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quarta-feira, 27 de junho de 2012

O AUTISMO NÃO É APENAS UMA DOENÇA


Imagem publicada – a capa de um DVD, com a imagem à direita de teclas de um piano, com uma pessoa cega e autista, de nome Rasha, com principal imagem central, e abaixo aparecem as duas personagens juntas dedilhando um piano, complementa o cenário, embaixo delas, uma cerca de arame farpado; elas são o foco do filme documentário - "Músicas do Coração". Apenas um documentário que nos conta a emocionante e comovente história sobre a relação entre uma professora de música e sua aluna? Uma mulher judia ortodoxa e uma garota palestina cega, autista e com um incrível dom para o piano clássico. Durante dezoito anos, pelo menos duas vezes por semana, em meio aos altos e baixos do processo de paz entre Palestinos e Judeus, Devorah deu aulas de piano para Rasha. Apesar de cega e autista, e grata pelo apoio e direção dado por Devorah, Rasha é capaz não só de interpretar complicadas partituras musicais, mas também compor suas próprias músicas - um extraordinário talento para além de quaisquer de suas deficiências. Uma prova viva de que o autismo não é ‘’apenas uma doença’’...

“Por praticante entendo um participante que possui conhecimento adequado de todas, ou quase todas, as unidades de significação que estão em jogo em dado sistema de interpretação... Eu era o estranho, o que não tem capacidade de fazer interpretações inteligentes das unidades de significação...” (Carlos Castañeda – in Solidão de Françoise Dolto)

Há quem não compreenda a diferença entre uma doença e uma deficiência. Muitos preferem conservadoramente que vivenciam alguma deficiência ou vivem com alguém com uma a concepção de adoecimento que durante muitos anos, quicá séculos, se aplicou aos sujeitos com alguma forma ou condição considerada deficitária.

A busca pelos conceitos mais fáceis e falsos sempre fascinou tanto especialistas como os chamados leigos. O conceito de autismo já esteve mais que impregnado pela visão psiquiátrica. Tem tido, mais recentemente, a resistência que nasce dos que são considerados Aspies, ou seja, pessoas que vivem com a Síndrome de Asperger
.
Outro dia li uma notícia que demonstrava esta resistência. Um dos hackers que andavam ou andam invadindo os sites de órgãos de segurança dos EUA é um ‘’aspie’’. Não é um spy. É um sujeito com a diagnose do espectro asperger, que invade com sua inteligência diferente os mais diversos espaços da chamada inteligência a serviço do Estado.

Os autismoS, pois prefiro continuar na visão plural desta condição, durante muito tempo foram e são um campo de domínio dos mais diferentes tratamentos e experimentações. Recorri como no passado, quando os conheci mais de perto, a outra visão. É a que me foi transmitida pelos textos de uma psicanalista francesa: Françoise Dolto.

Por força de estar convivendo em meu próprio corpo com o processo de medicalização e descoberta de algumas doenças, busquei a retomada de textos desta psicanalista em seu livro: a Solidão. Nele encontramos muitos textos curtos sobre temas que vão do desenvolvimento infantil às reflexões sobre nossas "solidões descriativas"...

O que quero trazer para os que acompanham meu blog e os novos visitantes é a interrogação já feita por Françoise Dolto: “... Então em última análise, os psiquiatras, os psicanalistas não têm o que fazer com o autismo?”, pergunta um interlocutor denominado “o Estranho’’ no livro Solidão.

Ela já tivera sido muito interrogada por outros psicanalistas na França. E sua resposta é esclarecedora do título deste texto: o Autismo não é apenas uma doença.
Diz-nos, a esse respeito “A Praticante’’ (nome dado a ela no livro como uma interlocutora do editor e dos próprios leitores a esta pediatra e psicanalista), sobre a nossa impotência curativa diante de um ser com autismo, sobre nossas incompetências: “Mas tentam. Há psicanalistas que curaram crianças autistas. Dizem que curei algumas. Permiti-lhes sobreviver a uma grande chaga, mas não acredito que sejam pessoas curadas. Em comparação com o que eram, ou seja, completamente estranhas ao circuito dos relacionamentos, chegaram a certo nível cultural, sendo às vezes moderadamente criativas. São crianças que consegui ajudar a crescer livres...”

