domingo, 22 de novembro de 2009

NA NOITE GLOBAL TODOS OS SERES TORNAM-SE PARDOS


imagem publicada de foto de FRANTZ FANON, como descrição para pessoas cegas  ou com deficiências visuais-  onde o psicanalista e psiquiatra martinicano está com a projeção de seu rosto duplicada em fundo preto e branco. Psicanalista e revolucionário defensor da descolonização dos inconscientes coletivos, que faz parte da história de libertação da Argélia, e deixou obras insuperáveis que são os referencias para os estudos pós-coloniais e diferentes campos do conhecimento...

NA NOITE GLOBAL TODOS OS SERES TORNAM-SE PARDOS

"(...) Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não têm, nem entendem em nenhuma crença. (...) Portanto Vossa Alteza, que tanto deseja acrescentar à santa fé católica, deve cuidar de sua salvação. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim." Carta de Pero Vaz de Caminha, 1/5/1500.

A Carta de inauguração textual desse novo território de 'gente' diferente, a partir do olhar eurocêntrico, lavrada pelo nosso primeiro missivista é uma revelação que todos podem questionar. 


Ela é datada, historiograficamente, mas a cito como reafirmação de uma questão ainda atual. O desejo inerente ao pensamento colonialista e dominador que atravessa todo discurso que fala em, 'tornar o Outro livre' ou a ele oferece alguma forma de redenção ou salvamento, ou de incluir os selvagens ao mundo civilizado. Pero Vaz de Caminha apenas traduziu um dos eixos centrais do modelo de colonização a que fomos, a Terra Brasilis, submetidos.

E um dia, logo após a morte de Zumbi, fez-se uma noite global, a Terra, Gaia, escureceu, quando todos os homens e mulheres, todos os seres humanos, ficaram pardos...

Escrevi há algum tempo um artigo, instigado por uma amiga, sobre a presença/ausência, nos textos sobre multiculturalismo, de um dos mais combativos psiquiatras e psicanalistas da des-colonização de nossos inconscientes coletivos: Frantz Fanon.

Para quem não o conhece passo algumas informações rápidas: Fanon nasceu preto e martinicano, portanto falando/aprendendo francês na Martinica, então colônia francesa, participou da II Guerra Mundial, fez Medicina na Faculdade de Medicina em Lyon, onde se formou em Psiquiatria, tendo a oportunidade de uma sólida formação em filosofia e literatura, passando por cursos de Merleau-Ponty e Jean Lacroix, convivendo com Lacan, fez incursões literárias em Hegel, Marx, Husserl, Heidegeer, Freud e Sartre. A este último coube o privilégio de prefaciar a obra que culmina com a época de sua morte, por leucemia, em 1961: Os Condenados da Terra.

Trago a memória de Fanon para nossos tempos, afetado que sou pelos seus textos, para uma compreensão do que tratamos como preconceito ligado à epiderme, ou outras originalidades, do Outro. Preconceito que nada mais é do que a tentativa de justificar o controle e a negação da Diferença, como nos explicou, em seu livro Pele Negra-Máscaras Brancas, este raro psicanalista negro: "-Negro sujo' ou simplesmente 'Olhe, um negro'. Vim ao mundo, preocupado em dar um sentido às coisas, querendo ser na criação do mundo e eis que me descubro objeto no meio de outros objetos..." (1).

Fanon em sua biografia deixou-nos também um exemplo da implicação com a vida e contra qualquer forma de opressão ou preconceito. Ele tornou-se um cidadão argelino, quando de sua vivência das atrocidades promovidas pelos franceses na luta de resistência pela independência da Argélia. Lá pode viver na pele a imposição de um regime colonialista, uma verdadeira escola de tortura e torturadores, que bestializava os afro-argelinos, mesmo que pertencentes à chamada África Branca, com a finalidade de justificar a dominação dos países africanos pelas potências europeias  Lá o modelo das Cruzadas era mantido também a ferro e fogo.

