terça-feira, 4 de setembro de 2012

A DONA MORTE É GLOBAL, MAS NOSSO TESTAMENTO PODE SER VITAL.


Imagem publicada – Uma foto colorida de um Globo da Morte, uma das principais atrações dentro das lonas de circos no Brasil, com uma lona de cores vivas ao fundo (vermelho, azul e amarelo). Nessa esfera metálica que copia a forma de nosso planeta Terra os artistas circenses, em motocicletas, executavam e podem exercitar o espetáculo do risco de viver dentro da acrobática e imprevisível Vida. Nela andam em alta velocidade, cruzam os limites, rompem as redes de proteção dos trapezistas, correm, como diria Nietzsche, na tênue corda bamba entre o homem e o além-do-humano. Sem temor da Dona Morte. A todos estes artistas, em especial a um que conheci muito de perto, envio minha reverência. O seu desafio é uma metáfora do que ainda estamos aprendendo sobre nossas artes de viver e nossas pulsões. Inclusive aquelas que nos levam a morrer. (foto com direitos de Dalton Soares de Araujo - http://www.baixaki.com.br/papel-de-parede/22263-globo-da-morte.htm)

In memoriam do VOVÔ LEÃO (pois era também domador de leões) Barry Charles Silva.


Atravessado e tranversalizado por um “globo da morte” tenho reminiscências do meu avô. O mesmo que me ensinou a gostar do Cinema também me apresentou a interrogação do porque os motociclistas não caem quando chegam ao seu ponto extremo, o seu polo Norte. Interrogação para qual demorei em ter resposta. Fora das lonas dos circos.

Ela me veio quando este velho guerreiro, Seu Filomeno, se tornou minha primeira vivência sobre o morrer em paz. Ele sempre me parecia estar em luta com a Vida. E, na sua pluralidade e singularidade de ser, amava o desafio aos limites. Ele queria morrer em sua própria casa, sobre seu próprio leito. A sua memória é de um guerreiro vital. 

No tempo de Péricles, em sua Oração Fúnebre, feita no inverno de 431-430 AC, os guerreiros gregos desejavam morrer com dignidade. Desejavam com intensidade sua morte em combate. Era o conceito de Bela Morte, ou seja, khalós Thanatós. Nada era melhor do que ser um combatente livre, seja de Esparta ou dos “bárbaros”. Deles se diferiam por escolher onde, quando, como e com quem morrer.

Hoje, na Grécia que teleassistimos, o que será que restou dessas escolhas do morrer? A guerra lá é agora dos euros e das dracmas? Ou seja, apenas as moedas é que determinam a forma de viver e morrer? A vida, com o horror econômico imperando, não têm se tornado tão mortal quanto na Síria, tão próximas? A possível diferença será o tempo da tortura e das bombas na criação de pilhas de Vidas Nuas?

Andei, refleti e tive de conviver mais uma vez, recentemente, com a Dona Morte. Em um Belo Horizonte, quente, seco e quase árido, tive de levar para seus braços mais um membro da grande família dos meus. Para lá levei meu sogro que foi atropelado pela Vida, mesmo que tenha sobrevivido, na sua juventude, a um grave acidente dentro de um “globo da morte” em seu passado circense. 

Voltava ao meu solo, minha terra, minha gaia geradora. Porém vivia mais essa perda, essa ausência presente. E, lamentavelmente, nossos mortos são diferentes do que almejavam os gregos para seus cemitérios com a sombra de pinheiros. Hoje os chamados campos de repouso dos guerreiros têm de ser até vigiados por guardas armados. Os cemitérios não são mais campos Elíseos da paz... Nem mesmo do silêncio.

Tenho, portanto, novamente motivos e emotividade para lhe escrever Dona Morte. A digníssima e vetusta senhora que nos acompanha em nossos milímetros de passadas, mesmo que claudicantes. Eis que não nos poupa de suas surpresas e não nos dá um tempo prévio para nossos lutos. 

Ela vem como um trator, um caminhão, um tanque, um ônibus (como aquele que me abalroou dentro de outro) e, como dizia Adoniran, nos “pincha no chão”. N os atropela, ataca de surpresa, invade nossas couraças, derruba todas as nossas defesas inconscientes e inconsistentes.

Esta semana foi decretada pelo Conselho Federal de Medicina a retomada de nosso direito de escolha da maneira que queremos morrer. E sua resolução gerou de imediato a reação de alguns conservadores fundamentalistas e outros religiosos.

Porém o que o CFM, com a Resolução 1995, afirmou foi à saída do modelo distanásico, ou seja, a Distanásia, que promove, como já escrevi, apenas um exercício esgrimista e duelista da Medicina e da Biotecnologia com os braços mais fortes, imprevisíveis e invencíveis que a Senhora Dona Morte sempre possuiu e possuirá.

Não foi uma decisão sobre a Eutanásia, que Jack Kervokian aplicava e por ela foi punido nos EUA, mas sim uma afirmação de autonomia, beneficência e respeito à vontade dos “pacientes terminais”, os que são colocados em situação de ausência total de possibilidades do que chamamos de cura. São os que são mantidos vivos através de meios artificiais, como os de longa permanência em coma e com vários tubos, aparelhos e biotecnologias em Utis.

O que se afirmou, a meu ver, foi a concretização de uma afirmação da morte com dignidade. Aquela que desejam os jovens guerreiros gregos e seus mais velhos filósofos. A questão, portanto, não é da modernidade, é um ponto mais profundo em cada um de nós e na humanidade. É nossa “crença” na imortalidade.

Colocamo-nos ainda muito mais próximos do Olimpo, do Éden e do Paraíso, mesmo que não estejamos pendendo inteiramente para o lado dos anjos. Desejamos sempre que a Mocinha que chamamos Vida possa lubridiar, enganar e vencer o seu jogo amoroso e freudiano com a Dona Morte, essa sim já plena de sua própria imortalidade.

Somos mortais. Vi novamente o quanto precisamos aprender sobre Thanatos. Era esse o nome do local de despedida do corpo presente de meu sogro. Lá tive muito mais tempo para refletir sobre a minha, a sua e a nossa mortalidade. A presença de uma dor visível nos prantos e palavras, que serão sempre importantes, não diminuía a sensação de outra dor: a psíquica. Fomos, como ele, pela ação global derrubados, de nossa motocicleta, pelo o que nós é mais mortal: a VIDA.

Cara, e custosa Senhora Dona Morte, lá tive muito tempo novamente para refletir sobre o meu, o seu e o nosso Testamento Vital. Já havia acompanhado e lido muito sobre o tema. Já havia escrito sobre o marinheiro espanhol, tetraplégico, Ramón Sanpedro, tornado um exemplo do desejo do “suicídio assistido” e imortalizado pelo filme Mar Adentro.

Ele em suas Cartas do Inferno lutou, após se tornar tetraplégico, e escrever com uma “pena” presa a sua boca, contra o Estado, a Igreja e muitos outros na Espanha. Durante os 29 anos após seu mergulho que o tornou uma pessoa com deficiência pensou e conviveu com a Dona Morte em seu leito e imobilidade. O que sempre desejou foi concretizado a partir de uma assistência que, em 1998, lhe foi prestada “anonimamente” pelos que o cercavam, ao ingerir por um canudo uma solução de cianeto. O seu livro e o filme talvez possam ser considerados um testamento.

O que então faz com que nós, mortais, imanentemente terminais, relutemos, ética e bioéticamente diante dessa questão do morrer com dignidade? A autonomia é um risco para nossa condição de seres sociais e coletivos? A autodeterminação é um desejo absoluto que deverá ser respeitado pelos que nos pranteiam? Os que nos pranteiam também são e serão mortais?

Interrogações que somente o poeta Fernando Pessoa me ajudou a responder com seu poema Lisbon Revisited, na heteronímia de Álvaro de Campos, ao nos interrogar: “Se te queres matar, porque não te queres matar?”, pois para ele quem sabe nos matando nos venhamos a nos conhecer “verdadeiramente”.

Assistam todos os filmes, todas as peças de teatro, pesquisem todos os livros, busquem todos os documentos, ainda assim teremos de buscar na Poesia do viver a única e possível solução parcial para nosso morrer. Uma possível centelha no Caos. Uma afirmação de nossos direitos humanos diante do mundo líquido que produzimos.

