Daniel dos Santos, Jorge Márcio Pereira de Andrade, Ricardo Arruda, Escolar Editora, Coleção Cadernos de Ciências Sociais (Org. Prof. Carlos Serra), Lisboa, Portugal.

Indicações de matérias da Internet ligadas ao texto:


No Dia Internacional das Florestas, ONU lembra que 1,6 bilhão de pessoas depende delas para viver https://nacoesunidas.org/em-dia-internacional-das-florestas-onu-lembra-que-16-bilhao-de-pessoas-depende-delas-para-viver/

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –

ÁGUA PARA QUE TE QUERO? Dia Internacional da Água https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/03/agua-para-que-te-quero-dia.html

A CORÉIA DO FANATISMO POLITICO E O FANATISMO RELIGIOSO DO PASTOR: estamos no Século XXI? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/04/a-coreia-do-fanatismo-politico-e-o.html


RACISMOS, BARBÁRIES, FUTEBOL... ONDE ENTRECRUZAM AS VIOLÊNCIAS SOCIAIS? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/05/racismos-barbaries-futebol-onde.html

MOVIMENTOS, MASSAS, MANIFESTOS E HISTÓRIA: POR UMA MICROPOLÍTICA AMOROSA, URGENTE. https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/06/movimentos-massas-manifestos-e-historia.html

A MÁQUINA DA EMPATIA – INCLUINDO A REINVENÇÃO DO OUTRO https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/12/maquina-da-empatia-incluindo-reinvencao.html

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A PRAÇA É DO POVO? AS RUAS SÃO DOS AUTOMÓVEIS E ÔNIBUS? E DIREITOS HUMANOS SÃO DE QUEM?

Imagem publicada – uma foto que tirei de um velho cartaz dos anos 80. É o cartaz de um evento que organizei junto com o Núcleo de Psicanálise e Análise Institucional, com o título, à direita: “68: Maio-junho e depois?”, com os nomes dos coordenadores desta Mesa redonda, à esquerda: Heliana Conde Rodrigues, Maria Beatriz Sá Leitão (in memoriam), Maria Isabel Feitosa, Jorge Márcio Andrade, Vera Vital Brasil, Ronald Arendt e Cecília Coimbra. É uma montagem de uma foto que tenho de David Gerard, de 1970, em preto e branco, onde há redesenhado um menino com uma máscara de gás, como um focinho protetor, traz uma garrafa de refrigerante na mão direita, uma Coca cola, como alusão aos coquetéis Molotov que foram usados em manifestações e resistências nos anos 60, mais especificamente no ano de 1968. Hoje, após as imagens, que só assistir sem não mais participar, do dia 13 de junho de 2013, me fizeram buscar essa indagação institucionalista já tornada antiga em meu coração: os meninos e meninas, os jovens do futuro terão de continuar fazendo, como no cartaz, um grande “X” em vermelho, com caneta esferográfica, sobre a palavra Estado?

Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão  (Pra Não Dizer que Não Falei das Flores
  Geraldo Vandré)

Até onde a manifestação de milhares de pessoas nas ruas de São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais contra aumentos de passagens é um ato considerado legítimo?  A questão é o preço, o quanto custa ou os custos de todas as nossas indignações contra as imposturas, desgovernos e corrupções da Sociedade do Espetáculo e de Controle?

Há a necessidade de analisarmos com mais atenção, carinho e respeito esse retorno das massas às ruas, às praças e ao ato da indignação. Em todo o mundo estão ocorrendo estes movimentos públicos que expressam indignação e revolta, como dizem Michael Hardt e Antonio Negri: “.... Manifestos trabalham como os antigos profetas, que, com o poder de suas visões, criam seus próprios povos. Os movimentos sociais dos dias atuais reverteram a ordem, tornando obsoletos manifestos e profetas. Os agentes da mudança já tomaram as ruas e ocuparam as praças, não apenas ameaçando e desestabilizando governantes, mas também conjurando visões de um novo mundo. Mais importante, talvez, as multidões, através de sua lógica e de suas práticas, de seus lemas/slogans e desejos, declararam um novo conjunto de princípios e verdades...”.

Eles indagam como estas manifestações públicas, espalhadas pela Europa, pela África, pelos Estados Unidos, e , agora no Brasil, podem com as suas declarações nos ajudar na reinvenção da maneira como nos relacionamos com os Outros e o nosso mundo?

Hoje, para estes pensadores políticos raros, é preciso crer e agir para que as pessoas sejam por suas capacidades e sabedoria de se autogovernarem, ao sair para as ruas e o mundo, geradoras das novas visões de mundo desejado e de direito de todos e todas.

