Imagem publicada – A
reprodução da “Eugenics Tree”, um desenho de uma árvore frondosa com as frases
“eugenics is the self direction of human evolution” e “like a tree – eugenics
draws its materials from many sources and organizes them into na harmonius
entity”. É o símbolo máximo que o Segundo Congresso Internacional de Eugenia,
em 1921(Nova York), propunha, como a real e “nova” evolução humana. E as suas
raízes representadas foram e são alimentadas por algumas ciências, onde a
Medicina, a Psiquiatria, a Cirurgia e a Genética têm um papel preponderante. (*ler tradução do texto em
inglês ao fim deste texto)
“... O que devemos pensar, em termos seculares gerais da
condição dos bebês, dos deficientes mentais e daqueles que sofrem do Mal de
Alzheimer? Essas entidades não são pessoas em qualquer sentido estrito...”.
O que você(s) acha(m)
que esta afirmação tem de conteúdo bioético? Esta afirmação se encontra no
livro de um renomado bioeticista texano: H. Tristan Engelhardt. E seu
pensamento bioético(?) constituiu uma excelente oportunidade para reflexão
sobre as “não-pessoas”, que se tornam objeto de negação de seus direitos.
Para Engelhardt: “... muita gente se preocupa em
atribuir-lhes diversos direitos dos quais desfrutam pessoas adultas” (pág.
185). Como não se constituem no sentido estrito do termo pessoas, são incapazes
morais, portanto podem ser moralmente excluídas dos seus direitos humanos.
O mesmo autor poderia
ser utilizado para entender a visão secularizada de recente notícia sobre a
esterilização de uma mulher com deficiência. Ela é, foi ou será algum dia uma
Pessoa?
Para este polêmico
autor as pessoas com deficiência intelectual, por sua condição de “severa e
profundamente retardados”, e pelas exigências que impõem às outras que são
consideradas pessoas “normais” e “morais”, podem ser, como exceção destituídas
de seus direitos.
Há quem concorde com
estas visões que transformam o Outro e suas Diferenças em apenas um “estranho
moral”? Uma exceção à normalidade.
Estamos realmente em
2011? O Século XXI e suas promessas de evolução humana estão sendo realmente
realizadas?
Recentemente, mais uma
vez, tive o desprazer de noticiar uma aplicação “legal” de uma possível
esterilização/castração de uma mulher com deficiência intelectual, em uma
cidade bem próxima daqui.
Mais uma vez precisei
reconhecer o quanto a Justiça continua sendo exercida, por alguns, dentro dos
princípios e padrões anacrônicos e distorcidos sobre as pessoas com deficiência
e seus Direitos Humanos.
Para entender estas
decisões que geram nossas indignações ou manifestos é que fui buscar novamente outra
história: a da Eugenia.
Muitos, a princípio, a
associam apenas aos Nazistas e seus métodos de eliminação primária de pessoas
com deficiência, depois judeus, ciganos e homossexuais no Século XX (1938 –
1944). Porém suas inspirações são mais americanas do que a historiografia nos
transmitiu.
Em 1875 no Kansas,
Texas, EUA, foi instituída uma política de eugenia com a castração de homens. O
que fundamentava essas práticas do século XIX ainda parece ser o mesmo
princípio que é alegado por quem defende esta busca de “purificação da raça
humana pela esterilização”. Mesmo que sejam alegadas, judicialmente, a proteção
do sujeito ou da Sociedade.
Provavelmente o que
levou à autorização de esterilizar uma mulher do Século XXI ainda é a mesma
ideologia racista e eugênica que se iniciou com Francis Galton (1822-1911).
Este um dos muitos
precursores da Eugenia foi e é muito citado por seu parentesco com Darwin. Mas
o que importa é como se constituíram e perpetuaram, historicamente, seus
seguidores e admiradores em todo mundo e, em especial, no
Brasil.
Ele firmou suas raízes eugênicas
primeiras na Inglaterra com uma histórica conferência no Instituto
Antropológico de Londres. Isto em 1901. Portanto, alguns anos antes da apropriação
nazifascista desta proposta de uma raça “pura”, perfeição corporal e
superioridade hereditária.
Galton, como um dos
principais ideólogos do movimento eugênico, enraíza, depois, com sua
arborescente eugenia no solo fértil dos Estados Unidos. Um país democrático mas
que tem a necessidade de biopolíticas em sua busca de eliminar os “parasitas”
desta sociedade emergente.
Eram os tempos dos
resquícios do Faroeste, da Escravidão e do Genocídio das nações Indígenas...
Era preciso eliminar,
assim como controlar, os desviantes sociais. Herdeiros da concepção biopolítica
do Século XVIII/XIX.
A proposta de castrar
doentes mentais, alcóolatras e pessoas com deficiência encontrou em discursos
médicos o modo aliado, eficaz e prático de exterminar estas “diferenças”
prejudiciais ao progresso e à ordem. Também aí nasceram os grandes hospícios,
manicômios e colônias penais.
