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sábado, 8 de março de 2014

MULHERES PODEM SE TORNAR DEVIR, NÃO SÃO E SERÃO UM DEVER....

Imagem publicada – fotografia que fiz da capa da Revista Caros Amigos, de novembro de 2004, há quase 10 anos atrás, quando Cecília Maria Bouças Coimbra, então presidente do Grupo Tortura Nunca Mais RJ, concedeu uma entrevista que recebeu a manchete: “Abram os arquivos da Ditadura”, na qual ela já pedia o exercício de uma busca da memória e da história do Brasil. Ela afirmava, então: “Nunca se chegou publicamente a dizer: - ‘o Estado foi terrorista’ e o Estado covardemente assassinou, sequestrou, desapareceu com corpos.”. Muitos desses corpos eram de mulheres, como Sônia Stuart Angel, que acreditavam na re-existência feminina à qualquer forma de totalitarismo, mesmo que isso implicasse no risco de suas próprias vidas. Afirmaram o quanto é preciso de coragem e determinação na defesa de direitos humanos, nos quais se incluem, hoje, os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Hoje, para além das conquistas legais, muitas ainda terão de lutar pelos seus direitos...

Mulheres, como lembrar, para homenagear, o que significa um ser, um gênero, uma diferença humana, singularidades que nem mesmo Freud ousou decifrar?

 Lembrar, então, de modo mais simples e nada profundo, que já houve, como vida, na existência de qualquer um a presença feminina. Indecifráveis. Elas..., mães, singulares mulheres de todos e todas...

Eu, aqui, recentemente recuperei uma histórica e importante presença delas que me povoa e alicerça. Reencontrei uma velha reportagem da revista Caros Amigos, de 2004. Nela, relembrei, afetuosamente, uma antiga companheira de lutas: Cecília Coimbra.

Ela, na época contava sua história pessoal e de seu ativismo político, revelando a ‘caixa-preta da Ditadura’, mas também a dura experiência de seus porões e seus torturadores, a serviço de um Estado terrorista e de exceção.

Passei um tempo a refletir sobre mulheres que, para além da Ditadura, persistem na direção oposta do retrocesso histórico. Estiveram como Cecílias, caminhando, sem marchar militarescamente, para se tornarem devir e, por isso, continuam questionando os “deveres” impostos à condição feminina.

Reencontrei-me, também, com meu tempo de ‘bendito o fruto’(embora não ‘abençoado’ e único) em um grupo majoritário de mulheres. Fui, na minha memória já falha, de volta ao criativo e pensante grupo de mulheres do Núcleo. Estas “psis”, psicólogas e psicanalistas, que desejavam uma Klínica para além das instituições oficiais.

Sim, um núcleo dissidente destas instituições, nos anos 80 para os 90. O Núcleo Psicanálise e Análise Institucional. Foi lá que pude me aproximar de alguns conceitos que me nutrem até os dias de hoje. Foi, então, com as minhas amigas de debates e de buscas instituintes, que tentei entender o significado do “devir-mulher”.

Esta possibilidade pequena, sensível e diferenciada, a partir da leitura de Deleuze e Nietzsche, e, suavemente, com Suely Rolnik e Felix Guattari, que nos obrigava muitas outras grandes e profundas leituras, muitos outros caminhos à moda de Heráclito. Nada era totalmente conhecido, nossos passos conjuntos criavam e inventavam novos passos, novos caminhos, novas veredas. Novas interrogações sem certezas.

O devir-mulher, assim como outros devires (devir-animal, devir-invisível, devir-molécula,...), é uma resultante de seres que estão em permanente e intenso fluxo. Constroem-se, a partir de alianças onde há uma suavidade e amizade, alianças afetivas que fazem sempre escapar das políticas de identidades.

Fazem também escapar do modelo de dever ser mulher ou homem. O dever de estar de acordo com o desejo de um Outro onipresente, aquilo que foi chamado de falocracia. Um modelo machista, que também pode atingir e contaminar o corpo feminino, quando este fica tão próximo do poder e da violência.

Os pensadores Brucker e Finkielkraut nos interrogam ao afirmar que: “... homens e mulheres, vocês acreditam estar falando, a nova linguagem da liberação, mas ainda há muitos obeliscos em seus fantasmas,..., vocês são objetivamente culpados da Cârencia (falta) que se acreditam subjetivamente isentos...”.