 Os “novos profetas” urbanos não são do Apocalipse. São os muitos jovens, como os de 68, ávidos por justiça e direitos humanos. Já entenderam que estes ditos direitos não são os deturpados e ‘mal-ditos’ como sendo apenas para os aprisionados e foras da lei. Sabem distinguir a sua extensão a toda e qualquer forma de vida sobre a Terra.  São também, mesmo que excluídos como minorias, os mais desiludidos diante do hipercapitalismo.

E as multidões vão atrapalhar o trânsito. O que não é apenas a interferência nefasta sobre o meu, o seu e o nosso direito de ir e vir. É o confronto com as instâncias instituídas de poder, que usando a força de suas polícias, na falha de suas políticas públicas, acabam tingindo com sangue suas próprias mãos.

Já disse, hoje, após assistir as manobras políticas e as policiais, muito semelhantes em suas cruentas posturas e uso de suas forças, que não existem ‘balas de borracha’. Existem, sim, as muitas formas de exercício de controle biopolítico dessas multidões que não mais se acomodam apenas em poltronas e manifestos On line.

As balas usadas hoje, junto com a cortina de fumaça dos gases lacrimogêneos e as bombas de efeito moral, não são tão flexíveis como a borracha dos seringais. O material que as compõe é tão belicoso e controlador, embora aparentemente menos letais que as balas de chumbo ou aço.

Não existem BALAS de borracha, existem os que as usam para ferir quem os ''ameaça'' e dizem que a borracha “não mata”.  Os discursos sobre os feridos da multidão, incluindo os que trabalham para as mídias, despontam como sendo “excessos pontuais” da Polícia. Serão denominados também como meros “efeitos colaterais” do exercício da governança.

Entretanto, essa Violência é parecida com as que se impõem aos manifestantes de todo o mundo. A Palestina é aqui, a Grécia é aqui, a Turquia é aqui, o Egito é aqui, e também o HAITI É AQUI. Nosso mundo não é apenas “Glocal” e globalizado, é um mundo com todos os capitalismos integrados e mesclados.

Em todos os lugares só usam BALAS os que as produzem, comercializam, exploram, promovem seu aperfeiçoamento, e, depois entregam essa munição como balas a fundo perdido, inclusive para a criminalidade. Tenhamos certeza: o próximo alvo encontrado podemos ser nós, seu vizinho ou apenas um transeunte desconhecido.

Não existem proprietários dos espaços públicos. A noção de rua como espaço de liberdade é fundamental. O que podemos lamentar é que só se exerçam poderes com por trás de máscaras da opressão, da repressão, da violência, mais grave ainda se é feita pelos discursos ou ações “legitimadas” dos nossos governantes, pois como dizia Saint Just: “... não se governa inocentemente”.

Quando jovens, sejam da Zona Leste de São Paulo ou da Zona Oeste do Rio de Janeiro, vão às ruas protestar pelos centavos, aparentemente muito pouco para os que têm muito, há uma inversão de seu ato de massa. O seu protesto vai além do valor monetário da passagem. Eles e elas estão reivindicando sua não exclusão, lutando contra a onda de desfiliação e de segregação oriunda dos desempregos e das manipulações econômico-financeiras.

O mesmo trabalhador que se queixa do jovem com uma bandeira na mão é o que poderá se sentar com mais conforto e respeito em um transporte público e digno para todos; o mesmo jovem atingido por gás pimenta e emborrachas balas bem dirigidas pode vir a ser um trabalhador do transporte público de massa sustentável e ecológico, se o seu protesto não for considerado apenas um ato de vandalismo ou baderna. Como escreveu James Baldwin, nos Anos 60, "... da próxima vez, o Fogo".

E, aquele que fardado pelo nosso dinheiro público é investido da função repressora também é e será colocado sob a linha de tiro das explorações e desqualificações, sem falar de seu real risco de matar, como dizia o Vandré: “Há soldados armados, Amados ou não, Quase todos perdidos De armas na mão, Nos quartéis lhes ensinam Uma antiga lição: De morrer pela Pátria E viver sem razão...”.

A canção que tem toda a mítica e a História de resistência aos Anos de Chumbo da Ditadura Militar afirmava a presença dos indignados nas ruas. Não eram estímulos a uma subversão apenas, não eram apenas comunistas ou anarquistas, eram as multidões que não mais aceitavam as formas duras e inflexíveis do Golpe Militar, que foi transformado em Revolução.

Nas flores que não falamos por um longo período. Flores murchas, silenciadas com Tortura, Repressão e Violência do Estado. Flores que permanecem nos nossos corações como desejo de outras subjetividades e cartografias para nossas existências.

