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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Os Desastres, os Haitis e as Serras no Hipercapitalismo

Imagem publicada - uma fotografia de um dos milhares de acampamentos de haitianos, com milhares de tendas militares ao fundo, que têm em um enorme telão a projeção de uma ''novela'', ao centro, para que possam continuar sonhando/acreditando na Sociedade do Espetáculo, e, talvez, esquecer todas as corrupções, explorações, humilhações e escravagismos a que o povo do Haiti foi e continua sendo submetido. O Haiti 01 ano após ainda é um país em ruínas, com disputas macropolíticas que determinarão quando e quem irá ''doar'' dinheiro para sua reconstrução. Um país de milhares e incontáveis mutilados e novos membros da multidão de pessoas com deficiência do mundo... E no telão vemos o rosto de uma criança negra... (Acampamento de Carradeux, New York Times)

"Todos os dons recebidos pelo homem através de seu profundo conhecimento da natureza - os progressos da sua tecnologia, de sua química, de sua medicina -, tudo aquilo que parecia poder atenuar o sofrimento humano, tendem por um espantoso paradoxo, arruinar a humanidade..." Konrad Lorenz

Quando li pela primeira vez, há muitos anos, Civilização e Pecado de Konrad Lorenz, não tinha a ideia de seu caráter de ''futurologia ". A gente não olha para o futuro como possibilidade, principalmente quando falamos de Desastres, Calamidades, Catástrofes, ou melhor de cenários de destruição. 

Como Lorenz era apenas um etólogo, aliás um ramo científico por ele formulado como "um estudo científico e comparativo do comportamento instintivo e aprendido dos animais", sua visão é datada e contextualizada. Este cientista, para além de controvérsias ideológicas,  concluiu que a liberdade raramente existe sem perigo. Acrescento não há vida sem risco. Há sim a perpetuação aética de nossos "erros capitais".

Hoje, bombardeado pela incessante midiatização do sofrimento dos afogados, dos soterrados e dos desabrigados, por chuvas, represas abertas, descaso e imprevisão política, fiquei "atolado". Fiquei me sentindo preso entre ideias de Lorenz e de Naomi Klein, cuja atualização já fiz quando escrevi sobre O Aprendizado do Desastre, há um ano atrás.

As teorias de Lorenz são fundamentadas na "análise dos processos que ameaçam o ocaso da civilização e o fim da humanidade, ditados pelas leis naturais...". Em 1973 esse cientista ganhou o Prêmio Nobel de Medicina, tendo lançado um grito de alerta sobre a urgência, já naquela época, de se preservar e conservar o Meio Ambiente para que em breve este "não se torne inadequado à sobrevivência" de seres humanos.

O que estamos fazendo com nossos ''dons"? apenas aplicando à contabilidade de uma máquina cruenta de calcular corpos soterrados? ou nossa matemática de mortos e vidas destroçadas ainda não é suficiente para a naturalização da Doutrina do Choque, com nos afirma Naomi Klein? 

Para muitos a culpabilização do volume de água que os céus nos derramam é a única explicação. E aí podemos cantar que: "olha lá vai passando a procissão, eles acreditam nas coisas lá do Céu...", e apenas ''orar" ou "chorar" perante as perdas de vidas humanas e o arrasamento das cidades. Aparece, como mostram as telas, nossa solidariedade que se, potencializada coletivamente, poderá ser transmitida para a proposta das 3 Ecologias de Guattari.

A mudança que desejamos diante dessas devastações naturalizadas é urgente. Não deveríamos esquecer de nossos semelhantes haitianos, após 1 ano de terremoto. Ainda tremem as pernas e pés desses negros e negras diante da Cólera e do abandono das promessas de reconstrução de seu país, suas casas, suas vidas.

Como podemos nos reaproximar desse Haiti Vivo que sumiu por um longo período das telas e dos noticiários, retornando quando a Dona Morte atinge mais de perto os nossos vizinhos estaduais?. Nos distanciamos, processo humano de proteção de si e dos narcisismos, de quaisquer sofrimentos intensos que atingem, primeiramente, o Outro ou os Outros.

Precisamos rever a nossa construção de uma Ecosofia e de uma Ecologia Humana. Para Lorenz: "a ecologia humana se transforma muito mais rapidamente que todos os outros seres vivos. O ritmo lhe é ditado pelo progresso de sua tecnologia, sempre acelerado e em progressão geométrica..." Para ele isso é responsável, ao modificarmos profundamente nossos meios ambientes, até mesmo por nossas ruínas das "biocenoses nas quais vive e das quais vive".

