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domingo, 8 de março de 2015

OS DES(z)-MANDAMENTOS DO CORPO FEMININO

Imagem publicada–uma foto,que fiz recentemente, da exposição comemorativa em homenagem à "Mafalda", personagem criada pelo cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado Tejón, o Quino, pelos 50 anos dessa doce, mordaz e crítica invenção em quadrinhos. Nela vemos a Declaração dos Direitos das Crianças, do UNICEF, comentada por Mafalda e seus amigos, onde se lê, à direita, no décimo artigo: “A criança deve ser protegida contra influências que possam induzi-la a qualquer forma de discriminação racial, religiosa ou de outro gênero. Ela deve ser educada num espírito de compreensão, tolerância, amizade para com todos os povos, paz e fraternidade universal, e na consciência de que deverá colocar a sua energia e talento a serviço do próximo”. À sua esquerda estão Mafalda e um globo terrestre, onde a menina, apontando seu dedo de forma firme e decidida, diz: “E VAMOS TRATAR DE RESPEITAR ESSES DIREITOS, TÁ? VAMOS VER SE ELES NÃO FAZEM COM ELES O QUE FIZERAM COM OS DEZ MANDAMENTOS”. Uma referência de como o humor, do mais suave ao mais irônico, poderá nos ajudar a compreender como responder, principalmente às nossas meninas, o porquê continuamos tratando-as como o “segundo sexo”, ou melhor, o corpo negado e explorado, desde a infância ultrajada, sem que nenhum novo “des-mandamento” tenha realmente sido efetivado e vivenciado por elas.

“Sendo a própria substância das atividades poéticas do homem, compreende-se que a mulher se apresente como uma inspiradora: as Musas são mulheres... É através da mulher, cujo espírito se acha profundamente ligado à Natureza, que o homem sondará os abismos do silêncio e da noite fecunda. A Musa não cria nada por si mesma; é uma Sibila ajuizada que docilmente se faz serva de um senhor...” (ou melhor, se finge de servidão e submissão, quando se tornar realmente uma mulher livre) – Simone de Beauvoir (1949).

 A ELAS, para as quais devo proclamar novos des-mandamentos, questionando essa universalidade apenas por escrito, é que pergunto: Como lhes provocar, nova e insistentemente, o espanto e a revolta? Como lhes estimular a que não se tornem veículos, físicos ou até tecnológicos, da moda, hoje midiática, da discriminação ou do ódio? Como reinventar seus passos em direção à verdade sobre o amor e sobre o sexo? Como, enfim, ao falar ou escrever, tarefa quase impossível, e não interpretar o desejo feminino, mas sim torná-lo mais uma das forças desejantes de uma possível revolução molecular?

Para que os e as que me acompanham os meus pensamentos e divagações envio um texto-quase-bomba-afectiva, envio, quiçá, o que me demandam estes tempos tão pastorais e de novas repressões ou fanatismos. Envio um pouco de desmando, desmanche e desatino. Uma proposta de inverter e subverter todas as imposições que ainda recaem sobre um corpo-diferença que se tem tornado mais um corpo serializado na produção de Vidas Nuas.

A vocês, e aos que se sentem no feminino ao se deixarem tocar, envio estes DES-MANDAMENTOS, sem nenhum caráter oficial, macropolítico ou de cunho religioso. Pelo contrário peço que os leiam do fim para o começo, do meio para o depois, do hoje que já é amanhã para todas as mulheres daqui e do resto do mundo espetacularizado e sob controle.

Imaginem, como uma pré-visão, o Comando Central dos Exércitos dos Guardiões das Crenças e das Ilusões Masculinas promulgando uma série de des-mandos dirigidos às perigosas e, possivelmente, ameaçadoras (com certeza) mulheres que podem sabotar todas as imposições e todos os projetos de controle e de submissão de seus corpos femininos.

Eis alguns deles, como pura invencionice ou loucura:

1º - TODA MULHER não nasceu, não nasce e nem nascerá LIVRE!
Parágrafo único – Por isso e mais aquilo, por serem, por decreto das biopolíticas e psicobiologias, consideradas o oposto e a falha binária, é que urge afirmar todas, incontestavelmente, LIBERDADES... Caminhando nas estradas abertas contra todas as ‘MARCHAS RÉS’, principalmente aquelas que usam sempre o discurso instituído da defesa da família, seus falsos Estatutos, ou aquelas que reificam e glorificam Impérios, Estados ou divindades neo-capitalistas.