E, como diriam Hardt e Negri, esses: “...Movimentos de revolta e rebelião, pensamos, proveem os meios não apenas para recusar os regimes repressivos sob os quais sofrem essas figuras subjetivas, mas também para reverter essas subjetividades em figuras de poder”.

Hora, portanto, de ampliação de uma escuta/olhar sensíveis e respeitosos sobre essas multidões. Elas ecoam apenas o início de revoltas contra as produções de subjetividade de Endividados, Representados e Midiatizados. Aparentemente são muito poucos, por isso é que estão a quantificar as massas nesses eventos. O futuro dirá quantos serão nas praças, nas ruas e na constituição de novos modos de ação democrática.

Não retornamos a 1789, nem mesmo a 1948, mas os direitos considerados inalienáveis, uma construção/invenção dos séculos passados, passou a operar nos subterrâneos desses movimentos sociais, indo dos índios Munduruku até os jovens cantando e desfraldando surradas bandeiras. Não importam e importarão as suas cores, defesas ou lemas, contanto que os que detêm poderes aprendam a escutar e respeitar estes desejos de massa.

O Sr. Adolf soube manipular o desejo de amor e carisma de toda uma massa, todo um povo alemão. Freud em sua obra, a “Psicologia das massas e Análise do Ego”, ao analisar duas massas ‘artificiais’, as Igrejas e os Exércitos, nota que nas duas instituições “reina a mesma ilusão: a da presença, visível ou invisível, de um chefe que ama todos os membros daquela coletividade como um igual...”. Os que não gritassem Heil estavam contra o Grande Irmão.

 Existem, inclusive nos Direitos Humanos, pastores deputados dizendo que nos amam, que Cristo nos une, mas que exigem nossa total renúncia à diferença e à heterogeneidade, inclusive dos desejos e, principalmente, dos nossos direitos inalienáveis.

Há, em tempos pastorais e fanáticos, como já escrevi, uma enorme possibilidade dos obscurantismos e dos fundamentalismos arregimentarem e arrebanharem novas hordas de intolerância, novos eleitos, novos imaculados. Estas manifestações também podem ocupar os espaços públicos. Como massas também podem gritar slogans. A principal diferença é que nelas todos têm de ser ou se tornar HOMOgêneos.

Por isso ainda não tenho a resposta do cartaz: 2013, um ano pós-Maio de 68 ou o desejo triste e mortífero de retorno a um Março de 64? E depois? Serão outras flores, outras Primaveras?

PS.- Anuncio que a FRASE que cunhei para o Concurso da SEPPIR (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República), em comemoração do dia 13 DE MAIO – UMA OUTRA HISTÓRIA, foi uma das três vencedoras, com o meu desejo de "Abolir as novas escravidões e os velhos racismos, um futuro possível e urgente para o Brasil"...

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2013/2014 (favor citar o Autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de Massa - TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

INDICAÇÕES E FONTES NA INTERNET –


INDICAÇÕES PARA REFLEXÃO E CRÍTICA –
DECLARACIÓN – Michael Hardt & Antonio Negri, Ediciones Akal, Madrid, Espanha, 2012.

SOBRE A VIOLÊNCIA – Hanna Arendt, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2011.

AS FIGURAS DO PODER – Eugène Enriquez, Via Lettera Editora e Livraria, São Paulo, SP, 2007.

LEIAM TAMBÉM NO BLOG:

ONDE NASCEM E MORREM OS DIREITOS HUMANOS?

A CORÉIA DO FANATISMO POLÍTICO E FANATISMO RELIGIOSO DO PASTOR – Estamos no Século XXI? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/04/a-coreia-do-fanatismo-politico-e-o.html   

A MORTE DO FANÁTICO NÃO MATOU O FANATISMO

O ESTATUTO DO HOMEM E O DIA INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS

A VIOLÊNCIA NOSSA DE CADA DIA... DAÍ-NOS TAMBÉM.
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/11/violencia-ou-melhor-as-variadas-formas.html

terça-feira, 7 de agosto de 2012

EM BUSCA DE UM CORPO “PERFEITO” PERDIDO, no tempo das Olimpíadas...


Imagem Publicada – A foto colorida da AFP publicada com Oscar Pistorius, um atleta sul-africano que com suas pernas substituindo sua dupla amputação sai na pista em busca de participar das finais da corrida de 400 metros nas Olimpíadas de Londres (2012). Pistorius teve que amputar as duas pernas abaixo do joelho aos 11 meses de idade devido à ausência congênita de fíbula em ambas as pernas e por isso corre com próteses de lâminas de carbono. (Autoria da foto – Olivier Morin) -
PS-  em julho de 2016 ele foi condenado a 06 anos de prisão por matar sua namorada Reeva Steemkamp na África do Sul)

Este texto estava em "fermentação emocional" desde o início das Olimpíadas... Um corpo insone não significa um corpo sem sonhos.

