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terça-feira, 29 de abril de 2014

ENVELHE=SER ou TORNAR-SE, + 1, VELHO?

Imagem publicada – fotografia que fiz de meu pai ao por do sol, em Cambuquira, MG, em contraluz, há muitos, muitos, muitos anos atrás, pois agora, somente agora, aos 104 anos completos, sua silhueta começa a apresentar os chamados sinais físicos do envelhecimento. A sua memória e seu humor continuam os mesmos. Não conhecem esse crepúsculo, que para mim e muitos se antecipa: o não aprender a ser, apenas ao falso aprendizado do conformar-se, ao consumir-se a si próprio.

“A liberdade e a lucidez não servem para grande coisa, se nenhum objetivo nos solicita mais: elas têm um grande valor se ainda somos habitados por projetos. A maior sorte do velho, mais que gozar de boa saúde, é sentir-se que para ele, o mundo ainda está povoado de fins...” (Simone de Beauvoir, A Velhice).

Eu, aqui indagante, conheço um que ainda nutre projetos, romarias e caminhadas, rumo a um Norte de fé e solidariedade. E, se lhe for perguntado se teme as bolhas nas solas dos pés, o frio ou as distâncias, responde lúcido e livre, sem medo, visível, da Dona Morte: “eu ainda não morri”.

Tento seguir na sua trilha existencial, uma vereda imprevisível e sempre tortuosa, vencendo montanhas de temores ou amores, entretanto, uma pergunta me assombra nos tempos atuais: Envelhe=ser ou Tornar-se Velho? Essa inevitável pergunta me acompanha há alguns dias. Hoje me ficou mais próxima e íntima, mais intensa com esse aniversário de meu pai centenário. Um espelho vivo e intenso no qual tento me admirar.

A filósofa que cito, Simone de Beauvoir já me trouxe, há muito tempo, a revelação de que: Mulher não se nasce, Torna-se Mulher... E, usando e abusando dessa interpretação do feminino, reflui para o questionamento acima apresentado. Tornamo-nos apenas velhos? Velhos saudáveis sem projetos?

Repasso-lhes, sem respostas definitivas, a indagação: vamo-nos tornar apenas ‘velhos’, eternamente rejuvenescidos? Obsoletos? Asilados ou Exilados? Antigos ou “artigos científicos” de engenharia genética sem éticas que nos prometem a imortalidade ou a perfeição? Ou seremos, bioéticamente, os que querem re-nascer aprendendo a morrer?

Somos todos seres em processo, biológico e humano, em um processo vital chamado de envelhecimento. Nascemos já mortos. Nascemos já imperfeitos e na incompletude de nos sabermos mortais, finitos. Essa finitude nos leva a buscar asilo e abrigo na defesa inconsciente de uma eterna juventude.

Abrigamo-nos sob as asas obscuras da nossa própria obscenidade, nossos fins como obsoletos. Tudo muda com o tempo. Tudo se esvai. Somos, todos e todas, dispensáveis, quiçá, como diz Baumann, somos hodiernamente descartáveis. Poderíamos, ao menos, sermos, no futuro, corpos recicláveis?

Entretanto, quando nos defrontamos com nossos próprios estreitamentos daquela vereda e trilha existencial, o horizonte, que só era para os Outros, se torna mais próximo. Mais visível na estrada aberta em processo de fechamento, de sol poente. Um crepúsculo existencial, hora de chegada que também é uma partida, como disse Milton Nascimento. Um trem ou um treco?

Se formos, mineiramente, como meu ‘velho’, atrás da linha, atrás das Marias Fumaças, em cada estação, em cada parada, levando nossos sentimentos- locomotivas, nossos devires. Encontramos novas linhas, novas fugas, novos túneis. Ao fim deles sempre houve uma curva nas minhas serras geraes. Aos nossos fins também gostaríamos de saber quem e o que nos esperará na plataforma das próximas e insondáveis Estações.

O QUE CHAMAMOS, então, de VELHO, ao nos sentirmos assim?

Aquele jeans que já lavamos diversas vezes? Contraditoriamente, como a vida, a sua cor desbotada torna-se por isso mesmo o símbolo de juventude e, como antigamente, a roupa mais ‘cara’, como sentido de desejada. Já foram até artigo de luxo ou classificação. Hoje, dentro do modo shopping de ser, se tornam mais caros ainda se forem a farrapos. Como alguns seres humanos, hora depreciados como velhos e usados, hora inflacionados como moda.

