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sábado, 8 de março de 2014

MULHERES PODEM SE TORNAR DEVIR, NÃO SÃO E SERÃO UM DEVER....

Imagem publicada – fotografia que fiz da capa da Revista Caros Amigos, de novembro de 2004, há quase 10 anos atrás, quando Cecília Maria Bouças Coimbra, então presidente do Grupo Tortura Nunca Mais RJ, concedeu uma entrevista que recebeu a manchete: “Abram os arquivos da Ditadura”, na qual ela já pedia o exercício de uma busca da memória e da história do Brasil. Ela afirmava, então: “Nunca se chegou publicamente a dizer: - ‘o Estado foi terrorista’ e o Estado covardemente assassinou, sequestrou, desapareceu com corpos.”. Muitos desses corpos eram de mulheres, como Sônia Stuart Angel, que acreditavam na re-existência feminina à qualquer forma de totalitarismo, mesmo que isso implicasse no risco de suas próprias vidas. Afirmaram o quanto é preciso de coragem e determinação na defesa de direitos humanos, nos quais se incluem, hoje, os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Hoje, para além das conquistas legais, muitas ainda terão de lutar pelos seus direitos...

Mulheres, como lembrar, para homenagear, o que significa um ser, um gênero, uma diferença humana, singularidades que nem mesmo Freud ousou decifrar?

 Lembrar, então, de modo mais simples e nada profundo, que já houve, como vida, na existência de qualquer um a presença feminina. Indecifráveis. Elas..., mães, singulares mulheres de todos e todas...

Eu, aqui, recentemente recuperei uma histórica e importante presença delas que me povoa e alicerça. Reencontrei uma velha reportagem da revista Caros Amigos, de 2004. Nela, relembrei, afetuosamente, uma antiga companheira de lutas: Cecília Coimbra.

Ela, na época contava sua história pessoal e de seu ativismo político, revelando a ‘caixa-preta da Ditadura’, mas também a dura experiência de seus porões e seus torturadores, a serviço de um Estado terrorista e de exceção.

Passei um tempo a refletir sobre mulheres que, para além da Ditadura, persistem na direção oposta do retrocesso histórico. Estiveram como Cecílias, caminhando, sem marchar militarescamente, para se tornarem devir e, por isso, continuam questionando os “deveres” impostos à condição feminina.

Reencontrei-me, também, com meu tempo de ‘bendito o fruto’(embora não ‘abençoado’ e único) em um grupo majoritário de mulheres. Fui, na minha memória já falha, de volta ao criativo e pensante grupo de mulheres do Núcleo. Estas “psis”, psicólogas e psicanalistas, que desejavam uma Klínica para além das instituições oficiais.

Sim, um núcleo dissidente destas instituições, nos anos 80 para os 90. O Núcleo Psicanálise e Análise Institucional. Foi lá que pude me aproximar de alguns conceitos que me nutrem até os dias de hoje. Foi, então, com as minhas amigas de debates e de buscas instituintes, que tentei entender o significado do “devir-mulher”.

Esta possibilidade pequena, sensível e diferenciada, a partir da leitura de Deleuze e Nietzsche, e, suavemente, com Suely Rolnik e Felix Guattari, que nos obrigava muitas outras grandes e profundas leituras, muitos outros caminhos à moda de Heráclito. Nada era totalmente conhecido, nossos passos conjuntos criavam e inventavam novos passos, novos caminhos, novas veredas. Novas interrogações sem certezas.

O devir-mulher, assim como outros devires (devir-animal, devir-invisível, devir-molécula,...), é uma resultante de seres que estão em permanente e intenso fluxo. Constroem-se, a partir de alianças onde há uma suavidade e amizade, alianças afetivas que fazem sempre escapar das políticas de identidades.

Fazem também escapar do modelo de dever ser mulher ou homem. O dever de estar de acordo com o desejo de um Outro onipresente, aquilo que foi chamado de falocracia. Um modelo machista, que também pode atingir e contaminar o corpo feminino, quando este fica tão próximo do poder e da violência.

Os pensadores Brucker e Finkielkraut nos interrogam ao afirmar que: “... homens e mulheres, vocês acreditam estar falando, a nova linguagem da liberação, mas ainda há muitos obeliscos em seus fantasmas,..., vocês são objetivamente culpados da Cârencia (falta) que se acreditam subjetivamente isentos...”.

