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sexta-feira, 11 de maio de 2012

MÃES, ALZHEIMER E MÚSICA.


Imagem publicada – a imagem de um homem, negro, norte-americano, de nome Henry, que faz parte de um documentário sobre Alzheimer e a Música, narrado por Oliver Sacks. Este homem me fez lembrar com emoção do que aprendi sobre a força da música em nossos corações e mentes. No vídeo trailer do documentário Alive Inside, após ouvir uma música de seu passado, Henry sai de sua apatia e posição deprimida para um renascimento (Veja link abaixo do texto). Era esse renascer do brilho nos olhos como um passe de mágica que desejei um dia: como todos os filhos de pessoas com Alzheimer, em especial uma mãe, que eles/elas retornem a nos reconhecer... Porém não somos as músicas de seu passado.

Viver pelo menos até conhecer todos os costumes e acontecimentos do homem; estender toda a vida passada – já que a futura não nos é dada; concentrar-se antes de diluir-se; merecer ter nascido; pensar no sacrifício que cada respiração custa a outros; não idealizar o sofrimento, embora se viva dele; guardar para si apenas o que não se deixa adiante, até que isso se torne maduro para outrem e se dê; odiar a morte de qualquer outro tanto quanto a própria; um dia fazer as pazes com tudo, nunca com a morte.” (Elias Canetti, Sobre a Morte)

Estender toda a vida passada pode vir a ser uma das mais importantes ações que teremos de realizar com nossas mães. E com elas fazer nossas pazes avançando contra a Morte...

Este texto é uma homenagem àquelas mães que, vivendo apenas do passado, não mais reconhecerão seus filhos no presente. Elas vivem e convivem com alguma demência. Porém como as outras nunca deixarão de sua uterina e prolífica capacidade de fertilizar a Terra...

Em suas mentes ressoam apenas belas e velhas canções ou músicas...
Tenho pensado muito em minha mãe. Talvez tentando refletir sobre o que tentei aprender-ensinar por muitos anos: é preciso aprender a deixar morrer em nós os nossos mortos. Não retornar/regredir ao útero e avançar para a Dona Morte, dizia outro Henry, Henry Miller.

A minha “uterina” mãe me retornou a mente nos últimos tempos muitas vezes. Não foi tristemente ou com pesar. Era a lembrança de seu sorriso comigo ao colo ainda um garotinho alegre lá nas Minas Gerais. A memória dela retornou, intensamente, ao assistir o vídeo com o Henry.

Publiquei e difundi, recentemente, este vídeo sobre a relação entre Alzheimer e a Música. Trata-se de um trabalho desenvolvido nos EUA, onde pessoas com demência passaram a “despertar” seus cérebros e mentes com “velhas” músicas. Através do trailer do filme Alive Inside mostra a extraordinária terapia musical feita com pacientes que sofrem/vivem com o Alzheimer ou outros tipos de demência.

Sim, há muitos anos já experimentei na prática o quanto a música pode nos manter VIVOS por dentro. Sim já havia comprovado o efeito Mozart. A música pode nos redimir, pode nos incentivar, pode nos reorganizar e pode até nos tirar de algum sofrimento “inside”...

Assim ocorreu comigo e a minha filha Luana (1994), que ao nascer ficou quase um mês em uma incubadora e lhe dei Mozart de “terapia intensiva”, com um pequena caixa de som ligada a um mini toca cds. E as suas convulsões diminuíam.

Apesar do ceticismo e a visão “científica” dos neurologistas, à época. Assim nós aguentávamos as muitas horas e os ruídos de aparelhos de sobrevivência daquela UTI neonatal. O tempo escorria com menos dor psíquica. Era a minha segunda experiência iatrogênica. Mais um filho com paralisia cerebral no meu mundo.

Um pouco desta experiência pessoal foi levada para a minha Clínica. Experimentei, anos depois (1990), a introdução de músicas na avaliação/tratamento de pessoas com diagnóstico de Alzheimer. E mais uma vez a minha mãe retornava a minha mente. Ela é que me “ensinou” o gosto pela música como paixão.

Porém o mais importante é que ela me ensinou também que poderíamos espantar nossos males com o canto. E este ditado foi colocado em minha prática com os meus “pacientes”. Um tempo que as dores e as perdas de mobilidade me afastaram. E, por enquanto, não esqueci.
Uma das músicas prediletas e autobiográficas da Dona Ditinha (esse era seu apelido carinhoso, na redução de Ana Benedita) foi a que mais me marcou nessa experiência. Talvez, imagino hoje, se escutada por ela lhe reanimasse algumas belas lembranças afetivas.
Tratava-se de uma musica cantada por Carlos Galhardo. Os mais novos nem devem saber de sua existência na música popular brasileira. É dele a interpretação original da música “Fascinação”, a mesma que depois se imortaliza na voz de Elis Regina: - “Os sonhos mais lindos sonhei – de quimeras mil um castelo ergui”...

Só que eu não tive a chance de aplicar essa ‘”musicoterapia” para a minha própria doadora de vida e música. Minha mãe recebeu o diagnóstico de demência de forma tardia, pois a sua idade precoce para o quadro não era, à época, um fato corriqueiro para a neurologia.

Eram os anos 80, onde ainda se confundia quadros mentais, demenciais, vasculares e todos eram enquadrados como ‘’arteriosclerose’’. A visão ainda obtusa da medicina não via as nuances entre os muitos tipos de demência ou quadros neurodegenerativos. Todos estavam “incluídos”, sem exceção na ideia de “morte neuronal definitiva”.

Hoje já podemos, segundo notícias, predizer uma demência até 10 anos antes dos primeiros sintomas, como a molécula PiB» (composto B de Pittsburgh) anunciada pela Universidade de Coimbra (Portugal). Hoje avançamos nas biotecnologias e na farmacologia para muitas surpreendentes descobertas. Quem sabe que caminhos ainda percorremos?

Foi-se este tempo que tratou a Doença de Alzheimer e outras demências como um processo neurodegenerativo que só recebia diagnóstico pós-morte. A máxima era que não havia medicação ou tratamentos para estas “escleroses” dos velhos.

