Mostrando postagens com marcador Banalização da Violência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Banalização da Violência. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de julho de 2014

FUTEBOL, VÉRTEBRAS, CLONES E TRANSFORMERS – A PRODUÇÃO DO ESPETÁCULO DA VIOLÊNCIA.

Imagem publicada- foto da maquete tridimensional de propaganda do filme, recém lançado: Transformers 4, a Era da Extinção, onde  ‘caminhões-robôs’, são transformam em gigantescos e super armados Autobots e Deceptions, que hora defendem ou ameaçam a Terra e os humanos de sua extinção e aniquilamento total. Essa versão de número 4 inclui também o retorno de míticas figuras, como da foto, de monstros pré-históricos, qual dragões aliens ou dinossauros hipermetálicos, que são os meios de ataque ou de destruição a serem combatidos. Na foto há um robô  hipermetálico “cavalgando” uma dessas feras, dessas bestas deste Apocalipse, um Tiranossauro futurista, com vértebras de aço ou titânio. Entretanto tudo acontece, segundo a sinopse do filme porque: “um grupo de cientistas e empresários que buscam aprender com as invasões passadas dos Transformers, acabam levando a tecnologia a limites para além do que eles podem controlar...”. A utilização dessa imagem é uma aproximação da influência que estas ‘feras’ têm de humano. É a constatação de como, cada dia mais, o ato violento é legitimado, naturalizado, inclusive para supostas defesas patrióticas contra os ‘alienígenas’ ou quaisquer um que se torne, ou seja, tornado uma ameaça ou oponente... Como diz o cartaz: ‘agora não é guerra, é a extinção’. É o matar ou morrer. Na ficção naturaliza-se a tele visão da banalização da violência, em qualquer campo, inclusive os de futebol.

“Há diversos aspectos violentos, diretos ou indiretos, de caráter mais geral que ocorrem no futebol, mas não são exclusividade dele. Vejam só: o tráfico de drogas e de armas, o alcoolismo, a corrupção, a impunidade, a homofobia, competição excessiva, opressão, covardia (inclua-se o racismo) são práticas de violência que acontecem no futebol” (Maurício Murad, pág. 220).

Os jogadores do futuro usarão novamente armaduras ou camisas hiper tecnológicas? Ou duras armas letais que nos saciaram as nossas buscas de superação de nossas finitudes? Serão imbatíveis, heroicos, incansáveis, insensíveis, insípidos e, principalmente, indestrutíveis, como se fossem verdadeiras máquinas de fazer gols, mesmo que para isso fosse preciso passar como um trator sobre o outro que não veste a mesma camisa? O gramado que era verde poderá se tingir de vermelho, sem passar pelo amarelo?

Escrevi ontem, após mais um jogo da Copa do Mundo: “#NEYMAR EU SEI O QUE É DOR - PELA NÃO NATURALIZAÇÃO E BANALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA DENTRO E FORA DO CAMPO - Neymar tem um FRATURA DE VÉRTEBRA (após anúncio “oficial”, via televisão, com  lesão na região lombar, da vértebra L 3,  para mim como agressão intencional), e Zuniga (jogador da Colômbia) nem remorso têm de sua deslealdade e violência? VALE TUDO.... UFUTEBOLCLUBE - UFC? Ou será apenas o UtilitarismoFIFAcomCerteza?

Há quase um ano atrás, por vários motivos, inclusive as manifestações das ruas, interessava-me questionar a produção social das violências. Estava atendendo a um pedido que me veio para um artigo sobre o que é Violência Social? Vinha lá da África, onde violências são, como aqui, parte do cotidiano. Logo de princípio reuni os livros que tinha sobre o tema. Um deles agora me incomoda e convida a relê- novamente: A Violência no Futebol, dele sai a citação lá em cima.

Não estaria escrevendo agora, com o sol já nascendo e me iluminando, ontem a noite dolorosa e a madrugada insone me colocaram em total implicação e empatia com um jogador de futebol: Neymar. E, graças à insônia e a inquietude diante da violenta cena de um “joelhaço” premeditado, resolvi provocar nas redes sociais uma fagulha de indignação, de revolta, mas também de reflexão. Valerá uma taça tantos “heróis”, suas vértebras ou mitos quebrados?

Vi, recentemente, um pequeno desenho animado com os jogadores sendo substituídos por CLONES: PERFECT, como propaganda da NIKE, que no Brasil recebeu o nome de o “ÚLTIMO JOGO”, como parte de uma série #arrisque tudo. Nela os grandes jogadores de futebol do mundo seriam substituídos por seus clones.

E Ronaldo, o fenômeno que negou a Copa, é encarregado de dizer aos ‘verdadeiros’ originais: “_ Vocês fazem o jogo, vocês não tem medo de arriscar... lembrem-se que vocês jogam como se fosse um jogo... eles jogam como se fosse um emprego...”. Mas como vencer um jogo contra nossos próprios espelhos? Contra nós mesmos?

 E, ironicamente, sabemos qual é o preço de cada um desses “corpos”, volantes ou atacantes, no mercado, ou não?

Mas não é o seu valor de mercado que está em questão para mim. Já se naturalizou a frase: a vida (útil) de um jogador é curta. As suas pernas e seus passes serão precocemente exauridos. E o seu corpo-jogador será aposentado. Nós também ‘penduramos as chuteiras’? Sim, em outras condições e por outras perdas, assim como outros mínimos valores. Eles, entretanto, serão ‘eliminados’, ou em breve substituídos, após contusões, lesões e vértebras fraturadas? As suas carreiras, à exceção de alguns Garrinchas, podem ser “transformadas”.

O que poderá acontecer, por exemplo, com os que mordem, atropelam, violentamente ou ‘’falso intencionalmente’’, deixam seu corpo quebrar o desses outros, os que mais ganham, tanto sucesso como dinheiro, quando são driblados? Perguntem ao uruguaio Luiz Soares ou ao colombiano Camilo Zuniga, um deles já está com um contrato de 75 a 90 milhões de euros com o Barcelona.