Reforçamos a teoria de que criamos as condições e meios através dos quais podemos criar ou destruir a Vida, muito mais na direção de ''manipulação'' dos desastres do que na direção de outros modos ecosóficos de viver e TRANSMITIR A VIDA.

Por isso digo que não estou ''chocado" com as imagens que atolaram nos meios televisivos. Estou apenas mais consciente da urgência de analisarmos quais são os nossos "pecados", ou melhor nossas "armadilhas", que mantemos, macropoliticamente, em construção e recriação, do que chamamos, eufemisticamente, de Civilização. Seremos transmissores de Vida em 2011, insisto na pergunta?

Me interrogo: - seremos apenas os "homo homini lupus" (o Homem é o Lobo do Homem)? ou podemos, micropoliticamente, re-inventar a liberdade e a crítica, através de uma Bioética e Ecosofia de mãos dadas, desmontando as artimanhas do Hipercapitalismo, encontrarmos as saídas para um mundo sem Arcas de Noé ou Naves, "made in China" e privatizadas de 2012?

Qual é a distância (humana) entre Porto Príncipe, Itatiaia, Nova Friburgo, Concepción, Franco da Rocha, Santiago, Três Corações, Temuco, Petrópolis, Brisbane, e onde vivo? Será que terei a resposta do poderoso computador Tupã do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), instalado na cidade com nome de água cheia de força e intensidade: Cachoeira Paulista?

copyright jorgemarciopereiradeandrade (2010-2021 - favor citar o autor e as fontes em republicações livres na Internet ou outros meios de comunicação de massa, todos direitos reservados -2025)

Leia também no Blog -

O APRENDIZADO DO DESASTRE - O Hai di Ti é em qualquer lugar - https://infoativodefnet.blogspot.com/search/label/Capitalismo%20do%20Desastre

GRACIAS A LA VIDA EN EL CHILE -


AS MASSAS E OS SOBREVIVENTES - Terra Trêmula - https://infoativodefnet.blogspot.com/search/label/Haiti

O HAITI NÃO ERA AQUI - A Terra Queimada -

Indicações/referências bibliográficas:

CIVILIZAÇÃO E PECADO, os oito erros capitais do Homem - Konrad Lorenz - Círculo do Livro, São Paulo, SP - 1977.

A DOUTRINA DO CHOQUE - A Ascenção do Capitalismo de Desastre - Naomi Klein - Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ, 2009.

AS TRÊS ECOLOGIAS - Felix Guattari - Ed. Papirus, Campinas, SP, 1990.

ARTIGO - LA VALORACIÓN ECONÓMICA DE LOS DESASTRES: UNA APROXIMACIÓN METODOLÓGICA -Dra. Ana Fernandez-Ardavín &Dra. Carmen Calderón Patier, Dra. Monserrat Cabello Muñoz y Dra. Isabel Martínez Torre-Enciso

sexta-feira, 26 de março de 2010

ÁGUA PARA QUE TE QUERO? Dia Internacional da Água


IMAGEM publicada: mostra a fotografia de Samah, uma menina palestina de 9 anos, bebendo ÁGUA diretamente de uma torneira, que faz parte de um acervo fotográfico do projeto "Humanizando o Desenvolvimento", como parte da Campanha Global promovida pelo Centro Internacional de Políticas Públicas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG) das Nações Unidas (ONU) - foto de Mustafa Hassona.

InfoAtivo DefNet nº 4376 - Ano 14 - 26 de março de 2010.

“ O real desenvolvimento acontece no coração das pessoas. Significa permitir que a natureza humana desabroche e evolva. Onde há razão e amor, há forca e poder para lidar com as dificuldades da vida. Encorajar as pessoas a governarem suas vidas e a si mesmas, e alcançarem o mais alto de seus potenciais – isto é desenvolvimento. Devemos reconhecer aqueles que são grandes a despeito e as vezes em razão das dificuldades que enfrentam. Devemos encorajar a humanidade em cada um de nós – a capacidade de Ser tanto dos pobres quanto dos não-pobres
”.


Dizem que "fechar a torneira" é uma expressão de solução para muitas questões, problemas ou momentos de dificuldade. No mundo capitalizado é comum associar a frase ao ato de restringir o uso de DINHEIRO, como se do cano saíssem as moedas ou notas, e ao fechar a torneira estamos resolvendo um problema de escassez, excesso ou de dívidas monetárias.

A comparação com uma cornucópia é muito comum e banal no cotidiano, e, é esta solução usada geralmente por quem detem o poder da grana e sua manipulação. Ou são os banqueiros, os governantes ou até mesmo os nossos familiares.

