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quarta-feira, 2 de maio de 2012

INTERDIÇÃO, DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E DIREITOS HUMANOS.

Imagem publicada- A foto colorida de um homem sorridente, inglês, que completou uma maratona após 41 dias, percorrendo apenas 1,5km por dia, com auxílio de um apoio especial para caminhar e uma equipe de amigos e familiares ao seu redor. A matéria não tem a ver diretamente com interdição, mas se pode supor o que teria acontecido com ele, caso fosse interditado, após o acidente que o levou a um quadro psicomotor semelhante a uma paralisia cerebral grave. Podemos dizer que, após um acidente, como o de Eddie Kidd, perdemos todas as nossas habilidades e capacidades? E, quando se trata de uma criança ou jovem com Síndrome de Down ou Paralisia Cerebral? A eles não é permitido, depois de diagnosticados/julgados "incapazes", de correr a corrida da Vida Livre e sem Interdições?

EU NÃO INTEDITO, NÓS NÃO OS INTERDITAMOS, PORÉM ELES AINDA INTERDITAM.

No dia 03 de maio será realizada uma audiência sobre a Interdição Legal total de pessoas com deficiência intelectual e pessoas com paralisia cerebral severa. Ocorrerá um debate proposto pelos deputados Mandetta (DEM-MS) e Rosinha da Adefal (PTdo B-AL).

O tema é de meu total interesse/dedicação há muitos anos. Já participei há mais de 15 anos atrás de um debate promovido no Centro Cultural Banco do Brasil, RJ, de uma acirrada discussão sobre a interdição total de pessoas com deficiência intelectual. Há época já manifestava minhas inquietações bioéticas e sociais sobre o tema.

A palavra interdição, para além de seu sentido legal, implica, para o senso comum, a restrição de alguns direitos fundamentais. É a proibição para os atos da vida civil por aqueles que forem considerados “incapazes”. Nessa perspectiva é que sempre interrogarei sua possibilidade, necessidade e sua aplicabilidade. Continuo sendo apenas um defensor ativista de direitos humanos ao refletir sobre ela.

Já há uma visão mundial sobre o tema. Foi expresso na Declaração de Montreal sobre a Deficiência Intelectual, em 2004, na cidade de Montreal, Canadá. Tive a oportunidade de traduzi-la para o português. Venho difundindo-a desde então para que possamos aprofundar e rever nossos preconceitos sobre as deficiências intelectuais e os sujeitos que as vivenciam.

E, lá fica claro que o paradigma que irá sustentar essa declaração que foi proposta pela OPAS/OMS, ambas no âmbito da medicina e da saúde, é o que irá ser o eixo principal do que se estabeleceu dois anos depois com a Convenção (ONU-2006). Em ambos os documentos os princípios fundadores são os Direitos Humanos. Mas que princípios norteariam uma interdição legal total?

Em princípio a palavra interdição vai de encontro com um dos direitos fundamentais, quando escolhe ou elege um ou mais sujeitos, a partir de sua condição de saúde, idade ou situação de vulnerabilidade. Os que estão, no momento, sendo o alvo dessa audiência são as pessoas com síndrome de Down e as com paralisias cerebrais graves.
No campo da Síndrome de Down já escrevi sobre sua autonomia e os exemplos de sua inclusão social só tem comprovado que são "cidadãos e cidadãs". No caso de pessoas com Paralisias Cerebrais ainda temos um campo nebuloso e confuso sobre sua classificação. O conceito de grave vai até onde?

É aí que há sempre o perigo do preconceito pela manutenção do paradigma biomédico. As pessoas com paralisias cerebrais são vistas, objetivadas, assujeitas e judicializadas como "doentes" ou "deficientes mentais".

Há sim quadros ou condições de saúde que levam a um maior número de restrições ou perdas de funcionalidade. Porém são em número muito menor a cada dia que passa. E, para o direito, na visão reducionista, são as pessoas “portadoras”, incapazes com “necessidades especiais”. Ainda não há uma abertura para os novos conceitos e visões sobre estes cidadãos/ãs, principalmente em algumas instâncias do Judiciário.

A noção de severidade dos quadros foi e é a maior justificativa também para o processo de institucionalização de pessoas com paralisias cerebrais ou síndrome de down. Ambos os quadros formaram o que se conceituava na CID-10 quadros de "retardamento mental". Há ainda muitos operadores do direito e profissionais da saúde que se baseiam nessas visões e conceitos arraigados erroneamente.

E para tais graves, moderados ou leves, ou então, historicamente, os imbecis, os débeis, os cretinos, ou, reducionisticamente, os retardados mentais, a melhor forma de cuidado e reabilitação só poderia ocorrer em espaços especializados e sob internação.

A maior defesa que já vi da interdição sempre foi direcionada por entidades que cuidam ou prestam assistência contínua a esses cidadãos e cidadãs sob reclusão. E a mais veemente foram as que famílias, principalmente mães, defendiam no sentido de “preservar o futuro” de seus filhos com deficiência considerada como “invalidez total”.

Mas o que é essa interdição judicial? Em pesquisa na Internet encontrei um dos documentos mais recentes sobre o tema. É do Chile (2011) e trata da “interdicción, proteción patrimonial y derechos humanos” (interdição, proteção patrimonial e direitos humanos). Nele se esclarece que a interdição é uma sentença judicial cujo efeito principal é a substituição das escolhas e decisões de uma pessoa com deficiência pelas de outra pessoa, que no direito recebe o nome de curador.

Esta figura está prevista também na Declaração de Montreal. Ressalta-se nela que “todas as pessoas com deficiências intelectuais são cidadãos plenos, iguais perante a lei e como tais devem exercer seus direitos com base no respeito nas diferenças e nas suas escolhas e decisões individuais”. Portanto, como na Convenção, estão garantidas as suas capacidades de decisão e escolha.

Então, considerando-se esta afirmação, em que condições poderiam ser solicitadas as interdições? Para a Declaração de Montreal: “A. As pessoas com deficiências intelectuais têm os mesmos direitos que outras pessoas de tomar decisões sobre suas próprias vidas. Mesmo que algumas pessoas possam ter dificuldades de fazer escolhas, formular decisões e comunicar suas preferências, elas podem tomar decisões acertadas para melhorar seu desenvolvimento pessoal, seus relacionamentos e sua participação nas suas comunidades;...”

É, então, o Estado que deverá proporcionar a proteção e a garantia de que estes cidadãos e cidadãs possam exercer, com os avanços legais e sócio-políticos, o acesso e utilização de serviços adequados que sejam baseados nas necessidades, assim como no direito ao consentimento informado e livre. 

Com os avanços em ajudas técnicas, tecnologias assistivas e outros recursos das novas tecnologias quem são os que não seriam “capazes” da expressão de suas vontades e decisões?

No presente e no futuro sabemos que ainda teremos muitos excluídos do mundo digital e das novas tecnologias de informação, e entre estes estarão muitos sujeitos com deficiência intelectual. Porém o nosso dever será o de, caminhando no desenho universal, atender todas as suas necessidades, especificidades, “disfuncionalidades” ou incapacidades, e, principalmente as suas singularidades.

Tanto para a Declaração de Montreal como em outros documentos de cunho universalista encontraremos que o exercício da curatela deve ser relativizado. Porém o que encontramos é uma dura realidade de manutenção de pessoas com deficiência intelectual ou com paralisia cerebral em regimes de cativeiros, hospitais ou espaços de segregação. Muitos deles promovidos pelas próprias famílias desses sujeitos assujeitados.