Os filósofos, mais que os psicanalistas, têm nos advertido da permanência do falocentrismo. A sua invisível presença, já o disse antes, se faz com as macropolíticas enrijecedoras e castradoras ao mesmo tempo. Não bastará termos ‘presidentas’ ou ‘senadoras’. Ainda mais quando se tornam ‘damas de ferro’ ou sósias da solidão do poder.

Revi, estes dias, o filme “Hannah Arendt”, de Margareth Von Trotta,  pude ver na história da filósofa e suas ideias o quanto é possível esse devir-mulher superar quaisquer dos deveres impostos ao feminino. Foi lendo seus textos sobre os riscos de nossos fascínios pelos modelos totalitários, que encontrei esta possibilidade. A sua leitura da violência é fundamental.

Ao lembrar-se da lúcida Cecília e das outras amigas ficou mais claro ainda que não poderemos silenciar a História dos Anos de Chumbo no Brasil. Como nos diz Arendt: “...Não há dúvida de que é possível criar condições sob as quais os homens são desumanizados – tais como os campos de concentração, a tortura, a fome -, mas isso não significa que eles se tornem semelhantes aos animais...”.

Não há raiva e revisionismo em quem foi torturado, como esta amiga, há é uma indignação quando “há razão para supor que as condições poderiam ser mudadas, mas não o são’’. E não serão as marchas retrógradas, com ou sem a Família, que trarão o regime e o pavor militar como solução final para o Brasil.

Lá, nos tempos nuclêicos, como gosto de lembrar estes encontros rizomáticos, aprendíamos que o devir-mulher, como parte de nossa luta libertária para não reproduzir os jogos de poder, nos poderia criar/inventar possíveis novas subjetividades ainda não capturadas pelas formas de existir do hipercapitalismo.

Essas amigas eram implicadas, de corpo e ‘alma’, com outras lutas, nos mais diversos espaços, da Universidade aos consultórios privados. Como Cecília Coimbra, com o Grupo Tortura Nunca Mais. Essas mulheres me mostraram, também, que não há e nem pode haver a dicotomia entre a nossa micropolítica e nossos desejos de trans-formação do mundo.

Fiquei e ficarei, portanto, com as suas marcas indeléveis, suas novas suavidades, suas poéticas lembranças e uma indestrutível amizade e cumplicidade, para além do Tempo.

Hoje, quando reflito ou assisto esse novo mundo dito líquido moderno, vejo e sinto a retomada de um corpo feminino que, do evangélico pastoral ao banal carnavalizado, ainda não rompeu com as correntes que podem aprisionar seus devires.

Por isso fui buscar as antigas companheiras, in memoriam também a que chamou afetuosamente de ‘capitão’ de nossa nau de insensatos corações, Maria Beatriz Sá Leitão, como alento e esperança para as mulheres a quem desejo um novo devir. Um novo mundo Outro, com os úteros como força transformadora de subjetividades capturadas e alienadas.

Somente as linhas de fuga, como diziam Guattari e Deleuze, podem romper os modelos binários e dicotômicos com o devir-mulher. Este devir não flui somente nas mulheres. Aliás, não deveria ser tomado como ‘privilégio’ ou ‘característica’ do feminino. A potência de criar vida está em todos os corpos. Sem a distinção sexista e binária de gênero masculino/feminino.

Em tempos de recrudescimento e de apologia da violência, tanto a social, com os justiciamentos e os racismos, assim como a do Estado, na criação de leis de ‘endurecimento’ contra manifestações populares, apelando para o autoritarismo e novas micro fascistações (os fascismos em nós), é a hora de apontar para novos devires.

Sós ou grupalizados, seres humanos afetados uns pelos outros podem, nas ruas, nas redes sociais, nos blocos ou em outros carnavais buscar como a Cecília, ao historicizar a relação entre a Psicologia e os Direitos Humanos, entender que “ é no nível das práticas cotidianas, micropolíticas, que podem estar alguns caminhos...”.  Segundo ela: “Aprendemos a caminhar neste mundo guiados por modelos. Estes nos dizem o que fazer e como fazer, ocultando sempre o ‘para quê fazer’...”.

Nessa homenagem a estas e todas as mulheres nos meus des-caminhos, como desejo de contaminar outras do desejo de novas cartografias, é que reafirmo Nietzche: - “Diz-se que a mulher é profunda- por quê? Se nela jamais chegamos ao fundo. A mulher não é nem sequer (ou se deseja) plana...”.

