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domingo, 31 de maio de 2015

NEGROS, DEFICIENTES E MESTIÇOS – AS ENCRUZILHADAS DAS NEO/VELHAS-EUGENIAS e de um biólogo estrangeiro entre os novos ‘selvagens’.

Imagem publicada – uma fotografia histórica em preto e branco de um grupo de jovens ‘meninos’ da Juventude Hitlerista, com seus uniformes e perfilados militarmente, como parte de uma grande massa atrás deles, todos nazifascistas. São todos ''brancos, belos, loiros ou de cabelos bons, bonitos, saudáveis, higiênicos, normais, sem defeitos ou degenerescências morais, incorruptíveis, guerreiros, patriotas, sem nenhuma deficiência física ou mental, nascidos de casamentos e famílias arianas, ideais, perfeitos, racialmente puros e compõem a elite de seu povo e sua nação...”. Assim podem, ainda nos dias de hoje, se postularem arrogantemente alguns que se considerarem a elite que deve governar e disciplinar a vida dos Outros. Principalmente, se na fotografia distorcida, tivéssemos atrás deles uma massa de seres de muitas raças, degenerados e, em especial, muitos negros, muitos sujeitos com deficiências, pior ainda se forem todos refugiados ou imigrantes da modernidade líquida. Entretanto, o nosso retrato é colorido e bem maquiado, apesar dos apocalípticos e difusores de biopolíticas do medo, pois os nossos jovens neofascistas ainda são uma das diferentes e múltiplas minoria  da Terra BRasilis.

“O Brasil está destinado, como país da imigração, ser o rebotalho movediço(...) seremos o refúgio dos piores imigrantes. Da análise de nossas estatísticas manicomiais e criminais pode o observador atento concluir que a emigração não desejável (dos norte-americanos) é a que constitui o principal fator de aumento de alienados e delinquentes em nossos manicômios e prisões(...)” (Juliano Moreira apud Cunha Lopes, 1940)

O que acontece se um britânico tropeça e cai em um aeroporto brasileiro? A sua testa e olho são feridos. A sua massa encefálica continuará sendo a mesma? Lógico que sim, a mente desse homem que aparece elogiando a atenção médica e os pontos que recebeu no SUS, não difundida, é a de um eugenista em pleno século XXI. Falo de Richard Dawkins. O mesmo que, ainda hoje, tropeça em discursos higienistas e eugenistas do século passado, no mesmo tom do proto psiquiatra Moreira e do higienista Cunha Lopes.

O seu acidente teve notoriedade pela sua afirmação sobre o SUS, eis a manchete: “BIÓLOGO BRITÂNICO ACIDENTADO EM SP ESCREVE TEXTO ELOGIANDO ATENDIMENTO DO SUS”. Afora a sua surpresa de nossa presteza e rapidez no seu cuidado, seu olhar colonialista continua subjacente na sua surpresa e comparação com seu país. Para ele: “... o atendimento médico na Inglaterra é muito demorado”.

Nenhuma das notícias diz que palestras, que temas e onde proferiu suas ideias. Muito menos sobre seus polêmicos discursos sobre pessoas que não deveriam nem ser concebidas.

Saiamos do Aeroporto de Guarulhos e seus tropeços. Vamos aqui abrir umas páginas da História de nossos primeiros eugenistas. Nelas é que encontrei e encontro respostas, ainda inconclusas, sobre as encruzilhadas que transversalizaram e transversalizam tanto os negros, os mestiços quanto as pessoas com deficiências. A questão racial foi preponderante, a meu ver, para que milhares de pessoas com deficiências, em especial as intelectuais, serem quase uma maioria dentro dos hospícios do século XX.

Indagam-me, recentemente, se não transformaria essa já velha pesquisa em material acadêmico. Respondo que, na minha modesta opinião, ainda não foi criado no mundo científico e universitário um verdadeiro e novo paradigma sobre o tema, a partir de uma visão dos afetados. No futuro quem sabe ou quem desejará fazê-lo? Ainda estão muito distantes de doutoramentos e suas pós, mesmo com as ações afirmativas, os nossos negros, nossos sujeitos possuidores, em um só e no mesmo corpo, desses estigmas da mestiçagem, da deficiência e da escravidão.

Já há um magnifico trabalho da Prof.ª Dr.ª Lilia Lobo, da UFF, sobre os “Infames da História: pobres, escravos e deficientes no Brasil”, tese e livro nos quais, em sua metodologia foucaultiana, desnaturaliza todo o constructos históricos sobre o corpo deficiente, e sua submissão às dominações e disciplinarizações seculares. Lá também são levantadas questões que ainda me faço, já que tive o privilégio da interlocução e convívio com a autora.

São apresentadas em sua obra como as Vidas Nuas em que se transformavam os corpos cativos negros que podemos buscar algumas raízes de corpos infames. Ainda no Império forjaram as imagens monstruosas, dos corpos marginais, passando pelos ‘alienados’ dos manicômios, e, tendo seu ápice nas imagens de anões nus e constrangidos diante de objetivas de laboratório eugênicos no início do Século XX.

Pelos discursos dos eugenistas é que poderíamos buscar os atravessamentos que, trans historicamente, ainda persistem em muitos dos discursos oficiais ou autorizados dentro das universidades e do meio social. O modelo de higiene mental e de eugenia nasceu, foi propagandeada e proliferou exatamente através das falas dos ‘mestres’. Como Lopes ou Moreira, ou mesmo o nosso consagrado Monteiro Lobato e seus amigos.

Na posição de uma das mais eminentes figuras de nossa Psiquiatria, lá em 1906, Juliano Moreira já antevia, nos Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, comentando sobre as moléstias ligadas à herança, dizia que “... em breve surgirá a época da higiene profilática”. Este discurso serviu anos depois para que Cunha Lopes, em 1917, com apoios de outros eugenistas pudesse forjar a constituição da Comissão Central Brasileira de Eugenia.

