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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

MULHER (ES), PODER (ES) E O(S) MEDO (S)...

Imagem publicada – uma foto (de uma série) da minha janela voltada para o pôr do sol (da deusa Disis), que intensifiquei como fogo no céu, acentuando os alaranjados, os azuis e os amarelos (próximos do que amo em Van Gogh), tempo visível com a sombra dos prédios que todos os dias posso avistar de minha janela aprisionada pelo tempo visto como passado, mas que se torna uma fulgurante demonstração de como podemos rever e transver nossas próprias horas, e se torna um tempo-vida-imaginação...

...’Esqueço as horas pensando em outras horas de quem tem poucas horas ou muitas horas. Ora Hora!... Não penso nas horas; elas e que me pensam’...

Preciso do silêncio e da negação de todos os sons para tentar pensar. Outro dia fui lembrado, nas ‘altas horas da madrugada’ que precisava me cuidar com a passagem do Tempo. Lembravam-me que, humano ainda, tenho um corpo físico e uma suposta saúde a deixar descansar. Este texto, como parto prolongado, nasceu em horas sem ruídos metálicos ou zumbidos alienantes. Em horas que não cabem nos relógios digitais ou ampulhetas.

Respondi com a frase acima, relâmpago afetivo, mais ou menos, sobre minha relação com as horas. As horas são e serão sempre femininas. As horas, conforme a mitologia grega são mulheres. Seriam as mulheres de Atenas? Aquelas cuja cidadania era negada, aquelas equiparadas apenas aos escravos. Ou seriam e são as guardiãs do Olimpo que organizam a passagem das estrelas? As que trazem a fertilidade da mudança?

Na versão apresentada pela Wikipédia são: - “As horas (em grego:  Ώρες, em latim: horae) constituíam, na mitologia grega, um grupo de deusas que presidiam as estações do ano. Filhas de Zeus e Têmis eram três deusas que personificavam a ordem do mundo. Eunômia (Εὐνομία, "legalidade") representa a legalidade, a boa ‘ordem’, as leis cívicas. Eirene ou Irene (Εἰρήνη, "paz") representa a paz. Dikê ou Dice (Δίκη, "justiça") representa a justiça”.

As horas também têm suas versões latinas. São também o tempo, as estações, as passagens dos momentos, das atividades de um dia ou as épocas. Quais seriam, hoje, as épocas que vivemos ou que nos dizem ou permitem ser vividas?  Vivemos o tempo em que a(s) Mulher (es), o(s) Poder(es) e o(s) Medo(s) encontram-se na(s)  mesma(s) encruzilhada(s)?

Como disse são, hoje, agora, nesse instante fugaz, nesse segundo, quando toco as teclas das letras que elas, as horas, aquelas deusas me assombram. Permitem-me, reles mortal, a aspirar com elas ainda sonhar com utopias, com as outras invenções gregas, tal qual a democracia. Entretanto, nesse mesmo passado do relógio, a História me diz que as deusas passaram a servir a outros ordenadores burocráticos do mundo.

Onde foram parar, pelo menos nesses territórios mais próximos, agora recriadores de novos muros e novas instituições, a legalidade, a Paz e aquela que pendula entre a espada e a balança? Passaram a ser apenas servas do Estado Nação ou de um novo Estado de Exceção?

Porém, se são Mulher (es) como já escrevi nos seus Dez(s) Mandamentos por aqui, não seguem os caminhos predeterminados pelos governantes mortais. Não se tornam, apesar de nossa persistência histórica, em escravas de um Tempo dos temores e dos desamores. Não se deixam capturar, completamente, pelas novas formas sutis de colonização de seus corpos e mentes.

O feminino e seu gozo não são visíveis. Não há e nem haverá a possibilidade de sua total dominação. Nem mesmo pelas armas ou pelos exércitos ou pelas microfascistações do cotidiano e suas falsas horas. São, mesmo as mais humilhadas, ricas de outro modo de devir, outros poderes, outras desterritorializações e fugas. São e serão, mesmos as mais duras, profundamente, como as deusas, inspiradas pelas suavidades, caso contrário seus opostos se tornam soberanos.

As mulheres podem vestir togas, podem usar fardas, podem e devem cair nas homogeneizações e binarizações/dualidades. São sujeitos sociais, assim como todos os gêneros e indivíduos. Mas nenhum de seus uniformes retirará de seus corpos as suas castrações, ao contrário, podem acentuar suas falicidades. Como horas, passantes, mutantes e mutáveis, surpreendem e se surpreendem, como as heterogeneidades de formas de amar, apaixonar ou inventar. Elas são e serão uterinas, mesmo quando histerectomizadas pelos homens ou pelas novas tecnologias. Ou mesmo por outras mulheres in-vestidas de autoridade(s).

Para que continuemos a busca do feminino como liberdade, embora nos tenham levado às ilusões temerosas, cabe à(s) mulher (es) o restabelecimento do equilíbrio que as horas, não mais reificadas ou endeusadas, nos ensinaram e ensinam a desejar ir além dos permitidos. Ir além, dos preconceitos, das discriminações, dos mitos, das falácias, dos podres poderes e, principalmente do Medo.

Como, então, a partir das muitas feminilidades, das muitas multiplicidades, das singularidades e das pluralidades de ser e existir poderemos enfrentar essa Cultura do Medo? A resposta recente me veio de releituras de Espinosa e as novas de Antonio Negri sobre o filósofo polidor de lentes e mentes. De lá extrai o conceito de tempo vida e não de temporalidade. O viver como duração e não durabilidade.

