domingo, 17 de maio de 2015

O MANICÔMIO MORREU? PARA QUE O MANTEMOS VIVO EM NÓS?

Imagem publicada- uma foto de uma pintura de Rugendas, o pintor alemão que viajou o Brasil de 1822 a 1825, retratando costumes e hábitos instituídos pela Escravidão, como na cena com título CASTIGOS DOMÉSTICOS, onde aparecem diferentes personagens, à direita vemos os senhores e senhoras da fazenda, com mulheres brancas sentadas, uma que cata piolhos nos seu rebento, outra traz um bebê ao colo, com um cachorro que pula em sua direção, outra em pé, ao lado de um capitão do mato branco, tendo ao centro o Senhor branco sentado em uma cadeira e com uma palmatória na mão, tendo à sua frente três escravos: um negro que é castigado, uma criança negra nua e uma mulher negra puxada por outro capitão do mato branco que tem um açoite nas mãos. No canto esquerdo estão, embaixo de uma árvore, observando e se distanciando da cena central, cinco outros escravos negros, apoiando-se em uma roda de carro de bois. A cena não é de um manicômio, mas sim de uma Casa Grande. A cena não demonstra encarceramentos ou correntes. A cena apenas traz o mesmo instrumento que foi usado de forma DISCIPLINAR tanto nas escolas como nos hospícios: a PALMATÓRIA. Estendam as suas mãos!

“Somos todos loucos. Alguns o sabem, outros o ignoram. A maioria teme a sua própria loucura e corta-lhe as asas” (Jacques Lesage de La Haye – in A Morte do Manicômio)

O manicômio, ou melhor, os manicômios morreram ou morrerão? Eis uma pergunta que deveríamos nos comprometer com ela. Uma implicação que temos de buscar. Um entregar-se de corpo e alma, principalmente a última, na resposta sobre nossas necessidades de encarceramento, isolamento e exclusão do Outro.

Já sabemos como se constroem arquitetonicamente colônias, hospícios e os hospitais para os alienados. A sua história, historiografia e gênese já nos foram demonstradas. A lógica e a finalidade de exclusão do que é e era considerado Loucura têm muitos escritos sobre elas. Ainda cabe um maior aprofundamento na pesquisa e no investigar sobre a sobrevivência dos manicômios em nossos imaginários, seja no individual como no coletivo?

Uma ponte explicativa possível, nesses tempos da Idade Mídia, é seu vínculo com o Poder e as Violências institucionalizadas. Naturalizadas como instituições se tornam e são demandas e tem suas gêneses em biopolíticas.  Como diz Eugene Enriquez, o poder surge nas e das instituições, esse ‘conjunto formador que se refira a um saber teórico legitimado e que tenha por função garantir a ordem e um determinado estado de equilíbrio social’.

O que são essas ditas, benditas ou malditas “instituições”? Para os que só as veem, quando querem enxergar, além dos olhos e das visões autorizadas, como os que não se sabem seus reprodutores, podemos dizer que são as modalidades cristalizadas das relações sociais, ou seja, o sistema de poder. Estão, por exemplo, nos alicerces das leis, das políticas, da educação e dos inconscientes.

Há dois dias, por exemplo, midiatizou-se uma das mais importantes das instituições: a família. Por ter também o seu ‘Dia’, milhares de postagens a homenageavam e ‘glorificavam’ nas redes sociais. Onde está a família no quadro de Rugendas? Quais são os que ameaçavam a sua estrutura e normalidade nessa pintura?

Eis, pois uma das formas sutis de nossas instituições sagradas e seculares. Não lhes atribuem ‘poder’ ou ‘poderes’ sobre nós? Elas se perpetuam por nós e para nós. Nosso quadro pintado pós modernamente é outro? Ou apenas dizemos que vivemos agora uma “nova” multifacetada e plural família? Nossos ritos e nossas tradições familiares permanecem intocáveis e imutáveis? Ou mudaram suas funções e papéis? A palmatória pós moderna virou o que? E que ninguém ouse questionar sua sacralidade.

 A sua desmitificação será, para muitos, tomada como uma demolição ou iconoclastia.  Porém, eis uma das formas instituídas que legitimaram a retirada, de seu meio e seio, aqueles que dela se desviaram ou divergiram. Muitos ‘loucos’ e outros desviantes ou transgressores de normas foram e ainda são motivo desse desejo de segrega-los, de encontrar uma instituição /organização que dê conta de sua desordem ou desequilíbrio.  Entretanto, dizemos, no passado, que a família, instituída como normal, era parte da doença, por isso poderia ser a cura dos seus loucos e suas anormalidades?

Como uma ‘grande família’, em datas especiais, devia e deve ser re-unida. A indagação que deve continuar principalmente no Dia Nacional de Luta Antimanicomial é sobre seus fundamentos e alicerces políticos, sociais e religiosos, já que se sucede aos outros Dias, se alinha às datas comemorativas de outras instituições. Bem perto da Abolição da Escravatura.

Hoje, por ser um momento de crise de governamentabilidades da Vida, recrudescem  as politicas do medo. E, saindo de suas Casas Grandes, muitos senhores e senhoras, aliadas das novas/velhas instituições, marcham em nome da pátria, da família e da moral. E de suas propriedades.

Surgem ou são inventadas novas formas de assujeitamento e de alienação. Agora com os novos aparatos e novos meios/recursos/alianças no campo da Saúde Mental? A hora é de conter, aplicar a palmatória ou incitar as manifestações contra os poderes constituídos e representativos na Política?

Diante das agitações ou das desordens, especialmente as políticas, reinventamos, primeiro, os muros, as portas e as grades visiveis. Quando institucionalizados e naturalizados se tornam invisíveis e ‘comuns’. Depois passamos às ‘terapêuticas’’ medidas de tratamento, desde o banho gelado. Hoje reapresentado como o esfriamento de quaisquer interações pessoais ou coletivas. É preciso que mantenhamos distância do Outro e da Diferença. Passamos, em seguida, pelas jaulas giratórias ou correntes. Hoje é natural e incentivado o aprisionamento eficaz em teias invisíveis e autorizadas dos espaços chamados redes sociais neo panópticas. Chegamos aos leitos de contenção e as celas solitárias. Hoje, os nossos Leitos de Procusto, foram aprimorados com os recursos tecnológicos, novas vigilâncias, novos modos de controle, novas drogas lícitas. Somos a um só tempo: Espetáculo, ou Ameaça e seu Controle.

Nesse novo cenário ou distopia, assim atemorizados ou momentaneamente heroicos, caso nenhuma verdadeira força instituinte consiga romper nossas repetições históricas, como, realmente, demolir tão sutis manicômios que não assim se denominam? Como então reconhecer nossas próprias Casas Verdes agora com novas maquiagens, novas fachadas e falsas cores? Desterritorializamos para reterritorializar? Como nos incluir nos espaços que dizemos serem ideais apenas para os que devem ser afastados de nosso convívio? Como desnaturalizar os nossos próprios preconceitos acerca do enlouquecimento e do que chamamos de ‘doenças’ mentais?