Esta Comissão tinha como objetivos: a) manter no país o interesse pelo estudo das questões de hereditariedade e eugenia; b) propugnar a difusão dos ideais de regeneração física, psíquica e moral do homem; c) prestigiar ou auxiliar, ad libitum, toda organização científica ou humanitária de caráter eugênico. Poderíamos, retirando o termo eugenia, atualizar e encontrar esses objetivos em discursos de biólogos, geneticistas e até bioeticistas nos tempos atuais? Em que espaço social encontramos maior respaldo de suas ideias e suas crenças científicas?

Encontrem as respostas lendo Dawkins e outros muito atuais defensores da ‘boa herança genética’ ao modo de Gattaca. Para eles e Cunha Lopes se deveria e se deve ‘aumentar a descendência de casais (heterossexuais e puros) geno e fenotipicamente sadios. Aí também se cruzam os discursos de fanáticos religiosos e alguns pastores evangélicos.

E, para atingir as metas eugênicas não teríamos, por esse discurso naturalizado, de procurar limitar o máximo possível a descendência de anormais e restringir a multiplicação de indivíduos hereditariamente inferiores?

Para Cunha Lopes, em 1940: “As medidas que decorrem da eugenia ... dependem do esforço das elites e da educação das massas populares”. Não ouvimos, assistimos e lemos recentemente esse mesmo discurso de ‘limpeza’ de nossas ‘’impurezas político-sociais’’ de nossas chamadas “elites” brancas e verde amareladas? Afinal, segundo ele: “...cruzamento de raças próximas costuma dar bons resultados no tocante ao físico e também para o lado psíquico, ao passo que a mistura de raças mui diversas (esses pardos e pardais) entre si dá resultados desfavoráveis”.

Estamos realmente no Século XXI? Ainda temos de ouvir e ler sobre ‘regeneração nacional’, ‘aprimoramento das populações marginais e miscigenadas’, ‘controle social das degenerescências e corrupções herdadas’? Acho que o biólogo britânico veio por aqui nos lembrar das políticas de esterilização em massa, dos controles biológicos das possibilidades heredológicas desviantes, da castração de inaptos e inferiores de cores de pele perigosas quando associadas a deficiências, inclusive as morais e políticas.

Como então, reagir diante das novas selvagerias e violências que estes ‘neo-selvagens’ e anormais da Terra Brasilis, fazem proliferar? Abolindo a faixa etária para seu extermínio? Antecipando sua tendência para ser cordialmente miscigenado? Construindo novas e sutis formas de controle populacional dessas minorias que são maiorias da cor de pele? Embranquecer os negros, inclusive os ‘portadores’ de ‘invalidez’ social e econômica? Prevenir o surgimento de novos ‘defeituosos genéticos’ e novos sujeitos que se afirmem em suas deficiências como singularidades? Sanear de todos os ‘malditos e infames’ a nossa gloriosa Pátria?

Seriam, como já publiquei, a utilização de novos ‘choques’ e novos ‘testes e técnicas psicológicas’, ou seja ‘científicas’, a maneira perversa e contraditória, para erradicar os preconceitos, as discriminações e as ‘eliminações’ desses Outros anômalos? 

Vejam o que se pode propor para eliminação dos racismos e machismos na experiência desenvolvida em universidades dos EUA (matéria InfoNotícias DEFNET recém publicada no blog). Poderíamos submeter toda aquela tropa de jovens hitleristas às lavagens cerebrais que apagariam de suas memórias os ódios raciais? E dos novos ‘guris’ neo-liberais dos dias de hoje?

Há muitos que ainda se deixam iludir e seduzir pelas nossas colonizadas imagens e sonhos eurocêntricos ou norte-americanófilos.  Nossos eugenistas também o fizeram, visitaram a Inglaterra, os Estados Unidos, a Itália, e, principalmente, a Alemanha, antes e depois dos Nazi fascismos surgirem como desejo de massa. Aspiraram serem herdeiros daquelas ‘ciências’.

Foi seu modelo eugenista que se naturalizou através dos muros e das instituições que construímos, fossem os hospícios, as colônias agrícolas ou os manicômios. Nestes espaços instituídos forjaram-se muitas formas de ‘tratamento’, ‘reeducação’, ‘reabilitação’ e ‘educação’ que depois se transformaram nas encruzilhadas institucionais onde se miscigenou o corpo negro, o corpo pobre e o corpo deficiente. E os ‘homens-elefante’ daqui tinham, além de seus feiuras morais também os vícios e defeitos genéticos a serem extirpados.

Há, pois, que também desnaturalizar a fala de um neo-eugenista e biólogo estrangeiro, mesmo que esteja nos elogiando o sistema único de saúde. A sua visão não foi modificada pelo tombo brasileiro. Os seus preconceitos arraigados e ‘cientificamente’ estruturados não foram abalados. Assim com eles há também os nossos conterrâneos contemporâneos, brasileiros e brasileiras, que como as elites do passado ainda pensam obtusamente de ‘de olhos virados para trás’. Pedem até a ‘tortura na hora certa’ e a Ordem como ditadura.

A eles peço que reflitam após assistir como podem os que se considerem melhores, mais puros, mais inteligentes e mais fortes, assim como desejavam os médicos eugenistas, tanto aqui como na Alemanha Nazista, transformar a morte e extermínio, no caso de forma ‘indolor’ pelo gás, de corpos e mentes defeituosas em práticas ‘empresariais’. Assistam o Action 4 urgentemente. Os doutores dessa História também colecionavam cérebros.

E, por favor, convidem o nosso estrangeiro biólogo para esta reflexão. Não se esqueçam de lembra-lo que o SUS foi uma resultante de muita luta pelo direito humano inalienável à saúde para todos, sem discriminação, sem exceções. A família Hulk que o diga.

