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sexta-feira, 29 de abril de 2016

A MEU PAI NOS SEUS 106 ANOS - O TEMPO DAS MÃOS

Imagem publicada- uma foto que fiz, em 2015, do encontro de minha mão que segura suavemente a mão que o Tempo não endureceu: a mão afetuosa de meu pai. Um filósofo pré-socrático, Anaxágoras, escreveu há milhares de séculos: 'o Homem pensa porque tem mãos...", e essa frase faz parte de meu caderno de poesias dos tempos de ginásio... Continuarei à procura desse encontro com a ternura, que depois do olhos, só se revelam, intensamente, com as mãos. E com o respeito pelo que elas podem escrever ou deixar como registro histórico ou marcas indeléveis como aquelas que só sabem obedecer, ordenar, cumprir, iludir, torturar e por fim assassinar... sejam com bombas, balas ou até canetas de tinta cheias de dores e não de amores. As mãos da foto, uma lavrou a terra quase 100 anos, a minha ainda quer deixar aqui outras sementes... me ajudem a semear...

PARA AQUELE QUE SEMPRE DISTRIBUIU O LEITE OU O AFETO, NUNCA PRECISOU ROUBÁ-LO.

Venho de muitas histórias, e muitas outras ‘’estórias’’, lá nas Minas que não são minhas nem nunca serão. Lá tenho hoje, mesmo à distância que contar um ‘causo verídico’. Contar um pouco da vida sempre resiliente de meu pai. Hoje passei o dia pensando e lhe desejando mais um ano, com dignidade e lucidez, mas também para que possa no próximo ano estar contando um pouco mais de suas sobre vivências. Quem sabe os seus bisnetos um dia o lerão.

Meu pai, embora filho do dono da fazenda e uma mulher negra,  Julia Maria da Conceição, minha avó em sua certidão, passou um bom tempo na função de empregado, de ‘retireiro’’. Aquele que cuida das vacas e delas tira o espumante leite logo cedo, antes do galo cantar. Viveu e sobreviveu um tempo que não sei dizer por lá. A sua certidão de filho bastardo só foi feita 05 (cinco) anos após seu nascimento, em 1915. Por ela agora ultrapassaria os 100 anos de vida, mas acho que já seriam suficientemente seculares as suas aprendizagens.

Há, apesar das lendas e estórias, entretanto e apropriadamente aos tempos que somos forçados a viver, uma “grande” experiência super vivida nessa época de Três Corações. Eram os anos da chamada Revolução de 1930, quando gaúchos e mineiros, insatisfeitos politicamente organizaram o Golpe que derrubou o presidente Washington Luiz, eleito, impediu a posse de outro presidente, Júlio Prestes, acabou com a “República Velha” e a “política do café com leite”, quando os cafeicultores paulistas romperam sua aliança com os mineiros. Começam aí algumas de nossas “diferenças” macropolíticas.

 O meu ‘velho’ só tinha então 20 anos, nasceu em 30 de abril de 1910. A quebra da bolsa de Nova Iorque repercutia no país. E mais uma vez em nome da ‘salvação da pátria’. Os sempre mesmos da oligarquia (governo de poucos) e das elites (os escolhidos, a escol, os mais ilustrados ou  mais espertos) geraram uma crise entre Minas e São Paulo.

Vieram então os anos 32 e ele aos 22 anos foi o único que permaneceu na fazenda. O único que não fugiu para as matas e embrenhados quando disseram que as tropas ‘paulistas’ vinham tomar o quartel de Três Corações. Como único que lá estava quando as tropas, provavelmente não muito numerosa, e com suas matracas (aparelhos que imitavam metralhadoras, já que o ‘exército’ constitucionalista não tinha nem armas e nem munições, apesar dos esforços das elites industriais de SP).

Eis então, o que pode ser parte de outra história ou estória: o único refém do ali, não muito longe do Túnel da Mantiqueira, o último bastião paulista, era o cuidador da fazenda. Segundo o que ouviu muitas vezes, até dele, sei que é não era uma invenção. Já havia lido nos livros de História sobre nossas ‘revoluções e seus golpes’.

Então, ele o super vivente, destemido, simplório, teve de cozinhar, alimentar, cuidar dos animais e ainda indicar as trilhas que poderiam levar essa tropa na direção certa. O que encontrei nas minhas pesquisas, como resumo, é que nesse tempo de guerra, que durou poucos meses, com São Paulo é que os paulistas ‘constitucionalistas’ foram derrotados pelos ‘’federalistas’’ da ditadura de Getúlio Vargas. Como se faz nos regionalismos ou separatismos: os 09 de julho passaram a ser feriado, e não os 02 de outubro, que teve aqui Campinas o último reduto paulista a se render.

E, você, seguidor ou não do blog, me leu o texto homenagem até aqui, ficará se indagando porque tanta descrição de um tempo já passado (?). Lá longe entre as Mantiqueiras, nossos crepúsculos e as águas minerais...

É que não poderia lhes falar do que mais aprendi com meu pai, principalmente ao caminhar junto dele, na beira da estrada entre Cambuquira e Três Corações, no caminho da roça, aquela que sempre amou: o exercício imprescindível, para além de quaisquer tempos ou guerras, da resiliência.

Essa capacidade de supervivência que pode até nos livrar dos sedutores abraços da Dona Morte. Um e-terno desejo de sobreviver, mas com dignidade e sem a necessidade de exterminar ou dominar o Outro. Muito pelo contrário como uma arte de buscar sempre aprender, aprender com o solo, mesmo o aparentemente árido, com a chuva que não veio, com a geada que virá, com as folhas que secam, com o frio que congela sementes ou o calor ensolarado que secará os grãos de café.

Tudo isso, história, “grandes Guerras Mundiais”, “revoluções”, “golpes de Estado”, “Ditaduras”, “Anos de Chumbo”,  “porões” e todos os mais intensos momentos da vida política brasileira puderam ser transversalizadores do Seu Arnaldo/corpo/vida, dito do Bar, mas que sempre fugiu para o chão a ser semeado, em busca de Paz com seus chamados “camaradas” do campo.

 Invejo hoje, e o confesso, a sua memória trans-lúcida do que viveu e aprendeu. Contento-me com o fato de ter podido inclusive, com ele, ter visto como se fazia a política dos tempos de UDN e dos Magalhães Pinto. Como eram vendidos, comprados e ‘santificados’ os políticos de carreira e suas promessas de campanha. Pela oposição ferrenha de minha mãe, e por seu caráter e honestidade, nunca se deixou trocar de papéis como ator social. Nunca precisou prometer o leite ou pão aos que precisavam em troca de votos.

Para ele dedico hoje minha escrita, em prosa, ainda espero o sopro inspirado de alguma poética para estes tempos onde se vende e compram até os mais legítimos votos. Tempos onde sob a ameaça de novas ditaduras ou democracias neoliberais, forjadas pelos mais vis espetáculos e midiatizações, me vejo mais envelhecido do que um homem livre de 106 anos. E, por isso, estou muito mais triste, muito mais desvitalizado do que ele.