Eu também há muitos anos atrás, como descrevi em texto anterior acho que pude ajudar, mesmo que limitado pelas instituições que me cerceavam a prática clínica, alguns autistas a serem ‘’artistas”, um pouco mais livres, um pouco mais inventivos e respeitados.

Recentemente, ao ver o documentário da HBO – Autismo – o musical, pude refletir sobre as idéias de F. Dolto. Acho que seus textos tem alguma atualidade a ser resgatada, mas com certeza ela se surpreenderia com as crianças e jovens autistas de nossa hipermodernidade.

Eles superam quaisquer destas visões de serem "solitários", "ego centrados", "incomunicáveis" ou "isolados do mundo". As iniciativas que vem sendo implantadas em todo o mundo para sua "libertação" dos conceitos e preconceitos estão gerando outras visões sobre seus "mundos mutantes e inconstantes".

Há uma confirmação da antevisão da psicanalista. Hoje sabemos mais sobre as diferenças entre seus cérebros e os de quem é dito normal. Não são circunvoluções, as dobras do SNC, que estão a mais ou menos. É a presença de outro funcionamento chamado de neurodiversidade.

Estas neurodiversidades os tornam menos ‘’doentes’’ e cada dia mais ‘’artistas’’. Hoje o orgulho dos autistas pode ser um bom exemplo para a quebra de paradigmas que precisamos empreender no campo do modelo biomédico das deficiências.

No dia 18 de junho comemorou-se o Dia Internacional do Orgulho Autista.... Estamos ainda a tempo de homenageá-los e continuar lembrando, para além das comemorações ou datas, que muitos ainda estão sob a visão institucionalizada e segregada. Muitos ainda estão sob cuidados puramente reabilitadores ou medicalizantes.

A estes devemos voltar nossas atenções. Eles, mesmo “internados compulsoriamente”, podem fazer parte algum coro ou banda, ou mesmo um bando de “selvagens de Aveyron”, que merecem a liberdade pregada por Dolto. Precisam, como recente matéria da Câmara Federal, muito mais de escolas do que tratamentos. Precisam de políticas públicas exclusivas mas não excludentes...

Nesse campo é que deveríamos procurar novos caminhos. Ainda há uma forte resistência dos espaços escolares inclusivos para com estes “estranhos no ninho”. É, em minha opinião, a presença do estigma biomédico e neuropsiquiátrico, ainda no campo da diagnose de transtornos invasivos do desenvolvimento, que justifica seu isolamento em espaços reservados somente a eles.

A psicanalista dizia que se surpreendia, muitas vezes, com o que chamava de “cura psicossocial”, lá nos anos 70. Hoje já temos a definição de sua inclusão na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006), nosso Decreto 6949/2009, os autismos como sendo “deficiências”, em algumas situações vivenciais tornam-se “deficiências psicossociais".

Assistir os documentários: Músicas do Coração e Autismo- o Musical, datados e contextualizados em países completamente dissonantes quanto a cultura e o cenário de paz ou guerra, é um convite a mudança radical de paradigmas sobre as pessoas vivendo seus autismos.

É o convite que lhes faço. É o desafio que devemos encarar quando estamos com alguma solidão descriativa a nos assolar. Estes exemplos de vida e superação nos estimulam a compreender o para além de quaisquer doenças, sejam agudas, letais ou crônicas. Ensinam a compreensão das armadilhas, inclusive da linguagem e dos termos, que nos apelidam, para mais ou para menos, de “especiais”.

Um sujeito ou sujeitos vivendo com autismos não devem ser cuidados e respeitados apenas nos seus direitos humanos fundamentais. Isto já se sabe ser indispensável. Devem ser recriados e reinventados em nossos inconscientes colonizados e doutrinados para, começando nas terminologias, lhes impor um limite às suas potencialidades humanas.