Aquele que caminha sobre as três patas, interrogando-se sobre o Enigma da Esfinge, é o jovem ou o velho, o que decifra ou que é antecipadamente morto? Ambos acabam usando o cajado, a bengala, o suporte ou a morte. O seu entardecer vital já visível, sobre um apoio extra para sua caminhada, vira um símbolo da sua dependência, tanto para a marcha como do mundo, para uma posição curvada que o torna menos nobre, menos desejável? Não poderia tornar-se uma alavanca?

Ao completar os 60 anos? A idade que nos permitirá algumas ‘regalias’ ou ‘aposentadorias’? Aquele momento de encanecimento das mechas de nossos cabelos, pele e pelos, dos mais visíveis aos mais íntimos? Há, porém aqueles que nos dizem ser a melhor idade, o momento do sentir-se sábio, experiente e com a vida dos que só descansam, mesmo que o dia inteiro de pijamas?

Entretanto, pelas minhas vivências mais próximas e familiares venho aprendendo a desaprender esses conceitos eivados de preconceitos, de mitos e de falácias. O meu próprio pai, aqui lembrado e homenageado, com o texto e a poesia que segue, ultrapassa amanhã, no dia 30, os 104 anos. Ultrapassa muito mais ainda por continuar sendo querido, respeitado e amado.

E, para os que ainda lhe perturbam, como os médicos e as medicinas, ele diz, bem humorado: -“amanhã, vou ao consultório e luto boxe com eles... e verão como ainda estou forte”. Prova não de vigor físico, mas de sua outra força: o humor, bom e gozado, que não deveríamos jamais esquecer ou perder. Com certeza, hoje com os seus 104 anos já tem outros diálogos com a Vida e com a Dona Morte.

Quem sabe já encontrou algumas das suas quase respostas. Eu, aqui, buscador de novas veredas, cartografias e afetos, tento me/nos alertar ou alegrar com poesia e arte.

ENVELHE-SER

SERÁ APENAS VERBO, RIMA, DESFECHO,
SABÊ-LO É UMA SINA?
VERBO QUE PODE SE CONJUGAR, RIMAR OU TER DESCOMPASSO
COM O NASCER...! OU, COM ANGÚSTIA, APENAS SER...
 EM MOMENTOS DE LUCIDEZ FERINA QUE FERE,
ENQUANTO A MUITOS SUBJUGA,
EM OUTROSMOMENTOS, OUTRAS ÁGUAS LÚCIDAS,
ATORMENTA.

QUEM SABE E ESPICHA PARA ALÉM DO CORPO,
MUITO POUCOS AINDA ÁVIDOS, MESMO QUE JÁ PERDIDOS,
OUTRAS BÚSSOLAS, OUTROS NORTES, OUTRAS SORTES,
ORIENTA-LHES O PERDER-SE PARA VIVER...
EM-VELHO-SER

UM DITO ANTIGO E BEM DITO
QUIÇÁ EPICÚRICO E NÃO DE CIANURETO,
A CADA RUGA, A CADA UMA DAS RUSGAS,
INSISTE E RE-EXISTE, TEIMA E APRENDE,
A CADA GESTO MAIS LENTO,
NAQUILO QUE PERDE DE MEMÓRIA E MOVIMENTO,
A LEMBRANÇA DO ÁGIL, DO RÁPIDO E FORTE,
TORNAM-SE APENAS PROVOCAÇÃO...

REAPRENDER É SEMPRE IMPRECISO,
NÃO BASTA NAVEGAR, CARO POETA,
OS HERÓIS ARGONAUTAS, OS DESTEMIDOS,
AGORA GERÔNTICOS, SÓ APRENDEM, NESSAS ÁGUAS,
QUAIS INICIANTES, COMO SEUS DISCÍPULOS,
QUE SEU NORTE AGORA É DA DONA MORTE...

E, COMO A AREIA NÃO CESSARÁ SEU DESPERDÍCIO,
É HORA DE NÃO SE INCOMODAR, NEM DE SUPLÍCIO,
CONTINUA, CAMINHA, NAVEGA, SE PERDE
 E APRENDE, APRENDE
QUE SÓ SENTE, MENOS SOZINHO,
QUANDO A MÃO QUE É PRÓPRIA LHE ASSEGURA,
MAS QUE TAMBÉM SERÃO AS MÃOS ALHEIAS,
MESMO QUE DESBOTADAS, OU ATÉ FERIDAS,
QUE O REAFIRMAM,
COMO CORPO, COMO CARTOGRAFIA,
COMO DEVIR, O SEU INVISÍVEL CORPO, SÓ SEU QUE É NOSSO,
E DO PRÓXIMOPORQUEMPASSO,
 O PRÓXIMO QUE NÃO SOU EU...