PARA TODOS NÓS que podemos ainda respeitar os seus muitos anos vividos, sobrevividos e supervividos, deixo uma reflexão de Henry David Thoureau (1817-1862), no livro A Desobediência Civil –

“... Assim, a massa de homens serve ao Estado não na qualidade de homens, mas como máquinas, com seus corpos. São o exército permanente, as milícias, os carcereiros, os policiais, os membros de destacamentos, etc. Na maioria dos casos, não há, em absoluto, o livre exercício do julgamento ou do senso moral; ao contrário, eles se rebaixam ao nível da madeira, da terra e das pedras; e homens de madeira talvez pudessem ser manufaturados para servir aos mesmos propósitos [...] 

No entanto, homens assim são geralmente estimados como bons cidadãos. Outros – como a maioria dos legisladores, políticos, advogados, ministros e funcionários públicos – servem ao Estado, sobretudo com a cabeça; e, como raramente fazem qualquer distinção moral, podem tanto servir ao Diabo, sem ter a intenção, como a Deus. Pouquíssimos – tais como os heróis, patriotas, mártires, reformadores em sentido amplo e homens – servem ao Estado também com sua consciência, e portanto necessariamente resistem a ele a maior parte do tempo; e costumam ser tratados por ele como inimigos. Um homem sábio só será útil na condição de homem, e não se rebaixará a ser “barro” e “tapar um buraco para deter o vento”, mas  deixará esta tarefa, quando muito, para suas cinzas.” (págs.10-11)

(copyright/left jorgemárciopereiradeandrade abril de 2016 até o dia que as cinzas forem levadas pelos ventos livres... favor citar o autor e autores em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação para as massas. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

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ENVELHE=SER OU TORNAR-SE, + 1 VELHO  

MEU PAI, NOSSAS MONTANHAS E NOSSOS CREPÚSCULOS  (UMA HOMENAGEM AOS SEUS 105 ANOS) 

O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS PERSISTEM, ENTRETANTOS O MEU PAI FAZ 102 ANOS ...

quarta-feira, 29 de abril de 2015

MEU PAI, NOSSAS MONTANHAS E NOSSOS CREPÚSCULOS.(uma homenagem aos seus 105 anos)

Imagem publicada – uma foto feita a contraluz nos anos 80, por mim, com uma velha máquina fotográfica Yashica, com meu pai como foco e principal imagem ao centro, com seu rosto e chapéu de palha, que sempre o acompanhava nas suas caminhadas e nos seus momentos da roça e da lavoura, é misturado ao Sol brilhante de um dos muitos crepúsculos lá em nossa terra natal, Cambuquira, Minas Gerais. Um Sol que nos mantêm intensamente misturados ao cenário da natureza e das montanhas ao fundo, típica de nossas paisagens e nossos poentes. E que no escurecer e no anoitecer ainda mantemos nossos brilhos subterrâneos.

Daqui há pouco estarei ao seu lado. Daqui há pouco poderei sentar-me na varanda e olhar mais um crepúsculo. E ao olhar para ele irei poder refletir, mais uma vez, sobre nossas infindas finitudes.

Ele supera mais uma barreira, aquela que poucos podem, ao que eu saiba, ultrapassar: tornar-se centenário. Muito embora matérias jornalísticas digam que estamos tendo um crescimento de número de pessoas além dos 100 anos no país.

Entretanto, minha indagação continuará sendo sobre o viver e o ter esses anos biológicos contados com qualidade e dignidade. Em outra matéria fica claro que ainda somos atravessados pelos mitos ou pelos discursos científicos que atribuem a longevidade à riqueza material ou aos que podem usufruir dos avanços da medicina.

Em matéria sobre mulheres centenárias, a BBC nos traz algumas reflexões destas que podem nos ajudar a compreender que sentido tem esse viver em busca da qualidade e não da quantidade de anos acumulados. Ao reunir uma inglesa de 102 anos que foi uma das primeiras mulheres a posar nua para um calendário beneficente, uma das sobreviventes do Holocausto e do campo de concentração Terezin, e uma centenária que adora velocidade, podemos ver transversalizadas vidas que têm em comum o desejo profundo de viver intensamente.

A experiência de Alice Herz-Sommers, que conheceu o Theresienstadt, o Campo Terezin, sob o jugo e invenção do nazismo, me aproximou de recentes leituras sobre nossas resiliências diante das crueldades e dos fascismos. Ela diz, nos seus 108 anos, que: "Minha irmã gêmea era um tipo pessimista, ela morreu antes de fazer 70 anos porque nunca ria, nunca. Mas rir é uma coisa linda...”.

Em tempos que vemos o recrudescimento de ódios, racismos exuberantes, fascismos declarados, desejos retrógrados de intervenção militar, falsos anticomunismos, fabricação de novos medos e novas angústias, talvez possamos aprender com Alice e com o véio Arnaldo.

Ambos conheceram o Século XX, em todas as suas dimensões. O meu pai relata, com sua lucidez impressionante e memórias mais ainda, que pode ver e viver as nossas ‘ velhas’ Revoluções, seja a 1930 ou a de 1932. Assim como  a que falsamente, por ser golpe civil e militar, também foi assim chamada nas histórias oficiais, aquela dos Anos de Chumbo de 1964, que durou 21 anos.

Em todos os momentos que busquei em minhas memórias em processo de dissolução, diferentemente de meu pai, sempre pude revê-lo encarando todas as agruras ou desafios com muita firmeza e com um sorriso nos lábios. Não me lembro de rancores, de discursos de ódio, de apedrejamentos do Outro, muito menos de discriminação social ou racial.

 Com certeza as caminhadas que com ele fiz até as suas “plantações”, seus sítios ou terras arrendadas, me tenham ajudado a aprender o respeito que ainda nutro pela Terra e pelos que se diferenciam de mim. Tive uma rara oportunidade de vê-lo em diferentes espaços, desde suas ações de fé, como a Romaria, as procissões, as missas, até seu laborioso dia atrás de um balcão de um bar e restaurante. Sempre o mesmo e dedicado homem e cidadão. Sempre o que buscava a fé, a plantação do café e a fé no alimentar e cuidar dos Outros.

Busquei por essa convivência com quem aprendeu, como Alice, a ser um provocativo bem humorado,  o que ele ainda o é, a não cair nos nossos abismos tentadores do pessimismo e da descrença na Humanidade. Os meus convites à dança com Dona Morte nunca foram maiores que a Música da Senhora Vida Gaia. Até o doer passa a ser re-existente...

 Pelo contrário, daí, talvez, venham meus percursos na medicina, na política e na defesa dos direitos humanos, mesmo que todos esses campos sejam, para mim, só de reinvenção permanente. As minhas caminhadas e caminhos puderam tomar rumos até opostos aos dele.  Brincava com a oposição, desde um votar em Lott (o Marechal e sua espadinha) contra o seu candidato, Jânio (dos bilhetes e da vassourinha). Ser do contra não era ideologia mas um modo de construção de afetos e de proximidades.

Nesse ano que agora temos de aprender novos caminhos e novos passos rumo ao futuro, olhando para trás e não desejando o refluir e o retrocesso, desejaria, com todo afeto, que milhares de pais como o meu fossem a referência de muitos outros brasileiros e brasileiras como eu.

E, por crer, com diz Thiago de Mello, o poeta: “_Não somos os melhores – Não somos  nem melhores nem piores. Somos iguais. Melhor é a nossa causa...”, e que devemos mostrar a nós mesmos a nossas raízes, nossos dilemas, nossos medos e nossas esperanças. E que a nossa causa comum seja mudar, mudar e mudar sempre. Mudar o que precisa ser mudado, como diz o poeta “para que a vida possa um dia ser mesmo vida, e para todos”.

