segunda-feira, 8 de agosto de 2011

AS SEXUALIDADES NÃO SÃO "DEFICIENTES"...


Imagem publicada - a capa do Dvd do filme Nascido em 04 de Julho ( Born on the Fourth July) que está com o rosto do jovem soldado Ron Kovic, interpretado por Tom Cruise, entre as duas faixas de anúncio do filme, com uma bandeira dos Estados Unidos, com suas listas brancas e vermelhas alternadas, com seu azul cheio de estrelas, que lhe serve de fundo, de forma suave. O filme nos trará um drama sobre um jovem que vai à Guerra do Vietnã (1955-1975) em seu idealismo insuflado dos Anos 70, e, após ser ferido, torna-se paraplégico. Ao voltar ao seu país terá o confronto com a família, as perdas, sua nova condição humana, a exaltação de um heroísmo preso à sua cadeira de rodas. E, principalmente, enfrentará/sofrerá as mudanças de seu corpo e de sua sexualidade. Um tema que já havia sido tratado em outro premiado filme: Amargo Regresso (1978), título que também caberia nessa história e tema em repetição.

Sobre direitos sexuais e reprodutivos de pessoas com deficiência

Hoje revi e repensei sobre o filme Nascido em 04 de Julho (1989). Nesse mesmo momento a Bolsa de Nova York nos diz que o mundo hipercapitalista reconhece seu próprio risco econômico. Rebaixam o Império ao mesmo nível que rebaixaram o México que aparece no filme de Oliver Stone. Lá estão as mulheres mexicanas, prostituidas, que podem resgatar a virilidade perdida pelo personagem vivido por Tom Cruise, "paralítico", impotente e veterano de guerra.

Uma mulher, representada no filme com o nome Maria Helena, protagoniza uma das melhores cenas, quando o faz descobrir que, apesar de sua paraplegia, há muito que sentir quando a sensibilidade e o desejo se cruzam em um encontro sexual. Para além de todas as repressões e impotências.

Estamos, hoje, está em um patamar bem diferente dos tempos vividos pelo personagem do filme. Relembro, eram tristemente , tempos de Vietnã, os famosos Anos 70 da economia de guerra para os EUA e dos Anos de Chumbo da Ditadura por aqui. Os soldados mutilados lá, os torturados por aqui... E o sexo aprisionado apenas nos bordéis para os que se tornavam marginalizados ou párias.

Estes tempos que ainda se repetem, com novos slogans, com novas Vidas Nuas sendo tratadas como matáveis. Diziam, à época: ..."se você não ama os EUA, caiam fora daqui..., replicamos isso em nossa Terra Brasilis: " Ame-o ou Deixe-o". Mas também dizíamos: "Peace and Love". O modelo conservador conseguiu não dar uma chance à Paz e ainda mantemos a negação da repressão que atravessa nossos corpos, agora transparentes e líquidos.

Hoje, em tempos de hiperexposição dos corpos, as formas de reprimir e disciplinar são bem mais sutis e não tão disciplinadoras, somos menos libertários. Caminhamos, como já disse, mais para a antipatia pelo Outro do que para uma empatia que nos preserve, em direitos iguais, com o direito à Diferença e à heterogeneidade. As pessoas com deficiência, por suas diferenças visíveis ou conotadas, além dos sentimentos eugenistas, ainda são sexualmente segregadas?

A existência de vida sexual para as pessoas com deficiência e seus direitos reprodutivos já são um tema que já abordei. Este filme integrou um projeto de levar os cegos ao cinema. Foi em 1998, no IAB, Instituto dos Arquitetos do Brasil, quando organizei, pelo DefNet, um Ciclo de Cinema e Pessoas com Deficiência, cujo nome já indicava nosso sonho: "Um Olhar para Além do Olhar".

Era a tentativa de provar que pessoas com deficiência visual poderiam frequentar e ''ver'' filmes. Criamos uma figura: os ''ledores de cinema''. Era uma incipiente tentativa de audiodescrever o que se passava na tela. Era também a tentativa de abordar temas que suscitassem polêmica, debate e reflexão. A questão da sexualidade negada de pessoas com deficiência foi, à época, trazida pelo Nascido em 04 de Julho.

Resgatar esse filme, hoje, me trouxe para o que há de atual ainda em seu modelo denúncia e crítica. Atualmente as nossas ''guerras'' são mais sofisticadas tecnologicamente, e os veteranos já estão sendo projetados como futuros ''avatares''. As suas cadeiras de rodas e seus corpos podem ser reciclados. Porém, me pergunto se perduraram os preconceitos quantos às suas sexualidades? Sim, devemos dizer retumbantemente.

Nossos tempos são de homofobias, xenofobias e, exagerando, ''deficientefobias''. O que diriam os vereadores paulistanos, em recente reação ao Dia do Orgulho Gay, se soubessem que muitas pessoas com deficiência são gays? Na sua intolerância, disfarçada de "democracia", iriam, demagogicamente, propor um projeto de lei "especial" para o Dia do Orgulho dos Heteros Deficientes?

Ainda passamos com um carro denominado Progresso, Ordem e Intolerância sobre o corpo-social de Pasolinis? Precisamos estilhacar e despedaçar o corpo-guerreiro de Aquiles para provar que nossas novas e americanas Tróias imperiais, conservadoras e belicosas são, apesar de derrotadas, eternas? Precisamos de corpos-serializados e perfeitos para provar para Breivik (ing)* e seu ''povo eleito'' que o terror não inibirá o desejo e muito menos a vida amorosa e sexual dos diferentes ou miscigenados? Precisamos de corpos-disciplinados, em reality-shows, competitivamente esculpidos em formas ideais, para provar que só podem fazer sexo aqueles que forem considerados "video-normais"?

Estes dias republiquei uma matéria de um vereador de Salvador que deseja ver os motéis de sua cidade acessíveis para as pessoas com deficiência. Veio em boa hora, um lembrete para que todas as cidades, seus políticos e cidadãos se lembrem da existência de uma considerável parte de suas populações: as pessoas com deficiência. E elas desejam, sentem, aspiram, respiram e fazem sexo. Assim também se amam ou não...

A proposta propõe a acessibilidade em motéis e hotéis da capital baiana, agora tramita na Câmara Municipal de Salvador. A proposta é de autoria do vereador Henrique Carballal (PT). Os estabelecimentos, hotéis e motéis, com mais de 20 leitos seriam obrigados a realizar adaptações para beneficiar pessoas deficientes ou com mobilidade reduzida.

a Enquanto a lei não os obriga, imaginemos uma nova cena para a sexualidade livre de pessoas com deficiência. Outro dia um amigo mineiro, com histórica vivência de Paralisia Cerebral, me consultava se não seria motivo de prisão o fato, não ocorrido, de que sua namorada o levasse a um motel. Como ele é pessoa com paralisia cerebral, e tendo alguma dificuldade para explicar em palavras seus atos e desejos, como ficaria quando ele pedisse uma máquina de escrever, como aquela da Gaby, no filme Uma História Verdadeira, para explicar seu tesão e desejo pela namorada, que não é uma pessoa com deficiência??.

Então, ele começaria a digitar, hipoteticamente, com o pé esquerdo, a seguinte mensagem: " - Eu estou aqui por livre e espontânea vontade. Ela não me obrigou ou obrigará a fazer quaisquer dos atos libidinosos que nós dois estamos intensamente desejantes.


 EU TAMBÉM QUERO AMAR E SER AMADO, COM TODA INTENSIDADE QUE QUALQUER OUTRO SER HUMANO. E, caso ela fique grávida eu terei o maior prazer de me tornar pai e ajudar a cuidar de nosso filho. Apesar que isso não acontecerá, pois eu já aprendi a usar preservativos há muito tempo. Sei que pessoas com deficiência vivem também nos tempos da Aids. 


Portanto, caros senhores e senhoras, seres cinzentos da Censura e da falsa Moral, não há porque me manter em uma posição de dependência e total vulnerabilidade. Não continuem negando minha existência com direito às diferentes formas de sexualidade humana. Sou eu quem pediu para vir a este motel, aliás, inacessível..."

Somos, então, Diferentes, não somos desiguais em direitos. Semelhantes? sempre seremos, em muitos desejos. Por isso, reafirmamos, não somos assexuados. Somos parte de uma diversidade humana que, em suas pluralidades e singularidades, também afirmam como o poeta: Qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amar. A(s) Sexualidade(s) não são deficientes nem deficitárias: são as expressões máximas da vida, quando são livres das amarras de nossos íntimos preconceitos ou temores.

O maior cuidado é quando nos tornam apenas objetos, Vidas Nuas. É quando passamos a vítimas de violências, inclusive, e, principalmente, meninas e mulheres com deficiências.

O tema é vasto, profundo, polêmico e necessário. Não se esgotará neste texto. Apenas espero que muitos jovens com deficiência, sem distinção de suas orientações e escolhas sexuais, possam gozar dos mesmos direitos sexuais e reprodutivos de todos os outros jovens daqui, dali e de todo o mundo. E que todos os motéis possam descobrir esses novos e prazeirosos frequentadores. E a acessbilidade deixe de ser apenas a remoção das barreiras físicas e arquitetônicas...