Porém a Dona Ditinha estava no ápice de sua maturidade quando seu quadro se apresentou. Nem chegara aos seus 60 anos. E sua condição de rápida perda de memória, decrepitude física, distúrbios comportamentais, e, principalmente, a depressão emocional foram confundidos com um quadro apenas mental.

Eu, recém-formado em medicina, não pude ter a experiência que hoje já acumulei. Mas insisti sobre seu diagnóstico. Porém não basta que tenhamos um conjunto de sintomas e determinemos um nome para um sofrimento humano. É preciso alguma forma de esperança ou de promessa de pró-cura.

Quem me dera ter sido afetado, na época por esta minha experiência com a música e o Alzheimer. Não vivenciei o que depois só aprendi na prática e na pele. Escrevo hoje, mesmo nas frias e dolorosas madrugadas, embalado por música clássica.

Os sons de Corelli, Bizet, Chopin, Vivaldi, Mozart, Beethoven, e outros gênios estão me ajudando a organizar estas ideias, palavras, afetos e lembranças. Também tiram o meu foco da dor física ou psíquica. Lançam-me em outras galáxias do meu minúsculo universo subjetivo. Re-animam.

Esta é a música que desperta o Henry no vídeo, que ao lembrar-se de seu predileto compositor ,Cab Calloway, o“desperta”. Reanima em seus olhos e nas palavras o que desejei ter para presentear a todas as mães: a vontade de renascimento, de re-viver, aquilo que só os úteros entendem. Lá neles há os primórdios de nossas noções musicais com os sons placentários e do coração, assim como outros do corpo materno.

E, como Henry, eu posso então dizer que a música me dá o ‘sentimento e o sentido do amor’.

Qual é o melhor presente a ser dado às mães que não conseguem mais a lembrança de quem são os seus filhos? Talvez a melhor homenagem a lhes prestar seja lhes dar suas músicas prediletas. E, também, mesmo que estejam ausentes para nós, que cantemos suas canções, inclusive as que ouvimos para nos embalar o sono.

Espero que muitas famílias, em especial filhos e filhas, possam compreender a importância de levar seus familiares, com quadros semelhantes, em direção dos seus sons primordiais e antigos. Uma “velha” melodia, um velho long-play, um cassete jogado no fundo do armário, poderá ressuscitar milhões de neurônios adormecidos.

E, não retornando ao útero caminhamos todos e todas em direção à Morte. Há, porém que celebrar aquelas que nos deram essa chance de viver intensa e criativamente essa jornada. Há mães que superam quaisquer obstáculos.

Não devemos olhar para nossas mães, seja no ontem ou hoje, como vítimas, ou como perdas, com luto antecipado. Vejam, por exemplo, a notícia de uma mãe que, para além de seus filhos com deficiência, encontra seu próprio tempo para o trabalho e para a prática do triatlo. Ela não corre da vida e sim pela Vida, inclusive a dela.

Não precisamos transformar nossas experiências com um familiar em um penoso cuidar, ou pior um culposo e triste movimento de negação de nossas próprias vidas. Daí decorre as falsas “dedicações exclusivas”, ou melhor, excludentes e penalizadas.

Não entramos na sessão errada e nem no filme que não queríamos assistir. Esta é uma experiência vital para os que descobriram recentemente um parente ou uma mãe com este diagnóstico. Vejam a bela campanha desenvolvida em Israel. Precisamos de um pouco dessa visão compartilhada do que é se sentir desorientado, confuso e sem memórias.

De minha mãe Ana fica sua lembrança musical. Ana, que apesar do nome nunca trabalhou com a negação da vida, sempre nos estimulou para sua afirmação. Dela vêm os afetos e encontros alegres e gosto pela música.

Desde uma orquestra como Ray Conniff até uma sinfonia de Mozart, passando pela música popular brasileira. Eis minha herança, são os seus legados vitais. Poderão, talvez, ser um dia também minhas únicas lembranças afetivas?

Lamento que não tenha aplicado com ela o exercício da paz através da música para os que vivem na desorientação do tempo e do espaço, com vagas lembranças de quem eram e de quem são os seus filhos. Mas tenham certeza de que ela conseguiu-me musicalizar para a vida. E eu desejo que todos sejam contaminados pelo musi-cartografar as nossas existências fugazes.

À MINHA, À SUA, A TODAS AS MÃES O MELHOR “PRESENTE”, PARA ALÉM DAS FLORES E PRESENÇA, UM POUCO DE MÚSICA E ENCANTO, independente do que nos lembramos, ou elas se lembrem de nós....


Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2012-2013 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Notícias na Internet ligadas ao texto:

Música pode retardar Alzheimer, diz estudo
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/02/090224_musicamemoriamv.shtml

Terapia da música: filme mostra homem com Alzheimer “despertar” ao ouvir iPod
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/21129/terapia+da+musica+filme+mostra+homem+com+alzheimer+despertar+ao+ouvir+ipod.shtml

Música para tratar o mal de Alzheimer (em Brasília,DF)
http://www.youtube.com/watch?v=KhovLj8G8mI

Alive Inside - Man In Nursing Home Reacts To Hearing Music From His Era (vídeo em inglês, com a experiência de Henry “renascendo” e cantando, sem legendas, com comentários de Dr. Oliver Sacks) http://www.aliveinside.us/ 
Visitem e difundam - http://www.musicandmemory.org/

Associação Brasileira de Alzheimer - http://www.abraz.com.br/ ou http://www.abrazsp.org.br/

Sinais, tratamentos e pesquisas: tire dúvidas sobre Alzheimer http://saude.terra.com.br/noticias/0,,OI5754229-EI16560,00-Sinais+tratamentos+e+pesquisas+tire+duvidas+sobre+Alzheimer.html

Mal de Alzheimer - Campanha de conscientização em Israel (Vídeo com legendas em português)
http://www.youtube.com/watch?v=NkCco09KdKQ

Mãe de dois deficientes arruma tempo para trabalhar e praticar triatlo
http://www.expressomt.com.br/nacional-internacional/mae-de-dois-deficientes-arruma-tempo-p-12772.html

Alzheimer: molécula que permite diagnóstico recente chega a Portugal
http://www.tvi24.iol.pt/tecnologia/alzheimer-molecula-universidade-coimbra-tvi24/1343039-4069.html

Leitura indicada no texto –
Sobre a Morte, Elias Canetti, Ed. Estação Liberdade, São Paulo, SP, 2009.