2º TODA MULHER não teve, não pode ter e não terá um verdadeiro “corpus” político!
Parágrafo único – portanto caberá a todos os votantes-que-não-votam, mas pensam que sim, o dever de lhes assegurar, não só no cenário e palco oficial, as suas múltiplas formas de exercício da Política, com participação inebriante no que chamamos de VIDA /POLÍTICA...

3º TODA MULHER, principalmente o que chamamos de “mulherzinhas perigosas e desviantes”, pode e deve, como no passado e nas Histórias, ser considerada uma VIDA NUA!
Parágrafo único – ao serem assim catalogadas e destituídas de suas humanidades, vistas apenas como seres biológicos, sob uma visão criacionista ou fascista, precisam ser/ter os seus ÚTEROS E SEUS CORPOS sob proteção inestimável, já que são e serão os maiores “focos” e “fogos” de re-existência possível, portanto, não se poderá prendê-los, negociá-los, trafica-los, comercialmente ou como cobaias, nos novos e sutis “campos de concentração das novas subjetividades assujeitadas”, inclusive pelas MEDICINAS BIOTECNOCRÁTICAS. Não poderão, a partir desta data, inclusive para o olhar psi, VIR A SEREM consideradas seres mal-castrados ou de castração possível.

4º TODA MULHER E TODAS AS MULHERES, inclusive aquelas que frequentam a Escola de Safo, NAS NOVAS ILHAS DE EDUCAÇÃO SÓ PARA CORPOS FEMININOS, será monitorada e VIGIADA, individual e coletivamente, COM O USO IRRESTRITO das câmeras e dos monitores, de seus desvios  ou DI-VERSÕES SEXUAIS!
Parágrafo único – como tal, dentro da nova FALSA FILOSOFIA que se baseia nos TONS, todas as MULHERES SEMPRE MENINAS devem E DEVIR SÃO, desde os seus berços, serem educadas e ensinadas sobre sonhos libertadores, ou melhor, sobre as infinitas possibilidades dos seus corpos, desde suas vaginas até as suas mentes divertidas, para além das funções e funcionalidades permitidas aos seus úteros visíveis. Devem ser alertadas, previamente, de que o CINZA SOLITÁRIO, SEM OUTRAS CORES OU SABORES, TENDE SEMPRE PARA A MORNO-TONIA VITAL, mesmo quando lhe aplicamos o molho SAZON-MASOQUISTA. Lembrar que nestas portas que se querem sempre escancaradas aos poderes masculinos, jamais foi possível impor, inclusive pelo medo ou temor, a suposta castidade, os cinturões e os vetos ao gozo e ao prazer.

5º TODA MULHER E MULHERES NÃO TERÃO acesso igualitário, assim como sua permanência e sucesso, aos espaços (inclusive os inacessíveis), sejam públicos ou privados, aos cargos, funções, status, e, principalmente, ao que já se naturalizou como O PODER MASCULINO!
Parágrafo único – tais, como gênero, assim catalogadas, dito feminino, podem e poderão ULTRAPASSAR os muros e barreiras, visíveis e invisíveis, INCLUSIVE AS MURALHAS DA CHINA, quando lhes propiciarmos , não a equiparação,  mas também os seus direitos aos sonhos e suas inerentes poesias corporais, aquelas que desmontam quaisquer das forças que lhes oprimem. Todas terão direito ao LETRAMENTO, das letras, das ideias, das críticas, das artes, das ÉTICAS e das mulheridades impossíveis.