Para A. Negri: “A filosofia de Espinosa exclui o tempo-medida. Ela apreende o tempo-vida. É por isso que Espinosa ignora a palavra ‘tempo’ – mesmo fixando seu conceito entre vida e imaginação. De fato, para Espinosa o tempo só existe como liberação. O tempo libertado se faz imaginação produtiva, radicada na ética. O tempo liberado não é nem devir, nem dialética, nem mediação. Mas ser que se constrói, constituição dinâmica, imaginação realizada. O tempo não é medida, é Ética...”.

O tempo é da ‘hora’ que retoma a Eunomia. Tal como o corpo feminino pode, se for libertado, se tornar o ser da revolução, da contínua escolha ética da produção. Do direito de não ser apenas um corpo reprodutor, mas aquele que enriquece o ser.

Pelos corpos que mesmo negados, ou ainda sob desmandos, ou sob midiatizações espetaculares, é que afirmo que a hora é a do ser-mulher, como forma de potência e transformação. Afirmo que, diante dos nossos desencantamentos coletivos, não nos iludamos com as organizações, mesmo as globais ou globalizantes.

A hora é a do desafio da quebra de alguns paradigmas. Macro e micropolitica-mente. A hora é do afirmar o respeitar as ‘minas’, mas tomando cuidado para pisar nas mesmas que alguns querem, belicosamente, semear em nossos caminhos e passos.

Quando, dos poderes visíveis, das ditas autoridades do alto, nos vem o anúncio de novos muros, novas discriminações, novas guerras, que muitos aqui não vêem como já existentes, as horas se tornam mais urgentes. Precisamos das outras horas, pois há sim outras deusas-horas, como Disis, que era a deusa da finalização do dia, o por do sol.

Este texto não crepuscular é um apelo, não uma alegoria, que convoca/provoca às mais poderosas e destemidas, às que podem abrir as portas de corações, podem encantar avenidas, podem desafiar ditadores, podem lançar foguetes no espaço, podem revelar verdades e desmitificar as ondas de alienação e submissão. À(s) Mulher(es) com o(s) Poder(es) de demolir(em) todo(s) o(s) Medo(s)...

(copyright/left jorgemárciopereiradeandrade 2017 ad infinitum após 2024, favor citar o autor em republicações livres pela Internet e outros meios de difusão, comunicação ou manipulação de massas... TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025 )

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sexta-feira, 29 de abril de 2016

A MEU PAI NOS SEUS 106 ANOS - O TEMPO DAS MÃOS

Imagem publicada- uma foto que fiz, em 2015, do encontro de minha mão que segura suavemente a mão que o Tempo não endureceu: a mão afetuosa de meu pai. Um filósofo pré-socrático, Anaxágoras, escreveu há milhares de séculos: 'o Homem pensa porque tem mãos...", e essa frase faz parte de meu caderno de poesias dos tempos de ginásio... Continuarei à procura desse encontro com a ternura, que depois do olhos, só se revelam, intensamente, com as mãos. E com o respeito pelo que elas podem escrever ou deixar como registro histórico ou marcas indeléveis como aquelas que só sabem obedecer, ordenar, cumprir, iludir, torturar e por fim assassinar... sejam com bombas, balas ou até canetas de tinta cheias de dores e não de amores. As mãos da foto, uma lavrou a terra quase 100 anos, a minha ainda quer deixar aqui outras sementes... me ajudem a semear...

PARA AQUELE QUE SEMPRE DISTRIBUIU O LEITE OU O AFETO, NUNCA PRECISOU ROUBÁ-LO.

Venho de muitas histórias, e muitas outras ‘’estórias’’, lá nas Minas que não são minhas nem nunca serão. Lá tenho hoje, mesmo à distância que contar um ‘causo verídico’. Contar um pouco da vida sempre resiliente de meu pai. Hoje passei o dia pensando e lhe desejando mais um ano, com dignidade e lucidez, mas também para que possa no próximo ano estar contando um pouco mais de suas sobre vivências. Quem sabe os seus bisnetos um dia o lerão.

Meu pai, embora filho do dono da fazenda e uma mulher negra,  Julia Maria da Conceição, minha avó em sua certidão, passou um bom tempo na função de empregado, de ‘retireiro’’. Aquele que cuida das vacas e delas tira o espumante leite logo cedo, antes do galo cantar. Viveu e sobreviveu um tempo que não sei dizer por lá. A sua certidão de filho bastardo só foi feita 05 (cinco) anos após seu nascimento, em 1915. Por ela agora ultrapassaria os 100 anos de vida, mas acho que já seriam suficientemente seculares as suas aprendizagens.

Há, apesar das lendas e estórias, entretanto e apropriadamente aos tempos que somos forçados a viver, uma “grande” experiência super vivida nessa época de Três Corações. Eram os anos da chamada Revolução de 1930, quando gaúchos e mineiros, insatisfeitos politicamente organizaram o Golpe que derrubou o presidente Washington Luiz, eleito, impediu a posse de outro presidente, Júlio Prestes, acabou com a “República Velha” e a “política do café com leite”, quando os cafeicultores paulistas romperam sua aliança com os mineiros. Começam aí algumas de nossas “diferenças” macropolíticas.