CITIUS, ALTIUS, FORTIUS. Eis o lema olímpico da época de sua primeira realização pelo Barão de Coubertin. O lema representa a retomada, quase renascentista, de um ideal para o corpo humano? Sim, de forma helênica e através do latim procurava-se: sermos cada vez MAIS VELOZES, MAIS ALTOS (ou MAIS LONGE) E MAIS FORTES...

Tenho assistido, após alguns tempos de imobilidade para a árdua e solitária tentativa de escrever, as múltiplas apresentações televisivas de nossos desejos “áureos” do pódio. Queremos, torcemos, vibramos e nos emocionamos na busca do Ouro Olímpico e nos transportamos para o reinado dos estádios e das suas multidões.

Também vivenciamos outras vitórias. Mas essas ficam menos visíveis nos tempos da Sociedade do Espetáculo em HD. Não nos sensibilizamos com outras disputas que não as que tenham alguma bandeira ou hino a ser comemorado. Ufanistas e patrióticos desejamos, e eu também desejo, ver nossos atletas vencendo as disputas por medalhas.

Já fui, embora hoje nem pareça mais, após as “imobilizações e deficiências que adquiri” a que fui submetido, um “atleta”. Há muitos, muitos anos eu corria lá no interior fluminense. Eram meus tempos da ditadura. Eu apenas estudante de medicina, mas também um sonhador com um corpo atlético e veloz. Eu fazia parte de um sonho de ganhar medalhas. Corria numa prova em especial: os 400 metros do atletismo, mas também fazia o heptatlo.

Essa prova é uma das que mais exigem um ideal de superação corporal. É nela também que podemos incluir os ideais, a semelhança da Maratona, de um corpo que suporte a dor, o cansaço, a fadiga muscular e a perda do fôlego vital. Temos como diziam nas corridas que participei de “correr como os cavalos”. Só que nessas provas de superação quase sempre alguém tem de ficar em último lugar.

Nessa Olimpíada de Londres tele assisti a maior demonstração de humildade e reconhecimento. Por coincidência, talvez, ocorreu também na prova dos 400 metros. Nela Oscar Pistorius teve a sua participação e foi o último a chegar. Com suas pernas high tech, substitutas das que consideramos as “normais ou perfeitas”, participou das semifinais dos 400. E devido a elas foi apenas mais um perdedor?

Um acontecimento, logo em seguida, nos respondeu pelos aplausos da multidão: Não, não é um "retardatário". Um ganhador de prêmios, que não é biamputado, lhe pediu gentilmente que lhe desse o número pregado na sua camiseta. Era o corredor de Granada, Kirani James, que fez o maior gesto de reconhecimento a este atleta paralímpico que persiste em correr junto aos que são considerados, como Osain Bolt, os "olímpicos", como os deuses perfeitos das/nas pistas.

Como atletas de um mundo que supervaloriza a nossa corporeidade com perfeição, como modelos para nossa subjetivação, caminhamos em direção ao rompimento de nossos próprios recordes. Tendemos a nos tornar trans-humanos? Não basta que sejamos super?

Somos, como Pistorius, comparados aos androides futuristas de Blade Runner? Este magnífico e intenso filme que nos propõe, através de seu diretor Ridley Scott que possamos, a meu ver, viver uma sincera e preventiva reflexão ética com uma ficção científica. Destruiremos e caçaremos qualquer forma de vida diferente, mataremos como outro Holmes, o James, qualquer um que não seja um Coringa ou Cavaleiro das Trevas?

Seremos, no futuro, mais que ciborgues, apenas “replicantes”? Talvez sim, pois o filme foi considerado, pela Biblioteca do Congresso (USA) como sendo "culturalmente, historicamente ou esteticamente significante" (1993). O detalhe é que os replicantes são criados geneticamente à semelhança integral dos seus caçadores. O detalhe é que são banidos e expulsos do Paraíso futurista. Tornam-se robôs, como a personagem feminina (Rachael) capazes de, tornando-se humanamente sensíveis, nos apaixonar.

Estes robôs orgânicos não são mais o futuro. Eles já existem no aqui e agora. Recente matéria televisiva nos mostrava um comediante japonês sendo “substituído” por uma cópia androide mais que perfeita. O artista que fazia rir agora velho estava completamente renovado no palco.

Esta também é a ideia de novos blade runners? Nas Olimpíadas do Rio teremos novos corpos admiráveis, que nos causam inveja e sensação de superenvelhecimento, nos desafiando ao desejo de um corpo perfeito que foi perdido no tempo? Que dopings, não detectáveis, teremos de usar para que nossos corpos tornem-se passíveis do endeusamento?