Quem sabe se nos remetermos às nossas próprias profundezas psíquicas, como em ‘cavernas de Platão’ ou ‘ tocas de Freud’, lá encontraremos nossos Totens psicanalíticos e nossos Tabus psiquiátricos. Encontraremos os nossos ‘demônios’ institucionais?

Diante dessas demonizações do Outro, como perigo ou anormalidade ou diferença,  poderíamos repensar o que estamos inventando para justificar nossas novas fascistações e velhas cruzadas para a caça às bruxas. Novos modos de produção de subjetividades amedrontadas, com temor transfundido, surgem a despolitização do viver, a banalização das violências e esse se distanciar das paixões e dos encontros. Afaste-se de mim ou cale-se.

 Agora é o momento de escolher o melhor bode expiatório e aceitar quaisquer retrocessos, até mesmo as diferentes ditaduras ou totalitarismos, sejam elas ou eles desde o que não sou Eu, me considerando normal e puro, até aqueles Outros que pensam ou desejam diferentemente, inclusive politica e ideologicamente.

Atualmente a moda e o mais midiatizado é expor esses microfascismos publicamente, com hiperexposição, pessoal ou grupal, como se fosse um desejo de “limpar a Sociedade” do Mal, da Corrupção e dos Governos...

Esquecendo-se da senzala ou dos periféricos, se tornaram naturalizadores e banalizadores de suas próprias violências, usam de todos os meios ou estratégias, até as mais vis ou covardes para vencer ou derrotar esses males. Distorcem suas realidades, vitimizam-se. Reinventam os mesmos muros eletrificados e cercas de arame farpado.

O Panóptico atual precisa de câmeras, conspirações, falsos delatores, policias grotescas e políticos mais que conservadores, racistas, homofóbicos e fundamentalistas. Revivemos os confinamentos ou as marginalizações. Agora as ‘camisas de força’ são para esses novos infames. Gritam nos seus nacionalismos de ocasião: - Cadeia neles! E os seus legisladores mancomunados exultam na criação de ‘leis mais duras’. E, para tantos novos prisioneiros não há contêineres suficientes. Então, menos medrosos, gritarão: - Viva o manicômio!

Os manicômios, portanto, como formas ocultas ou manipuladas de poder instituído, permanecem como recalque de nossas próprias pulsões e internalizações das Normas. Vivem e sobrevivem de nossas banalizações das mais cruentas e violentas formas de dominação. Alimentam-se de nossa paranoia e nossos histéricos modos de enfrentar, individual ou coletivamente, as crises e as mudanças sociais ou culturais. Um exemplo recente e cheio de instituídos ocorreu no Paraná. Mesmo com a agressão a direitos e a repressão, primeiro política e depois policial, de quem tem a tarefa de educar para o questionar e a cidadania, os nossos professores e professoras, as bombas e as balas de borracha, no meio dessa rixa, podem ser naturalizadas e autorizadas.

Por esses acontecimentos e essas reflexões é que interroguei e continuo me perguntando, motivado pelos 13 de Maio, data oficial da Abolição da Escravatura. Podemos, como exercício da desmitificação da historiografia, buscar no nosso passado da Princesa Isabel, que muitos institucionalizaram como Áurea, a história da construção das leis, desde o ‘ventre livre’ à suposta liberdade dos escravos, as formas de ‘reparação de prejuízos econômicos’ aos que utilizavam essa mão de obra dos negros?

 Então vamos relembrar que lá no Império, pressionado pela Inglaterra, encontramos os barões, condes e parlamentares senhores de terras e latifúndios. Estes foram os seus idealizadores biopolíticos. Estes construíram as ferrovias que abasteceram de Vidas Nuas, majoritariamente negras, as chamadas ‘colônias agrícolas’. Lá, também, está a nascente de todos os liberalismos e trabalho escravo que ainda não erradicamos.

Em texto de 15-05-1888, há uma pérola de discurso do Senador Dantas: afirmando que a abolição "não marcará para o BRASIL uma época de miséria, de sofrimentos, uma época de penúrias" como alguns parlamentares pensavam, porque, em 17 ANOS, 800.000 (OITOCENTOS MIL) ESCRAVOS tinham DESAPARECIDO DO BRASIL e, nesse período se notou "MAIOR RIQUEZA NO PAÍS, grande aumento de trabalho e com ele maior produção e, como consequência considerável AUMENTO DA RENDA PÚBLICA". DEFENDE AINDA REFORMAS LIBERAIS. (AS. V.I, pp 42 - 44) - no volume II, 1823-1888 - A ABOLIÇÃO NO PARLAMENTO - 65 anos de lutas - 2ª edição - pág. 506.

Transhistoricamente, nessa mesma linha dos trens, também podemos ligar, ou ‘linkar’, a construção de novos manicômios, visíveis e invisíveis, pois que a maioria dos ‘ocupantes’ dos hospícios era constituída dos descendentes ou dos próprios negros ex-escravos. Procurem nos arquivos da Loucura.

É no alvorecer do século XX que Juliano Moreira, que era negro, o nosso Philippe Pinel, consegue a promulgação de uma lei de reforma da assistência a alienados. Ele remodelou o Hospício Pedro II (1903) com a retirada das grades, dos coletes e das camisas de força. A passagem do instituído pela Psiquiatria a um novo modelo também traz o Manicômio Judiciário do Brasil em 1919. Afinal, tínhamos muitos negros alienados ou alienados negros?

Essa interrogação me traz à memória manicomial uma visita ao Franco da Rocha. O complexo manicomial que teve incendiado (2005) os seus arquivos e perdeu suas memórias. Há alguns anos atrás, com alguns médicos residentes, para os quais fui preceptor, lá estivemos, lá sentimos. Foi em uma grande mesa no caminho da ‘rotunda’ dos alienados, onde não pudemos entrar que pude ver um documento histórico que me comprovou como se pode naturalizar um manicômio.

Lá se encontra, a salvo, espero, o registro da primeira internação do hospício: uma mulher negra, pobre, que para lá foi mandada de trem no Século XIX, na inauguração (em 1898), e lá permanece ‘sem diagnóstico’ até os anos 30 do Século XX. Franco da Rocha, o fundador do manicômio e outro ‘Pinel brasileiro, afirmava que as mulheres negras, em contraponto às mulheres brancas, eram maioria por lá, devido a que: ‘estas se expõe não somente aos trabalhos como aos desvios de conduta e às extravagâncias de toda espécie’...”.

Em mim permanecerá a visão deste documento, assim como há a permanência ainda de muitos ‘remanescentes’ de sua institucionalização numa das maiores colônias psiquiátricas do país. Entretanto, a visita às suas grades e enfermarias, não extirpou todos os grilhões de minha própria formação, mas eu esperava que removesse ou abalasse os que estavam invisivelmente presos às mentalidades de meus jovens colegas.