O AUTISMO NÃO É APENAS UMA DOENÇA...

Nem mesmo um campo minado ou cercas de arame farpado impedem o reconhecimento do Outro quando nossos desejos superam nossas mais profundas visões e conceitos excludentes de nossos mais próximos vizinhos ou “estranhos’’, os que denominamos “estrangeiros de mentes diferentes e diversas”...

Nem mesmo o medo do diálogo profundo com a Dona Morte deveria nos impedir de uma aproximação mais suave e doce desses seres e suas incógnitas paralisantes dos especialistas...


Copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa- TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)


NOTÍCIAS veiculadas pela Internet –


Direitos Humanos discute políticas direcionadas às pessoas com autismo https://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/DIREITOS-HUMANOS/420172-DIREITOS-HUMANOS-DISCUTE-POLITICAS-DIRECIONADAS-AS-PESSOAS-COM-AUTISMO.html

Comissão aprova criação de política nacional sobre pessoa com autismo https://www2.camara.gov.br/responsabilidade-social/acessibilidade/noticias/comissao-aprova-criacao-de-politica-nacional-sobre-pessoa-com-autismo

Problema no PL 1631/2011 - Lei do Autismo https://www.inclusaoediversidade.com/2012/05/problema-no-pl-16312011-lei-do-autismo.html

Movimento Orgulho Autista Brasil – 2012 - https://www.orgulhoautistabrasil.org.br/sistema_noticias/exibir_noticias.php?id=55

INDICAÇÃO PARA LEITURA – SOLIDÃO – Françoise Dolto, Editora Martins Fontes, São Paulo, SP, 1998/2001.

FILMES INDICADOS:
MÚSICAS NO CORAÇÃO – Coleção Holocausto e os crimes da segunda guerra – Documentário Narrado por Brooke Shields – https://www.focusfilmes.com.br

AUTISMO – O MUSICAL – HBO – documentário – Direção Tricia Regan
HBO Documentary Films: Autism: The Musical (HBO) https://www.youtube.com/watch?v=U35Uc8eg7fo

LEIA TAMBÉM NO BLOG-

AUTISMO: O AMOR É AZUL? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/03/autismo-o-amor-e-azul.html
A TERRA É AZUL e o AUTISMO TAMBÉM... https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/03/terra-e-azul-e-o-autismo-tambem.html

UM AUTISTA PODE VIR A SER UM ARTISTA COM A ÁGUA? https://infoativosdefnet.blogspot.com.br/2010/04/um-autista-pode-vir-ser-um-artista-com.html

ASPERGER, UMA SÍNDROME DE MENTES BRILHANTES OU NÃO? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/11/asperger-uma-sindrome-de-mentes.html

ORGULHOS “MÚLTIPLOS” - no combate a todos os preconceitoshttps://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/06/orgulhos-multiplos-no-combate-todos-os.html

sexta-feira, 30 de março de 2012

AUTISMO: O AMOR É AZUL?

Imagem publicada – a fotografia de uma criança, de costas, contemplando o vasto oceano que está à sua frente, com uma forte luz de crepúsculo se anunciando, iluminando o mar. Ele está sentado sobre uma rocha, qual aquela que fundamentaria nossas formas de amar. E abaixo desta foto esta a palavra AUTISMO com cada letra maiúscula em uma cor diferente, como são os autistas; com a letra A em azul,U em rosa, T amarelo, I vermelho, S violeta, M verde, O em laranja como um pequeno sol que precisamos reconhecer seus brilhos e intensidades diferenciadas, como os reconhecemos na passagem das horas e do tempo... A criança está em isolamento, isolada, solitária ou autisticamente em comunhão com a vastidão?

Homenagem ao DIA INTERNACIONAL DE CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE O AUTISMO

O amor é azul quando estou com você (L'amour est bleu Quand je suis à toi)

Nos Anos 60/70 surgiu uma música que retoma minha memória. É repleta de boas e intensas lembranças. Vivia a plena era do que chamávamos de ‘’Flower Power’’, ou seja, nos intitulávamos de hippies, roqueiros ou chamados de subversivos. Só escutávamos os Beatles ou Rolling Stones, e, apesar da contracultura, dançávamos ao som de um bom vinil orquestrado. Ainda não tínhamos perdido o Pasquim e o Millôr.