Por estas impossíveis respostas à singularidade de como cada um morre, assim como vive, é que deveríamos apoiar essa, embora tardia, afirmação do sujeito e da pessoa. O chamado Testamento Vital já foi motivo de debate e legalização há muitos anos em outros países. 

O que é então essa nova posição do CFM? Segundo matéria publicada: “Os procedimentos a serem dispensados deverão ser discriminados no testamento vital, como por exemplo o uso de respirador artificial (ventilação mecânica), tratamentos com remédios, cirurgias dolorosas e extenuantes ou mesmo a reanimação em casos de parada cardiorrespiratória. Esta decisão deve ser manifestada em conversa com o médico, que registrará no prontuário do seu paciente. Não é necessário haver testemunhas e o testamento só poderá ser alterado por quem o fez. O interessado pode ainda procurar um cartório e eleger representante legal para garantir o cumprimento do seu desejo.”

O primeiro a solicitar esse “direito” da escolha sobre seu morrer foi um advogado de Chicago, Luis Kutner, nos EUA em 1967. Ele redigiu um documento que expressava o desejo de um cidadão recusar tratamento, caso tivesse uma doença terminal. Portanto, já era tempo de podermos decidir sobre nosso próprio corpo e sua condição mortal e frágil diante das diferentes Medicinas, principalmente as desumanizadas do hipercapitalismo.

Entre o viver intensamente, e o viver-morrer tensamente, qual será a nossa escolha vital? Qual será o Testamento que ando e continuamos escrevendo? O que nossas mãos e mentes têm feito com as árvores não plantadas, os desertos que cultivamos, as tristezas que podemos semear, as injustiças que não combatemos, as fomes que ignoramos, as doenças e sofrimentos que negligenciamos, os estragos desamorosos que naturalizamos, e, principalmente, a banalização, antiecosófica, do matar pela guerra e pela proliferação da miséria? A quem estamos matando, em princípio, quando nos permitimos à autodestruição de nossa Terra?

Para minhas filhas, para nossos filhos/filhas da Gaia, é que, conscientemente e livre, desejo deixar, lavrado e registrado, quando não mais suportar ou resistir aos teus abraços sufocantes, Dona Morte, também meu Testamento Vital.

Dona Morte espero ter a chance, se não for também atropelado pela Vida Mocinha no Globo da Vida, de ainda registrar um Testamento. E nele, não me condenem apressadamente, estarei como diz Pessoa, perdendo meu “amor gorduroso”, meu falso apego, minha VONTADE, POTÊNCIA ZUMBI, de re-existir ao que chamamos de fim. OU SERÁ APENAS A FINALIDADE? OU NÃO TEMOS TODOS E TODAS, PRAZO DE VALIDADE?

Como Aquiles, no cerco a Tróia, não podemos ter ao menos uma chance de proteger nossos calcanhares? A ele, os troianos, não permitiram a Bela Morte. O seu corpo foi destroçado, arrastado e mutilado. Portanto, mesmo os semideuses ou os invulneráveis podem ser feridos.

NÃO HÁ CONSOLO NA LUTA, MUITO EMBORA TENHAMOS SEMPRE QUE APRENDER, REAPRENDER COM NOSSOS LUTOS. E COM AS NOSSAS PEQUENAS E INTOCÁVEIS MORTES COTIDIANAS.

SOMOS APENAS HUMANOS, CARA E INEVITÁVEL SENHORA, DEMASIADAMENTE HUMANOS.
E a minha filha, Isadora, também teve seu primeiro encontro, demasiadamente forte e triste, com a morte inesperada do avô que andava, como homem circense, ao cruzar outros limites nesse nosso globo, chamado de terrestre.


Copyright/left – jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o Autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Notícias e fontes na Internet –

Pacientes poderão registrar em prontuário a quais procedimentos querem ser submetidos no fim da vida https://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=23197:pacientes-poderao-registrar-em-prontuario-a-quais-procedimentos-querem-ser-submetidos-no-fim-da-vida&catid=3

Testamento vital pode ser feito mesmo por pessoas saudáveis https://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI6123975-EI306,00-Testamento+vital+pode+ser+feito+mesmo+por+pessoas+saudaveis.html

Maioria das religiões apoia a ortotanásia
https://www.band.com.br/noticias/cidades/noticia/?id=100000530383

Você quer ser pessoa ou paciente?
https://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/09/voce-quer-ser-pessoa-ou-paciente.html

Porque a motocicleta não cai quando está no alto do globo da morte https://www.deducoeslogicas.com/forca_centrifuga/globo_morte.html

INDICAÇÕES PARA LEITURA -
CARTAS DO INFERNO
– Ramón Sampedro , Editora Planeta Brasil, 2005. https://www.editoraplaneta.com.br/descripcion_libro/1690


POESIA – FERNANDO PESSOA (ÀLVARO DE CAMPOS) – Lisbon Revisited (1926) https://pt.scribd.com/doc/64737980/93/Se-te-Queres

FILME CITADO – MAR ADENTRO – Direção Alejamdro Amenábar, Espanha, 2005. https://portaldecinema.com.br/Filmes/mar_adentro.htm

LEIA TAMBÉM NO BLOG

CARTAS deVIDAs à DONA MORTE
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/08/imagem-publicada-foto-do-ator-al-pacino.html

POR UMA MEDICINA QUE ENVELHEÇA COM DIGNIDADE
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/07/por-uma-medicina-que-envelheca-com.html

EU, VOCÊ, NÓS E O CÂNCER.
 https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/07/eu-voce-nos-e-o-cancer.html

O SUICÍDIO, ADENTRANDO AO MAR E AO NÃO HÁ MAR... - https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/08/o-suicidio-adentrando-ao-mar-e-ao-nao.html 

NOSSAS IN-DEPENDÊNCIAS da DONA MORTE em 11/09/11 https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/09/nossas-in-dependencias-da-dona-morte-em.html

NENHUMA DOR A MENOS OU A MAIS
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/10/nenhuma-dor-menos-ou-mais.html

A ARTE DE RE-VIVER - Quando morrem o Teatro, o Carnaval e a Música? Nunca... ( E O CIRCO TAMBÉM) https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/12/arte-de-re-viver-quando-morrem-o-teatro.html

domingo, 19 de agosto de 2012

AOS MEUS “COLEGAS”, INTOCÁVEIS E INDEPENDENTES – O Cinema reverencia as Deficiências.


Imagem publicada – cena do filme Les Intouchables (Grande Prémio Sakura do Festival de Cinema de Tóquio) onde um homem negro, Driss (o ator Omar Sy, o primeiro ator negro a receber o prêmio César, o Oscar do Cinema Francês, de Melhor Ator), empurra outro homem em uma cadeira de rodas motorizada, que está em “alta velocidade”. Esse homem é Philippe (o ator François Cluzet) um refinado multimilionário tetraplégico francês, que precisa de um auxiliar de enfermagem para parte dos cuidados que seu corpo exige. O contratado é Driss, um senegalês que vive nos subúrbios, com diversos dramas familiares, mas também possui um refinado humor, que poderíamos incorretamente chamar de “humor de um negro”, mas que muda radicalmente a vida paralisada, sem compaixão ou pena, do incorretamente chamado de “paralítico homem branco”. É de suas transversalidades afetivas que nascem algumas propostas que podemos tentar refletir sobre nossas próprias “deficiências” no viver e no amar À VIDA E AO(S) OUTRO(S).

Hoje à noite consegui, com intensidade e desejo, ir, novamente, ao cinema. Fui ver os Intocáveis (Les Intouchables), dentro do Festival de Cinema Francês Varilux 2012. E, mais uma vez, pude constatar que o melhor remédio para as minhas dores é a emoção e o humor.

O filme baseia-se na história real de Philippe Pozzo di Borgo, um milionário que ficou tetraplégico após um acidente com um parapente (paraquedas dirigível). Além da imobilidade física ele vivenciou, na vida real, a convivência com suas dores e seus fantasmas afetivo-amorosos. O que para mim é no mínimo tocante, profundamente.

Ao retornar para a minha casa, após e para além de minhas lágrimas diante de um homem tetraplégico e seu amigo negro, tive a confirmação de minha certeza: o filme Colegas é o melhor filme no 40º Festival de Cinema de Gramado. Exultei, precisava escrever uma nova “carta”.