(A todas as outras ‘nuclêicas’: Cecília, Ana, Heliana, Tânia, Janne, Denise, Azoilda, Regina(s), Elaine, Leila, Maria Cristina, Isabel, Vera, Zelina, Kátia, Maria Lúcia, Ana Lúcia, Andréa, Cristina, Lília (terna parceira de ideias e textos, na dupla pós-68), e às outras que a Dona Memória não me permitiu recordar, envio, hoje, amanhã e no por vir meu mais doceabraçocomdevirmulhersempre...
E, como docelembrança, ficará para sempre Maria Beatriz Sá Leitão no coração do seu ‘capitão’ da Nau das Insensatas).

Copyright/left –jorgemarciopereiradeandrade 2014/2015 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação coma as massas)

Cecília Maria Bouças Coimbra - Psicóloga, professora adjunta da Uff (Universidade Federal Fluminense), Pós-doutora em Ciência Política pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, Ex-Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ, Ex-presidente da Comissão de Direitos humanos do Conselho Federal de Psicologia.

ALGUMAS LEITURAS CRÍTICAS INDICADAS –

Micropolítica. Cartografia do desejo: Felix Guattari & Suely Rolnik, Petrópolis, Ed. Vozes, 1989.

Clio-Psyché/Paradigmas: Historiografia, Psicologia, Subjetividades – Ana Maria Jacó-Vilela, Antônio Carlos Cerezzo, Heliana de Barros Conde Rodrigues, Rio de Janeiro, Ed. Relume Dumará, Faferj, 2003.

A Nova Desordem Amorosa – Pascal Bruckner e Alain Finkenkraut, São Paulo, SP, Ed. Braziliense, 1981.

Revista Caros Amigos, Ano VIII nº 92, Novembro de 2004 – “Abram os arquivos da Ditadura” – Entrevista explosiva: Cecília Coimbra, do Grupo Tortura Nunca Mais.
Sobre a Violência – Hannah Arendt, 3ª edição, Rio de Janeiro, RJ, Ed. Civilização Brasileira, 2011.

Crepúsculo dos Ídolos ou a Filosofia a Golpes de Martelo, F. Nietzsche, São Paulo, SP, Ed. Hemus, 1976.

PARA VER, ASSISTIR E REVER –

Hannah Arendt – Margarethe Von Trotta (atriz Barbara Sukova), Ano 2012: http://pt.fulltv.tv/hannah-arendt.html

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –


AS BRUXAS RE-EXISTEM? COMO MANTER OU DEMOLIR UM PRECONCEITO. http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/11/as-bruxas-re-existem-como-manter-ou.html

O MARTELO NAS BRUXAS – COMO QUEIMAR, HOJE, AS DIFERENÇAS FEMININAS? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/11/o-martelo-nas-bruxas-como-queimar-hoje.html

MULHERES, SANGUE E VIDA, para além de sua exclusão histórica http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/03/mulheres-sangue-e-vida-para-alem-de-sua.html


EUGENIA – Como realizar a castração e esterilização de mulheres e homens com deficiência? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/01/eugenia-como-realizar-castracao-e.html

domingo, 19 de agosto de 2012

AOS MEUS “COLEGAS”, INTOCÁVEIS E INDEPENDENTES – O Cinema reverencia as Deficiências.


Imagem publicada – cena do filme Les Intouchables (Grande Prémio Sakura do Festival de Cinema de Tóquio) onde um homem negro, Driss (o ator Omar Sy, o primeiro ator negro a receber o prêmio César, o Oscar do Cinema Francês, de Melhor Ator), empurra outro homem em uma cadeira de rodas motorizada, que está em “alta velocidade”. Esse homem é Philippe (o ator François Cluzet) um refinado multimilionário tetraplégico francês, que precisa de um auxiliar de enfermagem para parte dos cuidados que seu corpo exige. O contratado é Driss, um senegalês que vive nos subúrbios, com diversos dramas familiares, mas também possui um refinado humor, que poderíamos incorretamente chamar de “humor de um negro”, mas que muda radicalmente a vida paralisada, sem compaixão ou pena, do incorretamente chamado de “paralítico homem branco”. É de suas transversalidades afetivas que nascem algumas propostas que podemos tentar refletir sobre nossas próprias “deficiências” no viver e no amar À VIDA E AO(S) OUTRO(S).

Hoje à noite consegui, com intensidade e desejo, ir, novamente, ao cinema. Fui ver os Intocáveis (Les Intouchables), dentro do Festival de Cinema Francês Varilux 2012. E, mais uma vez, pude constatar que o melhor remédio para as minhas dores é a emoção e o humor.