 O meu ‘velho’ só tinha então 20 anos, nasceu em 30 de abril de 1910. A quebra da bolsa de Nova Iorque repercutia no país. E mais uma vez em nome da ‘salvação da pátria’. Os sempre mesmos da oligarquia (governo de poucos) e das elites (os escolhidos, a escol, os mais ilustrados ou  mais espertos) geraram uma crise entre Minas e São Paulo.

Vieram então os anos 32 e ele aos 22 anos foi o único que permaneceu na fazenda. O único que não fugiu para as matas e embrenhados quando disseram que as tropas ‘paulistas’ vinham tomar o quartel de Três Corações. Como único que lá estava quando as tropas, provavelmente não muito numerosa, e com suas matracas (aparelhos que imitavam metralhadoras, já que o ‘exército’ constitucionalista não tinha nem armas e nem munições, apesar dos esforços das elites industriais de SP).

Eis então, o que pode ser parte de outra história ou estória: o único refém do ali, não muito longe do Túnel da Mantiqueira, o último bastião paulista, era o cuidador da fazenda. Segundo o que ouviu muitas vezes, até dele, sei que é não era uma invenção. Já havia lido nos livros de História sobre nossas ‘revoluções e seus golpes’.

Então, ele o super vivente, destemido, simplório, teve de cozinhar, alimentar, cuidar dos animais e ainda indicar as trilhas que poderiam levar essa tropa na direção certa. O que encontrei nas minhas pesquisas, como resumo, é que nesse tempo de guerra, que durou poucos meses, com São Paulo é que os paulistas ‘constitucionalistas’ foram derrotados pelos ‘’federalistas’’ da ditadura de Getúlio Vargas. Como se faz nos regionalismos ou separatismos: os 09 de julho passaram a ser feriado, e não os 02 de outubro, que teve aqui Campinas o último reduto paulista a se render.

E, você, seguidor ou não do blog, me leu o texto homenagem até aqui, ficará se indagando porque tanta descrição de um tempo já passado (?). Lá longe entre as Mantiqueiras, nossos crepúsculos e as águas minerais...

É que não poderia lhes falar do que mais aprendi com meu pai, principalmente ao caminhar junto dele, na beira da estrada entre Cambuquira e Três Corações, no caminho da roça, aquela que sempre amou: o exercício imprescindível, para além de quaisquer tempos ou guerras, da resiliência.

Essa capacidade de supervivência que pode até nos livrar dos sedutores abraços da Dona Morte. Um e-terno desejo de sobreviver, mas com dignidade e sem a necessidade de exterminar ou dominar o Outro. Muito pelo contrário como uma arte de buscar sempre aprender, aprender com o solo, mesmo o aparentemente árido, com a chuva que não veio, com a geada que virá, com as folhas que secam, com o frio que congela sementes ou o calor ensolarado que secará os grãos de café.

Tudo isso, história, “grandes Guerras Mundiais”, “revoluções”, “golpes de Estado”, “Ditaduras”, “Anos de Chumbo”,  “porões” e todos os mais intensos momentos da vida política brasileira puderam ser transversalizadores do Seu Arnaldo/corpo/vida, dito do Bar, mas que sempre fugiu para o chão a ser semeado, em busca de Paz com seus chamados “camaradas” do campo.

 Invejo hoje, e o confesso, a sua memória trans-lúcida do que viveu e aprendeu. Contento-me com o fato de ter podido inclusive, com ele, ter visto como se fazia a política dos tempos de UDN e dos Magalhães Pinto. Como eram vendidos, comprados e ‘santificados’ os políticos de carreira e suas promessas de campanha. Pela oposição ferrenha de minha mãe, e por seu caráter e honestidade, nunca se deixou trocar de papéis como ator social. Nunca precisou prometer o leite ou pão aos que precisavam em troca de votos.

Para ele dedico hoje minha escrita, em prosa, ainda espero o sopro inspirado de alguma poética para estes tempos onde se vende e compram até os mais legítimos votos. Tempos onde sob a ameaça de novas ditaduras ou democracias neoliberais, forjadas pelos mais vis espetáculos e midiatizações, me vejo mais envelhecido do que um homem livre de 106 anos. E, por isso, estou muito mais triste, muito mais desvitalizado do que ele.

PARA TODOS NÓS que podemos ainda respeitar os seus muitos anos vividos, sobrevividos e supervividos, deixo uma reflexão de Henry David Thoureau (1817-1862), no livro A Desobediência Civil –

“... Assim, a massa de homens serve ao Estado não na qualidade de homens, mas como máquinas, com seus corpos. São o exército permanente, as milícias, os carcereiros, os policiais, os membros de destacamentos, etc. Na maioria dos casos, não há, em absoluto, o livre exercício do julgamento ou do senso moral; ao contrário, eles se rebaixam ao nível da madeira, da terra e das pedras; e homens de madeira talvez pudessem ser manufaturados para servir aos mesmos propósitos [...] 