 E, lhe digam que ainda temos muito a aprender para que os corpos, nas suas diferenças, inclusive as resultantes de nossas inconscientes colonizações, permaneçam na busca da chamada liberdade sócio-política. A mesma que pode ser o antídoto para que nossos desejos eugenistas e fascistantes possam ser combatidos.

Já sabemos que a maioria de nossos corpos deficitários podem ser, estatisticamente, classificados como ainda pobres, marginalizados, negros, violentados, eliminados, neo-escravizados e, perversamente, tornados os principais objetos dos discursos de inclusão. Somos mesmo apenas 24 a 25 milhões de pessoas com deficiência? Qual é mesmo a cor da pele dominante de nossas a-normalidades?

Avisem, enfim, que não é a maioria, ainda, das massas que desejam retornar às garras duras dos Anos de Chumbo, mas que é preciso RE-EXISTIR. O rio da Vida que escolhemos tem águas turbulentas, mas continua correndo, apesar de tentarem represa-lo. O preferimos às águas pantanosas dos lagos estagnados de quem só quer os cérebros para a dominação, a perfeição de si e o ódio ao Outro.

Copyright/left jorgemárciopereiradeandrade 2015-16 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação e dominação de massas) TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025

Matérias da Internet ligadas ao texto -

Richard Dawkins diz que "é imoral" uma mulher dar à luz um filho com síndrome de Dow https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/richard-dawkins-diz-que-imoral-uma-mulher-dar-luz-um-filho-com-sindrome-de-down-13680998

BIÓLOGO BRITÂNICO ACIDENTADO EM SP ESCREVE TEXTO ELOGIANDO ATENDIMENTO DO SUS https://br29.com.br/biologo-acidentado-em-sp-escreve-texto-elogiando-atendimento-do-sus/

Notícia de 2018 - Juristas pela Democracia repudia esterilização forçada (CasoJanaína) https://jornalggn.com.br/noticia/juristas-pela-democracia-repudia-esterilizacao-forcada

LEITURAS CRÍTICAS INDICADAS - 

A HORA DA EUGENIA – Raça, Gênero e Nação na América Latina, Nancy Leys Stepan, Editora Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ, 2005.

ARQUIVOS DA LOUCURA – Juliano Moreira e a descontinuidade histórica da Psiquiatria,  Vera Portocarrero, Editora Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ,2002.

OS INFAMES DA HISTÓRIA: Pobres, Negros e Deficientes, Lília Lobo, Editora Lamparina, Rio de Janeiro, RJ, 2009. (Veja e leia em - https://www.historiaecultura.pro.br/cienciaepreconceito/producao/infamesdahistoria.pdf

DOCUMENTÁRIO indicado para reflexão sobre eugenia, medicina, psiquiatria e nazifascismo Ação T4: Um Médico sob o Nazismo -   Direção: Emmanuel Roblin País: França Ano: 2014 (Legendado)  -Este documentário relata a história da chamada "Ação T4", que consistia em eliminar deficiências físicas e mentais e pessoas consideradas inúteis e prejudiciais pelo regime nazista. Em espaços médicos e psiquiátricos,  diferentes experiências para sua eliminação, de forma prática, indolor e eficaz foram realizadas, até o aperfeiçoamento das câmaras de gás. Dr. Julius Hallervorden, importante nome na ciência da patologia cerebral, contribuiu para o assassinato sistemático de alemães mentalmente doentes, ordenado por Hitler. Ele, no entanto, seguiu uma carreira brilhante no pós-guerra, impune, e morreu coberto de honras. Entre 1939 e 1945, pelo menos 200.000 pessoas com doenças mentais ou pessoas com deficiências foram assassinadas. Exibições no Canal Curta! - https://old.hagah.com.br/programacao-tv/jsp/default.jsp?uf=1&action=programa&canal=BQ4&operadora=25&programa=0000437625&evento=000000538832631&gds=1&hgh=0

LEIA TAMBÉM NO BLOG –

EUGENIA – COMO REALIZAR A CASTRAÇÃO E ESTERILIZAÇÃO DE HOMENS E MULHERES COM DEFICIÊNCIA? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/01/eugenia-como-realizar-castracao-e.html

OS MORTOS-VIVOS DO HOSPÍCIO QUE ENSINAVAM AOS VIVOS SOBRE A VIDA NUA... BARBACENAS NUNCA MAIS – https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/10/os-mortos-vivos-do-hospicio-que.html

"RACISMOS/PSICOLOGIA - Os preconceitos podem ser apagados dos nossos cérebros? Racismo e machismo podem ser apagados do cérebro"  https://infonoticiasdefnet.blogspot.com.br/2015/05/racismospsicologia-os-preconceitos.html


RETORNAR À CASA VERDE, RETROCEDER E INSTITUCIONALIZAR A LOUCURA? OU SOMOS TODOS ‘LOUCOS’? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/05/retornar-casa-verde-retroceder-e.html

quarta-feira, 15 de maio de 2013

RETORNAR À CASA VERDE, RETROCEDER E INSTITUCIONALIZAR A LOUCURA? OU SOMOS “TODOS” LOUCOS?



Imagem publicada – uma cabeça humana dividida em áreas, com cores diferentes, representando as características que deveriam (ou segundo alguns ainda hoje em dia) compor uma unidade do cérebro com a mente, criada pela Frenologia. Segundo seu fundador, o médico austríaco Franz Gall, a mente e seu órgão físico não podem ser separados. Antecipadores de algumas descobertas das neurociências, ainda no Século XIX, os frenologistas tornaram-se os melhores cirurgiões do cérebro. Entretanto, usaram outros métodos diagnósticos e classificatórios. Através de um exame exterior da cabeça de um indivíduo, afirmavam determinar nas nossas dobras e protuberâncias cerebrais, as nossas dobras interiores da Moral, das Faculdades Intelectuais, da Benevolência, da Combatividade, da Destrutividade e outras que nos tornariam “portadores de boa saúde” física e mental. Em alguns caminhos trilhados nos EUA se aproximou da Eugenia, e constitui-se um dos primórdios dos modelos que desejam inclusive diagnosticar o grau de criminalidade possível de cada um, singularmente, pelos caroços e imperfeições de nossa calota craniana.

