domingo, 31 de janeiro de 2010

AS MASSAS E OS SOBREVIVENTES - Terra Trêmula


imagem publicada - homens e crianças haitianos gritam e se empurram durante distribuição em massa de alimentos, em cima da carroceria de um caminhão. (Reuters).

"O corpo humano apresenta-se nu e frágil, exposto a todo e qualquer ataque. O que lhe está próximo e que, com arte e esforço o homem logra manter afastado de seu corpo pode no entanto atingi lo de longe ...Assim, o homem inventou o escudo e armadura, e construiu muros e fortalezas inteiras em torno de si. Mas a segurança que ele mais deseja é o sentimento de invulnerabilidade." Elias Canetti - Massa e Poder (pág. 228-229)

Retomei a leitura de Canetti estes dias pela visão das massas famélicas do Haiti. As imagens de pessoas disputando com vigor e agressividade os sacos de comida despejados dos caminhões, e os soldados tentando conter estes esfomeados e sedentos me tem afetado nos últimos dias. Canetti ao reforçar nossa fragilidade corporal coincide com um outro pensador que também reflete sobre a mesma: Giorgio Agamben, que também revisitei nestes dias. Ambos me trazem a questão dos que sobrevivem em situações limites, e em especial a forma como tele-reagimos diante das mortes coletivas.

Em Massa e Poder encontro os referenciais para compreender porque há até uma ética de sobrevivência dos homens e mulheres do Haiti. Muito embora possam parecer até com um 'bando' primitivo e ameaçador pelas imagens televisivas e sua exploração midiática. Aparecem, então, estas hordas de negros famintos saqueando ou buscando alimentos, pedaços de pano, objetos ou àgua. Eles podem ser chamados de 'ladrões"? se adotarmos a leitura criteriosa de Canetti entenderemos que essas massas estão compostas de indivíduos que sobreviveram entre amontoados de mortos, e, em seus âmagos, confusamente, 'a morte foi desviada para os outros'.

A morte provocada pela Terra Trêmula nos reativou um medo líquido que vem nos atormentando: não é mais distante de cada um o risco de alguma coisa mortífera nos surpreender. Seja um furacão, um tornado, uma inundação, um atentado, uma explosão, um estouro de boiada da Natureza, como nos filmes de aventura e de ficção científica.

 Tentamos afastar esse temor de nossas mentes e inconscientes, porém ele está lá,ele está mais perto e nossas defesas, agora fragilizadas pelo 'reality show' dos tsunamis, nos faz crer e temer que " a casca da civilização sobre a qual caminhamos é sempre da espessura de uma hóstia. Um tremor e você fracassou, lutando por sua vida como um cão selvagem..." (Thimothy Garton Ash)

Os que sobrevivem aos anunciados e provocados movimentos catastróficos da Terra se sentem como? Somos os atuais sobreviventes? ao que estamos sobrevivendo? estas perguntas são hoje, a meu ver indispensáveis para uma firme e bioética reflexão sobre ao processo de vulneração a que estamos, seres humanos, sendo submetidos. 
momento biopolítico e anatomopolítico, que as catástrofes e desastres naturais propiciam, têm gerado um campo fértil para o exercício destas práticas de controle de populações. Se pudermos nos colocar no campo da resistência à disciplinarização e controle dos nossos corpos nus e frágeis, talvez possamos ainda garantir que não sejam tomados apenas como Vida Nua (Agamben), pois que o campo que nos é reservado, após o cataclisma, é o dos 'sobreviventes e refugiados'.

Em uma terra que faz homens, mulheres e crianças continuarem a gostar de 'biscoitos de barro', para afastar o fantasma cruento da fome, o que se produz como Massa? Estes negros e negras saídos dos escombros, continuam vivendo perto do limite da sobrevivência, sem morfina para a dor da amputação, sem abrigo, sem água potável. Estamos tele-assistindo a criação do modelo hobbesiano de uma guerra de todos contra todos. É a hora da volta da barbárie? 

A nossa civilização escorre pelos bueiros quando a correnteza de uma massa com fome surgir e nos arrastar. Por estar, então, diante dessa fragilidade, que não é do nosso corpo apenas, mas também do corpo civilizado e social, é que temos de reconhecer, sem nossos escudos ou fortalezas da distância e da neutralidade, a nossa vulnerabilidade.

É hora de se fazer escolhas e de buscar uma afirmação da urgência de não rompermos a casca de ovo da serpente, que sempre foi a opção pelos micro-fascismos. A busca de ordem e de filas pode ser um dos modelos para 'salvar' os sobreviventes, muito embora dentro de cada um deles permaneçam os princípios da massa... A massa que quer sempre crescer, sem limites e sem rumo.

As massas de sobreviventes talvez pudessem ser menos tristes, pois a melancolia é o que sedimentava nos campos de concentração a criação da figura dos ''MULÇUMANOS", que eram os prisioneiros judeus que "havia(m) abandonado qualquer esperança...", tornando-se cadáveres ambulantes, como Zombies possuídos por um Vudu nazi-fascista. 

Bastaria, ao mundo dito civilizado, ter visitado a favela Cité Soleil antes do terremoto levando mais água, menos violência institucionalizada, mais educação e comida, menos desprezo e negação da miséria, e, indispensavelmente, dignidade. Continuo bradando: VIVA O HAITI VIVO, para além da simples sobrevivência.

copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o auto e as fontes para livre difusão e multiplicação deste texto por quaisquer meios)

FONTES
MASSA E PODER - Elias Canetti, Companhia das Letras
http://www.livrariaresposta.com.br/v2/produto.php?id=2424

O QUE RESTA DE AUSCHWITZ - Giorgi Agamben, Boitempo Editorial - http://www.boitempo.com/livro_completo.php?isbn=978-85-7559-120-8

Notícias do Haiti:

ONU pede cancelamento da dívida externa do Haiti
http://br.noticias.yahoo.com/s/reuters/100129/mundo/mundo_haiti_onu_moratoria

Polícia denuncia estupro de mulheres e crianças - no Haiti
EUA ampliam esforços contra o Tráfico de Crianças
http://br.noticias.yahoo.com/s/29012010/25/mundo-eua-ampliam-esforcos-trafico-criancas.html

LEIAM TAMBÉM NO BLOG -
OS DESASTRES, OS HAITIS E AS SERRAS NO HIPERCAPITALISMO - http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/01/os-desastres-os-haitis-e-as-serras-no.html

Um comentário:

  1. Jorge, boas!!! Também moro aqui em Campinas.
    http://educomambiental.blogspot.com/
    Mas gostaria que você conhecesse também o trabalho de uma ONG em Joinville-SC.
    http://www.cepe.esp.br:80/
    Como você também sinto-me motivada por minha filha que coordenada p Projeto.Grande abraço Odila.

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