É, dentro dessa realidade, brasileira em especial, que precisamos garantir que “as pessoas com deficiências intelectuais devem ser apoiadas para que tomem suas decisões, as comuniquem e estas sejam respeitadas ...”

Com a recente tomada de posição do nosso Governo com o Plano Viver sem Limites, e a decisão de subsidiar as pesquisas e desenvolvimentos em tecnologias assistivas, deveremos olhar para o futuro na tomada de uma decisão legal de interdição.
Aqueles ou aquelas que, hoje, não estão podendo se expressar por meios já conhecidos, em futuro não muito longínquo, utilizará meios avançados e nada onerosos para a comunicação de suas opiniões, ideias, sentimentos e decisões.

Já em 2004, em Montreal se afirmava: “B. Sob nenhuma condição ou circunstância as pessoas com deficiências intelectuais devem ser consideradas totalmente incompetentes para tomar decisões baseadas apenas em sua deficiência. Somente em circunstâncias mais extraordinárias o direito legal das pessoas com deficiência intelectual para tomada de suas próprias decisões poderá ser legalmente interditado.”

Há, portanto uma expressão afirmativa do direito de pessoas com deficiência intelectual, ou mesmo com paralisia cerebral, que não devem ser sinônimos ou equivalências. A maioria das pessoas com paralisias cerebrais NÃO SÃO pessoas com deficiências intelectuais. Apenas uma porcentagem pequena poderá apresentar alterações cognitivas ou restrições de funcionalidade psicomotora que prejudicará sua interação e expressão ao meio ambiente.

Ambas as condições devem ser expressão de direitos humanos. Portanto direitos que são inalienáveis, indivisíveis, interdependentes, interelacionados e universais. E, se fundamentarmos, nesses princípios, a prática legal das interdições, a partir desse encontro e debate na Câmara dos Deputados, terá de abandonar o paradigma biomédico.

Surgirá, inclusive com a presença, que espero não falte de nossa ministra Maria do Rosário Nunes, da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, a efetivação dos Direitos Humanos como linha mestra de todos os novos modelos legais para pessoas com deficiência, sejam intelectuais ou não.

Lembrando a temporalidade vertiginosa em que vivemos, assim como as necessárias mudanças legais, os processos de interdição não devem ficar restritos aos laudos de peritos forenses ou psiquiatras. O nosso olhar médico nos leva para os ‘’mutirões’’ de ações de interdição, onde a Síndrome de Down está no mesmo nível que as pessoas com Doença de Alzheimer.Ainda trabalhamos com a CID-10 e desconhecemos a CIF-2006.

E as curatelas deverão ser de uma curta duração, principalmente aquelas que envolvem interesses patrimoniais ou alegações unicamente prestadas pelos familiares. Portanto, nesse campo é indispensável que o Estado e o Poder Judiciário observem que: “Qualquer interdição deverá ser por um período de tempo limitado, sujeito as revisões periódicas e, com respeito apenas a estas decisões, pelas quais será determinada uma autoridade independente, para determinar a capacidade legal”.

Finalmente, reforçando o que já foi declarado em Montreal, afirmar que: “C. A autoridade independente, acima mencionada, deve encontrar evidências claras e consistentes de que apesar dos apoios necessários, todas as alternativas restritivas de indicar e nomear um representante pessoal substituto foram, previamente, esgotadas. Esta autoridade independente deverá respeitar o direito a um processo jurídico, incluindo o direito individual de ser notificado, ser ouvido, apresentar provas ou testemunhos a seu favor, ser representado por um ou mais pessoas de sua confiança e escolha, para sustentar qualquer evidência em uma audiência, assim como apelar de qualquer decisão perante um tribunal superior”.

Era esse olhar para o futuro dos direitos humanos de pessoas com deficiência intelectual que há 08 anos se declarou. HOJE, como parte de um movimento para a afirmação política das pessoas com deficiência, qual visão futurista devemos criar em relação ao nosso próprio futuro?

Excelências, Meritíssimos, Ilustríssimos Senhores e Senhoras, que já conseguiram afirmar o direito sexual e reprodutivo das mulheres com a recente decisão do STJ sobre anencefalia, lhes faço um único pedido: - Eu, aqui cidadão brasileiro, desejo de coração que suas mentes continuem no processo evolutivo e transformador de todas as nossas leis.

Então, os “cida-downs” e os chamados de “paralíticos” poderão se orgulhar de um novo papel a exercer: serão os respeitados auto defensores dos seus direitos humanos. Não há como exercitar a cidadania sem um exercício de nossas autonomias e desejos mais profundos.

Comemorei, com minha família reunida, o 102º (centésimo segundo) aniversário de meu pai. Alguns devem se perguntar sobre sua capacidade de decisão, ou sua interdição. Com sua lucidez, garantida pelo desejo de vida, ainda é e será respeitado em suas decisões, mesmo as que nos pareçam estarem erradas ou contra nossa vontade.

Eu lhe perguntei se ainda irá acompanhar a sua querida Romaria a pé até Aparecida do Norte, distante mais de 300 km de minha cidade natal, ponderando sobre as baixas temperaturas e o risco de saúde de um ancião, e ele afirmativamente me respondeu: - “E por que não iria? Eu ainda não morri ...”. Ele irá como o maratonista com Paralisia Cerebral até o fim de sua jornada, seguindo sua fé e sua determinação/decisão.

E podem ter certeza de que ele, se interrogado for, afirmará como um desembargador que negou uma interdição recentemente noticiada: “De qualquer sorte, não se pode considerar a idade avançada do apelado (74 anos, atualmente) ou a preferência deste por um estilo de vida mais simples como motivos para interditá-lo. Veja-se, além disso, que velhice não se confunde com senilidade"...

Assim não podemos continuar confundindo a situação de deficiência com a noção de incapacidade total, para sempre, decretada. A interdição total deverá ser a exceção da exceção, e, ainda assim respeitar, antes que velhos códigos, a urgente ativação, transversalidade e implementação dos Direitos Humanos.

E, muito raramente, muito poucos, quase nenhum sujeito com deficiência intelectual ou com paralisia cerebral dita severa estará sendo submetido à perda de suas liberdades...

EU, NO FUTURO, ESPERO NÃO ME INTERDITAREI, NÓS NÃO SEREMOS INTERDITADOS, E ELES, TORNADOS MAIS JUSTOS E SÁBIOS, APRENDERÃO O QUE É SER/ESTAR INTERDITADO... POIS TODOS/TODAS, UM DIA, APRENDEMOS A VIVER/CONVIVER COM LIMITES...


Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2012/2018- 2024 Ad infinitum (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa) TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025

NA INTERNET – Fontes e notícias

Interdição legal de pessoas com deficiência intelectual será discutida em audiência
https://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/DIREITO-E-JUSTICA/416052-INTERDICAO-LEGAL-DE-PESSOAS-COM-DEFICIENCIA-INTELECTUAL-SERA-DISCUTIDA-EM-AUDIENCIA.html

DECLARAÇÃO DE MONTREAL SOBRE A DEFICIÊNCIA INTELECTUAL
https://www.defnet.org.br/decl_montreal.htm

PLANO VIVER SEM LIMITES - Plano beneficia 45,6 milhões com deficiência https://www.brasil.gov.br/noticias/arquivos/2011/11/17/plano-beneficia-45-6-milhoes-com-deficiencia

Tribunal nega pedido de interdição: velhice não se confunde com senilidade
https://www.ambito-juridico.com.br/site/?n_link=visualiza_noticia&id_caderno=20&id_noticia=82239