Como eles vão vencer os ‘clones’ perfeitos? Tornar-se-ão avatares de clones criados para eliminar quaisquer adversários, com dentadas ou joelhaços. Vale tudo. Diz a propaganda da Perfect Nike: “vocês arriscam tudo... TUDO... para VENCER”, custe o que custar, inclusive o sacrifício espetacular dos seus ou dos corpos de outros jogadores.

 CORPOS VIDAS NUAS como os dos gladiadores, na neo-arenas, nos gramados ou competições, treinados para reações, em breve, aos seus pés, braços ou cérebros com chips implantados, assim como os que já existem dentro das bolas. Tornam-se máquinas, robôs ou seres trans humanos que poderão ser controlados e manipulados a bel prazer dos interesses, desde os macropolíticos até os empresariais/industriais do futebol. É só vestir uma camisa com novas tecnologias já idealizadas, com microfones, microcâmeras, e, quiçá, com possíveis monitoramentos dos movimentos e até das emoções dos competidores.

A comparação de jogadores com neogladiadores, tão sutil e presente, virará realidade? Já questionei em 2010 essa onda crescente de naturalização e banalização do que acontece dentro dos estádios, desde tempos ditatoriais. A ideia de que é natural em um ‘esporte de contato viril’, jogo para machos escolhidos a dedo, se confrontarem até o ‘mata-mata’, revela os significantes necessários para a análise do que é vir a ser o ‘campeão nas arenas’.

A violência no futebol também é a “do” futebol. Apenas uma representação de um fenômeno considerado social, e, portanto, também um fenômeno humano. Entretanto se o vislumbramos como uma “paixão coletiva”, conforme se reforçam nos mitos, aí temos de lembrar-se das arquibancadas, dos torcedores.

Nesse campo já somos campeões. Como nos diz o livro A VIOLÊNCIA NO FUTEBOL, de Maurício Murad, sobre mortes de torcedores: “...O que dizer dos dados de 2009 e 2010? Chegamos a 9 e 12 mortos por ano, respectivamente. A grave conclusão da pesquisa, no entanto,  é que 78,8% são de torcedores com nenhuma ligação com grupos organizados e responsáveis por atos e comportamentos marginais...”

E, dentro do panorama Copa, quando essas violências, com múltiplas facetas, são exercitadas agora contra os que ficam fora do perímetro dos estádios? Lá também está a presença, mesmo não visível, do modelo gerado pela Sociedade do Espetáculo, lá está presente, com a força truculenta das polícias e suas tropas de choque, o Estado Espetáculo. E são também naturalizadas as atitudes repressivas ou violadoras de direitos humanos, em nome da ordem e do progresso. Aí também está o “vale tudo”.
E, durante entrevista, o técnico da Seleção Brasileira, nos traduz o que fica aparentemente encoberto sobre essa violência naturalizada: “sabíamos que o Neymar seria caçado, desde o início da Copa...”. Há a caça, o caçado e o neo-caçador de chuteiras. Teremos, então, de nos preparar para assistir, em futuro não muito longínquo, o no ROLLER-FOOTBALL?

Como responderíamos, se nossa memória fosse mais viva, à indagação de onde estávamos no ano passado? Nas ruas ou nos nossos sofás? Acho que preferiríamos continuar mais um tempo, confortavelmente, ou nos sofás ou nos lugares de alguns que conseguiram ingressos para estar nos estádios/arenas. Não é mais seguro e menos arriscado nos mantermos nesses campos?

É-nos mais habitual ficarmos de espectadores do que espect-Atores? Melhor a primeira condição do que a exigente segunda, afinal ter de se re-inventar e, a cada momento, ter de se assumir produzindo, social ou individualmente, nossos próprios gozos ou sofrimentos.

 E, assim ficamos de costas para as nossas próprias penalidades. Nossos clones trocados por belicosos “transformers” resolverão todas as disputas, todas as querelas, e, como os heróis míticos, nos levarão para um futuro sempre vencedor e glorioso. Como máquinas-de-guerra aperfeiçoadas não mais precisaremos nem mesmo de biotecnologias, apenas bioengenharias que nos tornem “quase-perfeitos”, “quase-imortais”. Seremos todos ciborgues ou Robocops?

Em tempos de drones, clones, busca de perfeição e aprimoramento das máquinas futebolísticas e espetacularizantes, qual então será nossa proposta para enfrentamento, para além dos racismos e das discriminações, das bananas nos gramados às condenações de Zunica por sua pele e não por sua deslealdade violenta, para que recuperemos nossos sentidos éticos para todos os nossos jogos, todas nossas disputas e jogadas, todos os nossos “encontrões e trombadas” com o Outro e as alteridades?

Vamos “aprender a aprender”, ou melhor, inventar e re-inventar, como linhas de fuga e suaves cartografias coletivas, outros modos de viver mais humanos e menos cópias perfeitas de nós mesmos? E que tal recuperarmos nossos sentidos de multidão, sem temor das repressões, para além de massas passivas que podem ser esmagadas pelos viadutos, superfaturados e desestruturados, que só nos levam em direção dos estádios? Ou dos espetaculares estádios que nos fazem esquecer aqueles que os construíram e sob suas ferragens deixaram alguns “soterrados”?

E, se possível, dizermos, para além dos hinos ou dos patriotismos: NÃO VALE TUDO PARA VENCER EM QUALQUER CAMPO OU GRAMADO...

E a próxima Copa já começou... Continuaremos apenas campeões de audiência, passividade e ausência, insensibilizados e anestesiados diante da Era da Extinção, aquela que nós mesmos produzimos?

PS- Dona Fifa acrescente nas suas faixas:  SAY NO VIOLENCE IN FOOTBALL, além do RACISM que também se fundamenta em outras sutis e históricas violências.

Copyright/left – jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação e manipulação de massas. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

LEITURAS CRÍTICAS INDICADAS –

A VIOLÊNCIA NO FUTEBOL – Maurício Murad, Editora Benvirá, Saraiva, São Paulo, SP, 2012.

VIOLÊNCIA E CIDADANIA, Práticas Sociológicas e Compromissos Sociais – José Vicente Teixeira dos Santos et allii (orgs), Editora UFRGS/Sulina, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 2011.

