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quarta-feira, 29 de abril de 2015

MEU PAI, NOSSAS MONTANHAS E NOSSOS CREPÚSCULOS.(uma homenagem aos seus 105 anos)

Imagem publicada – uma foto feita a contraluz nos anos 80, por mim, com uma velha máquina fotográfica Yashica, com meu pai como foco e principal imagem ao centro, com seu rosto e chapéu de palha, que sempre o acompanhava nas suas caminhadas e nos seus momentos da roça e da lavoura, é misturado ao Sol brilhante de um dos muitos crepúsculos lá em nossa terra natal, Cambuquira, Minas Gerais. Um Sol que nos mantêm intensamente misturados ao cenário da natureza e das montanhas ao fundo, típica de nossas paisagens e nossos poentes. E que no escurecer e no anoitecer ainda mantemos nossos brilhos subterrâneos.

Daqui há pouco estarei ao seu lado. Daqui há pouco poderei sentar-me na varanda e olhar mais um crepúsculo. E ao olhar para ele irei poder refletir, mais uma vez, sobre nossas infindas finitudes.

Ele supera mais uma barreira, aquela que poucos podem, ao que eu saiba, ultrapassar: tornar-se centenário. Muito embora matérias jornalísticas digam que estamos tendo um crescimento de número de pessoas além dos 100 anos no país.

Entretanto, minha indagação continuará sendo sobre o viver e o ter esses anos biológicos contados com qualidade e dignidade. Em outra matéria fica claro que ainda somos atravessados pelos mitos ou pelos discursos científicos que atribuem a longevidade à riqueza material ou aos que podem usufruir dos avanços da medicina.

Em matéria sobre mulheres centenárias, a BBC nos traz algumas reflexões destas que podem nos ajudar a compreender que sentido tem esse viver em busca da qualidade e não da quantidade de anos acumulados. Ao reunir uma inglesa de 102 anos que foi uma das primeiras mulheres a posar nua para um calendário beneficente, uma das sobreviventes do Holocausto e do campo de concentração Terezin, e uma centenária que adora velocidade, podemos ver transversalizadas vidas que têm em comum o desejo profundo de viver intensamente.

A experiência de Alice Herz-Sommers, que conheceu o Theresienstadt, o Campo Terezin, sob o jugo e invenção do nazismo, me aproximou de recentes leituras sobre nossas resiliências diante das crueldades e dos fascismos. Ela diz, nos seus 108 anos, que: "Minha irmã gêmea era um tipo pessimista, ela morreu antes de fazer 70 anos porque nunca ria, nunca. Mas rir é uma coisa linda...”.

Em tempos que vemos o recrudescimento de ódios, racismos exuberantes, fascismos declarados, desejos retrógrados de intervenção militar, falsos anticomunismos, fabricação de novos medos e novas angústias, talvez possamos aprender com Alice e com o véio Arnaldo.

Ambos conheceram o Século XX, em todas as suas dimensões. O meu pai relata, com sua lucidez impressionante e memórias mais ainda, que pode ver e viver as nossas ‘ velhas’ Revoluções, seja a 1930 ou a de 1932. Assim como  a que falsamente, por ser golpe civil e militar, também foi assim chamada nas histórias oficiais, aquela dos Anos de Chumbo de 1964, que durou 21 anos.

Em todos os momentos que busquei em minhas memórias em processo de dissolução, diferentemente de meu pai, sempre pude revê-lo encarando todas as agruras ou desafios com muita firmeza e com um sorriso nos lábios. Não me lembro de rancores, de discursos de ódio, de apedrejamentos do Outro, muito menos de discriminação social ou racial.

 Com certeza as caminhadas que com ele fiz até as suas “plantações”, seus sítios ou terras arrendadas, me tenham ajudado a aprender o respeito que ainda nutro pela Terra e pelos que se diferenciam de mim. Tive uma rara oportunidade de vê-lo em diferentes espaços, desde suas ações de fé, como a Romaria, as procissões, as missas, até seu laborioso dia atrás de um balcão de um bar e restaurante. Sempre o mesmo e dedicado homem e cidadão. Sempre o que buscava a fé, a plantação do café e a fé no alimentar e cuidar dos Outros.

Busquei por essa convivência com quem aprendeu, como Alice, a ser um provocativo bem humorado,  o que ele ainda o é, a não cair nos nossos abismos tentadores do pessimismo e da descrença na Humanidade. Os meus convites à dança com Dona Morte nunca foram maiores que a Música da Senhora Vida Gaia. Até o doer passa a ser re-existente...