Os filósofos, mais que os psicanalistas, têm nos advertido da permanência do falocentrismo. A sua invisível presença, já o disse antes, se faz com as macropolíticas enrijecedoras e castradoras ao mesmo tempo. Não bastará termos ‘presidentas’ ou ‘senadoras’. Ainda mais quando se tornam ‘damas de ferro’ ou sósias da solidão do poder.

Revi, estes dias, o filme “Hannah Arendt”, de Margareth Von Trotta,  pude ver na história da filósofa e suas ideias o quanto é possível esse devir-mulher superar quaisquer dos deveres impostos ao feminino. Foi lendo seus textos sobre os riscos de nossos fascínios pelos modelos totalitários, que encontrei esta possibilidade. A sua leitura da violência é fundamental.

Ao lembrar-se da lúcida Cecília e das outras amigas ficou mais claro ainda que não poderemos silenciar a História dos Anos de Chumbo no Brasil. Como nos diz Arendt: “...Não há dúvida de que é possível criar condições sob as quais os homens são desumanizados – tais como os campos de concentração, a tortura, a fome -, mas isso não significa que eles se tornem semelhantes aos animais...”.

Não há raiva e revisionismo em quem foi torturado, como esta amiga, há é uma indignação quando “há razão para supor que as condições poderiam ser mudadas, mas não o são’’. E não serão as marchas retrógradas, com ou sem a Família, que trarão o regime e o pavor militar como solução final para o Brasil.

Lá, nos tempos nuclêicos, como gosto de lembrar estes encontros rizomáticos, aprendíamos que o devir-mulher, como parte de nossa luta libertária para não reproduzir os jogos de poder, nos poderia criar/inventar possíveis novas subjetividades ainda não capturadas pelas formas de existir do hipercapitalismo.

Essas amigas eram implicadas, de corpo e ‘alma’, com outras lutas, nos mais diversos espaços, da Universidade aos consultórios privados. Como Cecília Coimbra, com o Grupo Tortura Nunca Mais. Essas mulheres me mostraram, também, que não há e nem pode haver a dicotomia entre a nossa micropolítica e nossos desejos de trans-formação do mundo.

Fiquei e ficarei, portanto, com as suas marcas indeléveis, suas novas suavidades, suas poéticas lembranças e uma indestrutível amizade e cumplicidade, para além do Tempo.

Hoje, quando reflito ou assisto esse novo mundo dito líquido moderno, vejo e sinto a retomada de um corpo feminino que, do evangélico pastoral ao banal carnavalizado, ainda não rompeu com as correntes que podem aprisionar seus devires.

Por isso fui buscar as antigas companheiras, in memoriam também a que chamou afetuosamente de ‘capitão’ de nossa nau de insensatos corações, Maria Beatriz Sá Leitão, como alento e esperança para as mulheres a quem desejo um novo devir. Um novo mundo Outro, com os úteros como força transformadora de subjetividades capturadas e alienadas.

Somente as linhas de fuga, como diziam Guattari e Deleuze, podem romper os modelos binários e dicotômicos com o devir-mulher. Este devir não flui somente nas mulheres. Aliás, não deveria ser tomado como ‘privilégio’ ou ‘característica’ do feminino. A potência de criar vida está em todos os corpos. Sem a distinção sexista e binária de gênero masculino/feminino.

Em tempos de recrudescimento e de apologia da violência, tanto a social, com os justiciamentos e os racismos, assim como a do Estado, na criação de leis de ‘endurecimento’ contra manifestações populares, apelando para o autoritarismo e novas micro fascistações (os fascismos em nós), é a hora de apontar para novos devires.

Sós ou grupalizados, seres humanos afetados uns pelos outros podem, nas ruas, nas redes sociais, nos blocos ou em outros carnavais buscar como a Cecília, ao historicizar a relação entre a Psicologia e os Direitos Humanos, entender que “ é no nível das práticas cotidianas, micropolíticas, que podem estar alguns caminhos...”.  Segundo ela: “Aprendemos a caminhar neste mundo guiados por modelos. Estes nos dizem o que fazer e como fazer, ocultando sempre o ‘para quê fazer’...”.

Nessa homenagem a estas e todas as mulheres nos meus des-caminhos, como desejo de contaminar outras do desejo de novas cartografias, é que reafirmo Nietzche: - “Diz-se que a mulher é profunda- por quê? Se nela jamais chegamos ao fundo. A mulher não é nem sequer (ou se deseja) plana...”.