Já pensava nessa premiação como um passo adiante para que o cinema nacional se tornasse, mais uma vez, um promissor e ativo demolidor de preconceitos. O filme que vi hoje sobre a possibilidade de ressignificarmos a Vida diante de uma deficiência também se manifesta no enredo de Colegas.

O sonho compartilhado é a única forma de exercício vivo da liberdade. Quando o personagem Driss,revela seus medos diante do voo de avião ou de um parapente, que para o seu milionário “patrão” Philippe (François Clouzet) fica claro que no mais íntimo de que em todos/todas nós há um grande temor: podemos até morrer, ou ficarmos paralisados, quando damos asas à nossas imaginações.

Assistam com a mesma intensidade afetiva o nosso premiado “Colegas”. Este filme de Marcelo Galvão faz por merecer seus prêmios: Melhor Filme, Melhor Direção de Arte e Prêmio especial do Júri, este último dado ao trio de atores com síndrome de Down Ariel Goldenberg, Breno Viola e Rita Pokk. E que novembro esteja mais perto do que longe...

Dos três só conheço pessoalmente o Breno. E posso lhes assegurar é um grande ator. Um jovem de bem com a vida, principalmente por sua garra. O que já demonstrou, como judoca, no tatame. Sua veemência deve ser a mesma de quando o vi defendendo, como um auto defensor, a necessidade de outro olhar e reconhecimento de pessoas com síndrome de Down.

Naquela ocasião estávamos na cidade de São Paulo, e Breno participava, ativamente, da discussão sobre os mecanismos de monitoramento e implementação nacional da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Lá estava ele ocupando um papel que cada dia mais deverá se encontrar/afirmar: as próprias pessoas com deficiência afirmando sua independência e autonomia.

Difundi hoje uma notícia sobre outro jovem parecido com ele, nessa afirmação. Chama-se Luiz e mora em Fortaleza. Ele também traz essa capacidade de luta e determinação. Como praticante de jui-jutsi e muay-thai, sonha em ser um campeão. E tenho certeza de que ainda terá seu momento de sucesso como os seus outros três “colegas”.

Há muito que dizer sobre as duas emoções intensas que vivi hoje através e com o cinema. A primeira é a minha identificação com os personagens dos INTOCÁVEIS. Senti-me muito próximo da condição de quem sonha com o texto e a música, assim como a relação “epistolar” de Philippe.

Para um ser humano basta essa urgência/necessidade de comunicação, mesmo que através de outras línguas, pessoas ou meios, que vai das letras à música, à imagem e, principalmente, aos afetos e os bons encontros.

O ato de escreve para alguém, de forma dedicada e amorosa é um meio de buscar esses interlocutores, para além de quaisquer de nossas dores ou limitações. A presença das cartas de um tetraplégico para uma mulher como busca do amor é como diz o personagem: começamos no intelectual para chegarmos depois ao físico.

Hoje então estou escrevendo, como já fiz para um jovem com Síndrome de Down na universidade, uma missiva, uma nova carta: uma mensagem aos meus Colegas por sua contribuição à sétima arte. Diz-nos a matéria que Breno Viola pediu para que a plateia de Gramado os aplaudisse de pé. No foram atendidos e veementemente aplaudidos.

O cinema nacional está para mim hoje de parabéns. Devemos aplaudir de pé essa escolha do longa-metragem Colegas. E, confirmando o que já escrevi, espero que este seja apenas um dos passos que os atores premiados realizem em direção a outros e importantes festivais. Lá também, tenho certeza, seu talento, sua sensibilidade artística e suas bem humoradas improvisações ou provocações irão tocar muitas mentes, muitos corações.

O que desejo é que estes jovens possam ser vistos, ouvidos, e, principalmente, compreendidos para além de sua condição de pessoas com Síndrome de Down. Há ainda um forte e ativo preconceito, fundado nas garras do modelo biomédico, de sua imagem e conceituação como “doença”.

Recentemente um “cientista”, Savulescu, académico de Oxford defende a alteração das leis, argumentando que criar crianças eticamente melhores deveria ser encarado como uma "obrigação moral" de pais responsáveis.

Ele, na contramão de uma posição bioética questionadora da Eugenia, afirma que “... que o controle genético de embriões já é permitido para evitar determinadas doenças, nomeadamente o síndrome de Down ou mesmo em relação a genes potencialmente cancerígena, argumentando o que já não está muito longe de criar da engenharia genética...”. Uma engenharia de perfeição aspirada e idealizada, bio e éticamente questionável que já inspirou diferentes épocas e diferentes paradigmas fascistantes da Medicina.

SINDROME DE DOWN NÃO É UMA DOENÇA TRANSMISSÍVEL E SIM UMA CONDIÇÃO GENÉTICA LIGADA A TRISSOMIA DO CROMOSSOMO 21!

Enquanto Philippe Pozzo di Borgo, o real que só aparece no fim do filme, há um Outro que se constrói em nosso imaginário pela brilhante atuação dos atores. E, pelo seu refinado humor, somos levados a rir para não chorar do que se expressa, não como doença, mas como limitação ao nosso corpo. Seja pela cor da pele ou pela fratura de vértebras cervicais.

Assim, mudando de paradigmas, com a reflexão sobre estes filmes, não devemos achar que todos os tetraplégicos são iguais. E nem todas as pessoas com Síndrome de Down. Para cada ser humano, na relação direta com sua condição social e econômica, sua cultura e sua equiparação de oportunidades, as diferenças podem ou não ser graves impedimentos para a vida independente.

Bastaria, hoje que os diretores e roteiristas tivessem invertido os papéis de Driss e de Philippe. As possibilidades de superação ou não de milhares de pessoas com deficiência ainda se encontram na realidade da vida do acompanhante negro. A maioria ainda é, além de marginalizada, muito pobre, sejam ou não pessoas com deficiência.

E o que o Cinema tem a contribuir para as pessoas com deficiência? Para além do sonho que todos os espectadores e espectadoras buscam no seu escurinho há o que se clareia em algumas mentes sobre as subjetividades e as novas alianças necessárias para suportar nossas infindas fragilidades e “defeitos” humanos. É o seu papel instigador e crítico.

Os dois filmes que abordo são exemplos dessa função em nossas telas oníricas quase reais. O que nos aproxima, humanamente, desses Outros que são nossos colegas de vida e viagem, são as nossas próprias solidões. Nossa “salvação” não vem do além, vem do partilhar, do compartilhar e do respeitar, amistosa e amorosamente, esses des-conhecidos.

Só uma boa e intensa viagem pelas estradas. Uma inusitada e inesperada busca comum de alegria, com a inversão do temor de sermos tocados, como o que ocorre com Driss ao ter de cuidar, intensamente, de um corpo sem movimentos. O que é preciso então para que nossas dores comuns sejam, por alguns momentos fugazes de riso e alegria, diminuídas e aplacadas?

Em minha opinião que possamos, primeiramente, retomar as antigas salas de projeção de cinema das mais recônditas cidadezinhas deste país. Cada sala que perde suas poltronas e telas para movimentos religiosos é para mim o reforço de nosso aprisionamento no vazio dos BBB globais e outros recordes televisivos.

E, reconquistando esses Cinemas Paradiso, que suas telas sejam cada dia mais “cinemascopicamente” coloridas com esses tocantes retratos da solidariedade e da amizade conquistada. E se multipliquem novamente para além dos shoppings e dos templos...

Aos meus “Colegas”, já que eu ocupava, como eles, a exceção/diferença dentro da sala de cinema, como único “corpo deficiente visível e notável”, dedico meu texto e minha total reverência. A mesma reverência a estes intocáveis que devem se tornar, por direito e por desejo, o máximo possível, INDEPENDENTES.

E, como Philippe ainda não consegui deixar minha “alma” descansar, preciso de ar e de alguém como alteridade, mesmo seja apenas um leitor ou leitora desse blog...

Não consigo muito menos descansar meu corpo dolorido e quebrantável. Ainda quero reencontrar Brenos, Ritas, Arieis, Luizes e muitos outros e outras, todos e todas já são e serão meus colegas nessa estrada aberta chamada de transitoriedade dos bons encontros.


Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2012/2013 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela INTERNET ou outros meios de comunicação de massa - TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)


FILMES CITADOS:

OS INTOCÁVEIS (Les Intouchables
) – Direção de Éric Toledano e Oliver Nakache, 2011, França.

COLEGAS – Direção de Marcelo Galvão, 2011, BRASIL – Vencedor do 40º Festival de Cinema de Gramado, RS - 2012
https://blogcolegasofilme.com /

Matérias e fontes sobre o texto na Internet:

"Colegas" vence como melhor filme do 40º Festival de Gramado https://cinema.uol.com.br/ultnot/2012/08/18/colegas-vence-como-melhor-filme-do-40-festival-de-gramado-veja-premiados.jhtm

Turma do Luiz (jovem com Síndrome de Down em Fortaleza) https://www.opovo.com.br/app/opovo/esportes/2012/08/18/noticiaesportesjornal,2902009/turma-do-luiz.shtml

Em Gramado, 'Colegas' desdramatiza a Síndrome de Down (e rompe Paradigmas/Estigmas consolidados!) https://www.dgabc.com.br/News/5975068/em-gramado-colegas-desdramatiza-a-sindrome-de-down.aspx

Síndrome de Down ganha visão cômica e livre de tabus em 'Colegas' (Festival de Gramado - SUCESSO merecido) https://cinema.terra.com.br/festival-gramado/noticias/0,,OI6078325-EI20667,00-Sindrome+de+Down+ganha+visao+comica+e+livre+de+tabus+em+Colegas.html

Filme estrelado por atores com síndrome de Down é aclamado em Gramado https://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/cinema/2012-08-14/publico-aclama-colegas-em-gramado.html

Mostra de cinema francês traz diversidade da produção do país https://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,mostra-de-cinema-frances-traz-diversidade-da-producao-do-pais,916507,0.htm

“Os Intocáveis” toca os expectadores em estréia do Festival Variluxhttps://br.artinfo.com/news/story/819442/os-intoc%C3%A1veis-abre-hoje-em-s%C3%A3o-paulo-o-festival-varilux-de-cinema-franc%C3%AAs-que-estar%C3%A1-em-cartaz-em-33-cidades-do-brasil

Engenharia genética de bebés é uma "obrigação moral": https://expresso.sapo.pt/engenharia-genetica-de-bebes-e-uma-obrigacao-moral=f747290#ixzz23yCVDcDW

LEITURA INDICADA:

O Segundo Suspiro - Philippe Pozzo Di Borgo. Editora: Intrínseca, Ano: 2012.

Sexualidade, Cinema e Deficiência – Francisco Assumpção Jr. & Thiago de Almeida (Orgs.) – Livraria Médica Paulista, São Paulo, SP, 2008.

LEIA(M) TAMBÉM NO BLOG:


O VIGÉSSIMO PRIMEIRO DIA - CINEMA E SÍNDROME DE DOWN https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/03/o-vigessimo-primeiro-dia-cinema-e.html

CARTA A UM JOVEM COM SÍNDROME DE DOWN NA UNIVERSIDADE https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/carta-um-jovem-com-sindrome-de-down-na.html

NÃO SOMOS ANORMAIS, SOMOS APENAS CIDA-DOWNS.... https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/03/nao-somos-anormais-somos-apenas-cida.html

SINDROME DE DOWN E REJEIÇÃO: UM CORPO ESTRANHO ENTRE NÓS? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/10/sindrome-de-down-e-rejeicao-um-corpo.html

A PAGAR-SE UMA PESSOA COM SÍNDROME DE DOWN https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/09/pagar-se-uma-pessoa-com-sindrome-de.html

terça-feira, 7 de agosto de 2012

EM BUSCA DE UM CORPO “PERFEITO” PERDIDO, no tempo das Olimpíadas...


Imagem Publicada – A foto colorida da AFP publicada com Oscar Pistorius, um atleta sul-africano que com suas pernas substituindo sua dupla amputação sai na pista em busca de participar das finais da corrida de 400 metros nas Olimpíadas de Londres (2012). Pistorius teve que amputar as duas pernas abaixo do joelho aos 11 meses de idade devido à ausência congênita de fíbula em ambas as pernas e por isso corre com próteses de lâminas de carbono. (Autoria da foto – Olivier Morin) -
PS-  em julho de 2016 ele foi condenado a 06 anos de prisão por matar sua namorada Reeva Steemkamp na África do Sul)

Este texto estava em "fermentação emocional" desde o início das Olimpíadas... Um corpo insone não significa um corpo sem sonhos.

CITIUS, ALTIUS, FORTIUS. Eis o lema olímpico da época de sua primeira realização pelo Barão de Coubertin. O lema representa a retomada, quase renascentista, de um ideal para o corpo humano? Sim, de forma helênica e através do latim procurava-se: sermos cada vez MAIS VELOZES, MAIS ALTOS (ou MAIS LONGE) E MAIS FORTES...

Tenho assistido, após alguns tempos de imobilidade para a árdua e solitária tentativa de escrever, as múltiplas apresentações televisivas de nossos desejos “áureos” do pódio. Queremos, torcemos, vibramos e nos emocionamos na busca do Ouro Olímpico e nos transportamos para o reinado dos estádios e das suas multidões.

Também vivenciamos outras vitórias. Mas essas ficam menos visíveis nos tempos da Sociedade do Espetáculo em HD. Não nos sensibilizamos com outras disputas que não as que tenham alguma bandeira ou hino a ser comemorado. Ufanistas e patrióticos desejamos, e eu também desejo, ver nossos atletas vencendo as disputas por medalhas.

Já fui, embora hoje nem pareça mais, após as “imobilizações e deficiências que adquiri” a que fui submetido, um “atleta”. Há muitos, muitos anos eu corria lá no interior fluminense. Eram meus tempos da ditadura. Eu apenas estudante de medicina, mas também um sonhador com um corpo atlético e veloz. Eu fazia parte de um sonho de ganhar medalhas. Corria numa prova em especial: os 400 metros do atletismo, mas também fazia o heptatlo.

Essa prova é uma das que mais exigem um ideal de superação corporal. É nela também que podemos incluir os ideais, a semelhança da Maratona, de um corpo que suporte a dor, o cansaço, a fadiga muscular e a perda do fôlego vital. Temos como diziam nas corridas que participei de “correr como os cavalos”. Só que nessas provas de superação quase sempre alguém tem de ficar em último lugar.

Nessa Olimpíada de Londres tele assisti a maior demonstração de humildade e reconhecimento. Por coincidência, talvez, ocorreu também na prova dos 400 metros. Nela Oscar Pistorius teve a sua participação e foi o último a chegar. Com suas pernas high tech, substitutas das que consideramos as “normais ou perfeitas”, participou das semifinais dos 400. E devido a elas foi apenas mais um perdedor?

Um acontecimento, logo em seguida, nos respondeu pelos aplausos da multidão: Não, não é um "retardatário". Um ganhador de prêmios, que não é biamputado, lhe pediu gentilmente que lhe desse o número pregado na sua camiseta. Era o corredor de Granada, Kirani James, que fez o maior gesto de reconhecimento a este atleta paralímpico que persiste em correr junto aos que são considerados, como Osain Bolt, os "olímpicos", como os deuses perfeitos das/nas pistas.

Como atletas de um mundo que supervaloriza a nossa corporeidade com perfeição, como modelos para nossa subjetivação, caminhamos em direção ao rompimento de nossos próprios recordes. Tendemos a nos tornar trans-humanos? Não basta que sejamos super?

Somos, como Pistorius, comparados aos androides futuristas de Blade Runner? Este magnífico e intenso filme que nos propõe, através de seu diretor Ridley Scott que possamos, a meu ver, viver uma sincera e preventiva reflexão ética com uma ficção científica. Destruiremos e caçaremos qualquer forma de vida diferente, mataremos como outro Holmes, o James, qualquer um que não seja um Coringa ou Cavaleiro das Trevas?

Seremos, no futuro, mais que ciborgues, apenas “replicantes”? Talvez sim, pois o filme foi considerado, pela Biblioteca do Congresso (USA) como sendo "culturalmente, historicamente ou esteticamente significante" (1993). O detalhe é que os replicantes são criados geneticamente à semelhança integral dos seus caçadores. O detalhe é que são banidos e expulsos do Paraíso futurista. Tornam-se robôs, como a personagem feminina (Rachael) capazes de, tornando-se humanamente sensíveis, nos apaixonar.