 Pelo contrário, daí, talvez, venham meus percursos na medicina, na política e na defesa dos direitos humanos, mesmo que todos esses campos sejam, para mim, só de reinvenção permanente. As minhas caminhadas e caminhos puderam tomar rumos até opostos aos dele.  Brincava com a oposição, desde um votar em Lott (o Marechal e sua espadinha) contra o seu candidato, Jânio (dos bilhetes e da vassourinha). Ser do contra não era ideologia mas um modo de construção de afetos e de proximidades.

Nesse ano que agora temos de aprender novos caminhos e novos passos rumo ao futuro, olhando para trás e não desejando o refluir e o retrocesso, desejaria, com todo afeto, que milhares de pais como o meu fossem a referência de muitos outros brasileiros e brasileiras como eu.

E, por crer, com diz Thiago de Mello, o poeta: “_Não somos os melhores – Não somos  nem melhores nem piores. Somos iguais. Melhor é a nossa causa...”, e que devemos mostrar a nós mesmos a nossas raízes, nossos dilemas, nossos medos e nossas esperanças. E que a nossa causa comum seja mudar, mudar e mudar sempre. Mudar o que precisa ser mudado, como diz o poeta “para que a vida possa um dia ser mesmo vida, e para todos”.

POR ISSO, sabendo no meu âmago que tenho um pai que deseja ardente e fervorosamente a igualdade é que lhe escrevi um poema e o compartilho com quem puder lê-lo e compartilhar:

MEU PAI, NOSSAS MONTANHAS E NOSSOS CREPÚSCULOS

Um pai e seu filho mais envelhecido
Seguem juntos até o mais alto e imaginário pico,
Sobem juntos por trilhas que se apagam
Sob seus pés cansados e com bolhas,
Pisam de leve folhas, relvas ou os espinhos, e, lentos
Sobem como bolhas leves de sabão ao vento,
Que a luz do sol atravessa em arco-íris
E os deslumbra, pois o caminho ainda é longo,
Mesmo se curto é o viver...

Árdua e íngreme é a montanha-vida,
Assim como as vidas nas suas matas e entranhas
As suas pequenas ou grandes rochas são
Milênios de consolidação de uma Terra,
A mesma que o pai ensinou revolver, semear
E com a água que brotar de nossas próprias rochas
Deixar brotar delas novas sementes...

A mesma terra que se queimou e se sulcou com os arados,
Mesmo pisoteada, revolvida, sob pás, picaretas ou enxadas,
 É como sua negra pele  só agora encarquilhada, é mais profunda,
Tem cicatrizes, velhas feridas, mas não morreu,
Pois dentro dela permanecem os úmidos segredos
De ser sempre uma renovada resistência,
Uma nova colheita e um novo espargir sementes...

Mas para que no alto possamos vê-la continuar flor e ser
Temos os dois ainda um aprendizado, um novo ensinar?
Um novo des-conhecer, um olhar juntos e permanentes
Para já antigos crepúsculos, centenários montes,
Onde sempre, por mais de um século, o sol se esconde,
Onde o Sol de seus corações andarilhos, com as in-certezas,
De ter a Vida para escalar, fingiu-se morto para à noite tecer...

E o dia seguinte novamente lhes acontece,
E os dois olhando juntos para esses poentes,
Poeticamente sentem que seus próprios e diferentes crepúsculos,
Suas próprias noites infinitas, mas também de dia findas,
Diante de seus olhares pacientes e sempre aprendizes,
Por serem sempre ávido das incógnitas escarpas e abismos,
Entre as velhas trilhas, com seus pés insistentes,
Teimam, persistem nesse rumo ao horizonte,
O buscar suas próprias finitudes... 

O meu pai caminhante, como os alpinistas sob avalanches,
Sempre em busca do próximo caminho ou vereda,
Subiu e desceu estas montanhas de muitas Minas,
E com ele aprendi que nada
Nem ninguém não nos detém,
Nem mesmo se a Terra treme,
Se andarilhos visionários encaramos
O que temos de destemer:
O nosso paralisante medo de morrer.
E hoje, nos seus 105 anos bio-lógicos, demos apenas,
Mais uma vez juntos, o próximo passo...

(Texto e poema dedicados  e em homenagem a meu pai Arnaldo Pereira de Andrade, o mais ‘velho’ dos andantes romeiros de sua/minha cidade natal... que já atravessa as serras da Mantiqueira há mais de 80 anos...) (TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025

LEITURA CRÍTICA PARA NOS ESTIMULAR MEMÓRIAS –

O TEMPO VIVO DA MEMÓRIA- Ensaios de Psicologia Social – Ecléa Bosi, Editora Ateliê Editorial, São Paulo, SP, 2003.