Homem com paralisia cerebral completa Maratona de Londres após 51 dias 
https://www.estadao.com.br/noticias/internacional,homem-com-paralisia-cerebral-completa-maratona-de-londres-apos-51-dias,cional,homem-com-paralisia-cerebral-completa-maratona-de-londres-apos-51-dias,729002,0.htm

LEITURA INDICADA:

Derechos de las Personas com Discapacidad Mental *Chile (em PDF) https://www.senadis.gob.cl/descargas/centro/tematicos/manual_dicapMental.pdf

LEIA TAMBÉM NO BLOG: sobre Deficiências Intelectuais

DEFICIENTES INTELECTUAIS - Encarcerar é a solução final?   https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/01/deficientes-intelectuais-encarcerar-e.html

O MELHOR É A JAULA OU O GALINHEIRO? Deficientes intelectuais e o seu encarceramento
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/o-melhor-e-jaula-ou-o-galinheiro.html

INCLUSÃO/EXCLUSÃO - duas faces da mesma moeda deficitária? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/02/inclusaoexclusao-duas-faces-da-mesma.html

NÃO SOMOS ANORMAIS, SOMOS APENAS CIDA-DOWNS.... https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/03/nao-somos-anormais-somos-apenas-cida.html

VULNERAÇÃO E MÍDIA NO COTIDIANO DAS DEFICIÊNCIAS
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/04/vulneracao-e-midia-no-cotidiano-das.html

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O MELHOR É A JAULA OU O GALINHEIRO? Deficientes intelectuais e o seu encarceramento

imagem publicada - a foto publicada no Jornal PB Agora, de um homem dentro de um galinheiro, onde foi mantido isolado, por sua família, ele foi diagnosticado, aos 35 anos como um ''deficiente mental'' em um Caps (Centro de Atenção Psicossocial).


Continuo aprendendo com a dor. Melhor ainda, aprendendo com a minha e a dos outros. Hoje, em uma manhã ensolarada, após minha fisioterapia, onde a dor cede um pouco e começo a tentar a saída desse aprisionamento corporal, ao buscar notícias sobre pessoas com deficiência me vi diante da dor maior de um deficiente intelectual brasileiro.

Hoje, 26 de maio de 2011, li esta notícia: "Deficiente que vivia em galinheiro é encaminhado à Funad, em João Pessoa", abaixo descrita, sinto, tristemente, a manutenção de métodos cruentos ainda estão na vida de pessoas com deficiência. O pior é que nas jaulas ou nos galinheiros serão mantidos os que ''por serem retardados'', tanto em direitos como em suas capacidades de autodefesa, podem ser motivo de isolamento social. Nossas sociedades, do campo até as metrópoles, os isolam há séculos. 

As formas de aprisionamento dos chamados deficientes "mentais", a partir de uma participação ativa da Medicina, foram sendo naturalizadas e banalizadas. Para o bem da sociedade, com seus princípios eugênicos sutilmente disfarçados, o melhor era e é afastá-los, tanto em casa com no espaço público, do convívio social. 

Eles são um risco de periculosidade? ou geram, há séculos, a necessidade de um "cuidado", chamado de internação, nascido no século XIX, antecipado pela biopolítica no século XVIII, onde as deformidades morais, físicas ou mentais precisavam da sua hospitalização?

A concepção da deficiência, em paralelo à da doença mental, veio constituir um paradoxo: o suposto amor ''caridoso'' por elas aumenta na mesma proporção do distanciamento desses objetos. Talvez seja melhor chamá-los de ''abjetos''. A exclusão dos desviantes da norma construiu os alicerces do que, em pleno século XXI, demonstra a permanência dos estigmas e estereótipos para estes sujeitos.

O Roberto, da Paraíba, hoje ''salvo'' do galinheiro, após 35 anos é tão ''limitado'', pela privação e pelos maus tratos, que primeiro o levam para cuidados psiquiátricos. Em seguida temos a concretização de um novo espaço para sua vida: a reabilitação que nunca recebeu. O que indago, hoje, é se a ele também serão destinados os "cuidados", para além do modelo biomédico, com seus direitos humanos garantidos pela Convenção?

Minha interrogação é, com a certeza de uma resposta institucional, de que há talvez um lugar ou espaço melhor para os milhares de Robertos, Sebastianas, Zaqueus, Ruis (em Portugal), Brandons (na Holanda) e outros, mundo a fora, que ainda não tiveram seus nomes publicados na mídia. Eles e elas experimentaram o resgate dos cárceres familiares, porém passaram depois para novos modos de tratamento determinados pela Justiça. Por isso tenho de insistir na pergunta: o melhor é a jaula ou o galinheiro?

OU, O MELHOR É A DEMOLIÇÃO DE NOSSOS PRECONCEITOS ENRAIZADOS NO MAIS PROFUNDO DOS NOSSOS CORPOS E MENTES, INDIVIDUAIS E COLETIVOS, QUE SE ALIMENTARAM E SE ALIMENTAM DOS PRECONCEITOS RACISTAS, EUGENISTAS E ''DEFICIENTEFÓBICOS''?

Aliás, todas as fobias se alimentam de movimentos contra-fóbicos. Todos os autoritários, fundamentalistas ou extremistas, políticos ou religiosos, gostam dessa posição e desse Gozo. Há, para além do falso amor pelas anormalidades, um olhar piedoso ou religioso que diz que estamos protegendo aqueles que nos pertubam com suas diferenças e outras formas de ser e existir. Isolar os ''monstros'', que também nos habitam, pode ser uma das raízes de nossos atuais modos de ser: xenófobos, homofóbicos, racistas, e, infelizmente ainda, eugenistas.

Espero que a nossa Presidenta Dilma compreenda a necessidade de outro modo de lidar com os preconceitos. Hoje ficou ,também, claro que, diante das pressões fundamentalistas e religiosas, podemos continuar mantendo o bullying com pessoas homoeróticas, com a cassação do kit anti-homofobia.

Lembra uma pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo que constatou: "A escolaridade é um dos fatores que mais influenciam o nível de preconceito da população em relação a homossexuais: quanto mais anos de estudo, maior é a aceitação do indivíduo em relação à diversidade sexual...". A educação inclusiva é, então, a solução?

Aos amigos da Funad envio meu desejo de que possamos compreender o lugar que o Roberto Félix de Meireles ocupa, historicamente, na mudança que temos de empreender na construção e consolidação do que chamamos de uma Sociedade Inclusiva. Temos de levar esta "inclusão sem preconceitos, respeitando as diferenças e singularidades" dos Robertos "deficientes" para todos os brejos, sertões, confins e Planaltos. Talvez, primeiramente, ao Planalto central, lá em Brasília...