Estes robôs orgânicos não são mais o futuro. Eles já existem no aqui e agora. Recente matéria televisiva nos mostrava um comediante japonês sendo “substituído” por uma cópia androide mais que perfeita. O artista que fazia rir agora velho estava completamente renovado no palco.

Esta também é a ideia de novos blade runners? Nas Olimpíadas do Rio teremos novos corpos admiráveis, que nos causam inveja e sensação de superenvelhecimento, nos desafiando ao desejo de um corpo perfeito que foi perdido no tempo? Que dopings, não detectáveis, teremos de usar para que nossos corpos tornem-se passíveis do endeusamento?

O corpo continua sendo nosso maior ego. O corpo também é o herdeiro de uma estigmatização e exclusão quando visto ou apresentado como deficiente. O corpo ainda é nossa maior oficina da moralização e do preconceito. Nestes tempos olímpicos faz-se necessária uma re-visão de sua desapropriação e exaltação.

Uma fonte rica para esta reflexão nos é proporcionada pela leitura de Richard Sennet. Este amigo sincero de Foucault nos provoca com a reflexão sobre o que aprendemos, historicamente, de repressão e de docilização de nossos corpos e vidas nuas. Em seu texto Carne e Pedra, nessa relação de nossos corpos físicos com a pólis, ele nos diz: “As imagens idealizadas do corpo que regem nossa sociedade nos impede concebê-lo fora do Paraíso...”.

Dele, segundo a visão cristianizada e ocidental, embora expulsos do Olimpo ainda poderemos tentar chegar a semideuses, com as nossas formas globalizadas de disputar quem é o melhor, o mais rico, o mais forte, enfim, o mais poderoso.

O ideal Citius, Altius, Fortius não passa, então, a representar quem mais tem recursos para o esporte ou quem tem mais força e poder no atual hipercapitalismo? O que não podemos esquecer que mesmos os mais “subdesenvolvidos” acabam surpreendendo os que se consideram donos cativos do primeiro lugar.

Acabamos de ver que, individualmente, ainda temos muitos desconhecidos que se tornaram, miticamente, nossos próximos heróis. Porém se tomarmos cuidado não lhes exigiremos que se tornem mais-que-perfeitos, obsessiva e paranoicamente os nossos maiores campeões do Futuro.

Vamos encher nossos estádios novamente? Esperamos que sim, mas também vamos ter que reaver todo o nosso investimento de milhares de desconhecidos que levantaram as pedras de nossas novas e faraônicas obras. Os zés-ninguéns que também precisaram vencer algumas competições para entregar a tempo toda a infraestrutura de nossa Copa e nossa Olimpíada.

Estes corpos trabalhadores, outra massa, também preparam e participam dessas reconstruções de Maracanãs espalhados em nossa Terra Brasilis. Uma pátria, um país, uma nação onde muitas outras obras, que enterram muitas corrupções, estão e estarão necessitadas de nossa atenção e reconhecimento. Estes nossos corpos/maioria, desde os egípcios e gregos, compõem os que podem ser considerados escravos, portanto vidas nuas e matáveis. São, foram e serão sempre a base de sustentação e criação das pirâmides...

Há um mito, talvez mais que realidade, que diz que a Ponte Rio-Niterói, construída em tempos de Ditadura militar, tem em suas bases, pilastras e alicerces de cimento muitos corpos operários. Que nome tem essa ponte que não é como a Bioética pensada para o futuro?

Portanto, por mais que me envolva com o meu próprio entorpecimento pelas imagens contagiantes dos olímpicos e das multidões, sabendo que heróis e heroínas são apenas mortais, tenho de aprender, com o meu próprio momento, que a corrida Pela Vida é ainda mais importante do que a que me torna apenas um fugaz rompedor dos seus recordes.

Mesmo assim dou parabéns aos nossos poucos atletas vestidos de amarelo e ouro, seu esforço para vencer a dor, saltando, correndo, ou pendurados nas argolas, me reforça o aprendizado que recusamos a reconhecer esta experiência como inevitável e insuperável.

Nunca ganharemos essa corrida, esse jogo ou essa disputa. A dor faz parte desse prazer de sermos apenas, demasiadamente, humanos. E, eu, você e todos (as) nós continuaremos em busca de um corpo perfeito perdido no tempo.

E vem aí a Paralimpíada de Londres, em 20 de agosto, que perdeu o O das Olimpíadas. A nossa Sociedade dos Espetáculos irá midiatizá-la com a mesma força, velocidade e intensidade? Com certeza Pistorius não estará por lá, mas muitas medalhas de ouro, como em 2008, nos colocarão em outro patamar nessa visão, para além dos Brics, no mundo globalizado.

Paralimpíada é apenas a contração terminológica de “Paraplegia” e “Olimpíada”?

 Se o for tenho certeza de que, esperando estar vivo e ativo, ainda não sei verei outros atletas paralímpicos, do atletismo nacional e internacional, correndo em meu/nosso nome nos 400, ou outras provas difíceis, do Rio 2016, ou seja, apenas como um corpo pleno de intensidades e desejo, e não um corpo mutilado e “deficiente”. Um corpo olímpico... e possivelmente junto a outros não menos ou mais ciborgues.

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2012/2013 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massas - TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)


Notícias na Internet–

Primeiro biamputado nas Olimpíadas, "Blade Runner" Pistorius é eliminado na semi dos 400 m 
https://olimpiadas.uol.com.br/noticias/redacao/2012/08/05/primeiro-biamputado-nas-olimpiadas-blade-runner-pistorius-e-eliminado-na-semi-dos-400-m.htm

Biamputado, Oscar Pistorius realiza sonho olímpico 
http://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/esportes/noticias/biamputado-pistorius-finalmente-realiza-sonho-olimpico-e-estreia-nos-400m

Audiência discutirá supervalorização da medalha de ouro nas Olimpíadas 
https://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/ESPORTES/423469-AUDIENCIA-DISCUTIRA-SUPERVALORIZACAO-DA-MEDALHA-DE-OURO-NAS-OLIMPIADAS.html

Londres 2012: A fábrica de atletas da China https://rederecord.r7.com/londres-2012/noticias/londres-2012-a-fabrica-de-atletas-da-china/

Comediante famoso tem encontro com um androide feito à sua imagem no Japão https://globotv.globo.com/globo-news/pelo-mundo/v/comediante-famoso-tem-encontro-com-um-androide-feito-a-sua-imagem-no-japao/2073483/

Jogos Paralímpicos http://pt.wikipedia.org/wiki/Jogos_Paral%C3%ADmpicos RIO 2016 - https://www.rio2016.org/ (Teremos sua Abertura Solene concomitante às Paralimpíadas?)

Oscar Pistorius é condenado a 06 anos de prisão por matar sua namorada (matéria publicada em agosto de 2016) https://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/07/oscar-pistorius-e-condenado-6-anos-de-prisao-por-matar-ex-namorada.html

LEITURAS INDICADAS -  

 CONTRA A PERFEIÇÃO - Michael J. Sandel - Ed. Civilização Brasileira, RJ.


CARNE E PEDRA – O Corpo e a Cidade na Civilização Ocidental – Richard Sennett, Editora Best Bolso, Rio de Janeiro, RJ, 2008.

Filme citado –BLADE RUNNERhttps://pt.wikipedia.org/wiki/Blade_Runner

LEIA TAMBÉM NESSE BLOG

AS SELEÇÕES: OS ESTÁDIOS, OS PARADIGMAS E UM NOVO GAME 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/06/as-selecoes-os-estadios-os-paradigmas-e.html

ROBÔS, POLÍTICA E DEFICIÊNCIA. 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/07/robos-politica-e-deficiencia.html

MURDERBALL: QUANDO AS CADEIRAS DE RODAS SE CHOCAM... EM NÓS https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/06/murderball-quando-as-cadeirasde-rodas.html

DEMOLINDO PRECONCEITOS, RE-CONHECENDO A INTOLERÂNCIA E A DESINFORMAÇÃO
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/06/demolindo-preconceitos-re-conhecendo.html

sábado, 14 de julho de 2012

ROBÔS, POLÍTICA E DEFICIÊNCIA.