LEIA TAMBÉM NO BLOG –

O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E, ENTRETANTOS, MEU PAI FAZ 102 ANOS... http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/04/o-mundo-envelhece-as-injusticas-ainda.html


ALZHEIMER NÃO É UMA PIADA, mas pode ser poesia de vida
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/06/alzheimer-nao-e-uma-piada-mas-pode-ser.html

TODO ÚTERO É UM MUNDO...
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/03/todo-utero-e-um-mundo.html

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E, ENTRETANTOS, MEU PAI FAZ 102 ANOS...


Imagem publicada – uma foto colorida que tirei lá em Minas Gerais, na minha terra natal, Cambuquira, onde se vê um vasto céu azul ao fundo, com árvores em segundo plano, todas vicejando e verdes-vivas, no primeiro plano aparecem, em destaque no céu, galhos secos e velhos que fazem parte de um árvore-envelhecida. Um detalhe nos chama atenção que é a casa de barro de um pássaro: o João de barro. É, nesses aparentes galhos que se lançam ao céu como veias e artérias, que o passarinho encontrou seu melhor abrigo e futuro protegido, e lá permanecerá até que a velha árvore caia...

“A vida é uma viagem experimental, feita involuntariamente. É uma viagem do espírito através da matéria, e como é o espírito que viaja, é nele que se vive. Há, por isso, almas contemplativas que têm vivido mais intensa, mais extensa, mais tumultuariamente do que outras que têm vivido externas. O resultado é tudo. O que sentiu foi o que se viveu...” (Fernando Pessoa através Bernardo Soares)

Estamos cansados de nossas dores? E das dores do mundo também? Qual será nossa pro-cura?

HÁ TEMPOS EM QUE SONHAMOS COM OUTRO MUNDO, OUTRA NÃO FINITUDE DA VIDA.Eis que aquela Senhora Dona Morte nos incomoda e nos toma por inteiro. Eu aqui Outro Pessoanamente dessassossegado, por mais que lhe escreva novas cartas de-vidas, ela continua ainda sem me dar as respostas definitivas. E sinto que os anos da velhice já se anunciam.

O mundo esta envelhecendo. A notícia de que me 2050 teremos muito mais pessoas idosas do que jovens me preocupa. A minha atual situação me faz pensar na transitoriedade e no fim de todos e todas.Porém há um aviso que vem junto com esta constatação da OMS: teremos triplicado também o número de idosos com demências.

Segundo a especialista: "Minha mensagem é que o envelhecimento da população é algo que deve ser abordado. Há uma mudança dramática que atingirá tanto o mundo em desenvolvimento como o desenvolvido", disse Somnath Chatterji, coordenadora do estudo Global sobre o Envelhecimento e a Saúde Adulta da Organização Mundial da Saúde (OMS.

Escrevi no texto anterior sobre a necessidade de mantermos a presença do que chamamos de nossa Mente quando se decidir sobre a anencefalia. A expectativa que me causa medo agora, quiçá até certo pânico, é essa trágica perda de contato com o mundo, mesmo que envelhecido, para os que vivenciarão este prognóstico demenciador.

Como não temer esse futuro? Talvez eu não tenha as respostas para nossos tremores e temores. As respostas sempre são múltiplas e plurais. Porém, posso tentar lhes avisar sobre algumas reflexões que já foram feitas por quem estudou e analisou essas psicologias do viver e do morrer.

Há em todos e todas as criaturas com Vida um temor ou medo da Morte e do Morrer. Eu já experimentei esse fel, ou melhor, esse doce veneno.
Principalmente quando tenho de enfrentar situações onde a injustiça ou negação de seu acesso esteve presente. Eis um estímulo final para a gota que enche o copo que já estava cheio de depressão.

Há sempre os que se supõem capazes, especialistas ou dotados de poder, que se sentem nesse lugar supremo. Os que podem mudar as leis sobre a aposentadoria, os que podem cassar e reduzir o tempo de alguns que desejam sair da vida laborativa, os que doutos se sentem para instituir o que eles próprios nunca vivenciarão: asilos, isolamentos, pauperização ou mesmo a morte solitária.

Há, então, que repensar nossos desejos de fazê-los apenas “nossos velhos”. Como no texto anterior, lembrando-se de Narayama, ainda temos de derrotar nossos preconceitos e estigmas sobre a velhice. Vivenciamos no atual modelo de vida sócio-político e jurídico, o risco de nos tornarmos uma Sociedade que pratica e praticará o “gerontocídio”.

Os que se vestem de fardas, togas ou ternos pretendentes a um lugar de eterna autoridade podem ainda causar muitos estragos nesse processo do envelhecimento da Gaia. Assim como dos nossos idosos, ou melhor, todos e todas nós...

São os que ocupam papéis de decisão sobre os rios, as matas, os bichos, os índios, as florestas, incluindo aí dos os dilemas bioéticos do nascer ao morrer da Vida. Estão, como se não fossem envelhecer, lá Câmara, no Palácio, no Senado ou nos seus supremos assentos...

Porém esses senhores e senhoras também estão envelhecendo. E, recentemente, o mundo pode assistir com uma Dama de Ferro, inglesa, após sua senectude pronunciada pode tornar-se pateticamente mais uma pessoa demenciada. Há e haverá muitas Margareths ainda na História esse mundo que caminha com passos largos para sua própria devastação.

Poderá a Terra também tornar-se “demente”? Sim e ainda poderá apresentar algumas convulsões, algumas formas estranhas de tique, e, principalmente, voltar-se para a barbárie aceitando as falsas falas de extremistas de direita como Breivik, lá na Noruega.