6º- TODAS AS MULHERES OU MULHER, sejam singulares ou se pretendam plurais, são e serão INTERDITADAS, baseando-se em suas condições humanas de “menores” e por suas "IN-CAPACIDADES” inatas, e, cientifica e religiosamente, reconhecidas ”mundialmente”, assim como por alguns LEGISLADORES e EVANGELIZADORES DA CONSERVAÇÃO, COMO TARAS E DEFEITOS HEREDITÁRIOS. Passados de mães para filhas desde os tempos de EVA E LILITH.
Parágrafo único – ÁS MENINAS, tão fisicamente diferentes dos meninos e outras orientações, principalmente às que nasceram ou nascerão nos chamados locais de minorias ou marginalidades, deve e deverá ser garantido o exercício libertário dos desafios aos limites e limitações, sejam estas VISÍVEIS (impostas) ou IMAGINÁRIAS (resultantes da colonização de seus corpos e inconscientes). E se tornem DES-OBEDIENTES, ALGUMAS DES-VAIRADAS, OUTRAS DES-LUMBRANTES E A MAIORIA DES-MONTADORAS DEMOLIDORAS DE MITOS, PRECONCEITOS E ESTIGMAS.

7º- TODA MULHER, NASCIDA e assim determinada pela LEI, será acompanhada, como uma mercadoria valiosa ao Estado, desde seu berço, família, crenças ou ideologias, a fim de impedir DESVIOS MORAIS OU FUGAS PARA FORA DOS TEMPLOS E TEMPOS OFICIAIS!
Parágrafo único – às SUBMETIDAS, a estas judicializações e vigilâncias, será garantido, além da defesa, o prazer de transgredir e de violar quaisquer das PRÉ-DETERMINAÇÕES sobre o VIVER e a sua EXPANSÃO CARTOGRÁFICA e RIZOMÁTICA, com rompimento de todos os parâmetros, latitudes ou longitudes dos mapas pré-fabricados pela Sociedade do Espetáculo e do Controle.

8º- TODA MULHER deve e deverá obedecer a DISCIPLINARIZAÇÃO de seus corpos e de suas mentes/imaginários!
Parágrafo único – como há falhas nessa afirmação de suas condições de falta e não-falos, a elas será estimulado o alegre descobrir de suas MULTIPLICIDADES e SINGULARIDADES, incentivando as suas desmontagens dos papéis  e da identidades do Mesmo e das falsas igualdades.

9º-TODAS AS MULHERES NÃO terão re-conhecidas as suas potencialidades, para além dos já delimitados espaços domésticos e domesticados, sob o risco e riso da desconstrução do RESPEITO À HONRA dos homens pré-fabricados como “MACHOS”!
Parágrafo único – sabedores da permanência dessa fabricação, agora por meios mais eficientes e sutis, em especial pela midiatização do Viver, às mulheres será permitido ousar quebrar os tabus e as tábuas bíblicas, assim como algumas das cadeiras de ferro a elas destinadas pela HISTÓRIA OFICIAL e sua HISTORIOGRAFIA.

10º- TODA MULHER, ASSIM CONSIDERADA, deve não deixar de SER MULHER, PADRONIZADA E OFICIALIZADA, segundo os Princípios de todas as burcas e todas as algemas ideológicas das SOCIEDADES DO CONTROLE E  DA ORDEM, e, lógico, do PROGRESSO!
Parágrafo único e a ser demolido – como TODAS AS MULHERES trazem em si muitas outras, e algumas são e serão sempre OCULTAS E SECRETAS, a elas deve ser facultado o aprendizado das DIFERENÇAS e das PLURALIDADES, tornando obsoletos e descartáveis, não seus corpos, agora não mais VIDAS NUAS, todas as formas de IMPOSIÇÃO DA NUDEZ autorizada pelo Capital e pela Capital. TODAS AS FORMAS DE DES-MANDAMENTOS, aqui inventados ou sonhados, SERÃO QUEIMADOS EM PRAÇA PÚBLICA, assim como na Santa Inquisição, nos fascismos e nos diversos fundamentalismos APERFEIÇOADOS. E NÃO SERÃO MAIS REPRODUZIDOS, POR QUAISQUER MEIOS OU MÍDIAS, EM ESPECIAL PELAS REDES ONDE IMPERAM OS BOATOS, A INFÃMIA, A CALÚNIA E A DISTORÇÃO. E, como finalidade, RETIRAR O ESTIGMA DE FEITIÇARIA E BRUXARIA DOS CORPOS FEMININOS, que ELAS possam inverter sua posição, todas as posições, e continuar nos dando nossas impotentes ilusões de PODER...