Reflitam, assim os convido, como se instalam em nós os sutis modos de educação e de doutrinamento sobre a necessidade dos encarceramentos. Seriam ainda os resquícios da escravidão, das biopolíticas nascidas no Século XVIII, das higienizações do Século XX, das políticas de guerra e de dominação desse século XX e seus labirintos?

Não tenho ainda as respostas e nem sei se terei o fôlego necessário para busca-las. Incito, como o fiz lá no Juquery, aos mais jovens ou antigos que as busquem. Aos que me seguem e leem tenho tentado, inclusive nossos espaços enredados e hiper expositores das redes sociais, provocar alguma reflexão.

Entre estas está o uso da poesia. No dia 14 de maio, o dia seguinte, que não é o dia 18, Dia Nacional da Luta Antimanicomial assim como do Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, me propôs algumas perguntas em poema: - NOS NOSSOS 14 DE MAIO, O DIA SEGUINTE, O QUE NOS ACONTECE? OU ACONTECERÁ? 
Deixarei aos amigos e amigas docemente um novo poema indagação -

DES/ABO/LIÇÕES (14 DE MAIO DE 2015 ou será 1888)

Quem me concede a liberdade da escrita,
Aquela que faço no mais fluídos instantes,
e nos mais subterrâneos dos meus porões?
Quem me livra ou livrará desse ventre obscuro,
Ao tempo em que me torna branco por decreto,
Mas que ninguém ainda domina nem dominará?
Quem me dará como ressarcimento as novas terras,
Os novos espaços infecundos e as novas fronteiras,
Aquelas que não se delimitam e estão perdidas?
Quem me dirá ou dirão os Outros que pensam mandar
Que o sangue negro e antigo que me transborda
E trago com orgulho em mim e nessas letras,
Não se revoltará contra os mandantes tiranos um dia?
Quem me trará os novos alimentos invisíveis,
Os novos rizomas, as novas fugas e as novas semeaduras,
Que proliferam e não respeitam e nem respeitaram
As mais cruéis ditaduras?
Quem me aboliu ou abolirá dessa extensa,
Negada e ainda sutil escravatura?
E uma Eco desnorteada sussurra no ouvido do meu Narciso:
- ‘NINGUÉM, NENHUMA FORÇA INSTITUÍDA,
NENHUM ESTADO, NENHUMA DAS CRENÇAS OU IDEOLOGIAS,
NENHUMA FALSA LIBERTAÇÃO,
POIS AINDA TRAZEM APRISIONADAS,
ATRÁS DE SEU ESPELHO E MIRAGEM,
OUTRAS INFINITAS DES/ABO/LIÇÕES...
OUTRAS MOLECULARES REVOLUÇÕES’.

Por fim afirmo que há muitas loucuras em nós, pelo menos em mim.  Entretanto, como disse o autor, muitas ainda são ignoradas ou negadas, mas não deveríamos continuar as reprimindo e punindo com os muitos e imperceptíveis ardis, armadilhas e prisões, inclusive as de cunho subjetivo.

E que a desconstrução dos meus mini manicômios mentais ou inconscientes possam continuar sua jornada... E que todos e todas possamos nos aproximar/respeitar, sem medo do que são as psicoses, as neuroses, as esquizofrenias, as bipolaridades ou as depressões em nós..., aquelas que compunham a ‘Grande Saúde’ de Nietzsche e outros ‘loucos’ e ‘anormais’ da História.

E me respondam: - Os Manicômios ainda sobre-vivem em nós? Para que?

Copyright/left jorgemárciopereiradeandrade 2015-2016 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de difusão para e com as massas. TODOS DIREITOS RESERVADOS ...2025)

Matérias da Internet ligadas ao texto que postei no Facebook (algumas) –

SAÚDE MENTAL - EM PORTO ''VELHO'' - Aprovado o Projeto que autoriza a internação voluntária, involuntária e compulsória (e a palavra CAPS nem existe no texto e provavelmente na ''lei'' municipal) https://www.rondoniadinamica.com/arquivo/aprovado-o-projeto-que-autoriza-a-internacao-voluntaria-involuntaria-e-compulsoria-,92445.shtml

SAÚDE MENTAL - Deputado (Pastor) critica fechamento de clínicas psiquiátricas em Alagoas https://www.tribunahoje.com/noticia/141435/politica/2015/05/13/deputado-critica-fechamento-de-clinicas-psiquiatricas-em-alagoas.html

DIREITOS HUMANOS - Número de presos no RJ aumentou 32% em três anos, diz relatório
Em 2014, mais de 38 mil pessoas estavam presas, contra 29 mil em 2011.

Fontes históricas
JOHANN MORITZ RUGENDAS –


INDICAÇÕES DE LEITURA CRÍTICA –

ARQUIVOS DA LOUCURA – Juliano Moreira e a descontinuidade da história da psiquiatria – Vania Portocarrero, Editora Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ, 2002.

O ESPELHO DO MUNDO. Juquery a História de um Asilo – Maria Clementina Pereira Cunha, Editora Paz e Terra, São Paulo, SP, 1986.

A MORTE DO MANICÔMIO – História da Antipsiquiatria – Jacques Lesage de La Hage, Editora da UFAM – Universidade Federal do Amazonas, Manaus, AM, 2007.

A ABOLIÇÃO NO PARLAMENTO 1823-1888 -  65 anos de lutas -  Editora do Senado Federal, Brasília, Secretaria Especial de Editoração, 2ª edição, 2012.

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –

RACISMO, HOMOFOBIA, LOUCURA E NEGAÇÃO DAS DIFERENÇAS: as flores de Maio.  https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/05/racismo-homofobia-loucura-e-negacao-das.html

ALÉM DOS MANICÔMIOS - 18 de maio/ Dia Nacional de Luta Antimanicomial https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/alem-dos-manicomios-18-de-maio-dia.html

OS MORTOS-VIVOS DO HOSPICIO QUE ENSINAVAM AOS VIVOS SOBRE A VIDA NUA... BARBACENAS NUNCA MAIS! https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/10/os-mortos-vivos-do-hospicio-que.html

LOUCURA SEMPRE! DESINSTITUCIONALIZAÇÃO NÃO É INTERNAÇÃO, MUITO MENOS COMPULSÓRIA .

SAÚDE MENTAL: quando a Bioética se encontra com a Resiliência https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/10/saude-mental-quando-bioetica-se_11.html

quarta-feira, 29 de abril de 2015

MEU PAI, NOSSAS MONTANHAS E NOSSOS CREPÚSCULOS.(uma homenagem aos seus 105 anos)

Imagem publicada – uma foto feita a contraluz nos anos 80, por mim, com uma velha máquina fotográfica Yashica, com meu pai como foco e principal imagem ao centro, com seu rosto e chapéu de palha, que sempre o acompanhava nas suas caminhadas e nos seus momentos da roça e da lavoura, é misturado ao Sol brilhante de um dos muitos crepúsculos lá em nossa terra natal, Cambuquira, Minas Gerais. Um Sol que nos mantêm intensamente misturados ao cenário da natureza e das montanhas ao fundo, típica de nossas paisagens e nossos poentes. E que no escurecer e no anoitecer ainda mantemos nossos brilhos subterrâneos.