O filme baseia-se na história real de Philippe Pozzo di Borgo, um milionário que ficou tetraplégico após um acidente com um parapente (paraquedas dirigível). Além da imobilidade física ele vivenciou, na vida real, a convivência com suas dores e seus fantasmas afetivo-amorosos. O que para mim é no mínimo tocante, profundamente.

Ao retornar para a minha casa, após e para além de minhas lágrimas diante de um homem tetraplégico e seu amigo negro, tive a confirmação de minha certeza: o filme Colegas é o melhor filme no 40º Festival de Cinema de Gramado. Exultei, precisava escrever uma nova “carta”.

Já pensava nessa premiação como um passo adiante para que o cinema nacional se tornasse, mais uma vez, um promissor e ativo demolidor de preconceitos. O filme que vi hoje sobre a possibilidade de ressignificarmos a Vida diante de uma deficiência também se manifesta no enredo de Colegas.

O sonho compartilhado é a única forma de exercício vivo da liberdade. Quando o personagem Driss,revela seus medos diante do voo de avião ou de um parapente, que para o seu milionário “patrão” Philippe (François Clouzet) fica claro que no mais íntimo de que em todos/todas nós há um grande temor: podemos até morrer, ou ficarmos paralisados, quando damos asas à nossas imaginações.

Assistam com a mesma intensidade afetiva o nosso premiado “Colegas”. Este filme de Marcelo Galvão faz por merecer seus prêmios: Melhor Filme, Melhor Direção de Arte e Prêmio especial do Júri, este último dado ao trio de atores com síndrome de Down Ariel Goldenberg, Breno Viola e Rita Pokk. E que novembro esteja mais perto do que longe...

Dos três só conheço pessoalmente o Breno. E posso lhes assegurar é um grande ator. Um jovem de bem com a vida, principalmente por sua garra. O que já demonstrou, como judoca, no tatame. Sua veemência deve ser a mesma de quando o vi defendendo, como um auto defensor, a necessidade de outro olhar e reconhecimento de pessoas com síndrome de Down.

Naquela ocasião estávamos na cidade de São Paulo, e Breno participava, ativamente, da discussão sobre os mecanismos de monitoramento e implementação nacional da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Lá estava ele ocupando um papel que cada dia mais deverá se encontrar/afirmar: as próprias pessoas com deficiência afirmando sua independência e autonomia.

Difundi hoje uma notícia sobre outro jovem parecido com ele, nessa afirmação. Chama-se Luiz e mora em Fortaleza. Ele também traz essa capacidade de luta e determinação. Como praticante de jui-jutsi e muay-thai, sonha em ser um campeão. E tenho certeza de que ainda terá seu momento de sucesso como os seus outros três “colegas”.

Há muito que dizer sobre as duas emoções intensas que vivi hoje através e com o cinema. A primeira é a minha identificação com os personagens dos INTOCÁVEIS. Senti-me muito próximo da condição de quem sonha com o texto e a música, assim como a relação “epistolar” de Philippe.

Para um ser humano basta essa urgência/necessidade de comunicação, mesmo que através de outras línguas, pessoas ou meios, que vai das letras à música, à imagem e, principalmente, aos afetos e os bons encontros.

O ato de escreve para alguém, de forma dedicada e amorosa é um meio de buscar esses interlocutores, para além de quaisquer de nossas dores ou limitações. A presença das cartas de um tetraplégico para uma mulher como busca do amor é como diz o personagem: começamos no intelectual para chegarmos depois ao físico.

Hoje então estou escrevendo, como já fiz para um jovem com Síndrome de Down na universidade, uma missiva, uma nova carta: uma mensagem aos meus Colegas por sua contribuição à sétima arte. Diz-nos a matéria que Breno Viola pediu para que a plateia de Gramado os aplaudisse de pé. No foram atendidos e veementemente aplaudidos.

O cinema nacional está para mim hoje de parabéns. Devemos aplaudir de pé essa escolha do longa-metragem Colegas. E, confirmando o que já escrevi, espero que este seja apenas um dos passos que os atores premiados realizem em direção a outros e importantes festivais. Lá também, tenho certeza, seu talento, sua sensibilidade artística e suas bem humoradas improvisações ou provocações irão tocar muitas mentes, muitos corações.

O que desejo é que estes jovens possam ser vistos, ouvidos, e, principalmente, compreendidos para além de sua condição de pessoas com Síndrome de Down. Há ainda um forte e ativo preconceito, fundado nas garras do modelo biomédico, de sua imagem e conceituação como “doença”.