Imagem publicada – uma foto em preto e branco sobre um filme, dos anos 30, sobre a presença e criação de robôs pela ciência. Um cientista se vê cercado pelas criaturas que aparentemente ameaçam ou ameaçarão o seu próprio criador. É a metáfora de Frankenstein que se repetiu em muitos filmes, e hoje é parte de um questionamento bioético sobre os limites de nossas intervenções biotecnológicas e médicas no corpo e na vida dos seres humanos. O que estamos inventando para o nosso futuro: desde robôs nano tecnológicos que tratarão nossos adoecimentos ou adoecidos seres humanos que se tornarão também robôs?

Quando acordei a semana passada de uma anestesia geral, novamente, pensei em quem estava ao meu lado na sala de recuperação. Eram muitos, pois minha pressão arterial caiu, e os meus temores aumentaram o número de leitos ocupados. Somos impelidos a ver múltiplos ou duplos de nós mesmos nas horas de turvamento da consciência Então, semi lúcido, pensei naqueles que nos assistiam e monitorizavam, eram para mim parecidos com robôs...

Por que então o tema dos robôs me foi lembrado? Primeiramente por que eu próprio já me sentira um quando acordei da neurocirurgia no ano de 2009. Não sei se os meus leitores já sabem do que sofri no pós-operatório e da colocação em meu corpo de parafusos e hastes de titânio. Muitos ainda nem sabem das sequelas que adquiri.

Pela dor acrescentada pelo descuido tive uma queda acidental ao ser deixado cair de uma cama para uma maca. Estavam me levando para uma tomografia. E foi um forte homem negro, um “segurança” do hospital que colocou dentro da máquina. Começavam aí minhas ideias sobre a robotização do corpo e da humanidade. Começou minha vivência e experiência de meu duplo com deficiência...

No local onde permaneci dentro de um hospital universitário havia o que já presenciara muitas vezes de outro ponto de vista, também na Saúde Mental: a desumanização do cuidado como Outro. Era o que chamamos de serialização de atitudes e comportamentos. Os profissionais de saúde, assim como outros que lidam com grandes massas ou públicos, podem se tornar autômatos.

Tornam-se ou nos tornamos verdadeiros seres robotizados por um trabalho exaustivo e alienante. Os riscos que deveriam ser um estímulo criativo tornam-se uma ameaça, é o que ouvi de profissionais durante a noite hospitalizada e fria. No quarto ao lado estavam sujeitos amarrados em seus leitos, eram assaltantes perigosos, justificavam os três policiais de colete que passearam noite adentram na porta do meu quarto quase infectado.

Desta lembrança indelével, qual a memória de quem sofre uma tortura, é que restou uma vontade de refletir sobre o que é realmente um robot?

A palavra ROBOT vem do tcheco, que significa trabalho repetitivo, depressa destronou denominações mais antigas como autómatos ou androides, generalizando-se como designação corrente para as “máquinas” capazes de realizar, com algum grau de autonomia, vários tipos de operações.

Na etimologia tcheca oriunda de tempos medievais o termo “robota” significava o trabalho gratuito que um servo devia ao senhor. Ou melhor, era uma das formas de trabalho escravo. A ideia atravessou os anos e ainda temos esse trabalho indigno nas nossas melhores grifes ou roupas, lá os tempos modernos de Chaplin são fielmente reproduzidos. O modelo fordista e serializado obriga aos “neo-robôs” bolivianos, por exemplo, a uma servidão contínua. 

A primeira ideia sobre o termo me foi apresentada pela psicanálise. Em um trabalho de Sigmund Freud em seu trabalho sobre o “estranho, o sinistro, o desconhecido” (Das unheimliche -1919). Este texto é inspirado em outro autor: E. T. Hoffmann, um escritor, músico e desenhista alemão. Foi em seu conto o “Homem de Areia” que inspirou Freud para mais uma teorização a partir da literatura.

Não é a revelação freudiana de que o que nos assusta no desconhecido é também a nossa atração ou desejo de vivenciá-lo, mas como tentamos negar essa relação. É o aspecto de estranheza que algumas formas de “duplos” ou espelhamentos nossos despertam. É o que me faz pensar sobre nossas robotizações em ação, são as máquinas humanoides que me interessam. Vivenciamos muitas angústias diante das máquinas e as recalcamos.

Estamos cada dia mais próximos do que na ficção dizemos temer: um dia o exterminador do futuro estará se liquefazendo, como um homem de areia, na nossa frente. A história que se construiu sobre nossas futuras situações diante das tecnologias e dos robôs é de uma guerra em que perdemos tudo. Inclusive nossa própria capacidade de sermos humanos.

O que já vivencie no corpo e na mente através das minhas próprias fragilizações me mostra o quanto uma deficiência pode ser tratada como uma aproximação de máquinas. O modelo biomédico ainda ativo nas formas de cuidado é a intervenção mais presente, com apenas técnicas ou biotecnologias. Muitas vezes desumanizadas. É o que esperamos de nosso futuro ciborgue? Ou o que esperamos dos ciborgues do futuro?

A revista Info recentemente estampou em sua capa a seguinte chamada: “Superação Ciborgue”, com o subtítulo: “engenheiros e médicos unem-se para criar próteses controladas por chip, sensores e software. Elas substituem pernas, mãos, pés, joelhos e até ouvidos. Entendam como funcionam”.

A capa me suscitou algumas questões. Ela apresenta um homem com os mesmos pés Cheetah. São as pernas de titânio substitutas do atleta parolímpico Alan Fonteneles, parecidas com as próteses de Pistorius. Aquele atleta que quer ser “incluído” nas Olimpíadas dos “normais”, mas se sentou no banco dos réus como eles.

Uma de minhas indagações é quantos são os sujeitos que têm acesso a estas pernas substitutas? Ainda mais o quanto há de aperfeiçoamento destas próteses apenas com a intenção de futuras robotizações checas no hipercapitalismo? Olhamos com temor estes novos ciborgues com deficiência? É o desconhecido futuro que nos espera/assusta?

Sou e serei um entusiasta das novas tecnologias aplicadas como assistivas ou suplementares para pessoas com deficiência. Há, porém esta questão que chamarei de biopolítica da transformação de nossos corpos “hipossuficientes” em corpos plenamente controláveis para a produção serializada de um trabalho alienado.

Há muitos anos venho difundindo e estimulando os avanços que podem ser conquistados com o uso de novas formas de inclusão com uso de tecnologias de reabilitação ou habilitação. Aposto, porém, no futuro da universalização de acesso socializado e não segregado às novas tecnologias.

O que temos de alertar, para além das possibilidades de um homem como Neil Harbinsson, é a quantidade de sujeitos sem nenhum acesso ao que podem estes “aparelhos”, “neo esqueletos”, “próteses eletro-eletrônicas”, enfim, quaisquer das mais avançadas formas de nos tornar mais biônicos. O cinema já naturaliza os “transformers” como a massa do futuro.

Somos hoje uma massa de mais de 600 milhões de pessoas com deficiência. Há uma margem de aproximadamente 20 a 30% destes seres humanos que ainda estão nas chamadas exclusões sociais e pobreza. Calculem quantos anos ou séculos levaremos para sua real inclusão desses não-cidadãos e cidadãs na perspectiva futurista do game Deus Ex: Human revolution, citada na Info?

No Brasil já temos alguns destes avanços, como os implantes cocleares, sendo incluídos no direito universal da saúde e da qualidade de vida. Porém ainda temos também na sua contramão, apesar dos milhões do Viver sem limites, bem como dos investimentos em tecnologias assistivas, uma grande massa de excluídos, micro e macro politicamente, do usufruto destes avanços.

Recentemente visitei um site que demonstra o uso do Kinect, um videogame sem nenhum controle, onde nossos movimentos é que são projetados/controlados, como forma de ajuda tecnológica para pessoas dentro do espectro do Autismo. Mas a pesquisa da Universidade de Minessota se diz servir para “... alertar para que haja uma maior atenção com aquelas (crianças) que mostrarem comportamentos não esperados, como tendência para ser ativo demais ou de menos”.