Tivemos esses dias mais um DIA DA TERRA. Acho que a maioria do mundo nem se mexeu na direção de sua real comemoração: a sua redenção e urgente salvamento. Esquecida a data mundial a cada dia temos mais Sírias a resolver. Temos mais malárias a combater, e a tuberculose agora é um “privilégio” de quem depende do Crack, no presente de seu aniversário. Por aqui os ruralistas e os seus interesses irão destruir mananciais.

A Terra pode realizar os filmes futuristas de devastação, solidão, medo, isolamento e completar seu desfecho abraçando-se com a Dona Morte. Ou, então, reproduzir o que a propaganda da TV já naturaliza quando, saturada, ela nos “espirra” e lança no espaço todos os seus habitantes humanos.

Mas ainda podemos crer como dizia Erich Fromm em uma ‘’revolução da esperança’’. Aliás, essa palavra já foi até associada a uma de nossas mais brasileiras maneiras de ser e sonhar. Este psicanalista, ao vivenciar a crise mundial de 1968, já apontava o nosso risco de mecanização do viver e as tecnocracias tornando-se mais forte que a esperança.

Entretanto, ele acreditava que em um renascimento do humanismo e fazia um apelo à ação grupal. Ele interrogava: “De que maneira o homem, no auge da sua vitória sobre a natureza, torna-se prisioneiro de sua própria criação e corre sério perigo de se destruir?”.

Tentando, com olhar voltado para mim mesmo, responder a sua indagação é que retornei à foto e ao dia em que a tirei. Ela é um pedaço da terra onde até hoje meu pai insiste em plantar e colher. Um homem rural que não se tornou nunca um ruralista, muito mais um fervoroso aprendiz do meio ambiente.

Ele, que agora no dia 30 de abril, completa os seus 102 (cento e dois) ANOS. O meu querido Arnaldo sempre foi um homem do mato. Ele é que levava pelas estradas que nos conduzem ao respeito à Terra, a terra e seus mananciais. Com ele aprendi serenamente a observar como semear e como tentar colher. Ele já tinha um código de ética com as florestas...

A ele estarei rendendo todas as minhas homenagens possíveis. Ele me revelou como é preciso ser “camarada” e “velho companheiro” da nossa uterina mãe Gaia. Talvez, quem sabe, este velho romeiro e caminhante tenha me trazido os primeiros ensinamentos ecosóficos. Ainda que não tivesse todos os saberes, os mesmos que me proporcionou com seu trabalho e as mãos calejadas na roça.

Aos filhos, fazendo coro com minha mãe, só um grande legado e herança: o conhecimento. Esta seria talvez uma das saídas para responder ao que indagamos. Sair de um modelo e paradigma tecnocrático e desumanizador para um novo paradigma ético, estético e político como queria Guattari.

O psicanalista também interrogava como podemos estar produzindo pessoas doentes para que possamos ter uma economia sadia. Eis que, cada dia mais, o hipercapitalismo se locupleta com as desgraças, as epidemias e os sofrimentos dos desfiliados e excluídos.

O mundo envelhece, as injustiças persistem, mas há lá em Minas um senhor com 102, caminhando para os 103 anos, que olha ainda com ternura para o futuro de seus bisnetos.

Lembrei-me de meu pai com a matéria sobre o hindu que correu uma MARATONA em 08 horas. O meu velho já caminhou muitas maratonas em sua forma humilde e mansa, sempre com uma fé incomensurável, nas milhares de romarias a pé até Aparecida do Norte, cruzando a Serra da Mantiqueira. Invejo e respeito seu fervor que supera quaisquer dores ou cansaços em nome de sua fé na Vida e nos Homens.

Como então levar um pouco desse senhor idoso para o coração e as mentes daqueles que se negam a reconhecer seu próprio envelhecimento das ideias, das emoções e de seus saberes?

A ELE DEDICO ESTE TEXTO-ESPERANÇA na crença de que muitas revoluções moleculares ainda se darão, e os nossos devir-criança nos trarão de volta o prazer de pisar na terra, no chão e nele cultivar o desejo de um OUTRO MUNDO, sem a negação da diversidade, da diferença e da multiplicidade dos seres humanos. Comecemos cuidando de todas as nossas cachoeiras e das águas que turvamos e poluímos.

Ao envelhecimento e ao processo de “alzheimerização” previsto pela OMS, desejo que possamos ter muito mais Arnaldos do que Anas. Explico, é que minha mãe vivenciou, assim como nós seus amados, a experiência do Alzheimer. Digo sempre que me encontro na encruzilhada genética destes dois seres humanos, muitas vezes caminhando mais para a direção de minha mãe. Entre a longevidade com saúde e a morte precoce com uma demência.

Decorre daí o temor de nossos futuros demenciados. Não podemos perder a esperança de outras formas de viver e super-viver. Temos de ser futuristas, porém, com um olhar e sentimento bioético para com a sua, a nossa e a VIDA DA TERRA.

E, hoje, novamente eufóricos, podemos anunciar uma revolução gerada pelas ciências, vinda lá de Portugal: “Uma equipe de investigadores da Universidade de Coimbra (UC), através do seu Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS), produziu uma molécula única - PiB (composto B de Pittsburgh) – que possibilita a detecção da doença de Alzheimer antes de os sintomas clínicos se revelarem, permitindo ainda distinguir esta patologia de outras formas de demência..;”

O futuro dependerá, então, de nossa mais profunda e radical revolução. Continuaremos mortais, nossas mentes-cérebros poderão demenciar, nossos corpos tornar-se-ão ciborgues, nossos corações podem vir a ser pura lata ou platina, mas podemos, apesar de tudo e todos, manter um pouco de sabedoria dos nossos velhos.

E que venha o Futuro, pois um século e dois anos o meu pai já VIVEU: intensa e amorosamente.

O mundo pode renascer! A Justiça tornar-se justa e equânime. E o meu pai terá feito parte do meu legado de sabedoria a deixar como semente.


Copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa)

Notícias citadas da Internet –

Organização Mundial de Saúde- Demência afeta 35,6 milhões e triplicará até 2050
http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=2413153&seccao=Sa%FAde

Em 14 anos, São Paulo terá mais idosos que crianças http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,em-14-anos-sao-paulo-tera-mais-idosos-que-criancas,533252,0.htm

Em 2050, mundo terá mais idosos que crianças http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI1543102-EI294,00-Em+mundo+tera+mais+idosos+que+criancas.html

Universidade de Coimbra produz molécula para detecção precoce da doença de Alzheimer http://www.rcmpharma.com/actualidade/id/23-04-12/universidade-de-coimbra-produz-molecula-para-deteccao-precoce-da-doenca-de-a

Homem de 100 anos completa maratona
http://www.jn.pt/VivaMais/Interior.aspx?content_id=2061898
LIVROS para reflexão e crítica –

LIVRO DO DESASSOSSSEGO – Fernando Pessoa, Vol. II, Editora Unicamp, Campinas, SP, 1994)
PSICOLOGIA DA MORTE – Robert Kastenbaum e Ruth Aisenberg, Editora Universidade de São Paulo, São Paulo, SP , 1983.
A REVOLUÇÃO DA ESPERANÇA, por uma tecnologia humanizada – Erich Fromm, Editora Círculo do Livro & Zahar Editores, Rio de Janeiro, RJ,

LEIA TAMBÉM NO BLOG:

QUEM NÃO GOSTARIA DE VIVER 100 ANOS?
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/04/quem-nao-gostaria-de-viver-100-anos.html

SEREMOS, NO FUTURO, CIBORGUES? Para além de nossas deficiências humanas
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/seremos-no-futuro-ciborgues-para-alem.html

A PARÁBOLA DA ROSA AZUL
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/05/parabola-da-rosa-azul.html

ALZHEIMER NÃO É UMA PIADA, mas pode ser poesia de vida
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/06/alzheimer-nao-e-uma-piada-mas-pode-ser.html

POR QUE AS TECNOLOGIAS NOS AFETAM?
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/04/por-que-as-tecnologias-nos-afetam.html

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A DIFERENÇA NOSSA DE CADA DIA, SEMEANDO A IGUALDADE DE DIREITOS


Imagem publicada - A foto colorida de uma escultura em formato de uma grande gota de água, pintada em cores vibrantes, com o título: A GOTA DA VIDA, que foi desenhada por alunos da Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral (APPC), em Coimbra, Portugal, com um sol amarelo e sorridente ao alto, montanhas multicoloridas, gotinhas que curtem essas belezas, uma árvore verde com frutos vermelhos, flores diferentes e de cores diferentes, e um mar azul com peixes multicoloridos em amarelo, verde, violeta e vermelho. Uma criação de pessoas com deficiência na comemoração de mais um dia importante para a preservação da vida no planeta Terra. Quem sabe um desejo ou aspiração, para além de nossas ''deficiências'', do mundo que todos deveríamos construir...

Enfim a Primavera. Comemoramos cada flor dos ipês e das muitas árvores que nos sensibilizam em seu dia. Abrem-se os coloridos cenários, como a Gota da Vida, que nos encantam. As diferenças ficam vivazes nas cores diferenciadas de cada flor, em cada árvore. Será que as outras primaveras que comemoramos em 21 de setembro também são multicoloridas? Estaremos todos reconhecendo na diversidade das nuances em cada pétala, folha ou caule; a mesma e criativa diversidade que nos compõem como seres humanos?

Não estou ''naturalizando'' nossas diferenças a partir da Natureza. Estou buscando alguma forma de aplicar essas mesmas visões multicoloridas em temas mais complexos que hoje se comemoram: o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência, o Dia da Àrvore, o Dia Mundial para não esquecer do Alzheimer, Dia do Fazendeiro, Dia Internacional da Paz, Dia para a votação da Emenda 29 (Saúde) e um dia para não esquecer da nossa História: a merecida e indispensável Comissão da Verdade.

E o que estará transversalizando estes eventos? Será que estamos em um alvorecer de uma nova Primavera dos Direitos Humanos? Ou apenas nos "iludimos" em um tempo de hiper-visão do mundo capitalista?

Estamos, como espectadores ou espec-atores, em mais uma data para comemorar ou para lembrar da Diferença? Desejo, sinceramente, que apenas estejamos, coletiva e individualmente, tentando transformar em ações algumas das nossas concepções, mudando de paradigmas. E, catalizar essa mesma força para a demolição dos pre-conceitos sobre as diferenças.

Em especial as que afetam nossas memórias históricas da Escravidão, das Eugenias, da Ditadura Militar e das Marginalizações e Exclusões Sociais. Temas que cabem muito bem em baús ou sotãos do esquecimento cultural e histórico brasileiro.

No dia 21 de setembro estão marcadas algumas ''comemorações'' em todo o País. E um bom número será de confirmação de conquistas históricas de todos os brasileiros e brasileiras. Mas o que semeamos, ou as pequenas flores ou árvores de direitos ainda precisam de muito adubo legal, muita água de mudanças e atualizações e, indispensavelmente, uma contínua avaliação dos solos de cidadania onde se enraizam e se confirmam.

Quanto ao campo das deficiências e das pessoas que as vivenciam, em suas multiplicidades de ser e estar, podemos dizer que muitos avanços tivemos nos últimos anos. Brotaram e cresceram muitas árvores e raízes legitimadoras. A começar pela confirmação de uma dupla mudança de paradigmas com a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

Ao ser ratificada, assim como seu Protocolo Facultativo, conseguimos a abertura para que seus artigos, fundamentados e fundamentadores de Direitos Humanos, pudessem estimular a ativa participação de todos na sua efetivação e avaliação crítica.

Abrimos uma grande vereda por onde se dará a inclusão social de milhares de pessoas com deficiência, em especial as que vivenciam as vulnerações do cotidiano brasileiro: pobreza, invisibilidade social, desfiliação, preconceitos e estigmas arraigados que aceleram sua exclusão e marginalização.São milhares se não forem milhões de cidadãos e cidadãs. Muitos que atravessam a realidade do que devemos defender: os direitos inalienáveis à Saúde, à Educação e à Preservação do Meio Ambiente.