Os e as que aqui se manifestarem poderão encontrar, de minha parte, como corpo autorizado pelo modelo/gênero masculino em nós naturalizado, uma “brutal e inconsciente” REVOLTA E REPRESSÃO afinal ter de se reinventar e desconstruir é quase uma tarefa, humana, IM-POSSÍVEL. E as POLÍCIAS DO PENSAMENTO, MESMO DISFARÇADAS DE LIVRE COMUNICAÇÃO, continuam e continuarão a nos castigar. E as multidões, como fogueiras, poderão vir, elas são ditas ou ditadas no feminino...

E, eu, um simples proclamador desses des-mandamentos também quero descobrir os outros CINQUENTA que  SE TORNAM DES-TOANTES das NORMAS E DAS NORMALIZAÇÕES sobre o viver... Se possível ainda CONTAMINADO E CONTAGIADO pelo MISTÉRIO e pelo INSONDÁVEL QUE É SER E ESTAR MULHER.

Copyright/left – jorgemarciopereiradeandrade 2015-2016 (favor citar o autor, no masculino, em todas as republicações livres pela Internet e outras formas de midiatização, inclusive as hipócritas, para as massas que não serão multidões. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Para LEITURAS CRÍTICAS –
Sobre a história dos feminismos – O SEGUNDO SEXO- Vol. 1 FATOS E MITOS e Vol. 2 A EXPERIÊNCIA VIVIDA – Simone de Beauvoir, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ, 1980.

Sobre nossas tonalidades e des-coloridos afectivos e sexuais – SACHER&MASOCH – O frio e o cruel, Gilles Deleuze, Zahar Editores, Rio de Janeiro, RJ – 2009.

Sobre novas cartografias e suavidades do Feminino – CARTOGRAFIA SENTIMENTAL – Transformações contemporâneas do desejo, Suely Rolnik, Ed. Estação Liberdade, São Paulo, SP, 1989.

SOBRE O PERSONAGEM DE QUADRINHOS – MAFALDA - Conheça 'O Mundo Segundo Mafalda' em exposição gratuita e interativa (até 15 de março) em SP - https://catracalivre.com.br/sp/agenda/gratis/conheca-o-mundo-segundo-mafalda-em-exposicao-gratuita-e-interativa/

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –

MULHERES, SANGUE E VIDA, PARA ALÉM DE SUA EXCLUSÃO HISTÓRICA https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/03/mulheres-sangue-e-vida-para-alem-de-sua.html
MULHERES, DIREITOS HUMANOS HOJE E SUA EXCLUSÃO, EM TEMPOS PASTORAIS... https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/03/mulheres-direitos-humanos-hoje-e-sua.html
MULHERES PODEM SE TORNAR UM DEVIR, NÃO SÃO E NÃO SERÃO UM DEVER https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/03/mulheres-podem-se-tornar-devir-nao-sao.html
O MARTELO NAS BRUXAS – COMO “QUEIMAR”, HOJE, AS DIFERENÇAS FEMININAS? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/11/o-martelo-nas-bruxas-como-queimar-hoje.html


sábado, 14 de julho de 2012

ROBÔS, POLÍTICA E DEFICIÊNCIA.

Imagem publicada – uma foto em preto e branco sobre um filme, dos anos 30, sobre a presença e criação de robôs pela ciência. Um cientista se vê cercado pelas criaturas que aparentemente ameaçam ou ameaçarão o seu próprio criador. É a metáfora de Frankenstein que se repetiu em muitos filmes, e hoje é parte de um questionamento bioético sobre os limites de nossas intervenções biotecnológicas e médicas no corpo e na vida dos seres humanos. O que estamos inventando para o nosso futuro: desde robôs nano tecnológicos que tratarão nossos adoecimentos ou adoecidos seres humanos que se tornarão também robôs?

Quando acordei a semana passada de uma anestesia geral, novamente, pensei em quem estava ao meu lado na sala de recuperação. Eram muitos, pois minha pressão arterial caiu, e os meus temores aumentaram o número de leitos ocupados. Somos impelidos a ver múltiplos ou duplos de nós mesmos nas horas de turvamento da consciência Então, semi lúcido, pensei naqueles que nos assistiam e monitorizavam, eram para mim parecidos com robôs...