"Fecha a torneira que esse ou essa aí vai endireitar", uma frase muito comum de pais, dos tempos passados e autoritários, que queriam ver seus filhos no "bom caminho". Será que foi isso que mudou as veredas trilhadas pelas gerações dos anos 60/ 70? Podemos pensar que foi isso que gerou os "bons comportamentos e a ética" dos que agora têm nas mãos as 'torneiras' de recursos que podem mudar as politicas públicas de água e seu abastecimento?

Não, não deveríamos deixar fechar apenas essas falsas torneiras simbólicas e macropolíticas. Não deveríamos fechar mas aprender a aprender a fechar outras torneiras ou outros meios de controle, privados, do desperdício de água, e não apenas, urgentemente, de dinheiro publico. 

Cada dia que passa ao ver a água que jorra em nossos lares, escolas, hidrantes ou mesmos calçadas, sem nenhum motivo vital ou uso consciente, contribui-se para que outros recursos, principalmente públicos, estejam indo pelo ralo ou bueiros. E para nossos descendentes um dia, quem sabe, essa água faltará.

Estamos em meio à uma campanha de utilização consciente dos recursos hídricos potáveis da Gaia. A água, assim como o afeto materno, é doce mas não é inesgotável. É tempo de refletir sobre o planeta-água. Sim, somos muito mais ÀGUA DO QUE TERRA. Como já disse, poética e proféticamente, Saint-Exupery: "Só o Espírito soprando sobre a Argila pode criar o Homem". Sem o barro não há o homem, sem a àgua não há o sopro da vida...


Em 1992 foi criado o DIA INTERNACIONAL DA ÁGUA pela ONU (Organização das Nações Unidas), tendo como data a comemorar o dia 22 de março, que foi celebrado 01 ano depois. Desde essa época apenas anualmente o Dia da ÁGUA chama nossa atenção para a sua preservação ou uso sustentável. Mas a água é muito mais que uma necessidade básica dos seres humanos. Ela é parte constitutiva da sua própria vida entendida como 'BIOS', por isso mesmo se tornar um excenlente meio de controle biopolítico das sociedades através dos tempos.

Segundo a ONU, atualmente cerca de 1.1 bilhão de seres humanos ainda não tem acesso à agua de boa qualidade. Essa parcela da população do planeta convive com sua escassez, sua ausência ou sua contaminação, sendo vulnerável às diversas doenças ou sofrimentos acarretados por esta situação.


Vimos essa crueza,quando nos falta a água, nos canos expostos e destroçados pelos recentes terremotos do Haiti e do Chile. As veias e artérias de água alimento e vida desaparecem. E, lá também ficaram expostas as razões de desespero diante da ausência total de água potável ou limpa. É a hora em que os seres humanos podem revelar sua possibilidade de retorno à barbárie por algumas gotas deste precioso líquido vital.

Será que podemos mudar o atual panorama mundial de escassez da água? Estamos empenhados para afirmar o direito à água limpa como um direito humano fundamental?

O que podemos fazer para ajudar na preservação das fontes de água limpa e extremamente saudáveis, como as fontes de água mineral de minha terra natal? O que fazer para que acordemos para a desertificação, contaminação e desaparecimento dos rios, lagos, lençóis pluviais, e todos os reservatórios naturais de água doce, fontes passíveis do uso salvador pelos milhares de pessoas do planeta que morrem após ingerir água contaminada? Os milhares que também morrem por sua falta total...


Em muitos lugares do mundo, nesse momento, algumas torneiras não jorram mais água. Em muitos lugares as fontes secaram. Em muitos lugares deste planeta estamos nos tornando mais secos e impermeáveis às condições de vida dos que não-tem-água...

Talvez tenhamos não só nos esquecido desses outros sedentos e invisíveis, assim como das crianças de Dafur, do Haiti, do Saara, ou mesmo no meio do Piauí? Quem sabe, estejamos nos tornando menos elementares, embora mais superficialmente amáveis.


Um de meus poetas preferidos, D. H. LAWRENCE, já se pronunciou há muito tempo sobre a necesssidade de sermos ELEMENTARES:
"... Como o homem é feito de elementos,
de fogo, chuva, ar e barro,
e como nada disso é amável
mas elementar
o homem não pende inteiramente para o lado dos anjos.
Quero que os homens recuperem seu perdido equilíbrio
entre os elementos
e sejam mais fogosos ao menos, tão incapazes de mentir
como o próprio fogo
Quero que eles sejam fiéis à variação natural , que nem a água.
que passa da nascente ao vapor e chega ao gelo
sem perder a cabeça...".


