terça-feira, 17 de novembro de 2009

SEREMOS 300? 01 pCpara cada PC, DO LIMÓGRAFO AO COMPUTADOR

GUilherme Finotti
*(fotografia colorida de Guilherme Finotti, recente, de seu perfil no Facebook, por ocasião de sua Formatura de Analista de Sistemas da Universidade FEEVALE, em Novo Hamburgo, onde hoje trabalha, tendo realizado o curso universitário através do Prouni)

Este texto é datado e contextualizado antes da conquista que acima faço questão de difundir.


InfoAtivo.DefNet - nº 4303 - Ano 13 - NOVEMBRO de 2009

EDITORIAL -

"SEREMOS 300?! - 01 pC para cada um PC, do Limógrafo ao Computador...


Recebi diferentes manifestações sobre a questão do jovem com Paralisia Cerebral, Guilherme Finotti, que foi impedido de realizar as provas do Enen, por decisão INEPta.

Resolvi, então, registrar um texto que utilizei em 1997 quando fiz e dirigi um trabalho grupal, como oficina criativa sobre uso de tecnologias na educação, dentro de um evento comemorativo sobre Celestin Freinet.

Utilizei o texto de Freinet, naquela época, mas por sua atemporalidade é que agora envio a todos, dentro deste Blog, para sua reflexão e depois faço alguns comentários sobre o uso de tecnologias de comunicação e informação, assim como as assistivas, para pessoas com deficiência. Eis o texto e um interessante 'meta-diálogo':


"A CANETA ESCOLAR" por Celestin Freinet


"(...)- Como é possível! Lavrar com arado puxado a burro, no século do trator e do avião!
- E você: escrever ainda com a mesma pena do tempo de meu bisavô, com uma pena que se retorce e range, que suja tudo ou não escreve, com uma tinta que se decompõe tão depressa, transborda dos tinteiros, ou seca lamentavelmente num fundo de moscas afogadas!
Você está vendo o meu burro de pelo seco, que se arrasta penosamente até o fim do sulco. Certamente é a decadência do arado a burro assim como da sua pena flexível! Foi-se o tempo em que o camponês se esmerava em atrelar os cavalos com arreios enfeitados e encerados, e cadeias de guizos de cobre brilhante, e cantava ao trote dos animais. Foi-se o tempo em que o escritor traçava, com destreza artística, os majestosos sinais da sua escrita. A sua caneta barata hoje não vale mais do que o meu burro de pelo seco.
Vem a criança e diz:
- Papai, por que me ensinar a conduzir um burro se, quando eu for grande, vou ter uma bicicleta, uma motocicleta ou talvez um automóvel?...
- E por que me ensinar a escrever com esta caneta do vovô se, quando eu sair da escola, vou ter uma caneta-tinteiro ou talvez, uma máquina de escrever?
Dê-me logo uma caneta-tinteiro - não seria mais de me castigar por entornar a tinta, entortar a pena e trincar o cabo.
Não, não tenho orgulho nenhum do meu burro de pelo seco, e vou trocá-lo, qualquer dia, por um pequeno trator manso e rápido. E quanto a você, não se orgulhe dos instrumentos centenários e peça, aos inventores e técnicos que desistam de projetos da bomba atômica e construam, para crianças de todo o mundo, a caneta escolar do ano 1959..."
(Texto extraído de "Les Dits de Mathieu" - in Pedagogia do Bom Senso - Editora Martins Fontes - SP - 1985)
.


Acordei outro dia com a frase: "- e quando forem 300, os 'paralisados/barrados', aqueles que quiserem, para além de suas diferenças ou deficiências, ter acesso/acessibilidade nas provas do Enem? a esses 'candidatos/diferentes' à Universidade serão oferecidas canetas Bic? ou serão reconhecidos os seus direitos, já consagrados pela Constituição e por sua mais recente emenda: a Convenção Sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, 2006, Decreto Lei 186/2008 - acesse: http://www.bengalalegal.com/blog/

Aos milhares de crianças com Paralisia Cerebral ou outras deficiências, a quem devemos o processo de Inclusão Escolar, que ferramentas tecnológicas e técnicas ofereceremos como acesso ao futuro?


Estaremos lavrando a Terra com velhos arados movidos a poeira de giz escolar? ou promoveremos o direito ao sonho e a invenção do prazer de aprender, principalmente quando não andamos mais, no século XXI, em 'burros a pelo  na Educação, embora ainda haja quem, com saudade, use uma boa caneta tinteiro, só que agora em altas esferas e MontBlanc.


Eu sou do tempo da caneta Parker e da tinta Quink. E guardo-os com muito carinho em minha vida. Não foram eles que propiciaram as minhas primeiras letras, após o insubstituível lápis, nos caminhos da alfabetização? Tenho sim, muitas lembranças, elas estarão inscritas indelevelmente, à tinta azul real lavável, não apenas como passado, mas como aprendizagem.