(A todas as outras ‘nuclêicas’: Cecília, Ana, Heliana, Tânia, Janne, Denise, Azoilda, Regina(s), Elaine, Leila, Maria Cristina, Isabel, Vera, Zelina, Kátia, Maria Lúcia, Ana Lúcia, Andréa, Cristina, Lília (terna parceira de ideias e textos, na dupla pós-68), e às outras que a Dona Memória não me permitiu recordar, envio, hoje, amanhã e no por vir meu mais doceabraçocomdevirmulhersempre...
E, como docelembrança, ficará para sempre Maria Beatriz Sá Leitão no coração do seu ‘capitão’ da Nau das Insensatas).

Copyright/left –jorgemarciopereiradeandrade 2014/2015 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação coma as massas)

Cecília Maria Bouças Coimbra - Psicóloga, professora adjunta da Uff (Universidade Federal Fluminense), Pós-doutora em Ciência Política pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, Ex-Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ, Ex-presidente da Comissão de Direitos humanos do Conselho Federal de Psicologia.

ALGUMAS LEITURAS CRÍTICAS INDICADAS –

Micropolítica. Cartografia do desejo: Felix Guattari & Suely Rolnik, Petrópolis, Ed. Vozes, 1989.

Clio-Psyché/Paradigmas: Historiografia, Psicologia, Subjetividades – Ana Maria Jacó-Vilela, Antônio Carlos Cerezzo, Heliana de Barros Conde Rodrigues, Rio de Janeiro, Ed. Relume Dumará, Faferj, 2003.

A Nova Desordem Amorosa – Pascal Bruckner e Alain Finkenkraut, São Paulo, SP, Ed. Braziliense, 1981.

Revista Caros Amigos, Ano VIII nº 92, Novembro de 2004 – “Abram os arquivos da Ditadura” – Entrevista explosiva: Cecília Coimbra, do Grupo Tortura Nunca Mais.
Sobre a Violência – Hannah Arendt, 3ª edição, Rio de Janeiro, RJ, Ed. Civilização Brasileira, 2011.

Crepúsculo dos Ídolos ou a Filosofia a Golpes de Martelo, F. Nietzsche, São Paulo, SP, Ed. Hemus, 1976.

PARA VER, ASSISTIR E REVER –

Hannah Arendt – Margarethe Von Trotta (atriz Barbara Sukova), Ano 2012: http://pt.fulltv.tv/hannah-arendt.html

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –


AS BRUXAS RE-EXISTEM? COMO MANTER OU DEMOLIR UM PRECONCEITO. http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/11/as-bruxas-re-existem-como-manter-ou.html

O MARTELO NAS BRUXAS – COMO QUEIMAR, HOJE, AS DIFERENÇAS FEMININAS? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/11/o-martelo-nas-bruxas-como-queimar-hoje.html

MULHERES, SANGUE E VIDA, para além de sua exclusão histórica http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/03/mulheres-sangue-e-vida-para-alem-de-sua.html


EUGENIA – Como realizar a castração e esterilização de mulheres e homens com deficiência? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/01/eugenia-como-realizar-castracao-e.html

quinta-feira, 20 de junho de 2013

MOVIMENTOS, MASSAS, MANIFESTOS E HISTÓRIA: POR UMA MICROPOLÍTICA AMOROSA, URGENTE.


Imagem – uma série de fotografias que tirei há muitos anos, em 1989, no Rio de Janeiro, com imagens de passeatas que foram feitas durante a campanha eleitoral de Lula. Um mosaico de recordações. Há um grupo de crianças, em preto e branco, chamadas de “lulinhas”, e que se reúnem com um grupo coeso. Há uma foto tirada do alto do Sindicato dos Bancários que mostra a multidão que se aglomerava na Avenida Presidente Vargas. Há uma foto colorida, para mim emblemática, pois é um grupo de mães com carrinhos de bebês que participam ativamente, com suas flores ou bandeiras, sem nenhuma forma de sensação de ameaça pela sua exposição e das crianças, no meio da Avenida Rio Branco, bem próximo de onde recentemente ocorrem os conflitos em frente da Alerj e do Teatro Municipal. Foram homens, mulheres, jovens sonhadores, idosos ativistas e principalmente, milhares de crianças... Porque será que agora não mais estão por lá?  Essa multidão, aparentemente, “pacífica” foi substituída por quem e quais grupos sociais ou políticos? Éramos mais amorosos, mais politizados ou menos violentos?

“Oh!... Minha irmã Violência, minha lassidão...
Oh! Tu juventude sempre agarrada ao livro
Há que fazer amor como quem vai à escola,
E, depois vir para a Rua,
Há que fazer amor “como quem comete um crime...” (Léo Ferré, 1967/68).