E A SUA MIRADA AGORA VOLTADA PARA O FUTURO,
MIOPEMENTE, MIRAGEM QUE NECESSITAMOS,
ENXERGA, PREFERIVELMENTE LONGE, UMA FIGURA,
UMA SOMBRA, QUEM SABE UMA ASSOMBRAÇÃO
PARA OS ASSUSTADOS E TEMOROSOS,
MAS NÃO MAIS QUE DESATINO, NEM MESMO DESTINO,
PARA OS QUE NA POPA, NÃO NA PROA,
DESSE NAVIO, DESSA NAU DOS SEMPREMENINOS,
AQUELES, NÃO OS AQUILES, MAS SIM OS POR ELE DESAFIADOS,
NESSE COMBATE CONTRA ONDAS E HORDAS,
PARA OS SEMPREMENINOS,
EMBORA AGORA SABIAMENTE ENVELHECIDOS,
NEM SEMPRE AS SOMBRAS SÃO DA DONA MORTE...

COMO OS MARINHEIROS DE MUITOS PORTOS,
DE MUITAS SORTES, ENCARAM, ARREGANHAM OS DENTES,
MERGULHAM NO NOVO VASTO E INCÓGNITO OCEANO...

POR ISSO NÃO TEMO, NÃO TEMEREMOS,
ASSIM IMPRUDENTES NOS LANÇAR DENTRO DESSE REDEMOINHO...
ENVELHE/SER
ESMAE/SER
A NOITE/SER

CONVITE IRRECUSÁVEL DO HOLANDÊS E SEU TRIGAL,
PARA ESSAS TRÊS PINCELADAS INTENSAS,
N0 ONÍRICO TEMPO DO QUAL E AO QUAL PERTENÇO,
SEM ENSAIOS OU ANTEVISTOS,
ESSE NOVO ANTIGO QUADRO PINTO E FOTOGRAFO,
TRATO E RETRATO O ESMAECIDO,
PARA VIVER COMO NA TELA DAQUELA NOITE TÃO ESTRELADA,
UMA SÉRIE DE AZUIS CIRCUNSCRITOS, NOSSSOS CREPÚSCULOS,
NOSSAS MEMÓRIAS DAQUELES REDEMOINHOS,
SEM NENHUM BRILHO OPACO...

QUANDO DIANTE DESTE VAN GOGH ESTARRECIDO
IDENTIFICO-ME, E MOLECULAR EU FICO,
VEJO DE NOVO, SEMPRE O NOVO, O MOMENTO,
EIS A INTENSA IDADE QUE ME PROJETO,
UM ANOITECER RENOVADO, SABIAMENTE TECIDO,
MESMO QUE SOBRE UMA TELA OU PAPEL ENVELHECIDOS,
É O QUE SE DESENHA E SE MISTURA COM AS PRÓPRIAS TINTAS,
SUPOSTAS LINHAS, SUPOSTOS FIOS, SUPOSTAS TRILHAS...

TAMBÉM SUPOSTOS ENLOUQUECIDOS,
OS QUE ENVEREDAM E SE EMBRIAGAM COM O PRÓPRIO NÉCTAR,
LUTAM E RE-EXISTEM À SUA PRÓPRIA VERVE,
ALMA PICTÓRICA, DE HORIZONTES SOLITÁRIOS,
DE CORVOS QUE SOBREVOAM NOSSOS TRIGAIS,
ONDE DEVERIA ESTAR EM REPOUSO, AS AVES NÃO FÊNIX,
PELA SUA FORÇA DE FOGO E IMPRESSÃO DELE,
SEMPRE RESSUSCITA, MESMO QUE SUICIDADO,
SEMPRE RENASCE, MESMO QUE MAL-DITO...
PARA UM DIA, UM DIA AINDA NÃO PRESCRITO...

AÍ, SENDO COMO SOMOS, SÓS, SOLITÁRIOS,
 NÃO MAIS FINITOS,
SÓ MÁQUINAS OU ROBÔS SEM MIRAGENS E SONHOS,
ESTAR SÓS NOS ADMIRANDO, FEITO NARCISOS,
NO VASTO LAGO, APAIXONADOS, MOUCOS E SEM ECOS,
A MORRER DO PRÓPRIO ENVELHE/SER...
EM MIM, EM TI INDAGO:
SOMOS APENAS DURAÇÃO OU DURÁVEL-IDADE...?
(jorgemarciopereiradeandrade e ciailimitada)

Copyright e left – jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações infinitas na Internet, com seu Marco Civil, e em outros meios de comunicação para e com as massas. todos direitos reservados 2025 ,,,)

LEITURAS QUE NÃO ENVELHECEM:

A VELHICE – Simone de Beauvoir, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ, 1990.
UMA MORTE MUITO SUAVE – Simone de Beauvoir, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ, 1984.