Aos que hoje me leem através dos seus notebooks ou desktops  ou seja através das Infovias digitais, lembro que estamos às vésperas do ano 2010 tendo de afirmar o direito de um rapaz com paralisia cerebral de realizar provas com uso de um computador. Segundo matéria publicada: "Depois de seis meses jovem com paralisia cerebral (Guilherme Finotti, 17 anos) CONSEGUIU autorização do MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO (MEC)para usar um computador adaptado no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem)". E, nem assim me considero tranquilo. 

Há muito tempo venho escrevendo, no computador, sobre o uso de Novas Tecnologias de Comunicação e Informação, assim como sobre Tecnologias Assistivas e ajudas técnicas para pessoas com deficiência. Tenho muitos anos de luta pela afirmação de que a Educação é um DIREITO HUMANO, e cabe ao ESTADO sua principal promoção. Ainda mais de um Ministério que deveria já ter aprimorado suas tecnologias apropriadas para a Educação Inclusiva.

Onde andam os que ainda usam burros a pelo e se gabam de assinar documentos com caneta tinteiro nos gabinetes, aqueles que, supostamente, decidem quando e como poderá ser incluído um jovem com paralisa cerebral no ensino superior? 

Aliás, a moda de Freinet, que tal os nossos educadores e gestores educacionais saírem de suas torres de marfim e começarem a ver quantos jovens com deficiência conseguem entrar, quantos conseguem ficar e quantos saem das Universidades brasileiras, a começar pelas Federais e Estaduais. Tenham a (in)certeza de que ainda são muito menos de 300. E, se forem, muitos, onde estão? Em Esparta? por lá eles já foram eliminados há muito tempo atrás...

E, saindo dos tempos do limógrafo (1) e reconhecendo a necessidade imperiosa de 'um laptop para cada sujeito com deficiência', nas salas de aula, nas provas, nos concursos, nos Enem que virão, transcrevo um pouco da carreira deste jovem colocado a pelo de burro e com um caneta tinteiro na mão: "Destaque entre os seus colegas na escola, Guilherme também desenvolve trabalhos de iniciação científica como bolsista numa instituição de ensino superior de Novo Hamburgo (RS), onde mora com o pai e a mãe. O seu primeiro projeto, que consistia num software para ajudar na alfabetização de crianças com paralisia cerebral, recebeu o prêmio de destaque no 4º Salão UFRGS Jovem 2009. Guilherme ainda foi medalha de prata na VII Olimpíada Brasileira de Astronomia".


Em tempo este texto foi 'pensado' em tinta azul real lavável. Portanto, não mancha mas fica indelével, como a realidade de analfabetos funcionais e digitais do Brasil (2). Espero que seja uma provoca-ação ao MEC. Tá na hora de reconhecer, junto com o Ministério de Ciência e Tecnologia e afins, como o o IBCIT, que as pessoas com deficiência podem, devem e são plenamente capazes de usar e transformar o nosso mundo das técnicas e ferramentas de forma revolucionária e criativa...

 Experimentem senhores e senhoras distribuidores de canetas Bic descartáveis, em um país que, para além dos discursos e estatísticas oficiais, ainda está distante do real letramento digital, bem como do acesso universal a todas as tecnologias educacionais.


copyright/left - jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa)


(1) Freinet, como um pedagogo revolucionário dizia que: " A escola preparou alunos. Esqueceu-se de preparar homens...", pela falta de recursos e por suas técnicas de cooperação tinha na imprensa escolar um dos seus pilares pedagógicos, que era utilizadas desde as séries iniciais.

 Ele incentivava seus educandos a criarem jornais, feitos à mão. Sendo esse processo de impressão coletivo, assim como suas aulas-passeio. Mas como o texto produzido precisava ser difundido e divulgado, após a sua editoração coletiva. Devido lecionar em escolas (como muitas ainda de nosso país) de baixos recursos tecnológicos, Freinet criou uma máquina: o limógrafo, impressora artesanal que depois foi substituída pelo mimeógrafo (vocês aí, gerações dos 50 a 80, se lembram das apostilas borradas e das provas mimeografadas?), e hoje deveria ser substituída, na Era do Acesso, pelo Computador.


(2) Segundo matéria publicada no Jornal do SENADO, Brasília, de 2 a 8 de novembro, o Senador Cristovam Buarque, ex-Ministro da Educação afirmou que: "... Mesmo tendo melhorado, não estamos indo na velocidade necessária e corremos o risco de ficar para trás. Com as novas exigências do mundo, não basta alfabetizar. É preciso muito mais. É preciso, por exemplo, ensinar a usar computador. E nós ainda nem erradicamos o analfabetismo, que aumentou entre 2007 e 2008. Desse jeito seremos ultrapassados em breve por Paraguai, Colômbia, México e até Bolívia, países com muito menos recursos que nós - adverte. 

E continua, profético: " As escolas que hoje existem não merecem o nome de escolas. Algumas nem o quadro-negro têm, quando esse recurso já deveria ter sido substituído por computadores em todas elas..." (pág.5).