A música que insiste em voltar na minha mente é: L’amour est Bleu. É uma gravação de uma orquestra típica e famosa daqueles anos: Paul Mauriat. Esta canção orquestrada foi o fundo de muitas e românticas histórias de minha geração. Uma geração que vivia entre uma ditadura militar e o sonho de outra liberdade.

“Dançávamos” tristemente também, sob tortura, nas nossas dores físicas e psíquicas, nos interrogatórios e nos pau-de-arara,,, O amor não era então mais azul? Tínhamos de endurecer, pero sin perder la ternura...

Mas os que me leem estão se perguntando o que tem a música de Mauriat com o Autismo? Primeiramente diria que em todos 02 de abril, em todo o mundo, se comemora o Dia Internacional sobre o AUTISMO, uma data criada para que o termo e a condição de saúde possam ser mais bem compreendidos e os preconceitos serem demolidos. E a cor adotada para marcar esta conscientização é o AZUL...

Então por que uma lembrança dos Anos 60 me toma sempre que chegamos perto do dia 02 de abril? É que o AZUL, O love is BLUE, O amour est BLEU também trazem um outro tema junto com a música e sua letra. Trazem-me uma frase do psicanalista Bruno Bethelheim: ‘’ só o amor não basta’’.

Este psicanalista, que também experimentou as agruras de um período de repressão e limitações da liberdade, escreveu um livro que muitos de nós psi utilizamos nas reflexões sobre os autismos: “Love is not Enough: The Treatment of Emotionally Disturbed Children”. Ou seja, para o tratamento de crianças com distúrbios ou desordens emocionais "só o amor não basta".

Bethelheim fez sucesso no mesmo período de Paul Mauriat. Mas suas experiências na Escola Instituto Sonia-Shankman em Chicago para crianças psicóticas, em Chicago, construíram um dos primeiros mitos sobre os autistas e suas famílias. É dele a teoria que as mães do tipo "geladeira", ou seja, estereotipadas e diagnosticadas como distantes e frias, em seus afetos confusos com seus bebês, seriam as responsáveis pelos quadros de autismo ou psicose infantil. Incapazes de amar?

Essa teoria perdurou por alguns anos. Em meados dos anos 80 começou a ser questionada e demolida, por falta de fundamentação experimental e científica. Mas a ideia de culpabilização dos familiares perdurou. Ainda há os que veem nos familiares a principal gênese dos diferentes transtornos invasivos do desenvolvimento.

Bastaria que utilizássemos as ideias de outro psicanalista, no caso Winnicott, para repensar as teorias de Bethelheim, para quem a disciplina era um dos meios e métodos de cuidado com as crianças consideradas autistas. Para o psicanalista inglês as mães não são necessariamente perfeitas ou imperfeitas. E, por sua experiência prévia como pediatra, além dos casos que cuidou, bastaria que fossem "good enough mothers". Ou seja, mães suficientemente boas...

Winnicott indagou, com precisão, se o conceito de autismo não se deu como uma ‘’invenção’’. Foram os conceitos de Kanner, Spitz, Bethelheim que tornados ‘’verdades científicas’’, mesmo sem a devida comprovação, que forjaram sistemas de pensamento que dificultaram ou impediram a construção de novas cartografias sobre os sujeitos submetidos aos diagnósticos de autismos. E daí para suas institucionalizações foi dado um simples e pequeno passo...

É aí que indago sobre a visão romântica que precisa ser desmitificada sobre o universo das famílias e das pessoas com autismo. Já escrevi que uso o termo no plural, ou seja, autismos, para revelar as diferenças e as nuances de cada sujeito que os vivencia. Temos de abrir, da forma mais ampla possível, nossas percepções e conceitos sobre estas vidas e seus transtornos. As pessoas que os amam, ou não, também são plurais...

