quinta-feira, 10 de outubro de 2013

OS MORTOS-VIVOS DO HOSPICIO QUE ENSINAVAM AOS VIVOS SOBRE A VIDA NUA... BARBACENAS NUNCA MAIS!


Imagem- uma fotografia em preto e branco de uma das “enfermarias” do Hospício de Barbacena, nela vê-se enfileiradas diversas camas, toscas, que muitas vezes eram substituídas por capim, na ausência de colchões, aparecendo um homem sentado no chão, perto dele há deitado um homem, negro, seminu e emagrecido, que nos olha e interroga, podendo-se ver ao fundo, à direita, dois homens vestidos e de terno, possivelmente, dois profissionais da instituição, seriam dois médicos, dois psiquiatras? É possível que sim, pelo simples fato de estarem fisicamente vestidos, e, portanto, não poderiam ser parte do cenário de vidas nuas ali abandonadas, apesar de alguma roupa. Nesse manicômio histórico a média de mortos diária era de 16 novos corpos. E contei 16 catres de ferro... Alguns dos fotografados podem ter sido parte deste registro imagético de mortes anunciadas. Fotografia de Luiz Alfredo, da Revista O Cruzeiro, 1961, para a reportagem com o título: Hospital de Barbacena – Sucursal do Inferno)

“No hospício, como nos cárceres, o tempo está como que paralisado: se têm a sensação de um presente enorme e vazio…” (Alfredo Moffatt in Psicoterapia del Oprimido – Editorial Libreria ECRO, 1975)

Há alguns anos atrás escrevi sobre os vivos esquecidos na Casa dos Mortos. Era um texto sobre a não vida dos que são “esquecidos” nos Manicômios Judiciários do país. Afirmava e confirmava a frase acima de Moffat. Era o ano de 2009, um ano que mudou radicalmente a minha vida e o meu corpo. Torne-me titânico e com mais parafusos para perder.

 Escrevi então: “Em 19 de abril deste ano o Correio Braziliense nos informava: cerca de 4500 pessoas estão ‘abrigadas’ nos manicômios judiciários no país. Reforçava a reportagem que estes sujeitos têm três escolhas existenciais possíveis: ou o suicídio, ou a internação ad infinitum (como dizem nas ruas: ‘forever’) ou a sobrevivência em um ambiente dantesco e desumano...”. Lamentavelmente, passam os anos e algumas dessas opções ainda são o único meio de “libertação” desses sujeitos transformados em Vidas Nuas.

Estamos em um novo Outubro, um mês para colorir de rosa contra o câncer de mama. As nossas multidões vão, ainda, para as ruas. Este mês, para mim, nos meus descoloridos dias da dor contínua, também é o mês no qual se comemora o Dia Mundial da Saúde Mental. Este ano o tema principal é sobre a saúde mental em idades mais avançadas, ou seja, na velhice. Já refleti sobre o tema no último texto, transversalizei a memória, a deficiência e o envelhecimento.

Há, porém, para mim, um tema que me toca profundamente: os que foram meus primeiros “mestres” sobre a vida e a morte, os cadáveres anônimos de loucos oriundos dos Manicômios. Aqueles que sobre mesas frias de aço serviram de aprendizagem de Anatomia Humana de várias faculdades de medicina nos anos 70.

Confirmei através da leitura de Daniela Arbex, com seu pungente Holocausto Brasileiro – Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil, que muitos outros médicos também vivenciaram essa experiência do contato com os cadáveres vendidos pelo Hospício de Barbacena, um nome aterrorizador que ouvia desde pequeno lá em Minas Gerais.

Ouvi muitas vezes, quiçá muitos que lerem este texto também ouviram, as ameaças que se faziam, em busca de obediência e não discordância, as falas dos “mais velhos” aos meninos e meninas. A ameaça simples e direta era: “... se você continuar assim.. se não fizer o que estou mandando... se continuar tão levado(a)...se ousar transgredir – Você vai de trem para Barbacena!”. Podíamos também ser levados de carro ou ônibus. Só não voltaríamos...

Sabíamos nessa suposta orientação corretiva que se encontrava também um vaticínio, uma prescrição, um diagnóstico e uma possível segregação: teríamos o mesmo fim dos Loucos. Era para Barbacena, não muito distante de minha Cambuquira, nas encostas da Serra da Mantiqueira, que existia esse hospital e onde se “prendiam” os que transgrediam, os que andavam sem rumo nas ruas, os sem-família, os com-família, os que infringiam leis ou normas nas cidades ao seu redor.

Para a Colônia iam de trem, levados para uma internação sem volta. Lá foram depositados 60 mil corpos, sessenta mil ‘vidas nuas’. Estes internados ad infinitum, assim como os outros dos Manicômios judiciários. Remessas enviadas pelas ferrovias, ônibus e até caminhões de corpos desviantes e desfiliados.

Explico para os que ainda não sabem que este conceito de Vida Nua vem do filósofo italiano Giorgio Agamben. Essas vidas matáveis são as que, na sua leitura da biopolítica foucaultiana, com uma metodologia arqueológica e paradigmática, estão sempre ligadas ao nosso passado histórico de segregação jurídica. “Vida nua" refere-se à experiência de desproteção e ao estado de ilegalidade de quem é acuado em um terreno vago, um limbo, submetido a viver em Estado de Exceção.

O teórico italiano nos traz de volta Roma e a noção do ‘homo sacer’, aquele que é caracterizado por dois traços: a matabilidade (qualquer sujeito pode matá-lo sem que tal ato constitua homicídio) e a insacrificabilidade (o homo sacer não pode ser morto de maneira ritualizada, vale dizer, não pode ser sacrificado). Fica no limiar entre o profano e o sagrado. E permanentemente exposto à violência, pode ou precisa ser aniquilado, controlado ou submetido a uma “exclusão-inclusiva”.