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Deficiente que vivia em galinheiro é encaminhado à Funad em JP

"O deficiente mental Roberto Félix de Meireles, de 35 anos, que era mantido trancado em um galinheiro pela família na zona Rural do município de Pilõezinhos, no Brejo paraibano, recebeu pela primeira vez em anos atendimento especializado no Centro de Atendimento Psicossocial - Caps do município.
De acordo com informações do Portal Correio, o paciente teve a medicação modificada e foi encaminhado para ser atendido na Fundação de Apoio a pessoa com Deficiência - Funad em João Pessoa.
A família vem recebendo o apoio da Prefeitura de Pilõezinhos que irá providenciar o transporte do paciente para a Capital.
O médico que atendeu Roberto disse que a família o estava medicando por conta própria e diagnosticou uma limitação severa no que diz respeito à comunicação e ao relacionamento social".
https://www.pbagora.com.br/conteudo.php?id=20110525123424&cat=paraiba&keys=deficiente-vivia-galinheiro-encaminhado-funad-jp


Escolaridade impacta nível de preconceito contra homossexual - https://www.msnoticias.com.br/?p=ler&id=65154

LEIA TAMBÉM NO BLOG:

Uma Violência Cotidiana e Banal? A Violação de Direitos Humanos de Crianças com Deficiência - https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/06/uma-violencia-cotidiana-violacao-de.html

Deficientes Intelectuais: encarcerar é a solução final? - https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/01/deficientes-intelectuais-encarcerar-e.html

Inclusão/Exclusão - duas faces da mesma moeda deficitária? - https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/02/inclusaoexclusao-duas-faces-da-mesma.html

Vulneração e Mídia no cotidiano da deficiências - https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/04/vulneracao-e-midia-no-cotidiano-das.html


O Surdo, o Cego e o Elefante Branco -

 https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/05/o-surdo-o-cego-e-o-elefante-branco.html

quinta-feira, 28 de abril de 2011

VULNERAÇÃO E MÍDIA NO COTIDIANO DAS DEFICIÊNCIAS


Imagem Publicada - um homem com deformidades físicas no rosto, na cabeça, denominado Homem-Elefante, que esta atrás de uma porta de correr, com uma grade de ferro de porta de elevador, que sugere seu encarceramento e isolamento. Foto, em preto e branco, de divulgação do filme que levou ao público a dramática história de John Merrick(1862-1890), um cidadão inglês, que por ter a maior parte de seu corpo deformado por uma síndrome neurológica, a Neurofibromatose múltipla. Ele foi por longo tempo considerado um "deficiente mental", e viveu exposto, espancado e explorado em um show ambulante, até que um cirurgião, Dr. Frederick Treves, o levou para um hospital, e, dentro das limitações de seu tempo (a chamada era Vitoriana) buscou promover um pouco de dignidade a quem estava sendo motivo apenas do riso e do temor em espetáculo circense. Ele viveu em Londres onde hoje a pompa e circunstância ainda encobrem muitas formas de discriminação, segregação e exploração midiática desses que são chamados de "anormais ou aberrações humanas".

"Assim como o conceito de deficiência é construído e contextualizado, as vulnerabilidades também têm gênese social como um discurso em construção e em questionamento pelos bioeticistas, como faz Macklin, ao indagar: ”O que torna indivíduos, grupos e até países inteiros vulneráveis? E por que a vulnerabilidade constitui uma preocupação da bioética?”. Essas duas perguntas, segundo a autora, devem ser afirmadas e respondidas pela existência de que diante do poder e da exploração de sujeitos vulneráveis, temos de ter uma postura ética. Uma postura de cunho bioético e de proteção.

Essas posturas e questões têm grande amplitude, indo desde a ética clinica, da ética em pesquisas que envolvem seres humanos, e, em especial, na ética em políticas públicas. No campo político, ou melhor, dos biopoderes, ao avaliarmos a condição de pessoas vulneradas, com sua possível posição de exploração, podemos incluir as pessoas com deficiência, que, historicamente, estiveram em situação de vulneração e exclusão pelos estigmas a que foram submetidos".


Esses dois parágrafos acima fazem parte de um artigo que publiquei na Revista Saúde e Direitos Humanos, Ano 6, nº 6, 2009. O tempo passou e cada dia mais me convenço das minhas proposições de cunho bioético para o campo das deficiências.

Me sinto reforçado na indagação de Macklin quando assisto na TV a concepção que vem sendo midiatizada sobre os que são chamados de ''portadores'' de deficiências. Creio que a última atitude bizarra nos foi apresentada por um programa de Comédia onde se ridicularizava, de forma grotesca e proposital, a condição de pessoas com Autismo. A chamada Casa dos Autistas, em seu processo de reprodução dos estigmas, conseguiu gerar indignação, repúdio e ações que incluíram atitudes do Ministério Público e de parlamentares na Câmara Federal.


Ainda não conseguimos demolir alguns dos estigmas que são impostos a PESSOAS COM DEFICIÊNCIA. Isso mesmo, são sujeitos COM direitos humanos, são cidadãos e cidadãs, e sua nomeação e terminologia são muito importantes. NÃO PODEMOS RECUAR NO AVANÇO CONQUISTADO COM A CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA. A sua condição humana diferenciada e singular não deve ser nomeada como ''necessidades especiais'' e muito menos como ''invalidez'' ou ''doença'', e com estes paradigmas biomédicos, ainda em ação, promover sua espetacularização pela TV.



Os autistas podem ser também artistas. Mas não sem respeito às suas vulnerabilidades. Não se promovendo sua caracterização como ''alienados'' ou ''bobos da corte''. Muito menos como um grupo que, se confinado, à moda do BBB, possa constituir uma casa da loucura sem racionalidade e comportamentos considerados ''anormais'. O que a MTV promoveu foi a sua vulneração pela esterotipia e pela estigmatização tele-visiva.

Nesse sentido é que a busca de um olhar para além dos discursos vigentes sobre pessoas com deficiência se faz imprescindível. Temos que, pesquisar como se constroem novos paradigmas, agora com a ativa participação dos sujeitos com deficiência, como o que ocorreu na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (Nações Unidas – ONU – dezembro de 2006). Historicamente este tratado internacional foi antecedido na América Latina, pela chamada Convenção da Guatemala, em 1999, que confirmou a existência primordial de fatores sociais e econômicos como geradores de situações de deficiência.

Esta Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas com Deficiência, proclamada em 1999, foi reconhecida pelo Governo Brasileiro, através do Decreto Nº 3956 (de 08/10/2001), afirma que as deficiências decorrem/surgem da interação das características de cada um com a produção de barreiras na sociedade para as suas diferenças, que ao limitar a suas capacidades de exercer as atividades da vida diária, portanto, são “causadas ou agravadas pelo ambiente econômico ou social”. 

E suas incapacidades tornam-se agravadas com o uso, aético e inconsequente, na socialização de estereótipos ou estigmas impostos aos que são chamados de deficientes, anormais, loucos, autistas ou qualquer outro termo ou diagnóstico aplicável aos fora da norma ou da normalidade científica.

Quando produzimos a hiperexposição midiática, de forma ridicularizada, de um ou mais grupos de pessoas com alguma forma de diferença, para um grande público consumidor, os telespectadores em alienação acrítica, estamos reforçando sua condição deficitária como monstruosidade, como Mal e enfermidade. Estamos os estigmatizando para nos mantermos em busca de uma sacrossanta idealização de pureza, normalidade, sanidade ou perfeição. 

O grotesco e o hilário não podem ficar associados, por mais audiência que provoquem, a uma exploração, hoje hipermidiatizada, das imagens, cenas, situações ou aparências diferenciadas vividas por pessoas com deficiência ou outras formas de incapacidades. A MTV fez isso e me levou de volta ao passado. Retomei, quando vi indignado o que eles chamaram de a Casa dos Autistas, antigos personagens do cinema, do teatro e da literatura. 

Eles voltaram ''assustadoramente'' a minha memória. Eles, por suas ''taras, defeitos, manchas, estigmas ou corcundas", podem ser denominados ''homens e mulheres elefantes'', ou de neo- Quasímodos. É, então a hora de rever e relembrar um filme: O Homem Elefante (David Lynch). Eles e elas, com suas deformidades físicas (que presupõem as mentais) foram, são e devem ser cobertos com burkas ou máscaras que nos ajudem a evitar o olhar espelhado para sua ''feiura e miséria humana''. A nossa visão narcísica pode sofrer profundos abalos com uma possível identificação projetiva com esses seres anômalos.