Portanto, po-éticamente não somos puros nem anjos. Podemos nos tornar, pelas cristalizações fascistantes, cada dia menos elementares. Precisamos, por isso, refletir sobre o que chamamos de desenvolvimento humanizado e inclusivo.
Há progressos no ar, na terra e no mar. Há novos ventos capitalísticos soprando o nosso tradicional ufanismo brasileiro. Somos capazes de extrair, mais e mais, o ouro negro do fundo do mar, mas não somos capazes de impedir uma devastação de nossas ricas e invejadas fontes de preservação de água.

O nosso país que um dia teve o Rio Amazonas excluído do mapa, no tempo das Capitanias Hereditárias, como questão geopolitica para evitar a sua exploração por outros colonialistas (espanhóis, franceses e/ou piratas a serviço destes), é hoje visto biopolíticamente como o 'reservatório ecológico' do planeta.

Pode ser que a Terra Brasilis, agora de vento em popa no Capital Mundial Integrado, como dizia Guattari, possa inverter o modelo eurocêntrico de cartografia das riquezas e dos tesouros do mundo globalizado. Yes, nós temos ÁGUA!. E se um dia se fizeram expedições, guerras e colonizações por pimenta e especiarias, talvez possamos aguardar a Era da globalização da água.

Mas, mesmo assim há muitos brasileiros e brasileiras que ainda não conhecem água além das cacimbas ou das cisternas. E, então,não podemos nos vangloriar ainda de termos matado todas as nossas próprias sedes. Não podemos oferecer, por mais que se afirme macropoliticamente, um exemplo de desenvolvimento sustentável na distribuição de água. Nossos governantes não se apropriaram, de coração, ainda dessa 'bandeira' que, olhando e indo além do olhar , incentivará um uso ecosófico da água limpa ou potável.

Será que nesse ano dito 'das eleições' veremos algum partido, algum candidato, alguma candidata, algum brasileiro ou brasileira postulante a nos representar, e não nos reprimir, bradando o slogan: EU BEBO ÁGUA SIM, NÓS BEBEMOS SIM, E ESTOU VIVENDO, TEM GENTE QUE NÃO BEBE ÁGUA LIMPA E ESTÁ MORRENDO.

O DIA INTERNACIONAL DA ÁGUA já passou. E como outros dias internacionais teremos de esperar o próximo ano para comemorá-lo ou esquecê-lo. Eu aqui que já tive esse ano, na mesma época do Haiti, a ausência de àgua em minha vida doméstica e tudo o que isso acarreta, lhes digo que, mesmo assim, ainda não aprendemos a fechar o registro ou a torneira. 

Só passamos a valorizar aquilo que perdemos? Não, apenas não nos foi, profundamente, ensinado que uma gota de água contêm um dos elementos vitais para que respeitemos a nossa e, eticamente, a Vida dos Outros.

O novo brado, parodiando o Socialismo ou Barbárie de Castoriadis, poderá ser: ÁGUA PARA O MUNDO no FUTURO OU BARBÁRIE.


Será a água a moeda principal do mundo pós-apocalítico do futuro? O Cinema nos apresenta suas visões e vislumbres futuristas, com heróis, como os Moisés bíblicos redivivos, conduzindo/controlando, biopolíticamente, uma massa sedenta e bárbara, em busca de salvação ou redenção.

O valor político e de controle da água é bem representado nos filmes Water World:O Segredo das Águas (Kevin Costner) e no Livro de Eli (Denzel Washington)... mas será preciso primeiro arrasar a terra, destruir seu potencial verde, doce e aqüifero, para depois descobrirmos que o deserto ou a inundação total produzidos não terão oásis, terra firme, portos seguros e lindos lagos cercados de palmeiras?

Fica a pergunta que me fiz, faço e farei: ÁGUA PARA QUE TE QUERO?

copyright jorgemarciopereiradeandrade 2010-2011 - favor citar a fonte em futuras reproduções e difusões na Internet, estimulando a multiplicação do texto e das idéias desse autor...e dos autores citados no mesmo TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025.