Nessa área de controlar e identificar as diferenças, sem, contudo, qualificar suas singularidades, é que temo pela promoção de seu uso meramente classificatório e reabilitador. Para além dessa perspectiva devemos buscar a criação de novas cartografias e novos usos micropolíticos dessas “invenções ou descobertas científicas”.

Nessa perspectiva é que entramos em um ano muito importante. Estamos perto de ver paraolímpicos quebrando os mesmos recordes que os ditos olímpicos. Estamos tele ou assistindo e conhecendo o crescimento do número de candidatos com deficiência para cargos representativos em governos municipais ou câmara de vereadores. Aumentaremos a participação política de pessoas com deficiência nos espaços de governo e gestão pública?

Creio e espero que sim. Porém, ainda temos de promover uma ampla conscientização e capacitação sobre os mais elementares direitos e conquistas a que cada cidadão ou cidadã com deficiência têm direito. 

As formas de exercício macro político, apesar do crescimento da presença de pessoas com deficiência em seus espaços de poder, mantêm-se presas à corrupção e ao uso desonesto de recursos públicos. 

Ainda temos muitos representantes robotizados e desumanizados, verdadeiros portadores, estes sim, de muitas “deficiências” ético-políticas. Já naturalizaram a centralização e o abuso do poder. E, sua maioria, atendendo a interesses pessoais, eleitorais ou minoritários, ainda insiste em criar novos artifícios legais antes mesmo de reconhecer o que já foi ratificado e decretado.

Um exemplo é ausência de reais políticas públicas Inter setoriais que estejam garantindo, para além do acesso gratuito a alguns, a verdadeira acessibilidade dos estádios da Copa. E a transparência dos gastos astronômicos desde a demolição às novas arquiteturas que ainda não conhecem o conceito de desenho universal. Eis uma tarefa árdua para os candidatos a participação nesse cenário político...

O que espero, então, de novos e postulantes, como sujeitos com deficiência, à sua participação nos poderes públicos? Espero que possam reforçar a compreensão da indispensável mudança do paradigma biomédico, já que nele considerei um campo fértil para a simples robotização. E que possam, ativamente, propagar e efetivar o que se postula como o modelo social das deficiências.

Ao se manter a visão assistencialista, paternalista, caritativa, excludente e adoecida de sujeitos vivendo e convivendo com deficiências estamos também mantendo um olhar biopolítico de controle e uso de seus corpos. Precisamos buscar o olhar, a visão e a escuta sensível dos Estudos sobre as Deficiências. Precisamos investir na conscientização e apropriação da Convenção e os direitos humanos. Precisamos de políticas públicas que se fundamentem nesses princípios.

Uma plataforma que espero se incluirá nos discursos e nas propostas concretas de quem se investir nos lugares de representação macro política é o exercício micropolítico e revolucionário da re-humanização de espaços de saúde e educação.

O projeto e processo inclusivo, a meu ver, devem alicerçar ações e cuidados, para além do olhar reabilitador, que tornem nossos corpos para além do trans-humano ou robótico. A visão de servidão que está subjacente/significante à nossa protetização hipermoderna, apesar do que se propagandeia oficialmente, é a que equipara não apenas a funcionalidade de um corpo.

É principalmente quando não esperamos, onipotentemente, a sua transformação em um objeto-robô. Primeiramente porque já sabemos, de antemão, que muitos ficaram e ficarão fora do alcance destas conquistas micro, macro ou nano tecnológicas. Como dizia um velho conhecido: quem bancará seu custo? Além disso, podemos apenas atender às pessoas que puderem ter acesso aos recursos ou avanços da sociedade. Ou seja, quem pode pagar.

Um exemplo atual é a notícia de uma companhia de aviação que terá seus banheiros com acessibilidade. Espero que a mesma se recorde das suas inúmeras ações de preconceito com os passageiros considerados prioridade nos aeroportos. Não basta poder fazer xixi sentado com barras de apoio. Precisamos de todos os direitos de acessibilidade, para além das barreiras visíveis, sendo cumpridos e respeitados.

Nem mesmo bastará que a acessibilidade dos aeroportos se torne, por causa dos eventos esportivos futuros, uma realidade parcial. Os espaços de voos ou pouso não são os únicos que garantem a inclusão social e econômica sustentável que irá para mais de 20 anos. 

Estes espaços não podem se tornar os não-lugares. Se como as escolas, se tornarem realmente inclusivos e universais nem teremos então de dialogar com um ponto eletrônico da Anac, do PROCON ou da Infraero no futuro. Ainda existirão, nesse porvir, “trabalhadores” re-humanizados. As formas metálicas ou frias de resposta já terão sido sofisticadas por novos andróides.

Por isso não podemos esquecer que o que alguns homens imaginam outros poderão realizar no futuro. A primeira citação a robôs é de 1920. Faz parte da peça de Karel Kapek: R.U.R (“Rossuns Universal Robots”). Surgida como desencanto após a 1ª Guerra Mundial como um alerta para a humanidade, antevisão de uma guerra com “soldados universais”, metade homem, metade máquina mortífera.

Primeiramente são criadas cópias fiéis de nós humanos. Tornados trabalhadores eficientes, apesar de “deficientes”, tornar-se-ão os futuros robots. Tornam-se, então, capazes de amar o BBB, esquecendo-se de 1984 de Orwell, ou se serializam em um Admirável Mundo Novo, esquecendo que Aldous Huxley bebeu de sua própria literatura, o “soma”, a bebida que surge de cogumelos, para entrar em contato, sem dor ou sofrimento, com seu/nosso lado sinistro: a morte.

Vivemos intensamente os tempos do Hipercapitalismo integrado e excludente, na Idade Mídia. Engolfamo-nos, serializados, em dilemas bioéticos como as clonagens terapêuticas e reprodutivas, as próteses, os implantes, as cirurgias plásticas de total reconstrução e remodelação corporal, com suas diferentes formas de artifícios, lipoaspirações, fertilizações invitro, barrigas de aluguel, cirurgias bariátricas.

Hoje, ontem e amanhã vamos até o limite ético e eugênico das descobertas de meios de “prevenção” de uma Síndrome de Down por exames ultrassofisticados. Tendo a certeza de que todos são e serão muito caros e eticamente questionáveis.

Eu, aqui, sorvendo e sofredor dessas literaturas bioéticas, espero, sonhador de outras utopias, um pouco de humanidade nos autômatos e subjetividades que estamos produzindo, para além de quaisquer de suas deficiências humanas, no campo do exercício dos poderes.

Excelências ou futuras excelências me digam que estou errado. Vocês por nenhum dinheiro do mundo irão esquecer as pontes para o futuro que desejou o criador da Bioética. Como humanos potencializados pelas novas tecnologias nunca irão permitir a edulcoração, o adoçamento, ou a negação de nossos direitos fundamentais.

Não estamos ainda para além das Sírias, dos Sertões, das catástrofes ou massacres. Caminhamos na incerteza, dialogamos permanentemente com a Dona Morte, esquecendo que a atual e moderna felicidade de consumo é apenas dependente dos fatores e poderes políticos.

Quem sabe os próximos tempos nos tragam novas formas de governamentabilidade e sustentabilidade. E, eu, afirmativamente, só votarei em quem souber me dizer com propriedade e crítica o que significam as palavras robô, política e deficiência.


Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2012-2013- 2022 ad infinitum - todos os direitos reservados 2025 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)


Notícias na INTERNET:

R.U.R. https://en.wikipedia.org/wiki/R.U.R.