PS - Em tempo, sobre o projeto do vereador -
Segundo o Decreto 5296, de 2004, todos os hotéis, motéis, pousadas ou abrigos deveriam já devem estar com plena acessibilidade para as pessoasa com deficiência.
Segundo a lei: Art. 8o 

Para os fins de acessibilidade, considera-se: I - acessibilidade: condição para utilização, com segurança e autonomia, total ou assistida, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos serviços de transporte e dos dispositivos, sistemas e meios de comunicação e informação, por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida

VII - edificações de uso coletivo: aquelas destinadas às atividades de natureza comercial, hoteleira, cultural, esportiva, financeira, turística, recreativa, social, religiosa, educacional, industrial e de saúde, inclusive as edificações de prestação de serviços de atividades da mesma natureza;


IMPRESCINDÍVEL LEITURA E APLICAÇÃO: DECRETO Nº 5.296 DE 2 DE DEZEMBRO DE 2004

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/decreto/d5296.htm

copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011-2012 ( favor citar o autor e as fontes em republicações livres na Internet e outros meios de comunicação de massa TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Indicações para LEITURA
A Revolução Sexual sobre Rodas" (Ed. Nome da Rosa ) - Fabiano Pulhman

A sexualidade da pessoa com deficiência - Leandra Migotto Certeza -
https://www.inclusive.org.br/?p=12340

Inclusão e Sexualidade: na voz de pessoas com deficiência -Ana Cláudia Bortozolli Maia (Editora Juruá) https://www.jurua.com.br

Indicações de publicações na Internet -
VEREADOR QUER MAIS ACESSIBILIDADE NOS MOTÉIS 
https://www.otabuleiro.com.br/blog/?p=11803

Vereador quer acesso para deficientes em Motéis -
https://www.bahianoticias.com.br/noticias/noticia/2011/08/05/99306,vereador-quer-acesso-para-deficientes-em-moteis.html#

Direitos (Sexuais e Reprodutivos) da pessoa com deficiência serão discutidos em seminário (no Piauí)
https://180graus.com/geral/direitos-da-pessoa-com-deficiencia-serao-discutidos-em-seminario-446318.html

Brasil: Orgulho Hétero ou Intolerância Homo?
https://pt.globalvoicesonline.org/2011/08/07/brasil-orgulho-hetero-intolerancia-lgbt/

Dica de filme: “Nascido em 4 de julho” - Diretor: Oliver Stone (1989) - Guia Inclusivo
https://www.guiainclusivo.com.br/2011/07/dica-de-filme-%E2%80%9C nascido-em-4-de-julho%E2%80%9D/

Gaby - Um História Verdadeira - Diretor: Luis Mandocki (1987)
https://incluirse.blogspot.com/2009/06/gaby-uma-historia-verdadeira.html

Alguns Blogs indicados sobre o tema:
Ações e reflexões sobre aids e deficiência: diferentes vozes
https://aidsedeficiencia2010.blogspot.com/

Sexo Eficiente https://sexualidadeficiente.blogspot.com/

Mão na Roda - Motel adaptado no Rio! https://maonarodablog.com.br/2010/02/26/motel-adaptado-no-rio/

¨*SOBRE  O TERRORISTA NORUEGUÊS BREIVIKING - Leia também no blog -
A TOLERÂNCIA É MAIS QUE UM BACALHAU NO MEU FEIJÃO https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/07/tolerancia-e-mais-que-um-bacalhau-no.html

domingo, 31 de julho de 2011

O JUQUINHA, E SUA CADEIRA , por uma Educação Diferente

Imagem publicada- foto de uma sala de aula no Mato Grosso, onde estão sentadas diferentes crianças, sentados em suas carteiras enfileiradas, e onde não encontramos nenhuma criança com deficiência, à primeira vista, tendo um menino de olhar interrogativo e calçando um par de sandálias (tipo havaianas) que se destaca nessa foto de Lenine Martins (Secom-MT). Ele representa o personagem criado por meu texto abaixo, caso consigam vê-lo ou imaginá-lo sentado em uma cadeira de rodas: o Juquinha.

Em homenagem a todos e todas que persistem na luta por uma Educação Diferente, Inclusiva, Laica, Pública e como um Direito Humano, republico o texto que foi distribuído no I Encontro Interestadual por uma Educação Diferente, realizado com o apoio e no espaço da UNIRIO, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, em 1997.

Era uma das primeiras iniciativas do DefNet em prol do debate, discussão acadêmica ou não, entre os diferentes protagonistas do movimento em prol da Educação Inclusiva no Brasil. 

Tive a honra de organizar este evento, assim como de conhecer muitos e muitas que ainda estão ativamente discutindo e propagando as ideias fundamentais do processo de inclusão escolar, como, por exemplo, a Profª Drª Rosita Edler de Carvalho, que já me ajudou a colocar os pingos nos "is" da Educação Inclusiva.

O tempo passou mas nossas lutas continuam na direção do aprender a aprender, e a cada dia mais ficam claras as heterogeneidades humanas que compõem os alunos do atendimento educacional especializado, e para tanto reconhecer suas diferenças poderá nos levar àquela tão sonhada e desejada Educação Diferente. Uma Educação, fundamentada em Direitos Humanos e no Multiculturalismo, tão necessário e tão combatido agora, uma dedicada educação para todas as formas e singularidades de Diferenças.

O JUQUINHA, E SUA CADEIRA ...”

(uma singela homenagem minha a Jacques Prévert e Cora Coralina, poetas-professores)
(recriação livre de texto de H. E. Buckley)

Once upon a Time, Era uma vez um menino, o Juquinha, muito Diferente, que contrastava com a sua escola muito Igual a todas, grande, cheia de escadas, alunos, professores, e a temível Diretora. Quando, um dia a mãe do Juquinha descobriu que ele precisava ir para escola, ela procurou, e descobriu que não tinha escola para “gente diferente” como ele. 

E então ela tentou e conseguiu que esta escola igual a todas deixasse o pequeno Juquinha entrar pela porta da rua, todo feliz e inocente, porém ainda diferente.
A escola continuava grande, enorme, mas já não era tão grande como antes do Juquinha entender o que era a ESCOLA.

Um dia, numa daquelas manhãs que o Sol entra pela janela da sala de aula, a professora D. Norma, disse: “Hoje nós vamos fazer um desenho”.
Que bom!” pensou o Juquinha, que, aliás, não falava direito além de ser diferente.

Mas que sabia desenhar, e gostava de rabiscar papéis (e até paredes, quando a sua mãe não estava presente), ele desenhava bichos, brinquedos, meninos e meninas, e um ‘tal’ de ‘doutor’. Ele pegou sua caixa de giz de cera, pois isto ele conseguia pegar com a mão direita..., e começou a desenhar.

Então, de súbito, D. Norma disse: “Stop, Parem!!! Ainda não é hora de começar, eu não autorizei ninguém ainda...”. Ela olhava ‘furibunda’ para o Juquinha... E esperou todos os outros da sala ficarem ‘quietos e arrumadinhos’ para dizer: “Podem começar... e frisou, Nós iremos desenhar flores e árvores”, e começou como lápis verde, e disse (solene): 
!”Como eu os amo muito Eu vou ensinar e mostrar como deve ser feita uma Flor...”. 

E fez uma flor vermelha com pétalas amarelas e caule verde, bem certinha, e com as raízes fincadinhas no chão... TUDO muito arrumadinho e certinho como ela gostava...
Juquinha olhou, olhou e tresolhou a flor (ele ‘usa’ uma grande armação com lentes muito grossas, parecendo os antigos professores com seus óculos, os Lentes). 

E não gostou da flor. Gostou mais dos bichos e das pererecas que havia desenhado, mas não podia dizer isto, além do que ele não falava direito, né??... Virou o papel, com algum esforço e desenhou uma flor IGUAL à da professora Norma. Era vermelha e com o caule verdinho.

Outro dia, durante a aula, depois de Ter dificuldade para entrar na sala de aula, o Juquinha ouviu a professora dizer: “Hoje nós iremos fazer algumas coisas com a Argila”.

Mais uma vez, pensou o Juquinha, eis a minha oportunidade de mostrar o que sei fazer com o barro, apesar de Ter o braço meio torto...Ele gostava de criar pequenos homenzinhos com a argila, e até carrinhos e caminhões ele já conseguiu fazer (muito embora esses objetos não sejam tão perfeitinhos assim, eles ficam meio tortos, feito o braço dele...) E foi logo pondo a mão na massa, aliás no barro.

Aí ouviu a voz retumbante de D. Norma: “ESPEREM!, NÃO mandei ninguém começar ainda..!!! e após aquele silêncio terrível disse do alto de sua capacidade e poder: “Hoje nós vamos modelar um prato... E eu vou mostrar como se faz isso direito. E vocês podem começar..” Fez um prato certinho e redondinho, perfeitinho, e até parecia muito bonitinho.

E o Juquinha olhou, olhou e tresolhou (às vezes as lentes ficam sujas, ainda mais no meio de tanto barro, e com tanto descontrole das mãos...), e ele viu que começava a fazer um homenzinho, baixinho, gordinho, defeituoso por acaso, mas ele NÃO podia fazer isto. E então ele amassou a argila e fez um prato, um prato bem fundo, embora raso e igual ao da professora.