A eles e elas, historicamente, se destinavam os espetáculos grotescos dos circos dos horrores ou, então, como o médico interpretado por Anthony Hopkins, um pequeno quarto de hospital para que pudessem ser ''examinados'', "diagnósticados", "expostos como um caso clínico aberrante". E, nas boas intenções da medicina da época, "protegidos e cuidados", apesar de terminarem sendo apenas mais um objeto de pesquisa: cobaias humanas.

O personagem real John Merrick consegue, no filme e na sua história de vida, até impressionar uma atriz, mas não consegue ser amado por ela. Não podemos nos encontrar em um Outro tão aberrante de nossa imagem e semelhança. Ainda que ele possa ser também um artista,ou mesmo um poeta. Não aprendemos ainda, bioéticamente, a amar as cobaias. Muito menos os monstros em nós.

Por isso é que seria uma parcial reparação se o "preconceituoso" canal de TV, após suas desculpas públicas e já notórias, pudesse realizar um Ciclo de Cinema e Deficiência, seguido sempre com debates esclarecedores e críticos, a serem conduzidos pelas próprias fontes de ''diversão'', ou seja pelas pessoas com deficiência. 

Quem sabe, como já fez Chaplin, ampliassemos a sensibilização das platéias entorpecidas, em especial dos canais abertos, com o surgimento do direito à diferença, com o direito à audiodescrição, com o direito ao close caption e as legendas (para os surdos), com o direito à provocação do espanto e da indagação diante de outras formas de ser e estar no mundo e na Vida. E para tanto nem precisaríamos nos tornar ''mudos e em preto e branco".

Senhores e Senhoras, Respeitável Público: - agora no meio do palco, no meio do picadeiro, fora das jaulas, dentro do coração e das mentes de nossos telespectadores, novos atores com suas cegueiras, bizarrices, paralisias cerebrais, deficits, transtornos, distúrbios, surdez e incapacidades de toda ordem. As telinhas, ou melhor, todas as telas irão se encher de panorâmicos seres humanos que nos espelharão, nos confrontarão e nos obrigará a buscar outras maneiras de os respeitar, re-conhecer e amar. 

Em cena, os Autistas, que não cabem, por sua pluralidade, nessa mísera casa dos comediantes da MTV, irão nos levar a outras sensibilidades, outras máquinas desejantes, outros devires, outras formas de afetar e sermos afetados, a desejada criação de novas cartografias para o viver e Vida. Para além de todas as vulnerações e suas perpetuações.


Copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o Autor e referências do texto em republicações e difusões livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Um dos motivos desse texto:
MTV faz campanha depois de polêmica - http://odia.terra.com.br/portal/diversaoetv/html/2011/4/mtv_faz_campanha_depois_de_polemica_160747.html

Abaixo-assinado Contra o Programa da MTV Casa dos Autistas
http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2011N9211

Indicações de sensibilização e educação pelo Cinema:
O HOMEM ELEFANTE - filme de David Lynch - 1980 - http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Homem_Elefante

“Wretches & Jabberers" - Documentário de Gerardine Wurzburg - 2011 - http://pt.euronews.net/2011/04/18/a-voz-dos-autistas-wretches-jabberers/

TEMPLE GRANDIN - filme biográfico da HBO - 2010 -
http://www.soshollywood.com.br/temple-grandin/

Referências no Texto
VULNERABILIDADE E VULNERAÇÃO, QUANDO AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA SÃO QUESTÕES DE DIREITOS HUMANOS? - Jorge Márcio Pereira de Andrade - Revista Saúde e Direitos Humanos - Ministério da Saúde - Fundação Oswaldo Cruz - Brasília, DF, 2010 (Ano 6, nº 6, 2009)

Leiam, Comentem e reflitam também no BLOG:

EUGENIA - COMO REALIZAR A CASTRAÇÃO DE HOMENS E MULHERES COM DEFICIÊNCIA? 
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/01/eugenia-como-realizar-castracao-e.html

A PERFEIÇÃO RACIAL E A DESTRUIÇÃO NASCEM DO MESMO NINHO...
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/07/a-perfeicao-racial-e-destruicao-nascem.html

Um AUTISTA pode vir a ser um ARTISTA da água? - http://infoativodefnet.blogspot.com/2010/04/um-autista-pode-vir-ser-um-artista-com.html


A Terra é Azul e o AUTISMO também -
 http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/03/terra-e-azul-e-o-autismo-tambem.html

domingo, 28 de novembro de 2010

A VIOLÊNCIA NOSSA DE CADA DIA... Dai-nos também.

Imagem Publicada - uma montagem em foto com o Cristo Redentor, com um jato de combustão saindo de sua base, como se este ícone do Rio de Janeiro,em sua base no Morro do Corcovado, estivesse sendo lançado ao espaço sideral. Uma alusão aos tempos de "fogo" cruzado vividos recentemente na cidade "maravilhosa", e sua posterior pacificação naturalizada através da combinação de forças armadas e ações governamentais. (imagem publicada no jornal The Economist)

A violência, ou melhor, as variadas formas de violência institucionalizadas e naturalizadas tornaram-se banalizadas. Então, cabe a todos nós, e não apenas para alguns o dever de questioná-las, analisá-las e propor saídas e soluções coletivas, para que, ao sermos novamente paralisados, não tenhamos nossas asas cortadas, pois como diz uma estória: o passarinho, aparentemente frágil, quando entra em pânico, é a melhor vítima do bote de uma serpente, sempre que ele se esquecer de sua diferença desta, ou seja: alguns pássaros podem voar...

O texto abaixo foi publicado em Maio de 2006 - edição especial do InfoATIVO DefNet Nº 2531, republicado na Internet e em outras mídias...

O reapresento com algumas inclusões e atualizações, que surgiram após o tempo de exposição prolongada às notícias das recentes soluções militares para a chamada "guerra urbana" na cidade do Rio de Janeiro contra o narcotráfico, e a ocupação hoje do chamado "complexo do Alemão"... relembrando a atemporalidade da Violência e de nossas medidas de extermínio ou controle social do que re-produzimos incessantemente...

A VIOLÊNCIA URBANA: Ontem, Hoje e Sempre?
Jorge Márcio Pereira de Andrade

“A violência sendo instrumental por natureza, é racional até o ponto de ser eficaz em alcançar a finalidade que deve justificá-la...” (Hannah Arendt)

Dai-nos a violência cotidiana de cada dia... é o pedido que a Idade Mídia eleva em preces ao Estado, à Sociedade e ao Mundo Globalizado. Segundo Zygmunt Baumann, em Vidas Despedaçadas, brilhantemente identifica a presença de um Estado que se retroalimenta de nossa vulneração cotidiana. Diz o autor:“A vulnerabilidade e a incerteza são as principais razões de ser de todo poder político. E todo poder político deve cuidar da renovação regular de suas credenciais...”.

Nossos tempos não estão mais nem menos violentos que os de nossos ancestrais. Hoje a violência, chamada urbana, pois as outras não têm tanta midiatização, tornou-se um espetáculo.

Segundo a óptica de Arendt, esses recentes atos de terror e pânico promovidos pela criminalidade, podem ser vistos como uma tentativa de atração de olhares e de mentes apavoradas, pois: “a violência não promove causas, nem a história nem a revolução, nem o progresso, nem a reação, mas pode servir para dramatizar reclamações trazendo a atenção do público...”.

Abaixo reproduzo, na íntegra o que já pensei, escrevi e agora tenho de repensar:

Fiquei muito incomodado, ainda estou com a paralisação que todos tivemos de exercitar nos dias de maior intensidade das ações de pressão do crime organizado, quando São Paulo entrou em pânico. Chegava a Campinas, à noite, vindo de Brasília, da 1ª Conferência de Direitos das Pessoas com Deficiência,(maio de 2006) onde defendi ativamente os Direitos Humanos. 