Daqui há pouco estarei ao seu lado. Daqui há pouco poderei sentar-me na varanda e olhar mais um crepúsculo. E ao olhar para ele irei poder refletir, mais uma vez, sobre nossas infindas finitudes.

Ele supera mais uma barreira, aquela que poucos podem, ao que eu saiba, ultrapassar: tornar-se centenário. Muito embora matérias jornalísticas digam que estamos tendo um crescimento de número de pessoas além dos 100 anos no país.

Entretanto, minha indagação continuará sendo sobre o viver e o ter esses anos biológicos contados com qualidade e dignidade. Em outra matéria fica claro que ainda somos atravessados pelos mitos ou pelos discursos científicos que atribuem a longevidade à riqueza material ou aos que podem usufruir dos avanços da medicina.

Em matéria sobre mulheres centenárias, a BBC nos traz algumas reflexões destas que podem nos ajudar a compreender que sentido tem esse viver em busca da qualidade e não da quantidade de anos acumulados. Ao reunir uma inglesa de 102 anos que foi uma das primeiras mulheres a posar nua para um calendário beneficente, uma das sobreviventes do Holocausto e do campo de concentração Terezin, e uma centenária que adora velocidade, podemos ver transversalizadas vidas que têm em comum o desejo profundo de viver intensamente.

A experiência de Alice Herz-Sommers, que conheceu o Theresienstadt, o Campo Terezin, sob o jugo e invenção do nazismo, me aproximou de recentes leituras sobre nossas resiliências diante das crueldades e dos fascismos. Ela diz, nos seus 108 anos, que: "Minha irmã gêmea era um tipo pessimista, ela morreu antes de fazer 70 anos porque nunca ria, nunca. Mas rir é uma coisa linda...”.

Em tempos que vemos o recrudescimento de ódios, racismos exuberantes, fascismos declarados, desejos retrógrados de intervenção militar, falsos anticomunismos, fabricação de novos medos e novas angústias, talvez possamos aprender com Alice e com o véio Arnaldo.

Ambos conheceram o Século XX, em todas as suas dimensões. O meu pai relata, com sua lucidez impressionante e memórias mais ainda, que pode ver e viver as nossas ‘ velhas’ Revoluções, seja a 1930 ou a de 1932. Assim como  a que falsamente, por ser golpe civil e militar, também foi assim chamada nas histórias oficiais, aquela dos Anos de Chumbo de 1964, que durou 21 anos.

Em todos os momentos que busquei em minhas memórias em processo de dissolução, diferentemente de meu pai, sempre pude revê-lo encarando todas as agruras ou desafios com muita firmeza e com um sorriso nos lábios. Não me lembro de rancores, de discursos de ódio, de apedrejamentos do Outro, muito menos de discriminação social ou racial.

 Com certeza as caminhadas que com ele fiz até as suas “plantações”, seus sítios ou terras arrendadas, me tenham ajudado a aprender o respeito que ainda nutro pela Terra e pelos que se diferenciam de mim. Tive uma rara oportunidade de vê-lo em diferentes espaços, desde suas ações de fé, como a Romaria, as procissões, as missas, até seu laborioso dia atrás de um balcão de um bar e restaurante. Sempre o mesmo e dedicado homem e cidadão. Sempre o que buscava a fé, a plantação do café e a fé no alimentar e cuidar dos Outros.

Busquei por essa convivência com quem aprendeu, como Alice, a ser um provocativo bem humorado,  o que ele ainda o é, a não cair nos nossos abismos tentadores do pessimismo e da descrença na Humanidade. Os meus convites à dança com Dona Morte nunca foram maiores que a Música da Senhora Vida Gaia. Até o doer passa a ser re-existente...

 Pelo contrário, daí, talvez, venham meus percursos na medicina, na política e na defesa dos direitos humanos, mesmo que todos esses campos sejam, para mim, só de reinvenção permanente. As minhas caminhadas e caminhos puderam tomar rumos até opostos aos dele.  Brincava com a oposição, desde um votar em Lott (o Marechal e sua espadinha) contra o seu candidato, Jânio (dos bilhetes e da vassourinha). Ser do contra não era ideologia mas um modo de construção de afetos e de proximidades.

Nesse ano que agora temos de aprender novos caminhos e novos passos rumo ao futuro, olhando para trás e não desejando o refluir e o retrocesso, desejaria, com todo afeto, que milhares de pais como o meu fossem a referência de muitos outros brasileiros e brasileiras como eu.

E, por crer, com diz Thiago de Mello, o poeta: “_Não somos os melhores – Não somos  nem melhores nem piores. Somos iguais. Melhor é a nossa causa...”, e que devemos mostrar a nós mesmos a nossas raízes, nossos dilemas, nossos medos e nossas esperanças. E que a nossa causa comum seja mudar, mudar e mudar sempre. Mudar o que precisa ser mudado, como diz o poeta “para que a vida possa um dia ser mesmo vida, e para todos”.

POR ISSO, sabendo no meu âmago que tenho um pai que deseja ardente e fervorosamente a igualdade é que lhe escrevi um poema e o compartilho com quem puder lê-lo e compartilhar:

MEU PAI, NOSSAS MONTANHAS E NOSSOS CREPÚSCULOS

Um pai e seu filho mais envelhecido
Seguem juntos até o mais alto e imaginário pico,
Sobem juntos por trilhas que se apagam
Sob seus pés cansados e com bolhas,
Pisam de leve folhas, relvas ou os espinhos, e, lentos
Sobem como bolhas leves de sabão ao vento,
Que a luz do sol atravessa em arco-íris
E os deslumbra, pois o caminho ainda é longo,
Mesmo se curto é o viver...

Árdua e íngreme é a montanha-vida,
Assim como as vidas nas suas matas e entranhas
As suas pequenas ou grandes rochas são
Milênios de consolidação de uma Terra,
A mesma que o pai ensinou revolver, semear
E com a água que brotar de nossas próprias rochas
Deixar brotar delas novas sementes...

A mesma terra que se queimou e se sulcou com os arados,
Mesmo pisoteada, revolvida, sob pás, picaretas ou enxadas,
 É como sua negra pele  só agora encarquilhada, é mais profunda,
Tem cicatrizes, velhas feridas, mas não morreu,
Pois dentro dela permanecem os úmidos segredos
De ser sempre uma renovada resistência,
Uma nova colheita e um novo espargir sementes...

Mas para que no alto possamos vê-la continuar flor e ser
Temos os dois ainda um aprendizado, um novo ensinar?
Um novo des-conhecer, um olhar juntos e permanentes
Para já antigos crepúsculos, centenários montes,
Onde sempre, por mais de um século, o sol se esconde,
Onde o Sol de seus corações andarilhos, com as in-certezas,
De ter a Vida para escalar, fingiu-se morto para à noite tecer...