NOTÍCIAS NA INTERNET – *(relacionadas com o texto)

Nike Futebol lança animação "O Último Jogo" vejam em: 

Copa do Mundo 2014 | Neymar, o gladiador abatido pela violência desleal do colombiano Zuñiga https://www.jornalgrandebahia.com.br/2014/07/copa-do-mundo-2014-neymar-o-gladiador-abatido-pela-violencia-desleal-do-colombiano-zuniga.html



Infográfico: a computação vestível e o futuro das camisas de futebol https://idgnow.com.br/ti-pessoal/2014/05/20/infografico-a-computacao-vestivel-e-o-futuro-das-camisas-de-futebol/

DIRETO DO TWITTER -  Guerra do futuro pode ter ‘transformers’ e drones impressos em 3D 
https://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/guerra-do-futuro-pode-ter-transformers-drones-impressos-em-3d-13156602

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –

RACISMOS, BARBÁRIES, FUTEBOL... ONDE ENTRECRUZAM AS VIOLÊNCIAS SOCIAIS? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/05/racismos-barbaries-futebol-onde.html


EM BUSCA DE UM CORPO “PERFEITO” PERDIDO, NO TEMPO DAS OLIMPÍADAS... https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/08/em-busca-de-um-corpo-perfeito-perdido.html

SEREMOS NO FUTURO, CIBORGUES? PARA ALÉM DE NOSSAS “DEFICIÊNCIAS” HUMANAS https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/seremos-no-futuro-ciborgues-para-alem.html

terça-feira, 6 de maio de 2014

RACISMOS, BARBÁRIES, FUTEBOL... ONDE ENTRECRUZAM AS VIOLÊNCIAS SOCIAIS?

Imagem publicada – foto colorida de uma intervenção com arte e provocação nas ruas de Maceió, Alagoas, onde performers, pessoas vestidas de ternos enlameados com argila, com os olhos vendados, ‘com passos lentos e gestos delicados’, caminharam e provocaram os transeuntes para uma reflexão sobre nossas instituições. Nessa fotografia de Jonathan Lins, estão perfilados diante do Quartel Geral da Polícia Militar, batendo continência.

Pode uma intervenção nas ruas provocar em nós alguma forma de reflexão crítica sobre nossos mais recentes atos de violência social? Ou estamos tão anestesiados que a suavidade dessa performance não nos sensibiliza mais?

 Acho e espero que sim, pois essa intervenção que é parte de um evento cultural, o Palco Giratório, promovido pelo Sesc, intrigou e mexeu com os que puderam ver/assistir estes “Cegos”. A nossa ‘cegueira branca’ (Saramago) nos foi desnudada, denunciada e tornou-se pública. Deixemos,então, de ser apenas telespectadores (as).

Entretanto, para além dessas intervenções estamos precisando, urgentemente, de uma resposta coletiva diante de outros ‘espetáculos’ de horror, racismos e barbárie.

Atiram-se corpos dançantes em lajes de supostamente pacificadas comunidades UPP, jogam-se vasos sanitários sobre torcedores supostamente indesejáveis como nossos próprios dejetos. Arrastam-se corpos de mulheres, ou negras ou nomeadas “bruxas”, pelos morros e morrinhos, nos Rios ou Guarujás... Corpos ultrajados e linchados se tornam espetáculo para redes sociais.

Somos, nesse triste momento, a Sociedade do Espetáculo que se deixa iludir, que pede mais violações de direitos humanos, que justifica os linchamentos através de âncoras da TV. Somos alienados, todos e todas, um pouco Sheherazades? Aprovamos a espetacularização da ‘justiça’ feita com as mãos sujas de sangue ou de ignorância?

Sim, não saímos às ruas mais, as aguardarmos nos nossos sofás. Não continuamos, ainda, o amanhã de Junho de 2013. Não mais nos indignamos, no âmago, com bananas racistas jogadas sobre e para os campos de futebol.

Associam-nos, midiática e proveitosamente, a nossos darwinianos ancestrais. Somos todos “macacos”? Ou somos apenas humanos bem adestrados? Ninguém deixou de ir aos estádios. A bola rola e o futebol nos encanta... Melhor que a sala ou a cozinha, aguardamos também nossa Copa das Copas.

Pelo contrário, daqui alguns dias, estaremos em festa. Nossas ruas, nossos corpos, nossas casas se enfeitarão. Bandeirolas verdes-amarelas tremularão, inclusive nas favelas e em outras janelas com vista para o mar. Seremos apenas torcedores fanáticos que gritarão na hora de nosso gol de supostos campeões?

Esqueceremos, como de hábito e por história, da turba e das massas arruaceiras. As massas humanas que podem fazer uma onda nas arquibancadas. As mesmas que irão violentar e espancar, até a morte, alguém que, por sua cor, sua miséria, suas marginalidades, ou supostas “maldades”, se tornem a diferença a ser eliminada.

Seriam esses Outros a projeção encarnada de nossas mais inconscientes monstruosidades? Dentro ou fora dos estádios, das novas arenas que não são ágoras.

Os racismos, por exemplo, cada dia mais, são e serão visibilizados/espetacularizados e difundidos. Espero eu combatidos e erradicados. Há ainda muitas bananas invisíveis e suas cascas no meio do caminho. Nelas ainda vamos escorregar, não bastará engolirmos os frutos dos nossos preconceitos.

Entretanto, para além desses discursos antirracistas, muitos atos continuam enraizados institucionalmente. São racismos que se definem pela hierarquia suposta da superioridade de brancos sobre negros. É o naturalizado racismo ambiental ou institucional.

Racismo institucional pode ser definido como o fracasso coletivo das instituições em promover um serviço profissional e adequado às pessoas por causa da sua cor, conforme boletim do IPEA.

Porém o chamado “fio branco” segregador hoje é mais visível nas ações de cunho ideológico contra mulheres. As Cláudias arrastadas ou as Fabianes de Jesus espancadas como maléficas proliferam nos mapas de violência recentemente publicados. Só não ganham notoriedade e manchetes de jornais. As suas mortes devem ser contabilizadas com outros milhares de corpos banalizados.