No entanto, homens assim são geralmente estimados como bons cidadãos. Outros – como a maioria dos legisladores, políticos, advogados, ministros e funcionários públicos – servem ao Estado, sobretudo com a cabeça; e, como raramente fazem qualquer distinção moral, podem tanto servir ao Diabo, sem ter a intenção, como a Deus. Pouquíssimos – tais como os heróis, patriotas, mártires, reformadores em sentido amplo e homens – servem ao Estado também com sua consciência, e portanto necessariamente resistem a ele a maior parte do tempo; e costumam ser tratados por ele como inimigos. Um homem sábio só será útil na condição de homem, e não se rebaixará a ser “barro” e “tapar um buraco para deter o vento”, mas  deixará esta tarefa, quando muito, para suas cinzas.” (págs.10-11)

(copyright/left jorgemárciopereiradeandrade abril de 2016 até o dia que as cinzas forem levadas pelos ventos livres... favor citar o autor e autores em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação para as massas. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

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domingo, 17 de maio de 2015

O MANICÔMIO MORREU? PARA QUE O MANTEMOS VIVO EM NÓS?

Imagem publicada- uma foto de uma pintura de Rugendas, o pintor alemão que viajou o Brasil de 1822 a 1825, retratando costumes e hábitos instituídos pela Escravidão, como na cena com título CASTIGOS DOMÉSTICOS, onde aparecem diferentes personagens, à direita vemos os senhores e senhoras da fazenda, com mulheres brancas sentadas, uma que cata piolhos nos seu rebento, outra traz um bebê ao colo, com um cachorro que pula em sua direção, outra em pé, ao lado de um capitão do mato branco, tendo ao centro o Senhor branco sentado em uma cadeira e com uma palmatória na mão, tendo à sua frente três escravos: um negro que é castigado, uma criança negra nua e uma mulher negra puxada por outro capitão do mato branco que tem um açoite nas mãos. No canto esquerdo estão, embaixo de uma árvore, observando e se distanciando da cena central, cinco outros escravos negros, apoiando-se em uma roda de carro de bois. A cena não é de um manicômio, mas sim de uma Casa Grande. A cena não demonstra encarceramentos ou correntes. A cena apenas traz o mesmo instrumento que foi usado de forma DISCIPLINAR tanto nas escolas como nos hospícios: a PALMATÓRIA. Estendam as suas mãos!

“Somos todos loucos. Alguns o sabem, outros o ignoram. A maioria teme a sua própria loucura e corta-lhe as asas” (Jacques Lesage de La Haye – in A Morte do Manicômio)

O manicômio, ou melhor, os manicômios morreram ou morrerão? Eis uma pergunta que deveríamos nos comprometer com ela. Uma implicação que temos de buscar. Um entregar-se de corpo e alma, principalmente a última, na resposta sobre nossas necessidades de encarceramento, isolamento e exclusão do Outro.

Já sabemos como se constroem arquitetonicamente colônias, hospícios e os hospitais para os alienados. A sua história, historiografia e gênese já nos foram demonstradas. A lógica e a finalidade de exclusão do que é e era considerado Loucura têm muitos escritos sobre elas. Ainda cabe um maior aprofundamento na pesquisa e no investigar sobre a sobrevivência dos manicômios em nossos imaginários, seja no individual como no coletivo?

Uma ponte explicativa possível, nesses tempos da Idade Mídia, é seu vínculo com o Poder e as Violências institucionalizadas. Naturalizadas como instituições se tornam e são demandas e tem suas gêneses em biopolíticas.  Como diz Eugene Enriquez, o poder surge nas e das instituições, esse ‘conjunto formador que se refira a um saber teórico legitimado e que tenha por função garantir a ordem e um determinado estado de equilíbrio social’.

O que são essas ditas, benditas ou malditas “instituições”? Para os que só as veem, quando querem enxergar, além dos olhos e das visões autorizadas, como os que não se sabem seus reprodutores, podemos dizer que são as modalidades cristalizadas das relações sociais, ou seja, o sistema de poder. Estão, por exemplo, nos alicerces das leis, das políticas, da educação e dos inconscientes.

Há dois dias, por exemplo, midiatizou-se uma das mais importantes das instituições: a família. Por ter também o seu ‘Dia’, milhares de postagens a homenageavam e ‘glorificavam’ nas redes sociais. Onde está a família no quadro de Rugendas? Quais são os que ameaçavam a sua estrutura e normalidade nessa pintura?

Eis, pois uma das formas sutis de nossas instituições sagradas e seculares. Não lhes atribuem ‘poder’ ou ‘poderes’ sobre nós? Elas se perpetuam por nós e para nós. Nosso quadro pintado pós modernamente é outro? Ou apenas dizemos que vivemos agora uma “nova” multifacetada e plural família? Nossos ritos e nossas tradições familiares permanecem intocáveis e imutáveis? Ou mudaram suas funções e papéis? A palmatória pós moderna virou o que? E que ninguém ouse questionar sua sacralidade.

 A sua desmitificação será, para muitos, tomada como uma demolição ou iconoclastia.  Porém, eis uma das formas instituídas que legitimaram a retirada, de seu meio e seio, aqueles que dela se desviaram ou divergiram. Muitos ‘loucos’ e outros desviantes ou transgressores de normas foram e ainda são motivo desse desejo de segrega-los, de encontrar uma instituição /organização que dê conta de sua desordem ou desequilíbrio.  Entretanto, dizemos, no passado, que a família, instituída como normal, era parte da doença, por isso poderia ser a cura dos seus loucos e suas anormalidades?

Como uma ‘grande família’, em datas especiais, devia e deve ser re-unida. A indagação que deve continuar principalmente no Dia Nacional de Luta Antimanicomial é sobre seus fundamentos e alicerces políticos, sociais e religiosos, já que se sucede aos outros Dias, se alinha às datas comemorativas de outras instituições. Bem perto da Abolição da Escravatura.