E se, na história oficial, nós os ìn-dios (sem deus) fomos 'descobertos' pelos europeus, a eles e sua Santa Fé deveríamos prestar obediência e servidão, ad infinitum, assim também funcionou a máquina de colonização no continente africano. Mas Fanon não fugiu à sua plural e humanitária formação. Ele se tornou um ativista da resistência argelina, reconhecendo, naquele momento histórico dos anos 60, que a violência tornara-se uma resistência, principalmente cultural, à opressão e à colonização. 

E por entrar de corpo e alma na guerra de libertação argelina sofreu diversos atentados e tentativas de assassinato, mas nunca desistiu do enfrentamento da divisão da sociedade em colonizados e colonizadores. Para ele o inconsciente de um antilhano negro é o mesmo de um europeu branco, como um psicanalista sempre soube que nossos inconscientes não tem cor de pele, muito menos o ideológico preconceito de raça...

DENTRO DO "GARRAFÃO MULTI-TRANS-INTERCULTURAL"

"Sou um homem e devo remontar ao passado do mundo... Todas as vezes que um homem fez triunfar a dignidade do espírito, todas as vezes em que um homem disse não a uma tentativa de escravização de seu semelhante, senti-me solidário com teu ato.." (1) F. Fanon

Aqui, segundo Fanon, não se está aprisionando o homem no passado, mas projetando-o para o futuro, pois quando não podemos mais respirar, por força e ação de qualquer forma de opressão ou despotismo, qualquer um nós ou muitos se revoltam. Mesmo que isso possa levar muito tempo.

 E, na atualidade, a cada dia, nos vemos mais e mais imersos em processos sutis de aprisionamentos, alguns deles, para brancos e negros, ou de outras epidermes coloridas, tomando nossos inconscientes, a exemplo dos nossos narcismos das pequenas diferenças. Aquele que nos distingue até entre os que identificamos como parte ou integrantes de nossa 'gang', 'tribo', 'comunidade do Orkut' (que foi extinta), 'membros da mesma confraria', 'parceiros do Facebook', 'inseridos em nossos grupelhos', 'fiéis da mesma igreja', 'idênticos em nossos bandos', 'identitários por nossas corporações', 'filiados a nossos clubes', 'fixados nos mesmos sermões, crenças ou dogmas', 'consumidores da mesmice', 'membros do mesmo cartão de fidelidade', 'usuários das mesmas drogas', 'vestindo a camisa do nosso time', ou do 'nosso uniforme', 'escolhidos de nossa elite', ou do 'nosso partido'..., pois para o poeta Carlos Drummond de Andrade: 
"(...) Contudo, o homem não é igual a nenhum outro 
Homem, bicho ou coisa.

Ninguém é igual a ninguém.

Todo ser humano é um “estranho ímpar.” (2)


Porém, apesar dessa constatação poética, estamos cada dia mais tendo de escrever sobre inclusão e o reconhecimento da Diferença do Outro, para além de nossa estranheza, atração ou repulsa pelos nossos semelhantes. Escrevi, no artigo citado: " Na noite global todos os homens são pardos" (2005), sobre o paradoxo de estarmos vivendo um processo em que nos movemos divididos, narcisística e individualizadamente, o qual chamamos de globalização. 

Para um tempo que prefiro chamar de Era do Acesso (Rifkin), onde, por exemplo emblemático temos a Internet, onde alguns 'tocam na minha Banda Larga' e maioria, do lado de fora, nem mesmo ouve os seus ruídos de informação, faço a proposta de um 'koan' (dilema Zen). 