Então sentado naquela cadeira, uma cadeira que nunca desgrudava dele, ele procurou aprender que era melhor esperar a D. Norma autorizar, com o olhar e sua fala forte, a fazer exatamente como ela. Afinal quem estava ensinando naquela escola ???!!! E logo em seguida aprendeu também a ficar quietinho, arrumadinho, sentadinho e bem comportado. Afinal quem estava ali para ser educado ???!!!

UM dia ele, o Juquinha teve de mudar de Escola. Esta escola era ainda maior e mais escola que a que tinha a D. Norma. Ele tinha de subir as grandes escadarias com a sua cadeira colada no traseiro, com pessoas ajudando, e entrar por aquela porta estreitinha da sua sala...

UM dia a sua nova professora, D. Orma disse: 
“Hoje, meus pequeninos, nos vamos fazer um desenho”.
QUE maravilha !!” pensou e exultou o Juquinha, e esperou que a ‘fessora’ dissesse o que desenhar. 

E ela, como perdera “N” coisas de seus conceitos e preconceitos, não disse nada. Apenas andava calmamente pela sala. E se aproximou do Juquinha e perguntou:
Você não quer desenhar ??” E o Juquinha perguntou:
Mas desenhar o quê ??”
Eu não posso saber até que você faça” respondeu D.Orma.
Então o que posso fazer ??” retrucou o Juquinha,
O que você gostar e o que conseguir fazer...” ,
Mas eu aprendi a copiar e fazer sempre IGUAL, todo mundo deve ser igual na escola...” diz consternado, o ‘pobre” Juquinha,
Mas se todo mundo fizer sempre o mesmo desenho, e ninguém for diferente, todo mundo fizer flores vermelhas e caules verdes, ficaremos todos IGUAIS, e eu não vou poder saber quem foi o “artista” que andou pintando lindos homenzinhos, baixinhos, gordinhos e diferentes nas paredes desta sala, SEMPRE COM UM FLOR DIFERENTE NAS MÃOS...”

e o JUQUINHA DESENHOU PELA PRIMEIRA VEZ UMA CADEIRA DE RODAS, com um menininho segurando uma flor na mão...”

(Texto elaborado por mim para o I Encontro Interestadual por uma Educação Diferente promovido pelo DEFNET Centro de Informática e Informações sobre Paralisias Cerebrais, em agosto de 1997 – Rio de Janeiro- RJ)

copyright – Jorge Márcio Pereira de Andrade 1997/2012, ad infinitum (favor citar o autor em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa, todos direitos reservados) TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025

LEIA TAMBÉM NO BLOG:

A EDUCAÇÃO DE PÉS DESCALÇOS(por um educação dos diferentes pés, calçados ou não)

A AMIZADE COMO ALICERCE DA INCLUSÃO ESCOLAR - Saindo das fraldas?https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/07/amizade-como-alicerce-da-inclusao.html

A INCLUSÃO ESCOLAR AINDA USA FRALDAS? 

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A TOLERÂNCIA É MAIS QUE UM BACALHAU NO MEU FEIJÃO COM ARROZ ? em busca da Empatia , para além da Antipatia...


Imagem publicada -a capa de um dvd do filme: "Arn,o Cavaleiro Templário", com o ator empunhando um espada, vestindo uma armadura e vestes brancas, manchadas de sangue, com o símbolo da Cruz que os cavaleiros templários ostentavam e defendiam nas Cruzadas. Este filme me retornou à mente após o atentado da Noruega, pois se trata de um conto de poder, coragem e traição, ambientado na Suécia, conta a inesquecível história de amor de Arn Magnussson, jovem culto e exímio esgrimista, e Cecilia, separados pela guerra entre cristãos e muçulmanos, quando ele é enviado como cavaleiro templário para a Terra Santa. A capa traz escrito: "a missão de um heróico cavaleiro nas sangrentas cruzadas", que justificaram, e ainda justificam, as ações de invasão, guerra e destruição dos que foram os primeiros acusados do que ocorreu em Oslo e na Ilha Utoeya. É a mesma cruz dos cavaleiros estampada no texto que o assassino e terrorista norueguês colocou na capa de seu Manifesto da Internet.(An European Declaration of Independence - 2083" Uma declaração de Independência Europeia - 2083)...

...em busca da Empatia , para além da Antipatia...

Eu confesso, não como bacalhau. Isso mesmo não posso nem com o seu cheiro à mesa, principalmente quando rodeado de boas batatas e muitos outros legumes, inclusive com meu idolatrado azeite extra virgem. Mas uma coisa é não gostar do bacalhau da Noruega. A outra é tornar todos os ''noruegueses, portugueses, espanhóis ou europeus'' que gostam deste prato em suas mesas, em motivo de repulsa, ódio, nojo, desgosto ou ''alguma coisa que não consigo engolir...''. Não podemos tornar nossos pratos, culturalmente identificatórios, em motivo para alimentar nossos fanatismos ou narcisismos de pequenas diferenças. Há muitos que não comem feijoada, principalmente, nesse momento, na Somália. 

O viking templário nos trouxe volta para a questão da tolerância. E fui buscar meus pensamentos sobre o tema. Descobri que já apresentei um texto de antevisão sobre estes seres humanos que confundem suas visões fascistas com a forma que cada um vê, experimenta e usufrui da Vida. Meu texto escrito para uma conferência em julho de 2006 já me colocava uma interrogação: Telepatia, Empatia ou Antipatia: por onde caminhamos nas trilhas da Diferença? Já o reproduzi, em parte, no meu texto A Máquina da Empatia.

Apresentei-o no XV Congresso de Leitura do Brasil. Na ocasião se discutia a temática deste importante evento. Era um "encontro que se propunha pensar as “crianças mudas telepáticas” em nós e para além das hecatombes e violências do cotidiano precisamos buscar um ‘meta diálogo’, ou seja uma conversa acerca deste problemático caminhar nas trilhas da diferença em um tempo de homogeneização e de produção serializada de subjetividades. 

Nossas trilhas das Antipatias se acentuaram, agora gritam para além das paredes de uma Escola em Realengo, escapando dos seus muros, agora sob vigilância, embora no esquecimento público. No texto de 2006 eu já afirmava: ... [naquele] Congresso que aponta(va) para as Crianças Mudas Telepáticas é (era) o desejo de uma maior implicação com a transformação da irredutibilidade dos processos de exclusão, assim colocados quando naturalizados, bem como dos processos de inclusão que podem nos fazer crer, a ferro e a fogo, que o melhor para os diferentes é torná-los ‘normais’...

Era e é um ato de fragmentação ou de glorificação de identidades, que o recente atentado da Noruega nos reapresentou. Hoje, reassistimos, telepaticamente, a busca da homogeneização e a negação das diferenças culturais. Tudo em nome de uma suposta diversidade cultural euro e egocêntrica de apenas um homem: Anders Behring Breivik. Ele me provoca novamente: por onde caminhamos nas trilhas da Diferença?

Trabalhei, agora repenso, com essas 3 palavras ao léu, três movimentos, três ações que podemos realizar no tabuleiro do xadrez das relações humanas. E, neste sentido, os desejos da distância (tele), do dentro e do mesmo (empático) ou de uma maior exclusão (antipática,) nesta época do apagamento das distâncias geográficas, poderão nos conduzir a uma falsa empatia, encobridora da antipatia e da xenofobia que estes Outros diferentes, próximos distantes nos causam..., com os quais só teríamos futuros contatos virtuais e telepáticos? 

O jovem cristão norueguês, lamentavelmente, confirmou meus temores e angústias diante dos olhares e ideologias de exclusão que já se alimentavam, como o Ovo da Serpente, há muito tempo.

A tolerância vem se tornando cada dia mais uma resultante, ou melhor, uma atitude reativa à intolerância, principalmente a que nos é provocada pela violência, pelos movimentos xenofóbicos, homofóbicos, pelo racismo, pela discriminação de pessoas com deficiência, pela segregação de pessoas com transtornos mentais, enfim, todos os movimentos que alicerçam as desigualdades sociais e promovem a Exclusão. 

Os nossos ''políticos'' de ''direita'' andam fazendo sua parte nessa Terra Brasilis, onde, na cabeça e no bolso nada rico de inclusão, conhecimentos e afetos, alimentamos nossas pequenas e latinas intolerâncias.

Mas como combater todos estes “males ou defeitos” se estão enraizados em nossas mentes e corações como preconceitos permanentes contra toda forma de alteridade ou diferença? O Outro é sempre um alienígena que virá nos destruir ou tomar a nossa querida e preciosa Terra. 

Continuamos, eurocentricamente bem educados, angustiados com a ''invasão'' de nossos pequenos territórios, nossas pequenas ''propriedades'', nossos castelos narcisistas, onde o ideal é erradicar os que denominaremos como o ''mal'' ou como uma ''anormalidade ou disfunção''.