Recentemente um “cientista”, Savulescu, académico de Oxford defende a alteração das leis, argumentando que criar crianças eticamente melhores deveria ser encarado como uma "obrigação moral" de pais responsáveis.

Ele, na contramão de uma posição bioética questionadora da Eugenia, afirma que “... que o controle genético de embriões já é permitido para evitar determinadas doenças, nomeadamente o síndrome de Down ou mesmo em relação a genes potencialmente cancerígena, argumentando o que já não está muito longe de criar da engenharia genética...”. Uma engenharia de perfeição aspirada e idealizada, bio e éticamente questionável que já inspirou diferentes épocas e diferentes paradigmas fascistantes da Medicina.

SINDROME DE DOWN NÃO É UMA DOENÇA TRANSMISSÍVEL E SIM UMA CONDIÇÃO GENÉTICA LIGADA A TRISSOMIA DO CROMOSSOMO 21!

Enquanto Philippe Pozzo di Borgo, o real que só aparece no fim do filme, há um Outro que se constrói em nosso imaginário pela brilhante atuação dos atores. E, pelo seu refinado humor, somos levados a rir para não chorar do que se expressa, não como doença, mas como limitação ao nosso corpo. Seja pela cor da pele ou pela fratura de vértebras cervicais.

Assim, mudando de paradigmas, com a reflexão sobre estes filmes, não devemos achar que todos os tetraplégicos são iguais. E nem todas as pessoas com Síndrome de Down. Para cada ser humano, na relação direta com sua condição social e econômica, sua cultura e sua equiparação de oportunidades, as diferenças podem ou não ser graves impedimentos para a vida independente.

Bastaria, hoje que os diretores e roteiristas tivessem invertido os papéis de Driss e de Philippe. As possibilidades de superação ou não de milhares de pessoas com deficiência ainda se encontram na realidade da vida do acompanhante negro. A maioria ainda é, além de marginalizada, muito pobre, sejam ou não pessoas com deficiência.

E o que o Cinema tem a contribuir para as pessoas com deficiência? Para além do sonho que todos os espectadores e espectadoras buscam no seu escurinho há o que se clareia em algumas mentes sobre as subjetividades e as novas alianças necessárias para suportar nossas infindas fragilidades e “defeitos” humanos. É o seu papel instigador e crítico.

Os dois filmes que abordo são exemplos dessa função em nossas telas oníricas quase reais. O que nos aproxima, humanamente, desses Outros que são nossos colegas de vida e viagem, são as nossas próprias solidões. Nossa “salvação” não vem do além, vem do partilhar, do compartilhar e do respeitar, amistosa e amorosamente, esses des-conhecidos.

Só uma boa e intensa viagem pelas estradas. Uma inusitada e inesperada busca comum de alegria, com a inversão do temor de sermos tocados, como o que ocorre com Driss ao ter de cuidar, intensamente, de um corpo sem movimentos. O que é preciso então para que nossas dores comuns sejam, por alguns momentos fugazes de riso e alegria, diminuídas e aplacadas?

Em minha opinião que possamos, primeiramente, retomar as antigas salas de projeção de cinema das mais recônditas cidadezinhas deste país. Cada sala que perde suas poltronas e telas para movimentos religiosos é para mim o reforço de nosso aprisionamento no vazio dos BBB globais e outros recordes televisivos.

E, reconquistando esses Cinemas Paradiso, que suas telas sejam cada dia mais “cinemascopicamente” coloridas com esses tocantes retratos da solidariedade e da amizade conquistada. E se multipliquem novamente para além dos shoppings e dos templos...

Aos meus “Colegas”, já que eu ocupava, como eles, a exceção/diferença dentro da sala de cinema, como único “corpo deficiente visível e notável”, dedico meu texto e minha total reverência. A mesma reverência a estes intocáveis que devem se tornar, por direito e por desejo, o máximo possível, INDEPENDENTES.

E, como Philippe ainda não consegui deixar minha “alma” descansar, preciso de ar e de alguém como alteridade, mesmo seja apenas um leitor ou leitora desse blog...

Não consigo muito menos descansar meu corpo dolorido e quebrantável. Ainda quero reencontrar Brenos, Ritas, Arieis, Luizes e muitos outros e outras, todos e todas já são e serão meus colegas nessa estrada aberta chamada de transitoriedade dos bons encontros.


Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2012/2013 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela INTERNET ou outros meios de comunicação de massa)

FILMES CITADOS:

OS INTOCÁVEIS (Les Intouchables
) – Direção de Éric Toledano e Oliver Nakache, 2011, França.
COLEGAS – Direção de Marcelo Galvão, 2011, BRASIL – Vencedor do 40º Festival de Cinema de Gramado, RS - 2012
http://blogcolegasofilme.com /

Matérias e fontes sobre o texto na Internet:

"Colegas" vence como melhor filme do 40º Festival de Gramado http://cinema.uol.com.br/ultnot/2012/08/18/colegas-vence-como-melhor-filme-do-40-festival-de-gramado-veja-premiados.jhtm

Turma do Luiz (jovem com Síndrome de Down em Fortaleza) http://www.opovo.com.br/app/opovo/esportes/2012/08/18/noticiaesportesjornal,2902009/turma-do-luiz.shtml

Em Gramado, 'Colegas' desdramatiza a Síndrome de Down (e rompe Paradigmas/Estigmas consolidados!) http://www.dgabc.com.br/News/5975068/em-gramado-colegas-desdramatiza-a-sindrome-de-down.aspx

Síndrome de Down ganha visão cômica e livre de tabus em 'Colegas' (Festival de Gramado - SUCESSO merecido) http://cinema.terra.com.br/festival-gramado/noticias/0,,OI6078325-EI20667,00-Sindrome+de+Down+ganha+visao+comica+e+livre+de+tabus+em+Colegas.html

Filme estrelado por atores com síndrome de Down é aclamado em Gramado http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/cinema/2012-08-14/publico-aclama-colegas-em-gramado.html

Mostra de cinema francês traz diversidade da produção do país http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,mostra-de-cinema-frances-traz-diversidade-da-producao-do-pais,916507,0.htm

“Os Intocáveis” toca os expectadores em estréia do Festival Variluxhttp://br.artinfo.com/news/story/819442/os-intoc%C3%A1veis-abre-hoje-em-s%C3%A3o-paulo-o-festival-varilux-de-cinema-franc%C3%AAs-que-estar%C3%A1-em-cartaz-em-33-cidades-do-brasil

Engenharia genética de bebés é uma "obrigação moral": http://expresso.sapo.pt/engenharia-genetica-de-bebes-e-uma-obrigacao-moral=f747290#ixzz23yCVDcDW

LEITURA INDICADA:

O Segundo Suspiro - Philippe Pozzo Di Borgo. Editora: Intrínseca, Ano: 2012.

Sexualidade, Cinema e Deficiência – Francisco Assumpção Jr. & Thiago de Almeida (Orgs.) – Livraria Médica Paulista, São Paulo, SP, 2008.

LEIA(M) TAMBÉM NO BLOG:

O VIGÉSSIMO PRIMEIRO DIA - CINEMA E SÍNDROME DE DOWN http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/03/o-vigessimo-primeiro-dia-cinema-e.html

CARTA A UM JOVEM COM SÍNDROME DE DOWN NA UNIVERSIDADE http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/carta-um-jovem-com-sindrome-de-down-na.html

NÃO SOMOS ANORMAIS, SOMOS APENAS CIDA-DOWNS.... http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/03/nao-somos-anormais-somos-apenas-cida.html

SINDROME DE DOWN E REJEIÇÃO: UM CORPO ESTRANHO ENTRE NÓS? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/10/sindrome-de-down-e-rejeicao-um-corpo.html

A PAGAR-SE UMA PESSOA COM SÍNDROME DE DOWN http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/09/pagar-se-uma-pessoa-com-sindrome-de.html

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A AMIZADE COMO ALICERCE DA INCLUSÃO ESCOLAR - Saindo das fraldas?


imagem publicada - uma foto colorida de três meninos indianos, em Salesian, Índia, que me traduz em seus sorrisos largos e doces, assim como na mão, pousada por um deles no ombro do primeiro da foto, a captura e representação imagética de um dos mais profundos sentimentos que se constroem para e com a vida humana: a amizade. Um sentimento que D. H. Lawrence em sua poesia considerava 'mais profundo que o amor'.


'A VERDADEIRA AMIZADE É A OPOSIÇÃO'...William Blake (1757-1827)


Há um ano atrás escrevi um dos posts, texto deste blog, mais comentados e acessados até agora. Ele tratava da Inclusão Escolar. Indagava sobre a utilização de fraldas pelo processo inclusivo. Perguntava sobre os modos e meios de uso das novas tecnologias e cuidados para inventar novos e criativos modos de efetivação do direito à educação. Um ano passou, novos acontecimentos, novas descobertas, novos avanços, mas ainda permanecem questões sobre o que é e como incluir pessoas com deficiência no ensino regular.