Estaríamos, metaforicamente, vivendo como pequeninos gansos que, ao nascer, foram colocados dentro de uma grande garrafa: o 'garrafão multi-trans-intercultural', hoje denominado de Mundo Globalizado, Hipermidiatizado e Hipercapitalista. Então, a nós, apresenta-se a seguinte interrogação: "Há muito tempo um homem colocou um ganso no interior de uma garrafa. Ele cresceu tanto que de lá não pôde mais sair. Como poderá o homem retirá-lo da garrafa, sem quebrá-la nem ferir o animal?” (3)

Então, como mais uma provoc-ação e estimulo às nossas imaginações, que podem ser quase estagnadas, vamos refletir o seguinte:vários homens e mulheres, quando ainda infantes e incipientes, de diferentes hordas, tribos e grupos étnicos, linguísticos e culturais, fomos sendo colocados em um imenso garrafão, um “garrafão mult-trans-intercultural”, tal qual as redomas protetoras de filmes de ficção científica. Algum tempo depois, após diferentes movimentos e acomodações, após alguns séculos de processo dito civilizatório e controle de nossas pulsões e subjetividades, nos ficaram as seguintes interrogações: como permaneceremos neste garrafão? 

Qual será a saída para que possamos, tal como porcos espinhos, nos colocarmos próximos/afastados, incluindo/excluindo, aceitando/rejeitando as diferenças? 

Como lidar com esta inadiável inversão do temor de sermos tocados, pelo Outro, pelos Outros, esses ‘estranhos ímpares”, ainda mais depois que fomos regados com um 'molho crítico-filosófico' de Spinoza, Foucault, Fanon, Bauman ou Deleuze? Como poderíamos sair deste garrafão caso nossa convivência humano/animal nos tornassem insuportáveis ao nosso mais próximo vizinho? Como não cair na 'tentação' da homogeização de nossos afetos, idéias, sensações e comportamentos, a fim de nos libertar destes ‘aprisionamentos’?.

MAS COMO FAZER OMELETE, SEM QUEBRAR A CASCA DO OVO?

Por isso é que a nossa re-visão desnaturalizadora dos paradigmas torna-se urgente. Não podemos nos tornar a 'todos e todas' PARDOS. No período colonial os pardos eram os que se distiguiam dos negros, pois eram os 'nascidos em liberdade', filhos de alforriados. Porém, no alfabeto libertário de Fanon esta liberdade 'concedida' apenas seria o mote para uma boa anedota:
"Um dia , São Pedro vê chegar na porta do paraíso três homens, um Branco, um Pardo, um Negro. " - O que você deseja? pergunta ao Branco. " - Dinheiro . " - E você? pergunta ao Pardo. "- A Glória. "- Dirigindo-se ao Negro, este lhe responde, com um grande sorriso aberto. "- Eu vim trazer a mala destes senhores".(4)

Portanto, a nós brasileiros e brasileiras, que durante muito tempo negamos nossa negritude, mesmo carregando uma pesada mala sem alça colonialista, já estamos conseguindo, após indignação e midiatização, devolver aos ingleses o seu cargueiro cheio de seu próprio lixo, talvez possamos criar/inventar outras linhas de fuga ou outras formas de resistência ativa se, não caindo na armadilha atraente de um 'garrafão aconchegante e hiper saciador', tivermos a ousadia de quebrarmos as cascas de nossos próprios ovos de serpente.

Aos meus 'estranhos ímpares' um brinde à Frantz Fanon: reconhecer-se Homem, só, mortal, finito, transitório, sujeito, muitas e infinitas vezes a ser apenas um objeto diante do Outro e sua incompreensível alteridade/multiplicidade, e, com uma indispensável qualidade: o humor.

Com vocês deixo a próxima piada desnaturalizadora e demolidora de estereótipos e estigmas, mas peço que a re-contem sem a finalidade de naturalizar o preconceito, portanto não valem piadas sobre: negros, mulheres loiras de mini-saia, pessoas com deficiências intelectuais, cegos, surdos, anões, albinos, nossos queridos portugueses ou japoneses e judeus, homoeróticos, transsexuais, índios, carecas, obesos, 'mulatos', ..., e, principalmente de loucos e psiquiatras. A não ser que sejam agora de "humor branco", o humor dito negro agora não é mais politicamente correto. Ou então um novo humor ao 'molho pardo'? que tal?