O Outro sempre visto como o ‘mal’, tornou-se radicalmente uma invenção maléfica, como o disse Frederick Jameson: “o mal é caracterizado por qualquer coisa que seja radicalmente diferente de mim, qualquer coisa que, em virtude precisamente dessa diferença, pareça constituir uma ameaça real e urgente a minha própria existência....” , assim sendo podemos localizar os “bárbaros” fora de nossa sacrossanta e pura imagem de nós mesmos. Nascem as 'guerras santas'...

Os que não são idênticos a mim, pertençam a minha gang, classe, etnia ou utopia devem ser excluídos. E, afinal ‘malvados’ sempre serão os outros, que podem ser tanto um índio, um negro, um morador de rua, um doente mental, um favelado, um deficiente intelectual ou alguém que é estranho ou fala uma outra língua,ou come pratos considerados exóticos para minha outra língua...

O manifesto do jovem cavaleiro templário norueguês, com sua cruz na capa de seu manifesto pré-terror, nos recoloca, na Idade Mídia, dentro da cultura do Medo. Ele ataca sua própria gente e ''raça Viking''. No seu radicalismo eugênico e racista busca eliminar com uma bomba, simbolicamente o Estado multicultural e progressista.

Ele, fantasiado de policial ou guerreiro, é o mesmo que explode balas especiais nos corpos jovens de um Partido Trabalhista. Planejada e meticulosamente construiu o "mal" a ser exterminado. Projetou-o nos jovens da ilha, o mesmo que, textualmente, havia projetado nos estrangeiros, inclusive nós brasileiros. Os colonizados ou os ''infiéis' podem contaminar sua terra, seu povo, seu país e toda a Europa. 

Por aqui, na Terra Brasilis, os extermínios também podem estar usando fardas ou uniformes. Não somo menos violentos e mortais do que os países que preferem o bacalhau à feijoada oriunda de senzalas. Temos, temporariamente, um momento de empatia com os que são violentados ou morrem nessas espetaculares ações de terror. Mas depois nos esquecemos da Chacina da Candelária, de Realengo, da Zona Leste, do Jardim Ângela e outros espaços de marginalização, miséria ou desfiliação social.

O sofrimento momentâneo com o ''mal'' pode, por efeito anestésico e midiático, tornar-se uma naturalização. Aceitamos e nos resignamos, apoiados em ideologias ou religiões, a presença de novas Cruzadas, batalhões de choque ou choques de ordem. A presença de uma dimensão macropolítica nos atos de fanatismos são banalizadas. E, saímos, à caça de explicações de especialistas sobre o desenvolvimento de novos/arcaicos fanatismos.

As xenofobias, as homofobias, os racismos, as intolerâncias, os sexismos, as discriminações ou segregações se alimentam do mesmo prato. Não é o bacalhau ou a feijoada. Estas se alimentam de ideologias duras que impedem o livre pensar, a crítica, a estética, e, finalmente a ética. É quando a não reflexão sobre nossas novas 'barbáries', imersos numa sociedade hipercapitalista, perversa e histérica, nos abre nos inconscientes, individual e coletivamente, as brechas para as paranóias fascistantes. Thanatós não pode ocupar todo o campo social ou vital de cada um e de todos nós.

A Tolerância que tem até um dia mundial, em 16 de novembro, bem perto do dia de Zumbi e da Consciência Negra, não é, portanto, um bacalhau a ser engolido, antipaticamente, com o meu/seu, aparentemente ''pobre e indigesto'', feijão com arroz de um país miscigenado, que nega sua cor de feijão preto. 

A "mardita tolerância" (insustentável? impossível? imaginária?), por ser uma criação humana para a convivência de diferenças, ao ser educacionalmente discutida nos faz, por exemplo, entender que há muitos pratos vazios, como os de outros negros, haitianos ou africanos, que produzem tantas mortes em série ou de massa quanto um massacre em um país considerado nórdico e civilizado. 

Eis algo que poderia nos gerar alguma forma empatia e, quem sabe, um aprendizado da árdua, quase impossível, harmonia nas diferenças... Eu, você, seu vizinho, o que vem de fora, os estrangeiros, os Outros, e, principalmente, os diferentes, poderemos tentar respeitar e re-conhecer outras formas de se alimentar ou viver.E, mais humanos, re existiremos... 

Isso, para além das antipatias, pode ser realizado, desde que a dignidade e autonomia de escolha superem todas as homogeneizações, todas as cristalizações fascistantes, todas as nossas negações do que há de político em qualquer forma de atentado à Vida...

copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011/2025 ad infinitum (favor citar o autor e fontes em republicações livre na Internet ou outros meios de comunicação de massa- TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025) >

Indicações para reflexão:
Em manifesto, atirador norueguês diz que Brasil é um país "disfuncional"
https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/internacional/2011/07/25/em-manifesto-atirador-noruegues-diz-que-mistura-de-racas-fez-do-brasil-um-pais-disfuncional.jhtm

Atentado na Noruega -Textos publicados na internet planejavam a "queda de Oslo"- https://www.ionline.pt/conteudo/139545-textos-publicados-na-internet-planeavam-queda-oslo

Noruega - https://pt.wikipedia.org/wiki/Noruega
Tolerância - https://pt.wikipedia.org/wiki/Toler%C3%A2ncia

Filme: Arn, o Cavaleiro Templário - https://pt.wikipedia.org/wiki/Arn:_The_Knight_Templar

Holocausto Cigano: uma tragédia que o mundo esqueceu 
https://unisinos.br/blogs/ndh/2014/05/28/holocausto-cigano-a-tragedia-que-o-mundo-esqueceu/

LEIA TAMBÉM NO BLOG:
A MÁQUINA DA EMPATIA - incluindo a reinvenção do Outro
https://infoativodefnet.blogspot.com/2010/12/maquina-da-empatia-incluindo-reinvencao.html

A MORTE DO FANÁTICO NÃO MATOU O FANATISMO https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/04/morte-do-fanatico-nao-matou-o-fanatismo.html

DEMOLINDO PRECONCEITOS, RE-CONHECENDO A INTOLERÂNCIA E A DESINFORMAÇÃO 
https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/06/demolisndo-preconceitos-re-conhecendo.html

ADEUS ÁS ARMAS: SEM TIROS NO FUTURO OU CEM TIROS? 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/adeus-as-armas-sem-tiros-no-futuro-ou.html

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A AMIZADE COMO ALICERCE DA INCLUSÃO ESCOLAR - Saindo das fraldas?

imagem publicada - uma foto colorida de três meninos indianos, em Salesian, Índia, que me traduz em seus sorrisos largos e doces, assim como na mão, pousada por um deles no ombro do primeiro da foto, a captura e representação imagética de um dos mais profundos sentimentos que se constroem para e com a vida humana: a amizade. Um sentimento que D. H. Lawrence em sua poesia considerava 'mais profundo que o amor'.


'A VERDADEIRA AMIZADE É A OPOSIÇÃO'...William Blake (1757-1827)

Há um ano atrás escrevi um dos posts, texto deste blog, mais comentados e acessados até agora. Ele tratava da Inclusão Escolar. Indagava sobre a utilização de fraldas pelo processo inclusivo. Perguntava sobre os modos e meios de uso das novas tecnologias e cuidados para inventar novos e criativos modos de efetivação do direito à educação. Um ano passou, novos acontecimentos, novas descobertas, novos avanços, mas ainda permanecem questões sobre o que é e como incluir pessoas com deficiência no ensino regular.

Uma das questões que mais me atormentam é a das barreiras educacionais que ainda permanecem quanto às pessoas com Paralisias Cerebrais. Principalmente quando se trata dos chamados ''casos graves e institucionalizados''. Creio que estas são mais intensas e mais sutis que as apresentadas pelas resistências da chamada Comunidade Surda ou pelos demais sujeitos com deficiência que defendem escolas especiais.

A escola enquanto um dispositivo, seguindo o pensamento de Giorgio Agamben, é apenas uma interface entre os seres viventes e o mundo (as substâncias que nos cercam ou cerceiam) que produz, em serialização, o que chamamos de sujeitos. O processo de inclusão/exclusão não ocorre apenas 'entre os muros da escola'. 

Depois de Realengo e seus tiros reais não mais podemos crer que possamos tornar a escola e os múltiplos ambientes totalmente responsáveis pela formação de um sujeito. A educação é que precisa ampliar seu campo de atuação e de intervenção na formação de cidadãos e cidadãs, plenos, críticos e amorosos.

Há no campo educacional uma resistência maior provocada, no ato de incluir, quando se trabalha com a heterogeneidade de condições físicas, mentais e de linguagem que um sujeito com paralisia cerebral apresenta. A maioria das mensagens, comunicações ou notícias que leio, e depois retransmito, apontam para uma permanência de um modelo biomédico e reabilitador para as pessoas com paralisias cerebrais. Seja dentro de escolas, onde poucos permanecem ou têm acesso, ou nos centros de reabilitação e, principalmente, nas chamadas entidades que os mantêm em internação ad infinitum.

A mais recente notícia é: "portador de paralisia cerebral escreve livro contando sua história". È a de um homem de 40 anos, Dudu, que, segundo as descrições: " ...nasceu com paralisia cerebral grave (coreoatetóide com quadro de disartria) além de apresentar semi-dependência nas mais simples atividades do dia a dia". Ele conseguiu lançar um livro: "Minha Casa Verde", onde nos conta "ao longo de 47 páginas" a história de uma vida dentro e fora da instituição.