São os que viram uma espécie de ser como um lobisomem, híbrido da animalidade e do homem. Bichos de sete cabeças. Seres para serem caçados ou para serem protegidos pelo Soberano. Ele diz que essa “... lupinificação do homem e humanização do lobo é possível a cada instante no estado de exceção...”. Onde o Soberano recebe e tem “... o direito natural de fazer qualquer coisa com qualquer um, que se apresenta então como direito de punir”. E o direito de aprisionar, matar ou exterminar. E, em Barbacena, o direito de vender estas vidas que, por coincidência, passavam um bom tempo nuas, ou  seja no mais profundo, a pele.

A vida nua, instituída no limiar que não é nem vida natural, nem vida social – é algo inerente ao Ocidente, como argumenta o filósofo, desde o ‘homo sacer’ condenado à banição pelo direito romano até, por exemplo, uma colônia penal, um manicômio como o de Barbacena, passando pelos campos de concentração nazistas.

Agamben compreende a vida nua como zoé (fato este idêntico a todos os seres vivos, sejam homens ou qualquer outro animal), como simples viver; a vida desprovida de qualquer qualificação política.

 Em seu livro Homo Sacer I ele nos propiciará uma compreensão do que foi e é a ideia de vidas que não merecem viver, como os pré-cadáveres ou os mortos-vivos desse manicômio mineiro.  Como nos explica: ”... O conceito de vida sem valor (ou ‘indigna de ser vivida’) aplica-se antes de tudo aos indivíduos que devem ser considerados ‘incuravelmente perdidos’ em seguida a uma doença ou ferimento...”, e os próprios sujeitos passam a um estado onde não querem nem viver nem morrer. Um exemplo disso são os sobreviventes aos campos de extermínio na Segunda Guerra Mundial.

Dentro da política ocidental, no que chamamos de modernidade, segundo esse autor, as duplas categoriais, supostas oposições, não são aquelas amigos-inimigos, “mas vida nua-existência política, zóe-bíos, exclusão-inclusão...”.

Sob a alegação política de proteção o Estado pode produzir esses espaços manicomiais, ou instituições totais (Gofmann), espaços para separação dos corpos como vidas descartáveis (Bauman) sobre a alegação de uma inclusão mantendo-os na exclusão.

Se chamarmos nossos tempos também de idade da biopolítica, segundo o filósofo, hodiernamente a relação entre o homo sacer e o soberano é mais sutil. Isto por que  se separam os que detêm o poder soberano daquela figura clássica, dos que podem suspender a ordem jurídica e decretar o Estado de Exceção.

Pelo contrário, “na idade da biopolítica este poder [soberano] tende a emancipar-se do estado de exceção, transformando-se em poder de decidir sobre o ponto em que a vida cessa de ser politicamente relevante...”. Caminhamos em direção a um Estado Policialesco, retomaremos a Era de ouro dos manicômios, das prisões ou conventos?

Aí se encaixa a pergunta: existem vidas humanas que perderam a tal ponto a qualidade bioética de vida, de cidadania, de existência e de bem jurídico, que sua ‘disponibilidade’, extermínio ou continuidade, tanto para o seu portador como para a sociedade, são destituídas de todo seu valor?

Quem sabe as bárbaras cenas de uma instituição ‘filantrópica’, que entre 1969 e 1980, obteve lucro com os 1853 corpos de pacientes do manicômio vendidos para 17 faculdades de medicina, respondam quem são essas vidas humanas sem/com valor?

Como os incômodos sujeitos chamados de loucos, enclausurados no manicômio, incluíam todos os “deficientes mentais, cretinos, débeis, homossexuais, epiléticos, alcóolatras, prostitutas”, os ‘loucos de toda espécie’ conforme as leis, mesmo sem comprovação de suas anormalidades mentais, foram eles os ‘escolhidos’. 

Foram os banidos para esta e outras Colônias. Não ‘valiam’ nada lá dentro, inclusive para a psiquiatria.  Mas adquiriam um valor temporário para sua dissecção/ensino pela Medicina lá fora.

Segundo Arbex, em Barbacena, ‘pelo menos 60 mil morreram dentro dos seus muros’. Ela nos relata esse horror através de um professor universitário que testemunhou a chegada de um lote de cadáveres adquirido pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Eram as vidas nuas, concreta e fisicamente expostas, que geraram nele um choque. Não um eletrochoque (ECT) aplicado rotineira e indiscriminadamente nesse hospício.

Reproduzo, como se o tivesse vivido e com algumas lembranças de Vassouras, o diálogo quase kafkiano a que Ivanzir Vieira foi submetido lá em Juiz de Fora: _ ”Descendo as escadas do segundo andar, apareceu Salvador, funcionário da Faculdade de Medicina, quem o professor conhecia. – Olá Ivanzir. Tudo bem? Porque veio trabalhar hoje? Não sabe o diretor liberou os professores e os alunos?...”.

O professor Ivanzir, após ter visto algumas pilhas de corpos, continua este diálogo ao indagar: “_O que aconteceu aqui Salvador? Que susto levei com esses corpos! Parece até a cena do Inferno de Dante. E olha que falo com conhecimento de causa, pois folheei a Divina Comédia e vi as gravuras – tentou brincar Ivanzir, embora estivesse se refazendo do impacto  que sentiu.”

Tenho, nessa página 74, a confirmação do título deste texto. Na continuidade desse diálogo responde o Salvador: “Rapaz, que luta! Essa madrugada uma camioneta de Barbacena chegou lotada de cadáveres. O responsável localizou o diretor da medicina e ofereceu cada corpo por 1 milhão(cerca de R$364 nos dias atuais). Se a universidade não quisesse já tinha comprador no Rio de Janeiro. Claro que o diretor não podia perder a oportunidade. Estávamos apenas com seis cadáveres, e o preço estava bom...”.