POR ISSO, sabendo no meu âmago que tenho um pai que deseja ardente e fervorosamente a igualdade é que lhe escrevi um poema e o compartilho com quem puder lê-lo e compartilhar:

MEU PAI, NOSSAS MONTANHAS E NOSSOS CREPÚSCULOS

Um pai e seu filho mais envelhecido
Seguem juntos até o mais alto e imaginário pico,
Sobem juntos por trilhas que se apagam
Sob seus pés cansados e com bolhas,
Pisam de leve folhas, relvas ou os espinhos, e, lentos
Sobem como bolhas leves de sabão ao vento,
Que a luz do sol atravessa em arco-íris
E os deslumbra, pois o caminho ainda é longo,
Mesmo se curto é o viver...

Árdua e íngreme é a montanha-vida,
Assim como as vidas nas suas matas e entranhas
As suas pequenas ou grandes rochas são
Milênios de consolidação de uma Terra,
A mesma que o pai ensinou revolver, semear
E com a água que brotar de nossas próprias rochas
Deixar brotar delas novas sementes...

A mesma terra que se queimou e se sulcou com os arados,
Mesmo pisoteada, revolvida, sob pás, picaretas ou enxadas,
 É como sua negra pele  só agora encarquilhada, é mais profunda,
Tem cicatrizes, velhas feridas, mas não morreu,
Pois dentro dela permanecem os úmidos segredos
De ser sempre uma renovada resistência,
Uma nova colheita e um novo espargir sementes...

Mas para que no alto possamos vê-la continuar flor e ser
Temos os dois ainda um aprendizado, um novo ensinar?
Um novo des-conhecer, um olhar juntos e permanentes
Para já antigos crepúsculos, centenários montes,
Onde sempre, por mais de um século, o sol se esconde,
Onde o Sol de seus corações andarilhos, com as in-certezas,
De ter a Vida para escalar, fingiu-se morto para à noite tecer...

E o dia seguinte novamente lhes acontece,
E os dois olhando juntos para esses poentes,
Poeticamente sentem que seus próprios e diferentes crepúsculos,
Suas próprias noites infinitas, mas também de dia findas,
Diante de seus olhares pacientes e sempre aprendizes,
Por serem sempre ávido das incógnitas escarpas e abismos,
Entre as velhas trilhas, com seus pés insistentes,
Teimam, persistem nesse rumo ao horizonte,
O buscar suas próprias finitudes... 

O meu pai caminhante, como os alpinistas sob avalanches,
Sempre em busca do próximo caminho ou vereda,
Subiu e desceu estas montanhas de muitas Minas,
E com ele aprendi que nada
Nem ninguém não nos detém,
Nem mesmo se a Terra treme,
Se andarilhos visionários encaramos
O que temos de destemer:
O nosso paralisante medo de morrer.
E hoje, nos seus 105 anos bio-lógicos, demos apenas,
Mais uma vez juntos, o próximo passo...

(Texto e poema dedicados  e em homenagem a meu pai Arnaldo Pereira de Andrade, o mais ‘velho’ dos andantes romeiros de sua/minha cidade natal... que já atravessa as serras da Mantiqueira há mais de 80 anos...) (TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025

LEITURA CRÍTICA PARA NOS ESTIMULAR MEMÓRIAS –

O TEMPO VIVO DA MEMÓRIA- Ensaios de Psicologia Social – Ecléa Bosi, Editora Ateliê Editorial, São Paulo, SP, 2003.

POESIA COMPROMETIDA COM A MINHA  E A TUA VIDA – Pequena História Natural do Homem no Fim Que  Vem Vindo do Século Vinte – Thiago de Mello, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 1986.

MEMÓRIA E SOCIEDADE – Lembranças de Velhos, Ecléa Bosi, Editora Companhia das Letras, São Paulo, SP, 2001.

INDICAÇÕES DE NOTÍCIAS NA INTERNET –
Centenárias dão dicas sobre como chegar bem aos 100 anos - https://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/07/120702_segredos_vida_longa_mv

‘Supercentenário' brasileiro faz sucesso nos EUA com seu estilo de vida saudável https://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/03/120313_centenario_rc.shtml

Metade dos nascidos hoje em países ricos chegará aos 100 anos, diz estudo https://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/10/091001_bebe_expectativa_vida_np

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –

ENVELHE=SER ou TORNAR-SE, + 1, VELHO? (29 DE ABRIL 2014) https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/04/envelheser-ou-tornar-se-1-velho.html

O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E, ENTRETANTOS, MEU PAI FAZ 102 ANOS... https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/04/o-mundo-envelhece-as-injusticas-ainda.html



quinta-feira, 26 de abril de 2012

O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E, ENTRETANTOS, MEU PAI FAZ 102 ANOS...


Imagem publicada – uma foto colorida que tirei lá em Minas Gerais, na minha terra natal, Cambuquira, onde se vê um vasto céu azul ao fundo, com árvores em segundo plano, todas vicejando e verdes-vivas, no primeiro plano aparecem, em destaque no céu, galhos secos e velhos que fazem parte de um árvore-envelhecida. Um detalhe nos chama atenção que é a casa de barro de um pássaro: o João de barro. É, nesses aparentes galhos que se lançam ao céu como veias e artérias, que o passarinho encontrou seu melhor abrigo e futuro protegido, e lá permanecerá até que a velha árvore caia...

“A vida é uma viagem experimental, feita involuntariamente. É uma viagem do espírito através da matéria, e como é o espírito que viaja, é nele que se vive. Há, por isso, almas contemplativas que têm vivido mais intensa, mais extensa, mais tumultuariamente do que outras que têm vivido externas. O resultado é tudo. O que sentiu foi o que se viveu...” (Fernando Pessoa através Bernardo Soares)

Estamos cansados de nossas dores? E das dores do mundo também? Qual será nossa pro-cura?

HÁ TEMPOS EM QUE SONHAMOS COM OUTRO MUNDO, OUTRA NÃO FINITUDE DA VIDA.Eis que aquela Senhora Dona Morte nos incomoda e nos toma por inteiro. Eu aqui Outro Pessoanamente dessassossegado, por mais que lhe escreva novas cartas de-vidas, ela continua ainda sem me dar as respostas definitivas. E sinto que os anos da velhice já se anunciam.

O mundo esta envelhecendo. A notícia de que me 2050 teremos muito mais pessoas idosas do que jovens me preocupa. A minha atual situação me faz pensar na transitoriedade e no fim de todos e todas.Porém há um aviso que vem junto com esta constatação da OMS: teremos triplicado também o número de idosos com demências.

Segundo a especialista: "Minha mensagem é que o envelhecimento da população é algo que deve ser abordado. Há uma mudança dramática que atingirá tanto o mundo em desenvolvimento como o desenvolvido", disse Somnath Chatterji, coordenadora do estudo Global sobre o Envelhecimento e a Saúde Adulta da Organização Mundial da Saúde (OMS.

Escrevi no texto anterior sobre a necessidade de mantermos a presença do que chamamos de nossa Mente quando se decidir sobre a anencefalia. A expectativa que me causa medo agora, quiçá até certo pânico, é essa trágica perda de contato com o mundo, mesmo que envelhecido, para os que vivenciarão este prognóstico demenciador.