Mas o nosso amor pode se tornar AZUL no contato com pessoas que vivem e super vivem os autismos? Já expliquei este contágio em texto anterior descrevendo minha experiência em psiquiatria com um jovem com autismo. Ele me ensinou os primeiros passos questionadores da práxis do cuidado de diferentes transtornos invasivos do desenvolvimento.

Na minha experiência guardada com muito afeto ainda tenho aquele artista da água bem fundo no meu corpo e vida. A presença da frustração e dos milhares de sentimentos que um autista nos desperta me ensinaram, e ainda preciso aprender mais, sobre o respeito as sua singularidades. Não é fácil aprender a amá-los em suas multicoloridas formas de ser e estar.

Portanto, retomando o texto de Bethelheim, talvez endurecido por suas passagens por torturas e privações em campos de concentração nazista, criou-se um mito sobre o amor dos autistas, de suas famílias, e, em especial, das mães. Para elas é que escrevo e dedico, também, esta reflexão.

Precisamos lembrar os outros que estão por trás destas mulheres. Parodiando o poeta Whitman diria que estão por detrás delas também "grandes homens". Há hoje os milhares de pais que são suficientemente bons. Estes também merecem nossas homenagens e nossos doces abraços.

Por isso, no dia da conscientização sobre os autismos vamos lembrar também dos que se dedicam de ‘’corpo e alma’’ na defesa dos direitos de seus filhos, assim como dos filhos de outros, independentemente de seus ‘’diagnósticos’’. Estes são os que já compreenderam a necessidade de ir além do amor. Compreenderam que ele é Azul e fundamental.

Mas só o amor não basta, é preciso, hoje o reconhecimento e a realização dos direitos humanos de pessoas com autismo...

Podemos tentar é ampliar a ‘’máquina do abraço’’ de Temple Grandin, reconhecer a multiplicidade etiológica destes transtornos, avançar no reconhecimento de sua pluralidade sintomatológica, não reduzir aos esquemas biologizantes de algumas teorias, não simplificar e naturalizar, retomando as velhas teorias psicanalíticas e seus teóricos, o que é tão vasto como a Terra...

Não é só o cérebro de um sujeito com autismo que é maior. São também maiores as suas formas de comunicação apesar de ainda estarmos engatinhando na sua compreensão e tradução.

Por isso repito mais uma vez: A TERRA É AZUL e o AUTISMO TAMBÉM.... o meu coração anda cantando em azul, e dia 02 estarei vestindo essa ‘’romântica’’ cor. 


Por falar em direitos, uma última pergunta: quantos são, como vivem e como vem sendo cuidados/assistidos/educados/tratados/institucionalizados/incluídos ou excluídos, e, principalmente, amados os autistas e os autismos no Brasil?

Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2012-2013 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa. TODOS DIREITOS RESERVADOS)

PS - Não podemos esquecer do Dia Internacional de conscientização e "saída das sombras" das EPILEPSIAS - O "PURPLE DAY", pois que os sujeitos com epilepsia também vivenciam os mesmos processos de exclusão, estigma e estereótipos das diversas formas de transtornos invasivos de desenvolvimento. Foi no dia 26 de março, uma data também muito especial para mim...eu nasci, e Beethoven morreu.

SOBRE O TEMA NA INTERNET –

Paul Mauriat: ♫ L'Amour est bleu (Love is Blue) ♫ 
https://www.youtube.com/watch?v=Z3nzFCESeME
Sucesso de Paul Mauriat e sua orquestra em 1968, "L'Amour est bleu" ("Love is Blue") é uma composição de Pierre Cour e André Popp, que a gravou originalmente em 1967. A canção foi enorme sucesso não só na França, mas também em vários países do mundo, e recebeu inúmeras gravações, como as de Caravelli, Claudine Longet, Clementine, Gabor Szabo, Jeff Beck, Los Indios Tabajaras, Michel Fugain, Michele Torr, Ray Conniff, Richard Clayderman, Sandpipers, Santo and Johnny, The Dells, Vicky Leandros...


Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo https://www.mundoasperger.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=79:dia-mundial-de-conscientizacao-sobre-o-autismo-&catid=38:artigos-&Itemid=55


Bruno Bettelheim https://pt.wikipedia.org/wiki/Bruno_Bettelheim

1 in 88 kids have autism in the US: CDC
(1 em cada 88 crianças têm autismo nos EUA: Segundo o CDC) https://theautismnews.com/2012/03/29/1-in-88-kids-have-autism-in-the-us-cdc/
ss
Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista - https://www.senado.gov.br/atividade/materia/getPDF.asp?t=92246&tp=1

Programação alusiva ao Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo – Fortaleza https://www.inclusaoediversidade.com/2012/03/programacao-alusiva-ao-dia-mundial-de.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+inclusaoediversidade+%28Inclus%C3%A3o+e+Diversidade%29

Purple Day, dia mundial de conscientização da epilepsia no mundo pela primeira vez no Rio de Janeiro https://www.revistafator.com.br/ver_noticia.php?not=197073

Livros citados no texto e indicados para leitura:

SÓ O AMOR NÃO BASTA – Bruno Bethelheim, Editora Martins Fontes, SP,1976.
AUTISMO – Clinica Psicanalítica , Ana Elizabeth Cavalcanti e Paulina S. Rocha, Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, SP, 2001.

LEIA TAMBÉM NO BLOG:
A TERRA É AZUL E O AUTISMO TAMBÉM https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/03/terra-e-azul-e-o-autismo-tambem.html

UM AUTISTA PODE VIR A SER UM ARTISTA COM A ÁGUA? https://infoativodefnet.blogspot.com/2010/04/um-autista-pode-vir-ser-um-artista-com.html

ASPERGER, UMA SÍNDROME DE MENTES BRILHANTES OU NÃO? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/11/asperger-uma-sindrome-de-mentes.html

FREUD E A "INVENÇÃO" DA PARALISIA CEREBRAL https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/09/freud-e-invencao-da-paralisia-cerebral.html

O RETORNO DA INTEGRAÇÃO PELA INCLUSÃO: novos muros nas escolas, fábricas e hospitais... https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/12/o-retorno-da-integracao-pela-inclusao.html

ORGULHOS ´MÚLTIPLOS' - no combate a todos os preconceitos https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/06/orgulhos-msultiplos-no-combate-todos-os.shtml

quarta-feira, 29 de junho de 2011

ORGULHOS ´MÚLTIPLOS' - no combate a todos os preconceitos


imagem publicada - Um cérebro,com seus dois hemisférios, visto de cima com suas circunvoluções coloridas de diferentes cores e matizes, trazendo a frase a seu redor: Every Brain is Beatiful (Todo cérebro é belo), que é uma imagem utilizada no Autism Pride Day, ou seja o Dia do Orgulho Autista, quando autistas norte-americanos, em 18 de junho de 2005, afirmaram: "Não nos tratem como "doentes”. Somos diferentes, sim. Mas não precisamos de remédio ou de cura, mas de uma chance de sermos nós mesmos..." (http://neuropride.livejournal.com/) . Esse cérebro ''diferente e colorido'' traz as cores do arco-íris, alusão a um símbolo hoje do direitos de pessoas LGBTT, com vermelho, amarelo, verde, azul e laranja reforçando a noção de diversidade de modos de ser e estar em nosso planeta Terra, também multicolorido.

"Da Igualdade - como se me incomodasse dar a outros as mesmas oportunidades e direitos que tenho, como se para os meus próprios direitos não fosse indispensável que outros também os tivessem", Walt Whitman (1819-1892) - Folhas das Folhas da Relva


Na continuidade da busca de demolição de todas as formas de preconceitos e discriminações, assim como homenagem, mesmo que tardia ao Dia do Orgulho Autista, pensei bastante sobre os múltiplos orgulhos que passamos a comemorar. E me perguntei por que temos de ter ainda ORGULHO? me lembrei da leitura afetiva dos primeiros textos de Frantz Fanon. Os mesmos textos que me despertaram o que é o Orgulho Negro. Hoje digo que ele está englobado pelo Orgulho Afrodescendente, em homenagem a um novo olhar contra todos os racismos. 