POESIA COMPROMETIDA COM A MINHA  E A TUA VIDA – Pequena História Natural do Homem no Fim Que  Vem Vindo do Século Vinte – Thiago de Mello, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 1986.

MEMÓRIA E SOCIEDADE – Lembranças de Velhos, Ecléa Bosi, Editora Companhia das Letras, São Paulo, SP, 2001.

INDICAÇÕES DE NOTÍCIAS NA INTERNET –
Centenárias dão dicas sobre como chegar bem aos 100 anos - https://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/07/120702_segredos_vida_longa_mv

‘Supercentenário' brasileiro faz sucesso nos EUA com seu estilo de vida saudável https://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/03/120313_centenario_rc.shtml

Metade dos nascidos hoje em países ricos chegará aos 100 anos, diz estudo https://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/10/091001_bebe_expectativa_vida_np

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –

ENVELHE=SER ou TORNAR-SE, + 1, VELHO? (29 DE ABRIL 2014) https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/04/envelheser-ou-tornar-se-1-velho.html

O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E, ENTRETANTOS, MEU PAI FAZ 102 ANOS... https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/04/o-mundo-envelhece-as-injusticas-ainda.html



sexta-feira, 26 de abril de 2013

AOS 103 ANOS AINDA SE APRENDE ALGUMA COISA?


imagem publicada – a foto em preto e branco de uma matéria da Revista Fatos e Fotos – Gente, de 28 de Abril de 1980, uma publicação Bloch, onde aparece à direita uma mulher realizando uma mamografia, como forma de prevenção do câncer de mama, e, em tamanho menor, uma fotografia em preto e branco com um homem negro, com cabelo Black Power, com uma mão repousando sobre a testa, em posição semelhante a quem está pensando sobre a Vida. O retratado sou eu. A reportagem fala sobre o nosso temor da morte pelo câncer e a busca pelas e nas drogas de um alívio desse temor. (fotografia de João Poppe)

“A Morte deve ser uma mulher extraordinária. Nos pega na mão e nós temos de seguir atrás dela. Somos obrigados. É esse rumo desconhecido que me fascina e que faz com que não tenha medo da morte.” Léo Ferré.

O tempo não passa? Uma homenagem aos que têm do direito de viver e morrer em paz... E ficarem na memória

Encontrei outro dia uma velha reportagem. Meus velhos papéis que precisavam ser jogados fora me trouxeram de volta minhas memórias. Era uma reportagem na qual eu dizia em Abril de 1980:...”Isto acontece visto que todos nós curtimos intimamente o desejo da imortalidade, e o câncer não deixa de ser uma pedra no caminho, uma ameaça imediata e concreta dessa pretensa imortalidade”.

O título da matéria, que hoje pareceria atual, era “CÂNCER – A cura pelas drogas?” tendo como subtítulo – “Cientistas utilizam a maconha no tratamento médico”. Lembrete aos desavisados eu já discutia, nesse tempo de resquícios da Ditadura Militar a questão da ‘descriminalização da maconha’ e a despenalização dos usuários. Tínhamos de combater um grave preconceito que associava os 'maconheiros' e os 'subversivos' contra a Segurança Nacional, assim como os 'bons costumes'...

 Já afirmava: - “Eu acho altamente questionável o uso da maconha no tratamento do câncer, como os cientistas americanos vêm fazendo, embora acredite que a droga possa ser utilizada como um paliativo, uma espécie de substitutivo provisório, e, neste sentido, eu sou altamente a favor.”

Digo novamente eram os Anos 80 começando. E os Anos de Chumbo ainda queimavam, mas começavam a se derreter diante dos nossos anseios de democratização...Porém o que me leva a escrever hoje é muito mais a questão que levantei no meio da matéria: a indagação sobre nosso desejo de imortalidade. Hoje e nos próximos dias tenho de refletir muito e vivenciar mais ainda essa questão.

O meu pai longevo fará aniversário e completará os seus 103 anos. E a minha pedra no sapato, a minha pedra de Sísifo volta a incomodar com um velho calo nos dedos dos pés do sapato novo, mas sempre apertado da Vida. Somos ou desejamos tanto essa longevidade, a que preço ou valor?