Fontes:
Foto - Campanha Mundial de Fotografia "Humanizando o Desenvolvimento" - ONU , que tem como um de seus objetivos:
Combate a privação e expansão do acesso a alimentação, água, saneamento, educação, saúde e serviços aos mais pobres.

https://www.ipc-undp.org/photo/index_pt.htm

WORLD WATER DAY https://www.worldwaterday2010.info/

Referências Bibliográficas -
Poemas - D. H. LAWRENCE - Edição Bilíngue do Centenário - Editora Alhambra - Rio de Janeiro - 1985
Capitães do Brasil - EDUARDO BUENO - Editora Objetiva - Rio de Janeiro - RJ - 2006

LEIA TAMBÉM NO BLOG -
O AMBIENTE EXIGE RESPEITO - https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2009/12/ambiente-exige-respeito.html

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O AMBIENTE EXIGE RESPEITO

IMAGEM PUBLICADA - Uma montagem exibida em matéria, na Internet, sobre a recente COP 15, a Conferência do Clima, com uma imagem da Terra com um halo amarelo, que nos lembra o Sol, com desaparecimento de seu tradicional azul, com manchas amarelas e alaranjadas, simbolizando a situação do aquecimento global e com uma figura humana cabisbaixa olhando para esse painel e panorama do futuro possível de todos nós..., publicada em matéria jornalística sobre o fracasso da Conferência em portal 

"A Terra, na verdade, nos fala em termos de forças, de ligações e de interações, o que basta para fazer um contrato. Cada um dos parceiros em simbiose deve, de direito, a vida ao outro, sob pena de morte. Tudo isto permaneceria letra morta se não se inventasse um homem político..." ( Michel Serres - O Contrato Natural)

O filósofo francês Michel Serres escreveu este livro em 1990. Passaram-se 20 anos e ainda não inventamos um novo homem político, ou seja um novo homem político-estético e ético. O livro Contrato Natural tem sido minha leitura de cabeceira, desde do encontro e representação espetacular sobre mudanças climáticas da Terra em Copenhague.

Aliás o tema já se esgotou na mídia, como bem nos interessa na Sociedade do Espetáculo, onde nossos representantes políticos cada dia mais se aprimoram nessa arte: o mise-en-scène, o palco/palanque hipermidiatizado da macropolítica . Tudo tem sua efemeridade garantida, e o assunto do momento pode ser apenas mais uma catástrofe, nevasca, tornado, furacão, enchente ou devastação florestal, quem sabe outro tsunami, ou mais uma campanha eleitoral .

Quando pensei o título desta mensagem de fim de ano, como tentativa de manter nossas antenas críticas ligadas, me lembrei de um antigo samba: " Moço olha o vexame, o Ambiente exige respeito... pelos estatutos da nossa gafieira, dance a noite inteira mas dance direito...", que foi lançado em 1954, por Billy Blanco. Talvez, por essa longevidade tão próxima da minha, muitos não o conheçam.

A lembrança do samba e da sua estrofe é a afirmação de que 'qualquer ambiente', ou melhor "todos os meios ambientes" exigem respeito. E, diante da devastação, exploração e poluição que continuamos realizando, apesar de todos os espasmos e gritos do que chamamos Natureza, temos urgência de formular estatutos para que a dança da vida possa continuar no salão do planeta Gaia.

A gafieira, local de danças populares, onde os mais humildes tinham o direito ao lazer e prazer da música, criou, para o deleite ser democrático e sempre alegre, algumas regras. Lá 'NÃO podia', segundo o 'artigo 120... nem subir nas paredes... nem dançar de pé pró ar'. 

Mas se olharmos para nossos tempos atuais, onde as gafieiras minguam, e a dança não é mais de salão, de dois parceiros fiéis, mas sim de multidão, andamos sem estatutos que valham para evitar os prejuízos de hoje que afetarão, sem dúvida, os pés-de-valsa do amanhã.

Colocamos nossos pés massificantes esmagando qualquer um, só importando ir atrás de um falso trio elétrico.

Haverá um futuro baile, onde cara a cara dançaremos com a Terra, ou 'já dançamos', como dizem em gíria, quando nos violentam ou assaltam? Aliás quem são os mais velhos assaltantes e violentadores da Gaia, a chamada MÃE-TERRA?

O que assistimos, como espectadores, na COP 15, ao meu ver, caiu na decepção, principalmente quando os chamados líderes dos países, ou seja os presidentes, como Lula, apareceram no cenário apenas para seus discursos, onde nenhum deles tinha a fala fora da ordem. Nenhum deles lembrou de fazer uma referência a um novo contrato, pacto ou aliança com o próprio motivo desta conferência: a Terra. Lá só estavam nossos representantes mundiais, e nenhum me pareceu interessado em não deixar esta oportunidade virar mais uma "letra morta".