Aí, quando li, senti o mesmo cheiro de muitos anos atrás (mais ou menos em 1973) do formol. Revi a cena dantesca apresentada pelo diálogo. Os tanques cheios de corpos, corpos que estiveram nos manicômios, muitos deles nascidos nas Minas Gerais. E, também, revi a forma como alguns acadêmicos de medicina, como eu, os dissecavam e novamente dissecavam. Relembrei como nós, em nossos primeiros anos, lidávamos com estas “peças”, dissecadas por bisturis afoitos para uma boa nota em Anatomia I e II.

Só posso dizer que a maioria tinha a pele escurecida, mais ainda do que já fora. Eram “peças prontas para o primeiro ano, com a pele retirada, a musculatura exposta, membros destacados para estudos mais especializados...” disse o Salvador. Eu o re-escutei, agora com outros ouvidos essa frase que naturalizava o uso desses corpos sem nome, sem família, sem nenhuma identidade com os futuros médicos. Aí os mortos-vivos ensinavam aos que deveriam cuidar de vidas, estas sim consideradas humanas, no futuro.

Aprendi anatomia, neuro anatomia e dissecar, denominar, decorar e responder. A indagação é se todos nós aprendemos aquilo que colocamos no nosso convite de formatura: um médico só se tornaria capaz do cuidado do e com o Outro quando primeiro se tornar “humano”? Para um jovem acadêmico, eu, essa era a meta ética maior a atingir.

Por isso tive nesse mesmo convite uma homenagem “Ao cadáver desconhecido”, de Robilausky (1876), que termina dizendo: “... Seu nome, só Deus o sabe... Mas o destino inexorável deu-lhe o poder e a grandeza de servir à humanidade... A humanidade por ele passou indiferente. Este (o Anatômico) é o lugar em que a morte ufana socorrer à vida!”.

Convido-os, então, a conhecer um pouco do que foi esse passado manicomial e produtor de vidas nuas. Assistam o documentário ‘Em nome da razão’, de Helvecio Ratton(#), de 1979, são só 24 minutos. Um tempo que não foi devolvido em “um pouco de ar’’ pedido por uma pessoa dentro do hospício. Lá estavam os rotulados como “crônico social”, onde o subtítulo do documentário diz tudo: ‘um filme sobre os porões da loucura’.

No meio desse documentário é confirmada a frase de Mofatt: “aqui dentro não existe a dimensão temporal. O tempo é percebido apenas em função das necessidades fisiológicas. Há uma hora para comer, uma hora para dormir... O ócio é absoluto.” E ao fundo as mulheres desse campo de concentração psiquiátrico cantam o Hino Nacional: ou ficar a Pátria livre, ou morrer pelo Brasil.

Então, para os que já me chamaram de antipsiquiatra, sugiro que apenas me rotulem hoje de ‘Antimanicomial’. Os rótulos são necessários para que nos transformemos em possíveis objetos de venda, compra ou descarte. Mais ainda quando se trata dos “desviantes’’, principalmente os desviantes institucionais. Melhor seria que entendessem a necessidade da desinstitucionalização dos muros não visíveis, das muralhas da China (Kafka).

Esses espaços onde os corpos foram comercializáveis como vidas nuas, mesmo virando museus, sejam a Juliano Moreira, o Engenho de Dentro (Rio de Janeiro, RJ), o Juquery (Franco da Rocha, SP), ou qualquer outro manicômio, ainda perduram no mais profundo âmago da visão que mantemos desse Outro ensandecido, enlouquecido, despolitizado e despossuído. Em nós ainda persistem alguns manicômios e muros mentais.

Lamentavelmente, para mim como lembrança, inclusive incrustada em meu pulmão, a passagem pelos hospícios não me deixou nenhum outro estigma. Consegui ir além, entretanto ainda vejo e vi muitas reproduções destas instituições totais em novas ações da Saúde Mental. Os equipamentos substitutivos, ao serem só institucionalizados como neos ‘minicômios’ passam à residência não terapêutica e à resistência em nós. A oposição eles / a gente, normais/anormais, que sejamos incluídos aí, confirmam uma distinção entre nossos corpos sacralizados, territorializados, legítimos e esses Outros, somente vidas nuas.

Não se surpreendam, caso realmente assistam os documentários indicados, se fizerem analogias com os campos de concentração e extermínio nazistas. O confinamento, a chamada internação involuntária ou compulsória, à época de Barbacena, chamada internação à força, é que alimentou essa ‘indústria’ de cadáveres dissecáveis.

 Reeditamos essa justificativa da compulsoriedade das internações. Elas, como lei, estão presentes na Reforma, na Lei 10216 de 2001. Diante de novas ‘epidemias’, mesmo que as pesquisas confirmem os alcoolismos como a maior estatística, saímos em busca dos ‘malditos’ do Crack. As suas internações involuntárias passam a ser consideradas medidas de proteção, seja do indivíduo ou da sociedade. Como multidões indesejáveis e visíveis precisam de uma ‘solução final’. Voltamos à higienização eugênica do início do século XX?

As leis que foram criadas pelo regime nazista também justificavam seus atos e a banalização do mal. Novamente os mais estigmatizados serão o alvo principal dessas biopolíticas. Eram os trens, a caminho de Dachau ou Birkenau, que carregavam os corpos que foram utilizados, sob a alegação de um avanço científico para todos. Em especial para os mais puros, os mais eugenicamente normais, pertencentes ao modelo ideológico de sociedade racialmente limpa e portadora de humanidade.

Para além das câmeras de gás, das valas comuns, muitos dos loucos, ‘deficientes mentais’, ciganos, homossexuais, judeus ou não, se tornaram os VP, e os médicos também, depois do uso desses corpos, ora propositalmente infectados ora torturados, eram dissecados, como descreve Agamben: “... Excepcionalmente grave e dolorosa para os pacientes foi, além disso, a experimentação sobre a esterilização não cirúrgica, por meio de substâncias químicas ou radiações, destinada a servir à política eugenética do regime (nacional-socialista); numa proporção mais ocasional foram tentados transplantes de rins, sobre inflamações celulares, etc...”.(VP – Versuchenpersonen = cobaias humanas)

Não se surpreendam, portanto, e vejam estas infames ações sobre os infames da História como privilégio dos nazistas. Na Bioética podemos ensinar/aprender que também outros corpos, transhistoricamente, foram considerados vidas nuas. Foram e quiçá ainda sejam, cobaias humanas. Vejam a história nos EUA com a experimentação da sífilis, por 40 anos, mesmo com o a descoberta da penicilina, no “Estudo Tuskegee de Sífilis Não-Tratada em Homens Negros”, mais conhecido como Caso Tuskegee, que ocorreu no Condado de Macon, Alabama, Estados Unidos, de 1932 a 1972.