Segundo um documento do Geledés, Racismo Institucional: uma abordagem conceitual, esse tipo de racismo é “um dos modos de operacionalização do racismo patriarcal heteronormativo”. Ainda tem os ranços históricos do modelo patriarcal do Brasil Colônia e suas senzalas.

O documento nos indica, na proposta de construção de políticas públicas de proteção de mulheres negras, deve-se, entre outras coisas, se considerar:
1.    Que o racismo institucional ou sistêmico garante as condições para a perpetuação das iniquidades socioeconômicas que atingem a população negra e outras atingidas pelo racismo.
2.    Que o racismo institucional se associa a outras iniquidades, produzindo ou ampliando as desigualdades experimentadas pelas mulheres negras e as demais atingidas pelo racismo patriarcal. Da mesma forma, associando-se a diferentes eixos de subordinação, agrava as condições de vida e aprofunda iniquidades.
3.   Que o racismo institucional traduz escolhas institucionais atuais ou passadas reeditadas por decisão ou inércia. E sua destruição requer novos compromissos, processos e práticas.

Portanto, como disse outro dia, não bastará superamos os racismos, temos a urgência de sua erradicação. Muitos ainda se apoiam, fragilmente, na ideia de um país que é cordial para com sua população de pele escura. Continuaremos sendo confusos cafusos e mamelucos mulatizados?

Com certeza sei que não somos orangotangos. Somos negros e negras. Somos os que ocupam a maior estatística de extermínio de jovens, quando comparados os números de mortos pela polícia militar em relação a jovens brancos; vejam a Cor dos Homicídios: “... a tendência geral desde 2002 é: queda do número absoluto de homicídios na população branca e de aumento nos números da população negra. E essa tendência se observa tanto no conjunto da população quanto na população jovem...”.

As múltiplas violências, em especial as que se praticam, instituem-se e se tornam mutiladoras, são um campo fértil de multiplicação também do uso da violência do Estado.

 A violência, que se torna um conceito vazio para o viver em comum, em especial para os jovens tornou-se uma porta de saída, uma alternativa, inclusive para a sobrevivência. Um menino excluído mata um professor, negro, incluído, por causa de um celular...

Nesses tempos de bárbaros, fardados ou em massas ensandecidas, como então esclarecer que os Direitos Humanos não são apenas de encarcerados? Abriremos as portas da sala para nos tornar novamente uma multidão contestadora?

O problema é que essa porta também nos leva a um “beco sem saída”: como educar para e em direitos humanos e práticas de tolerância, convívio e respeito ao outro, quando o tornar-se violento é a única opção que resta ou restou?

Vamos, iludidos pelos boatos ou falsas notícias, atirar também pedras ou balas nos corpos marcados para morrer? Ou estamos apenas na antevéspera de uma grande festa, um grande espetáculo dentro nas Arenas, com manifestantes outsiders sendo massacrados por brucutus e representantes policiais da Ordem e do Progresso, do lado de fora?

Enfim, sem respostas definitivas, pergunto-me: como transformar essa transversalidade dos racismos, das barbáries, das múltiplas violências visíveis e do espetáculo do futebol em potência de vida, para além de suas funções e finalidades biopolíticas?

Façam suas apostas. Seremos e continuaremos os campeões? Ou, então, entrem junto comigo no beco de muitas saídas e muitas linhas de fuga...

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2014 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação com e para as massas. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Matérias recentes relacionadas com o texto e o contexto:





Indicações para leitura –

Boletim de Análise Político Institucional – 4 – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, Brasília, 2011.

Racismo: uma abordagem conceitual – Geledés, Instituto da Mulher Negra & Cfemea, Consultoria e redação: Jurema Werneck, 2012.

Waiselfisz, Julio Jacobo, Mapa da Violência 2012 – A Cor dos Homicídios no Brasil, Cebela&Flacso¨& SEPPIR/PR, Brasília, DF, 2012 (1ª edição em PDF) – https://mapadaviolencia.org.br/pdf2012/mapa2012_cor.pdf

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –
O MARTELO NAS BRUXAS - COMO "QUEIMAR", HOJE, AS DIFERENÇAS FEMININAS?
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/11/o-martelo-nas-bruxas-como-queimar-hoje.html

RAÇA, RACISMO E IDEOLOGIA: ZUMBI ERA UM VÂNDALO, UM BLACK O QUÊ? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/11/raca-racismo-e-ideologia-zumbi-era-um.html


MOVIMENTOS, MASSAS, MANIFESTOS E HISTÓRIA: POR UMA MICROPOLÍTICA AMOROSA, URGENTE.
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/06/movimentos-massas-manifestos-e-historia.html

AS SELEÇÕES: OS ESTÁDIOS, OS PARADIGMAS E UM NOVO GAME https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/06/as-selecoes-os-estadios-os-paradigmas-e.html  

quarta-feira, 19 de março de 2014

O CORPO ULTRAJADO ONTEM SERÁ O CORPO NEGADO AMANHÃ?

Imagem publicada – o quadro pintado por Pedro Américo (1843-1905), denominado "Tiradentes esquartejado", uma célebre representação pictórica do alferes, com um corpo cortado aos pedaços, após seu esquartejamento sobre o cadafalso, um corpo insurgente e rebelde contra a Coroa de Portugal, um quadro destinado a celebrar um herói da História do Brasil. Lá vemos a cabeça separada do corpo, com um crucifixo ao lado, com a corda da força pendente acima, e seu tronco embaixo, separado, com uma das pernas espetada e exposta. Um corpo que trai o heroísmo desse condenado, pois não celebra sua Inconfidência Mineira, pelo contrário anuncia o que pode ser feito em nome do Império: os corpos serão ultrajados e fragmentados. Como em artigo citado há a pergunta: que outro herói nacional político foi representado em tela grande aos pedaços? Talvez, hoje, apenas os novos corpos descartáveis nas telas pequenas...

E A VIOLÊNCIA NATURALIZADA QUE OS FAZ DESAPARECER.