Este sujeito vive e é cuidado em uma entidade filantrópica. No texto diz-se sobre sua condição de paralisia cerebral: "Traduzindo: ele não sabe ler nem escrever e sua fala é desarticulada, o que dificulta a compreensão de quem ouve. Também não consegue realizar as mais simples tarefas pessoais, como tomar banho, trocar de roupa e nem mesmo se alimenta sem ajuda". 

Pergunto, então, aos 40 ele ainda usa fraldas? talvez sim ou não. Mas o mais importante é que ele é muito parecido com muitos amigos ditos P.C que conquistei. Segundo a reportagem é "dono de um carisma excepcional e de uma força de vontade inabalável, de levar adiante seu grande sonho...". Os amigos e amigas conhecidos e conquistados na minha história também o são.

Ele nessa busca de realização tem as mesmas características de Ronaldos, de Suelys, de Edgars, de Priscilas, de Sachas, de Carolinas, de Eduardos, de Malus, de mais de um amigo ou amiga que conheci ou vivo tentando re-conhecer. Todos eles e elas receberam o ''diagnóstico'' de Paralisia Cerebral. O que os diferencia de Dudu da Casa Verde?? Eles tiveram a chance de frequentar uma escola, pelo menos por um bom período, de conviver com uma família, completar um curso, terminar uma faculdade ou não, mas todos são amigos de amigos. Passaram e/ou ainda passam por processos de reabilitação, mas não ficaram 'pacientes'.

Eles e elas estiveram buscando com garra sair das imobilidades físicas geradas por seus diferentes quadros neuromotores. Fundamentalmente, também, são tão carismáticos e sonhadores como Dudu. Mas nenhum deles esteve ou está internado em uma instituição de reabilitação. Eles e elas não são menos e nem mais ''paralisados" que o Edu. São e foram apenas mantidos em plena inclusão social, com todas as barreiras e dificuldades que este processo apresenta e re-apresenta para pessoas com deficiência.

O sujeito Dudu está há muitos anos em uma Casa Verde. O mesmo nome que Machado de Assis deu ao local de confinamento dos ''alienados mentais'' do seu Alienista(1882). Ele nunca saiu de lá, pelo menos é o que nos diz a reportagem, assim como os demais 205 pacientes (internos). A sua possível melhor "amiga", Claudinha, está lá há mais de 20 anos. E o que me faz pensar que talvez possamos um dia ter espaços de desinstitucionalização que não se digam amigos de pessoas tão carismáticas, porém mantidas, filantropicamente, tão institucionalizadas como milhares de outros dudus pelo Brasil a dentro. 

Retornando a Agamben precisamos afirmar que: "O amigo não é um outro eu, mas uma alteridade imanente na 'mesmidade', um tornar-se outro do mesmo. No ponto em que eu percebo a minha existência como doce, a minha sensação é atravessado por um com-sentir que a desloca e deporta para o amigo, para o outro mesmo. A amizade é essa des-subjetivação no coração mesmo da sensação mais íntima de si."

Aqueles que só têm muitos amigos institucionalizados não "têm" nenhum amigo. Por isso é que o processo de educar para a inclusão irrestrita do Outro, da Alteridade e da Diferença de mim e do meu Eu, pode ser o devir e é o princípio de uma educação fundamentada em Direitos Humanos. 

É uma educação potencialmente instituinte que pode subverter os endurecimentos afetivos que alimentam bullyings, rejeições, escárnios, apelidos ou discriminações. É nos corações que perderam a doçura que podemos alimentar os ódios raciais, étnicos, homofóbicos, xenofóbicos ou deficiente-fóbicos. Não há nesses espaços de dis-córdia, como produção de subjetividade, a possibilidade da empatia e do re-conhecimento do Outro.

Por isso defendi, defendo a busca de uma Educação Inclusiva e Diferente da que estamos vivenciando, nesse momento macropolítico, com tantas resistências e discursos de oposição. Cada segmento buscando a defesa de suas conquistas históricas. Cada forma de ser e estar com uma deficiência afirmando suas singularidades e seus direitos. Defendo, e ,docemente, creio, que todos poderíamos aprender muito mais se frequentássemos, com 'phylia', a desinstitucionalização de nossos feudos ou espaços segregados ou segregantes. 

Quais são, então, os pilares da Educação no século XXI? Para além do aprender a aprender, há ênfase, entre estes, da amizade e o aprender a ser/estar amigo?

Uma pergunta final: quantos amigos ou amigas, mesmo que como oposição, tinha o jovem Wellington ?? Aquele jovem e futuro serial killer que denunciava o bullying em vídeo, e que aprendeu apenas o desprezo que alguns con-sentem, fanaticamente, pela vida alheia. Aquele mesmo e idêntico escolar que sacrificou 13 jovens alunos em nossa Columbine Realengo. Aquele dos tiros reais, em um local/dispositivo onde se espera que aprendamos a fazer o oposto da exclusão e da Morte: a Escola de e para a Vida.

Assinado: Dr. Simão Bacamarte

Em tempo: lembrar que Paralisia Cerebral não é uma doença, e que os sujeitos com esta condição não são doentes ou portadores de uma encefalopatia,apesar de serem tratados e diagnosticados assim, baseando-se apenas no modelo biomédico. As paralisias cerebrais são as resultantes, diferenciadas, em graus variados, de uma lesão cerebral que lhes causou uma anóxia ou hipóxia antes, durante ou após o parto, sendo um grande número consequência de toco traumatismos no momento do parto.

Hoje 07 de julho há um manifesto de apoio à Educação Inclusiva a ser apoiado, amanhã esperamos haja a manifestação de uma Sociedade indignada e crítica que se lembre desses ''diferentes'' que ainda permanecem em restrição de seu direito humano e inalienável à Educação, para além de quaisquer gravidades ou profundidades de suas sequelas ou incapacidades físicas, sensoriais ou mentais. E, teremos Dudus escrevinhadores com ponteiras eletrônicas e rastreadores de movimentos de pálpebras que se tornarão os livros digitais e acessíveis para todos e todas.


copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011-2012 e ad infinitum (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa, com todos os direitos reservados 2025)

Referência no texto:
O que é o Contemporâneo? e outros ensaios
- Giorgio Agamben, Ed.Argos/UniChapecó, Chapecó, SC, 2010.


O Alienista - Machado de Assis - http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Alienista
https://www.livrosgratis.net/download/1826/o-alienista-machado-de-assis.html

Matéria citada e fonte:
Portador de paralisia cerebral grave escreve livro contando sua
história https://www.ogirassol.com.br/paginaviver.php?idnoticia=27093


Entidades de direitos humanos manifestam apoio à educação inclusiva https://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=16844

Leiam também no Blog:
A INCLUSÃO ESCOLAR AINDA USA FRALDAS?

https://infoativodefnet.blogspot.com/2010/07/inclusao-escolar-ainda-usa-fraldas.html

O SURDO, O CEGO E O ELEFANTE BRANCO

https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/05/o-surdo-o-cego-e-o-elefante-branco.html

INCLUSÃO/EXCLUSÃO - duas faces da mesma moeda deficitária?
https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/02/inclusaoexclusao-duas-faces-da-mesma.html


INCLUSÃO, RACISMO E DIFERENÇA

https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/05/inclusao-racismo-e-diferenca.html

TIROS REAIS EM REALENGO - A Violência é uma Péssima Pedagoga

https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/04/imagem-publicada-imagem-de-bracos-e.html

quarta-feira, 29 de junho de 2011

ORGULHOS ´MÚLTIPLOS' - no combate a todos os preconceitos


imagem publicada - Um cérebro,com seus dois hemisférios, visto de cima com suas circunvoluções coloridas de diferentes cores e matizes, trazendo a frase a seu redor: Every Brain is Beatiful (Todo cérebro é belo), que é uma imagem utilizada no Autism Pride Day, ou seja o Dia do Orgulho Autista, quando autistas norte-americanos, em 18 de junho de 2005, afirmaram: "Não nos tratem como "doentes”. Somos diferentes, sim. Mas não precisamos de remédio ou de cura, mas de uma chance de sermos nós mesmos..." (http://neuropride.livejournal.com/) . Esse cérebro ''diferente e colorido'' traz as cores do arco-íris, alusão a um símbolo hoje do direitos de pessoas LGBTT, com vermelho, amarelo, verde, azul e laranja reforçando a noção de diversidade de modos de ser e estar em nosso planeta Terra, também multicolorido.

"Da Igualdade - como se me incomodasse dar a outros as mesmas oportunidades e direitos que tenho, como se para os meus próprios direitos não fosse indispensável que outros também os tivessem", Walt Whitman (1819-1892) - Folhas das Folhas da Relva


Na continuidade da busca de demolição de todas as formas de preconceitos e discriminações, assim como homenagem, mesmo que tardia ao Dia do Orgulho Autista, pensei bastante sobre os múltiplos orgulhos que passamos a comemorar. E me perguntei por que temos de ter ainda ORGULHO? me lembrei da leitura afetiva dos primeiros textos de Frantz Fanon. Os mesmos textos que me despertaram o que é o Orgulho Negro. Hoje digo que ele está englobado pelo Orgulho Afrodescendente, em homenagem a um novo olhar contra todos os racismos. 