Mas o que há de transversal nessa relação entre os campos de concentração, os negros no Alabama e os loucos de Barbacena? Minha resposta é a biopolítica que alicerçou o uso, a disponibilidade, o despojamento, a desgraça, o aniquilamento da condição humana dos corpos pelos Estados de Exceção ou os que criaram as distinções do estar dentro ou estar fora da bíos. Os mesmos que criaram e ainda criam campos de isolamento onde tudo pode ser feito, como em Guantánamo, com outros corpos, em nome da vigilância ou da segurança.

Fica, então, para todos e todas as outras respostas a dar e inventar. Mas tenho ainda uma interrogação.  Após a leitura crítica daquele Holocausto, reportado pela Daniela Arbex, como refletir e responder a uma simples pergunta: quem serão os que, diante dos avanços da medicina e das biotecnologias, por exemplo, poderão ser consideradas vidas dignas de serem preservadas? E quais serão os ainda matáveis, as neo-vidas nuas?

Os outros dias de comemoração da Saúde Mental virão. Outros modos de produção de sujeição, seleção ou discriminação serão inventados. E eu continuarei afirmando, inclusive para as multidões, massas ou o povo: Barbacenas, NUNCA MAIS!

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2013/2014 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação para as massas; 2024 TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

(TEXTO PUBLICADO - em primeira mão no EN CENA - A SAÚDE MENTAL EM MOVIMENTO - Insight - acesse e difunda - https://ulbra-to.br/encena/categorias/insight )

DOCUMENTÁRIOS INDICADOS –

(#) EM NOME DA RAZÃO, um filme sobre os porões da loucura – Helvecio Ratton (1979) https://www.youtube.com/watch?v=R7IFKjl23LU

A CASA DOS MORTOS – Débora Diniz (2008) – https://www.youtube.com/watch?v=fsAyVUuDNkQ

Os vivos esquecidos na Casa dos Mortos – Jorge Márcio Pereira de Andrade (2009) https://www.inclusive.org.br/?p=7525

Holocausto brasileiro: 60 mil morreram em manicômio de Minas Gerais (com galeria de fotos) https://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/mg/2013-07-12/holocausto-brasileiro-60-mil-morreram-em-manicomio-de-minas-gerais.html

LEITURAS CRÍTICAS INDICADAS –

HOLOCAUSTO BRASILEIRO, Daniela Arbex, Geração Editorial, São Paulo, 2013.
HOMO SACER – O poder soberano e a vida nua I – Giorgio Agamben, Editora UFMG, Belo Horizonte, MG, 2007.

LEIAM TAMBÉM NO MEU BLOG –

O MANICÔMIO MORREU? PARA QUE O MANTEMOS VIVO EM NÓS? 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2015/05/o-manicomio-morreu-para-que-o-mantemos.html

SAÚDE MENTAL: quando a Bioética se encontra com a Resiliência https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/10/saude-mental-quando-bioetica-se_11.html

ALÉM DOS MANICÔMIOS - 18 de maio/ Dia Nacional de Luta Antimanicomial https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/alem-dos-manicomios-18-de-maio-dia.html

SOMOS TRABALHADORES COM "SAÚDE"? COM DOR OU ARDOR NAS LUTAS E LABUTAS? ATÉ QUANDO? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/05/somos-trabalhadores-com-saude-com-dor.html

OS NOVOS MALDITOS E AS NOVAS SEGREGAÇÕES: da Lepra ao Crack https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/os-novos-malditos-e-as-novas.html

POR UMA MEDICINA QUE ENVELHEÇA COM DIGNIDADE https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/07/por-uma-medicina-que-envelheca-com.html

LOUCURA SEMPRE! DESINSTITUCIONALIZAÇÃO NÃO É INTERNAÇÃO, MUITO MENOS COMPULSÓRIA 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/05/loucura-sempre-desinstucionalizacao-nao.html

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

DEFICIÊNCIAS, MEMÓRIA E ENVELHECIMENTO – Qual é o nosso futuro?

Imagem publicada – uma fotografia colorida, que foi tirada com apoio e ajuda de uma jovem de 12 anos, minha filha, feita em plena manifestação de Junho de 2013, em uma Avenida de Campinas, onde vemos sentada, em primeiro plano, uma senhora, negra, segurando duas muletas, sentada no ponto de ônibus, tendo atrás dela, em pé e na rua, diversos jovens, em destaque uma jovem de costas com a bandeira do Brasil enrolada no corpo. Fiz essa foto para me lembrar do que poderia ser, além dos vinte centavos, outro motivo digno de manifestações ou de revoltas das multidões: o ‘esquecimento’ de nossos velhos, dos que estão sentados em outros bancos, principalmente de hospitais ou filas da Previdência. Esperando, esperando o futuro que passa, vestido de nacionalismos, cartazes que passam e rebelião popular que se esquece. Esquece de dirigir seu olhar e respeito para com esta que poderá vir a ser a sua própria imagem, um retrato que ainda está em seu devir...(fotografia de meu arquivo pessoal).