Uma das questões que mais me atormentam é a das barreiras educacionais que ainda permanecem quanto às pessoas com Paralisias Cerebrais. Principalmente quando se trata dos chamados ''casos graves e institucionalizados''. Creio que estas são mais intensas e mais sutis que as apresentadas pelas resistências da chamada Comunidade Surda ou pelos demais sujeitos com deficiência que defendem escolas especiais.

A escola enquanto um dispositivo, seguindo o pensamento de Giorgio Agamben, é apenas uma interface entre os seres viventes e o mundo (as substâncias que nos cercam ou cerceiam) que produz, em serialização, o que chamamos de sujeitos. O processo de inclusão/exclusão não ocorre apenas 'entre os muros da escola'. 

Depois de Realengo e seus tiros reais não mais podemos crer que possamos tornar a escola e os múltiplos ambientes totalmente responsáveis pela formação de um sujeito. A educação é que precisa ampliar seu campo de atuação e de intervenção na formação de cidadãos e cidadãs, plenos, críticos e amorosos.

Há no campo educacional uma resistência maior provocada, no ato de incluir, quando se trabalha com a heterogeneidade de condições físicas, mentais e de linguagem que um sujeito com paralisia cerebral apresenta. A maioria das mensagens, comunicações ou notícias que leio, e depois retransmito, apontam para uma permanência de um modelo biomédico e reabilitador para as pessoas com paralisias cerebrais. Seja dentro de escolas, onde poucos permanecem ou têm acesso, ou nos centros de reabilitação e, principalmente, nas chamadas entidades que os mantêm em internação ad infinitum.

A mais recente notícia é: "portador de paralisia cerebral escreve livro contando sua história". È a de um homem de 40 anos, Dudu, que, segundo as descrições: " ...nasceu com paralisia cerebral grave (coreoatetóide com quadro de disartria) além de apresentar semi-dependência nas mais simples atividades do dia a dia". Ele conseguiu lançar um livro: "Minha Casa Verde", onde nos conta "ao longo de 47 páginas" a história de uma vida dentro e fora da instituição.

Este sujeito vive e é cuidado em uma entidade filantrópica. No texto diz-se sobre sua condição de paralisia cerebral: "Traduzindo: ele não sabe ler nem escrever e sua fala é desarticulada, o que dificulta a compreensão de quem ouve. Também não consegue realizar as mais simples tarefas pessoais, como tomar banho, trocar de roupa e nem mesmo se alimenta sem ajuda". 

Pergunto, então, aos 40 ele ainda usa fraldas? talvez sim ou não. Mas o mais importante é que ele é muito parecido com muitos amigos ditos P.C que conquistei. Segundo a reportagem é "dono de um carisma excepcional e de uma força de vontade inabalável, de levar adiante seu grande sonho...". Os amigos e amigas conhecidos e conquistados na minha história também o são.

Ele nessa busca de realização tem as mesmas características de Ronaldos, de Suelys, de Edgars, de Priscilas, de Sachas, de Carolinas, de Eduardos, de Malus, de mais de um amigo ou amiga que conheci ou vivo tentando re-conhecer. Todos eles e elas receberam o ''diagnóstico'' de Paralisia Cerebral. O que os diferencia de Dudu da Casa Verde?? Eles tiveram a chance de frequentar uma escola, pelo menos por um bom período, de conviver com uma família, completar um curso, terminar uma faculdade ou não, mas todos são amigos de amigos. Passaram e/ou ainda passam por processos de reabilitação, mas não ficaram 'pacientes'.

Eles e elas estiveram buscando com garra sair das imobilidades físicas geradas por seus diferentes quadros neuromotores. Fundamentalmente, também, são tão carismáticos e sonhadores como Dudu. Mas nenhum deles esteve ou está internado em uma instituição de reabilitação. Eles e elas não são menos e nem mais ''paralisados" que o Edu. São e foram apenas mantidos em plena inclusão social, com todas as barreiras e dificuldades que este processo apresenta e re-apresenta para pessoas com deficiência.