Ontem li uma frase, nas nossas redes ditas sociais, que me tocou profundamente: “Estou me sentindo um lixo humano”. Era forma indignada de não “curtir” a notícia sobre a mulher morta a tiros e arrastada no camburão.

Foi a reação à imagem de barbárie e destroçamento de um corpo humano. A cena e a notícia em mim sintetizaram nossos corpos e vidas ultrajados. Historicamente ultrajados.

A imagem, a cena obscena, com essa hiper difusão pelos meios televisivos, tocou os outros corpos que somos. Será que sensibilizou algumas mentes? Só tenho a certeza de que o nome invadiu nossas telas e mentes: Cláudia Ferreira da Silva.
Não preciso repetir o que fizeram com seu corpo? Ele, aquele corpo-cidadão, já foi ultrajado no simples ato de ser colocado na ‘caçamba’ da viatura dos PMs, mesmo que ainda tivesse vida.

Junto com a indignação e a identificação o que me trouxe esta violência? Primeiramente a indagação, o como, depois o repúdio, o porquê, e, agora, a reflexão, para quê, até quando? Quanto tempo dura, na nossa Sociedade do Espetáculo, uma imagem chocante de violência contra um corpo, como memória?

Para que possamos refletir juntos, abro o meu próprio corpo às sensações que estas guerras urbanas e suas pacificações nos trazem. As nossas memórias não guardam as histórias de heróis ou dos não heróis, reconhecidos ou desaparecidos, cujos corpos foram destroçados.

Esta é a mesma memória que vem junto com a própria História Oficial. Há um belo texto que lhes recomendo, de Jean Pierre Vernant: A Bela Morte e o Cadáver Ultrajado. O historiador nos conta como os gregos, em tempos da Guerra de Tróia e outras guerras, vivenciavam o sentido de morrer em batalhas. A sua noção de vida breve e intensa, contra a qual nem a violência destruidora a faz desaparecer.

O relato da morte de Heitor, irmão de Paris o suposto causador da Guerra, por Aquiles, o herói grego quase imortal e seu calcanhar, é emblemático para a nossa indagação de raízes imagéticas e trans históricas da repetição que me veio à mente.

Quando o troiano é morto em batalha na frente das muralhas quase inexpugnáveis da sua cidade, começa ali a derrota de Tróia, que culmina com o Cavalo. Para quem não conhece há o filme Tróia, versão de Hollywood com Brad Pitt, ou de Helena e Páris.

Entretanto, podem se perguntar e me interrogar o que há entre essa cena e a violenta morte de Cláudia lá no Morro da Congonha? E respondo que não há nenhuma “ligação” direta.

Há, quem sabe, apenas o fio condutor, a-histórico, quiçá banal, do que apareceu agora na tela da minha tele-visão. No meu zapping habitual: uma mulher com sua mão sendo colocada dentro de um liquidificador. Não era o BBB e nem o filme Tiras em Apuros, muito menos o seriado A Ponte, com um corpo cortado ao meio, no meio de dois países, no meio da ponte.

Corte a cena e volte para Tróia. Lá o Heitor é morto por Aquiles. Em seguida seu corpo é amarrado à carruagem do protegido dos deuses, o invulnerável, e arrastado diversas vezes em volta das muralhas. Era o que Vernant diria como o ultraje do corpo do guerreiro, seu despedaçamento, e, caso ficasse insepulto, o apagamento de toda sua glória. Um corpo sem história.

Os guerreiros precisavam de uma Bela Morte, a ‘kalós Tanatós”. Morrer com algum feito que chegasse como narrativa ao porvir, aos cantos e à memória. Pergunta-nos Vernant: “Como poderia ultrajar-se o corpo do herói e extirpar-se a sua lembrança?”.

Corte novamente a cena. Vamos aos Anos de Chumbo. Um homem, um cidadão, chamado Stuart Angel é amarrado a um jipe militar. Ele está ali após longo período de cárcere e torturas. Colocam a sua boca no cano de descarga e o arrastam pelo aeroporto militar. Fica parecido, mas não é o troiano. É um jovem que sonhava mudar o país e lutava contra uma Ditadura.

Ao jovem de 25 anos, do MR-8, um re-existente à violência do Estado, também foi aplicada a pena de não ter uma bela morte. O seu corpo, como um Amarildo de 1971, foi negado à sua mãe, Zuzu Angel, mesmo que esta tenha bravamente lutado para recebê-lo, como o pai de Heitor.

E, mesmo destroçado, honrá-lo como todo corpo tem o direito de sê-lo. Ser sepultado ou cremado. Stuart, Sônia, Fernando e muitos outros, aeticamente, como os Amarildos de hoje, se tornam apenas mais um na lista de desaparecidos. Um corpo político, violentado, ultrajado e negado. Para o regime violentador eram apenas “corpos de subversivos”.

Portanto, ao olharmos a transversalidade histórica desses corpos, incluindo o corpo esquartejado de Tiradentes, buscar entender esta perversa estratégia naturalizada pelo Estado. Um corpo que pode ser desfigurado, transformado em coisa abjeta, desumanizado e sem direitos. Um futuro cadáver a ser esquecido. A ser transformado em ninguém, a ser apenas nada.

Não podemos, então, como se fôssemos tão invulneráveis com Aquiles, tão despedaçados como Heitor, tão mutilados e arrastados como Stuart, e, enfim, tão coisificados como Cláudia, também arrastada cruamente, aceitar a negação destes corpos em nós. Estão eles e elas, heróis ou zé-ninguém, incrustados nos nossos chamados inconscientes coletivos e nas nossas reterritorializações vividas.

Os corpos, nas suas diferenças e multiplicidades, são nossa maior e verdadeira obra de arte, já o disse Guattari. Entretanto, quando seus direitos são castrados, na banalização e naturalização das violências, principalmente as exercidas em nome da Ordem, do Controle, do Progresso, da Família, e nos hipercapitalismo, em nome da Propriedade e do Consumo, biopoliticamente, podem ser vivenciados como lixo.