“...A memória dos velhos desdobra e alarga de tal maneira os horizontes da cultura e faz crescer junto com ela o pesquisador e a sociedade onde ele se insere.... Se alguém colhe um grande ramalhete de narrativas orais, tem pouca coisa nas mãos. Uma história de vida não é feita para ser arquivada ou guardada numa gaveta como coisa, mas existe para transformar a cidade onde ela floresceu. A pedra de toque é a leitura crítica a interpretação fiel, a busca do significado, que transcende aquela biografia: é o nosso trabalho e muito belo seria dizer, a nossa luta”. (Bosi, 2003a, p. 69)

Hoje, mais um dia de me lembrar, eis a memória, das minhas dores físicas. Elas se tornaram fiéis escudeiras do meu viver? Acho que sim, mas me fazem também refletir sobre uma encruzilhada na qual se encontram três “entidades”, ou melhor, acontecimentos existenciais: nossas deficiências, a nossa memória e o nosso envelhecimento.

Como diz, humildemente, Eclea Bosi, no texto de abertura, as nossas histórias de vida não são feitas para os arquivos, para o mofo ou o esquecimento, aí significando o abandono ou desprezo. Nossas histórias merecem outro cuidado diante dessa encruzilhada que o mundo nos apresenta, principalmente por sua lógica do descarte e do consumo.

Ouvimos, falamos, repetimos e naturalizamos a previsão e o agouro de que todos nós nos tornamos pessoas com deficiência, no futuro. Nesse momento, pela óptica biomédica, estamos ainda “com saúde”. Ideal e econômicamente saudáveis, como nas propagandas dos planos de 'saúde'.

Porém o que temos de refletir é como isso poderá ser modificado. Nossa atual concepção/paradigma de uma deficiência depende totalmente  do meio no qual se produzem as barreiras, os preconceitos e as limitações que levam um ser humano às denominadas situações de deficiência. É o novo paradigma social que muda nossos velhos conceitos sobre ser, estar e ficar com uma deficiência.

Não nascemos já com algumas "deficiências"? SIM, não nascemos na perfeição, no modelo eugênico e ideal, além de racista, de seres sem nenhuma mácula, defeito, imperfeição, falha, incapacidade ou qualquer estigma. Somos, desde sempre, quiçá para o futuro, os “portadores da vida imperfeita”. Apenas humanos, demasiadamente humanos. E também "portadores da transitoriedade e da finitude".

Hoje muitos estarão falando dos “velhos”. Senhores e senhoras. Os que recebem nessa data uma comemoração internacional. Um momento de lhes assegurar seu Estatuto e suas questões de vida e sobrevivência fundamentadas pelos direitos humanos. Porém, não lhes daremos nosso espelhamento e nossa re-visão crítica, aquela que a Ecléa nos pede e ensina. Nosso espelho do futuro está coberto?

Precisamos de outro e novo olhar para aquilo e aqueles que denominamos “velhos”. Prefiro como sempre disse usar o termo “antigo” para me referir ao que muitos dizem ser nossa Terceira Idade, nosso fim e terminalidade. Vejo aí sempre aquele olhar que se reproduz no símbolo que está nos estacionamentos, metrôs e outros espaços públicos onde passamos a ser a prioridade apenas com uma bengala. Curvados pelo Tempo.

Todos terão, como eu, de usar apoios ou meios de locomoção que são também símbolos significantes do nosso desgaste físico corporal. Serão todos corpos com o significante permanente da perda, do passado sem futuro, da história a ser esquecida? Não, temos de buscar essa encruzilhada e conversarmos cara a cara com a Memória, essa amiga próxima e íntima da Dona Morte.

E é a Dona Morte que nos assusta que muitas vezes nos rouba o que chamamos de memória. A memória mais roubada é a dos fatos recentes, a que chamamos de anterógrada. Porém, nessa óptica apenas neuropsíquica, o que mais temos temor de perda são as memórias do passado. Já que as cultivamos, como uma flor destinada a murchar, as nossas lembranças, nossos velhos retratos, nossas antigas músicas e amores. Principalmente os amores regados com a nova suavidade dos encontros alegres.

Por isso hoje temos de rever esses conceitos naturalizados sobre uma época do viver que todos e todas temos de viver: o tornar-se idoso. Na nossa sociedade, ainda é regida pelo Estado do Bem Estar e da Saúde Eterna, continuamos na busca alquímica da “fonte da juventude”. Simbolizamos aí o nosso temor/terror da pele enrugada, dos movimentos lentos, das falhas e lapsos da memória, dos conflitos transgeracionais, e, “naturalmente”, nos tornarmos os “rabugentos”.

Uma mão com sua pele encarquilhada, com suas veias mais visíveis, com sua motricidade fina diminuída, com a lentificação dos movimentos, independentemente, do poder segurar um pincel e repintar, finamente, a própria imagem, hoje, pelas novas tecnologias, não encontrará nenhuma barreira se as puder utilizar sem barreiras. Porém o tornar-se mais um na deficiência está acompanhado, quase sempre, de uma probabilidade de não acesso a estes recursos ou tecnologias assistivas.

O pensar o nosso, o seu, o meu e o de todos, envelhecer em uma sociedade de vidas descartáveis é uma reflexão indispensável. Ou melhor, deve ser pensável e imprescindível. As vulnerações, ou seja, a produção de novas vulnerabilidades, em tempos de incertezas, desde o macropolítico até ao micropolítico, nos apresenta outra encruzilhada: - o aumento de nossas expectativas de vida, com ele o aumento das ‘deficiências’ dos sistemas de proteção social e previdenciária, e, inevitavelmente, o incremento de barreiras que propiciem mais marginalização e/ou exclusão social.

Portanto, ainda estamos nessa busca de qualificar quem, que mecanismos, que lógicas e que políticas tem produzido os mitos que cercam essa tal ‘feliz idade’. Os mitos que as colocam como beneficiárias e não como agentes da mudança de suas vidas. Presas fáceis dos modelos reabilitadores e biomédicos e suas mitificações, quase religiosas ou milagrosas. O mito de uma vida de eterna juventude.