A Dona Morte rondava ainda nossos ares nos Anos 80 com os ranços do que vivemos há poucos anos antes. Ainda respirávamos um pouco dos resíduos ativos da visão conservadora e ditatorial dos Anos de Chumbo, que só começariam a se dissipar quatro anos depois. Nessa  época é que já pensava, reflita, questionava e trabalhava, como diz a matéria da Revista Gente, o cuidado com os mais vulneráveis. Trabalhava com pessoas vivendo os limites de seus corpos com câncer.

Esse trabalho repercutia em mim o aprendizado de com podemos vivenciar tanto a felicidade como a dor. E a ideia e prática que criticava, sem saber que já existia a Bioética, era o uso de substâncias psicoativas sem as devidas pesquisas e investigações científicas. Já estava, um jovem médico, incipiente com a psiquiatria e a psicanálise, buscando formas menos “químicas” de enfrentamento de nossas limitações e finitude vital.

Por ter acompanhando muitos casos de terminalidade vital por doenças crônicas, nessa época, aprendi muito sobre uma palavra: a transitoriedade. Ainda não falávamos ou praticávamos denominando os cuidados paliativos, mas os vivenciávamos a beira dos leitos de pacientes considerados “sem saídas terapêuticas”.

Exercia, sem denominar, o que hoje chamamos de Klínica, pois lidar com a morte cotidianamente pode ensinar ir além do simples fato de nos ‘’inclinarmos’’ sobre os leitos e os pacientes. Tínhamos, principalmente diante dos cânceres infantis, de aprender o sentido da escuta sensível e da implicação. Eu, modestamente, acho que aprendi.

A Dona Morte que eu via era um simulacro, um fantasma do que realmente ocorria no âmago dos que realmente estavam morrendo. Sempre procuramos nos distanciar do morrer imaginando que superamos com essa atitude nossos temores da tal Senhora. Não! quanto mais se foge ou dela fugimos mais se está em sua companhia.

A tal Dona Thanatos foi, por exemplo, para Freud, uma fiel companheira de todos os seus dias e escritos. Diria até, ousadamente, que transversalizam uma boa parte de suas indagações que geraram o que temos, para além de Lacan ou outros atualizadores, de Psicanálise ainda hoje. Afinal ele teve no próprio corpo a experiência do câncer. E, no encontro final solicitou a ação de alívio de seu médico Max Schur.

Ele viveu o tempo que lhe foi possível e suportável. Por isso penso que devemos aprender a respeitar o cada um entende e sente como o limite suportabilidade de suas próprias existências.  Aí se incluem alguns que deixaram as mais profundas e reflexivas poesias sobre o viver e o morrer. Os seus corpos expiraram, porém, suas mentes deixaram marcas indeléveis. Exemplos? Fernando Pessoa, aos 47 e Florbela Espanca, aos 36 no dia de seu aniversário.

Com seus trinta ou quarenta e poucos anos biológicos de viver conseguiram ser os bólidos, cometas ou meteoros-vivos que transformaram muitas outras vidas após as suas finitudes e fim. Este é um ponto de vista que já ressaltava lá nessa reportagem.

Lá está registrado, para mim e para vocês todos e todas que: “...acredita o psiquiatra (eu) que todas as pessoas cancerosas devem estar conscientes de que, na vida, o mais importante não é a quantidade de vida, mas sim a qualidade (da vida e do viver, individualmente ou no coletivo)”.

E, como passageiros desse instante de uma Gaia Terra que, apesar do seu recente dia, vê-se arrastada por buscas fanáticas, principalmente de cunho religioso/político, de imortalização narcísica. Primeiro eu serei, na minha ignorância e credulidade, a ser salvo nos tempos apocalípticos, e, mesmo me tornando escravo de uma mistificação ou de uma manipulação ideológica, quero essa ‘vida do além’. E o meu dízimo ou voto legitimam uma grande farsa na Sociedade do Espetáculo e do Controle.

Temos, então, diante dessa proliferação dos fanatismos, como já disse no texto anterior, de aprender um pouco sobre nossas perdas.

Perdemos a rebeldia da juventude? Diria que sim se me retomasse apenas nos Anos 70 o ar irrespirável das torturas e dos desaparecimentos políticos; os Anos 80 engoliram nossa Contracultura e o Maio de 68. Entretanto, diante de novos e aperfeiçoados ardis de controle estatal ou social vemos novas bandeiras de liberação sendo agitadas.

Hoje, com novos olhares sobre o tempo, agora líquido e fugaz, encontramos os “mais velhos”, de mãos dadas,  andando ao lado de quem combate todas as formas de preconceitos e discriminações. Porém para isso precisamos da ressignificação do que entendemos como essa sabedoria dos antigos ou ancestrais.