Hoje, por ser um momento de crise de governamentabilidades da Vida, recrudescem  as politicas do medo. E, saindo de suas Casas Grandes, muitos senhores e senhoras, aliadas das novas/velhas instituições, marcham em nome da pátria, da família e da moral. E de suas propriedades.

Surgem ou são inventadas novas formas de assujeitamento e de alienação. Agora com os novos aparatos e novos meios/recursos/alianças no campo da Saúde Mental? A hora é de conter, aplicar a palmatória ou incitar as manifestações contra os poderes constituídos e representativos na Política?

Diante das agitações ou das desordens, especialmente as políticas, reinventamos, primeiro, os muros, as portas e as grades visiveis. Quando institucionalizados e naturalizados se tornam invisíveis e ‘comuns’. Depois passamos às ‘terapêuticas’’ medidas de tratamento, desde o banho gelado. Hoje reapresentado como o esfriamento de quaisquer interações pessoais ou coletivas. É preciso que mantenhamos distância do Outro e da Diferença. Passamos, em seguida, pelas jaulas giratórias ou correntes. Hoje é natural e incentivado o aprisionamento eficaz em teias invisíveis e autorizadas dos espaços chamados redes sociais neo panópticas. Chegamos aos leitos de contenção e as celas solitárias. Hoje, os nossos Leitos de Procusto, foram aprimorados com os recursos tecnológicos, novas vigilâncias, novos modos de controle, novas drogas lícitas. Somos a um só tempo: Espetáculo, ou Ameaça e seu Controle.

Nesse novo cenário ou distopia, assim atemorizados ou momentaneamente heroicos, caso nenhuma verdadeira força instituinte consiga romper nossas repetições históricas, como, realmente, demolir tão sutis manicômios que não assim se denominam? Como então reconhecer nossas próprias Casas Verdes agora com novas maquiagens, novas fachadas e falsas cores? Desterritorializamos para reterritorializar? Como nos incluir nos espaços que dizemos serem ideais apenas para os que devem ser afastados de nosso convívio? Como desnaturalizar os nossos próprios preconceitos acerca do enlouquecimento e do que chamamos de ‘doenças’ mentais?

Quem sabe se nos remetermos às nossas próprias profundezas psíquicas, como em ‘cavernas de Platão’ ou ‘ tocas de Freud’, lá encontraremos nossos Totens psicanalíticos e nossos Tabus psiquiátricos. Encontraremos os nossos ‘demônios’ institucionais?

Diante dessas demonizações do Outro, como perigo ou anormalidade ou diferença,  poderíamos repensar o que estamos inventando para justificar nossas novas fascistações e velhas cruzadas para a caça às bruxas. Novos modos de produção de subjetividades amedrontadas, com temor transfundido, surgem a despolitização do viver, a banalização das violências e esse se distanciar das paixões e dos encontros. Afaste-se de mim ou cale-se.

 Agora é o momento de escolher o melhor bode expiatório e aceitar quaisquer retrocessos, até mesmo as diferentes ditaduras ou totalitarismos, sejam elas ou eles desde o que não sou Eu, me considerando normal e puro, até aqueles Outros que pensam ou desejam diferentemente, inclusive politica e ideologicamente.

Atualmente a moda e o mais midiatizado é expor esses microfascismos publicamente, com hiperexposição, pessoal ou grupal, como se fosse um desejo de “limpar a Sociedade” do Mal, da Corrupção e dos Governos...

Esquecendo-se da senzala ou dos periféricos, se tornaram naturalizadores e banalizadores de suas próprias violências, usam de todos os meios ou estratégias, até as mais vis ou covardes para vencer ou derrotar esses males. Distorcem suas realidades, vitimizam-se. Reinventam os mesmos muros eletrificados e cercas de arame farpado.

O Panóptico atual precisa de câmeras, conspirações, falsos delatores, policias grotescas e políticos mais que conservadores, racistas, homofóbicos e fundamentalistas. Revivemos os confinamentos ou as marginalizações. Agora as ‘camisas de força’ são para esses novos infames. Gritam nos seus nacionalismos de ocasião: - Cadeia neles! E os seus legisladores mancomunados exultam na criação de ‘leis mais duras’. E, para tantos novos prisioneiros não há contêineres suficientes. Então, menos medrosos, gritarão: - Viva o manicômio!

Os manicômios, portanto, como formas ocultas ou manipuladas de poder instituído, permanecem como recalque de nossas próprias pulsões e internalizações das Normas. Vivem e sobrevivem de nossas banalizações das mais cruentas e violentas formas de dominação. Alimentam-se de nossa paranoia e nossos histéricos modos de enfrentar, individual ou coletivamente, as crises e as mudanças sociais ou culturais. Um exemplo recente e cheio de instituídos ocorreu no Paraná. Mesmo com a agressão a direitos e a repressão, primeiro política e depois policial, de quem tem a tarefa de educar para o questionar e a cidadania, os nossos professores e professoras, as bombas e as balas de borracha, no meio dessa rixa, podem ser naturalizadas e autorizadas.