Para os funerais não realizados por decreto de generais é que agora estão sendo lembrados alguns desses que foram lançados em cemitérios clandestinos, como Perus, em São Paulo. A Memória, assim como o corpo humano, não pode ficar fracionada ou vilipendiada. Se tivermos semelhantes sem corpo ou sepulcro, mortos, desaparecidos ou suicidados, ou, como Cláudia também trucidados, não poderemos cicatrizar nunca estas feridas no chamado corpo ou tecido social.

Os velhos soldados, fardados e autorizados por novas marchas, podem nos jogar no porta-malas. E, mesmo que os prendam ou desmilitarizem, ainda assim podemos continuar sendo arrastados...

Desejamos fazer, inventar e construir outra História? Ou, só caminhamos alienados ou conscientes, para nossa Bela Morte?

(copyright/left - favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massas e para massas. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

 Leituras recomendadas/fontes para resgate da História:

A Bela Morte e o Cadáver Ultrajado – Jean Pierre Vernant 

A fragmentação do corpo do herói e a sensibilidade do final do século 19


Brasil Nunca Mais (Digital)  https://bnmdigital.mpf.mp.br/#!/

Sobre Cláudia Ferreira da Silva - 'Trataram como bicho', diz o marido da mulher arrastada em carro da PM - https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/03/trataram-como-bicho-diz-marido-de-mulher-arrastada-em-carro-da-pm.html

Filme – Tróia - https://www.ustream.tv/recorded/2647736 (com legendas em espanhol e dublado)

Helena de Tróia - https://www.youtube.com/watch?v=AUlTQHVdesM (só dublado)

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –
Negros, Deficientes e Mestiços - as encruzilhadas das neo-velhas eugenias ...
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2015/05/negros-deficientes-e-mesticos-as.html

MULHERES PODEM SE TORNAR DEVIR, NÃO SÃO UM DEVER -
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/03/mulheres-podem-se-tornar-devir-nao-sao.html

O MEDO TEM MAIORIDADE! CRIANÇAS LOUCAS E ABUSADAS OU ADOLESCENTES SELVAGENS, QUEM SOMOS?  
s

sábado, 1 de junho de 2013

UMA VIOLÊNCIA COTIDIANA E BANAL? A VIOLAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS DE CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIA



imagem publicada – fotografia colorida que traz uma criança com deficiência, olhando para cima, cercada de  um quebra cabeças colorido, provavelmente uma criança autista, que está entre as que são submetidas também a violências e abusos. E SERÁ QUE ALGUMA DAS CRIANÇAS, NUM MUNDO QUE TEM TANTA PROPAGANDA DE ARMAS E DE VIOLADORES NÃO SOFREU NENHUMA FORMA DE VIOLÊNCIA NESSA SOCIEDADES BELICOSAS OU DE VULNERAÇÃO DIÁRIA?

 “Em algum lugar, alguém está dizendo a um menino que ele não pode brincar porque não consegue andar; a uma menina que ela não pode aprender porque não consegue enxergar. esse menino merece uma oportunidade para brincar. e todos nós ganhamos quando essa menina, e todas as crianças, conseguem ler, aprender e contribuir. o caminho a percorrer será desafiador. Mas crianças não aceitam limites desnecessários. nós também não deveríamos aceitar”. Anthony Lake Diretor executivo do Unicef.

Há vários anos venho publicando e difundindo a necessidade de uma séria discussão sobre as violências, principalmente as sexuais, cometidas contra crianças e jovens com deficiência no Brasil.

Ontem o UNICEF(Fundo das Nações Unidas para a Infância) lançou, após uma séria pesquisa, um Relatório da Situação Mundial da Infância. Já o difundi e espalhei por todos os espaços em redes sociais.

Urgentemente precisamos que muitos saibam de seu conteúdo, principalmente a solicitação de “vermos primeiro a criança, para depois a reconhecermos como uma pessoa com deficiência”.

No seu preâmbulo afirma que: “Relatórios como este normalmente começam com uma estatística para dar destaque a um problema. As meninas e os meninos aos quais é dedicada esta edição do relatório Situação Mundial da Infância não são problemas”.

O Diretor executivo Anthony Lake, em seu lançamento, reafirma essa visão: "Quando se vê a deficiência antes de a criança, não é apenas errado para a criança, mas priva-se a sociedade de tudo o que criança tem para oferecer”. Ele, com a minha concordância enfatiza que: “Sua perda é a perda da sociedade, seu ganho é o ganho da sociedade."

Nas situações de vulneração, termo que criei para ir além da concepção de vulnerabilidade de pessoas com deficiência, de crianças submetidas, principalmente às violências sexuais, há um banalizar, naturalizar e invisibilizar, como Biopolítica, as violações de seus direitos fundamentais.

As notícias que aparecem nas mídias, sempre de cunho sensacionalista ou escandalizador, não buscam o fundo do poço dessa questão já tornada uma rotina, um cotidiano. Nossa sociedade não contabiliza essas perdas...

E, como na música do Chico, tudo acaba sendo sempre igual. Porém a questão fundamental é exatamente essa diferença muito simples: as crianças não são miniaturas de pessoas adultas. Nem são nem anjos assexuados, muito menos demônios libidinosos.

O olhar e o respeito às suas diferenças nos conduz às dimensões plurais de seres em desenvolvimento psicológico, educacional e ético, muito diferenciado dos que os violentam. A igualdade, triste e real, é que a maioria vive, quase sempre, nas mesmas condições de precariedade e pobreza que seus agressores.

Bastaria uma pesquisa rápida sobre os termos bullying, assédio, abuso e violências sexuais associados aos termos “deficientes mentais”, como são, midiaticamente, chamadas as pessoas com deficiências intelectuais, que encontraremos um bom número de “ocorrências policiais”.

Por essa manutenção de um cotidiano violentar crianças é que, aqui e no resto do mundo, para além outras violências promovidas pela própria condição de situação familiar e econômica, é que a Unicef nos indica, dentro do seu Relatório algumas estatísticas.