Éramos, somos e seremos sempre DIFERENTES.

Reencontro através dessas imagens, pois estava lá totalmente implicado com os desejos dessas massas, com um tempo que se ensaiavam exercícios micro de mudanças macro políticas. Queríamos eleições, candidatos com partidos definidos, propostas e pautas para uma futura governamentabilidade nacional DEMOCRÁTICA. E as bandeiras eram agitadas sem temor ou terror. Éramos constituintes.

Em 23 de setembro de 1987 participei de uma mesa redonda promovida pelo Núcleo Psicanálise e Análise Institucional, para o lançamento de sua clínica, com o título: O AMOR EM TEMPOS DE CÓLERA. Nela foi que apresentei um texto que recentemente encontrei guardado. Em papel datilografado, por uma velha máquina de escrever, amarelado e esmaecido pelo tempo. Passaram-se 25 anos.

O texto teve a contribuição e participação em sua leitura pública de uma grande amiga: Lília Lobo. E nós nos apelidávamos de ‘dupla sessenta e nove’, uma alusão às nossas implicações com o ano de 1968.  O mesmo que está no cartaz que utilizei no meu texto anterior.

Apresento, então, como reflexão, alguns trechos que completam minhas lembranças suscitadas pelas fotos embaralhadas pelo tempo e pela História. E a poesia que cito no início deste texto também já foi lida em público. 

Nesse debate, além de nossa dupla afetiva, estavam no Espaço Cultural Sérgio Porto, dois importantes representantes da luta contra a ditadura: Fernando Gabeira e Herbert Daniel.

Com eles compartilhamos nossos desejos instituintes. E dissemos: “O crime (alusão ao texto de Ferré) que nos últimos tempos vive associado às paixões, consideradas tão violentas e arrasadoras, virou assunto de especialistas, leis, normas e prescrições...”. Ali já se discutiam  as marginalizações que se aplicavam às diferenças e aos diferentes. Estávamos em um ano pré-Constituição.

Dizíamos: “... Estamos em um momento em que os arautos da Salvação (já existiam os fundamentalistas e os radicais de direita) da República Eldorádica nos avisam da chegada espetacular de Tempos de Constituinte, onde os prazeres e as alegrias,  para felicidade geral e a Segurança Nacional (construíam-se as bases dos projetos de lei que hoje o Pastor e sua gang tentam sorrateiramente aprovar para “curar psicologicamente homossexuais”). Serão catalogados e as novas Condutas (morais) elaboradas. Enfim seremos SALVOS...”.

Ontem, 18 de junho de 2013, mais um dia de Orgulho (Autista), após todos os protestos generalizados, aproveitando-se da “cortina de fumaça” desse calor e onda das massas, o Pastor conseguiu aprovar o absurdo e aético projeto de lei que permite às pessoas ditas “homossexuais” serem tratadas, e salvas de sua corrupção carnal antirreligiosa, por psicólogos. Anunciávamos, nesse debate histórico, o Futuro?

Não, apenas já dizíamos: “... o que vemos e assistimos são seres humanos e sua terra em transe e em transição... vivemos ainda a experiência da Miséria e a experiência da Impotência, somos assaltados pelas Dúvidas e pelas Dívidas... E, por isso perguntamos: - o que poderemos esperar de um Povo assim massacrado?”.

Como tentativa de ampliar a visão micropolítica que já partilhávamos no Núcleo, com muitas intensidades e multiplicidades, convocávamos às pessoas, aos que lá estavam, para saírem de suas paralisias, de seus enclausuramentos, de seus isolamentos narcísicos, e principalmente do Medo. Já dizíamos da importância de ações que nos incomodassem e nos levantassem de nossos conformismos aburguesados.

Desejamos, nestes tempos coléricos, como psicólogos e psicanalistas que não se diziam neutros ou neutralizados, a criação de dispositivos analisadores, históricos ou não, que desvelassem os ocultamentos das formas de amar e amor homoeróticos. E denunciar as violências silenciosas e silenciadoras de quem ainda não recebera a denominação de homofóbicos.

Éramos profissionais que buscavam a Análise Institucional, como um movimento instituinte, para quebrar o distanciamento das realidades para além dos divãs. Muitos e muitas que acreditavam na necessidade de propor novas formas de amor e de amar como antídoto para os preconceitos e para despolitizações do viver, inclusive dos modelos psicanalíticos daquela época histórica.