Tudo poderia ser resumido em uma frase dita há 07 (sete) dias atrás por nosso Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc : "Foi muita gente olhando para o seu próprio umbigo e um clima de desconfiança muito ruim", disse ele ao jornal o Estado, quando embarcava de volta para o Brasil.

Isso mesmo, o clima da Conferência do Clima, assim como outros espaços de cunho universalista, também sujeito a chuvas de ego e trovoadas de poder, não passou de um encontro de países desconfiando uns dos outros. Lá a hegemonia imperial esteve presente, os mais ricos preocupados com as emissões de carbono dos mais pobres. 

Para crescer, economicamente, também precisamos de combustíveis fósseis para continuar sendo chamados de 'emergentes' e não mais de 'subdesenvolvidos'. A realidade de nossos países se liga também ao efeito estufa: mais progresso, mais ordem serializante, mais fábricas, mais substâncias tóxicas, mais poluição, menos reciclagem, mais hipercapitalismo, mais emissão de dinheiro e carbono.

O Sol esquenta a Terra e ela esquenta em troca por estar sufocada, e, como num jardim de inverno, acaba por nos sufocar também... O céu sem ozônio verte mais chuvas, que se não são ácidas, tornam-se alagamentos e nos prepara para pequenos dilúvios.

Diante disso é que temos de firmar, enquanto simbiotas do planeta, um novo tratado, já que estamos sentindo cada dia mais frio ou calor, mais neve ou enchentes. Já passou da hora, como previa o filósofo, de definir um acordo harmônico, com valores éticos e ecosóficos renovados: o contrato que Serres chamou de Natural, e que, atualizando, chamarei de Contrato Ecosófico.

Olhar para o futuro em viradas de ano será um bom exercício, se não ficarmos como disse o ministro "olhando para o próprio umbigo". Não é um exercício obrigatório, nem deve sê-lo, mas é um exercício bio-ético, como um direito humano de todos e todas, para com o seu ,o nosso, e o devir de toda a humanidade, para com o futuro planetário e global.

Em outubro de 2005 a Unesco proclamou, após uma conferência de 191 países, inclusive o Brasil, uma Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, que inicia afirmando que todos deverão estar: "Conscientes da capacidade única dos seres humanos de refletir sobre sua própria existência e sobre seu meio ambiente...".

  Será que nós temos mesmo essa capacidade? Estamos refletindo, individual e coletivamente, sobre nossa existência? Desejamos realmente uma mudança ética, política e estética nos nossos meios ambientes? Cuidamos com afeto e respeito de nossa parceira principal, no Salão da Dona Natureza, sem lhe pisar nos pés, ou derrubá-la, como às árvores ao chão, nesse convite para uma nova dança, uma nova música e um novo Concerto da Vida?

Aos moços e moças, os jovens do futuro, do grande baile vital, todos e todas, deixo aqui o convite para que conheçam essa Declaração, que não é apenas mais uma, mas um documento que olha para nosso futuro, em especial em seu Artigo 17: "PROTEÇÃO DO MEIO AMBIENTE, DA BIOSFERA E DA BIODIVERSIDADE", que nos clama, reclama e avisa que a: "Devida atenção deve ser dada à inter-relação de seres humanos com outras formas de vida, à importância do acesso e utilização adequada de recursos biológicos e genéticos, ao respeito pelo conhecimento tradicional e ao papel dos seres humanos na proteção do meio ambiente, da biosfera e da biodiversidade."

A dança da vida exige movimento, já o disse, e agora para 2010 posso afirmar que o Ambiente EXIGE RESPEITO... Vamos cuidar do nosso salão de danças, com o fogo, a àgua, os ventos, e seu chão tão batido? ou deixaremos este espaço físico e seus problemas para os futuros dançarinos, do 'Salão da Dona Gaia', ou melhor a 'gafieira do Planeta', outrora chamada Terra?

Lembrete: os futuros dançarinos podem ser nossos filhos, filhas, netos ou bisnetos, mas basta que sejam habitantes do ainda imenso, belo, confuso, criativo, plural, complexo e diverso mundo no qual semearemos, po-éticamente, nosso próprio devir. Parafraseando o poeta Drummond de Andrade, digo:
"é dentro de nós, que, anestesiado e sonolento pelo espetáculo, o Ano Novo, cochila e espera desde sempre."