“Torrente de loucos.
Três dias depois, numa expansão íntima com o boticário (farmacêutico) Crispim Soares, desvendou o alienista o mistério do seu coração.
- A caridade, Sr. Soares, entra decerto no meu procedimento (hoje seria ou será o seu DSM ou a internação compulsória?), mas entra como tempero, como o sal das coisas, que é assim que interpreto o dito de S. Paulo aos coríntios: ‘ Se eu conhecer quanto se pode saber, e não tiver caridade não sou nada’. O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu coração. “Creio que com isso presto um bom serviço à humanidade...” (O Alienista – Machado de Assis, 1882).

Eis um menino que poderíamos ter tornado um “caso clássico para um tratamento clássico”. Machado de Assis era negro, pobre, gago e epiléptico. Um menino mestiço que nasceu de uma família extremamente humilde, no Morro do Livramento, uma comunidade, uma favela, no Rio de Janeiro, em 1839.

Entretanto foi, quem sabe, esta origem que lhe permitiu vislumbrar uma das mais importantes obras que criticam, em literatura, a institucionalização da Loucura. O seu Alienista, como no texto acima, desejava o que a Psiquiatria, também nascida nesse século XIX, estudar e classificar todos os quadros de anomalias mentais e psicopatias.

A evocação literária deste escritor-maior é para colocar em questionamento a atual produção de subjetividades adoecidas pelo modelo de controle, higienização, internação compulsória e falsa solução de todos os chamados transtornos mentais e os abusos de drogas.

Uma das alegações mais frequentes nas páginas de jornal, revistas, manchetes, destaques, falas apocalípticas pela TV, sobre os que são e estão nesse campo das saúdes mentais, é que ao ‘soltá-los dos hospícios, clínicas, comunidades, manicômios’, com as ditas reformas os ‘deixamos abandonados à própria sorte’... E os loucos pululam (pós-Lulam?) e poluem as nossas ruas, calçadas e embaixo dos viadutos.

Qual então será a solução se continuamos, alienistas e higienistas, buscando uma Sociedade limpa, organizada, normal, feliz, sem conflitos, sem dramas pessoais ou coletivos? Pelo olhar do personagem machadiano da Casa Verde, os Simãos Bacamartes, hoje neo-alienistas, primeiramente deveriam estar todos incluídos nos esquadrinhamentos e estatísticas sobre as loucuras. Todo mundo lá pode estar, ficar e nunca sair.

Essa é, então, a solução encontrada recentemente pela chamada ‘Bíblia da Psiquiatria’, o DSM, que indo para sua 5ª Edição, o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em tradução livre).

Segundo a APA (Associação Americana de Psiquiatria (American Psychiatric Association, ou APA, na sigla em inglês), os “novos diagnósticos”, resultantes do trabalho de especialistas, “...poderão impactar o diagnóstico de doenças mentais, em um momento em que, segundo estudo da Universidade de Harvard, quase metade dos americanos adultos em algum momento da vida sofrem de algum transtorno mental”.

Mas será que devemos nos incluir entre estes insanos, drogados, marginalizados, empobrecidos, excluídos e desfiliados? Quem sabe hoje o ‘mulato de Assis’ teria utilizado um ‘machado frenológico’ para criar um divisor de águas.

De um lado os habituais frequentadores da Casa Verde, inclusive todas as Câmaras, nas três ou mais esferas de poder, que lá iriam só de passagem. Nesse grupo de elite estariam os que são íntegros, de bom caráter, sem impulsividades ou compulsividades (em especial a cleptomania ou outras psicopatias corruptíveis dos bons).

Porém, dentro no outro grupo maior e mais ativo socialmente, estaríamos, nessa perspectiva, todos e todas incluídos. Os cidadãos e cidadãs, essa população inteira sem equilíbrio total das faculdades mentais.

 Uma população que tende sempre para as transgressões, para as perversões, neuroses, psicoses e outros novos quadros classificados pela DSM. Há ainda que incluir os que, parvos, cretinos, imbecis e débeis, cometem os Sui-CID-ios, ou que, na sua santa e sacrossanta debilidade mental, nem têm capacidades para tal ousadia.

Já que nosso padrão internacional, oriundo de apenas um país, onde a democracia, inclusive a racial, é ‘mentalmente perfeita’, afirma cientificamente que 50% dos seus habitantes é passível de diagnóstico psiquiátrico, quem somos nós os ‘cucarachas’ latino-americanos para contestá-los?

Lá não se praticam os mesmos atos de vandalismo, as mesmas barbaridades, as mesmas loucuras sociais. Lá não se matam pessoas com crueldade. Não cometem esse distúrbio ignóbil de atirar a esmo. Não violentam e nem discriminam negros, homossexuais, pessoas com deficiência, mulheres ou crianças. Muito menos abandonam os seus velhos e suas velhacarias. Tendem ou para angelicais ou semideuses?

 E, no nosso reinado, frenológicamente diagnosticável, da imperfeição intelectual e das qualidades mentais, esses ‘subdesenvolvidos mentais’, abaixo do Muro do México, pela visão eugênica e racista, quem sabe não são 100% enquadráveis nas novas nosologias e patologias? Somos, então, mesmo no luto ou na tristeza, passíveis do ‘remédio universal’ de Simão Bacamarte.

Resta, porém, até mesmo nos Paraísos Artificiais, nos mais ‘desenvolvidos mentalmente’, os que se colocam como os filósofos, na dúvida e no questionamento dessas tabulas rasas e desses enquadramentos. Se não o que já nos teria acontecido?