LEIA TAMBÉM NESTE BLOG:

POR UMA MEDICINA QUE ENVELHEÇA COM DIGNIDADE

O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E, ENTRETANTOS, MEU PAI FAZ 102 ANOS...



sábado, 8 de março de 2014

MULHERES PODEM SE TORNAR DEVIR, NÃO SÃO E SERÃO UM DEVER....

Imagem publicada – fotografia que fiz da capa da Revista Caros Amigos, de novembro de 2004, há quase 10 anos atrás, quando Cecília Maria Bouças Coimbra, então presidente do Grupo Tortura Nunca Mais RJ, concedeu uma entrevista que recebeu a manchete: “Abram os arquivos da Ditadura”, na qual ela já pedia o exercício de uma busca da memória e da história do Brasil. Ela afirmava, então: “Nunca se chegou publicamente a dizer: - ‘o Estado foi terrorista’ e o Estado covardemente assassinou, sequestrou, desapareceu com corpos.”. Muitos desses corpos eram de mulheres, como Sônia Stuart Angel, que acreditavam na re-existência feminina à qualquer forma de totalitarismo, mesmo que isso implicasse no risco de suas próprias vidas. Afirmaram o quanto é preciso de coragem e determinação na defesa de direitos humanos, nos quais se incluem, hoje, os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Hoje, para além das conquistas legais, muitas ainda terão de lutar pelos seus direitos...

Mulheres, como lembrar, para homenagear, o que significa um ser, um gênero, uma diferença humana, singularidades que nem mesmo Freud ousou decifrar?

 Lembrar, então, de modo mais simples e nada profundo, que já houve, como vida, na existência de qualquer um a presença feminina. Indecifráveis. Elas..., mães, singulares mulheres de todos e todas...

Eu, aqui, recentemente recuperei uma histórica e importante presença delas que me povoa e alicerça. Reencontrei uma velha reportagem da revista Caros Amigos, de 2004. Nela, relembrei, afetuosamente, uma antiga companheira de lutas: Cecília Coimbra.

Ela, na época contava sua história pessoal e de seu ativismo político, revelando a ‘caixa-preta da Ditadura’, mas também a dura experiência de seus porões e seus torturadores, a serviço de um Estado terrorista e de exceção.

Passei um tempo a refletir sobre mulheres que, para além da Ditadura, persistem na direção oposta do retrocesso histórico. Estiveram como Cecílias, caminhando, sem marchar militarescamente, para se tornarem devir e, por isso, continuam questionando os “deveres” impostos à condição feminina.

Reencontrei-me, também, com meu tempo de ‘bendito o fruto’(embora não ‘abençoado’ e único) em um grupo majoritário de mulheres. Fui, na minha memória já falha, de volta ao criativo e pensante grupo de mulheres do Núcleo. Estas “psis”, psicólogas e psicanalistas, que desejavam uma Klínica para além das instituições oficiais.

Sim, um núcleo dissidente destas instituições, nos anos 80 para os 90. O Núcleo Psicanálise e Análise Institucional. Foi lá que pude me aproximar de alguns conceitos que me nutrem até os dias de hoje. Foi, então, com as minhas amigas de debates e de buscas instituintes, que tentei entender o significado do “devir-mulher”.

Esta possibilidade pequena, sensível e diferenciada, a partir da leitura de Deleuze e Nietzsche, e, suavemente, com Suely Rolnik e Felix Guattari, que nos obrigava muitas outras grandes e profundas leituras, muitos outros caminhos à moda de Heráclito. Nada era totalmente conhecido, nossos passos conjuntos criavam e inventavam novos passos, novos caminhos, novas veredas. Novas interrogações sem certezas.

O devir-mulher, assim como outros devires (devir-animal, devir-invisível, devir-molécula,...), é uma resultante de seres que estão em permanente e intenso fluxo. Constroem-se, a partir de alianças onde há uma suavidade e amizade, alianças afetivas que fazem sempre escapar das políticas de identidades.

Fazem também escapar do modelo de dever ser mulher ou homem. O dever de estar de acordo com o desejo de um Outro onipresente, aquilo que foi chamado de falocracia. Um modelo machista, que também pode atingir e contaminar o corpo feminino, quando este fica tão próximo do poder e da violência.

Os pensadores Brucker e Finkielkraut nos interrogam ao afirmar que: “... homens e mulheres, vocês acreditam estar falando, a nova linguagem da liberação, mas ainda há muitos obeliscos em seus fantasmas,..., vocês são objetivamente culpados da Cârencia (falta) que se acreditam subjetivamente isentos...”.