Pudemos ter a honra de ouvir um ex-guerrilheiro, Herbert Daniel, nos afirmar que houve, também, a repressão ao amor pelo igual, como quaisquer das sexualidades “diferentes”, dentro das esquerdas brasileiras. E, com sua lucidez e vivência, nos alertar para o quanto reproduzimos os modelos de moralidade do Século XVII ou XVIII, apegados a estigmas e preconceitos religiosos, políticos ou sociais.

Já dialogávamos sobre a necessidade de provocar incêndios. Não os que devastavam, à época, quase metade do estado de Rondônia. Não desejamos, nesse tempo, e, espero ainda hoje a aridez dos desertos e a devastação. Creio que, hoje, essas massas incendiadas e incendiárias podem estar apenas reproduzindo o seu maior símbolo: o Fogo.

Essas multidões nas ruas, esses protestos, essas manifestações, pela ótica de Canetti, podem nos ensinar um pouco sobre o poder das massas. Assim como o fogo se propagam, contagiam, como diz a repórter da TV: “até os sexagenários...”. Elas ainda são insaciáveis. Não param e não se extinguem, com os recuos políticos. Mesmo diante de suas forças repressoras das balas de borracha, bombas ou polícias. Não adiantarão os brucutus com jato de água fria. Não apagam. Nem serão apagadas da História.

Portanto, caros senhores instituídos nos Poderes, ora podres, ora prostituídos e corrompidos, é hora de re-conhecerem um pouco das visões dos movimentos institucionalistas. Hora urgente de buscar respeitar uma micropolítica em ação, que se traduz nessas revoltas. Hora também de uma micropolítica que resgate as múltiplas formas de amar e ser amado.

No Amor em Tempos de Cólera coletiva, como dissemos: “... estamos (e agora revivo) em plena RÉ-VOLTA do mito pestífero (citação ao livro A Peste, de Albert Camus, e alusão ao advento da AIDS nesses Anos 80), dentro de nosso país multifacetado e de tensas multiplicidades...”. Tivemos o temor de que: “... nosso caldo gelatinoso (as massas) que ameaça endurecer, em uma transição sob o signo da insegurança nacional, assistirmos uma transformação e transfiguração dos agredidos em agressores, dos humilhados em invasores humilhantes, dos injustiçados em linchadores justiceiros...”.

Portanto, prezados midiatizadores e formadores de opinião, principalmente sob a ótica da Globo/Veja, assim como governantes, à moda de Alckmin ou Cabral, não quero ter de repetir o aviso. São massas, são famélicas de alguma forma de poder, são múltiplas e heterogêneas (já existem cartazes defendendo a perda da maioridade penal). Podem se tornar até destrutivas, mas não se tornam na totalidade queimadas, não são poluentes e tem fuligem.

Há quem se aproveite da ocasião e, incitados por quem assim o deseja, que se ataquem as bancas de jornal, os microfones disfarçados, as câmeras e os carros de reportagem, assim como as portas de ferro dos espaços públicos que representam alguma forma de Poder instituído. Mas observem que estas fúrias são localizadas, pontuais e isoladas, como algumas formas de incêndios intencionalmente provocados.

Porém como o fogo deixam cicatrizes indeléveis. Há, porém, como debatemos calorosamente naquele tempo, a possibilidade de as “curar” com muito Amor. Dissemos: “-dentro desta perspectiva futurística, podemos acreditar que não haverá a tão difundida mudança de comportamento amoroso, o nascimento de uma ‘Nova Sociedade dos Tempos de Cólera’ (coletiva ou individual), pois o que está em foco é uma reafirmação das normas e formas aburguesadas e higienizadas de Amar, e convictos pelo Pânico (uma arma sutil e subliminar que as imagens desse fogo das massas nos produzem) passamos a dizer SIM...”

Passamos, como querem os tempos pastorais, higiênicos, eugênicos e biopolíticos, a dizer sim, passivamente, tempos depois do fogo cessado, à “monotonia das parcerias fechadas em si mesmas, aos pares hiper solitários ou ao extremado celibatarismo itinerante, pensando serem estas as únicas garantias contra a inevitável Morte, muito embora se saiba que estamos há muitos séculos ‘matando’ os amores que não podem ou devem dizer seus nomes”.

Os amores proibidos podem também deixar cicatrizes com o fogo que se produz com massas do ódio e da estigmatização. Estamos na Sociedade do Espetáculo. Os amores outrora negados começam a chocar ou serem chocados dentro das diferentes mídias. A sua visibilidade passa de incômoda a naturalizada. Não são mais violentas para nossos olhos ou mentes conservadoras?