Mas que orgulho é esse? é apenas brio ou reatividade à alguma forma de segregação ou humilhação que foi sofrida/inflingida aos meus ancestrais? Não, é o orgulho que passamos a ter quando nos identificamos, nos re-conhecemos e nos damos o direito à uma diferença. Como nos dicionários é quando passamos a 'ter um elevado conceito de si mesmo'. Ou seja re-existimos diante de qualquer forma, tipo ou ação preconceituosa.

É quando nos incluímos antes mesmo que nos ofereçam uma inserção condescendente ou por culpa. Cuidamos para não colar mais na nossa pele nenhum rótulo, estereótipo ou estigma. Nos orgulhamos, enfim, do que somos, como somos e por que queremos/desejamos ser/estar múltiplos ou singulares. E comemoramos publicamente, seja em Maio ou Novembro,e agora em Junho. 

No dia 18 de junho comemoramos o orgulho de quem vive com um transtorno: o Autismo. Depois, com uma das maiores manifestações de massa, a Parada do Orgulho Gay, de São Paulo,comemoramos os que escolhem, experimentam, se orientam e vivem como Lésbicas, Transsexuais, Bissexuais,Transgêneros, Homoeróticos, Travestis, Gays, e outras formas de ser e estar que são aglutinadas, respeitadas suas diferenças, sob a sigla LGBTT. Já conseguiram sua replicação para além de São Paulo e afetaram todos os cantos do Brasil. Faça chuva ou sol, sem temor de quaisquer repressões policiais ou políticas do passado.

O movimento de Orgulho Gay nasceu de uma afirmação de direitos civis nos EUA. O Gay Pride Day tornou-se um dia para marcar a conquista dos mesmos direitos que todos os outros cidadãos e cidadãs tinham, têm e terão. O movimento de orgulho gay começou após a Rebelião de Stonewall em 1969, quando os homossexuais em bares locais enfrentaram a polícia de Nova Iorque durante uma disputa inconstitucional. A afirmação de direitos foi a progressiva conquista resultante de Paradas que estão sendo realizadas anualmente até hoje. O orgulho passou a ser afirmação contrária à vergonha imposta pelos preconceitos contra a homossexualidade e outras formas de viver as sexualidades humanas.

Assim como os homossexuais, também os autistas foram e ainda estão sob a preconceituosa visão biomédica de serem apenas ''doentes''. E, apesar de já se ter esclarecido que ambas condições devem ser, hodiernamente, compreendidas como apenas formas diferenciadas de orientação sexual ou de funcionamento do SNC (Sistema Nervoso Central) há um olhar preconceituoso que os discrimina.

O movimento Aspies for Freedom gerou a iniciativa do Dia do Orgulho Autista. Este grupo milita pelos direitos das diferentes formas de autismo, buscando a educação e publicação de esclarecimentos, bem como a conquista de políticas públicas dedicadas para estes sujeitos, tendo como combate principal a genêse de todos os preconceitos: a ignorância.

Os preconceitos, biopoliticamente, como formas exclusão, controle e poder, podem ser assemelhados aos Impérios. Estes recrudescem, enrijecem e envelhecem nos estertores de suas quedas. Tornam-se mais ríspidos, grosseiros, violentos e, defensiva e consequentemente, mais brutais. Desses processos naturalizados e institucionalizados nasceram, historicamente, muitas ditaduras e ditadores. 

Estes herdeiros de tempos imperialistas no temor de que suas práticas macropolíticas e suas ideologias fossem demolidas, com a retirada de cada tijolo ou pedra de seus alicerces, aprenderam, com o tempo, a construção de Muralhas. Para alguns ainda deveríamos construir espaços segregados para autistas ou homossexuais, com muralhas invisíveis que nos protejam das fobias que despertam, em nós, diante de suas diferenças consideradas ''extravagantes'' ou ''fora das normas ou padrões''.

Estas são como as Muralhas da China de Kafka. Porém, com o tempo, tornam-se-ão prisioneiros de seus próprios cerceamentos, com fragilidades que reforçam seus engessamentos institucionais. No Brasil estamos assistindo o espetáculo proporcionado por representantes políticos e radicais religiosos contra todas as mudanças de paradigmas. Reagem de forma agressiva a qualquer mudança, principalmente quando estas autorizam a inclusão nos mesmos direitos os que por suas ideologias devem continuar em segregação.

Em muitos momentos nos sentimos orgulhosos nos novos tempos de Marchas e de Liberdades. Nos sentimos e nos autorizamos a sentir orgulhos que possam ser expressados ''publicamente". Por isso um dia para comemorar qualquer forma de Orgulho de ser ou pertencer é um dia muito especial para quem o vivencia. Na compreensão psicanalítica de Frantz Fanon, um homem martinicano e negro, só quando trabalhamos as alienações que são produzidas em nossas subjetividades é que começamos a nos libertar do que colonizou nossos inconscientes.

Como os ''multiplos orgulhos'' sendo cartograficamente exercidos também nos libertamos das formas como nos propõem, no social, a incorporação de modelos identitários que neguem as singularidades e as diferenças. Quando, caminhando e cantando, com garra e determinação, individual ou coletivamente, compartilharmos novos espaços de liberdade. Espaços que, segundo Toni Negri em carta a Guattari, situam-se no intervalo entre o poder e o saber, o espaço onde o amor, com o concebe Spinoza, pode ser a melhor ligação entre eles.

Por isso o tema da Parada Gay é instigante: Amai-vos uns aos Outros... Hoje, constitue-se para além dos conservadorismos religiosos ou dos falsos guardiões da moral, um espaço livre para a visibilização social desses cidadãos e cidadãs orgulhosos de suas orientações sexuais.

Com as recentes conquistas de direitos para pessoas LBGTT, que vão da união estável ao uso do nome social, também estão em movimento conquista de projetos de Lei para garantir a inclusão de autistas no campo educacional, protegidos pelos mesmos direitos que já dispõem as pessoas com deficiência. E conquistarão mais políticas públicas dedicadas aos chamados transtornos do espectro autista caso seja aprovado o Projeto de Lei do Senado de número 168. 

E desejo que este número nos relembre um ano de grandes mudanças culturais e de transformações políticas, quando muitos de nós acreditávamos em um outro mundo possível, com o Sol sob o asfalto e gritávamos, contra todas as ditaduras e preconceitos: queremos apenas Paz e Amor.

Estamos agora cantando, novamente, como uma nova revolução molecular em ação, aos quatro cantos da Terra, em alto e bom som: Gay is Beatiful e Every Brain is Beatiful. E o novo paradigma ético e estético guattariniano se fará um rompedor das muralhas dos preconceitos redividos... 

Em meus recônditos da memória continua o meu orgulho singular, na voz da saudosa Elis Regina: Black is beatiful... e quero continuar tendo o direito a ter meus ''múltiplos'' orgulhos...e repito Walt Whitman: "...como se para os meus próprios direitos não fosse indispensável que outros também os tivessem'' .


copyright jorgemarciopereiradeandrade 2010/2012/AD INFINITUM  (favor citar o autor e fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Fontes para informação:

Dia do Orgulho Autistahttps://pt.wikipedia.org/wiki/Orgulho_gay


Hoje é Dia do Orgulho Autista - conheça melhor esse transtorno https://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2011/06/27/hoje-e-dia-do-orgulho-autista-conheca-melhor-esse-transtorno/

Orgulho Gay https://pt.wikipedia.org/wiki/Orgulho_gay

Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista https://www.senado.gov.br/atividade/materia/getPDF.asp?t=92246&tp=1

Referência bibliográfica -
Os Novos Espaços de Liberdade
- Félix Guattari&Toni Negri - Centelha Ed. - Coimbra - Portugal, 1987.


Leia também no Blog -
Asperger: uma Síndrome de Mentes Brilhantes ou não? 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/11/asperger-uma-sindrome-de-mentes.html

Qual é a tua Raça? Nada a declarar. - https://infoativodefnet.blogspot.com/2010/11/imagem-publicada-uma-foto-em-preto-e.html

Vulneração e Mídia no Cotidiano das Deficiências https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/04/vulneracao-e-midia-no-cotidiano-das.html

A Terra é Azul e o Autismo tambémhttps://infoativodefnet.blogspot.com/2011/03/terra-e-azul-e-o-autismo-tambem.html

Um Autista pode vir a ser Artista com a Água?https://infoativodefnet.blogspot.com/2010/04/um-autista-pode-vir-ser-um-artista-com.html

Leia também NOTÍCIAS sobre AUTISMO(S) NO INFONOTÍCIAS DEFNET -

AUTISMO/MÚSICA -LOU, eu me chamo LOU - Lou, je m" appelle Lou Video- sobre artista francês "autista" e cego 

https://infonoticiasdefnet.blogspot.com.br/2013/08/lou-eu-me-chamo-lou-lou-je-m-appelle.html

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segunda-feira, 20 de junho de 2011

ALZHEIMER NÃO É UMA PIADA, mas pode ser poesia de vida


Imagem publicada - uma foto da primeira mulher diagnosticada pelo médico que deu o nome à doença, Alzheimer. É uma foto cuja descrição não atingirá a força de sua gravidade e sofrimento, feita há mais de um século, da Sra. August D.; onde uma mulher de aparência depressiva e decadente, com olhar esvaziado como a sua mente e memória, vestindo uma provável roupa uniforme do Sanatório Municipal para Dementes e Epilépticos de Frankfurt, na Alemanha. É uma foto em cores ciano com uma mulher olhando para baixo, com as mãos entrelaçadas próximas do corpo, que se curva como as rugas que se pronunciam em sua fronte, anunciando um envelhecimento precoce e intensivo que lhe rouba toda vitalidade.