Mas que orgulho é esse? é apenas brio ou reatividade à alguma forma de segregação ou humilhação que foi sofrida/inflingida aos meus ancestrais? Não, é o orgulho que passamos a ter quando nos identificamos, nos re-conhecemos e nos damos o direito à uma diferença. Como nos dicionários é quando passamos a 'ter um elevado conceito de si mesmo'. Ou seja re-existimos diante de qualquer forma, tipo ou ação preconceituosa.

É quando nos incluímos antes mesmo que nos ofereçam uma inserção condescendente ou por culpa. Cuidamos para não colar mais na nossa pele nenhum rótulo, estereótipo ou estigma. Nos orgulhamos, enfim, do que somos, como somos e por que queremos/desejamos ser/estar múltiplos ou singulares. E comemoramos publicamente, seja em Maio ou Novembro,e agora em Junho. 

No dia 18 de junho comemoramos o orgulho de quem vive com um transtorno: o Autismo. Depois, com uma das maiores manifestações de massa, a Parada do Orgulho Gay, de São Paulo,comemoramos os que escolhem, experimentam, se orientam e vivem como Lésbicas, Transsexuais, Bissexuais,Transgêneros, Homoeróticos, Travestis, Gays, e outras formas de ser e estar que são aglutinadas, respeitadas suas diferenças, sob a sigla LGBTT. Já conseguiram sua replicação para além de São Paulo e afetaram todos os cantos do Brasil. Faça chuva ou sol, sem temor de quaisquer repressões policiais ou políticas do passado.

O movimento de Orgulho Gay nasceu de uma afirmação de direitos civis nos EUA. O Gay Pride Day tornou-se um dia para marcar a conquista dos mesmos direitos que todos os outros cidadãos e cidadãs tinham, têm e terão. O movimento de orgulho gay começou após a Rebelião de Stonewall em 1969, quando os homossexuais em bares locais enfrentaram a polícia de Nova Iorque durante uma disputa inconstitucional. A afirmação de direitos foi a progressiva conquista resultante de Paradas que estão sendo realizadas anualmente até hoje. O orgulho passou a ser afirmação contrária à vergonha imposta pelos preconceitos contra a homossexualidade e outras formas de viver as sexualidades humanas.

Assim como os homossexuais, também os autistas foram e ainda estão sob a preconceituosa visão biomédica de serem apenas ''doentes''. E, apesar de já se ter esclarecido que ambas condições devem ser, hodiernamente, compreendidas como apenas formas diferenciadas de orientação sexual ou de funcionamento do SNC (Sistema Nervoso Central) há um olhar preconceituoso que os discrimina.

O movimento Aspies for Freedom gerou a iniciativa do Dia do Orgulho Autista. Este grupo milita pelos direitos das diferentes formas de autismo, buscando a educação e publicação de esclarecimentos, bem como a conquista de políticas públicas dedicadas para estes sujeitos, tendo como combate principal a genêse de todos os preconceitos: a ignorância.

Os preconceitos, biopoliticamente, como formas exclusão, controle e poder, podem ser assemelhados aos Impérios. Estes recrudescem, enrijecem e envelhecem nos estertores de suas quedas. Tornam-se mais ríspidos, grosseiros, violentos e, defensiva e consequentemente, mais brutais. Desses processos naturalizados e institucionalizados nasceram, historicamente, muitas ditaduras e ditadores. 

Estes herdeiros de tempos imperialistas no temor de que suas práticas macropolíticas e suas ideologias fossem demolidas, com a retirada de cada tijolo ou pedra de seus alicerces, aprenderam, com o tempo, a construção de Muralhas. Para alguns ainda deveríamos construir espaços segregados para autistas ou homossexuais, com muralhas invisíveis que nos protejam das fobias que despertam, em nós, diante de suas diferenças consideradas ''extravagantes'' ou ''fora das normas ou padrões''.