E o dia seguinte novamente lhes acontece,
E os dois olhando juntos para esses poentes,
Poeticamente sentem que seus próprios e diferentes crepúsculos,
Suas próprias noites infinitas, mas também de dia findas,
Diante de seus olhares pacientes e sempre aprendizes,
Por serem sempre ávido das incógnitas escarpas e abismos,
Entre as velhas trilhas, com seus pés insistentes,
Teimam, persistem nesse rumo ao horizonte,
O buscar suas próprias finitudes... 

O meu pai caminhante, como os alpinistas sob avalanches,
Sempre em busca do próximo caminho ou vereda,
Subiu e desceu estas montanhas de muitas Minas,
E com ele aprendi que nada
Nem ninguém não nos detém,
Nem mesmo se a Terra treme,
Se andarilhos visionários encaramos
O que temos de destemer:
O nosso paralisante medo de morrer.
E hoje, nos seus 105 anos bio-lógicos, demos apenas,
Mais uma vez juntos, o próximo passo...

(Texto e poema dedicados  e em homenagem a meu pai Arnaldo Pereira de Andrade, o mais ‘velho’ dos andantes romeiros de sua/minha cidade natal... que já atravessa as serras da Mantiqueira há mais de 80 anos...) (TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025

LEITURA CRÍTICA PARA NOS ESTIMULAR MEMÓRIAS –

O TEMPO VIVO DA MEMÓRIA- Ensaios de Psicologia Social – Ecléa Bosi, Editora Ateliê Editorial, São Paulo, SP, 2003.

POESIA COMPROMETIDA COM A MINHA  E A TUA VIDA – Pequena História Natural do Homem no Fim Que  Vem Vindo do Século Vinte – Thiago de Mello, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 1986.

MEMÓRIA E SOCIEDADE – Lembranças de Velhos, Ecléa Bosi, Editora Companhia das Letras, São Paulo, SP, 2001.

INDICAÇÕES DE NOTÍCIAS NA INTERNET –
Centenárias dão dicas sobre como chegar bem aos 100 anos - https://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/07/120702_segredos_vida_longa_mv

‘Supercentenário' brasileiro faz sucesso nos EUA com seu estilo de vida saudável https://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/03/120313_centenario_rc.shtml

Metade dos nascidos hoje em países ricos chegará aos 100 anos, diz estudo https://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/10/091001_bebe_expectativa_vida_np

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –

ENVELHE=SER ou TORNAR-SE, + 1, VELHO? (29 DE ABRIL 2014) https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/04/envelheser-ou-tornar-se-1-velho.html

O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E, ENTRETANTOS, MEU PAI FAZ 102 ANOS... https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/04/o-mundo-envelhece-as-injusticas-ainda.html



quarta-feira, 8 de abril de 2015

SAÚDE, BIOÉTICA E POLÍTICA – Vendem-se corpos e compram-se consciências?

Imagem publicada – uma foto colorida que fiz de uma matéria televisiva sobre o uso de robôs e novas tecnologias a serviço das guerras, de indústrias de ponta nos Eua, onde um manequim é cirurgicamente operado por um robô, que é teleguiado e projetado para servir remotamente a cirurgiões, que irão abreviar atendimento emergencial de soldados feridos em combate. A legenda diz: um robô que pode realizar cirurgias no campo de batalha. Matéria do Discovery Channel onde a robótica é utilizada para criação de drones, robôs espiões e desarmadores de bombas à distância.

“... Ao final do século XX, o fenômeno que mais se destaca é que a compra e venda não dizem respeito ao corpo como um todo, mas envolvem as partes individuais do homem. Assistimos, em outras palavras, à fragmentação comercial do ser humano. Os limites entre os usos e abusos do corpo tornaram-se gradualmente mais sutis e imprecisos...” (Giovanni Berlinguer & Volnei Garrafa, in Mercado Humano, 1996)

In memoriam de Giovanni Berlinguer (1924- 06/04/2015)

Sempre me perguntam se faria uma nova cirurgia. Sempre me indagam se não há um ‘’novo’’ tratamento, para minhas perdas, inclusive da mobilidade física. Sempre se surpreendem quando digo que estou à espera dos robôs da Nasa ou de alguma invenção das biotecnologias que irão trocar toda a minha coluna vertebral e não apenas colocar novos parafusos de titânio. Ainda prefiro a re-existência titânica do viver.

Assisti, recentemente, um desses programas de TV, da Discovery, onde um robô estava a ser testado, como na foto que tirei, para ‘realizar (em tempo recorde e veloz) uma cirurgia em campos de batalha’. Me vi ali deitado e sendo, então, novamente operado. E o bisturi, tele manipulado como nossas atuais consciências, me abria novamente pelas costas.

Hoje uma amiga me telefona, após muitos anos de distanciamento geográfico, e me sugere que façamos, visto essa minha tendência robótica de introduzir titânio no meu corpo, uma campanha para que vá para uma frente de batalha no Afeganistão. Lógico que só com passagem de ida, pois a volta, após a identificação de meu “sanguíneo conteúdo” político, pode ser direta para Guantánamo.

Tenho um belo livro para releitura e reflexão: O Mercado Humano – Estudo bioético da compra e venda de partes do corpo. É o mesmo citado lá em cima. Nele há interrogações sobre nossos tempos de transplantes de órgãos, fecundação artificial, engenharia genética, e, interessantemente, a questão da ‘escravidão ao mercado tecnológico’.

De lá, o livro é de 1996, para os nossos dias de Século XXI posso ter de responder com um sim às suas indagações: “Pode tudo ser realmente comprado ou mesmo roubado? Os órgãos para transplantes, o sangue para as transfusões, os recém-nascidos para as adoções, as meninas para as prostituições?”. Se alguém tem dúvidas busquem, em separado, as perguntas, e as respostas, no grande dicionário digital, o Google.

A realidade cruenta, por exemplo, da questão de tráfico de órgãos veio novamente à tona por causa de médicos lá no Sul de Minas. Não muito longe de minha terra natal e suas águas medicinais. Lá na pacata estância hidromineral de Poços de Caldas. Lá ocorreu o chamado Caso “Paulinho Pavesi”, um menino de 10 anos que teve seus órgãos retirados, segundo matéria de jornal, “enquanto ainda estava vivo”.

Esses e outros ‘’casos’’ estão relatados em jornais de imprensa local e de outros veículos, dos quais listei apenas alguns. O que ligou às notícias foi o título do livro de Berlinguer e Garrafa. Além disso, o surgimento fugaz em redes sociais de matérias midiatizadas recentemente. Não estou e estarei aqui para o julgamento da ‘’Máfia dos órgãos’’, mas para tentar compreender de onde nascem as raízes desse mercado.

Estamos assistindo, tele e midiaticamente, um recrudescimento de atitudes preconceituosas em Faculdades de Medicina. Recentemente vimos ‘veteranos’ com as fardas e capuzes da Klu Khux Khan, estavam em suas ‘fantasias’ e trotes reproduzindo o martírio de negros nos corpos dos ditos ‘bichos ou calouros’, lá na Unesp. Entretanto já tínhamos precedentes. 