Há os que pautados pela ética e pela bioética gostam de duvidar, questionar e interrogar: "Como presidente da Força-Tarefa do DSM-IV, eu devo assumir responsabilidade parcial por essa inflação de diagnósticos. Decisões que pareciam fazer sentido foram exploradas por empresas farmacêuticas em campanhas de marketing agressivas e enganosas. Elas venderam a ideia de que problemas da vida cotidiana são na verdade doenças mentais, causadas por desequilíbrios químicos e curadas com uma pílula", diz Frances, que é professor emérito da Universidade de Duke, na Carolina do Norte, e um dos maiores críticos do DSM-5.

O temos de inventar ou criar para controlar as manifestações mais recentes de cunho populacional ampliado? Como resolver as resultantes sociais e patológicas do crescente consumo de substâncias psicoativas proibidas? Como solucionar o crescente e estimulado número de pessoas que vivem em situação de rua? E os meninos e meninas que se alimentam de luz e cola, como resolver sua proliferação? Como classificar os atiradores que entram em cinemas, escolas, universidades e matam indiscriminadamente?

Aos menores quem sabe alguns dirão que cabe uma institucionalização compulsória. Afinal para que esse tal de Estatuto? ECAS não aprenderam ainda que esses seres proliferam como essas bactérias super resistentes aos antibióticos? Se aplicarmos as medidas a este infratores menores com penalizações maiores não estaremos reduzindo este número exponencial e sem controle biopolítico?

Desde o Século XVIII estamos nos aperfeiçoando, mundialmente, para que as formas de controle biopolítico e social se alicercem nas ciências e nas práticas sociais da Educação e da Saúde. No campo da saúde mental já vivemos muitos processos de hiper institucionalização e hospitalização da loucura e dos loucos.

No nosso país assistimos ou participamos de um processo de desHospitalização, ou melhor uma desinstitucionalização, que vem sendo questionadas e discutidas, principalmente pelo chamo de contrarreforma psiquiátrica. Há uma intenção de apresentar todo o processo de construção de políticas públicas de saúde mental como unicamente centradas nos Centros de Atenção Psicossocial.

Nos Caps, como uma das tecnologias possíveis, temos de cuidar intensamente da sua exclusão e seu processo de reterritorialização, principalmente nos estados mais conservadores como São Paulo. Há que promover uma intensa discussão sobre a sua transformação lenta e progressiva em novas Casas Verdes. E, mirando a desinstitucionalização, aceitar as ambiguidades que acabamos por promover junto com o Estado e os Estados.

Não são somente os Centros de Atenção que podem dar conta de tamanha população bacamartiana. São hoje e serão mais ainda pelo DSM os frequentadores cotidianos de novos mini-cômios que estão para ser construídos dentro de grandes hospitais. Veja(m) o que já escrevi sobre a reinserção e manutenção, apesar e fora da lei 10216, de CAPS dentro de Hospitais.

Preciso, por força de hábito e experiências, de repetir: SAÚDE MENTAL? QUANDO INTERNAMOS OS CENTROS DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL?

Se formos também diagnosticar quais são as mazelas de nossos equipamentos criados para substituir os modelos higienizadores, com o cuidado de autocrítica e reflexão coletiva, encontraremos em ação alguns efeitos colaterais ou repetições que nos comprometem com a visão bacamartiana.

Não fechamos as portas e os portões como no passado? Não buscamos o enquadramento dos ‘pacientes usuários’ em nossos conhecidos e velhos diagnósticos? Não lhes prescrevemos mais medicamentos?  Não centralizamos as ações dos chamados territórios em um único espaço físico? Não nos isolamos das ‘comunidades’ que nos cercam ou cerceiam?

Há muitos anos atrás quando iniciava meus caminhos na psiquiatria me indaguei das relações e origens comuns entre a Psiquiatria, a Psicanálise e a Religião. Hoje, com a recorrência de títulos das matérias sobre o novo manual DSM, tenho uma sensação de dejá vu. Não é apenas um significante que se apresenta com esta nova ‘Bíblia’ para os especialistas.

É também a recorrência e a repetição de um movimento conservador que, utilizando nossos próprios ‘diagnósticos institucionais’, nos diz que estamos falidos ou fracassados se não seguirmos um novo/velho dogma: constituir e instituir novas Casas Verdes.

Não é por simples conhecimento bíblico que Machado de Assis nos cita São Paulo. É que em seu tempo, para ele que viveu na pele a  exclusão e preconceito por sua cor e epilepsia, já se manifestavam as técnicas e métodos de cura ou de tratamento pela hospitalização.

Quando o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras nasceu, em 1839, já tinham nascido nos estertores do Século anterior os progressos da medicalização fisicalista e rigorosa, como diz Foucault, também “militante e dogmática, da sociedade, por uma conversão quase religiosa, e a implantação de um clero de terapeutas...”.

O que o alienista acreditava é uma ‘saúde da alma’. E para conquistá-la ou promovê-la a sua ciência “tem o inefável dom de curar todas as mágoas”. Como um ‘verdadeiro médico’, como já se esperava de um higienista, em sua Itaguaí, criticou a vereança pelo descaso com os dementes.

Naquele município, como muitos ainda dizem ocorrer séculos depois: “... é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinda defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua...”.

Nós, aqui, os habitantes da Aldeia Global, portadores da nova doença heteronômica, que abre espaço para uma nova iatrogênese (doenças causadas ou inventadas pela medicina), veremos os novos Simãos Bacamartes, pedir às autoridades dos Governos uma reforma nova desses costumes tão ruins.

Simão, no texto “machadiano“,,, pediu licença à Câmara para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio (hoje um financiamento governamental), que a Câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer...”.

E que existam hoje os milhares de sujeitos com esquizofrenia, bipolaridade, drogadição, depressões e neuroses graves não se pode negar. Entretanto, eu aqui com minhas mazelas psíquicas e físicas, me dou o direito de não enquadrar meus lutos ou perdas em sintomas de novos estresses pós-traumáticos.