Lá somente os ecos distantes, dentro das televisões e jornais, me mostravam ônibus incendiados, rebeliões em presídios, atentados a polícia, etc...., não me assustaram tanto. Parece que, quando estamos no ‘planalto do Poder’, ficamos atravessados pela geopolítica, meio distantes das agruras que acometem os que a ele e ela estão submetidos.

Fiquei, então, perplexo ao ver a cidade onde moro em total silêncio e toque de recolher. Pensei ao trafegar em um automóvel quase solitário, como se pode produzir tamanha comoção social? Estávamos no que se chama de Estado de Sítio? Havia um silêncio amedrontador e triste nas ruas da cidade. Todos os locais de comércio noturno, bares, postos de gasolina, supermercados 24 horas, etc..., estavam de portas cerradas, desde às 20 horas. 

Senti uma profunda preocupação com o futuro de minha filha de 05 anos, naquele momento cidadão e morador de uma cidade vazia, como o futuro de todas as crianças brasileiras, principalmente as que não têm como escapar destes momentos de terror e de violência organizada. Não era o meu corpo e a minha integridade física que estavam sob ameaça, estávamos atravessando uma ‘cidade fantasma’, sem ‘viva alma’, sem Vida em público, com praças e ruas totalmente desertas. Uma cidade transpirando o medo e o pânico paranoicos. Nem os 'camburões' trafegavam.

Sim a violência de hoje e dos poucos dias atrás continua sendo alimentada, embora não tenha outra finalidade que a de criar pânico e estagnação, a meu ver. Concordo, então, que ela não é produtiva, mas sim um 'produto', quiçá uma mercadoria, a ser pensado(a), refletido(a) e analisado(a) com todos os recursos possíveis, em especial por parte dos cientistas políticos, sociólogos e analistas institucionais.

Pelo clima generalizado de insegurança consequente aos recentes ataques, embora as ruas paulistanas já tenham sido reconquistadas pelos seus legítimos donos: os chamados cidadãs e cidadãos, não há como negar a existência ou o aumento de violência, tanto do crime organizado como das forças instituídas para sua repressão, nesse momento político social brasileiro. Porém não podemos cair na armadilha fácil de elaborar ‘propostas imediatistas’ e soluções apenas macropolíticas, ouvindo-se inclusive o pedido enganoso de uso das ‘Forças Armadas’ ou da “pena de morte”. 

Não há como negar a imprescindível análise crítica do que está subjacente a esta violência espetacularizada, pois como nos diz Lorenz: "o homem que cessa de refletir corre o risco de perder todas as qualidades e realizações especificamente humanas". Ele próprio experimentou a crítica a suas ideias e seus escritos, principalmente os que se aproximaram das ideologias fascistantes.

Chego perto de afirmar que os provocadores do recente pânico social estiveram sendo orientados por quem já leu, ou eles próprios tem a intuição e prática sobre o que escreveu Carl Von Clauzewitz, em seu livro Da Guerra, ao nos dizer que: “o êxito estratégico é a preparação favorável da vitória tática...".

..."Quanto mais a estratégia puder, graças às suas combinações, depois da aquisição de sua vitória, incluir acontecimentos nos seus efeitos, mais ela se libertará das ruínas completas, cujas fundações terão sido sacudidas pela batalha; quanto mais ela arrebatar grandes massas o que tem de ser penosamente ganho, pedaço a pedaço, no decurso da própria batalha maior será seu êxito.” Cito Clauzewitz para datar a longevidade da questão de enfrentamento da guerra e o problema da paz. Este tratado teve a sua primeira publicação em 1832.

Ele já demonstrava que os atos de guerra, quando violentos, são “destinados a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade”, que para “defrontar a violência, a violência mune-se com as invenções das artes e das ciências”. Entra em cena então o nosso modelo de Estado Espetáculo, e nada mais eficiente para a construção do medo e do pânico do que a sua espetacularização, de ambos os lados da “guerra urbana”.

Portanto há alguma coisa ainda sem resposta sobre as recentes ‘explosões com Molotov’. Principalmente quando a finalidade destas é a conquista de uma “surpresa”, que já fora anunciada aos órgãos oficiais com antecedência, empregando forças de ataque a partir de várias bases, buscando o apoio da população com sua histeria coletiva, para um possível efeito moral, criando um ‘teatro de guerra’, reproduzindo o modelo de territórios, fatiando a cidade em pedaços, apoiado nas comunicações de massa a fim de promover possíveis e inconscientes mecanismos de defesa coletivos, onde a crença de que o poder destes agressores é muito maior do que nossas possibilidades de reagir ou atacá-los.

Afinal estes agressores estão em “segurança máxima”, e nós? na “insegurança infinita”?

Encontrei, porém, no passado, mais uma vez, alguns indicadores para a leitura crítica que deveremos empreender. Em um artigo intitulado: “Violência: reflexões sobre a banalidade do cotidiano em São Paulo”, de Luciano Kowarick e Clara Ant, de 1981, que nos afirmam: O grave é que, ao se focalizar o problema exclusiva ou preponderantemente sobre o crime, mobiliza-se a opinião pública sobre este aspecto importante, mas não único, da violência urbana, que caracterizam o cotidiano da vida e do trabalho nas cidades”.

Os autores nos fazem interrogar sobre o papel dos meios de comunicação de massa, que antes dos acontecimentos recentes, centram suas atenções no campo da delinquência, dos crimes e das violências físicas, em especial das classes mais desfavorecidas, minimizando, segundo os autores, o arbítrio policial e omitindo que, na realidade, os acidentes de trabalho, a desnutrição e a miséria vitimam um número muito maior de habitantes de nossas grandes cidades”. (Ruben George Oliven).

Falando na possibilidade de uma impostura com a hipermidiatização da violência podemos lembrar de perguntar onde é que estão nossos impostos? Em recente matéria do Jornal do Senado, ano IV, nº. 121, 8 a 14 de maio de 2006, diz-se que os “Brasileiros estão de olho no imposto”, e ficamos sabendo que: “a soma de todos os bens produzidos pelos brasileiros, o chamado produto interno bruto (PIB), foi de R$1,94 trilhão em 2005, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os impostos pagos pelos brasileiros à União, aos estados e municípios totalizaram 37,82% do PIB, de acordo com o IBPT... Os tributos devem retornar ao Cidadão em forma de benefícios, como educação, saúde, SEGURANÇA, previdência...”.

Esta matéria ainda informa que: “Cada cidadão trabalha pelo menos 04 meses e 25 dias por ano para o Fisco”, mostrando em estatística comparativa que nos Anos 70, os Anos de Chumbo da Ditadura Militar, se trabalhava apenas 2 meses e 16 dias para pagar todos os impostos, e que, com certeza, a “impostura” oficial através das mídias era muito maior, e a violência do Estado também, com consequente desrespeito aos Direitos Humanos de todos os brasileiros e brasileiras.

Ainda não pagamos todas as nossas dividas pela defesa de nossa Constituição de 1988? Mas o que é que tem esta história com os acontecimentos atuais? Perguntará algum céptico das possibilidades de uma participação cidadã na busca de uma aplicação transparente e fiscalizada por todos nós de todo esse dinheiro arrecadado dos trabalhadores (as), exigindo-se que o Estado faça a sua parte. Deveríamos responder que têm a ver com nosso desejo de um futuro diferente entre os diferentes, com respeito e justiça para todos e todas, um tempo com o mínimo de sofrimento ético-político.