Em outros lugares também
se exercitou, nessa passagem dos séculos, a busca higienista de uma sociedade
sem defeitos ou defeituosos.
E, tristemente, uma das deficiências tornou-se
um dos campos das experiências, discursos e práticas biomédicas de “purificação”
genética: as chamadas idiotias, cretinices e outros retardamentos ditos
mentais. Vidas nuas facilmente matáveis.
Os tempos passaram. A
Terra já nos apresentou suas próprias convulsões ou retardamentos catastróficos
como planeta. E, em seus abalos e tsunamis tenta nos ensinar com aprender com a
experiência e o passado.
O que ainda persiste e
resiste é essa triste e nefasta visão moralista e moralizante dos sujeitos com
alguma diferença ou diversidade intelectual. A visão de Galton ou de
Engelhardt, datadas ou contextualizadas superam a passagem do tempo.
Há os que creem em seus
modos de produção do conhecimento, quase religiosos, de afirmação de supostas
verdades “científicas”. O mundo das leis e os legisladores tornam-se seus prediletos
seguidores e portadores.
Então como mostrar a
quem foi togado pela mesma Sociedade que o togou como evoluir? Principalmente
quando esta mesma sociedade, dos BBB e da Idade Mídia, permanece retrógrada e
hiper resistente à quebra de seus velhos e arcaicos paradigmas?
O que temos de
continuar buscando são meios ativos de quebrar e fragmentar as micro/macrofascistações
em nós. Modos, discursos e práticas fascistas que também se expressam e
expressarão através do racismo, da exclusão/segregação escolar, da homofobia,
da violência contra quaisquer mulheres ou homens em suas condições e diferenças
fora das normas e das morais.
Não bastará que possamos
impedir ou levar a Defensoria Pública ao se contrapuser questionando a decisão
de apenas 01(uma) esterilização em SP. Há muitas outras castrações que estão em
ação, ou ações judiciais, para sutis neo-higienizações sociais.
Nos primeiros lugares
destes “anormais” a serem castrados também se encontram outros marginalizados,
tratados como minorias, mas que reforçam os modelos biomédicos que promovem a
ingerência médica, judicial e policial na vida sexual ou privada de todos (as)
cidadãos (ãs).
Não podemos deixar que
as raízes desta velha árvore eugênica, que se alimenta de ódios raciais,
temores sexuais ou de gênero, discriminações étnicas, raciais ou linguísticas,
diferenças corporais ou intelectuais ou quaisquer das manifestações da diversidade
humanas se torne o que a Eugenia sonhou: a verdadeira “ciência” que erradicará
a fealdade, a anormalidade, a monstruosidade e a doença...
Caso contrário os
fundamentos da própria Bioética, uma sonhada ponte para o futuro, tornar-se-á
apenas mais uma condenação a repetirmos nossos piores erros históricos.
Deleuze e Guattari nos
ensinaram que o Nazismo, assim como outras formas de fascismo, só se
viabilizaram através dos desejos de massas, tornadas famélicas pelos horrores
de guerras ou terrores econômicos. O Nacional Socialismo não nasceu apenas na Alemanha.
Teve e pode ter
neocristalizações que nascem dos modos moleculares de microorganizações, como a
Juventude Nazista. Hoje podem se reanimar em espancamentos de homossexuais na
Avenida Paulista?
São os grupelhos ou os tribunais menores, os
que amparam, legitimaram e, ainda podem exercitar a formas tirânicas de extermínio
ou esterilização. Foram e serão esses tipos de rizomas ou de segmentaridade
arborificada deram e darão aos fascismos “um
meio incomparável, insubstituível, de penetrar em todas as células da sociedade”.
Já tivemos,
historicamente, médicos brasileiros, como Renato Kehl, nascido em Limeira, SP,
que desejavam que pudéssemos ter um Brasil só para pessoas “sãs física e
moralmente”.
A cidade, Amparo, onde
se julgou a esterilização de uma mulher com deficiência intelectual não fica
apenas próxima geograficamente daqui. Lá também pode ficar, anacronicamente,
bem perto desta cidade onde nasceu nosso Engelhardt do início século XX que
propôs a “a cura da fealdade”.
Há ainda muitos
herdeiros do movimento da Liga Brasileira de Higiene Mental ou da Educação
Eugênica em nosso país. Com o apoio e aplauso dos poderes constituídos e nossos
Governantes podem reinstitucionalizar grandes manicômios, internar compulsoriamente,
abrigar ou segregar as populações marginalizadas. E, com o aval jurídico,
castrar e esterilizar esses indesejáveis e infames.