Não deixaremos de ter nossas ‘torrentes de novos loucos’. Não deixaremos de ter sofrimentos psíquicos ou dramas existenciais. Não deixaremos de ter ideações confusas, delirantes ou paranoicas, principalmente estas últimas tão em moda em alguns macropolíticos evangelizadores.

A única diferença entre nós e o alienista de Machado será apenas a de uma distância temporal e histórica? Ou estamos no retorno da Casa Verde, retrocedendo, mais uma vez, diante dos avanços, mesmo que tortuosos, que a Saúde Mental conquistou no Brasil?

Há um para além desse momento que desejamos construir? Que temores temos de fugir às padronizações e protocolos internacionais diante de nossas singulares formas de enlouquecer, neurotizar ou adoecer em verde amarelo? Nossos grandes alcoolismos são menores por não serem dependências apenas do uísque?

Podemos ir além dos Serviços Residenciais Terapêuticos, dos Caps, CapsAD, dos Centros de Convivência, dos demais equipamentos que norteiam e se consolidam como os locais substitutivos aos velhos manicômios e seus antigos portões e arquiteturas panópticas?

Recentemente foi feita uma comemoração da Luta Antimanicomial em Porto Alegre onde se propuseram, com a Arte na Rua, além das ações artísticas, também trocar em improvisados ‘consultórios’ na rua o mal-estar dos transeuntes.

Por meio do grupo de voluntários do grupo Espaço Liso, coordenado por professores da Ufrgs, um pseudo-consultório psiquiátrico foi montado no meio do Largo. Artistas e psicólogos usavam jalecos e sentados a uma mesinha realizavam consultas na hora. Os pacientes não eram convidados e mesmo assim, fizeram do espaço um dos mais requisitados da oficina. “Eu vi o pessoal da medicina aqui e sentei para conversar um pouco”, relatou Jorge A. M da S, como mais um típico brasileiro, que parou para um ‘atendimento’.

Ele, como muitos Outros, ao verem alguém com um jaleco ou identificados como médicos buscam seu número na CID 10 ou no DSM. Lá naquela rua: “Sem saber que não se tratavam de médicos ou psiquiatras, o senhor de 59 anos parou e realizou longa conversa com as ‘doutoras’. Ao final, recebeu um receituário especial que na verdade o recomendava seguir falante e animado com a vida, além de alguns pequenos chocolates coloridos, para simular medicamentos”.

Eu andante de outras ruas e outras esquinas de dúvidas lhe receitaria, como Guattari, apenas um pouco de poesia... Ou Machado de Assis.
OU seja, o Outro Jorge também sabe que, mesmo nos iludindo, somos todos a-normais. 

E uma consulta regada por arte, poesia ou fantasia talvez, sem nenhuma intenção diagnóstica ou terapêutica, possa artisticamente nos curar de nossa mais profunda aspiração: tornarmo-nos corpos perfeitos, imortais e sem nenhuma doença ou imperfeição.

Corpos e mentes irremediavelmente humanos e incuráveis, em nossa finitude e transitoriedade, pois, no fim das contas nenhum de nós é tão belo como a Angelina e nem tão puros e ungidos como o Feliz sem ano.
Até mesmo um poeta, Walt Whitman, em 16 de julho de 1849, buscou a Frenologia. A saúde, principalmente a física, era uma de suas paixões. Pela quantia de três dólares, um ‘frenólogo’, Lorenzo Fowler, “examinou a parte externa do crânio de Whitman para determinar força e a proporção de suas faculdades mentais”.

 Fowler para elogiar, após várias características descobertas pelas medidas cranianas, este ilustre frenólogo, disse sobre o poeta:” Este homem possui uma grande construção física e força para viver até uma idade avançada. Ele sem dúvida descende da raça mais rija e sadia...”.

De quem seria esse cérebro medido em suas partes apenas mais brilhantes? É o de um dos mais reverenciados poetas norte-americanos, ele escreveu as Folhas da Relva, naqueles tempos de Guerra Civil Norte-Sul, de um povo nada belicoso. Considerado, pois um dos mais sadios de seu país, pois segundo essa visão da Frenologia. Diziam “... Toda beleza vem do sangue belo e de um cérebro belo”.

Em qual gaveta ou diagnóstico fechado estaria hoje Whitman? Afinal além de poeta, vendedor de livros, jornalista, enfermeiro e profundamente humanitário, ele era homossexual. E, por essa visão distorcida de alguns psicólogos e pastores deveria, moral, evangélica e modernamente, ser submetido a algum processo de ‘cura’ de suas homem-sexualidades.

E, para os curiosos ou que leram todo o texto, o gran finale do Alienista deixo, para que os que não leram ou o conhecem pessoal e intimamente como eu, buscarem a resposta.

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa .TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)



LEITURAS PARA CRÍTICA, REFLEXÃO E DIFUSÃO –

O ALIENISTA – MACHADO DE ASSIS – Princípio Editora, São Paulo, SP, 1993.

A EXPROPRIAÇÃO DA SAÚDE – NÊMESIS DA MEDICINA – IVAN ILLICH, Editora Nova Fronteira,

Discapacidad Intelectual inclusión y derechos (Via Internet – disponível para Dowload, em formato PDF grátis)

O PODER PSIQUIÁTRICO – MICHEL FOUCAULT, Editora Martins Fontes, São Paulo, SP, 2006.

FONTES – 
NA INTERNET – matérias citadas ou indicadas no/pelo texto:

Nova 'Bíblia da psiquiatria' amplia lista de transtornos e gera polêmica


Movimento antimanicomial (Conheçam a História para entender a necessidade e sua implicação com esse movimento) https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_antimanicomial

O Marketing da Loucura *(VIDEO) https://www.youtube.com/watch?v=OhxqNqQDxwU

JUIZO – Documentário  de Maria Augusta Ramos – sobre jovens infratores e suas realidades - https://www.youtube.com/watch?v=EDtN2Xs_eMU


Papel no Varal traz a loucura em forma de poesia https://www.alagoas24horas.com.br/conteudo/?vCod=147394



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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

EUGENIA – Como realizar a castração e esterilização de mulheres e homens com deficiência?