O sujeito Dudu está há muitos anos em uma Casa Verde. O mesmo nome que Machado de Assis deu ao local de confinamento dos ''alienados mentais'' do seu Alienista(1882). Ele nunca saiu de lá, pelo menos é o que nos diz a reportagem, assim como os demais 205 pacientes (internos). A sua possível melhor "amiga", Claudinha, está lá há mais de 20 anos. E o que me faz pensar que talvez possamos um dia ter espaços de desinstitucionalização que não se digam amigos de pessoas tão carismáticas, porém mantidas, filantropicamente, tão institucionalizadas como milhares de outros dudus pelo Brasil a dentro. 

Retornando a Agamben precisamos afirmar que: "O amigo não é um outro eu, mas uma alteridade imanente na 'mesmidade', um tornar-se outro do mesmo. No ponto em que eu percebo a minha existência como doce, a minha sensação é atravessado por um com-sentir que a desloca e deporta para o amigo, para o outro mesmo. A amizade é essa des-subjetivação no coração mesmo da sensação mais íntima de si."

Aqueles que só têm muitos amigos institucionalizados não "têm" nenhum amigo. Por isso é que o processo de educar para a inclusão irrestrita do Outro, da Alteridade e da Diferença de mim e do meu Eu, pode ser o devir e é o princípio de uma educação fundamentada em Direitos Humanos. 

É uma educação potencialmente instituinte que pode subverter os endurecimentos afetivos que alimentam bullyings, rejeições, escárnios, apelidos ou discriminações. É nos corações que perderam a doçura que podemos alimentar os ódios raciais, étnicos, homofóbicos, xenofóbicos ou deficiente-fóbicos. Não há nesses espaços de dis-córdia, como produção de subjetividade, a possibilidade da empatia e do re-conhecimento do Outro.

Por isso defendi, defendo a busca de uma Educação Inclusiva e Diferente da que estamos vivenciando, nesse momento macropolítico, com tantas resistências e discursos de oposição. Cada segmento buscando a defesa de suas conquistas históricas. Cada forma de ser e estar com uma deficiência afirmando suas singularidades e seus direitos. Defendo, e,docemente creio, que todos poderíamos aprender muito mais se frequentássemos, com 'phylia', a desinstitucionalização de nossos feudos ou espaços segregados ou segregantes. 

Quais são, então, os pilares da Educação no século XXI? Para além do aprender a aprender, há ênfase, entre estes, da amizade e o aprender a ser/estar amigo?

Uma pergunta final: quantos amigos ou amigas, mesmo que como oposição, tinha o jovem Wellington ?? Aquele jovem e futuro serial killer que denunciava o bullying em vídeo, e que aprendeu apenas o desprezo que alguns con-sentem, fanaticamente, pela vida alheia. Aquele mesmo e idêntico escolar que sacrificou 13 jovens alunos em nossa Columbine Realengo. Aquele dos tiros reais, em um local/dispositivo onde se espera que aprendamos a fazer o oposto da exclusão e da Morte: a Escola de e para a Vida.

Assinado: Dr. Simão Bacamarte

Em tempo: lembrar que Paralisia Cerebral não é uma doença, e que os sujeitos com esta condição não são doentes ou portadores de uma encefalopatia,apesar de serem tratados e diagnosticados assim, baseando-se apenas no modelo biomédico. As paralisias cerebrais são as resultantes, diferenciadas, em graus variados, de uma lesão cerebral que lhes causou uma anóxia ou hipóxia antes, durante ou após o parto, sendo um grande número consequência de tocotraumatismos no momento do parto.

Hoje 07 de julho há um manifesto de apoio à Educação Inclusiva a ser apoiado, amanhã esperamos haja a manifestação de uma Sociedade indignada e crítica que se lembre desses ''diferentes'' que ainda permanecem em restrição de seu direito humano e inalienável à Educação, para além de quaisquer gravidades ou profundidades de suas sequelas ou incapacidades físicas, sensoriais ou mentais. E, teremos Dudus escrevinhadores com ponteiras eletrônicas e rastreadores de movimentos de pálpebras que se tornarão os livros digitais e acessíveis para todos e todas.


copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011-2012 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Referência no texto:
O que é o Contemporâneo? e outros ensaios
- Giorgio Agamben, Ed.Argos/UniChapecó, Chapecó, SC, 2010.


O Alienista - Machado de Assis - http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Alienista
http://www.livrosgratis.net/download/1826/o-alienista-machado-de-assis.html

Matéria citada e fonte:
Portador de paralisia cerebral grave escreve livro contando sua
história http://www.ogirassol.com.br/paginaviver.php?idnoticia=27093


Entidades de direitos humanos manifestam apoio à educação inclusiva http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=16844

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INCLUSÃO, RACISMO E DIFERENÇA

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