Por esses acontecimentos e essas reflexões é que interroguei e continuo me perguntando, motivado pelos 13 de Maio, data oficial da Abolição da Escravatura. Podemos, como exercício da desmitificação da historiografia, buscar no nosso passado da Princesa Isabel, que muitos institucionalizaram como Áurea, a história da construção das leis, desde o ‘ventre livre’ à suposta liberdade dos escravos, as formas de ‘reparação de prejuízos econômicos’ aos que utilizavam essa mão de obra dos negros?

 Então vamos relembrar que lá no Império, pressionado pela Inglaterra, encontramos os barões, condes e parlamentares senhores de terras e latifúndios. Estes foram os seus idealizadores biopolíticos. Estes construíram as ferrovias que abasteceram de Vidas Nuas, majoritariamente negras, as chamadas ‘colônias agrícolas’. Lá, também, está a nascente de todos os liberalismos e trabalho escravo que ainda não erradicamos.

Em texto de 15-05-1888, há uma pérola de discurso do Senador Dantas: afirmando que a abolição "não marcará para o BRASIL uma época de miséria, de sofrimentos, uma época de penúrias" como alguns parlamentares pensavam, porque, em 17 ANOS, 800.000 (OITOCENTOS MIL) ESCRAVOS tinham DESAPARECIDO DO BRASIL e, nesse período se notou "MAIOR RIQUEZA NO PAÍS, grande aumento de trabalho e com ele maior produção e, como consequência considerável AUMENTO DA RENDA PÚBLICA". DEFENDE AINDA REFORMAS LIBERAIS. (AS. V.I, pp 42 - 44) - no volume II, 1823-1888 - A ABOLIÇÃO NO PARLAMENTO - 65 anos de lutas - 2ª edição - pág. 506.

Transhistoricamente, nessa mesma linha dos trens, também podemos ligar, ou ‘linkar’, a construção de novos manicômios, visíveis e invisíveis, pois que a maioria dos ‘ocupantes’ dos hospícios era constituída dos descendentes ou dos próprios negros ex-escravos. Procurem nos arquivos da Loucura.

É no alvorecer do século XX que Juliano Moreira, que era negro, o nosso Philippe Pinel, consegue a promulgação de uma lei de reforma da assistência a alienados. Ele remodelou o Hospício Pedro II (1903) com a retirada das grades, dos coletes e das camisas de força. A passagem do instituído pela Psiquiatria a um novo modelo também traz o Manicômio Judiciário do Brasil em 1919. Afinal, tínhamos muitos negros alienados ou alienados negros?

Essa interrogação me traz à memória manicomial uma visita ao Franco da Rocha. O complexo manicomial que teve incendiado (2005) os seus arquivos e perdeu suas memórias. Há alguns anos atrás, com alguns médicos residentes, para os quais fui preceptor, lá estivemos, lá sentimos. Foi em uma grande mesa no caminho da ‘rotunda’ dos alienados, onde não pudemos entrar que pude ver um documento histórico que me comprovou como se pode naturalizar um manicômio.

Lá se encontra, a salvo, espero, o registro da primeira internação do hospício: uma mulher negra, pobre, que para lá foi mandada de trem no Século XIX, na inauguração (em 1898), e lá permanece ‘sem diagnóstico’ até os anos 30 do Século XX. Franco da Rocha, o fundador do manicômio e outro ‘Pinel brasileiro, afirmava que as mulheres negras, em contraponto às mulheres brancas, eram maioria por lá, devido a que: ‘estas se expõe não somente aos trabalhos como aos desvios de conduta e às extravagâncias de toda espécie’...”.

Em mim permanecerá a visão deste documento, assim como há a permanência ainda de muitos ‘remanescentes’ de sua institucionalização numa das maiores colônias psiquiátricas do país. Entretanto, a visita às suas grades e enfermarias, não extirpou todos os grilhões de minha própria formação, mas eu esperava que removesse ou abalasse os que estavam invisivelmente presos às mentalidades de meus jovens colegas.

Reflitam, assim os convido, como se instalam em nós os sutis modos de educação e de doutrinamento sobre a necessidade dos encarceramentos. Seriam ainda os resquícios da escravidão, das biopolíticas nascidas no Século XVIII, das higienizações do Século XX, das políticas de guerra e de dominação desse século XX e seus labirintos?

Não tenho ainda as respostas e nem sei se terei o fôlego necessário para busca-las. Incito, como o fiz lá no Juquery, aos mais jovens ou antigos que as busquem. Aos que me seguem e leem tenho tentado, inclusive nossos espaços enredados e hiper expositores das redes sociais, provocar alguma reflexão.

Entre estas está o uso da poesia. No dia 14 de maio, o dia seguinte, que não é o dia 18, Dia Nacional da Luta Antimanicomial assim como do Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, me propôs algumas perguntas em poema: - NOS NOSSOS 14 DE MAIO, O DIA SEGUINTE, O QUE NOS ACONTECE? OU ACONTECERÁ? 
Deixarei aos amigos e amigas docemente um novo poema indagação -

DES/ABO/LIÇÕES (14 DE MAIO DE 2015 ou será 1888)