O Relatório diz que crianças com deficiência têm probabilidade três ou quatro vezes mais alta de serem vítimas de violência.  Segundo o mesmo: “As equipes de pesquisa da universidade John Moores, de Liverpool, e da organização mundial da saúde realizaram a primeira revisão sistemática de estudos existentes sobre violência contra crianças com deficiência, incluindo uma meta-análise”.

Já foi denunciado pela OMS que há alguns lugares do mundo, como na Índia, onde em algumas regiões *(Orisa),  que quase que 70% das MENINAS com deficiências intelectuais já tinha sido submetidas a estupros e outros abusos sexuais. As notícias recentes deste tipo de violência confirmam as estatísticas brutais.

A Unicef, nesse Relatório, aponta a existência de uma ausência quase total de pesquisas nos países ditos emergentes ou em desenvolvimento. Por isso realizaram pela “ausência de estudos de alta qualidade relacionados a países de média e baixa renda, foram considerados 17 estudos realizados em países de alta renda”.

Portanto, segundo minhas pesquisas em matérias citadas ao fim do texto, foram feitas com aproximadamente 18.000 crianças de países como Estados Unidos, França, Espanha e Suécia. E, olhando para nosso mundo globalizado e em falências socioeconômicas em alguns dos citados, que riscos poderíamos apontar para os muitos Brasis?

Nesse documento da Unicef as “estimativas de risco indicaram que crianças com deficiência estavam expostas a risco significativamente maior de sofrer violência do que seus pares sem deficiência: 3,7 vezes maior para medidas combinadas de violência, 3,6 vezes maior para violência física e 2,9 vezes maior para violência sexual. Crianças com deficiência mental ou intelectual apresentaram probabilidade 4,6 vezes mais alta de ser vítimas de violência sexual do que seus pares sem deficiência”.

Estas probabilidades são baseadas, como vimos, em estudos em ‘países de alta renda’. Como são, então, os riscos e os acontecimentos de violência contra crianças com deficiência nos meios socioeconômicos ainda na miserabilidade?

Afirma-nos o Unicef: “O resultado combinado é que as crianças com deficiência estão entre as pessoas mais marginalizadas no mundo. Crianças que vivem na pobreza estão entre aquelas com menor probabilidade de usufruir, por exemplo, dos benefícios da educação e de cuidados de saúde, mas para crianças que vivem na pobreza e têm uma deficiência é ainda menor a probabilidade de frequentar a escola ou centros de saúde no local onde vivem...”.

Multipliquemos ou exageraremos os números citados. O que vale, então, é a busca de motivos que possam gerar estas violações dos direitos humanos de criança com deficiência.

De tanto assistirmos, televisivamente, todas as formas cruentas de massacre, guerras, crimes, violências já estamos nos acostumando com a ideia, mesmo que dura, da cotidiana e banalizada agressão às pessoas com deficiência?

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, nosso Decreto 6949/2009, nos trará a possibilidade de enfrentar essa banalização e naturalização da discriminação opressora a que são submetidas essas crianças, que muitos ainda insistem em dizer que têm  apenas “necessidades especiais”.

Já em 2006 nessa Convenção tínhamos a afirmação de que meninos e meninas devem ter seus direitos equiparados e protegidos. Nos seus princípios gerais afirma-se que: "h) O respeito pelo desenvolvimento das capacidades das crianças com deficiência e pelo direito das crianças com deficiência de preservar sua identidade".

Por isso o Unicef e demais organismos internacionais de defesa da criança estão reconhecendo que: “crianças com deficiência têm o mesmo direito ao espectro completo de cuidados – desde imunização já no primeiro ano de vida a nutrição adequada e tratamento para doenças e traumas na infância, até informações e serviços confidenciais sobre sexo e saúde reprodutiva durante a adolescência e no início da vida adulta”.

Na busca de uma ampliação desses direitos há no Brasil alguns projetos que devem ser esclarecidos e difundidos, como o Projeto de lei 4665/12, da Deputada Erika Kokay, do PT/DF, em tramitação na Câmara, que altera o CÓDIGO PENAL para determinar que o consentimento e a ocorrência de relações sexuais anteriores não descaracterizam o crime e não abrandam a pena para o estupro em que a vítima seja menor de quatorze anos.

As violências e abusos cometidos contra crianças com deficiência devem ser enquadrados nesse projeto de lei. E sua caracterização pela vulnerabilidade deve ser motivo de uma penalização ainda mais rígida, segura e aplicável às diversas realidades brasileiras.

Enfim deveremos buscar uma ampla, visível, midiatizada e participativa discussão sobre os motivos, sociais, econômicos, familiares, psicossociológicos, sexuais, de gênero e etnia que influenciam no risco e maior ocorrência de violências contra crianças com deficiência no país.

O Relatório apresenta diversas explicações para as motivações dos abusos, e, considerando nossas realidades, diria que a mais ativa a serem investigadas são os processos de institucionalização a que alguns meninos, meninas, em faixas etárias diferentes, são submetidos.

Já aprendemos como a triste história dos isolamentos promovidos pela hospitalização em manicômios de pessoas com deficiências intelectuais. Apontam os dados históricos que lá estavam confinados, que em 1958 chegou a ter mais de 14 mil internados. Um pavilhão para menores foi inaugurado em 1922 e em 1957, do total de doentes 3.520 eram crianças.

Lamentável e coincidentemente os seus arquivos queimaram em um incêndio no ano de 2005. Haveria, com certeza, nesses documentos queimados o registro de como milhares de crianças mantidas no Juquery, como ‘pacientes psiquiátricos’ infanto-juvenis, foram os mais abusados física e sexualmente. Ainda hoje são os mais vulneráveis.

Nestes tempos de retorno à Casa Verde, como escrevi no último texto, há os que ainda buscam esse recuo e retrocesso histórico da reinstitucionalização e hospitalização de quaisquer desviantes. Entre eles podemos incluir muitos jovens adolescentes que têm alguma forma de deficiência. Outros passarão a tê-las.

Imaginemos, hoje, que temos um número significativo, uma população de, aproximadamente, mais de 02 (dois) milhões (segundo o IBGE), dentro dos 25 milhões de pessoas com deficiências. Quantos serão crianças e adolescentes, com deficiência, incluídos/excluídos na marginalização e na desfiliação social no Brasil?