Os filósofos, mais que os psicanalistas, têm nos advertido da permanência do falocentrismo. A sua invisível presença, já o disse antes, se faz com as macropolíticas enrijecedoras e castradoras ao mesmo tempo. Não bastará termos ‘presidentas’ ou ‘senadoras’. Ainda mais quando se tornam ‘damas de ferro’ ou sósias da solidão do poder.

Revi, estes dias, o filme “Hannah Arendt”, de Margareth Von Trotta,  pude ver na história da filósofa e suas ideias o quanto é possível esse devir-mulher superar quaisquer dos deveres impostos ao feminino. Foi lendo seus textos sobre os riscos de nossos fascínios pelos modelos totalitários, que encontrei esta possibilidade. A sua leitura da violência é fundamental.

Ao lembrar-se da lúcida Cecília e das outras amigas ficou mais claro ainda que não poderemos silenciar a História dos Anos de Chumbo no Brasil. Como nos diz Arendt: “...Não há dúvida de que é possível criar condições sob as quais os homens são desumanizados – tais como os campos de concentração, a tortura, a fome -, mas isso não significa que eles se tornem semelhantes aos animais...”.

Não há raiva e revisionismo em quem foi torturado, como esta amiga, há é uma indignação quando “há razão para supor que as condições poderiam ser mudadas, mas não o são’’. E não serão as marchas retrógradas, com ou sem a Família, que trarão o regime e o pavor militar como solução final para o Brasil.

Lá, nos tempos nuclêicos, como gosto de lembrar estes encontros rizomáticos, aprendíamos que o devir-mulher, como parte de nossa luta libertária para não reproduzir os jogos de poder, nos poderia criar/inventar possíveis novas subjetividades ainda não capturadas pelas formas de existir do hipercapitalismo.

Essas amigas eram implicadas, de corpo e ‘alma’, com outras lutas, nos mais diversos espaços, da Universidade aos consultórios privados. Como Cecília Coimbra, com o Grupo Tortura Nunca Mais. Essas mulheres me mostraram, também, que não há e nem pode haver a dicotomia entre a nossa micropolítica e nossos desejos de trans-formação do mundo.

Fiquei e ficarei, portanto, com as suas marcas indeléveis, suas novas suavidades, suas poéticas lembranças e uma indestrutível amizade e cumplicidade, para além do Tempo.

Hoje, quando reflito ou assisto esse novo mundo dito líquido moderno, vejo e sinto a retomada de um corpo feminino que, do evangélico pastoral ao banal carnavalizado, ainda não rompeu com as correntes que podem aprisionar seus devires.

Por isso fui buscar as antigas companheiras, in memoriam também a que chamou afetuosamente de ‘capitão’ de nossa nau de insensatos corações, Maria Beatriz Sá Leitão, como alento e esperança para as mulheres a quem desejo um novo devir. Um novo mundo Outro, com os úteros como força transformadora de subjetividades capturadas e alienadas.

Somente as linhas de fuga, como diziam Guattari e Deleuze, podem romper os modelos binários e dicotômicos com o devir-mulher. Este devir não flui somente nas mulheres. Aliás, não deveria ser tomado como ‘privilégio’ ou ‘característica’ do feminino. A potência de criar vida está em todos os corpos. Sem a distinção sexista e binária de gênero masculino/feminino.

Em tempos de recrudescimento e de apologia da violência, tanto a social, com os justiciamentos e os racismos, assim como a do Estado, na criação de leis de ‘endurecimento’ contra manifestações populares, apelando para o autoritarismo e novas micro fascistações (os fascismos em nós), é a hora de apontar para novos devires.

Sós ou grupalizados, seres humanos afetados uns pelos outros podem, nas ruas, nas redes sociais, nos blocos ou em outros carnavais buscar como a Cecília, ao historicizar a relação entre a Psicologia e os Direitos Humanos, entender que “ é no nível das práticas cotidianas, micropolíticas, que podem estar alguns caminhos...”.  Segundo ela: “Aprendemos a caminhar neste mundo guiados por modelos. Estes nos dizem o que fazer e como fazer, ocultando sempre o ‘para quê fazer’...”.

Nessa homenagem a estas e todas as mulheres nos meus des-caminhos, como desejo de contaminar outras do desejo de novas cartografias, é que reafirmo Nietzche: - “Diz-se que a mulher é profunda- por quê? Se nela jamais chegamos ao fundo. A mulher não é nem sequer (ou se deseja) plana...”.

(A todas as outras ‘nuclêicas’: Cecília, Ana, Heliana, Tânia, Janne, Denise, Azoilda, Regina(s), Elaine, Leila, Maria Cristina, Isabel, Vera, Zelina, Kátia, Maria Lúcia, Ana Lúcia, Andréa, Cristina, Lília (terna parceira de ideias e textos, na dupla pós-68), e às outras que a Dona Memória não me permitiu recordar, envio, hoje, amanhã e no por vir meu mais doceabraçocomdevirmulhersempre...
E, como docelembrança, ficará para sempre Maria Beatriz Sá Leitão no coração do seu ‘capitão’ da Nau das Insensatas).