Antes tivemos os estupros e as violências dentro das ‘festas’ de iniciação da vetusta Faculdade de Medicina da Usp. Cito apenas estas duas ocasiões violentadoras, em espaços de formação acadêmica, uma que foi naturalizada e outra que passou até por uma CPI, e como “notícias”, em tempos voláteis, só voltarão quando novos casos surgirem.

No texto que escrevi sobre o Holocausto brasileiro promovido, historicamente, lá em Barbacena, MG, já fiz as devidas ligações entre o comércio de corpos do hospício para as mesas de dissecção anatômica das faculdades de medicina. Eu, lamentavelmente, vi e tive esses cadáveres anônimos como ‘’lições’’ de anatomia humana, cheios de formol e de pele totalmente endurecida. Eram os Anos 70.

Creio que a dissolução, possíveis escrúpulos ou humanidades, no mais profundo de nossos inconscientes sobre o homem como sujeito, na formação dos profissionais de saúde, em especial os médicos, ocorrem nessa ‘iniciação’ onde temos uma ‘’oração do cadáver anônimo’’, mas podemos, no futuro, transplantá-lo a categoria de homem-objeto.

Os primeiros ‘poços’ profundos, ou gênesis, de nossa posterior desumanização dos corpos pode fincar as raízes nesse solo acadêmico. Afinal o que nos separaria dos médicos nazistas que, como nos diz Agambem, faziam experimentações com as cobaias humanas, as ‘versuchem person’, onde os judeus ou pessoas com deficiência eram submetidos às mais baixas temperaturas, ou extração ‘a frio’ de órgãos para fins dos ‘avanços da medicina germânica, e a proteção do exército do Reich’? Mas seriam necessárias biopolíticas, leis, e, principalmente escolas da  de-formação da Juventude Hitlerista ou das Faculdades de Medicina, ou não?.

Não estou trazendo de volta o fantasma de Mengele, mas que há um ‘cheiro’ mortal e incômodo de nazifascismo no ar não há como negar. As banalizações e naturalizações de violências estão autorizando, mesmo que não explicitamente, a ‘neomercantilização’, ‘neoescravidão’ e ‘neoexploração’ de nossos corpos insurgentes (como filme dos adolescentes). O Grande Irmão global nos incentiva à neo-guerra. Forjamos novas escolas hipermidiáticas do ódio e de novas Ondas? Ou apenas, neurótica e perversamente, repetimos os nossos passados?

As nossas raízes culturais também se alimentam de trans históricas posições eugênicas dos médicos e educadores do século XX. Lá em São Paulo nos anos 20 podíamos ainda ter a contribuição de eminentes escritores, intelectuais e ‘elites’ sociais que legitimavam a distinção de ‘corpos válidos’ e ‘corpos descartáveis’.

A Vida Nua pode ser captada como um discurso de Eugenia e Poder, segundo estudo de Vera Regina Beltrão Marques, no discurso de Monteiro Lobato, o mesmo das Reinações de Narizinho, que dizia: “-Muito cedo chegou o americano à conclusão de que os males do mundo vinham de três pesos mortos que sobrecarregavam a sociedade- o vadio, o doente e o pobre... A eugenia deu cabo do primeiro, a higiene do segundo e a eficiência do último...”.

E o escritor tinha relações muito próximas com os higienistas e eugenistas brasileiros. Para eles, que se consideravam uma ‘elite’, a eliminação ‘radical’, assim como propõem os fascismos, é a melhor solução para “a América (incluam o nosso país) aproximar-se de um tipo de associação já existente na natureza, a colmeia – mas uma colmeia da abelha que pensa”.

Eis aí um discurso que estamos sendo obrigados a escutar, ver e ler nos nossos tempos de Idade Mídia. Arautos do ‘bom combate’ das nossas corrupções, projetadas apenas no socius, dizem que devemos dar o poder político de gerir o país e a Vida aos que são ‘puros, imaculados e nascidos em berços esplêndidos das classes mais afortunadas’.

Aos outros, aqueles que contaminam nossos shoppings ou nossas periferias, cabe a continuidade do extermínio por ‘golpes brandos’. Mantem-se a alienação, o racismo, as discriminações e o trabalho escravo como naturais. Esses outros são as nossas misérias ou serão.

A exclusão social retoma seus ares de horror econômico e a cultura do medo retoma sua posição a favor de novas e sutis repressões, inclusive políticas. Os corpos são novamente Vidas Nuas, homo sacer.

E, aqueles dos quais se esperava o cuidado com a Saúde, em especial a pública e universal, chamada ainda de SUS, podem nos submeter às desqualificações e desumanizações que justifiquem esse novo mercado privado e altamente rentável. Seremos os novos pacientes doadores espontâneos dos nossos órgãos. E os úteros já estão alugados.

Portanto, não estreitando nossos olhares e visões, acredito que temos de buscar urgentemente uma ressignificação e revitalização de nossos corpos trabalhadores. Já nos terceirizam e comercializam, até quando nos prostituirão as consciências críticas e políticas? Até quando nos darão olhos biônicos e televisivos que nos afastam do Outro e nos dão uma sórdida ilusão de Poder?

A medicalização do viver tem andado passo a passo no mesmo caminho tortuoso da militarização da Vida. Os novos casos, sempre meninos ou meninas, que perdem suas partes fragmentadas, ou por balas de fuzil ou por bisturis eletrônicos, passarão a categoria perversa de ‘efeitos colaterais’ de nossos progressos? Ou são apenas vidas descartáveis que atrapalham as novas tanatocracias ditatoriais ou seus projetos globais, sejam elas nas Áfricas, na Ucrânia, na Síria ou no Brasil?

Portanto, dentro dessa minha visão, que não desejo ser antevisão, espero não ter o falso gozo de me tornar mais uma cobaia humana. As alianças das biotecnologias, das engenharias, das genéticas e das biopolíticas não aliviarão, nem aliviam, os meus mais profundos e poéticos ardores.

Eu, brasileiro, negro, e Lobatianamente descartável, prometo me manter na Re-existência e na Resiliência, política e micropolítica, para além do fato de ser mais um que deseja um envelhecimento com dignidade para a Medicina, em busca de um aprender a construir, bioéticamente, novas pontes para o Futuro ...

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2015/2016 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e/ou outros meios de comunicação para e com as massas. TODOS DIREITOS RSERVADOS 2025)

INDICAÇÕES PARA LEITURAS CRÍTICAS –

O MERCADO HUMANO – Estudo Bioético da Compra e Venda de Partes do Corpo, Giovanni Berlinguer &Volnei Garrafa, Editora UNB, Brasília, DF, 1996.

A MEDICALIZAÇÃO DA RAÇA – Médicos, Educadores e Discurso Eugênico, Vera Regina Beltrão Marques, Editora UNICAMP, Campinas, SP, 1994.

O QUE É VIOLÊNCIA SOCIAL – Jorge P. de Andrade et alii, Escolar Editora, Lisboa, Portugal, 2014.