Por que então o tema dos robôs me foi lembrado? Primeiramente por que eu próprio já me sentira um quando acordei da neurocirurgia no ano de 2009. Não sei se os meus leitores já sabem do que sofri no pós-operatório e da colocação em meu corpo de parafusos e hastes de titânio. Muitos ainda nem sabem das sequelas que adquiri.

Pela dor acrescentada pelo descuido tive uma queda acidental ao ser deixado cair de uma cama para uma maca. Estavam me levando para uma tomografia. E foi um forte homem negro, um “segurança” do hospital que colocou dentro da máquina. Começavam aí minhas ideias sobre a robotização do corpo e da humanidade. Começou minha vivência e experiência de meu duplo com deficiência...

No local onde permaneci dentro de um hospital universitário havia o que já presenciara muitas vezes de outro ponto de vista, também na Saúde Mental: a desumanização do cuidado como Outro. Era o que chamamos de serialização de atitudes e comportamentos. Os profissionais de saúde, assim como outros que lidam com grandes massas ou públicos, podem se tornar autômatos.

Tornam-se ou nos tornamos verdadeiros seres robotizados por um trabalho exaustivo e alienante. Os riscos que deveriam ser um estímulo criativo tornam-se uma ameaça, é o que ouvi de profissionais durante a noite hospitalizada e fria. No quarto ao lado estavam sujeitos amarrados em seus leitos, eram assaltantes perigosos, justificavam os três policiais de colete que passearam noite adentram na porta do meu quarto quase infectado.

Desta lembrança indelével, qual a memória de quem sofre uma tortura, é que restou uma vontade de refletir sobre o que é realmente um robot?

A palavra ROBOT vem do tcheco, que significa trabalho repetitivo, depressa destronou denominações mais antigas como autómatos ou androides, generalizando-se como designação corrente para as “máquinas” capazes de realizar, com algum grau de autonomia, vários tipos de operações.

Na etimologia tcheca oriunda de tempos medievais o termo “robota” significava o trabalho gratuito que um servo devia ao senhor. Ou melhor, era uma das formas de trabalho escravo. A ideia atravessou os anos e ainda temos esse trabalho indigno nas nossas melhores grifes ou roupas, lá os tempos modernos de Chaplin são fielmente reproduzidos. O modelo fordista e serializado obriga aos “neo-robôs” bolivianos, por exemplo, a uma servidão contínua. 

A primeira ideia sobre o termo me foi apresentada pela psicanálise. Em um trabalho de Sigmund Freud em seu trabalho sobre o “estranho, o sinistro, o desconhecido” (Das unheimliche -1919). Este texto é inspirado em outro autor: E. T. Hoffmann, um escritor, músico e desenhista alemão. Foi em seu conto o “Homem de Areia” que inspirou Freud para mais uma teorização a partir da literatura.

Não é a revelação freudiana de que o que nos assusta no desconhecido é também a nossa atração ou desejo de vivenciá-lo, mas como tentamos negar essa relação. É o aspecto de estranheza que algumas formas de “duplos” ou espelhamentos nossos despertam. É o que me faz pensar sobre nossas robotizações em ação, são as máquinas humanoides que me interessam. Vivenciamos muitas angústias diante das máquinas e as recalcamos.

Estamos cada dia mais próximos do que na ficção dizemos temer: um dia o exterminador do futuro estará se liquefazendo, como um homem de areia, na nossa frente. A história que se construiu sobre nossas futuras situações diante das tecnologias e dos robôs é de uma guerra em que perdemos tudo. Inclusive nossa própria capacidade de sermos humanos.

O que já vivencie no corpo e na mente através das minhas próprias fragilizações me mostra o quanto uma deficiência pode ser tratada como uma aproximação de máquinas. O modelo biomédico ainda ativo nas formas de cuidado é a intervenção mais presente, com apenas técnicas ou biotecnologias. Muitas vezes desumanizadas. É o que esperamos de nosso futuro ciborgue? Ou o que esperamos dos ciborgues do futuro?

A revista Info recentemente estampou em sua capa a seguinte chamada: “Superação Ciborgue”, com o subtítulo: “engenheiros e médicos unem-se para criar próteses controladas por chip, sensores e software. Elas substituem pernas, mãos, pés, joelhos e até ouvidos. Entendam como funcionam”.