Mas enquanto o mundo globalizado fala em 'one laptop for one child'(http://laptop.org/en/utility/people/nicholas-negroponte.html), a moda de Negroponte, estamos pedindo apenas 01 personal computer para um PC (sujeito com paralisia cerebral), que parece será 'autorizado pelo MEC'. Com vocês, nós, todos e todas, deve ficar apenas nossa responsabilidade por cobrar, politicamente, do Estado essa revolução digital e sua democratização. Quem sabe possamos começar a contabilizar nossos 300?


EDIÇÃO EXTRA Editor Responsável - Dr. Jorge Márcio Pereira de Andrade (CREMESP 103282)
WWW.DEFNET.ORG.BR http://infoativodefnet.blogspot.com
RETRANSMITE E SOLICITA DIFUSÃO NA INTERNET - CAMPINAS, SP - 17/11/09
(dedico este texto ao jovem Guilherme Finotti e à sua garra e dedicação que abriu portas para outras pessoas com paralisia cerebral no MEC e na Educação Universitária)

LEIAM TAMBÉM NO BLOG - 
UM MUNDO PARA VOAR ( sobre a amiga Priscila Fonseca, pessoa com paralisia cerebral que também enfrentou e superou barreiras para realizar seu sonho universitário) 
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2009/12/um-mundo-para-voar.html

3 comentários:

  1. Parabéns,Jorge,por essa interessantísima aula!
    Continue nessa batalha pela inclusão de verdade...Num futuro próximo veremos o resultado,com certeza!!

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  2. Os mínimos 300 que em Esparta não teriam chance nem de sobrevivência, hoje esperam por acesso à educação verdadeiramente inclusiva.
    O problema da educação no Brasil, como sempre, vem de base. Outro dia escutei de um coordenador escolar de Ensino Fundamental que ele gostaria muito que sua escola fosse "mais" inclusiva.Mas que na prática isso era inviável uma vez ele não tinha profissionais preparados para lidar com a diversidade dentro da sala de aula, porque, de uma maneira geral, falta a capacitação profissional.E que a inclusão poderia ser uma faca de dois gumes e até prejudicial ao aluno "diferente".
    Nesta escola aonde falta até o burro,os dirigentes se consideram inclusivos.Imaginem então o que diriam se eu lhes perguntasse sobre o trator.
    Os poucos que conseguem chegar ao ENEM, como o Guilherme, só conseguem atingir seus objetivos se armados de uma determinação espartana.É uma luta que requer muito mais que só vontade.E o Sr. Ministro da Educação até que poderia aliviar um pouco , não é? Os políticos brasileiros, no geral, bem que podiam sair dos seus gabinetes, tão seguros e condicionantes, e olhar um pouco mais a questão da Inclusão na Educação nos moldes do séc XXI.
    É inadmissível que um estudante seja impedido de seguir adiante com seus estudos só porque se expressa de forma não convencional.Mais inadmissível ainda é que em plena era do avanço tecnológico a expressão por meio de um computador não seja reconhecida.

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  3. Jorge,

    Continuo, com entusiasmo a acompanhar o seu trabalho, gostei muito deste artigo e me fez lembrar dos meus sobrinhos que não se interessam pelo temas escolares de forma geral, por conta disso, me preocupam muito, entendem muito de jogos digitais e sabem que Rússia, Afeganistão e Coréia do Norte, não são nações "amigas" - tenho um amiguinho de cinco anos que quando apresento um jogo educativo para ele, este responde: "isto é chato, é muito infantil" e prefere os que exigem mais raciocínio. Questionei a minha irmã, que é mãe, como as crianças aprenderiam se o conhecimento, principalmente o letramento, exigia tempo e repetição; ela me disse que não se preocupava mais com isto que o filho dela falava e escrevia bem o português, entendia espanhol, inglês e um pouco de japonês graças aos jogos, e se o garotinho, filho de uma amiga, jogava àqueles jogos e que ele já sabia ler um pouco. De tudo isto penso que a escola está negligenciando as tecnologias e deixando a cargo das próprias crianças e famílias - que, na maioria dos casos, ficam alheias ao processo - de guiar-se por este mundo novo, com os ideais e interesses americanos. Precisamos nos apossar sim, das tecnologias e fazê-las chegar a todos, principalmente deficientes que precisam delas para viver com qualidade. Sou da geração do mimeógrafo, e confesso me espanto neste mundo novo. "Amigo" de face, gostaria de avisar que saí do face, pois, como você me alertou deveríamos ficar no campo das idéias, mas como sou calada, e tenho mais facilidade em expressar-me escrevendo, acaba me expondo muito e, sabemos, que são relações artificiais, ilusórias e não sei usá-las ao meu favor; coisa que meus sobrinhos fazem com naturalidade, sem se exporem muito, mesmo com pouca idade, eles falam de jogos, publicam fotos dos bichos de estimação, enfim, tem mais sabedoria do que eu... Continuo aprendendo com seus artigos. Tenha um ótimo 2015, cheio de realizações, principalmente no campo que você milita, luta e dedica a tua vida. Felicidades...
    Marisa

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