Quem me concede a liberdade da escrita,
Aquela que faço no mais fluídos instantes,
e nos mais subterrâneos dos meus porões?
Quem me livra ou livrará desse ventre obscuro,
Ao tempo em que me torna branco por decreto,
Mas que ninguém ainda domina nem dominará?
Quem me dará como ressarcimento as novas terras,
Os novos espaços infecundos e as novas fronteiras,
Aquelas que não se delimitam e estão perdidas?
Quem me dirá ou dirão os Outros que pensam mandar
Que o sangue negro e antigo que me transborda
E trago com orgulho em mim e nessas letras,
Não se revoltará contra os mandantes tiranos um dia?
Quem me trará os novos alimentos invisíveis,
Os novos rizomas, as novas fugas e as novas semeaduras,
Que proliferam e não respeitam e nem respeitaram
As mais cruéis ditaduras?
Quem me aboliu ou abolirá dessa extensa,
Negada e ainda sutil escravatura?
E uma Eco desnorteada sussurra no ouvido do meu Narciso:
- ‘NINGUÉM, NENHUMA FORÇA INSTITUÍDA,
NENHUM ESTADO, NENHUMA DAS CRENÇAS OU IDEOLOGIAS,
NENHUMA FALSA LIBERTAÇÃO,
POIS AINDA TRAZEM APRISIONADAS,
ATRÁS DE SEU ESPELHO E MIRAGEM,
OUTRAS INFINITAS DES/ABO/LIÇÕES...
OUTRAS MOLECULARES REVOLUÇÕES’.

Por fim afirmo que há muitas loucuras em nós, pelo menos em mim.  Entretanto, como disse o autor, muitas ainda são ignoradas ou negadas, mas não deveríamos continuar as reprimindo e punindo com os muitos e imperceptíveis ardis, armadilhas e prisões, inclusive as de cunho subjetivo.

E que a desconstrução dos meus mini manicômios mentais ou inconscientes possam continuar sua jornada... E que todos e todas possamos nos aproximar/respeitar, sem medo do que são as psicoses, as neuroses, as esquizofrenias, as bipolaridades ou as depressões em nós..., aquelas que compunham a ‘Grande Saúde’ de Nietzsche e outros ‘loucos’ e ‘anormais’ da História.

E me respondam: - Os Manicômios ainda sobre-vivem em nós? Para que?

Copyright/left jorgemárciopereiradeandrade 2015-2016 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de difusão para e com as massas. TODOS DIREITOS RESERVADOS ...2025)

Matérias da Internet ligadas ao texto que postei no Facebook (algumas) –

SAÚDE MENTAL - EM PORTO ''VELHO'' - Aprovado o Projeto que autoriza a internação voluntária, involuntária e compulsória (e a palavra CAPS nem existe no texto e provavelmente na ''lei'' municipal) https://www.rondoniadinamica.com/arquivo/aprovado-o-projeto-que-autoriza-a-internacao-voluntaria-involuntaria-e-compulsoria-,92445.shtml

SAÚDE MENTAL - Deputado (Pastor) critica fechamento de clínicas psiquiátricas em Alagoas https://www.tribunahoje.com/noticia/141435/politica/2015/05/13/deputado-critica-fechamento-de-clinicas-psiquiatricas-em-alagoas.html

DIREITOS HUMANOS - Número de presos no RJ aumentou 32% em três anos, diz relatório
Em 2014, mais de 38 mil pessoas estavam presas, contra 29 mil em 2011.

Fontes históricas
JOHANN MORITZ RUGENDAS –


INDICAÇÕES DE LEITURA CRÍTICA –

ARQUIVOS DA LOUCURA – Juliano Moreira e a descontinuidade da história da psiquiatria – Vania Portocarrero, Editora Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ, 2002.

O ESPELHO DO MUNDO. Juquery a História de um Asilo – Maria Clementina Pereira Cunha, Editora Paz e Terra, São Paulo, SP, 1986.

A MORTE DO MANICÔMIO – História da Antipsiquiatria – Jacques Lesage de La Hage, Editora da UFAM – Universidade Federal do Amazonas, Manaus, AM, 2007.

A ABOLIÇÃO NO PARLAMENTO 1823-1888 -  65 anos de lutas -  Editora do Senado Federal, Brasília, Secretaria Especial de Editoração, 2ª edição, 2012.

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –

RACISMO, HOMOFOBIA, LOUCURA E NEGAÇÃO DAS DIFERENÇAS: as flores de Maio.  https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/05/racismo-homofobia-loucura-e-negacao-das.html

ALÉM DOS MANICÔMIOS - 18 de maio/ Dia Nacional de Luta Antimanicomial https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/alem-dos-manicomios-18-de-maio-dia.html

OS MORTOS-VIVOS DO HOSPICIO QUE ENSINAVAM AOS VIVOS SOBRE A VIDA NUA... BARBACENAS NUNCA MAIS! https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/10/os-mortos-vivos-do-hospicio-que.html

LOUCURA SEMPRE! DESINSTITUCIONALIZAÇÃO NÃO É INTERNAÇÃO, MUITO MENOS COMPULSÓRIA .

SAÚDE MENTAL: quando a Bioética se encontra com a Resiliência https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/10/saude-mental-quando-bioetica-se_11.html

domingo, 11 de maio de 2014

MÃES QUE NUNCA DESAPARECEM... E NÃO CONSEGUEM ESQUECER.

Imagem publicada – uma fotografia em preto branco, recuperada e digitalizada, de minha mãe, Ana, comigo no colo, com seu sorriso terno e eterno gravados em minha mente e no coração; assim como devem estar gravados, em sépia ou colorido, os doces momentos vividos que muitas mães têm como direito e memória. Mulheres que nunca deveriam ser desaparecidas em nós. Minha nova homenagem às mães que não conseguem esquecer.  Para as mães que tem no presente muito mais passado do que futuros, e que seu melhor presente seria saber onde estão os seus filhos (?).