Copyright/left –jorgemarciopereiradeandrade 2014/2015 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação coma as massas. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Cecília Maria Bouças Coimbra - Psicóloga, professora adjunta da Uff (Universidade Federal Fluminense), Pós-doutora em Ciência Política pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, Ex-Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ, Ex-presidente da Comissão de Direitos humanos do Conselho Federal de Psicologia.

ALGUMAS LEITURAS CRÍTICAS INDICADAS –

Micropolítica. Cartografia do desejo: Felix Guattari & Suely Rolnik, Petrópolis, Ed. Vozes, 1989.

Clio-Psyché/Paradigmas: Historiografia, Psicologia, Subjetividades – Ana Maria Jacó-Vilela, Antônio Carlos Cerezzo, Heliana de Barros Conde Rodrigues, Rio de Janeiro, Ed. Relume Dumará, Faferj, 2003.

A Nova Desordem Amorosa – Pascal Bruckner e Alain Finkenkraut, São Paulo, SP, Ed. Braziliense, 1981.

Revista Caros Amigos, Ano VIII nº 92, Novembro de 2004 – “Abram os arquivos da Ditadura” – Entrevista explosiva: Cecília Coimbra, do Grupo Tortura Nunca Mais.
Sobre a Violência – Hannah Arendt, 3ª edição, Rio de Janeiro, RJ, Ed. Civilização Brasileira, 2011.

Crepúsculo dos Ídolos ou a Filosofia a Golpes de Martelo, F. Nietzsche, São Paulo, SP, Ed. Hemus, 1976.

PARA VER, ASSISTIR E REVER –

Hannah Arendt – Margarethe Von Trotta (atriz Barbara Sukova), Ano 2012: 

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –

TODO UM ÚTERO É UM MUNDO

AS BRUXAS RE-EXISTEM? COMO MANTER OU DEMOLIR UM PRECONCEITO.

O MARTELO NAS BRUXAS – COMO QUEIMAR, HOJE, AS DIFERENÇAS FEMININAS? 

MULHERES, SANGUE E VIDA, para além de sua exclusão histórica 


EUGENIA – Como realizar a castração e esterilização de mulheres e homens com deficiência? 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

DEFICIÊNCIAS, MEMÓRIA E ENVELHECIMENTO – Qual é o nosso futuro?

Imagem publicada – uma fotografia colorida, que foi tirada com apoio e ajuda de uma jovem de 12 anos, minha filha, feita em plena manifestação de Junho de 2013, em uma Avenida de Campinas, onde vemos sentada, em primeiro plano, uma senhora, negra, segurando duas muletas, sentada no ponto de ônibus, tendo atrás dela, em pé e na rua, diversos jovens, em destaque uma jovem de costas com a bandeira do Brasil enrolada no corpo. Fiz essa foto para me lembrar do que poderia ser, além dos vinte centavos, outro motivo digno de manifestações ou de revoltas das multidões: o ‘esquecimento’ de nossos velhos, dos que estão sentados em outros bancos, principalmente de hospitais ou filas da Previdência. Esperando, esperando o futuro que passa, vestido de nacionalismos, cartazes que passam e rebelião popular que se esquece. Esquece de dirigir seu olhar e respeito para com esta que poderá vir a ser a sua própria imagem, um retrato que ainda está em seu devir...(fotografia de meu arquivo pessoal).

“...A memória dos velhos desdobra e alarga de tal maneira os horizontes da cultura e faz crescer junto com ela o pesquisador e a sociedade onde ele se insere.... Se alguém colhe um grande ramalhete de narrativas orais, tem pouca coisa nas mãos. Uma história de vida não é feita para ser arquivada ou guardada numa gaveta como coisa, mas existe para transformar a cidade onde ela floresceu. A pedra de toque é a leitura crítica a interpretação fiel, a busca do significado, que transcende aquela biografia: é o nosso trabalho e muito belo seria dizer, a nossa luta”. (Bosi, 2003a, p. 69)

Hoje, mais um dia de me lembrar, eis a memória, das minhas dores físicas. Elas se tornaram fiéis escudeiras do meu viver? Acho que sim, mas me fazem também refletir sobre uma encruzilhada na qual se encontram três “entidades”, ou melhor, acontecimentos existenciais: nossas deficiências, a nossa memória e o nosso envelhecimento.