Em imagens que estão sendo enviadas, a pedido da Rede Globo, podemos ver sempre o lado midiatizado dessas massas. São usadas as imagens que tratam estes jovens como vândalos. As cenas de violência sobre os manifestantes não estão por lá. Uma das mais interessantes é um protesto realizado dentro de um shopping, em cidade do interior paulista. Lá estão milhares de jovens gritando e cantando o Hino Nacional e agitando a nossa bandeira.

Não seria estas imagens, também, a denúncia dos nossos novos modos de subjetivação conservadora ou nacionalista? Que revoluções estão se anunciando?
Vem para a rua que é a maior arquibancada do Brasil”. É um dos cartazes escritos à mão e que substituem as antigas bandeiras ou faixas partidárias. Aparece novamente o verde e o amarelo. Nos rostos, nas caras ditas pintadas, em bandeirolas... Porém os estádios e as televisões ainda fascinam a outras multidões, grupos, indivíduos, outras massas.

Houve apenas uma fotografia difundida pelas redes sociais que eu esperava causar mais impacto nos corações que nas mentes. Era um casal de jovens, de dois seres/corpos envolvidos sobre o asfalto, amorosamente, em meio a toda a tropa de choque e bombas de gás lacrimogêneo. Não usavam nenhum vinagre. A sua mistura bombástica era feita de carne humana, sexo, amor e outras violências, como as que Ferré incita aos jovens.

Volto, então, ao texto que li no passado, junto a Gabeira, Daniel e a amiga Lobo: “Para nós o Amar implica in-tensa-idade, como dizem aos jovens que se considera um adulto aquele que se conforma em VIVER MENOS para não ter que MORRER MUITO. Entretanto, como nos diz Edgard Morin, ‘o segredo da juventude é este: VIVER SIGNIFICA ARRISCAR-SE A MORRER, E A FÚRIA DE VIVER SIGNIFICA VIVER A DIFICULDADE...”.

Proclamamos um dia, na busca de OUTRA CLÍNICA, que busca a transposição, analítica e psicanalítica, da CURA DO OUTRO PELO OURO, pela falsa pureza política ou religiosa, como querem estes pastores, deputados e clérigos, muito menos sua produção de uma subjetividade ou grupalidade assujeitada ou assexuada.

Este “... Ouro que integra e entrega o sujeito à Besta Capitalística e Apocalíptica... Para passar para a PRO-CURA DO OURO DO OUTRO, suas preciosidades e amorosidades, assim como seus defeitos e ranhuras... e, beijando na boca o tesouro que cada um esconde, para deixar vazar mútuas ternuras, cóleras apaixonadas, tênues afetos esquecidos, pequenas diferenças insuspeitas...”.

 E, que possamos juntos ou isoladamente, invertendo o temor de sermos tocados pelo Outro, fazer deslizar forças instituintes, como as atuais massas e seu fogo cívico, para o interior das amarras instituídas.

Sejamos agentes e agenciadores de novas singularidades e novas suavidades amorosas, pois como diz Guattari: “Todos os devires singulares, todas as maneiras de existir de modo autêntico chocam-se contra o muro da subjetividade capitalística”. As balas de borracha, já o disse, são as “mesmas” em todas as manifestações de populações insurgentes em todo o mundo do hipercapitalismo.

As fotos que fiz no passado traziam sempre a minha procura dessa outra cartografia para os movimentos de protesto.  Espero que um dia aquelas crianças que fomos, para além dos jovens adultos insatisfeitos ou indignados que estamos sendo, também possam existir no meio dessa multidão, dessas massas.

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2013/2014 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de MASSA)

Citações no texto –

LÉO FERRE – Seleção e tradução de poemas, canções e da carta inédita, Ulmeiro Livraria, Lisboa, Portugal, 1984.

MICROPOLÍTICA: CARTOGRAFIAS DO DESEJO – Felix Guattari & Suely Rolnik, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 2005 (7ª edição) – para acesso parcial ver o link - http://pt.scribd.com/doc/80018300/Guattari-e-Rolnik-Micropolitica-Citacoes-Trechos-pt-br

NOTÍCIA sugerida para leitura crítica e revolucionária - Direitos Humanos aprova projeto que permite tratamento da homossexualidade http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITOS-HUMANOS/445349-DIREITOS-HUMANOS-APROVA-PROJETO-QUE-PERMITE-TRATAMENTO-DA-HOMOSSEXUALIDADE.html

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