Como não temer esse futuro? Talvez eu não tenha as respostas para nossos tremores e temores. As respostas sempre são múltiplas e plurais. Porém, posso tentar lhes avisar sobre algumas reflexões que já foram feitas por quem estudou e analisou essas psicologias do viver e do morrer.

Há em todos e todas as criaturas com Vida um temor ou medo da Morte e do Morrer. Eu já experimentei esse fel, ou melhor, esse doce veneno.
Principalmente quando tenho de enfrentar situações onde a injustiça ou negação de seu acesso esteve presente. Eis um estímulo final para a gota que enche o copo que já estava cheio de depressão.

Há sempre os que se supõem capazes, especialistas ou dotados de poder, que se sentem nesse lugar supremo. Os que podem mudar as leis sobre a aposentadoria, os que podem cassar e reduzir o tempo de alguns que desejam sair da vida laborativa, os que doutos se sentem para instituir o que eles próprios nunca vivenciarão: asilos, isolamentos, pauperização ou mesmo a morte solitária.

Há, então, que repensar nossos desejos de fazê-los apenas “nossos velhos”. Como no texto anterior, lembrando-se de Narayama, ainda temos de derrotar nossos preconceitos e estigmas sobre a velhice. Vivenciamos no atual modelo de vida sócio-político e jurídico, o risco de nos tornarmos uma Sociedade que pratica e praticará o “gerontocídio”.

Os que se vestem de fardas, togas ou ternos pretendentes a um lugar de eterna autoridade podem ainda causar muitos estragos nesse processo do envelhecimento da Gaia. Assim como dos nossos idosos, ou melhor, todos e todas nós...

São os que ocupam papéis de decisão sobre os rios, as matas, os bichos, os índios, as florestas, incluindo aí dos os dilemas bioéticos do nascer ao morrer da Vida. Estão, como se não fossem envelhecer, lá Câmara, no Palácio, no Senado ou nos seus supremos assentos...

Porém esses senhores e senhoras também estão envelhecendo. E, recentemente, o mundo pode assistir com uma Dama de Ferro, inglesa, após sua senectude pronunciada pode tornar-se pateticamente mais uma pessoa demenciada. Há e haverá muitas Margareths ainda na História esse mundo que caminha com passos largos para sua própria devastação.

Poderá a Terra também tornar-se “demente”? Sim e ainda poderá apresentar algumas convulsões, algumas formas estranhas de tique, e, principalmente, voltar-se para a barbárie aceitando as falsas falas de extremistas de direita como Breivik, lá na Noruega.

Tivemos esses dias mais um DIA DA TERRA. Acho que a maioria do mundo nem se mexeu na direção de sua real comemoração: a sua redenção e urgente salvamento. Esquecida a data mundial a cada dia temos mais Sírias a resolver. Temos mais malárias a combater, e a tuberculose agora é um “privilégio” de quem depende do Crack, no presente de seu aniversário. Por aqui os ruralistas e os seus interesses irão destruir mananciais.

A Terra pode realizar os filmes futuristas de devastação, solidão, medo, isolamento e completar seu desfecho abraçando-se com a Dona Morte. Ou, então, reproduzir o que a propaganda da TV já naturaliza quando, saturada, ela nos “espirra” e lança no espaço todos os seus habitantes humanos.

Mas ainda podemos crer como dizia Erich Fromm em uma ‘’revolução da esperança’’. Aliás, essa palavra já foi até associada a uma de nossas mais brasileiras maneiras de ser e sonhar. Este psicanalista, ao vivenciar a crise mundial de 1968, já apontava o nosso risco de mecanização do viver e as tecnocracias tornando-se mais forte que a esperança.

Entretanto, ele acreditava que em um renascimento do humanismo e fazia um apelo à ação grupal. Ele interrogava: “De que maneira o homem, no auge da sua vitória sobre a natureza, torna-se prisioneiro de sua própria criação e corre sério perigo de se destruir?”.

Tentando, com olhar voltado para mim mesmo, responder a sua indagação é que retornei à foto e ao dia em que a tirei. Ela é um pedaço da terra onde até hoje meu pai insiste em plantar e colher. Um homem rural que não se tornou nunca um ruralista, muito mais um fervoroso aprendiz do meio ambiente.

Ele, que agora no dia 30 de abril, completa os seus 102 (cento e dois) ANOS. O meu querido Arnaldo sempre foi um homem do mato. Ele é que levava pelas estradas que nos conduzem ao respeito à Terra, a terra e seus mananciais. Com ele aprendi serenamente a observar como semear e como tentar colher. Ele já tinha um código de ética com as florestas...

A ele estarei rendendo todas as minhas homenagens possíveis. Ele me revelou como é preciso ser “camarada” e “velho companheiro” da nossa uterina mãe Gaia. Talvez, quem sabe, este velho romeiro e caminhante tenha me trazido os primeiros ensinamentos ecosóficos. Ainda que não tivesse todos os saberes, os mesmos que me proporcionou com seu trabalho e as mãos calejadas na roça.

Aos filhos, fazendo coro com minha mãe, só um grande legado e herança: o conhecimento. Esta seria talvez uma das saídas para responder ao que indagamos. Sair de um modelo e paradigma tecnocrático e desumanizador para um novo paradigma ético, estético e político como queria Guattari.

O psicanalista também interrogava como podemos estar produzindo pessoas doentes para que possamos ter uma economia sadia. Eis que, cada dia mais, o hipercapitalismo se locupleta com as desgraças, as epidemias e os sofrimentos dos desfiliados e excluídos.

O mundo envelhece, as injustiças persistem, mas há lá em Minas um senhor com 102, caminhando para os 103 anos, que olha ainda com ternura para o futuro de seus bisnetos.

Lembrei-me de meu pai com a matéria sobre o hindu que correu uma MARATONA em 08 horas. O meu velho já caminhou muitas maratonas em sua forma humilde e mansa, sempre com uma fé incomensurável, nas milhares de romarias a pé até Aparecida do Norte, cruzando a Serra da Mantiqueira. Invejo e respeito seu fervor que supera quaisquer dores ou cansaços em nome de sua fé na Vida e nos Homens.

Como então levar um pouco desse senhor idoso para o coração e as mentes daqueles que se negam a reconhecer seu próprio envelhecimento das ideias, das emoções e de seus saberes?

A ELE DEDICO ESTE TEXTO-ESPERANÇA na crença de que muitas revoluções moleculares ainda se darão, e os nossos devir-criança nos trarão de volta o prazer de pisar na terra, no chão e nele cultivar o desejo de um OUTRO MUNDO, sem a negação da diversidade, da diferença e da multiplicidade dos seres humanos. Comecemos cuidando de todas as nossas cachoeiras e das águas que turvamos e poluímos.

Ao envelhecimento e ao processo de “alzheimerização” previsto pela OMS, desejo que possamos ter muito mais Arnaldos do que Anas. Explico, é que minha mãe vivenciou, assim como nós seus amados, a experiência do Alzheimer. Digo sempre que me encontro na encruzilhada genética destes dois seres humanos, muitas vezes caminhando mais para a direção de minha mãe. Entre a longevidade com saúde e a morte precoce com uma demência.