Como diz, humildemente, Eclea Bosi, no texto de abertura, as nossas histórias de vida não são feitas para os arquivos, para o mofo ou o esquecimento, aí significando o abandono ou desprezo. Nossas histórias merecem outro cuidado diante dessa encruzilhada que o mundo nos apresenta, principalmente por sua lógica do descarte e do consumo.

Ouvimos, falamos, repetimos e naturalizamos a previsão e o agouro de que todos nós nos tornamos pessoas com deficiência, no futuro. Nesse momento, pela óptica biomédica, estamos ainda “com saúde”. Ideal e econômicamente saudáveis, como nas propagandas dos planos de 'saúde'.

Porém o que temos de refletir é como isso poderá ser modificado. Nossa atual concepção/paradigma de uma deficiência depende totalmente  do meio no qual se produzem as barreiras, os preconceitos e as limitações que levam um ser humano às denominadas situações de deficiência. É o novo paradigma social que muda nossos velhos conceitos sobre ser, estar e ficar com uma deficiência.

Não nascemos já com algumas "deficiências"? SIM, não nascemos na perfeição, no modelo eugênico e ideal, além de racista, de seres sem nenhuma mácula, defeito, imperfeição, falha, incapacidade ou qualquer estigma. Somos, desde sempre, quiçá para o futuro, os “portadores da vida imperfeita”. Apenas humanos, demasiadamente humanos. E também "portadores da transitoriedade e da finitude".

Hoje muitos estarão falando dos “velhos”. Senhores e senhoras. Os que recebem nessa data uma comemoração internacional. Um momento de lhes assegurar seu Estatuto e suas questões de vida e sobrevivência fundamentadas pelos direitos humanos. Porém, não lhes daremos nosso espelhamento e nossa re-visão crítica, aquela que a Ecléa nos pede e ensina. Nosso espelho do futuro está coberto?

Precisamos de outro e novo olhar para aquilo e aqueles que denominamos “velhos”. Prefiro como sempre disse usar o termo “antigo” para me referir ao que muitos dizem ser nossa Terceira Idade, nosso fim e terminalidade. Vejo aí sempre aquele olhar que se reproduz no símbolo que está nos estacionamentos, metrôs e outros espaços públicos onde passamos a ser a prioridade apenas com uma bengala. Curvados pelo Tempo.

Todos terão, como eu, de usar apoios ou meios de locomoção que são também símbolos significantes do nosso desgaste físico corporal. Serão todos corpos com o significante permanente da perda, do passado sem futuro, da história a ser esquecida? Não, temos de buscar essa encruzilhada e conversarmos cara a cara com a Memória, essa amiga próxima e íntima da Dona Morte.

E é a Dona Morte que nos assusta que muitas vezes nos rouba o que chamamos de memória. A memória mais roubada é a dos fatos recentes, a que chamamos de anterógrada. Porém, nessa óptica apenas neuropsíquica, o que mais temos temor de perda são as memórias do passado. Já que as cultivamos, como uma flor destinada a murchar, as nossas lembranças, nossos velhos retratos, nossas antigas músicas e amores. Principalmente os amores regados com a nova suavidade dos encontros alegres.

Por isso hoje temos de rever esses conceitos naturalizados sobre uma época do viver que todos e todas temos de viver: o tornar-se idoso. Na nossa sociedade, ainda é regida pelo Estado do Bem Estar e da Saúde Eterna, continuamos na busca alquímica da “fonte da juventude”. Simbolizamos aí o nosso temor/terror da pele enrugada, dos movimentos lentos, das falhas e lapsos da memória, dos conflitos transgeracionais, e, “naturalmente”, nos tornarmos os “rabugentos”.

Uma mão com sua pele encarquilhada, com suas veias mais visíveis, com sua motricidade fina diminuída, com a lentificação dos movimentos, independentemente, do poder segurar um pincel e repintar, finamente, a própria imagem, hoje, pelas novas tecnologias, não encontrará nenhuma barreira se as puder utilizar sem barreiras. Porém o tornar-se mais um na deficiência está acompanhado, quase sempre, de uma probabilidade de não acesso a estes recursos ou tecnologias assistivas.

O pensar o nosso, o seu, o meu e o de todos, envelhecer em uma sociedade de vidas descartáveis é uma reflexão indispensável. Ou melhor, deve ser pensável e imprescindível. As vulnerações, ou seja, a produção de novas vulnerabilidades, em tempos de incertezas, desde o macropolítico até ao micropolítico, nos apresenta outra encruzilhada: - o aumento de nossas expectativas de vida, com ele o aumento das ‘deficiências’ dos sistemas de proteção social e previdenciária, e, inevitavelmente, o incremento de barreiras que propiciem mais marginalização e/ou exclusão social.