Com alguma (in)certeza, muitos são ou serão meninos ou meninas em situação de rua, e o que fazer com essa população em crescimento? Hoje, com as pressões para uma maioridade antecipada e a punição também, quantas são as crianças e jovens que estarão nesse novo processo de institucionalização e ‘abrigamento’ provisório?

Já assistimos esse processo de solução final da exclusão dos mais “limitados” intelectual e socialmente, eles se tornarão, pela naturalização, mais vulneráveis e vulnerados ainda por suas limitações.

Tomemos, como exemplo, uma criança com paralisia cerebral ou com deficiência intelectual, que não consigam comunicar as violências ou abusos físicos ou psicológicos a que foram ou são submetidos, quem irá detectar, quem irá denunciar, quem irá reconhecer esta vulneração?

E, aí não bastarão apenas as leis e as Convenções. Serão as nossas atitudes ativas de defesa dos direitos humanos e busca de uma ativa inclusão social, com implicação total de todos os cidadãos e cidadãs, com e sem deficiência, no re-conhecimento destas crianças sob outro olhar, outro paradigma.

Veremos, como diz o Unicef, primeiro a Criança... E, transversalizados pelos sentidos éticos e bioéticos de outro modo de respeitar e cuidar, conseguir um olhar além do olhar sobre a proteção, sem paternalismos ou assistencialismos, das crianças, com e sem deficiência.

As políticas públicas que se tornem realmente estruturantes, protetivas e efetivas. Nossos representantes, nas três esferas de poder Estatal, que se tornem realmente comprometidos com a Infância.

Os cidadãos e cidadãs já comprometidos que se aliem, leiam e difundam o compromisso com a Educação Inclusiva e a Saúde Inclusiva propostas nesse documento. Nesse assunto não bastará curtir nas redes sociais. Precisamos, urgentemente, discutir e agir.

E as micropolíticas de ações, sejam individuais ou coletivas, transformaram a sua, a nossa e a de todos e todas, tarefa de transformar os direitos das crianças em nossos compromissos e deveres com seu Futuro.

Copyright/left – jorgemarciopereiradeandrade 2013-2014-2022 Todos Direitos Reservados (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outro meios de comunicação de massa - TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

FONTES e matérias publicadas na INTERNET -

UNICEF – SITUAÇÃO MUNDIAL DA CRIANÇA 2013 – CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIA –

(NOTA DO DEFNET -espero que estas publicações possam ser transformadas em formatos acessíveis a todas as pessoas com deficiência, abrindo-se para a acessibilidade e o desenho universal, que também devem estar incluídos nas agendas de realização de direitos das pessoas com deficiência em todo o mundo)

Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência UNICEF (leitura indispensável para defensores de direitos de crianças com deficiência)

Veja a criança, antes da deficiência, diz UNICEF
A inclusão de crianças com deficiência beneficia a sociedade como um todo, afirma relatório Situação Mundial da Infância 2013 https://www.unicef.org/brazil/pt/media_25543.htm

Inclusão de crianças deficientes passa por aplicar convenções que as protegem https://www.acorianooriental.pt/noticia/inclusao-de-criancas-deficientes-passa-por-aplicar-convencoes-que-as-protegem-unicef

CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIA/VULNERAÇÃO - Relatório da UNICEF constata o risco de maus-tratos mais alto / Crianças com deficiência têm maior chance de serem vítimas de violência 

Crianças com deficiência têm um risco quatro vezes maior de ser vítimas de agressões - Levantamento encomendado pela OMS mostrou que as chances são ainda maiores quando comparados jovens com alguma deficiência mental  https://veja.abril.com.br/noticia/saude/criancas-com-deficiencia-tem-um-risco-quatro-vezes-maior-de-serem-vitimas-de-violencia

CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA – DECRETO 6949/2009 - https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm

Sobre o HOSPÍCIO DE JUQUERY – 
Manicômio em Franco da Rocha – ver em Juqueri, o fim do pesadelo - https://www.cremesp.org.br/?siteAcao=Revista&id=176

A MORAL, A POLÍTICA E ALGUMAS QUESTÕES CIENTÍFICAS PRESENTES NO HOSPITAL DO JUQUERY: Abordagens de Pacheco e Silva (1923–1950) https://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao51/materia03/

VULNERABILIDADE E VULNERAÇÃO, QUANDO AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA SÃO QUESTÕES DE DIREITOS HUMANOS? - Jorge Márcio Pereira de Andrade - Revista Saúde e Direitos Humanos - Ministério da Saúde - Fundação Oswaldo Cruz - Brasília, DF, 2010 (Ano 6, nº 6, 2009) https://bvsms.saude.gov.br/bvs/periodicos/saude_direitos_humanos_ano6_n6.pdf

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –



DIREITOS HUMANOS COMO QUESTÃO PARA A EDUCAÇÃO INCLUSIVA https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/05/imagem-publicada-uma-foto-de-tres.html

DIREITOS HUMANOS/CRIANÇAS - Projeto 4665/12 contra exploração/violência sexual contra menores PROJETO CONSIDERA QUE ESTUPRO DE MENORES DE 14 ANOS INDEPENDE DE CONSENTIMENTO https://infonoticiasdefnet.blogspot.com.br/2013/02/direitos-humanoscriancas-projeto-466512.html

CRIANÇAS/ABUSO INFANTIL - Fundação espanhola cria um outdoor contra o Abuso só para crianças o verem ONG faz outdoor contra abuso infantil para ser visto por crianças https://infonoticiasdefnet.blogspot.com.br/2013/05/criancasabuso-infantil-fundacao.html

GUERRAS/INFÂNCIA - As principais vítimas de abusos sexuais são as Crianças nas guerras (Save the Children) Crianças são as principais vítimas de violação e outros abusos sexuais em zonas de conflito https://infonoticiasdefnet.blogspot.com.br/2013/04/guerrasinfancia-as-principais-vitimas.html

Outros textos meus no blog -