Reforçam-se aí os mitos quando estes 'velhos' são excluídos do mercado de trabalho, com sua retirada para os aposentos domésticos. Os mitos que as convertem e novos e dependentes endividados dos empréstimos bancários especiais para estes aposentados. E, finalmente, os mitos, reforçados pelos ideais de Saúde plena, com sua re-habilitação  que se torna exclusivamente dependente dos avanços da medicina e das biotecnologias. Ficam, então, reféns da visão de que realmente estão mais próximos da Dona Morte do que da Vida.

É este o futuro que desejamos? É este o futuro que estamos providenciando e produzindo? Um duro e não harmônico futuro. Não aprendemos, ainda,  ir em busca da velha tradição oral? Que tal reaprendermos a escutar atentamente os nossos “velhos”.  Enfim, para uma escuta sensível e não como uma escuta que reforce nossos preconceitos ou mitos sobre o envelhecer.

Eu, aqui, como já disse no início, continuarei meu aprendizado, embora árduo, do conviver com um corpo que não é mais o dos “vinte anos”. E não usarei o vinho ou outros componentes que nos embriagam com a ideia fantasiosa de que “quanto mais velho, melhor”. Este é outro mito a ser superado. Só somos melhores quando nossas qualidades do viver também o são. Quando a vida é digna e os direitos não são só de papel.

Eis, então, a questão: mudaremos nossos paradigmas sobre as deficiências, as memórias e os diferentes, diversos, plurais e humanos envelhecimentos? Um belo fim para alguns pode ser diferente do que outras pessoas, nas suas diferenças, desejem e aspirem para seu futuro. O que podemos, então, a elas, humanas, demasiadamente humanas, dizer sobre o futuro?

Não tenho a sua resposta, não tenho mais que a permanência na dúvida e na indagação, estas que fazem com que supere quaisquer das minhas atuais limitações. São as mesmas que fazem que eu queira ter direito ao meu Testamento Vital. As mesmas que me impedem do afundar ou desaparecer dentro das areias movediças das certezas científicas ou dos dogmas religiosos.

Enfim, para não prolongar o texto, apenas para lembrar este contexto, esta crônica de uma comemoração do Dia Internacional do Idoso, desejo que nossos corpos, corações e mentes, não perdendo a paixão e o vigor, busquem, individual ou coletivamente, uma nova visão micropolítica e cartográfica do viver, mesmo com os limites, sem pedidos de complacência ou desejos de retorno ao suposto nirvana dos úteros maternos.

Não deixemos apagar a Memória. Principalmente aquela que exige um respeito e reaprendizagem: a da nossa História. A mesma, ouvida dos velhos, sobre as nossas naturalizações e banalizações das violências, das vulnerações e nossa capacidade de destruir, em segundos, o que levamos séculos para produzir, construir, arquitetar e transformar em beleza.

Avancemos, com dignidade e luta, para os braços da Dona Morte, com a certeza de escrevemos, conjuntamente, outra história sobre o viver e o Super-viver, não apenas o sobreviver. E os de mais idade, mais tempo cronológico e biológico, estarão entre nós...

E deixaremos envelhecidas memórias, um tanto ‘deficientes’, mas não escondidas nas gavetas de “velhas escrivaninhas” neo-tecnológicas chamadas de computadores.

Eu, solidariamente, estarei mais velho quando o meu pai fizer os seus 104, 105 e 106 anos...

Copyright/left – jorgemarciopereiradeandrade 2013/futuro (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

LEITURAS CRÍTICAS INDICADAS –

Memória e sociedade: lembranças de velhos. Ecléia Bosi, São Paulo: Companhia das Letras. (1994 – um texto sempre renovador e implicado com a vida, sem temor da finitude).

Bosi, E. (2003). O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. São Paulo: Ateliê EditoriaI.

SOBRE O DIA INTERNACIONAL DO IDOSO - Dia Internacional do Idoso comemora expectativa de vida na terceira idade https://www.jornalnanet.com.br/noticias/7520/dia-internacional-do-idoso-comemora-expectativa-de-vida-na-terceira-idade

Notícia acrescentada em 2015 - Vivemos mais mas isso não quer dizer que sejamos mais saudáveis (diz a OMS) https://www.noticiasaominuto.com/mundo/461954/vivemos-mais-mas-isso-nao-quer-dizer-que-sejamos-mais-saudaveis

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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O DIREITO A DOIS CADERNOS, QUAL É A NOSSA PREFERÊNCIA? Incluir e/ou Excluir?

Imagem publicada – uma fotografia colorida de um mural, em um prédio, no Bairro da Liberdade, São Paulo, SP, com 08 cachorros diferentes, de cores diferentes (azul, laranja, rosa, verde, amarelo, vermelho, laranja com marrom nos olhos), segurando dois grandes cartazes, onde está escrito: EDUCAÇÃO BÁSICA DE QUALIDADE PARA TODOS e ACABAR COM A FOME E A MISÉRIA, com um poste à esquerdade PROIBIDO ESTACIONAR, com prédios desenhados ao fundo e nuvens, na direita um osso desenhado com a autoria do mural -foto de meu arquivo pessoal.)

“... a discriminação negativa não consiste somente em dar mais àqueles que têm menos; ela, ao contrário, marca seu portador com um defeito quase indelével. Ser discriminado negativamente significa ser associado a um destino embasado numa característica que não se escolhe, mas que os ‘Outros’ nos devolvem como uma espécie de estigma...” (A Discriminação Negativa – Cidadãos ou Autóctones? Robert Castel, 2008).

Somos nós, os Outros, como grifei no texto de Castel, que temos a alteridade e a também certa autoridade para forjarmos a exclusão desses diferentes de nós.

Peço desculpas aos meus leitores e leitoras, desde junho não conseguia escrever para vocês. Minha própria auto exclusão se fazia motivo de meu silêncio de escrevinhador. Sim, escrever é um ato doloroso e espinhoso, parece fácil, mas não é como a simplificação do que fazemos diante dos nossos cotidianos como excludentes, não como excluídos.