¨*Reconheço, que hoje em 2010, passados os anos o panorama social e econômico mudou. Mas mudou a situação da fome, onde ainda 11 milhões encontram-se na "insegurança alimentar", segundo o IBGE. Os tempos passam mas algumas das misérias que retroalimentam as diferentes e sutis formas de violência social perduram. Como, então responder a velhas e repetidas indagações sobre nosso futuro?

E o futuro? O de sempre? A violência, ou melhor, as variadas formas de violência institucionalizadas e naturalizadas tornaram-se banalizadas. Então, cabe a todos nós, e não apenas para alguns o dever de questioná-las, analisá-las e propor saídas e soluções coletivas, para que, ao sermos novamente paralisados, não tenhamos nossas asas cortadas, pois como diz uma estória: o passarinho, aparentemente frágil, quando entra em pânico, é a melhor vítima do bote de uma serpente, sempre que ele se esquecer de sua diferença desta, ou seja: alguns pássaros podem voar. 

Você que conseguiu ler até aqui este texto me responda: quem são os verdadeiros ‘engaiolados’, com a máxima segurança, dessa história dos tempos de cólera e impostura criminal e neoliberal?

copyright Jorgemarciopereiradeandrade 2006/2011(em caso de republicação solicito citar a fonte e o autor(es) TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Referências bibliográficas--
Ant, Clara & Lucio Kowarick , Violência e Cidade – in Violência : Reflexões sobre a banalidade do cotidiano em São Paulo, Zahar Editores, Rio de Janeiro, RJ, 1982.

- Arendt, Hanna, Da Violência, Editora Universidade de Brasília, Brasília, DF, 1985.

- Bauman, Zygmunt, Vidas Desperdiçadas, Jorge Zaha Editor, Rio de Janeiro, RJ, 2005.

- Clausewitz, Carl Von, Da Guerra, Martins Fontes Editora, São Paulo, SP, 1979.

- Lorenz, Konrad, Os oito pecados mortais do homem civilizado, Editora Brasiliense, São Paulo, SP, 1991.

- Oliven, Ruben George, Violência e Cidade – in Chame o ladrão: as vítimas da violência no Brasil, Zahar editores, Rio de Janeiro, RJ, 1982.

TEXTO ORIGINAL publicado em https://www.direitos.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1461&Itemid=2

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quinta-feira, 8 de abril de 2010

A SAÚDE E O SENTIDO PARA A VIDA II


Imagem publicada - um imagem do filme 1984, baseado no livro homônimo de George Orwell, que se passa no auditório onde os homens e mulheres são doutrinados pelo Grande Irmão, que aparece em uma tela gigante, trazendo a confirmação orwelliana de que: A Guerra é Paz, A Liberdade é Escravidão e a Ignorância é Poder, ampliando a "lavagem cerebral" a que todos, uniformizados e vigiados pela Teletela, se submetem em nome de uma sociedade burocratizada, alienante, onde a Vida pertence ao Estado, supondo-se que todos os corpos e mentes estejam sob total controle à distância, televisivamente.

O texto abaixo foi escrito para comemorar/lembrar o Dia MUNDIAL DA SAÚDE, há muitos INFOATIVOS passados (no número 4200 DE ABRIL DE 2009) e foi publicado em um tempo que o Blog não existia ainda. A minha saúde física na época já tinha sido afetada. 

Apenas havia um corpo vibrátil, que pela dor pós-acidente que sofri, se afetava com os vários acontecimentos daquele momento. Resolvi republicar por um pedido especial e pelo fato de estar estes dias com muitas dores pela mudança climática absurda que estamos vivendo. Os meus parafusos presos me anunciam a temperatura, já que os soltos na cuca não funcionam tão bem. O frio do tempo anda se combinando com outras insensibilidades e friezas. Aos que já leram peço que descubram o prazer da releitura, pois um novo olhar nasce todos os dias em corações e mentes inquietas. 

AOS QUE AINDA NÃO LERAM o meu desejo que façam uma breve parada para refletir sobre as nossas SAÚDES:

A Saúde e o Sentido Para a Vida

"Um sábio escritor/aviador/filósofo, Antoine de Saint-Exupéry,nos deixou como legado, para além do Pequeno Príncipe, um alerta sobre a necessidade de que busquemos um Sentido para a Vida. Ele nos indicou o caminho quando, em seus livros Terra dos Homens e Um Sentido para a Vida, nos disse: "De que estamos nós precisando para nascer para a vida? Precisamos nos dar. Sentimos que o homem não pode comunicar com o homem senão através de uma mesma linguagem.... Quando nos encaminharmos na direção boa morte, aquela que tomamos na origem, ao despertamos do barro, somente então seremos felizes. Só então poderemos viver em paz e morrer em paz, porque o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte".

Necessitamos, hoje, no mundo do medo líquido e das vidas desperdiçadas ou da vida nua, urgentemente de uma nova linguagem universal. Necessitamos todos de uma Nova Saúde, a moda de Nietzche e Walt Whitman. Necessitados estamos todos e todas de um sentido para nossas vidas.

Hoje, dia 07 de abril, se comemora o Dia Mundial da Saúde. Amanhã o que comemoraremos? o desaparecimentos das 'novas pestes e epidemias? o fim de nossas 'não-visões brancas'? o surgimento de novos meios biotecnológicos de controle das mortalidades e do sofrimento humano? ou o enriquecimento e dignificação da vida humana com novos princípios éticos e bioéticos?

(HOJE, EM 2010, ACRESCENTO A CONFIRMAÇÃO DE QUE TEMOS UM NOVO TEMPO DO CAPITALISMO DOS DESASTRES EM MOVIMENTO, POIS AS CATÁSTROFES, TERREMOTOS E INUNDAÇÕES PASSARAM A SER CRÔNICAS DE MORTES ANUNCIADAS, E, LOGO APÓS CESSADO O VENTO, A CHUVA E OS TREMORES,SURGEM NAS TVS A ONDA DE PEDIDOS DE VERBAS POLÍTICAS PARA A RECONSTRUÇÃO DE CIDADES, COMO OS MILHÕES PARA O RIO DE JANEIRO INUNDADO NESSE ABRIL FRIORENTO)

Digo que sem a última resposta de nada valerá uma resposta às indagações anteriores. Senão, gananciosamente, os proprietários/empresários da Sáúde nos anunciarão/venderão uma falaciosa "descoberta" de um novo modo de Viver e Morrer, inclusive com as frequentes violações de todos os princípios sobre pesquisas em seres humanos. Isso, diante da nossa alienação, se não prestarmos atenção, com urgência, para a produção do que chamo de Vulneração/Expropiação da Vida.

Hoje é (era) dia de exclusão. Sim é(era) dia de exclusão 'saudável' no Big Brother. E se estamos todos aguardando o próximo 'milionário' e seu 'milhão', que dizem ser escolhido por nós, continuamos também assistindo a terra, a gaia, tremendo e nos anunciando novas e italianas e universais mortes, bem como novas lágrimas em olhos afegãos e/ou africanos ou nordestinos.

 A nossa atual sensibilidade para o sentido Universal da Vida tem, na banalização das violências, tornado , a cada dia na Idade Mídia, um modelo de viver. Nos estão afirmando, 'economicisticamente', que 'vale tudo' para vencer entre os muros, sob as câmeras e teletelas, com uma visão naturalizadora de um panóptico olhar de milhares de nós-espectadores.