A capa me suscitou algumas questões. Ela apresenta um homem com os mesmos pés Cheetah. São as pernas de titânio substitutas do atleta parolímpico Alan Fonteneles, parecidas com as próteses de Pistorius. Aquele atleta que quer ser “incluído” nas Olimpíadas dos “normais”, mas se sentou no banco dos réus como eles.

Uma de minhas indagações é quantos são os sujeitos que têm acesso a estas pernas substitutas? Ainda mais o quanto há de aperfeiçoamento destas próteses apenas com a intenção de futuras robotizações checas no hipercapitalismo? Olhamos com temor estes novos ciborgues com deficiência? É o desconhecido futuro que nos espera/assusta?

Sou e serei um entusiasta das novas tecnologias aplicadas como assistivas ou suplementares para pessoas com deficiência. Há, porém esta questão que chamarei de biopolítica da transformação de nossos corpos “hipossuficientes” em corpos plenamente controláveis para a produção serializada de um trabalho alienado.

Há muitos anos venho difundindo e estimulando os avanços que podem ser conquistados com o uso de novas formas de inclusão com uso de tecnologias de reabilitação ou habilitação. Aposto, porém, no futuro da universalização de acesso socializado e não segregado às novas tecnologias.

O que temos de alertar, para além das possibilidades de um homem como Neil Harbinsson, é a quantidade de sujeitos sem nenhum acesso ao que podem estes “aparelhos”, “neo esqueletos”, “próteses eletro-eletrônicas”, enfim, quaisquer das mais avançadas formas de nos tornar mais biônicos. O cinema já naturaliza os “transformers” como a massa do futuro.

Somos hoje uma massa de mais de 600 milhões de pessoas com deficiência. Há uma margem de aproximadamente 20 a 30% destes seres humanos que ainda estão nas chamadas exclusões sociais e pobreza. Calculem quantos anos ou séculos levaremos para sua real inclusão desses não-cidadãos e cidadãs na perspectiva futurista do game Deus Ex: Human revolution, citada na Info?

No Brasil já temos alguns destes avanços, como os implantes cocleares, sendo incluídos no direito universal da saúde e da qualidade de vida. Porém ainda temos também na sua contramão, apesar dos milhões do Viver sem limites, bem como dos investimentos em tecnologias assistivas, uma grande massa de excluídos, micro e macro politicamente, do usufruto destes avanços.

Recentemente visitei um site que demonstra o uso do Kinect, um videogame sem nenhum controle, onde nossos movimentos é que são projetados/controlados, como forma de ajuda tecnológica para pessoas dentro do espectro do Autismo. Mas a pesquisa da Universidade de Minessota se diz servir para “... alertar para que haja uma maior atenção com aquelas (crianças) que mostrarem comportamentos não esperados, como tendência para ser ativo demais ou de menos”.

Nessa área de controlar e identificar as diferenças, sem, contudo, qualificar suas singularidades, é que temo pela promoção de seu uso meramente classificatório e reabilitador. Para além dessa perspectiva devemos buscar a criação de novas cartografias e novos usos micropolíticos dessas “invenções ou descobertas científicas”.

Nessa perspectiva é que entramos em um ano muito importante. Estamos perto de ver paraolímpicos quebrando os mesmos recordes que os ditos olímpicos. Estamos tele ou assistindo e conhecendo o crescimento do número de candidatos com deficiência para cargos representativos em governos municipais ou câmara de vereadores. Aumentaremos a participação política de pessoas com deficiência nos espaços de governo e gestão pública?

Creio e espero que sim. Porém, ainda temos de promover uma ampla conscientização e capacitação sobre os mais elementares direitos e conquistas a que cada cidadão ou cidadã com deficiência têm direito. 

As formas de exercício macro político, apesar do crescimento da presença de pessoas com deficiência em seus espaços de poder, mantêm-se presas à corrupção e ao uso desonesto de recursos públicos. 

Ainda temos muitos representantes robotizados e desumanizados, verdadeiros portadores, estes sim, de muitas “deficiências” ético-políticas. Já naturalizaram a centralização e o abuso do poder. E, sua maioria, atendendo a interesses pessoais, eleitorais ou minoritários, ainda insiste em criar novos artifícios legais antes mesmo de reconhecer o que já foi ratificado e decretado.