O mundo em concertação na ONU, as pilastras da acrópole ateniense balançam a economia mundial, fala-se, a granel, de combate à corrupção, apela-se para a transparência com as ações dos Estados. Mas nossas ações não podem cessar sua semeadura micropolítica, sem a mesma pretensão estatal, pela afirmação de todos os direitos humanos.

Não podemos perder de vista nosso papel de pequenos "agricultores/fazendeiros/sem-terra" de revoluções moleculares em territórios menores. Será em nossas construções cibernéticas nas redes sociais? será no emponderamento de nossos movimentos de protesto e de afirmação de uma gramática civil? será em nossos conselhos municipais de defesa de direitos, capilares de um exercício de cidadania indispensável?

Escrevi para o livro Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência Comentada, e hoje reafirmo que: "... Há que ter dignidade para que possamos afirmar a vida. A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que regula o direito das pessoas com deficiência de viverem de forma independente e serem incluídas nas suas comunidades, confirma o papel dos Estados Partes, dizendo que: “ reconhecem o direito à igualdade de condições de todas as pessoas com deficiência para viverem em comunidade, com opções iguais aos demais, e adotarão medidas efetivas e pertinentes para facilitar o pleno gozo deste direito pelas pessoas com deficiência e sua inclusão plena na comunidade...”([1]).

Portanto, nessa alegoria primaveril, é urgente uma busca coletiva, para além das marchas públicas e notórias, para além de nossas petições, de uma interrogação sobre nossa compreensão de diferença e de igualdade. Não podemos nos esquecer a igualdade que defendemos para que o Direito à Vida digna seja conquistado para todos e todas. Mas não podemos perder, pela exigência de segurança social, habitação, condições de alimentação e sobrevivência com dignidade, a exigência do respeito às singularidades, às individualidades e às diferenças.

Há sempre o risco de um ''falso'' igualitarismo macropolítico nos rondando. Há sempre os que nos dizem criarem leis para nos proteger, coletivamente, mas massacrando nossos direitos individuais. Não podemos pisar nos trevos, nascendo dentro dos mínimos jardins, mesmo os mal cuidados ou abandonados, alegando que estamos preparando o solo para plantar, uniforme e homogeneizadamente, a serialização dos eucaliptos.

Eles podem sugar toda a água, e a Gota da Vida, que faz germinar a diversidade e diferença. Podemos criar desertos áridos e infecundos na pura afirmação de direitos econômicos que só alimentarão muito poucos, muitos que se tornarão os privilegiados. E a privação torna-se natural.

HOJE, 21 de setembro de 2011, com um olhar para além do olhar, hoje mais fascistante do que democrático, pode ser mais um dia para não esquecermos que todos os caminhos das diferenças, nos levarão ao que Boaventura, ao criticar a hipocrisia democrática diante das discriminações étnico-raciais, nos disse: ..."Admite que os negros e os indígenas são discriminados porque são pobres para não admitir que eles são pobres porque são negros e indígenas..." .

E que quando estes marginalizados se organizam, questionando seu status de Vidas Nuas ou desqualificadas, eles (nós) se distinguem por duas razões: "Em primeiro lugar, empenham-se na luta simultânea pela igualdade e pelo reconhecimento da diferença. Reinvindicam o direito de ser iguais quando a diferença os inferioriza e o direito de serem diferentes quando a igualdade os descaracteriza. Em segundo lugar, apostam em soluções institucionais dentro e fora do Estado para que o reconhecimento dos dois princípios seja efetivo..." [2]

Nesse momento é que devemos nos incluir nas propostas de discussão sobre as leis que, sob formato de Planos Nacionais ou Estatutos ou Leis ou Decretos. Hora e urgência, para que o lema Nada sobre Nós, Sem Nós, da Vida Independente, possa ser uma possibilidade de uma outra primavera, um outro e renovado modo de empatia e respeito à Diferença dos Outros em Nós. E a Diferença nossa de cada dia estará semeando/colherndo a igualdade de Direitos...

PS - Ah! já ia me esquecendo. Dia 21/09/11 também está sendo o dia escolhido para uma ''paralisação'' dos Médicos que atendem Planos de Saúde. Espero que os exames de laboratório que fiz não tenham seu resultado adiado, pois a sua e a minha Saúde, assim como a Dona Morte, não deixarão de se apresentar, mais cedo ou mais tarde... Torço para que as operadoras reconheçam o quanto tem explorado, economicamente, a classe médica e seus usuários, e que nós reconheçamos o quanto somos participantes dessa exploração diante do Direito à Saúde.

Desejo que a Primavera da Saúde também receba a mesma atenção e cuidado para que o SUS possa superar todos os desafios e impasses que a saúde coletiva e pública brasileira tem experimentado...
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Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011/2012 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e em outros meios de comunicação de massa

[1] Bueno, Luiz Cayo Pérez & Jimenez, Esther Trujillo, La Discapacidad como una questión de derechos humanos – una aproximación a la Convención Internacional sobre los Derechos de lãs Personas com Discapacidad, Madrid, Espanha: Grupo Editorial Cinca, S.A., 2007

[2] Sousa Santos, Boaventura - As dores do pós-colonialismo - Publicado na Folha de São Paulo em 21 de Agosto de 2006 - http://www.ces.uc.pt/opiniao/bss/163.php

CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA -
Decreto Legislativo 186/2008 - Decreto Lei 6949/2009
3ª ed- rev - Brasília - Secretaria de Direitos Humanos - Secretaria de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência , 2010.
Na internet http://www.bengalalegal.com/apresenta.php http://www.bengalalegal.com/convencao.php

A CONVENÇAO SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA COMENTADA - Coordenação de Ana Paula Crosara de Resende e Flavia Maria de Paiva Vital - Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos - Corde - 2008.
Na Internet - http://www.bengalalegal.com/comentada.php

Sobre SAÚDE indico leitura do texto RECURSOS PARA A SAÚDE de Vinicius Garcia - Blog Três Temas - http://vggarcia30.blogspot.com/

Informações adicionais:
O Dia Nacional de Luta das Pessoas Deficientes foi instituído pelo movimento social em Encontro Nacional, em 1982, com todas as entidades nacionais. Foi escolhido o dia 21 de setembro pela proximidade com a primavera e o dia da árvore numa representação do nascimento de nossas reivindicações de cidadania e participação plena em igualdade de condições...