Imagem publicada – A reprodução da “Eugenics Tree”, um desenho de uma árvore frondosa com as frases “eugenics is the self direction of human evolution” e “like a tree – eugenics draws its materials from many sources and organizes them into na harmonius entity”. É o símbolo máximo que o Segundo Congresso Internacional de Eugenia, em 1921(Nova York), propunha, como a real e “nova” evolução humana. E as suas raízes representadas foram e são alimentadas por algumas ciências, onde a Medicina, a Psiquiatria, a Cirurgia e a Genética têm um papel preponderante. (*ler tradução do texto em inglês ao fim deste texto)

“... O que devemos pensar, em termos seculares gerais da condição dos bebês, dos deficientes mentais e daqueles que sofrem do Mal de Alzheimer? Essas entidades não são pessoas em qualquer sentido estrito...”.

O que você(s) acha(m) que esta afirmação tem de conteúdo bioético? Esta afirmação se encontra no livro de um renomado bioeticista texano: H. Tristan Engelhardt. E seu pensamento bioético(?) constituiu uma excelente oportunidade para reflexão sobre as “não-pessoas”, que se tornam objeto de negação de seus direitos.

Para Engelhardt: “... muita gente se preocupa em atribuir-lhes diversos direitos dos quais desfrutam pessoas adultas” (pág. 185). Como não se constituem no sentido estrito do termo pessoas, são incapazes morais, portanto podem ser moralmente excluídas dos seus direitos humanos.

O mesmo autor poderia ser utilizado para entender a visão secularizada de recente notícia sobre a esterilização de uma mulher com deficiência. Ela é, foi ou será algum dia uma Pessoa?

Para este polêmico autor as pessoas com deficiência intelectual, por sua condição de “severa e profundamente retardados”, e pelas exigências que impõem às outras que são consideradas pessoas “normais” e “morais”, podem ser, como exceção destituídas de seus direitos.

Há quem concorde com estas visões que transformam o Outro e suas Diferenças em apenas um “estranho moral”? Uma exceção à normalidade.

Estamos realmente em 2011? O Século XXI e suas promessas de evolução humana estão sendo realmente realizadas?

Recentemente, mais uma vez, tive o desprazer de noticiar uma aplicação “legal” de uma possível esterilização/castração de uma mulher com deficiência intelectual, em uma cidade bem próxima daqui.

Mais uma vez precisei reconhecer o quanto a Justiça continua sendo exercida, por alguns, dentro dos princípios e padrões anacrônicos e distorcidos sobre as pessoas com deficiência e seus Direitos Humanos.

Para entender estas decisões que geram nossas indignações ou manifestos é que fui buscar novamente outra história: a da Eugenia.

Muitos, a princípio, a associam apenas aos Nazistas e seus métodos de eliminação primária de pessoas com deficiência, depois judeus, ciganos e homossexuais no Século XX (1938 – 1944). Porém suas inspirações são mais americanas do que a historiografia nos transmitiu.

Em 1875 no Kansas, Texas, EUA, foi instituída uma política de eugenia com a castração de homens. O que fundamentava essas práticas do século XIX ainda parece ser o mesmo princípio que é alegado por quem defende esta busca de “purificação da raça humana pela esterilização”. Mesmo que sejam alegadas, judicialmente, a proteção do sujeito ou da Sociedade.

Provavelmente o que levou à autorização de esterilizar uma mulher do Século XXI ainda é a mesma ideologia racista e eugênica que se iniciou com Francis Galton (1822-1911).

Este um dos muitos precursores da Eugenia foi e é muito citado por seu parentesco com Darwin. Mas o que importa é como se constituíram e perpetuaram, historicamente, seus seguidores e admiradores em todo mundo e, em especial, no Brasil.

Ele firmou suas raízes eugênicas primeiras na Inglaterra com uma histórica conferência no Instituto Antropológico de Londres. Isto em 1901.  Portanto, alguns anos antes da apropriação nazifascista desta proposta de uma raça “pura”, perfeição corporal e superioridade hereditária.

Galton, como um dos principais ideólogos do movimento eugênico, enraíza, depois, com sua arborescente eugenia no solo fértil dos Estados Unidos. Um país democrático mas que tem a necessidade de biopolíticas em sua busca de eliminar os “parasitas” desta sociedade emergente.

Eram os tempos dos resquícios do Faroeste, da Escravidão e do Genocídio das nações Indígenas...

Era preciso eliminar, assim como controlar, os desviantes sociais. Herdeiros da concepção biopolítica do Século XVIII/XIX.

A proposta de castrar doentes mentais, alcóolatras e pessoas com deficiência encontrou em discursos médicos o modo aliado, eficaz e prático de exterminar estas “diferenças” prejudiciais ao progresso e à ordem. Também aí nasceram os grandes hospícios, manicômios e colônias penais.

Em outros lugares também se exercitou, nessa passagem dos séculos, a busca higienista de uma sociedade sem defeitos ou defeituosos.

 E, tristemente, uma das deficiências tornou-se um dos campos das experiências, discursos e práticas biomédicas de “purificação” genética: as chamadas idiotias, cretinices e outros retardamentos ditos mentais. Vidas nuas facilmente matáveis.
Os tempos passaram. A Terra já nos apresentou suas próprias convulsões ou retardamentos catastróficos como planeta. E, em seus abalos e tsunamis tenta nos ensinar com aprender com a experiência e o passado.

O que ainda persiste e resiste é essa triste e nefasta visão moralista e moralizante dos sujeitos com alguma diferença ou diversidade intelectual. A visão de Galton ou de Engelhardt, datadas ou contextualizadas superam a passagem do tempo.