Decorre daí o temor de nossos futuros demenciados. Não podemos perder a esperança de outras formas de viver e super-viver. Temos de ser futuristas, porém, com um olhar e sentimento bioético para com a sua, a nossa e a VIDA DA TERRA.

E, hoje, novamente eufóricos, podemos anunciar uma revolução gerada pelas ciências, vinda lá de Portugal: “Uma equipe de investigadores da Universidade de Coimbra (UC), através do seu Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS), produziu uma molécula única - PiB (composto B de Pittsburgh) – que possibilita a detecção da doença de Alzheimer antes de os sintomas clínicos se revelarem, permitindo ainda distinguir esta patologia de outras formas de demência..;”

O futuro dependerá, então, de nossa mais profunda e radical revolução. Continuaremos mortais, nossas mentes-cérebros poderão demenciar, nossos corpos tornar-se-ão ciborgues, nossos corações podem vir a ser pura lata ou platina, mas podemos, apesar de tudo e todos, manter um pouco de sabedoria dos nossos velhos.

E que venha o Futuro, pois um século e dois anos o meu pai já VIVEU: intensa e amorosamente.

O mundo pode renascer! A Justiça tornar-se justa e equânime. E o meu pai terá feito parte do meu legado de sabedoria a deixar como semente.


Copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa - TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025 ...)

Notícias citadas da Internet –

Organização Mundial de Saúde- Demência afeta 35,6 milhões e triplicará até 2050
https://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=2413153&seccao=Sa%FAde

Em 14 anos, São Paulo terá mais idosos que crianças https://www.estadao.com.br/noticias/cidades,em-14-anos-sao-paulo-tera-mais-idosos-que-criancas,533252,0.htm

Em 2050, mundo terá mais idosos que crianças https://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI1543102-EI294,00-Em+mundo+tera+mais+idosos+que+criancas.html

Universidade de Coimbra produz molécula para detecção precoce da doença de Alzheimer https://www.rcmpharma.com/actualidade/id/23-04-12/universidade-de-coimbra-produz-molecula-para-deteccao-precoce-da-doenca-de-a

Homem de 100 anos completa maratona
https://www.jn.pt/VivaMais/Interior.aspx?content_id=2061898
LIVROS para reflexão e crítica –

LIVRO DO DESASSOSSSEGO – Fernando Pessoa, Vol. II, Editora Unicamp, Campinas, SP, 1994)
PSICOLOGIA DA MORTE – Robert Kastenbaum e Ruth Aisenberg, Editora Universidade de São Paulo, São Paulo, SP , 1983.
A REVOLUÇÃO DA ESPERANÇA, por uma tecnologia humanizada – Erich Fromm, Editora Círculo do Livro & Zahar Editores, Rio de Janeiro, RJ,

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domingo, 14 de agosto de 2011

AOS PAIS QUE APRENDERAM COM A(R) DOR AS PERDAS

Imagem Publicada - a foto colorida da capa do filme AS CHAVES DA CASA (com título em francês: Les Clefs de la Maison), com os atores Kim Rossi Stuart e Andrea Rossi, interpretando os papéis de pai e filho, com os rostos próximos. É a história de um filho com paralisia cerebral (Andrea Rossi), com 15 anos, que faz com que o pai tenha uma grande transformação e mudanças em seus preconceitos e culpabilizações. O pai (Kim Rossi Stuart) tem um encontro dramático com uma mãe de outra pessoa com deficiência, interpretada por Charlotte Rampling, que lhe faz superar suas velhas dores afetivas ligadas ao filho.


Minhas dores já se tornaram minhas velhas companheiras, me ensinam. 


Já disse, outro dia, que ainda vou escrever sobre as fagulhas e as agulhas das dores. Mas as minhas dores, hoje, são primordialmente físicas. As dores que eu vivencio, hoje, não se comparam as que guardo como pai. E, para os pais que aprenderam a viver e conviver com as suas dores mais recônditas, muitas vezes escondidas ou negadas, é que escrevo nesse chamado, também comercial, Dia dos Pais. Há pais que não ficam, nem ficarão, mesmo no carinho e amor de suas famílias, longe de suas dores... 


A dor que nos ensina vem de nossas experiências com nossos filhos. Escolhi dois filmes italianos, que gosto muito, para me lembrar da existência de pais que dificilmente se recuperam quando as perdas os atingem. Temos, provavelmente, muitos pais que, nesse momento, estarão perdendo seus filhos. Principalmente pelo que hoje vem sendo cometido contra a nossa juventude. Em algum lugar, em alguma cena triste ou de pesar, há alguém recebendo a notícia dessa perda inesquecível. O Dia dos Pais não nos exime de perder aqueles que nos homenageam hoje e sempre. 

O que me perguntei ao assistir o filme foi: As Chaves da Casa - onde estão as chaves??. Para ter "chaves" de uma casa primeiramente precisamos de ter uma "casa". A que me refiro e penso não é necessariamente do programa Minha Casa, Minha Vida, embora possa parecer título de cinema. É uma casa mais simbólica do que concreta e de concreto. É a casa construída dentro do imaginário e das nossas recordações. Onde podemos guardar/recordar de outro filme, outra história: O Quarto do Filho. 

Uma casa do passado onde as minhas, as suas e as perdas afetivas de filhos de alguns pais tem suas sombras, suas nuances e suas claridades possíveis. Lá estão guardadas as dores, na diferença de intensidade de cada um. Já escrevi: nós, pais, somos diversos além de diferentes. 

O primeiro filme. "As Chaves da Casa", em uma leitura simplista, pode parecer nos convidar para entrar em um universo sentimental que geralmente chamamos de lar. O filme, porém, nos traz uma abordagem da relação com a deficiência que precisa ser pensada, pois em um momento crucial do mesmo é afirmada mais uma vez a relação errônea entre Doença e Deficiência. 

A atriz Charlotte Rampling, mãe de uma moça com paralisia cerebral, que freqüenta o hospital onde se faz a reabilitação, dirige-se a Kim Rossi Stuart, no papel de pai de Paolo, o jovem filho, também com paralisia cerebral e lhe diz que ele “tem sorte, pois a doença o protegerá pelo resto da vida...”, e não foi erro de tradução, pois o italiano usado pelos atores é perfeitamente traduzível para nossa concepção de enfermidade. 

As deficiências, de nossos filhos, não são uma proteção eterna. Muito menos são doenças. Há uma relação a ser descoberta com o título dessa película. Acredito que o autor e diretor do filme quis nos levar a pensar primeiro em AUTONOMIA, pois quem tem todas as chaves da casa neste filme é o sujeito com deficiência. 

Paolo (Andrea Rossi) é que sabe das chaves, tendo inclusive uma chave para o ladrão. Ele também é o filho que foi "abandonado" pelo pai há muito tempo pois recebeu a culpa da morte de sua mãe. E, sendo um sujeito com uma deficiência, nos imprime também alguns temores, inclusive o de nossa igualdade na fragilidade física. 

Eis aí um prato cheio para uma psicanálise das fontes de culpabilização que se imputam aos pais de filhos com deficiência. O jovem Paolo nasce e sua mãe morre no parto. Ficam, então, o pai e o filho, separados por 15 anos, com o futuro para se aproximarem e, dolorosamente, aprenderem a amar um ao Outro. E, somente após seus lutos reconhecidos, poderão descortinar que não há nenhum vácuo, vazio ou ausência na morte. Há também possíveis re-nascimentos afetivos. 