O corpo continua sendo nosso maior ego. O corpo também é o herdeiro de uma estigmatização e exclusão quando visto ou apresentado como deficiente. O corpo ainda é nossa maior oficina da moralização e do preconceito. Nestes tempos olímpicos faz-se necessária uma re-visão de sua desapropriação e exaltação.

Uma fonte rica para esta reflexão nos é proporcionada pela leitura de Richard Sennet. Este amigo sincero de Foucault nos provoca com a reflexão sobre o que aprendemos, historicamente, de repressão e de docilização de nossos corpos e vidas nuas. Em seu texto Carne e Pedra, nessa relação de nossos corpos físicos com a pólis, ele nos diz: “As imagens idealizadas do corpo que regem nossa sociedade nos impede concebê-lo fora do Paraíso...”.

Dele, segundo a visão cristianizada e ocidental, embora expulsos do Olimpo ainda poderemos tentar chegar a semideuses, com as nossas formas globalizadas de disputar quem é o melhor, o mais rico, o mais forte, enfim, o mais poderoso.

O ideal Citius, Altius, Fortius não passa, então, a representar quem mais tem recursos para o esporte ou quem tem mais força e poder no atual hipercapitalismo? O que não podemos esquecer que mesmos os mais “subdesenvolvidos” acabam surpreendendo os que se consideram donos cativos do primeiro lugar.

Acabamos de ver que, individualmente, ainda temos muitos desconhecidos que se tornaram, miticamente, nossos próximos heróis. Porém se tomarmos cuidado não lhes exigiremos que se tornem mais-que-perfeitos, obsessiva e paranoicamente os nossos maiores campeões do Futuro.

Vamos encher nossos estádios novamente? Esperamos que sim, mas também vamos ter que reaver todo o nosso investimento de milhares de desconhecidos que levantaram as pedras de nossas novas e faraônicas obras. Os zés-ninguéns que também precisaram vencer algumas competições para entregar a tempo toda a infraestrutura de nossa Copa e nossa Olimpíada.

Estes corpos trabalhadores, outra massa, também preparam e participam dessas reconstruções de Maracanãs espalhados em nossa Terra Brasilis. Uma pátria, um país, uma nação onde muitas outras obras, que enterram muitas corrupções, estão e estarão necessitadas de nossa atenção e reconhecimento. Estes nossos corpos/maioria, desde os egípcios e gregos, compõem os que podem ser considerados escravos, portanto vidas nuas e matáveis. São, foram e serão sempre a base de sustentação e criação das pirâmides...

Há um mito, talvez mais que realidade, que diz que a Ponte Rio-Niterói, construída em tempos de Ditadura militar, tem em suas bases, pilastras e alicerces de cimento muitos corpos operários. Que nome tem essa ponte que não é como a Bioética pensada para o futuro?

Portanto, por mais que me envolva com o meu próprio entorpecimento pelas imagens contagiantes dos olímpicos e das multidões, sabendo que heróis e heroínas são apenas mortais, tenho de aprender, com o meu próprio momento, que a corrida Pela Vida é ainda mais importante do que a que me torna apenas um fugaz rompedor dos seus recordes.

Mesmo assim dou parabéns aos nossos poucos atletas vestidos de amarelo e ouro, seu esforço para vencer a dor, saltando, correndo, ou pendurados nas argolas, me reforça o aprendizado que recusamos a reconhecer esta experiência como inevitável e insuperável.

Nunca ganharemos essa corrida, esse jogo ou essa disputa. A dor faz parte desse prazer de sermos apenas, demasiadamente, humanos. E, eu, você e todos (as) nós continuaremos em busca de um corpo perfeito perdido no tempo.

E vem aí a Paralimpíada de Londres, em 20 de agosto, que perdeu o O das Olimpíadas. A nossa Sociedade dos Espetáculos irá midiatizá-la com a mesma força, velocidade e intensidade? Com certeza Pistorius não estará por lá, mas muitas medalhas de ouro, como em 2008, nos colocarão em outro patamar nessa visão, para além dos Brics, no mundo globalizado.

Paralimpíada é apenas a contração terminológica de “Paraplegia” e “Olimpíada”?

 Se o for tenho certeza de que, esperando estar vivo e ativo, ainda não sei verei outros atletas paralímpicos, do atletismo nacional e internacional, correndo em meu/nosso nome nos 400, ou outras provas difíceis, do Rio 2016, ou seja, apenas como um corpo pleno de intensidades e desejo, e não um corpo mutilado e “deficiente”. Um corpo olímpico... e possivelmente junto a outros não menos ou mais ciborgues.