Um exemplo é ausência de reais políticas públicas Inter setoriais que estejam garantindo, para além do acesso gratuito a alguns, a verdadeira acessibilidade dos estádios da Copa. E a transparência dos gastos astronômicos desde a demolição às novas arquiteturas que ainda não conhecem o conceito de desenho universal. Eis uma tarefa árdua para os candidatos a participação nesse cenário político...

O que espero, então, de novos e postulantes, como sujeitos com deficiência, à sua participação nos poderes públicos? Espero que possam reforçar a compreensão da indispensável mudança do paradigma biomédico, já que nele considerei um campo fértil para a simples robotização. E que possam, ativamente, propagar e efetivar o que se postula como o modelo social das deficiências.

Ao se manter a visão assistencialista, paternalista, caritativa, excludente e adoecida de sujeitos vivendo e convivendo com deficiências estamos também mantendo um olhar biopolítico de controle e uso de seus corpos. Precisamos buscar o olhar, a visão e a escuta sensível dos Estudos sobre as Deficiências. Precisamos investir na conscientização e apropriação da Convenção e os direitos humanos. Precisamos de políticas públicas que se fundamentem nesses princípios.

Uma plataforma que espero se incluirá nos discursos e nas propostas concretas de quem se investir nos lugares de representação macro política é o exercício micropolítico e revolucionário da re-humanização de espaços de saúde e educação.

O projeto e processo inclusivo, a meu ver, devem alicerçar ações e cuidados, para além do olhar reabilitador, que tornem nossos corpos para além do trans-humano ou robótico. A visão de servidão que está subjacente/significante à nossa protetização hipermoderna, apesar do que se propagandeia oficialmente, é a que equipara não apenas a funcionalidade de um corpo.

É principalmente quando não esperamos, onipotentemente, a sua transformação em um objeto-robô. Primeiramente porque já sabemos, de antemão, que muitos ficaram e ficarão fora do alcance destas conquistas micro, macro ou nano tecnológicas. Como dizia um velho conhecido: quem bancará seu custo? Além disso, podemos apenas atender às pessoas que puderem ter acesso aos recursos ou avanços da sociedade. Ou seja, quem pode pagar.

Um exemplo atual é a notícia de uma companhia de aviação que terá seus banheiros com acessibilidade. Espero que a mesma se recorde das suas inúmeras ações de preconceito com os passageiros considerados prioridade nos aeroportos. Não basta poder fazer xixi sentado com barras de apoio. Precisamos de todos os direitos de acessibilidade, para além das barreiras visíveis, sendo cumpridos e respeitados.

Nem mesmo bastará que a acessibilidade dos aeroportos se torne, por causa dos eventos esportivos futuros, uma realidade parcial. Os espaços de voos ou pouso não são os únicos que garantem a inclusão social e econômica sustentável que irá para mais de 20 anos. 

Estes espaços não podem se tornar os não-lugares. Se como as escolas, se tornarem realmente inclusivos e universais nem teremos então de dialogar com um ponto eletrônico da Anac, do PROCON ou da Infraero no futuro. Ainda existirão, nesse porvir, “trabalhadores” re-humanizados. As formas metálicas ou frias de resposta já terão sido sofisticadas por novos andróides.

Por isso não podemos esquecer que o que alguns homens imaginam outros poderão realizar no futuro. A primeira citação a robôs é de 1920. Faz parte da peça de Karel Kapek: R.U.R (“Rossuns Universal Robots”). Surgida como desencanto após a 1ª Guerra Mundial como um alerta para a humanidade, antevisão de uma guerra com “soldados universais”, metade homem, metade máquina mortífera.

Primeiramente são criadas cópias fiéis de nós humanos. Tornados trabalhadores eficientes, apesar de “deficientes”, tornar-se-ão os futuros robots. Tornam-se, então, capazes de amar o BBB, esquecendo-se de 1984 de Orwell, ou se serializam em um Admirável Mundo Novo, esquecendo que Aldous Huxley bebeu de sua própria literatura, o “soma”, a bebida que surge de cogumelos, para entrar em contato, sem dor ou sofrimento, com seu/nosso lado sinistro: a morte.