São estes re-nascimentos afetivos que podem ajudar a cicatrização de nossas feridas. As mesmas que nos causam mais dores do que as físicas. As que surgem das perdas ou traumas com os nossos filhos. Há aí um exemplo fidedigno na belíssima obra de cinema: O Quarto do Filho (vencedor da Palma de Ouro e o Prémio FIPRESCI na 54ª edição do Festival de Cannes). 

Nesse filme de Nanni Moretti, diretor e protagonista, nos mostra o que um pai pode guardar da dor ao perder um filho. Ele interpreta um psicanalista que vive às voltas com seu trabalho analítico com a loucura, as neuroses, as fobias, e as dores dos outros. 

Ao ter seu filho morto em um acidente em uma praia, ao tempo em que trabalhava, passa a viver a dor da culpa de não estar ao lado dele. A dor que se mistura com culpa por não ter ''salvo'' o filho. Muitos pais já experimentaram essa amargura. A eles envio minha solidariedade, mas também meu aprendizado de transformação do luto em paixão pela vida. 

Uma lição sobre como não cair na mesma situação representada por Nanni Moretti. O seu psicanalista, Gianni, reencontra-se com a crise familiar diante da tragédia. Ele para de trabalhar com os outros e passa ao mais árduo dos trabalhos: a auto-análise crítica e a elaboração de sua perda filial. 

Os dois filmes italianos, mantidas as suas diferenças e propósitos, nos trazem nos títulos a presença de nossas vidas "intradomus", ou seja dentro da família, dentro de nossos lares e seus conflitos. Trazem também, como já disse, um outro tipo de "casa ou quarto". Trazem os sótãos e os porões de nossos inconscientes onde se abrigam ou se refugiam nossas dores, as nossas dores de amores perdidos. 

E a perda de um filho ou filha pode ser, hoje, a única lembrança de algum pai, em todos os lugares. A estes pais que não superaram as suas perdas, qualquer que sejam seus motivos, envio hoje um abraço doce, forte e caloroso. A eles dedico um pouco de minha lembrança do dia em que perdi meu filho Yuri. 

O aprendizado que meu filho me deu, assim como a dor de sua perda, têm me alimentado a resiliência vital. Em busca de uma outra forma de lidar com o que muita gente ainda considera uma "doença", ou seja uma 'deficiência' em um filho, aprendi que nós é que podemos nos adoecer e, até enlouquecer, se não re-conhecemos, para além de quaisquer profissões ou aprendizados, a sabedoria cotidiana de reverenciar nossos mortos. A sabedoria de aprendermos a morrer vivendo intensa e criativamente. 

E, COM ARDOR COMEMORAMOS, AMOROSAMENTE, NOSSO DIA... nossos dias... carpem diem... 

A TODOS OS PAIS e também às mães, em seus dias de não ficção cinematográfica da dor ou das perdas deixo minha poesia: 

NENHUMA MORTE DEVE SER EM VÃO

RÉQUIEM para um filho amado
Te procurei entre as nuvens
pela janela pequena dos meus olhos tristes...
Voando
Te procurei entre as nuvens, última esperanca
de vê-lo voando no tapete branco das nuvens
Mas não se distiguem os anjos das nuvens !
Não se pode ver o branco sobre o branco,
onde não há diferenças ou nuances
Nem mesmo com a dor-vontade de vê-lo agora
FILHO MEU ! filho que partiu como um devir entre as nuvens
Tuas diferenças e teu cândido olhar falante,
para além de todas as falas e palavras ditas,
me ensinou, e ensina ainda, a buscar além das nuvens
a sonhar com um mundo-céu-azul
onde as criancas de todas as cores, como você
e todas as outras tão diferentes, tão diversas,
nos ensinam que
só há um vôo a realizar,
APRENDER E ENSINAR A AMAR TODAS DIFERENÇAS
.

PARA YURI, o `TERNO` COM TODA TERNURA E AMOR DO SEU PAI Jorge Márcio Pereira de Andrade.
"O poema acima foi escrito hoje (15/04/2000) ao voltar de viagem,num avião, onde sómente a escrita pode dar conta da minha dor e paixão pela perda de meu filho, Yuri, com 13 anos,e uma pessoa muito especial, para além de ser paralisado cerebral ou pessoa com DEF - Distúrbio de Eficência Física" (www.defnet.org.br abril de 2000)

O MESMO RIO QUE NOS LEVA PODE TRAZER NOVAS ÁGUAS, E NÃO APENAS SEIXOS ROLANDO EM SEU FUNDO...

Filmes citados no texto:
AS CHAVES DA CASA
https://www.adorocinema.com/filmes/chaves-de-casa/
Título original: (Le Chiavi di Casa) Lançamento: 2004 (França, Alemanha, Itália) Direção: Gianni Amelio

Atores: Kim Rossi Stuart, Andrea Rossi, Charlotte Rampling, Alla Faerovich.

Duração: 105 min Gênero: Drama

O QUARTO DO FILHO - https://www.adorocinema.com/filmes/quarto-do-filho/

Título original: (La Stanza del Figlio) Lançamento: 2001 (Itália) Direção: Nanni Moretti

Atores: Nanni Moretti, Laura Morante, Jasmine Trinca, Giuseppe Sanfelice.

Duração: 98 min Gênero: Drama

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 EXISTEM PAIS DIFERENTES OU DIVERSOS PAIS?
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O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E, ENTRETANTOS, O MEU PAI FAZ 102 ANOS https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/04/o-mundo-envelhece-as-injusticas-ainda.html

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domingo, 8 de agosto de 2010

EXISTEM PAIS DIFERENTES OU DIVERSOS PAIS?

imagem publicada - foto em preto e branco de um homem, um pai, de óculos, sendo empurrado em um rústico carrinho por uma menina (com vestes indianas), com sacolas penduradas, no meio de uma rua, com trânsito de ônibus à sua volta, sendo ele uma pessoa com deficiência, ele traz, entre suas pernas atrofiadas, um bebê, como uma das fotografias premiadas (1º lugar) de um concurso promovido pela OMS - Organização Mundial da Saúde, do fotógrafo Khaled Satter, para promoção da CIF - Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (2001). Eu a denomino como imagem do presente, do passado e do futuro das pessoas em situação de deficiência no mundo hipercapitalista que estamos vivendo e viveremos, o qual o título da foto elucida: "duplo fardo".

Homenagem ao Dia dos Pais (Em busca da paternidade diferenciada) - agosto de 2010

A paternidade é uma descoberta permanente. Houve uma filosofia pré-feminismo, de Simone de Beauvoir, que também pode ser aplicada aos homens: assim como não se nasce mulher, não se nasce pai, torna-se. Tenho a certeza disso, cada dia mais, cada vez mais. Eu posso afirmar que se há mulheres que ainda não compreenderam o mito do amor materno, também há milhares de pessoas e homens que ainda não compreendem o chamado mito do amor paterno.

Nós, os homens, os machos, não nascemos com 'instinto paterno', assim como é uma construção ideológica e ideal sobre as mulheres o tal 'instinto materno'. Uma outra francesa, Elisabeth Badinter, já demoliu o das mães, mas ainda falta um outra demolição mitológica.