Vamos festejar o quê em 2011 e depois? O cinema já se antecipa, com boas bilheterias e espectadores, com a ameaça da catástrofe ficcional para 2012... e outros presságios.

copyright / left jorgemárciopereiradeandrade ad infinitum - 2009 ad infinitum, todos os direitos reservados, favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela internet... as massas e o meio ambiente agradecem. (PARA ALÉM DE TODAS AS PANDEMIAS) TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025

Referências bibliográficas - Serres, Michel - O Contrato Natural - Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ, 1991.
do IG)

InfoAtivo.DefNet - Nº 4324 - Ano 13 - 29 de Dezembro de 2009
Editorial ANO NOVO - 2010 FELIZ MUNDO NOVO NO ANO NOVO

Fontes:
Estatuto da Gafieira - https://letras.terra.com.br/billy-blanco/376613/

COP 15 - https://www.estadao.com.br/noticias/vidae,arremedo-de-acordo-assinado-em-copenhague-nao-convence,485838,0.htm

DECLARAÇÃO SOBRE BIOÉTICA E DIREITOS HUMANOS - https://www.bioetica.org.br/?siteAcao=DiretrizesDeclaracoesIntegra&id=17

LEIAM TAMBÉM NO BLOG - 
ÁGUA PARA QUE TE QUERO?  DIA INTERNACIONAL DA ÁGUA. https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/03/agua-para-que-te-quero-dia.html

AS MASSAS, AS ÁGUAS, AS FLORESTAS, NOSSAS VIOLÊNCIAS https://infoativodefnet.blogspot.com/2015/03/as-massas-as-aguas-as-florestas-e.html

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O ESTATUTO DO HOMEM E O DIA INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS




















Imagem - uma única mulher, pode com vigorosa tenacidade, enfrenta um batalhão de policiais  armados, empurrando um obstáculo, uma telha, uma centelha? Uma mulher palestina, lutando com seu próprio corpo, transformado em barreira e resiliência, em um cenário de repressão policial a um protesto coletivo. Ao fundo da foto está uma multidão observando, de um ponto mais alto, saindo uma fumaça escura de dois pontos deste lugar, que podemos assemelhar a um acampamento de marginalizados sociais, e o esforço policial para sua desocupação. (fonte lukeprog.com, prêmio Pulitzer de fotografia em 2007).

"FICA DECRETADO QUE HOJE VALE A VERDADE..."

Hoje, dia 10 de Dezembro, deveríamos estar comemorando o Dia Internacional dos Direitos Humanos, com o mesmo espírito que comemoramos o Natal.
Hoje em milhares de situações ou condições de vida, em todos recantos da Terra, um número inimaginável de seres humanos estão sendo submetidos à Violação de seus Direitos Humanos.

Lembro, ecumenicamente, que aquele que é lembrado no dia 25 de Dezembro, por seu nascimento em uma manjedoura, terminou sua vida terrena em um calvário e sob tortura, na crucificação por um IMPÉRIO, com uma placa onde se lia ser ele o "rei dos judeus", e ao lado de transgressores da lei romana, apesar de sua origem e história como um proto-comunista e universalista dos direitos de todos.

Em tempos de um novo Império, lamentavelmente, vemos que uma discussão acalorada sobre os direitos humanos, quase sempre, caminha para a banalização de que seus defensores somente defendem criminosos, bandidos, violentadores ou meliantes, apenas os que transgredirem as nossas leis e os bons costumes. Diante desta já midiatizada e popularizada versão distorcida, não podemos deixar de contra argumentar sobre a ausência, quase que cotidiana, de uma educação sobre quais são, por quê e para quê os nossos direitos humanos existem e foram transformados em uma Declaração.

Para além da Declaração de 1948, que em sua própria história traz o pós-guerra e a necessidade de um concerto entre os vencedores, ao mesmo tempo que nascia as Nações Unidas (ONU), deveríamos compreender que a sua aparente e impossível universalidade é um fundamento que deveríamos abraçar e realizar.

Entretanto, nos chamam, os ditos defensores de direitos humanos, de utopistas ou de comunistas, ora um pouco sonhadores e em outras naturalizações de "socialistas demais" ou "xiitas"... São múltiplas e heterogêneas as formas de defesa destes direitos, militantes ou não. Porém, com certeza, não são pessoas anestesiadas pelo utilitarismo, pelo liberalismo e muito menos pelo conformismo.

Tentam apagar da nossa memória os nossos Anos de Chumbo. Negam a existência de Trabalho Escravo. Esquecem da cotidiana exclusão e marginalização de crianças e jovens em situação de rua. Suprimem a violência institucionalizada e legitimada dos órgãos oficiais de repressão policial. Renegam a existência de Racismos, intolerâncias étnicas, discriminações de gênero ou de caráter sexual, como a Homofobia. Fecham os ouvidos às vozes sufocadas pela permanência da Tortura e não condenação de torturadores reabilitados. 