Resolvi revirar meu baú de textos, estava com a reflexão sobre as multidões que vivemos recentemente. Fui passear há 11 anos atrás, em 2002, quando publiquei um texto, em fevereiro, como o título: O Direito a dois cadernos. Vou reproduzi-lo, parcialmente, e tentar reacender e reviver o momento que o desencadeou. Caso encontrem algumas coincidências é mera responsabilidade de todos nós como autores, atores ou espectadores, ou melhor, se fôssemos espect.-atores.

CENA 1 – Supermercado da Rede SUPER. Uma grande cidade, uma metrópole. Um menino. Uma fila de consumidores. 01 Caderno e uma 01 caixa de ovos. Um olhar.

Há dias, escrevi lá no passado, venho me questionando acerca da literatura, principalmente do uso pouco criativo, na televisão e na vida de todos nós, do visionário e escritor George Orwell (1903/1950). É o conhecido autor do romance ‘1984’. O Grande Irmão (Big Brother) naturalizou-se e foi banalizado. Mas uma vez a Sociedade do Espetáculo e do Controle nos enfeitiça e domina. Outra vez a mais não olharemos para outros monitores ou tele telas que nos seduzem.

Indagava-me há tantos anos o mesmo que agora, diante de um mundo pós-Snowden, sobre os nossos modos de ver e se distanciar do que Bauman chama de “vidas desperdiçadas”, ou seja, o que ele chama de ‘refugos humanos’, ou melhor, os seres humanos tornados descartáveis, como efeitos de nossas novas economias neoliberais do hipercapitalismo.

Voltemos, então, a Cena 1: Eis que estou, como natural que é, numa fila de consumidores, dentro de um supermercado. Obedientemente empurrando o meu carrinho de compras, poucas. Olho em volta e tudo é estímulo para o consumo. Novas marcas, novos marketings, novas seduções, novos e brilhantes produtos embalados.

Lá fora, na porta de entrada, a violência explícita (o olhar fiscalizador dos seguranças). No perímetro do caixa, limite e limitação, meu olhar consumido é despertado. Passa um garoto, sandálias de borracha, calças curtas e olhar vago ou pedinte (ainda não encontrei outros modos de descrevê-los). Visivelmente pobre, visivelmente empobrecido, visivelmente excluído (como o que nos disse Castel).

Ele traz nas mãos: 01 (um) caderno espiral, desses de 200 folhas e uma 01 (uma) caixa de ovos tipo extragrande. Ele passa e pede aos participantes das filas: - “Moço, moça, paga para mim essas coisas...”.

Todos olham, se entreolham, disfarçam, ele passa, o Supermercado está lotado. É dia do pagamento dos assalariados. Como já naturalizamos também nossa permanência em filas (Bancos, Correios, INSS, Loterias, Hospitais, etc...), ele passa... Ele se afasta. Em seguida abandona o caderno numa prateleira de papel higiênico. E continua a sua peregrinação suplicante. Os autorizados na fila enfileirados, ordeiramente, apenas nos entreolhamos de novo.

CENA 2 - A caixa do supermercado, a fila, o olhar desconfiado, a insegurança.

Eis que surge a pérola que me fez pensar sobre os 02 (dois) cadernos: uma mulher, negra como eu, também excluída como alguns ali presentes, mas que não se deu conta, ainda, da sua condição, olha para algumas pessoas enfileiradas e se justifica: -“se ele tivesse apenas pedido os ovos, eu até pagaria...”

CENA 3- 01 (um) Outdoor enorme, uma imagem de um computador e seu processador de dados, uma família reunida em torno dele, felizes.

O outdoor anuncia a chamada para o lançamento da Intel e do novo Windows, com uma frase rica de significados e significantes: “INVISTA NO SEU FILHO, ELE PODE RENDER UM GÊNIO”. Lá estão estampados uma menina, um menino, um laptop e o rosto de Einstein (sem a língua para fora!).

Autorizei-me, e ainda não me arrependi, em ‘compartilhar’ minhas indagações surgidas desse encontro triste. A primeira é: qual é a minha, a nossa dívida para com estes meninos e meninas que estão nessa situação de rua?

Vocês primeiro interrogaram se eu paguei os ovos ou o caderno? Eu também não paguei os ‘dois’ cadernos que o menino (a) trazia na mão. Eu também não retruquei à senhora que falou da sobre a escolha (que não era de Sofia). E, mais ainda, não me indignei, naquela hora, com toda essa situação. Por quê? Temor da atitude grosseira dos seguranças que expulsam essas crianças desses espaços?

Não, apenas era mais um nessa fila dos que pensam: quem sabe isso é uma ‘pegadinha’. Ou pior, no modelo panóptico e paranoico do orwelliano 1984, não agir é porque não estamos em uma gravação feita por uma câmera de segurança, ou uma câmera de televisão que nos mostrará para todo o país. Não me sentia, naquele instante, diante do refugo social, tão ‘global’ ou minimamente solidário.

Era, ou melhor, continua sendo, apenas mais um na fila. Era, lamentavelmente, e continua sendo apenas uma cena ‘local’. Triste, repetitiva e banalizada. Ou seja, natural, comum, rotineira, cotidiana, sempre igual. Mas a visão não é do antigo Big Brother, que estava, segundo Bauman, “preocupado em ‘incluir’ – integrar, colocar as pessoas na linha e mantê-las assim...”.

No nosso reality show pós-moderno estamos aplicando um novo Big Brother. Sua função e eficácia é a Exclusão. Como diz o sociólogo para: “identificar as pessoas ‘desajustadas’ no lugar onde estão, bani-las de lá e deporta-las para o lugar ‘que é delas’, ou melhor, jamais permitir que se aproximem...”.

CENA 4 – A caixa reclama, o segurança age, a fila permanece, e todos e todas pagam suas compras.