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2012/2013 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massas - TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)


Notícias na Internet–

Primeiro biamputado nas Olimpíadas, "Blade Runner" Pistorius é eliminado na semi dos 400 m 
https://olimpiadas.uol.com.br/noticias/redacao/2012/08/05/primeiro-biamputado-nas-olimpiadas-blade-runner-pistorius-e-eliminado-na-semi-dos-400-m.htm

Biamputado, Oscar Pistorius realiza sonho olímpico 
http://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/esportes/noticias/biamputado-pistorius-finalmente-realiza-sonho-olimpico-e-estreia-nos-400m

Audiência discutirá supervalorização da medalha de ouro nas Olimpíadas 
https://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/ESPORTES/423469-AUDIENCIA-DISCUTIRA-SUPERVALORIZACAO-DA-MEDALHA-DE-OURO-NAS-OLIMPIADAS.html

Londres 2012: A fábrica de atletas da China https://rederecord.r7.com/londres-2012/noticias/londres-2012-a-fabrica-de-atletas-da-china/

Comediante famoso tem encontro com um androide feito à sua imagem no Japão https://globotv.globo.com/globo-news/pelo-mundo/v/comediante-famoso-tem-encontro-com-um-androide-feito-a-sua-imagem-no-japao/2073483/

Jogos Paralímpicos http://pt.wikipedia.org/wiki/Jogos_Paral%C3%ADmpicos RIO 2016 - https://www.rio2016.org/ (Teremos sua Abertura Solene concomitante às Paralimpíadas?)

Oscar Pistorius é condenado a 06 anos de prisão por matar sua namorada (matéria publicada em agosto de 2016) - https://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/07/oscar-pistorius-e-condenado-6-anos-de-prisao-por-matar-ex-namorada.html

LEITURAS INDICADAS -  

 CONTRA A PERFEIÇÃO - Michael J. Sandel - Ed. Civilização Brasileira, RJ.


CARNE E PEDRA – O Corpo e a Cidade na Civilização Ocidental – Richard Sennett, Editora Best Bolso, Rio de Janeiro, RJ, 2008.

Filme citado –BLADE RUNNER - https://pt.wikipedia.org/wiki/Blade_Runner

LEIA TAMBÉM NESSE BLOG –

AS SELEÇÕES: OS ESTÁDIOS, OS PARADIGMAS E UM NOVO GAME 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/06/as-selecoes-os-estadios-os-paradigmas-e.html

ROBÔS, POLÍTICA E DEFICIÊNCIA. 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/07/robos-politica-e-deficiencia.html

MURDERBALL: QUANDO AS CADEIRAS DE RODAS SE CHOCAM... EM NÓS https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/06/murderball-quando-as-cadeirasde-rodas.html

DEMOLINDO PRECONCEITOS, RE-CONHECENDO A INTOLERÂNCIA E A DESINFORMAÇÃO
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/06/demolindo-preconceitos-re-conhecendo.html

terça-feira, 19 de abril de 2011

A MORTE DO FANÁTICO NÃO MATOU O FANATISMO

imagem publicada - a foto recente de Charles Manson, um homem branco de 76 anos, com barba branca, de olhar sem expressão e brilho, com uma suástica nazista tatuada no meio da testa; o homem (Man) que é filho (son) das mesmas "des-humanidades" de todos os outros que cometeram, cometem e cometerão assassinatos. Crimes hediondos e extraordinários que geram perplexidade, repúdio e indignação, que quase sempre foram, são e serão fundamentados em fanatismos ou radicalismos que nascem dentro do ventre das Religiões e da Política. E que insistimos em imputá-los à doença mental, à loucura, esse depositário de nossas indagações racionais sem respostas imediatas.
( in memoriam dos que não devem morrer em vão em Realengo)

"Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais, no entanto o que é um alimento, para ela é uma impureza?" (Castoriadis, 1987)

Vivemos há séculos com a ideia de purificação dos Outros. Mantemo-nos banalizando e naturalizando as diferentes guerras santas, as cruzadas e os extermínios dos ''impuros''. E ainda nos chamamos de civilizados. Os bárbaros são sempre os outros. 

Quanto mais somos levados para a homogeneização cultural e sua unificação, mais ainda nos tornamos intolerantes e mais ainda desejamos a morte do Outro e de sua cultura, principalmente se não podemos converter a todos à nossa crença ou ideologia.

Há outros homens, sob a hipnose dos fanatismos, que matam e morrem por não conseguirem, na sua solidão enlouquecida ou imersos nas massas, se tornarem criadores da história. Tornam-se vítimas e vitimizadores. Tornam-se assassinos paranoicos de sua humanidade.