DIA NACIONAL DE LUTA DAS PESSOAS com DEFICIENCIA
Lei Nº 11.133, DE 14 DE JULHO DE 2005
http://www.cedipod.org.br/dia21.htm


21 de Setembro: um dia para não esquecer Alzheimer!
 http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=50994&op=all

LEIA TAMBÉM NO BLOG -
PARA ALÉM DO PRECONCEITO - A CONVENÇÃO, CIDADANIA E DIGNIDADEhttp://infoativodefnet.blogspot.com/2010/12/para-alem-do-preconceito-convencao.html

ALZHEIMER NÃO É UMA PIADA -
http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/06/alzheimer-nao-e-uma-piada-mas-pode-ser.html

CARTAS de-VIDAs à DONA MORTEhttp://infoativodefnet.blogspot.com/2011/08/imagem-publicada-foto-do-ator-al-pacino.html

NOSSAS IN-DEPENDÊNCIAS DA DONA MORTE em 11/09/2011http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/09/nossas-in-dependencias-da-dona-morte-em.html

SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS COM DESAFIO ÉTICO PARA A CIDADANIA http://infoativodefnet.blogspot.com/search/label/Sa%C3%BAde%20Coletiva

segunda-feira, 20 de junho de 2011

ALZHEIMER NÃO É UMA PIADA, mas pode ser poesia de vida


Imagem publicada - uma foto da primeira mulher diagnosticada pelo médico que deu o nome à doença, Alzheimer. É uma foto cuja descrição não atingirá a força de sua gravidade e sofrimento, feita há mais de um século, da Sra. August D.; onde uma mulher de aparência depressiva e decadente, com olhar esvaziado como a sua mente e memória, vestindo uma provável roupa uniforme do Sanatório Municipal para Dementes e Epilépticos de Frankfurt, na Alemanha. É uma foto em cores ciano com uma mulher olhando para baixo, com as mãos entrelaçadas próximas do corpo, que se curva como as rugas que se pronunciam em sua fronte, anunciando um envelhecimento precoce e intensivo que lhe rouba toda vitalidade.


Maravilha-te, memória! (Fernando Pessoa)

Maravilha-te, memória!
Lembras o que nunca foi,
E a perda daquela história
Mais que uma perda me dói...


Os tempos anunciam a permanência/crença dos preconceitos. Começamos, recentemente, com a Casa dos Autistas que a mídia televisa grotescamente nos obriga ainda protestar, culminando com as piadas homofóbicas ou racistas. São equivalentes de manifestações fascistantes de deputados frustados com os novos tempos.

A hora da demolição dos preconceitos e das intolerâncias já foi anunciada. Não bastará o que chamam de politicamente correto. É o tempo de uma nova e construtiva seriedade ética, com respeito às diferenças e aos diferentes modos de ser, estar, viver, adoecer e morrer.

Por esse tempo é que me incomoda quando me dizem a frase: olha o Alemão está chegando?!, uma triste piada, já banalizada, nos diferentes meios para falar sobre Alzheimer. A vox populi já a naturalizou como uma ameaça da perda de memória. Uma perda a que, todos e todas, estamos submetidos, tanto as memórias coletivas como as individuais. Uma perda que é só um dos sintomas que anunciam uma doença devastadora.

Esta é uma referência a Alois Alzheimer (1864-1915) o médico que apresentou o primeiro caso desta demência. Ele descreveu o caso de uma paciente: a Sra August D.. No Congresso de 1906 Alzheimer apresentou sua conferência onde o definiu como “uma patologia neurológica, não reconhecida, que cursa com demência, destacando os sintomas de déficit de memória, de alterações de comportamento e de incapacidade para as atividades rotineiras".

E, apesar do século já vivenciado, esta continua sendo a descrição do ''Mal de Alzheimer''. Esta tão temida doença neurológica que ainda intriga e desafia todos os pesquisadores e neurocientistas.

O que então nos faz fazer piada de uma doença com tão devastadores sintomas e degragadação de um ser humano? Não sei a melhor resposta. Mas há uma possível implicação de nossas posturas psíquicas e históricas diante do sofrimento do Outro. Na maioria das vezes, por mecanismos de defesa, a moda de Freud, projetamos nos nossos semelhantes as nossas mais temidas fragilidades.

A memória perdida é um dos nossos mais temidos fantasmas. Eu pessoalmente os conheço desde a década de 80 quando confirmei o diagnóstico de minha própria mãe. Como muitos familiares e cuidadores conheci sua dura realidade...

Quem já vivenciou ou vivencia o convívio com as perdas que a doença produz pode avaliar por que digo que me incomodam, epidermica e profundamente, as piadas que temos de ouvir. Não sei da dor ou dos temores de outrem. Sei apenas que me causam um mal-estar e uma sensação de revolta, mas, principalmente, me refazem o temor dos que reconhecem na doença seu potencial de hereditariedade.

Aí me coloco na pele de quem não reconhece nem mesmo os que mais ama ou respeita. É quando alimento, como muitos, o desejo de uma possível solução ou cura, para além dos tratamentos atuais, que criem um horizonte, um futuro possível.

Uma matéria recente nos fala de uma região, em Medellin, Colômbia, onde os descendentes de um casal espanhol, emigrado no século XVIII, tem mais de cinco mil casos da doença. Segundo a reportagem: "Não se conhecem as identidades do homem e da mulher, mas o clã que fundaram apresenta uma peculiaridade genética: uma alteração no primeiro gene do cromossoma 14".

Aos que passam por temores por parentesco com a Doença de Alzheimer digo que esta é uma oportunidade de uma pesquisa sobre os fatores genéticos, hereditários, ambientais e sociais que podem ser desencadeadores ou as gêneses combinadas para o surgimento precoce de sintomas demenciais.