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
(1) e (4) Frantz Fanon - Pele Negra, Máscaras Brancas - Ed. Outra Gente/Fator, Rio de Janeiro, RJ, 1983.

(2) Carlos Drummond de Andrade – Igual-desigual – A Paixão Medida – José Olympio Ed., Rio de Janeiro, RJ, 1983.

(3) Daisetz Teitaro Suzuki Introdução ao Zen-Budismo, Ed. Civilização Brasileira, RJ, 1973, pág. 44.

LEIAM TAMBÉM NO BLOG - 
QUAL É A SUA RAÇA? NADA A DECLARAR. 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/11/imagem-publicada-uma-foto-em-preto-e.html

RAÇA, RACISMO E IDEOLOGIA: ZUMBI ERA UM VÂNDALO, UM BLACK O QUÊ? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/11/raca-racismo-e-ideologia-zumbi-era-um.html

INCLUSÃO, RACISMO E DIFERENÇA -https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/inclusao-racismo-e-diferenca.html

Matéria e texto também publicada e difundida através do boletim eletrônico -
InfoAtivo DefNet Nº 4305 - Ano 13 - 21/22 de Novembro de 2009
copyright jorgemarciopereiradeandrade 2009-2017 - favor citar a fonte em caso de reprodução ou citação, aberto e livre à máxima difusão por quaisquer meios de comunicação e informação.

6 comentários:

  1. O texto está muito bom. Nunca li os livro do Fanon, mas agora deu mais vontade de buscá-los. Está na lista. Mas melhor ainda que o texto são as informações de copyright e seu sentido libertador.

    Mesmo assim, fiz uma citação parcial do seu texto na Inclusive e remeti a leitura integral para cá, no sentido de ajudar a divulgar a sua "nova casa".

    Parabéns e um abraço
    Lucio

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  2. Jorge Márcio, é sempre muito bom ler o que se passa na sua cabeça. Cada texto que leio, fico ainda mais sua fã.
    beijos
    Ana Paula Crosara

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  3. Charles Barry
    tenho certeza que Fanon ganhou mais um fã,
    graça e obra desse excelente texto.
    tive um Tio pardo, cheio de defeitos e vícios,
    alguns, inenarráveis, porém, inigualável.
    de global nesta "terra" só a TV.
    parabéns ao seu bolg. irrepreensível.

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  4. VOLTO EM BREVE

    GDE ABRAÇO DO MANO WHITE

    XANDAO

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  5. Jorge,
    Seu texto agora relido com mais calma, num determinado ponto me lembrou a fábula do porco espinho, de autoria desonhecida.
    Durante a era glacial muitos animais morriam por causa do frio. Os porcos-espinhos, percebendo a situação, resolveram se juntar em grupos, assim se agasalhavam e se protegiam mutuamente. Mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos, justamente os que ofereciam mais calor. Por isso, decidiram se afastar uns dos outros e voltaram a morrer congelados. Então precisavam fazer uma escolha: ou desapareceriam da Terra ou aceitavam os espinhos dos companheiros. Com sabedoria, decidiram voltar a ficar juntos. Aprenderam, assim, a conviver com as pequenas feridas que a relação com uma pessoa muito próxima poderia causar, já que o mais importante era o calor do outro. E assim sobreviveram...
    O melhor relacionamento não é aquele que une pessoas perfeitas, mas aquele onde cada um aprende a conviver com os defeitos do outro e consegue admirar suas qualidades.
    E fiquei aqui pensando que o negro quando tem voz ativa e além de dizer, faz o que sente e o que quer, se torna uma espécie de espinho numa sociedade há muito tempo branca demais.Já está na hora do homem branco se ferir um pouco mais para se sentir gente de verdade.

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  6. "o homem

    é o espelho

    do homem"





    *abraço
    trans
    atlântico*

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