Há um corpo não reclamado e indesejável no Instituto Médico Legal. Ele, apesar de reconhecido e, agora com seu nome inscrito na História, permanece entre os proscritos. O nome Wellington de Oliveira permanecerá em muitas mentes, em muitos corações, como uma lembrança amarga ou um amargo pesadelo. Mas para que ele seja parcialmente esquecido e sua ação criminosa melhor compreendida devemos ''enterrá-lo" com todas as suas ideias e todos os alicerces de seu ato, a meu ver, profundamente revelador. 

Um ato resultante, eminentemente, do caldeirão de ódios e xenofobias que os tempos pós-modernos reproduzem: o cruzamento e a interpenetração de fanatismos religiosos com os fanatismos políticos. Um ato para vir a ser um analisador.

Há quem esteja refletindo ou continuando a repensar o que foi a vida e a obra "maligna" desse criminoso. Hoje li uma reportagem sobre um velho criminoso, que escapou da cadeira elétrica, e agora se reconhece apenas com uma pessoa MÁ e SUJA: Charles Manson. Ele cometeu um dos mais comentados assassinatos nos anos 60/70. Ele e seus seguidores, sua "Família", assassinaram Sharon Tate e mais 6 pessoas. 

Ela, uma linda e famosa atriz, na época a esposa grávida do controvertido cineasta Roman Polanski. Ainda me lembro de sua performance em um dos seus fílmes: a Dança dos Vampiros (1967). A entrevista de Mason nos revela como podem existir e continuar existindo pessoas que respondem às diferentes formas de exclusão, violências, misérias ou dramas com o exercício de atos cruéis baseando-se apenas nos seus fanatismos.

Uma das reflexões que me fez pensar o título deste texto veio deste depoimento à revista Vanity Fair. Charles Manson, que liderava o grupo de assassinos, pregava uma espécie de cruzada para a eliminação dos ''impuros''. Ele propunha uma guerra racial entre brancos, sua gang a moda da Klu Klux Klan, e os negros, com o nome de Helter Skelter. E na mistura de ideias racistas e genocidas propunha, fanaticamente, a morte como redenção religiosa. 

E isso ele ainda defende dizendo: "Todos somos mártires. O amor é um mártir. Por isso é que Cristo chama a atenção. Por isso foi crucificado”, sentencia Manson, que acrescenta que “mais cedo ou mais tarde a vontade de Deus se vai impor sobre todos vós, e a mim condenaram-me por ser a vontade de Deus”.

Foi necessário uma aproximação de fanatismos, típicos dos anos 60, para que o ato de assassinar 07 pessoas, com requintes de crueldade, sendo uma delas uma mulher grávida, no caso Sharon Tate, pudesse ocorrer. E, na minha opinião, aí se encontram as raízes históricas que vem atravessando e transversalizando as diferentes manifestações de violências contra quem é denominado indefeso e objeto de projeção das ''IMPUREZAS". Sejam elas determinadas pelos eugenismos, racismos ou fanatismos religiosos. 

Todas essas ideologias são alimentadas pela mesma fonte: o ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros, e esse Outros podem ser desde meu vizinho a um transeunte desconhecido, alguém com outra visão do mundo, de outra religião, outro partido, outra classe social, outras sexualidades, outras línguas, outras etnias ou outras deficiências.

Para que os deixemos de amar basta que estejam, por exemplo, na mesma Escola, no mesmo Bairro, na mesma Cidade, no mesmo Mundo. Pode ser em Realengo ou em Columbine. O meu ódio dos outros, quaisquer que sejam, e ainda mais se parecerem comigo ou com vocês, passam a ser os objetos dos quais nos livramos, do que nos assombra e nos divide. O cadáver e o 'fantasma' de Wellington ainda está repleto dessas percepções em muitas mentes no mundo. A presença de seus adeptos ainda será, tristemente, revista.

Por isso precisamos ir, respeitosamente, ao enterro dos fanáticos, dos racistas, dos fascistas e dos intolerantes. Não será sua morte física que poderá destruir seus vampiros ideológicos. Estes nem mesmo aparecem nos espelhos como na Dança dos Vampiros. E, por mais que a Sociedade do Controle instale câmeras ou grades ou guardas, também não serão detectados a priori.

Ilude pensar que as cercas elétricas ou as vigilâncias os deterá. Eles foram gestados nos campos de extermínio, da Alemanha Nazi-fascista aos campos da morte do Khmer vermelho como o sangue cambojano. Ainda podem ser gestados em Guantánamo, Abu Gharib ou nos presídios de máxima segurança.

Por isso precisamos, indo além das explicações sobre a psicopatologia dos crimes e dos criminosos, buscar a parte que nos cabe deste latifúndio gerador de ódios. Não pendemos inteiramente para os anjos, por mais que a Mídia e sua Era nos tente convencer. Precisamos buscar, individual e coletivamente, outros modos nos educar e re-conhecer. O cadáver insepulto e dissecado do ''chamado monstro de Realengo" não deixou de ser humano, demasiadamente humano. 