Acho que apenas alguns se interrogaram: Meninos e meninas com fome de quê? Eram 22 (vinte e duas) horas e o Supermercado Brasil estava fechando suas portas, para que os telespectadores da vida pudessem assistir ao ‘’Big Brother” da Rede Globo, em dobro. Um último olhar do consumidor me lembra na porta: “Sorria você está sendo filmado”... Estamos, enfim, seguros e vigiados.

Ora, ora, alguém vai perguntar: hoje nessa nossa evolução social e econômica não retiramos esses refugos da marginalidade, da fome e das ruas?
Porém, hoje, estou renascendo de minhas próprias cinzas escrevinhadoras para lembrar que já naquela época estive, também, anestesiado. Mas, entretanto, contudo e todavia tenho que lembrar também que já me indagava sobre as cenas e sua relação com as pessoas com deficiência.

Me perguntei se naquela cena dos pedidos à fila do supermercado, numa nova classificação sobre deficiências, se o ‘menino(a)’ pedinte não poderia ser ‘incluído’ como uma criança em situação de deficiência. Quem sabe, talvez, pela naturalização os ovos seriam pagos por mim ou outro ‘filante’, como manifestação de piedade ou caridade? Quase certo que sim, pois estávamos em um ambiente, como os shoppings de hoje, ‘totalmente seguros e assegurados’.

Não nos encontrávamos, fechando os vidros dos carros, nos cruzamentos das ruas, nos semáforos. E o pedido de pagamento não era um pedido de resgate, apenas, nos gerava aquela repulsa ou preconceito que já deixamos lá no cantinho dos nossos inconscientes.
Afinal para quê alimentar de ‘ luz’ àqueles que só reclamam de um ronco na barriga? Nós, os da fila, não acreditamos ainda na dicotomia entre intelecto, aprendizagem e estômagos?

Enfim, tudo isso que escrevi e refleti são apenas ‘cenários’? Ou seja, será que ele só inventou ou é apenas uma ficção ‘real’? Tudo isso foi, é e continuarão sendo cenários para falarmos de uma exclusão que está imbricada com a inclusão. A existência das fomes, todas as fomes, principalmente aquela que preocupava Paulo Freire, a educação, como um direito inalienável dos cidadãos e cidadãs, acaba sendo denunciada pela a sua ausência.

Recentemente, uma ameaça partida de não sei onde, gerada por interesses que não sei de quem, mas todos, excepcionalmente, sabem, fez um termo velho, ‘preferencialmente’, ser motivo de uma grande e polêmica disputa. Os meninos ou meninas dos Supermercados Brasil, mais ou menos uns 03(três) milhões, fora da escola devem ser ‘incluídos’, preferencialmente, em uma escola especializada em prevenção de futuras atitudes violentas ou transgressoras? A fundação que cuida deles e delas não é chamada também de centro de reabilitação? Essa fundação não é uma escola ‘especial’?

Voltemos, enfim, às cenas e às suas interrogações necessárias. Disse no passado e agora confirmo: - é aí que surgem as exclusões sociais e os discursos que as legitimam. Na pobreza e na miséria, humanas, dizem que quem tem um “ovo” torna-se rei, é soberano. Portanto, para quê os da fila se indignarem com essas exclusões? Para quê precisamos de cadernos de papel? Os direitos não são, também, de papel?

Por essas perguntas que não tenho o dever de responder sozinho, já que a gramática que pode mudar radicalmente os paradigmas não aceita ser apenas preferencial e exclusiva, é que insisto e lanço mais uma pergunta: Porque não damos 02(dois) cadernos, o de papel e o digital, para todos os meninos e meninas, com ou sem deficiências (inclusive as sociais), para que juntos, com todos os recursos e respeito às suas singularidades, exatamente por suas diferenças, eles e elas não tenham de escolher apenas um caderno? Ou não queremos quebrar esses ovos?

 Ou então, para acabar com as querelas e continuar na fila, com os corações blindados e as mentes capturadas, vamos distribuir, preferencialmente, à mão cheia, um único caderno onde se escreve repetidas vezes: - Eu não sou parte daquele show, eu não pertenço àquele mundo, eu sou do time que fica de fora, muito embora me convidem para uma breve passagem pelo grande campo, também excludente, chamado de Inclusão.

Já mandamos restaurar os nossos sofás que recentemente foram parcialmente danificados pelas imagens teleguiadas, porém vandalizadoras daqueles baderneiros que queriam erradicar, radicalmente, essas exclusões?  Não se esqueçam de que a rede social dos Supermercados Brasil está promovendo, com toda segurança, o lançamento do meio de controle de nossas necessidades básicas: o ‘embolsa tudo’. Com satisfação e gozo garantidos, sem ter qualquer dinheiro de volta.

AVISO AOS NAVEGANTES (também chamados hoje, pós tempos de espionagem virtual e até presidencial, after Snowden, de cidadãos e cidadãs de ‘vidro’, ou seja, total e amplamente transparentes para o Estado e o Mercado): quem encontrar um menino ou menina pedintes de ovos e/ou cadernos favor me avisar por meio das nossas redes includentes e cibernéticas, muito embora saiba que ainda resta um grande número deles que não sabe nem o que é Internet.

Copyright/left – favor citar o autor e as fontes, mesmo as inexistentes, em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa (ou serão multidões? TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

INDICAÇÕES PARA LEITURA CRÍTICA –

A DISCRIMINAÇÃO NEGATIVA – CIDADÃOS OU AUTÓCTONES? , Robert Castel, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 2008.

VIDAS DESPERDIÇADAS – Zygmunt Bauman, Editora Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, RJ, 2005.

LEIA TAMBÉM NO BLOG –

O RETORNO DA INCLUSÃO PELA INTEGRAÇÃO: Novos muros nas Escolas, Fábricas e Hospitais.


INCLUSÃO/EXCLUSÃO: DUAS FACES DA MESMA MOEDA DEFICITÁRIA? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/02/inclusaoexclusao-duas-faces-da-mesma.html


A PARÁBOLA DA ROSA AZULhttps://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/05/parabola-da-rosa-azul.html