 Mantêm invisíveis os milhares de cidadãos e cidadãs que convivem com a miséria ou a pobreza, que são mais graves quando associadas às muitas formas de ser estar com uma ou múltiplas Deficiências. Confirmam a necessidade de Manicômios ou de Asilos para loucos e velhos não-recicláveis, bem como outros considerados cidadãos de segunda categoria, a serem higienicamente isolados. 

Enfim, referendam os que só enxergam, a partir do próprio umbigo, de forma individualista, neoliberal e narcisista, temendo, como única violência aquela que possa lhes afetar em suas intimidades ou modos domésticos e protegidos de viver...

Tudo isso, ao meu ver, pela profunda macrodespolitização a que estes princípios de direitos sofreram, geraram e podem gerar. O mundo globalizado, e a atual Conferencia na Dinamarca, nos ensina/confirma que ainda persiste, nos nossos Estados e estadistas, a divisão entre os ricos e os pobres, entre os que se desenvolvem capitalísticamente à custa do não-desenvolvimento de outrem, da segregação e restrição da possibilidade de crescimento e transformação das condições de vida, habitação, saúde e educação, da afirmação dos chamados direitos de 4ª (quarta) geração para os miseráveis da Àfrica, da Ásia ou da América Latina.

Retomo, diante deste panorama mundial, onde me parece que o futuro do planeta e seus habitantes fica novamente a reboque da Economia e do Hipercapitalismo, mesmo sob o risco de ficarmos todos, mundialmente, ou fritos ou afogados, a necessidade de uma busca do que Guattari chamou das Três Ecologias. Ao traçar o paralelo sobre a possibilidade de uma ecosofia de um novo tipo, ético-politica e estética, é que devemos ter em mente algumas ideias poéticas para o convívio entre os homens, suas culturas, etnias e diferenças sócio-político-econômicas.

Precisamos, segundo Guattari, nos tornar capazes de um "movimento de múltiplas faces dando lugar à instâncias e dispositivos ao mesmo tempo analíticos e produtores de subjetividade". Teremos de, rompendo alguns preconceitos e antigos "militantismos", nos tornar mais solidários, ao mesmo tempo que cada vez mais diferentes e múltiplos. Apesar do incômodo, toleraremos as presenças e diferenças de nossos "ESTRANHOS ÍMPARES", EMBORA DESIGUAIS, AFIRMANDO OS PRINCÍPIOS DE NOSSA IGUALDADE NO CAMPO DA DIGNIDADE E DO RESPEITO À VIDA.

Para atualizar meu desejo ecosófico com uma outra forma de afirmar os Direitos Humanos, trago o que considero uma das mais belas poesias sobre o que podemos vir a ser. Muito embora já devêssemos ter e ser nos tornado com esta suavidade poética, mais persistentes e resilientes.

 E, então, realizar o compromisso inadiável, na nossa História, para com as mudanças nas três ecologias: a do meio ambiente, a das relações sociais e políticas, e, profundamente, a da subjetividade humana.

No campo da produção da subjetividade, tanto individual quanto coletiva, ainda podemos buscar seu 'transbordamento', qual as enchentes que estamos ajudando a provocar, para fora das posições herméticas e os enclausuramentos egoístas ou identificatórios. Talvez aí possamos, poeticamente, encarar nossas transitoriedades, finitudes, nossas dores, nossos amores e desejos, nossas limitações, nossa morte.

Trago, hoje dia 10 de dezembro, para nossa reflexão o poeta Thiago de Mello, que talvez agora esteja lá no meio de sua Amazonas, preocupado com o futuro de seu pequeno igarapé ou das águas escuras, vastas, profundas e, quem sabe, ameaçadas do Rio Negro. Pois o Sertão pode virar Mar e o Mar virar Deserto...

"ESTATUTOS DO HOMEM


Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem".


FONTES:

FELIX GUATTARI - AS TRÊS ECOLOGIAS - Papirus Editora, Campinas, SP, 1993.

THIAGO DE MELLO - ESTATUTOS DO HOMEM - Martins Fontes Editora - São Paulo - SP - 1980

PARA OUVIR O POETA DECLAMANDO SUA POESIA , EM MP3 - https://www.4shared.com/file/91688850/b83bb724/thiago_mello_estatutos_homem.html


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A(s) Deficiência(s) é (são) uma QUESTÃO DE DIREITOS HUMANOS! https://infoativodefnet.blogspot.com/2018/12/as-deficiencias-esao-uma-questao-de.html 

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