Por mais que nos arvoramos a compreendê-lo e, em nossas vãs especializações científicas, determinar a origem psíquica de seus atos horripilantes. Mas ele, como nós todos, é e será mais insondável, obscuro e desconhecido. Mesmo que, como Mason, estivesse apenas encarcerado perpetuamente... Até seus videos, previamente póstumos, são uma produção destes mundos que o cercavam, cercearam e o desprezaram, segundo a sua convicção fanatizada.

A possível única in-certeza é que nos Mason-Wellington, ainda em serialização no mundo hipercapitalista atual, há uma raiz psicossociológica a ser pesquisada, e ser combatida, de forma micropolítica e rizomática. Revelando-se os modos de produção de subjetividade que os clona, talvez, possamos não nos arrepiar de medo de ''seres humanos maus''. 

Iremos buscar as raízes, as fontes, as gêneses e os primeiros passos de de-formação do sujeito, mas não para resolver por meios ortopédicos ou judiciais a sua mudança e civilização. Iremos, transcultural e historicamente, re-existir. Inventamos os Direitos Humanos e podemos inventar novos modos de viver.

Não bastará a criação de punições aos alunos que desafiam, agridem ou são indisciplinados com seus professores, conforme recente projeto de lei em curso na Câmara Federal. A reabilitação da palmatória jurídica não irá produzir, com sua violência, a "prevenção" de futuros serial killers. Talvez, como no caso do Bullying, possa até ser a melhor justificativa dos assassinos. 

Nesse, momento pós-traumático para a Escola Tasso será ideal que possamos nos conscientizar da presença simbólica da dor, da perda, do luto por lá. Mas também do que indelevelmente permanecerá: o ex-aluno que se justificou nas agressões, nos preconceitos e nas discriminações para se tornar o 'exterminador do futuro'.

O assassino Manson e o Oliveira, um vivo e outro morto, se fundamentaram na ideia de pureza de seus corpos e suas mentes, considerando-se primariamente homens "limpos" e "bons", por isso puderam concretizar a projeção do mal, da sujeira e da impureza nas suas vítimas. E, nós devemos reconhecer aí uma outra gênese dos micro fascismos cristalizados e encrustados nos âmagos humanos. Somente com a construção dessa visão religiosa e politicamente perfeccionista é que fundamos nossos primeiros passos do fanatismo rumo à barbárie. Está aí a germinação do suicídio dos ''semelhantes'' do Wellington.

Midiaticamente, falou-se hoje no Twitter, em seu formato sintetizador: " Agora a Escola Tasso da Silveira não tem de que reclamar: colocaram 4 guardas municipais pra vigiar a entrada"... 

Então, há um reflexão para ser feita, qual será a nossa SAÍDA? O cadáver inominável e abominável disse: ..." descobriram quem sou, da maneira mais radical, numa ação que farei pelos meus semelhantes que são humilhados, agredidos, desrespeitados em vários locais, principalmente em escolas e colégios, por serem diferentes, por não fazerem parte dos infiéis, dos falsos, dos corruptos, dos maus, são humilhados por serem bons.".

Durante a entrevista, para a '' Feira das Vaidades", Charles Mason chegou a usar uma expressão muito típica em Espanhol, aplicando-a à sua pessoa: “La mala hierba nunca muere” [qualquer coisa como ‘a erva daninha nunca morre’]. 

Vamos lenta e vagarosamente, mas com crítica e análise filosófica, em princípio, caminhando com os cadáveres insepultos desses que demoram para se autodenominarem mártires, mas que arrastam consigo muitos outros féretros, mortes e lutos prolongados. Vamos, juntos ou solitariamente, pela estrada aberta, levar uma "rosa azul" para Hiroxima e outra para Realengo. E deixar uma outra naquela sepultura, sem sensacionalismo.

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REFERÊNCIAS NO TEXTO:
Líder de um grupo de assassinos que chocou a América - Charles Manson assume ser um “homem mau” em entrevista à “Vanity Fair”


Consulta e pesquisa nos VIDEOS deixados por Wellington de Oliveira - You Tube


INDICAÇÕES PARA LEITURA-
Psicossociologia - Análise Social e Intervenção - André Lévy, André Nicolaï, Eugene Enriquez, Jean Dubost - organizado e traduzido por Marilia Novais de Mata Machado et al. - Belo Horizonte, MG, Editora Autêntica, 2001.
Massa e Poder - Elias Canetti- Brasília, Editora UNB/Melhoramentos, 1983.

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