Notícias pesquisadas na Internet –

CRM absolve médicos condenados por tráfico de órgãos em Poços de Caldas (MG) https://noticias.r7.com/minas-gerais/crm-absolve-medicos-condenados-por-trafico-de-orgaos-em-pocos-de-caldas-mg-14022014  (vejam a quem pertence a empresa MG Sul Transplantes)

'Eles sabiam que a criança estava viva', diz juiz sobre tráfico de órgãos https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2014/02/eles-sabiam-que-crianca-estava-viva-diz-juiz-sobre-condenacoes.html


Em 24/03/2015 - Médicos acusados de retirada ilegal de órgãos são presos em Poços



LEIAM TAMBÉM AQUI NO BLOG –



SAÚDE MENTAL: quando a Bioética se encontra com a Resiliência.

OS MORTOS-VIVOS DO HOSPICIO QUE ENSINAVAM AOS VIVOS SOBRE A VIDA NUA... BARBACENAS NUNCA MAIS! https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/10/os-mortos-vivos-do-hospicio-que.html

ROBÔS, POLÍTICA E DEFICIÊNCIA https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/07/robos-politica-e-deficiencia.html

OS DES(Z) MANDAMENTOS DO CORPO FEMININO https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2015/03/os-desz-mandamentos-do-corpo-feminino.html

TIROS REAIS EM REALENGO - a violência é uma péssima pedagoga https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/04/imagem-publicada-imagem-de-bracos-e.html


SAÚDE, BIOÉTICA E POLÍTICA – Vendem-se corpos e compram-se consciências?

Imagem publicada – uma foto colorida que fiz de uma matéria televisiva sobre o uso de robôs e novas tecnologias a serviço das guerras, de indústrias de ponta nos Eua, onde um manequim é cirurgicamente operado por um robô, que é teleguiado e projetado para servir remotamente a cirurgiões, que irão abreviar atendimento emergencial de soldados feridos em combate. A legenda diz: um robô que pode realizar cirurgias no campo de batalha. Matéria do Discovery Channel onde a robótica é utilizada para criação de drones, robôs espiões e desarmadores de bombas à distância.

“... Ao final do século XX, o fenômeno que mais se destaca é que a compra e venda não dizem respeito ao corpo como um todo, mas envolvem as partes individuais do homem. Assistimos, em outras palavras, à fragmentação comercial do ser humano. Os limites entre os usos e abusos do corpo tornaram-se gradualmente mais sutis e imprecisos...” (Giovanni Berlinguer & Volnei Garrafa, in Mercado Humano, 1996)

In memoriam de Giovanni Berlinguer (1924- 06/04/2015)

Sempre me perguntam se faria uma nova cirurgia. Sempre me indagam se não há um ‘’novo’’ tratamento, para minhas perdas, inclusive da mobilidade física. Sempre se surpreendem quando digo que estou à espera dos robôs da Nasa ou de alguma invenção das biotecnologias que irão trocar toda a minha coluna vertebral e não apenas colocar novos parafusos de titânio. Ainda prefiro a re-existência titânica do viver.

Assisti, recentemente, um desses programas de TV, da Discovery, onde um robô estava a ser testado, como na foto que tirei, para ‘realizar (em tempo recorde e veloz) uma cirurgia em campos de batalha’. Me vi ali deitado e sendo, então, novamente operado. E o bisturi, tele manipulado como nossas atuais consciências, me abria novamente pelas costas.

Hoje uma amiga me telefona, após muitos anos de distanciamento geográfico, e me sugere que façamos, visto essa minha tendência robótica de introduzir titânio no meu corpo, uma campanha para que vá para uma frente de batalha no Afeganistão. Lógico que só com passagem de ida, pois a volta, após a identificação de meu “sanguíneo conteúdo” político, pode ser direta para Guantánamo.

Tenho um belo livro para releitura e reflexão: O Mercado Humano – Estudo bioético da compra e venda de partes do corpo. É o mesmo citado lá em cima. Nele há interrogações sobre nossos tempos de transplantes de órgãos, fecundação artificial, engenharia genética, e, interessantemente, a questão da ‘escravidão ao mercado tecnológico’.

De lá, o livro é de 1996, para os nossos dias de Século XXI posso ter de responder com um sim às suas indagações: “Pode tudo ser realmente comprado ou mesmo roubado? Os órgãos para transplantes, o sangue para as transfusões, os recém-nascidos para as adoções, as meninas para as prostituições?”. Se alguém tem dúvidas busquem, em separado, as perguntas, e as respostas, no grande dicionário digital, o Google.

A realidade cruenta, por exemplo, da questão de tráfico de órgãos veio novamente à tona por causa de médicos lá no Sul de Minas. Não muito longe de minha terra natal e suas águas medicinais. Lá na pacata estância hidromineral de Poços de Caldas. Lá ocorreu o chamado Caso “Paulinho Pavesi”, um menino de 10 anos que teve seus órgãos retirados, segundo matéria de jornal, “enquanto ainda estava vivo”.

Esses e outros ‘’casos’’ estão relatados em jornais de imprensa local e de outros veículos, dos quais listei apenas alguns. O que ligou às notícias foi o título do livro de Berlinguer e Garrafa. Além disso, o surgimento fugaz em redes sociais de matérias midiatizadas recentemente. Não estou e estarei aqui para o julgamento da ‘’Máfia dos órgãos’’, mas para tentar compreender de onde nascem as raízes desse mercado.

Estamos assistindo, tele e midiaticamente, um recrudescimento de atitudes preconceituosas em Faculdades de Medicina. Recentemente vimos ‘veteranos’ com as fardas e capuzes da Klu Khux Khan, estavam em suas ‘fantasias’ e trotes reproduzindo o martírio de negros nos corpos dos ditos ‘bichos ou calouros’, lá na Unesp. Entretanto já tínhamos precedentes. Antes tivemos os estupros e as violências dentro das ‘festas’ de iniciação da vetusta Faculdade de Medicina da Usp.
Cito apenas estas duas ocasiões violentadoras, em espaços de formação acadêmica, uma que foi naturalizada e outra que passou até por uma CPI, e como “notícias”, em tempos voláteis, só voltarão quando novos casos surgirem.

No texto que escrevi sobre o Holocausto brasileiro promovido, historicamente, lá em Barbacena, MG, já fiz as devidas ligações entre o comércio de corpos do hospício para as mesas de dissecção anatômica das faculdades de medicina. Eu, lamentavelmente, vi e tive esses cadáveres anônimos como ‘’lições’’ de anatomia humana, cheios de formol e de pele totalmente endurecida. Eram os Anos 70.

Creio que a dissolução, possíveis escrúpulos ou humanidades, no mais profundo de nossos inconscientes sobre o homem como sujeito, na formação dos profissionais de saúde, em especial os médicos, ocorrem nessa ‘iniciação’ onde temos uma ‘’oração do cadáver anônimo’’, mas podemos, no futuro, transplantá-lo a categoria de homem-objeto.