O que tem me feito bem ao meu coração escrevinhador é a possibilidade de que me um prazo de alguns anos as pesquisas trarão muitas descobertas no campo das demencias. Digo no plural pois são muitas as situações de demências ou doenças neurológicas graves que as ocasionam. O que mais conhecemos e falamos ainda é o quadro que, preconceituosamente, ainda é tratado, em especial nas mídias, como um Mal. Um mal que confirma a visão preconceituosa de temerosa criada em seu histórico secular.

Mas o que pretendem realizar em Medellin é uma experiência que transformará os descendentes do casal espanhol em um ''laboratório vivo''. A proposta é de que estes supostos portadores genéticos do ''mal'' se tornem ''cobaias humanas". O Banner Institute, uma organização americana e pioneira no estudo do Alzheimer, quer iniciar já em 2012 os testes a possíveis medicamentos para a doença.

A ideia é selecionar entre os membros do clã colombiano voluntários que aceitem servir de cobaias durante vários anos. Uns receberão um medicamento, outros um placebo. Ninguém saberá o que recebeu, e nem todas as cobaias serão portadoras da tal alteração genética. Ao fim de dois anos ver-se-á se houve efeitos, e quais.

Nesse momento é que convido à reflexão sobre a banalização do termo ''Alzheimer". Quando um grupo de cidadãos colombianos pode vir a ser transformado, mesmo que voluntariamente, em objeto de pesquisa científica é hora de muita seriedade e pouquíssimas piadas. É hora de um alerta bioético.

É hora de reflexão sobre o que entendemos como consentimento livre e informado, e sobre o uso do corpo humano, dos Outros, em pesquisas científicas. Mesmo que estas possam significar um suposto avanço contra o que vem sendo chamado de ''mal dos séculos'', mesmo que isso alimente as minhas esperanças mais íntimas...

Piadas nos fazem rir, desde tempos imemoriais, mas também podem nos fazer chorar. E uma vez que você traga dentro de si uma chaga ou temor o riso de outros pode ser apenas estímulo para que sua ''memória'' ative alguma tristeza ou afeto. E, olhando para o futuro, o que sente um colombiano que poderá ter todas as suas memórias apagadas? Ele não sabe se tomou a medicação para preservá-las ou uma pílula placebo de açúcar que terá um gosto amargo de esquecimento depois.

Convido a quem gosta de falar no Dr. Alois Alzheimer, cuja alcunha hoje é o ''alemão'', que reflita sobre este ponto de vista ético e bioético antes de repetir, reproduzir e naturalizar a sua chegada a quem se queixa de esquecer as senhas do banco ou os compromissos e datas importantes. Convido para que assistam os filmes e documentários que estão sendo indicados, que possam se sensibilizar e reposicionar sobre o assunto.

Está na hora de revermos nossos preconceitos temerosos com o Dr. Alois. Um bom exercício é lembrar a universalidade da doença. Ela atinge desde uma sul-coreana, como no filme Poesia, até um homem catalão, Pasqual Maragall, que nos impressiona no documentário "Bicicleta, cuchara e manzana". Depois disso poderemos dizer que Alzheimer não é uma piada, mas pode vir a ser um redescoberta poética de nossas finitudes.

O meu apelo é na direção da sensibilidade. As mesmas sensibilidades que me inspiram os filmes de Chaplin. O sorrisos que me produziu, e ainda produzirá, são respeitosos com as denúncias que o ator-cineasta aponta nas tragicomédias que encantaram o mundo. O que sentiria Carlitos caso tivesse de representar, para além de um vagabundo e homeless, um homem que perdesse, progressivamente, todas suas preciosas memórias?

Talvez ele nos inspirasse a reconhecer o Grande Irmão (1984) ou o Grande Ditador como uma criação coletiva de todos nós. E nos faria sorrir ou chorar, sem ridicularizar, com o infindo, heterogêneo e múltiplo da condição mortal e frágil dessa "coisa" e Vida Nua chamada Ser Humano...

Vamos nos olhar/escutar/afetar, bio-eticamente, nos nossos próprios olhos/ouvidos/afetos? Como será nos encarar nos nossos espelhos antes de contarmos a próxima piada sobre negros, judeus, homossexuais, mulheres, estrangeiros, loucos, e, principalmente, sobre quem vivencia a doença de Alzheimer?
Não se esqueça(m) de lembrar!


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19/12/1915 – Morre Alzheimer, ou não, ou sim…
http://historica.com.br/hoje-na-historia/morre-alzheimer-ou-nao-ou-sim
Cinco mil descendentes e metade tem Alzheimer
http://aeiou.expresso.pt/cinco-mil-descendentes-e-metade-tem-alzheimer=f656261

O Cinema e Alzheimer: indicações do blog
El retrato luminoso de la lucha de Maragall contra el Alzheimer llega a Brasil
http://www.google.com/hostednews/epa/article/ALeqM5ggF3k4Vs0urenA9YdcEKNS3Fz-nQ?docId=1549431

Tráiler: 'Bicicleta, cullera, poma (Bicicleta, cuchara, manzana)' - documentário de Carles Bosh
http://www.rtve.es/alacarta/videos/festival-de-cine-de-san-sebastian/trailer-bicicleta-cullera-poma-bicicleta-cuchara-manzana/880566/

Documentário emocionante sobre combate ao Alzheimer é exibido no Cine Ceará
http://cinema.uol.com.br/ultnot/efe/2011/06/14/documentario-emocionante-sobre-combate-ao-alzheimer-e-exibido-no-cine-ceara.jhtm

"Poesia": O Alzheimer num mundo cruel
http://aeiou.expresso.pt/poesia-o-alzheimer-num-mundo-cruel=f635361

Leia também no BLOG _
MÂES, ALZHEIMER E MÚSICA
 http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/05/maes-alzheimer-e-musica.html

Demolindo Preconceitos, re-conhecendo a intolerância e a desinformação
http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/06/demolindo-preconceitos-re-conhecendo.html