Vivemos intensamente os tempos do Hipercapitalismo integrado e excludente, na Idade Mídia. Engolfamo-nos, serializados, em dilemas bioéticos como as clonagens terapêuticas e reprodutivas, as próteses, os implantes, as cirurgias plásticas de total reconstrução e remodelação corporal, com suas diferentes formas de artifícios, lipoaspirações, fertilizações invitro, barrigas de aluguel, cirurgias bariátricas.

Hoje, ontem e amanhã vamos até o limite ético e eugênico das descobertas de meios de “prevenção” de uma Síndrome de Down por exames ultrassofisticados. Tendo a certeza de que todos são e serão muito caros e eticamente questionáveis.

Eu, aqui, sorvendo e sofredor dessas literaturas bioéticas, espero, sonhador de outras utopias, um pouco de humanidade nos autômatos e subjetividades que estamos produzindo, para além de quaisquer de suas deficiências humanas, no campo do exercício dos poderes.

Excelências ou futuras excelências me digam que estou errado. Vocês por nenhum dinheiro do mundo irão esquecer as pontes para o futuro que desejou o criador da Bioética. Como humanos potencializados pelas novas tecnologias nunca irão permitir a edulcoração, o adoçamento, ou a negação de nossos direitos fundamentais.

Não estamos ainda para além das Sírias, dos Sertões, das catástrofes ou massacres. Caminhamos na incerteza, dialogamos permanentemente com a Dona Morte, esquecendo que a atual e moderna felicidade de consumo é apenas dependente dos fatores e poderes políticos.

Quem sabe os próximos tempos nos tragam novas formas de governamentabilidade e sustentabilidade. E, eu, afirmativamente, só votarei em quem souber me dizer com propriedade e crítica o que significam as palavras robô, política e deficiência.


Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2012-2013- 2022 ad infinitum - todos os direitos reservados 2025 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)


Notícias na INTERNET:

R.U.R. https://en.wikipedia.org/wiki/R.U.R.


TAM será a primeira no mundo a ter banheiros com acessibilidade em aeronaves narrow body https://www.revistafator.com.br/ver_noticia.php?not=209856

Revista INFO – Nº 316= Maio de 2012: Superação Ciborgue
https://www.lojaabril.com.br/detalhes/revista-info_superacao-ciborgue_edicao-316_maioe2012-486368
KINECT AJUDA A DIAGNOSTICAR E A TRATAR AUTISMO https://robotica-autismo.com/

Primeiras imagens de robôs de Robocop, que será dirigido por José Padilha, caem na rede https://colunas.revistaepoca.globo.com/brunoastuto/2012/07/13/primeiras-imagens-de-robos-de-robocop-que-sera-dirigido-por-jose-padilha-caem-na-rede/

Google pode usar mini-robôs voadores para capturar imagens (1984 – Orwell tinha a antevisão?*) https://googlediscovery.com/2010/08/07/google-pode-usar-mini-robos-voadores-para-capturar-imagens/

7 assustadoras tecnologias de “1984, George Orwell” que existem nos dias de hoje! https://literatortura.com/2012/07/03/7-assustadoras-tecnologias-de-1984-george-orwell-que-existem-nos-dias-de-hoje/

POLÍTICA NACIONAL DE HUMANIZAÇÃO no SUS 

O que é Humanização? https://hitechnologies.com.br/humanizacao/o-que-e-humanizacao/

Um pequeno questionamento – Chain Samuel Katz
https://www.freudiana.com.br/documentos/chaimabf.pdf

Novo exame para detectar síndrome de Down gera discussões éticas https://www.dw.de/dw/article/0,,16091026,00.html

Indicações para Leitura:
Das Unheimliche, Sigmund Freud 1919h, em Gesammelte Werke, vol. XII. Trad. Brasileira,Standard Edição Brasileira, trad. Imago, vol. XVII, Rio de Janeiro, RJ.

Contos Sinistros – E. T. A. Hoffmann – Editora Max Limonad, São Paulo, SP, 1987.

O que é deficiência – Debora Diniz, Editora Brasiliense, São Paulo, SP, 2007.

Sobre a felicidade – Ansiedade e consumo na era do Hipercapitalismo – Renata Salicecl, Editora Alameda, São Paulo, SP, 2005.

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