Há os que creem em seus modos de produção do conhecimento, quase religiosos, de afirmação de supostas verdades “científicas”. O mundo das leis e os legisladores tornam-se seus prediletos seguidores e portadores.

Então como mostrar a quem foi togado pela mesma Sociedade que o togou como evoluir? Principalmente quando esta mesma sociedade, dos BBB e da Idade Mídia, permanece retrógrada e hiper resistente à quebra de seus velhos e arcaicos paradigmas?

O que temos de continuar buscando são meios ativos de quebrar e fragmentar as micro/macrofascistações em nós. Modos, discursos e práticas fascistas que também se expressam e expressarão através do racismo, da exclusão/segregação escolar, da homofobia, da violência contra quaisquer mulheres ou homens em suas condições e diferenças fora das normas e das morais.

Não bastará que possamos impedir ou levar a Defensoria Pública ao se contrapuser questionando a decisão de apenas 01(uma) esterilização em SP. Há muitas outras castrações que estão em ação, ou ações judiciais, para sutis neo-higienizações sociais.

Nos primeiros lugares destes “anormais” a serem castrados também se encontram outros marginalizados, tratados como minorias, mas que reforçam os modelos biomédicos que promovem a ingerência médica, judicial e policial na vida sexual ou privada de todos (as) cidadãos (ãs).

Não podemos deixar que as raízes desta velha árvore eugênica, que se alimenta de ódios raciais, temores sexuais ou de gênero, discriminações étnicas, raciais ou linguísticas, diferenças corporais ou intelectuais ou quaisquer das manifestações da diversidade humanas se torne o que a Eugenia sonhou: a verdadeira “ciência” que erradicará a fealdade, a anormalidade, a monstruosidade e a doença...

Caso contrário os fundamentos da própria Bioética, uma sonhada ponte para o futuro, tornar-se-á apenas mais uma condenação a repetirmos nossos piores erros históricos.

Deleuze e Guattari nos ensinaram que o Nazismo, assim como outras formas de fascismo, só se viabilizaram através dos desejos de massas, tornadas famélicas pelos horrores de guerras ou terrores econômicos. O Nacional Socialismo não nasceu  apenas na Alemanha.
Teve e pode ter neocristalizações que nascem dos modos moleculares de microorganizações, como a Juventude Nazista. Hoje podem se reanimar em espancamentos de homossexuais na Avenida Paulista?

 São os grupelhos ou os tribunais menores, os que amparam, legitimaram e, ainda podem exercitar a formas tirânicas de extermínio ou esterilização. Foram e serão esses tipos de rizomas ou de segmentaridade arborificada deram e darão aos fascismos “um meio incomparável, insubstituível, de penetrar em todas as células da sociedade”.

Já tivemos, historicamente, médicos brasileiros, como Renato Kehl, nascido em Limeira, SP, que desejavam que pudéssemos ter um Brasil só para pessoas “sãs física e moralmente”.

A cidade, Amparo, onde se julgou a esterilização de uma mulher com deficiência intelectual não fica apenas próxima geograficamente daqui. Lá também pode ficar, anacronicamente, bem perto desta cidade onde nasceu nosso Engelhardt do início século XX que propôs a “a cura da fealdade”.

Há ainda muitos herdeiros do movimento da Liga Brasileira de Higiene Mental ou da Educação Eugênica em nosso país. Com o apoio e aplauso dos poderes constituídos e nossos Governantes podem reinstitucionalizar grandes manicômios, internar compulsoriamente, abrigar ou segregar as populações marginalizadas. E, com o aval jurídico, castrar e esterilizar esses indesejáveis e infames.

 Estaremos aplicando os ‘’remédios sociais’’ para a eugenização do Brasil, segundo Kehl, no livro Sexo e Civilização (1933), com, por exemplo: - “a Segregação dos deficientes, dos criminosos e dos socialmente inadaptados; - a Esterilização dos anormais e dos criminosos com grandes taras transmissíveis por herança; a Procriação consciente e prevenção dos nascimentos por processos artificiais para evitar a concepção, nos casos especiais de degeneração, doença e miséria...”.
 Pedimos, então, aos nossos magistrados que nos ajudem com um novo HABEAS CORPUS. E que esses corpos possam ser respeitados e reconhecidos em sua Diferença ou Deficiências ou Incapacidades.

Talvez, quem sabe, ainda possamos lutar e superar uma Onda que pode vir a ser nosso pior tsunami higienista e eugenista: TODA DIFERENÇA PODE E DEVE SER CASTRADA.

Copyright/left – jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou quaisquer meios de comunicação de massa - TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

*Tradução livre – ÁRVORE EUGÊNICA“ A Eugenia é o próprio sentido da evolução humana” - “ Como a árvore, a Eugenia extrai sua matéria-prima de diversas fontes e as organiza em uma harmoniosa entidade”

Matéria publicada no INFONOTÍCIAS DEFNET-

DEFICIÊNCIA INTELECTUAL - Justiça de São Paulo quer uma ESTERILIZAÇÃO - Justiça de SP decide esterilizar deficiente mental (Defensoria Pública tenta reverter medida)
LEITURA CRÍTICA A SER CITADA E RECOMENDADA 
FUNDAMENTOS DA BIOÉTICA – H . TRISTAN ENGELHARDT – Edições Loyola, São Paulo, SP- julho de 2011 (4ª Edição)

RAÇA PURA (Uma História da Eugenia no Brasil e no mundo) – PIETRA DIWAN – Editora Contexto, São Paulo, SP, 2007.

Fontes pesquisadas e a pesquisar


LEIA, DIFUNDA E CONFIRME – MANIFESTO DE REPÚDIO DOS CENTROS DE VIDA INDEPENDENTE DO BRASIL

LEIA TAMBÉM E COMENTE–

A PARÁBOLA DA ROSA AZUL -
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