Maravilha-te, memória! (Fernando Pessoa)

Maravilha-te, memória!
Lembras o que nunca foi,
E a perda daquela história
Mais que uma perda me dói...


Os tempos anunciam a permanência/crença dos preconceitos. Começamos, recentemente, com a Casa dos Autistas que a mídia televisa grotescamente nos obriga ainda protestar, culminando com as piadas homofóbicas ou racistas. São equivalentes de manifestações fascistantes de deputados frustados com os novos tempos.

A hora da demolição dos preconceitos e das intolerâncias já foi anunciada. Não bastará o que chamam de politicamente correto. É o tempo de uma nova e construtiva seriedade ética, com respeito às diferenças e aos diferentes modos de ser, estar, viver, adoecer e morrer.

Por esse tempo é que me incomoda quando me dizem a frase: olha o Alemão está chegando?!, uma triste piada, já banalizada, nos diferentes meios para falar sobre Alzheimer. A vox populi já a naturalizou como uma ameaça da perda de memória. Uma perda a que, todos e todas, estamos submetidos, tanto as memórias coletivas como as individuais. Uma perda que é só um dos sintomas que anunciam uma doença devastadora.

Esta é uma referência a Alois Alzheimer (1864-1915) o médico que apresentou o primeiro caso desta demência. Ele descreveu o caso de uma paciente: a Sra August D.. No Congresso de 1906 Alzheimer apresentou sua conferência onde o definiu como “uma patologia neurológica, não reconhecida, que cursa com demência, destacando os sintomas de déficit de memória, de alterações de comportamento e de incapacidade para as atividades rotineiras".

E, apesar do século já vivenciado, esta continua sendo a descrição do ''Mal de Alzheimer''. Esta tão temida doença neurológica que ainda intriga e desafia todos os pesquisadores e neurocientistas.

O que então nos faz fazer piada de uma doença com tão devastadores sintomas e degragadação de um ser humano? Não sei a melhor resposta. Mas há uma possível implicação de nossas posturas psíquicas e históricas diante do sofrimento do Outro. Na maioria das vezes, por mecanismos de defesa, a moda de Freud, projetamos nos nossos semelhantes as nossas mais temidas fragilidades.

A memória perdida é um dos nossos mais temidos fantasmas. Eu pessoalmente os conheço desde a década de 80 quando confirmei o diagnóstico de minha própria mãe. Como muitos familiares e cuidadores conheci sua dura realidade...

Quem já vivenciou ou vivencia o convívio com as perdas que a doença produz pode avaliar por que digo que me incomodam, epidermica e profundamente, as piadas que temos de ouvir. Não sei da dor ou dos temores de outrem. Sei apenas que me causam um mal-estar e uma sensação de revolta, mas, principalmente, me refazem o temor dos que reconhecem na doença seu potencial de hereditariedade.

Aí me coloco na pele de quem não reconhece nem mesmo os que mais ama ou respeita. É quando alimento, como muitos, o desejo de uma possível solução ou cura, para além dos tratamentos atuais, que criem um horizonte, um futuro possível.

Uma matéria recente nos fala de uma região, em Medellin, Colômbia, onde os descendentes de um casal espanhol, emigrado no século XVIII, tem mais de cinco mil casos da doença. Segundo a reportagem: "Não se conhecem as identidades do homem e da mulher, mas o clã que fundaram apresenta uma peculiaridade genética: uma alteração no primeiro gene do cromossoma 14".

Aos que passam por temores por parentesco com a Doença de Alzheimer digo que esta é uma oportunidade de uma pesquisa sobre os fatores genéticos, hereditários, ambientais e sociais que podem ser desencadeadores ou as gêneses combinadas para o surgimento precoce de sintomas demenciais.

O que tem me feito bem ao meu coração escrevinhador é a possibilidade de que me um prazo de alguns anos as pesquisas trarão muitas descobertas no campo das demencias. Digo no plural pois são muitas as situações de demências ou doenças neurológicas graves que as ocasionam. O que mais conhecemos e falamos ainda é o quadro que, preconceituosamente, ainda é tratado, em especial nas mídias, como um Mal. Um mal que confirma a visão preconceituosa de temerosa criada em seu histórico secular.

Mas o que pretendem realizar em Medellin é uma experiência que transformará os descendentes do casal espanhol em um ''laboratório vivo''. A proposta é de que estes supostos portadores genéticos do ''mal'' se tornem ''cobaias humanas". O Banner Institute, uma organização americana e pioneira no estudo do Alzheimer, quer iniciar já em 2012 os testes a possíveis medicamentos para a doença.

A ideia é selecionar entre os membros do clã colombiano voluntários que aceitem servir de cobaias durante vários anos. Uns receberão um medicamento, outros um placebo. Ninguém saberá o que recebeu, e nem todas as cobaias serão portadoras da tal alteração genética. Ao fim de dois anos ver-se-á se houve efeitos, e quais.

Nesse momento é que convido à reflexão sobre a banalização do termo ''Alzheimer". Quando um grupo de cidadãos colombianos pode vir a ser transformado, mesmo que voluntariamente, em objeto de pesquisa científica é hora de muita seriedade e pouquíssimas piadas. É hora de um alerta bioético.

É hora de reflexão sobre o que entendemos como consentimento livre e informado, e sobre o uso do corpo humano, dos Outros, em pesquisas científicas. Mesmo que estas possam significar um suposto avanço contra o que vem sendo chamado de ''mal dos séculos'', mesmo que isso alimente as minhas esperanças mais íntimas...

Piadas nos fazem rir, desde tempos imemoriais, mas também podem nos fazer chorar. E uma vez que você traga dentro de si uma chaga ou temor o riso de outros pode ser apenas estímulo para que sua ''memória'' ative alguma tristeza ou afeto. E, olhando para o futuro, o que sente um colombiano que poderá ter todas as suas memórias apagadas? Ele não sabe se tomou a medicação para preservá-las ou uma pílula placebo de açúcar que terá um gosto amargo de esquecimento depois.

Convido a quem gosta de falar no Dr. Alois Alzheimer, cuja alcunha hoje é o ''alemão'', que reflita sobre este ponto de vista ético e bioético antes de repetir, reproduzir e naturalizar a sua chegada a quem se queixa de esquecer as senhas do banco ou os compromissos e datas importantes. Convido para que assistam os filmes e documentários que estão sendo indicados, que possam se sensibilizar e reposicionar sobre o assunto.

Está na hora de revermos nossos preconceitos temerosos com o Dr. Alois. Um bom exercício é lembrar a universalidade da doença. Ela atinge desde uma sul-coreana, como no filme Poesia, até um homem catalão, Pasqual Maragall, que nos impressiona no documentário "Bicicleta, cuchara e manzana". Depois disso poderemos dizer que Alzheimer não é uma piada, mas pode vir a ser um redescoberta poética de nossas finitudes.

O meu apelo é na direção da sensibilidade. As mesmas sensibilidades que me inspiram os filmes de Chaplin. O sorrisos que me produziu, e ainda produzirá, são respeitosos com as denúncias que o ator-cineasta aponta nas tragicomédias que encantaram o mundo. O que sentiria Carlitos caso tivesse de representar, para além de um vagabundo e homeless, um homem que perdesse, progressivamente, todas suas preciosas memórias?

Talvez ele nos inspirasse a reconhecer o Grande Irmão (1984) ou o Grande Ditador como uma criação coletiva de todos nós. E nos faria sorrir ou chorar, sem ridicularizar, com o infindo, heterogêneo e múltiplo da condição mortal e frágil dessa "coisa" e Vida Nua chamada Ser Humano...

Vamos nos olhar/escutar/afetar, bio-eticamente, nos nossos próprios olhos/ouvidos/afetos? Como será nos encarar nos nossos espelhos antes de contarmos a próxima piada sobre negros, judeus, homossexuais, mulheres, estrangeiros, loucos, e, principalmente, sobre quem vivencia a doença de Alzheimer?
Não se esqueça(m) de lembrar!