Há mães que nunca desaparecem. Não são fadas, muito menos bruxas, são apenas mulheres re-existentes. São apenas seres humanos, sem distinção, estão para além do bem e do mal. São expressões vivas de uma ética sobre Vidas Nuas. Apenas amam e muitos nem se lembram delas.

Seriam as mães de desaparecidos?  Sim, são as mulheres, algumas que já conheci outras que aprendi respeitar.  Hoje, agora, são as muitas que não são lembradas. Onde será que a mãe de um dos Amarildos sumidos do mapa está sendo homenageada, presenteada e torna-se presença que grita a ausência cruel dos filhos?

Estarão sendo pauta de algum Fantástico show da Sociedade do Espetáculo? Agora mesmo estou pensando nelas, mas o faço por que as vi bem de perto. Conheci suas dores infinitas e suas chagas incuráveis. Olhei e tentei perceber que mulheres existiam e re-existiam dentro de seus corações feridos brutalmente. Onde encontravam tanta força, tanto desejo de verdade e de justiça?

Sim, elas existiram, e, lamentavelmente, as continuamos obrigando existir. As mães de Cláudias ou de Maio, assim como as de Sônias e Stuarts Angels, equiparam-se às avós e às mães de uma praça lá na Argentina, em Realengo, na Zona Leste ou na Maré. São da mesma fibra, do mesmo e intenso desejo de busca de quem elas ajudaram chegar a esse mundo que exige também tanta resistência. Com lenços ou com nomes escritos com sangue em suas mentes , persistem, reclamam os corpos de seus desaparecidos.   

Sejam eles ditos políticos ou não. Afinal todos são, e, infelizmente, serão politicamente exterminados. A sua presença mais forte é exatamente a sua ausência física, mesmo que seja com a sua ossada ou sua cova, rios, florestas ou mares, onde foram despojados de todos os seus direitos humanos.

Não, não são fadas e muito menos bruxas... Entretanto os Estados e os poderes, com suas biopolíticas e suas exceções, muitas vezes, até pela sua ausência legal e constituinte, justificam, a exemplo das Fabianes, julgamentos populares e justiciamentos que repetem e reproduzem o que já foi, é e ainda será o ato de torturar um corpo. Um corpo que precisaria desaparecer. E faltou pouco para que uma fogueira medieval fosse acessa...

Elas, essas mães são para muitos indesejáveis, transhistoricamente incômodas.  Com suas falas, suas presenças, suas diferenças ou suas manifestações fazem a denúncia de nossos conluios com os macros poderes.  Por isso, podem, quase sempre, lograr serem depositárias de um discurso mal dito, de um estigma e de uma chaga que se quer esconder da História.

Muitas delas, ainda vivas, mantêm-se desejantes de poderem prantear e se despedir de seus filhos mortos, uma herança que não desejaram, deixada por Anos de Chumbo. Os seus prantos ou homenagens não lhes foram, como a outras mães, permitido.

Aos que me perguntarem por que escrevo para nos lembrar dessas mulheres, sem pressa ou dúvida, responderei que há a minha própria mãe em cada uma delas. Com certeza, como parte de minha implicação, nessa História, também está a memória de uma mãe que perdeu a mesma. Somos, todos e todas, um pouco de cada uma dessas mulheres, mesmo que negando ou ao fingir esquecê-las.

A estas que trago na memória, à minha que não me deixou sem traços ou lembranças, às mães que não poderei tocar nas lágrimas, assim como àquelas que nunca lerão este texto, dedico minhas palavras, sabedor de sua insuficiência como bálsamo ou resposta.

Aos que podem ter acesso a esse texto só peço que não apaguem os nomes escritos com giz, quase ilegível pela rapidez do esquecimento, dessas que ainda buscam, reivindicam e não conseguem esquecer os filhos que lhes são desaparecidos...

Só para estas e outras mães que não esquecem dedico um poema, que espero escrever e reescrever, pois essa memória das mulheres da nossa História não poderá jamais ser esquecida.

Mãe te encontrei, como todos os dias,
O outro dia nas velhas fotos.
O papel desbotou, a imagem não era nítida,
A deusa da memória quase te apagou.
Mas, surpreso embora triste,
Encontrei o seu sorriso, as suas suaves presenças,
Relembrei os seus passos e os que tentou me indicar;
Mãe, distraído, não encontrei o bilhete que me escreveu,
O lembrete ou o aviso de que há sempre surpresas
Para quem ousa dobrar as esquinas e viver as encruzilhadas.
Sem temor ou tremor...
O velho baú de esquecimentos é de um fundo mais fundo que a memória,
É nele que muitas vezes tentamos esconder, de nós próprios,
Do Outro e da Vida, o que mais temeríamos:
Tornamos a ser não vida, não viventes, muito menos sobreviventes,
Se o teu útero mundo e desejo não tivessem me acolhido...
Pior ainda se nenhuma de suas lágrimas sobre mim derramastes.

Avanço, então, mais intenso, re-existente, 
vividamente intenso, como um devir mulher,
Avanço?
Ou avançaremos, juntos, com suas doces memórias, mais resilientes?

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2014-2015 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação com, para e de massas. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

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