Estas são como as Muralhas da China de Kafka. Porém, com o tempo, tornam-se-ão prisioneiros de seus próprios cerceamentos, com fragilidades que reforçam seus engessamentos institucionais. No Brasil estamos assistindo o espetáculo proporcionado por representantes políticos e radicais religiosos contra todas as mudanças de paradigmas. Reagem de forma agressiva a qualquer mudança, principalmente quando estas autorizam a inclusão nos mesmos direitos os que por suas ideologias devem continuar em segregação.

Em muitos momentos nos sentimos orgulhosos nos novos tempos de Marchas e de Liberdades. Nos sentimos e nos autorizamos a sentir orgulhos que possam ser expressados ''publicamente". Por isso um dia para comemorar qualquer forma de Orgulho de ser ou pertencer é um dia muito especial para quem o vivencia. Na compreensão psicanalítica de Frantz Fanon, um homem martinicano e negro, só quando trabalhamos as alienações que são produzidas em nossas subjetividades é que começamos a nos libertar do que colonizou nossos inconscientes.

Como os ''multiplos orgulhos'' sendo cartograficamente exercidos também nos libertamos das formas como nos propõem, no social, a incorporação de modelos identitários que neguem as singularidades e as diferenças. Quando, caminhando e cantando, com garra e determinação, individual ou coletivamente, compartilharmos novos espaços de liberdade. Espaços que, segundo Toni Negri em carta a Guattari, situam-se no intervalo entre o poder e o saber, o espaço onde o amor, com o concebe Spinoza, pode ser a melhor ligação entre eles.

Por isso o tema da Parada Gay é instigante: Amai-vos uns aos Outros... Hoje, constitue-se para além dos conservadorismos religiosos ou dos falsos guardiões da moral, um espaço livre para a visibilização social desses cidadãos e cidadãs orgulhosos de suas orientações sexuais.

Com as recentes conquistas de direitos para pessoas LBGTT, que vão da união estável ao uso do nome social, também estão em movimento conquista de projetos de Lei para garantir a inclusão de autistas no campo educacional, protegidos pelos mesmos direitos que já dispõem as pessoas com deficiência. E conquistarão mais políticas públicas dedicadas aos chamados transtornos do espectro autista caso seja aprovado o Projeto de Lei do Senado de número 168. 

E desejo que este número nos relembre um ano de grandes mudanças culturais e de transformações políticas, quando muitos de nós acreditávamos em um outro mundo possível, com o Sol sob o asfalto e gritávamos, contra todas as ditaduras e preconceitos: queremos apenas Paz e Amor.

Estamos agora cantando, novamente, como uma nova revolução molecular em ação, aos quatro cantos da Terra, em alto e bom som: Gay is Beatiful e Every Brain is Beatiful. E o novo paradigma ético e estético guattariniano se fará um rompedor das muralhas dos preconceitos redividos... 

Em meus recônditos da memória continua o meu orgulho singular, na voz da saudosa Elis Regina: Black is beatiful... e quero continuar tendo o direito a ter meus ''múltiplos'' orgulhos...e repito Walt Whitman: "...como se para os meus próprios direitos não fosse indispensável que outros também os tivessem'' .


copyright jorgemarciopereiradeandrade 2010/2012/AD INFINITUM  (favor citar o autor e fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Fontes para informação:

Dia do Orgulho Autista - https://pt.wikipedia.org/wiki/Orgulho_gay


Hoje é Dia do Orgulho Autista - conheça melhor esse transtorno https://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2011/06/27/hoje-e-dia-do-orgulho-autista-conheca-melhor-esse-transtorno/

Orgulho Gay - https://pt.wikipedia.org/wiki/Orgulho_gay

Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista - https://www.senado.gov.br/atividade/materia/getPDF.asp?t=92246&tp=1

Referência bibliográfica -
Os Novos Espaços de Liberdade
- Félix Guattari&Toni Negri - Centelha Ed. - Coimbra - Portugal, 1987.


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