Portanto, ainda estamos nessa busca de qualificar quem, que mecanismos, que lógicas e que políticas tem produzido os mitos que cercam essa tal ‘feliz idade’. Os mitos que as colocam como beneficiárias e não como agentes da mudança de suas vidas. Presas fáceis dos modelos reabilitadores e biomédicos e suas mitificações, quase religiosas ou milagrosas. O mito de uma vida de eterna juventude.

Reforçam-se aí os mitos quando estes 'velhos' são excluídos do mercado de trabalho, com sua retirada para os aposentos domésticos. Os mitos que as convertem e novos e dependentes endividados dos empréstimos bancários especiais para estes aposentados. E, finalmente, os mitos, reforçados pelos ideais de Saúde plena, com sua re-habilitação  que se torna exclusivamente dependente dos avanços da medicina e das biotecnologias. Ficam, então, reféns da visão de que realmente estão mais próximos da Dona Morte do que da Vida.

É este o futuro que desejamos? É este o futuro que estamos providenciando e produzindo? Um duro e não harmônico futuro. Não aprendemos, ainda,  ir em busca da velha tradição oral? Que tal reaprendermos a escutar atentamente os nossos “velhos”.  Enfim, para uma escuta sensível e não como uma escuta que reforce nossos preconceitos ou mitos sobre o envelhecer.

Eu, aqui, como já disse no início, continuarei meu aprendizado, embora árduo, do conviver com um corpo que não é mais o dos “vinte anos”. E não usarei o vinho ou outros componentes que nos embriagam com a ideia fantasiosa de que “quanto mais velho, melhor”. Este é outro mito a ser superado. Só somos melhores quando nossas qualidades do viver também o são. Quando a vida é digna e os direitos não são só de papel.

Eis, então, a questão: mudaremos nossos paradigmas sobre as deficiências, as memórias e os diferentes, diversos, plurais e humanos envelhecimentos? Um belo fim para alguns pode ser diferente do que outras pessoas, nas suas diferenças, desejem e aspirem para seu futuro. O que podemos, então, a elas, humanas, demasiadamente humanas, dizer sobre o futuro?

Não tenho a sua resposta, não tenho mais que a permanência na dúvida e na indagação, estas que fazem com que supere quaisquer das minhas atuais limitações. São as mesmas que fazem que eu queira ter direito ao meu Testamento Vital. As mesmas que me impedem do afundar ou desaparecer dentro das areias movediças das certezas científicas ou dos dogmas religiosos.

Enfim, para não prolongar o texto, apenas para lembrar este contexto, esta crônica de uma comemoração do Dia Internacional do Idoso, desejo que nossos corpos, corações e mentes, não perdendo a paixão e o vigor, busquem, individual ou coletivamente, uma nova visão micropolítica e cartográfica do viver, mesmo com os limites, sem pedidos de complacência ou desejos de retorno ao suposto nirvana dos úteros maternos.

Não deixemos apagar a Memória. Principalmente aquela que exige um respeito e reaprendizagem: a da nossa História. A mesma, ouvida dos velhos, sobre as nossas naturalizações e banalizações das violências, das vulnerações e nossa capacidade de destruir, em segundos, o que levamos séculos para produzir, construir, arquitetar e transformar em beleza.

Avancemos, com dignidade e luta, para os braços da Dona Morte, com a certeza de escrevemos, conjuntamente, outra história sobre o viver e o Super-viver, não apenas o sobreviver. E os de mais idade, mais tempo cronológico e biológico, estarão entre nós...

E deixaremos envelhecidas memórias, um tanto ‘deficientes’, mas não escondidas nas gavetas de “velhas escrivaninhas” neo-tecnológicas chamadas de computadores.

Eu, solidariamente, estarei mais velho quando o meu pai fizer os seus 104, 105 e 106 anos...

Copyright/left – jorgemarciopereiradeandrade 2013/futuro (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

LEITURAS CRÍTICAS INDICADAS –

Memória e sociedade: lembranças de velhos. Ecléia Bosi, São Paulo: Companhia das Letras. (1994 – um texto sempre renovador e implicado com a vida, sem temor da finitude).

Bosi, E. (2003). O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. São Paulo: Ateliê EditoriaI.

SOBRE O DIA INTERNACIONAL DO IDOSO - Dia Internacional do Idoso comemora expectativa de vida na terceira idade https://www.jornalnanet.com.br/noticias/7520/dia-internacional-do-idoso-comemora-expectativa-de-vida-na-terceira-idade

Notícia acrescentada em 2015 - Vivemos mais mas isso não quer dizer que sejamos mais saudáveis (diz a OMS) https://www.noticiasaominuto.com/mundo/461954/vivemos-mais-mas-isso-nao-quer-dizer-que-sejamos-mais-saudaveis

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