Estaremos aplicando os ‘’remédios sociais’’ para
a eugenização do Brasil, segundo Kehl, no livro Sexo e Civilização (1933), com, por exemplo: - “a Segregação dos deficientes, dos criminosos
e dos socialmente inadaptados; - a Esterilização dos anormais e dos criminosos
com grandes taras transmissíveis por herança; a Procriação consciente e
prevenção dos nascimentos por processos artificiais para evitar a concepção,
nos casos especiais de degeneração, doença e miséria...”.
Pedimos, então, aos nossos magistrados que nos
ajudem com um novo HABEAS CORPUS. E que esses corpos possam ser respeitados e
reconhecidos em sua Diferença ou Deficiências ou Incapacidades.
Talvez, quem sabe,
ainda possamos lutar e superar uma Onda que pode vir a ser nosso pior tsunami
higienista e eugenista: TODA DIFERENÇA PODE E DEVE SER CASTRADA.
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– jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações
livres pela Internet ou quaisquer meios de comunicação de massa - TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)
*Tradução livre – ÁRVORE EUGÊNICA – “ A Eugenia é o próprio sentido
da evolução humana” - “ Como a árvore, a Eugenia extrai sua matéria-prima de
diversas fontes e as organiza em uma harmoniosa entidade”
Matéria publicada no
INFONOTÍCIAS DEFNET-
DEFICIÊNCIA INTELECTUAL - Justiça de
São Paulo quer uma ESTERILIZAÇÃO - Justiça de SP decide esterilizar deficiente
mental (Defensoria Pública tenta reverter medida)
LEITURA CRÍTICA A SER CITADA E
RECOMENDADA
-
FUNDAMENTOS DA BIOÉTICA – H . TRISTAN ENGELHARDT – Edições
Loyola, São Paulo, SP- julho de 2011 (4ª Edição)
RAÇA PURA (Uma História da Eugenia no
Brasil e no mundo) –
PIETRA DIWAN – Editora Contexto, São Paulo, SP, 2007.
Fontes pesquisadas e a pesquisar –
Francis Galton - https://pt.wikipedia.org/wiki/Francis_Galton
LEIA,
DIFUNDA E CONFIRME – MANIFESTO DE REPÚDIO
DOS CENTROS DE VIDA INDEPENDENTE DO BRASIL
LEIA TAMBÉM E COMENTE–
A PARÁBOLA DA ROSA AZUL -
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A PAGAR-SE UMA PESSOA COM SÍNDROME DE
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ROBÔS, POLÍTICA E DEFICIÊNCIA.
Jorge, excelente suas observações e pesquisa sobre um assunto tão secular e ao mesmo tempo tão atual...me assusta pensar que temos pessoas graduadas, magistradas,detentoras do poder e das decisões que pensam desta forma sobre a diversidade humana, além de invisíveis teremos que ser esterilizados,exterminados da Sociedade? E ME ASSUSTA também observar que muitos não estão dando atenção a este fato, como tantas mazelas que acontecem diariamente em nossa Sociedade doente, hoje é uma mulher anomima com deficiencia , no interior de SPaulo...amanhã pode ser no país !!!!! Obrigada pelos seus esclarecimentos ! ANAPATRÍCIA/STOS/SP
ResponderExcluirCara Patty
ResponderExcluirObrigado pela leitura e pelas considerações que, a meu ver, também deveriam assustar outras consciências críticas. A Eugenia perdura assim como a Tortura em nosso país. O que as mantêm em seu manto de invisibilidade social? Talvez tenhamos muito poucos ativistas de Direitos Humanos e da Bioética para dar conta da dimensão destas questões e violações ainda perpetradas. Porém devemos manter nossas chamas de esperança e de luta por um Outro mundo possível. O amanhã depende também de nunca deixarmos no esquecimento os nossos "antes de ontem"... um doceabraço
Eu sugiro um outro titulo; Quando os homens brincam de serem deuses.
ResponderExcluirFantastic!
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ResponderExcluirPersonalmente opino que, si todos los propietarios de sitios web y blogueros escribieran un buen contenido como éste, internet sería mucho más útil.
Excepcionalmente bien escrito!
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É, a questão é assustadora!!!...
ResponderExcluirParei no assunto(castrar e esterilizar pessoas com deficiência.)Estamos falando de seres humanos com direito de gerar filhos.No meu pondo de vista é um crime covarde e chocante! Obrigada Dr. seus textos suas informações tem me ajudado muito,eu nunca li ou ouvi falar sobre esse assunto. Certamente tem levado muitas pessoas a refletir,assuntos assim devem ser exposto sempre.
ResponderExcluir(Castrar e esterilizar pessoas com deficiência.)Estamos falando de seres humanos com direito de ter filhos.No meu ponto de vista é um crime covarde e chocante! Obrigada Dr.Seus textos suas informações tem me ajudado muito,eu nunca li ou ouvi falar sobre esse assunto. Certamente tem levado muitas pessoas a refletir,assuntos assim devem ser exposto sempre.
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