Os primeiros ‘poços’ profundos, ou gênesis, de nossa posterior desumanização dos corpos pode fincar as raízes nesse solo acadêmico. Afinal o que nos separaria dos médicos nazistas que, como nos diz Agambem, faziam experimentações com as cobaias humanas, as ‘versuchem person’, onde os judeus ou pessoas com deficiência eram submetidos às mais baixas temperaturas, ou extração ‘a frio’ de órgãos para fins dos ‘avanços da medicina germânica, e a proteção do exército do Reich’? Mas seriam necessárias biopolíticas, leis, e, principalmente escolas da  de-formação da Juventude Hitlerista ou das Faculdades de Medicina, ou não?.

Não estou trazendo de volta o fantasma de Mengele, mas que há um ‘cheiro’ mortal e incômodo de nazifascismo no ar não há como negar. As banalizações e naturalizações de violências estão autorizando, mesmo que não explicitamente, a ‘neomercantilização’, ‘neoescravidão’ e ‘neoexploração’ de nossos corpos insurgentes (como filme dos adolescentes). O Grande Irmão global nos incentiva à neo-guerra. Forjamos novas escolas hipermidiáticas do ódio e de novas Ondas? Ou apenas, neurótica e perversamente, repetimos os nossos passados?

As nossas raízes culturais também se alimentam de trans históricas posições eugênicas dos médicos e educadores do século XX. Lá em São Paulo nos anos 20 podíamos ainda ter a contribuição de eminentes escritores, intelectuais e ‘elites’ sociais que legitimavam a distinção de ‘corpos válidos’ e ‘corpos descartáveis’.

A Vida Nua pode ser captada como um discurso de Eugenia e Poder, segundo estudo de Vera Regina Beltrão Marques, no discurso de Monteiro Lobato, o mesmo das Reinações de Narizinho, que dizia: “-Muito cedo chegou o americano à conclusão de que os males do mundo vinham de três pesos mortos que sobrecarregavam a sociedade- o vadio, o doente e o pobre... A eugenia deu cabo do primeiro, a higiene do segundo e a eficiência do último...”.

E o escritor tinha relações muito próximas com os higienistas e eugenistas brasileiros. Para eles, que se consideravam uma ‘elite’, a eliminação ‘radical’, assim como propõem os fascismos, é a melhor solução para “a América (incluam o nosso país) aproximar-se de um tipo de associação já existente na natureza, a colmeia – mas uma colmeia da abelha que pensa”.

Eis aí um discurso que estamos sendo obrigados a escutar, ver e ler nos nossos tempos de Idade Mídia. Arautos do ‘bom combate’ das nossas corrupções, projetadas apenas no socius, dizem que devemos dar o poder político de gerir o país e a Vida aos que são ‘puros, imaculados e nascidos em berços esplêndidos das classes mais afortunadas’.

Aos outros, aqueles que contaminam nossos shoppings ou nossas periferias, cabe a continuidade do extermínio por ‘golpes brandos’. Mantem-se a alienação, o racismo, as discriminações e o trabalho escravo como naturais. Esses outros são as nossas misérias ou serão.

A exclusão social retoma seus ares de horror econômico e a cultura do medo retoma sua posição a favor de novas e sutis repressões, inclusive políticas. Os corpos são novamente Vidas Nuas, homo sacer.

E, aqueles dos quais se esperava o cuidado com a Saúde, em especial a pública e universal, chamada ainda de SUS, podem nos submeter às desqualificações e desumanizações que justifiquem esse novo mercado privado e altamente rentável. Seremos os novos pacientes doadores espontâneos dos nossos órgãos. E os úteros já estão alugados.

Portanto, não estreitando nossos olhares e visões, acredito que temos de buscar urgentemente uma ressignificação e revitalização de nossos corpos trabalhadores. Já nos terceirizam e comercializam, até quando nos prostituirão as consciências críticas e políticas? Até quando nos darão olhos biônicos e televisivos que nos afastam do Outro e nos dão uma sórdida ilusão de Poder?

A medicalização do viver tem andado passo a passo no mesmo caminho tortuoso da militarização da Vida. Os novos casos, sempre meninos ou meninas, que perdem suas partes fragmentadas, ou por balas de fuzil ou por bisturis eletrônicos, passarão a categoria perversa de ‘efeitos colaterais’ de nossos progressos? Ou são apenas vidas descartáveis que atrapalham as novas tanatocracias ditatoriais ou seus projetos globais, sejam elas nas Áfricas, na Ucrânia, na Síria ou no Brasil?

Portanto, dentro dessa minha visão, que não desejo ser antevisão, espero não ter o falso gozo de me tornar mais uma cobaia humana. As alianças das biotecnologias, das engenharias, das genéticas e das biopolíticas não aliviarão, nem aliviam, os meus mais profundos e poéticos ardores.

Eu, brasileiro, negro, e Lobatianamente descartável, prometo me manter na Re-existência e na Resiliência, política e micropolítica, para além do fato de ser mais um que deseja um envelhecimento com dignidade para a Medicina, em busca de um aprender a construir, bioéticamente, novas pontes para o Futuro ...

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2015/2016 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e/ou outros meios de comunicação para e com as massas. TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

INDICAÇÕES PARA LEITURAS CRÍTICAS –

O MERCADO HUMANO – Estudo Bioético da Compra e Venda de Partes do Corpo, Giovanni Berlinguer &Volnei Garrafa, Editora UNB, Brasília, DF, 1996.

A MEDICALIZAÇÃO DA RAÇA – Médicos, Educadores e Discurso Eugênico, Vera Regina Beltrão Marques, Editora UNICAMP, Campinas, SP, 1994.

O QUE É VIOLÊNCIA SOCIAL – Jorge P. de Andrade et alii, Escolar Editora, Lisboa, Portugal, 2014.


Notícias pesquisadas na Internet –

CRM absolve médicos condenados por tráfico de órgãos em Poços de Caldas (MG) https://noticias.r7.com/minas-gerais/crm-absolve-medicos-condenados-por-trafico-de-orgaos-em-pocos-de-caldas-mg-14022014  (vejam a quem pertence a empresa MG Sul Transplantes)

'Eles sabiam que a criança estava viva', diz juiz sobre tráfico de órgãos https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2014/02/eles-sabiam-que-crianca-estava-viva-diz-juiz-sobre-condenacoes.html


Em 24/03/2015 - Médicos acusados de retirada ilegal de órgãos são presos em Poços



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SAÚDE MENTAL: quando a Bioética se encontra com a Resiliência.

OS MORTOS-VIVOS DO HOSPICIO QUE ENSINAVAM AOS VIVOS SOBRE A VIDA NUA... BARBACENAS NUNCA MAIS! https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/10/os-mortos-vivos-do-hospicio-que.html

ROBÔS, POLÍTICA E DEFICIÊNCIA https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/07/robos-politica-e-deficiencia.html

OS DES(Z) MANDAMENTOS DO CORPO FEMININO https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2015/03/os-desz-mandamentos-do-corpo-feminino.html

TIROS REAIS EM REALENGO - a violência é uma péssima pedagoga https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/04/imagem-publicada-imagem-de-bracos-e.html