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19/12/1915 – Morre Alzheimer, ou não, ou sim…
https://historica.com.br/hoje-na-historia/morre-alzheimer-ou-nao-ou-sim
Cinco mil descendentes e metade tem Alzheimer
https://aeiou.expresso.pt/cinco-mil-descendentes-e-metade-tem-alzheimer=f656261

O Cinema e Alzheimer: indicações do blog
El retrato luminoso de la lucha de Maragall contra el Alzheimer llega a Brasil
https://www.google.com/hostednews/epa/article/ALeqM5ggF3k4Vs0urenA9YdcEKNS3Fz-nQ?docId=1549431

Tráiler: 'Bicicleta, cullera, poma (Bicicleta, cuchara, manzana)' - documentário de Carles Bosh
https://www.rtve.es/alacarta/videos/festival-de-cine-de-san-sebastian/trailer-bicicleta-cullera-poma-bicicleta-cuchara-manzana/880566/

Documentário emocionante sobre combate ao Alzheimer é exibido no Cine Ceará
https://cinema.uol.com.br/ultnot/efe/2011/06/14/documentario-emocionante-sobre-combate-ao-alzheimer-e-exibido-no-cine-ceara.jhtm

"Poesia": O Alzheimer num mundo cruel
https://aeiou.expresso.pt/poesia-o-alzheimer-num-mundo-cruel=f635361

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MÂES, ALZHEIMER E MÚSICA
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Demolindo Preconceitos, re-conhecendo a intolerância e a desinformação
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sexta-feira, 10 de junho de 2011

A EDUCAÇÃO DE PÉS DESCALÇOS

imagem publicada - capa de dvd do filme Nenhum a Menos. Este filme chinês, dirigido por Zhang Yimou (Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1999), a ser visto como uma alegoria de uma jovem, de 13 anos, que substitui o professor, determinada a não permitir que ''nenhuma criança fique fora de sua sala de aula'', custe o que custar, mesmo que tenha de caminhar milhares de quilômetros contra a evasão escolar, em um cenário ainda muito próximo das condições de educação rural em nosso país. Nesta capa aparece a menina chinesa, Whei Minzhi, no centro de uma imagem desfocada, como uma multidão, tendo abaixo um grupo de crianças chinesas sentadas, com presença de um menino, de 10 anos, está entre as letras de Nenhum a Menos (Not One Less). O menino a ser resgatado da cidade, para onde foi em busca de sobrevivência familiar, assim como milhares ainda o fazem ao sair do campo em busca de trabalho no Brasil, embora devessem estar é em escolas.

"É direito. É todos direitos que a humanidade tem, né? Os direito!" (fala de um morador de Capão Redondo, São Paulo)

Por um educação dos diferentes pés, calçados ou não...

Hoje, sentia muito frio nos meus pés. Nesse amanhecer de inverno para minhas dores, no cedo tão frio minha manhã ficou mais quente e calorosa. Era a notícia de que o Senado, no caminho para a disciplina de direitos humanos ser incluída nas escolas, está discutindo: "diretrizes nesse sentido estão sendo elaboradas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), conforme anunciou nesta quinta-feira (9) o representante do colegiado, Raimundo Feitosa, em audiência pública na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH)...".

E estas diretrizes já se tornaram antigas máximas que repeti durante muitos encontros. Já, para além dos universalismos, publiquei em quase todos os textos que escrevi: a educação em e para os direitos humanos é a via regia para a construção de uma futura Sociedade que respeite as diferenças.

Quem já 'sabe' o que são os Direitos Humanos? As vozes e ecos populares, assim como Ícaros que vão em direção ao Sol, aprenderam uma máxima que é o contrário: ''Vixe, agora as crianças vão aprender desde cedo que o crime compensa, e que tem muita gente que viva à custa dele...", confirmando os ares penetrantes do passado dos Anos de Chumbo. A maioria da população brasileira que ainda usa os pés descalços, tanto física como educacionalmente, para caminhar acredita, piamente, que só há direitos humanos para ''bandidos''.

Como então construir um outro conhecimento sobre o que realmente são os Direitos Humanos? Há que providenciar uma outra forma de educação. Uma educação que tire as meias dos preconceitos, os coturnos da disciplina militarizada e do passado, retire os temores das pedras das intolerâncias arraigas, e, como Heráclito, acredite que os novos caminhos e estradas se construirão ao caminhar. Para além de todos os obstáculos e todos os percalços das novas estradas do conhecimento.

O território que experimentamos é, como já o disse Milton Santos, para além dos territórios conhecidos e mapeados, são os territórios banais. É nesse campo, em especial nos longíguos recantos brasileiros, que precisaremos de um persistente e contínuo desejo de educar para e com direitos humanos. Até nas metrópoles e nas cidades mais desenvolvidas há um incessante murmúrio velado sobre os Direitos Humanos. Um exemplo nos vem de uma experiência realizada em Capão Redondo, situado na região sul de São Paulo.

Esta experiência de enfrentar os "Desafios para a atuação de um Centro de Direitos Humanos e Educação Popular", é descrita por Petronella Maria Boonen. Ela nos mostra que em uma área de concentração de favelas, loteamentos clandestinos e moradias precárias, com população majoritária de migrantes, o trabalho de educar para direitos humanos fica ainda mais árduo. Esta é (ou foi) uma região conhecida pelos altos índices de homicídios e violências cotidianas.

Como então vencer preconceitos arraigados sobre o que são, a quem se destinam e como efetivar os Direitos Humanos? A pesquisadora Petronella em seu artigo nos avisa sobre as representações que os moradores destes espaços têm sobre direitos humanos. E, ao lê-la, sobre a possível 'razão' do que chamamos de 'população desfavorecida' ter resistências ao tema, como sendo o ''desenraizamento'' associado à exclusão social, ficaremos para refletir sobre as mudanças de conceitos e de representações que uma escola pode propiciar.

A afirmação dos Direitos Humanos, que passam pela profissão, pela moradia digna, pelo saneamento básico, pelo emprego, pela conquista de justiça social, tem uma velha origem: a palavra direito. Esta palavra, segundo Lèvy Bruhl, citado por Buono e Boonen, deriva de "droit, right, Recht, Diritto e direito, nas diversas línguas, provém de uma metáfora, em que a figura geométrica adquiriu sentido moral e, em seguida, jurídico: o direito é a linha reta, que se opõe à curva ou à oblíqua, e que se liga à noção de retidão, de franqueza e de lealdade nas relações humanas''.

A notícia, mesmo que tardia, da introdução de uma disciplina de direitos humanos nas escolas só acrescenta à geometria civilizatória uma dose necessária de gramática civil. O exercício, como deverá ser em uma proposta de inclusão escolar, da máxima: NENHUMA CRIANÇA A MENOS, é por si só um possível para a erradicação dos analfabetismos funcionais sobre direitos humanos.

Estaremos abrindo portas e janelas dos ambientes escolares para a ventilação de novas idéias de convívio, respeito e aprendizagem com a diferença. Por isso convoco a todos e todas para que ''politizemos'' a questão dos direitos humanos nas escolas. Principalmente nas escolas rurais, sertanejas ou reconditas, onde os pés ainda calçam chinelos ou, preferencialmente, ainda vivem do chão batido.

Peço apenas que retiremos as meias palavras e nossas protegidas meias visões sobre estes Outros em marginalização. Somente um exercício de aplicação dos nossos conhecimentos eivados de muito afeto, empatia e respeito poderão abrir e construir, com as mãos calejadas ou sem calos, juntas, singularizadas, uma estrada aberta para o futuro dos Direitos Humanos.

Direito é direito. Muito embora, na realidade brasileira, faça curvas e trace caminhos oblíquos para os que só andam de sapatos ou botas de couro, sejam nacionais ou importados, de griffe ou da 25 de Março. Entretanto, parece que seus pés, "tristemente entortados", principalmente pelas corrupções, começam a ser igualitariamente tratados pela Justiça. Eles também se dizem ''portadores'' de direitos humanos...

Os filhos de nossos filhos verão, assim desejo, um outro mundo possível: direitos humanos transversalizarão todas as vidas humanas, independentemente de quaisquer privilégios ou preconceitos, assim como a educação é e será sempre um direito fundamental. NÃO PODEMOS TEMER NEM ATEMORIZAR NOSSAS CRIANÇAS.

copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011/2012 ad infinitum , todos os direitos reservados  (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou em outros meios de comunicação de massa)TODOSDIREITOSRESERVADOS 2025

Referência Bibliográfica no texto:
Direitos Humanos e Educação - Outra Palavras, Outras Práticas - Flavia Schilling (Org.) , Ed FEUSP/Cortez Editora , São Paulo, SP, 2005.

Direitos humanos deverão ser ensinados nas escolas 
https://www.senado.gov.br/noticias/direitos-humanos-deverao-ser-ensinados-nas-escolas.aspx

Direitos Humanos nas Escolas - BLOG (Ver comentários)
https://maringa.odiario.com/blogs/edsonlima/2011/06/10/direitos-humanos-nas-escolas/

Filme - NENHUM A MENOS
https://www.infoescola.com/cinema/nenhum-a-menos/
https://www.asia.cinedie.com/not_one_less.htm

LEIA TAMBÉM NO BLOG - 

DIREITOS HUMANOS COMO QUESTÃO PARA A EDUCAÇÃO INCLUSIVA-
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/05/imagem-publicadsa-uma-foto-de-tres.html

s UM PEDAÇO DE GIZ NA LOUSA DIGITAL - Pelo Dia do(a) Professor(a) 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/10/um-pedaco-de-giz-na-tela-digital-dia.html