(NESSE MÊS AINDA ESTOU LAMENTANDO A NÃO EXCLUSÃO DE UM BROTHER QUE SE REVELOU HOMOFÓBICO E PREPOTENTE, ALÉM DE TOTALMENTE DESINFORMADO SOBRE AIDS E SUA NECESSIDADE DE PREVENÇÃO PARA TODAS FORMAS DE EXPERIÊNCIAS SEXUAIS, E AINDA GANHOU, COM GRANDE APOIO POPULAR O SONHADO MILHÃO, POR SUA PERFORMANCE E RESISTÊNCIA ÀS EXPERIMENTAÇÕES TORTURANTES DE UM GRUPO PREVIAMENTE PREPARADO PARA ESTE REALITY SHOW SEM VIDA REAL...)

Estamos comemorando hoje a saída de nossos 'irmãos' ou 'irmãs' do Big Brother. Estaremos, então, felizes por nos identificarmos projetivamente com o Vencedor(a). Porém ,em seguida, quando um pequeno indiano nos ensinar como 'ganhar o primeiro milhão e nos tornarmos todos milionários', ainda assim estaremos cativos de um medo fundamental: "o medo de ser pinçado sozinho da alegre multidão, ou no máximo separadamente, e condenado a sofrer solitariamente enquanto todos os outros proseguem seus folguedos. O medo de uma catástrofe pessoal" (1).

Vivenciamos, absortos e absorvidos (mas não absolvidos) diante das nossas TVs um 'show da realidade', ou seja o reality show que está nos, subliminarmente, avisando que seremos 'inevitavelmente' excluídos. Apenas um será o milionário. 

Confirmar-se e se naturaliza que o hipercapitalismo tem suas razões e suas verdades. Não será e não é preciso que ninguém nos advirta que estamos 'nos assistindo' nos reality shows da vida. Sabemos e naturalizamos que para vencer teremos de lutar para não sermos excluídos. Já nos colocamos como pré-desfiliados. E isso ocorrerá na fila do INSS, na fila do banco, na fila da escola, na fila do espetáculo, nas filas de entrada para a Era do Acesso, onde alguns poucos selecionados podem participar do show e milhares serão seus 'tele-colegas' deste trabalho sob clausura e confinamento.

(NESSE ANO DE 2010 FOI DADO O OSCAR PARA A GUERRA AO TERROR. UM AVISO AO MUNDO DE QUE NOVOS HERÓIS DESARMADORES DE HOMENS BOMBA ESTÃO EM AÇÃO, PARA PROTEÇÃO DOS QUE, MESMO INVADIDOS, SÃO AINDA VISTOS COMO OS FRACOS PERIGOSOS QUE PRECISAM DE LIÇÕES DE BIOPOLÍTICA DO CONTROLE TOTAL DE SUAS VIDAS, PETRÓLEO E OUTRAS RIQUEZAS, POIS A ÍNDIA SÓ SERÁ AMEAÇA SE APRENDER A FAZER USO BÉLICO DA ENERGIA NUCLEAR. OS FRÁGEIS E VIOLENTADOS MENINOS E MENINAS DE QUEM QUER SER MILIONÁRIO DE LÁ SÃO SUBSTITUIDOS PELOS FORTES E BEM DOTADOS DOURADOS RAPAZES TATUADOS DAQUI...)

E onde entra a Saúde no meio deste cenário? sim, as nossas saúdes (que não serão apenas a ausência das doenças) entram na necessidade do que Viktor E. Frankl (2), a quem dedico(dediquei) algum tempo de minhas leituras atuais, afirmou de forma contundente sobre sua experiência no campo de concentração de Auchwitz: "...que o sentido da vida sempre se modifica, mas jamais deixa de existir..., podemos descobrir esse sentido na vida de três diferentes formas: 1. criando um trabalho ou praticando um ato; 2. experimentando algo (como o amor, a beleza, a verdade) ou encontrando alguém; 3. pela atitude que tomamos em relação ao sofrimento inevitável".

A mim, na minha atual condição de saúde vulnerada, me interessa a autotranscendência necessária para o reconhecimento de minhas fragilidades consideradas humanas, inclusive, com o 'direito humano' de me deixar contaminar pela 'cegueira branca das mídias globais'. É, então, diante de minha vulnerabilidade humana que precisarei estar trabalhando, micropoliticamente, pela busca de novos modos de ser e estar no mundo.

Tenho, em homenagem a Orwell, a incansável tarefa de humanizar meus atos médicos, realizando as experimentações e pesquisas, com crítica e ética, de todos os avanços que a Medicina e as Biotecnologias em que estou envolvido/capturado.

Devo tentar alcançar a proposta de Frankl, ele também médico e psiquiatra. Ele realizou com persistência e nobreza o ato da sobrevivência em um campo de concentração, reforçando que muitas vezes foi o humor, o amor aos seus semelhantes , o reconhecimento de seus algozes da SS como humanos, a resiliência e permanente busca de uma outra forma de saúde, lhe permitiu sair vivo desta experiencia crucial de vida nua, ou seja: buscar aquilo que alguns filósofos existencialistas ensinam, ou seja, tolerar a FALTA DE SENTIDO DA VIDA. 

Podemos, portanto, mesmo diante de uma situação inexorável e de nossa finitude, afirmar nossa transitoriedade vital e, com coragem e determinação, afastar o medo líquido e certo da Morte, afirmando que a Vida tem um sentido incondicional. O que nos dá um sentido às nossas vidas também dará um sentido às nossas mortes.

Por isso digo, em especial aos que ainda olham como inválidos os que se tornam pessoas com alguma forma de incapacidade ou deficiência, que a Vida vale a pena (sofrimentos criativos) e as penas (sofrimentos patológicos), quando compartilhamos de uma nova linguagem universal. Mais vale ainda se seu sentido e linguagem é propor um novo paradigma ético-estético e político para o viver (Guattari), onde tentamos ser éticos, para ser potência ativa que surge na imanência das práticas para coordenar a vida e escolher a forma de vivê-la, com profundo respeito à Diferença e os Outros. 

Mais ainda olhando com um olhar para além do olhar, um novo modo de ver/sentir estético e subversivo, rompendo, como criação e criadores permanentes, a pretensa unidade economicista do mundo capitalístico e globalizado atual; e, finalmente, nos afirmando micropoliticamente com a implicação de escolha de que modos de mundo desejamos VIVER e MORRER COM SUAVE DIGNIDADE.

A TODOS E TODAS MEU DESEJO DE UMA SAÚDE PARA ALÉM DA QUE NOS DIZEM SER NECESSÁRIO E INDICADA PARA BEM-VIVER.

jorgemarciopereiradeandrade copyright 2009-2010-2011 e ad infinitum enquanto houver saúde... TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025

Referências bibliográficas -

Na imagem publicada - 1984 - George Orwell - Companhia Editora Nacional - São Paulo, SP, 1977

https://www.duplipensar.net/george-orwell/1984-orwell-resumo.html

(1) Medo Líquido - Zigmunt Bauman - Jorge Zahar Editora - Rio de Janeiro, RJ, 2008.

(2) Em Busca de Sentido - Um Psicólogo no Campo de Concentração - Viktor E. Frankl - Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 2008 - 26ª Edição.

Fonte original:
   InfoAtivo DefNet - 4387 - 07 abril de 2010 

NOTA- OS ACRÉSCIMOS DE TEXTO AO ORIGINAL FORAM ESCRITOS EM LETRA MAIÚSCULA E ENTRE PARENTESES  EM ITÁLICO ( PARA QUE AS ATUALIDADES E ACONTECIMENTOS) POSSAM CONFIRMAR A ATEMPORALIDADE DE ALGUMAS DE MINHAS IDÉIAS E DOS AUTORES CITADOS, LAMENTAVELMENTE, A RODAVIDA RODA E A VIDA RODA APESAR DA DONA MORTE).

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