Hoje, como em todos os agostos, se comemora o Dia dos Pais. É a festa da paternidade a ser reconhecida e ser premiada. Nós, os diversos pais, vamos ganhar abraços, beijos e também presentes diferentes. Porém o que alguns pais precisam ganhar pela classificação e rotulação de sua 'situação especial' seria o reconhecimento de serem apenas diferentes ou melhor serem simplesmente pais na diversidade.

Confundimos as duas palavras: diversidade e diferença . Confundimos também paternidade genética com tornar-se um pai. Para que não continuemos exaltando o que deve ser um longo, árduo e incrível aprendizado, o da paternidade de pessoas com deficiência, como 'sofrimento', 'vitimização' ou 'heroísmo', os mesmos estereótipos que estigmatizam os nossos filhos e filhas, estou escrevendo este texto em busca de outro modo e compreensão de nossa condição paterna.

Nós, os pais de filhos e filhas com alguma forma de ser e estar com uma deficiência, somos diferentes sim, porque somos desiguais. Também nascidos na diversidade, se não temos, como nossos filhos/filhas, a equiparação de oportunidades e afirmação/realização de nossos direitos humanos, permaneceremos mais desiguais ainda. Tudo se torna ainda mais complexo na nossa diversidade, seja étnica, seja de herança genética ou de nossas origens familiares.

Somos, enfim, apenas seres humanos, mas muitas vezes somos reificados ou ideologizados como um 'grupo especial'. Acabamos nos tornando um motivo de atenção e de especulações teóricas que vão da antropologia à psicanálise, viramos teses, naturalizações ou dogmas. E, há alguns anos atrás, eramos classificados e rotulados de 'excepcionais', no duplo sentido desse termo.

Não, não há e nem houve, nunca, pais excepcionalmente perfeitos ou imperfeitos. Sempre existiram ou existirão apenas pais, alguns melhores, outros melhorados, outros incapazes do aprendizado incerto da paternidade, estes considerados os pais ruins.

Ao se ter um filho ou filha com uma diferença isso nos torna apenas mais propensos à uma busca intensificada de novos sentidos para o viver e para a Vida. O aprendizado da diferença, dos estigmas, dos estereótipos, dos preconceitos e das barreiras.

O que irá pesar na maneira como que nos desdobraremos das dobras desses filhos e filhas terá a ver com nossas possibilidades de inclusão, exclusão ou desigualdades sociais, além dos processos de subjetivação que vivenciamos. Porém, para além disso, responsavelmente, estiveram também os nossos pais ancestrais e, no futuro que se afigura, os diversos pais que temos e consolidamos, o Grande Irmão, os Big Brothers, a imagem estatal do pai orwelliano que nos controla e dirige em 1984.

Por isso hoje faço homenagem ao pai que tive e tenho a honra de ter e amar. Apenas um bom pai, nem perfeito, nem excepcional, apenas um pai amoroso. E digo com toda certeza, a este homem, hoje com mais de 100 anos, que foi sua maneira amorosa e desprendida de egoísmos, narcisismos  individualismos e, principalmente, dos radicalismos micropolíticos, que com fé e resiliência me ensinou a alegria tanto quanto a paixão de viver intensamente. 

Ser um pai com simplicidade aliada a muitos valores coletivos e princípios éticos já bastava. Não foi preciso ser um mito nem apenas uma identificação edípica, foi preciso uma boa, longa e afetuosa caminhada em parceria, nas travessias do cotidiano de terras rurais das minhas Minas Gerais.

Desejo, portanto, a todos e todas que possamos hoje homenagear a todos os Pais. Independentemente de suas condições ou qualidades, para além de seus defeitos, fazendo justiça a eles com um novo modo de reverenciá-los: humanizando-os, tornando-os apenas mortais e plenos de vida, no tempo de cada um, na singularidade e subjetividade possível a cada um deles. NEM HERÓIS, NEM VILÕES, apenas homens....

Vivam e vivenciem tudo o que seus filhos,com e sem deficiência, como a mãe Terra, tem para oferecer de melhor, e que nosso dia seja mais um dos muitos em que estaremos sendo tratados e respeitados em nossas diferenças, nossas multiplicidades, nossas suavidades ou mesmos nossas asperezas de aprendizes da paternidade.

Dedico com amor este texto aos meus filhos/filhas, assim como a todos filhos e filhas que nascem nesse momento, desejando-lhes um utópico dia dos Pais: sem violências, sem dores incuráveis, sem misérias, sem pobreza ultrajante, sem guerras e militarismos, sem terremotos devastadores, sem a cultura do medo, sem trabalho escravo, sem preconceitos étnicos e de gênero, sem xenofobias, sem desfiliações marginalizantes, sem torturas, sem bombas ou minas mutilantes, sem barreiras arquitetônicas, sem fome ou anorexias, sem fanatismo religioso ou politico, sem exploração sexual e trabalho infantil, sem exclusões, sem segregações biotecnológicas, sem homofobias, sem injustiças, sem microfascismos, sem manicômios, sem epidemias, sem violações de direitos humanos, sem os alienantes espetáculos macropolíticos, sem corrupções, sem genocídios, sem desaparecidos, sem meninos ou meninas em situação de rua... 

Pois estes também tiveram pais, estes também foram e são filhos de algum homem... mas a eles e seus pais, homens e mulheres, ainda não foi possível a existência de um mundo tão utópico e sonhado por nós.

Portanto, tornar-se um pai, e ainda afirmar direitos humanos para nossos filhos e filhas, é manter acesa essa chama utópica, ética, ecosófica, bioética e amorosa de um outro mundo possível. FELIZ DIA DOS PAIS na diferença e na diversidade.

copyright jorgemarciopereiradeandrade 2010-2011 (favor citar a fonte e o autor em republicações livres na internet)

P.S - peço desculpas aos leitores e leitoras do blog pela ausência de textos no último mês, não foram férias, mas aumento de dores e dissabores, assim como a busca de justiça para um pai diferente que me fizeram ficar sem o tempo necessário para o ato libertário da escrita neste espaço.

Referências bibliográficas:

O Segundo Sexo - Vol1 - Fatos e Mitos - Simone de Beauvoir - Nova Fronteira, RJ ( Le Deuxième Sexe (I) | 1949 )

https://www.novafronteira.com.br/produto.asp?CodigoProduto=0316

Um Amor Conquistado - o Mito do Amor Materno - Elisabeth Badinter - Ed Nova Fronteira, RJ, 1980 

IMAGENS DA SAÚDE E DEFICIENCIA - OMS (2005) https://www.who.int/features/galleries/disabilities/index.html

CIF 2001 - Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde

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segunda-feira, 26 de abril de 2010

QUEM NÃO GOSTARIA DE VIVER 100 ANOS?


Imagem publicada- uma ampulheta, o mais conhecido dos relógios marcadores de tempo com areia, que quando escorre entre os dois bulbos de vidro que a compõem sintetiza de forma clara a passagem do Tempo (Cronos). Nessa ampulheta na parte de cima encontra-se um ser humano sentado a uma mesa escrevendo enquanto a areia escorre pelo gargalo para parte de baixo. Eis a vida, que ao nascer, viram de cabeça para baixo as nossas ampulhetas individuais.