A minha aprendizagem ainda não terminou, o meu buscar aprender com as perdas também. Disse estes dias atrás, em estímulo a quem está com lutos atravessando suas vidas, que diante dos entes que se vão ou outras formas de perdas é indispensável aprender e reaprender.

Precisamos, a meu ver, aprender a ser sem o apego gorduroso sobre a Vida.  Disse lá no Face-livro: - O aprendizado das perdas é uma das muitas formas de engrandecimento de nossas vidas... Aprender a se despedir... Aprender a deixar partir... Aprender a ir embora... Aprender/desaprender a viver e aprender a morrer... Como dizia a poetisa Florbela: “e se ei de ser cinza, pó e nada... que seja o meu Dia uma Alvorada... que me saiba perder para me encontrar”.

Hoje, com as limitações físicas que adquiri, estou caminhando na direção, sem complacência ou auto piedade, do estar, intensamente vivo ao lado dos “mais jovens” diante de nossas finitudes semelhantes: somos todos apenas mortais sonhadores. Ou, será que somos sonhadores mortais?

Tendo nascido filho de um simples, porém, sempre amoroso ancião, repito o que disse ao jovem repórter Péricles Santana, há 33 anos: “Devemos mostrar a essas pessoas (há época meus pacientes com câncer ou seus familiares) um outro lado das coisas (e do viver), fazendo-as ver (e desejar) que tudo na vida é passageiro, sendo, portanto mais importante essa trajetória (e o aprendizado humilde de nossa transitoriedade existencial).

Então, além do resgate de minhas ideias e vivencias médicas lá nos Anos 80, quando também me impliquei com o cuidado com as cicatrizes da ditadura através do Grupo Tortura Nunca Mais RJ, reforço ainda que precisamos de buscar uma serena sabedoria.

Uma sabedoria que ainda encontro nos sorrisos de meu velhinho, lá nas Minhas Minas Gerais? Sim, uma sabedoria que consiste em uma forma sensível de ser, estar e viver. Uma sabedoria que, entretanto, pode ser complexa: - não devemos perder a “fé” no Outro e nos Outros além de mim, mas também não podemos estragar nosso próprio bem estar já conquistado.

Enfim, em tempos de retomada dos outros meios modernos de alívio de nossas dores e finitudes, compreender que nenhuma droga inventada ou comercializada pode, ‘prozaquianamente’, como um “hiper antidepressivo global”, nos aliviar de todos os sofrimentos existenciais. Insistimos na busca do Admirável Mundo Novo de Huxley?

Estas novas drogadicções ou dependências de uma química tornaram-se, como retrocesso histórico, até o mote para novas e aprimoradas técnicas de aprisionamento, inclusive com a legitimação psiquiátrica ou dos poderes políticos.
Como dizia lá naqueles primórdios: a Vida não tem cura, pois o Guimarães já disse que é e será muito perigoso viver. A vida se tiver prospecções ou invenções de novas cartografias do viver, é apenas a pró-cura.

Por isso não lhes garanto a imortalidade. Posso apenas, com profunda e afetiva sinceridade, desejar que possam ter os olhos e o coração de meu pai de 103 anos.

Lá, nesses olhos/coração singelos, com toda certeza há memórias que todos e todas merecemos experimentar, independentemente de sermos apenas passageiros, marinheiros, argonautas, barqueiros, remadores ou pescadores cruzando o tal rio, aquele que o Pessoa disse ser apenas com curvas, e a Morte seria e será apenas mais uma curva do rio.

Navegar é preciso, hoje é apenas im-preciso ainda, mas vale a pena tentar...

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Indicações para Leitura crítica e reflexiva –

LÉO FERRÉ – Seleção e tradução de poemas, canções e da carta inédita (Luiza Neto Jorge) – Ulmeiro e os Autores, Lisboa, Portugal, 1984.

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO - Aldous Huxley - https://pt.wikipedia.org/wiki/Admir%C3%A1vel_Mundo_Novo

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O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E, ENTRETANTOS, MEU PAI FAZ 102 ANOS...

A DONA MORTE É GLOBAL, MAS O NOSSO TESTAMENTO PODE SER VITAL
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/09/a-dona-morte-e-global-mas-nosso.html

NOSSAS IN-DEPENDÊNCIAS DA DONA MORTE EM 11/09/2011 (ou qualquer data posterior, como a mais recente em Boston)
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/09/nossas-in-dependencias-da-dona-morte-em.html