InfoAtivo DefNet nº 4400

"Antes de tudo, há o homem só.
Que nasce sozinho, que morre sozinho
e que sozinho vai vivendo, no seu ente mais fundo..."
(Mais Profundo que o Amor - D. H. Lawrence - poemas)

Será que muitos dos seres humanos não respondem negativamente, de acordo com as suas condições de vida, a este interrogar sobre a longevidade?

Principalmente, quando suas vidas tornam-se descartáveis e insípidas? Muitos, porém, me dizem que gostariam de viver e comemorar estes 100 anos, ainda mais agora com as possibilidades biomédicas de extensão e prolongamento da vida, esperando-se que, bioéticamente, com dignidade e qualidade. A idade, biológica e cronológica, de todos nós ainda é um dos parâmetros para que façamos a medida da vida. É ainda uma bio-ampulheta...

Porém a sobrevivência não é proporcional ao que chamo de 'supervivência", ou melhor da vida que se viva com intensidade e profundo sabor de vida, como nos sugeriu o título daquele suave-alegre-triste filme: o Tempero da Vida... 

A vida precisa de tempero, de bom cozimento, de hora certa para alguns ingridientes, de temperatura adequada para seu preparo, de igualdade e proporcionalidade das diferentes especiarias, uma pitada de ousadia e uma dose de poesia, e mais ainda de muita delicadeza e de arte para sua cozinha política, assim como também um educação do gosto para aprender a valorizá-la em suas diversas apresentações e diversificados odores e sabores, tudo regado por um salutar encontro na mesa grande da família humana e sua diversidade afetivo-culinária. (como o nome grego do filme - Politiki Kouzina, de Tassos Boulmetis).

O Tempero da Vida é uma obra que enternece. E mais ainda pelos ensinamentos do modo educar em cinema que propicia.Trata com suavidade a finitude e a infinitude do viver. Estou estes dias, uns mais dolorosos que outros, pensando/matutando muito o que escrever sobre um acontecimento familiar que me aguarda lá nas Minas Gerais. Há que temperar a vida... e homenagear nossas origens.

No dia 30 de abril de 1910 nasceu o homem que me gerou ao ser afetado por minha mãe, contribuindo para a luz/areia em minha vida com data de vencimento marcada. Ele conseguiu, com nobreza e dignidade, chegar aos 100 anos. Isto muito me orgulha e estimula, pois sua vida e trajetória é marcada por muitos acontecimentos e incidentes, uns trágicos outros cômicos. 

Como, por exemplo, o que ouvi em família quando ele, ao passar em frente a casa de sua futura noiva, minha mãe ANA, o jovem motociclista Arnaldo, sofreu um acidente por ficar olhando para a beleza dela. Ele acabou com uma '' fratura amorosa" de seu braço e de seu "coração"...tudo isso pela persistência de sua conquista afetiva. Aos 98 anos por outra paixão, o vinho, fraturou o fêmur, colocou platina em seu corpo, e em dois meses já caminhava com muito mais galhardia que eu e minha coluna e seus parafusos de titânio.

Costumo dizer que a vida de meus pais me ensina com clareza inevitável o entendimento de nossa transitoriedade humana. Ele, o meu pai fará 100 anos, e minha mãe, que já faleceu, só viveu até a proximidade dos seus anos 50-60. Ela faz parte dos episódios e vivências intensas que o velho Arnaldo teve de enfrentar, pois seu fim de viver foi arrastado, de forma irreversível, pela doença de Alzheimer. Por isso digo que já vivi bastante, e, do mesmo modo, diria como Neruda que "confesso" que vivo intensamente. 

A Dona Morte já me atormentou, mas depois da última cirurgia e seu pós-cirurgico hiperdoloroso, acho que aprendi um pouco mais de resiliência: nóis inverga mais nóis num quebra, diria o matuto, quando nóis ama profundamente a VIDA.

Eu, por tudo isso, acredito na construção de um sólido alicerce para viver e suportar viver. Viver não é moleza, diziam os meus ancestrais mineiros. E digo que esta vida que ando levando, pois sigo o poeta Fernando Pessoa em seu Dessassossego: "Viva a tua vida, não seja vivido por ela.".., o aprendizado da re-existência e do humor tem sido uma boa saída. A todo dia tem muitas coisas, pessoas ou fatos que lhe ajudam a despejar mais um pouco de areia-vida do outro lado da ampulheta... Mas resistir é preciso, viver não é preciso, além de navegar (hoje na Internet é claro)...

A longevidade tem de ser temperada pela arte-vidade, a amorosidade, a Transitoriedade,,,precisamos buscar, olhando para a imensidão do Universo, qual o astrônomo e astrofísico do filme grego, buscar alguma forma de amor intenso, nascido entre temperos, mas que nos faz ter a compreensão de despedida em cada encontro, em cada paisagem, em cada estação de trem ou local de partida. 

E olhando os planetas e o Sol compará-los, poeticamente, com todos as especiarias que um ente querido nos ensina utilizar para uma boa fermentação de nossas vidas. As mesmas vidas que correm o risco de serem transformadas em Vidas Nuas.

Como o velho avô que sonhava retornar a sua terra grega, o astrônomo aprendeu a gastronomia da vida. Eu aprendi com um antigo romeiro, daqueles que caminham a pé, até Aparecida do Norte, que, para superar nossas bolhas nos pés e nossos cansaços físicos, há que buscar alguma transcendência, um além de nossas mesquinhas condiçóes biológicas. Um Zarathustra andarilho que possa estender um tênue fio entre a vida vivida e um além do abismo que nos atrai todos os dias, a tal da pulsão de morte freudiana, mais conhecida como DonaThanatós.

Queria deixar aos meus seguidores e seguidoras, visitantes e leitores do blog um brinde a VIDA e escolher com eles/elas um canto, entre as folhas da relva, de Walt Whitman para homenagear ao meu pai e sua longevidade. 

Acho que o Canto à Estrada Aberta seria um bom brinde aos 100 anos de Arnaldo Pereira de Andrade, a quem dedicarei um grande cartaz/banner com os dizeres: "Arnaldo 100 você eu não estaria aqui...". E talvez responda a curiosa pergunta sobre o "segredo" de como ele chegou a esta idade: caminhar, caminhar, caminhar para além do corpo e sua limitações, como diz o poeta:
"A pé e de coração leve
Eu enveredo pela estrada aberta..."


referências no texto:
Ampulheta
http://www.museutec.org.br/previewmuseologico/a_ampulheta.htm

TEMPERO DA VIDA (FILME)
http://www.adorocinema.com/filmes/tempero-da-vida

DAVID HERBERT LAWRENCE - D. H. LAWRENCE
http://pt.wikipedia.org/wiki/D._H._Lawrence

CANTO A ESTRADA ABERTA- WALT WHITMAN
http://epifaniasvirtuais.wordpress.com/2008/02/13/54/

LIVRO DO DESASSOSSEGO - BERNARDO SOARES&FERNANDO PESSOA
http://livro-do-desassossego.blogspot.com/

ASSIM FALOU ZARATHUSTRA - NIETZSCHE
http://pt.wikipedia.org/wiki/Assim_Falou_Zaratustra

LEIAM TAMBÉM NO BLOG -  
O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E ENTRE TANTOS, O MEU PAI FAZ 102 ANOS - http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/04/o-mundo-envelhece-as-injusticas-ainda.html