TAM será a primeira no mundo a ter banheiros com acessibilidade em aeronaves narrow body https://www.revistafator.com.br/ver_noticia.php?not=209856

Revista INFO – Nº 316= Maio de 2012: Superação Ciborgue
https://www.lojaabril.com.br/detalhes/revista-info_superacao-ciborgue_edicao-316_maioe2012-486368
KINECT AJUDA A DIAGNOSTICAR E A TRATAR AUTISMO https://robotica-autismo.com/

Primeiras imagens de robôs de Robocop, que será dirigido por José Padilha, caem na rede https://colunas.revistaepoca.globo.com/brunoastuto/2012/07/13/primeiras-imagens-de-robos-de-robocop-que-sera-dirigido-por-jose-padilha-caem-na-rede/

Google pode usar mini-robôs voadores para capturar imagens (1984 – Orwell tinha a antevisão?*) https://googlediscovery.com/2010/08/07/google-pode-usar-mini-robos-voadores-para-capturar-imagens/

7 assustadoras tecnologias de “1984, George Orwell” que existem nos dias de hoje! https://literatortura.com/2012/07/03/7-assustadoras-tecnologias-de-1984-george-orwell-que-existem-nos-dias-de-hoje/

POLÍTICA NACIONAL DE HUMANIZAÇÃO no SUS 

O que é Humanização? https://hitechnologies.com.br/humanizacao/o-que-e-humanizacao/

Um pequeno questionamento – Chain Samuel Katz
https://www.freudiana.com.br/documentos/chaimabf.pdf

Novo exame para detectar síndrome de Down gera discussões éticas https://www.dw.de/dw/article/0,,16091026,00.html

Indicações para Leitura:
Das Unheimliche, Sigmund Freud 1919h, em Gesammelte Werke, vol. XII. Trad. Brasileira,Standard Edição Brasileira, trad. Imago, vol. XVII, Rio de Janeiro, RJ.

Contos Sinistros – E. T. A. Hoffmann – Editora Max Limonad, São Paulo, SP, 1987.

O que é deficiência – Debora Diniz, Editora Brasiliense, São Paulo, SP, 2007.

Sobre a felicidade – Ansiedade e consumo na era do Hipercapitalismo – Renata Salicecl, Editora Alameda, São Paulo, SP, 2005.

LEIA TAMBÉM NO BLOG

EU, VOCÊ, NÓS E O CÂNCERhttps://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/07/eu-voce-nos-e-o-cancer.html

SEREMOS, NO FUTURO, CIBORGUES? Para além de nossas deficiências humanas https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/seremos-no-futuro-ciborgues-para-alem.html

A PARÁBOLA DA ROSA AZUL https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/05/parabola-da-rosa-azul.html

QUEM SÃO ELAS? O ABORTAMENTO ´POLÍTICO' DO ABORTO https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/10/quem-sao-elas-o-abortamento-politico-do.html

AS SELEÇÕES: OS ESTÁDIOS, OS PARADIGMAS E UM NOVO GAME https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/06/as-selecoes-os-estadios-os-paradigmas-e.html

terça-feira, 3 de julho de 2012

EU, VOCÊ, NÓS E O CÂNCER.


Imagem publicada – a foto em preto e branco de uma silhueta humana que se vira para uma rampa de onde vem uma luz que a ilumina. Há um banco vazio, semi obscurecido no lado esquerdo. O mesmo que encontramos muitas vezes em parques ou diante de mares onde os seres humanos podem vivenciar a experiência de solidão e isolamento. É este o espaço no qual num devemos nem nos confinar e nem sermos confinados ou aprisionados. É no encontro com o Outro para além da rampa e da luz, no meio da cidade ou do campo ou das matas, que devemos procurar as respostas para os nossos mais íntimos medos e temores.

Assim falou um ancião: “Aceite as ansiedades e dificuldades desta vida”. Não espere que sua prática seja livre de obstáculos. Sem eles, a mente que busca iluminação pode se queimar. Assim falou um ancião: ‘Alcance a liberdade nas perturbações”. Mestre Zen Kyong Ho (1849-1912)

Ainda mantemos, inclusive pela midiatização e pela Sociedade do Espetáculo, uma visão estigmatizante de uma palavra que a todos pode incomodar: o câncer. Há um estigma que permanece no ar e que as biotecnologias, talvez por seus próprios avanços e retrocessos, aprisionam com temores algumas mentes e corações.

Toda vez que ouvimos a palavra câncer ainda temos um suspense, uma dúvida, e com certeza um temor. Imaginemos que ao realizar um exame, seja uma radiografia, tomografia ou uma ultrassonografia, ouçamos ou se leia a indicação de um “tumor”, ou nome biomédico de neoplasia.

Há sempre um mal-estar, um sentimento de perda antecipada que, lamentavelmente, ainda associamos às palavras ligadas a um câncer. Temos aí incrustadas algumas metáforas, algumas formas de significação e, com certeza, significantes que impregnaram e ainda impregnam nossos inconscientes.

O que devemos tentar, então, reaprender quando um diagnóstico ou sua suspeita nos levar à palavra que traz um “caranguejo” subjacente? Ultimamente, graças à sua intensiva midiatização, pudemos ver desde atores famosos, presidentes e presidentas, todos diagnosticados com câncer, vivenciando o que mais anima os que o temem: a “cura”.

Assim como algumas doenças raras, que já estão sendo progressivamente investigadas e tratadas com células tronco, há um investimento, de longa duração, da medicina oncológica que mudou radicalmente os prognósticos e o futuro dos que vivenciam esta enfermidade.

Porém para além dos avanços farmacológicos, cirúrgicos ou biotecnológicos, há um campo que precisamos abordar e investigar. Há 32 anos, quando ainda trabalhava em um Hospital Geral, pude refletir sobre o tema na prática: a questão das emoções que são vivenciadas por quem vive ou sobrevive com um câncer.

Na época já me indagava sobre a relação que eu, você e nós racionalizamos ou hiperdimensionamos com o câncer. Conheci seres humanos intensos e sofridos, que passavam pelo diagnóstico de mielomas, leucemias, tumores do rim em crianças ou câncer de mama, e em todos os casos sempre procurava analisar a relação entre o câncer e nossas pulsões tanáticas.

Muitas vezes interroguei a presença de emoções, que chamo de tanotofílicas, ou seja, alguns desses “pacientes temiam mas não deixavam de abraçar a Dona Morte”. Medos ou até pulsões recônditas, daí tanáticas, ou pensamentos ou emoções autodestrutivas, oriundas de Thanatos, que Freud considerava a pulsão opositora/complementar da outra: Eros, que podemos chamar de Pulsão de/pela Vida.

Na queda de braço entre essas pulsões, vi e acompanhei ainda médico residente, a vitória da Dona Morte que arrastava algumas pessoas mais depressa para seus óbitos. Era como se abraçassem a Dona Morte como solução para esta vivência do corpo com uma anomalia cancerosa. Por isso mesmo já aplicava a necessidade de outro cuidado com estas pessoas: o suporte afetivo e psicológico.

Diante da transitoriedade do viver e da inevitabilidade do morrer precisamos aprender com o Outro a superação de nossas limitações humanas. Temos como mitos ancestrais gregos vários Prometeus, Sísifos e Perséfones. Estaremos sempre com a “espada de Damôcles”, aquela presa apenas por um fio, eternamente sobre nossas cabeças.

O grande compromisso bioético então é que possamos nem cair numa negação de nossa finitude assim como seu inverso. Há um desejo perene no homem de vencer a Dona Morte. Sonhamos há séculos com a imortalidade e a juventude eterna. Mas o ancião zen nos lembra que nem imortais evitaremos as perturbações, pelo contrário é nelas que vislumbramos nossa liberdade.

O que a medicina moderna precisa é não cair na glamourização de um modelo House. Não podemos glorificar o utilitarismo ou o paternalismo. Não podemos negar as mudanças de paradigmas, e sim deseja-las com todo coração e intensidade. No campo da oncologia e das doenças terminais temos de aprender a promoção da dignidade, tanto para viver quanto para o morrer.

Eu, você, nós e os outros temos de desatar nossos mais íntimos ‘’nós górdios’’, aqueles que só se desfazem pela ação violenta de uma espada. É quando temos de extirpar de nós primeiro o medo, depois aquilo que transformarmos em sombra da Dona Morte.

Eu, aqui temeroso como vocês terei de enfrentar novamente um ato cirúrgico. Precisarei agora de mais forças e determinação do que antes. As experiências que guardamos podem ser traumáticas. Eu, aqui apenas humano, já me deixaram com algumas...

Há alguns medos que se relacionam com a minha própria morte: primeiramente a ideia e a sensação física ou psíquica de um sofrimento, ligado ao medo de morrer/sofrer. Há ainda as ideias de castigo e de rejeição que muitos apresentam, hoje reforçadas pelos movimentos religiosos.

E subjacente a todos os medos, vivenciamos o medo universal, pós Hiroxima e Nagasaki, que é o aniquilamento e a extinção, alimentados pelas nossas agressões e descasos persistentes, com a negação de nossa relação ecosófica com a água, o ar, a terra e todos seus elementos. É o que poderíamos chamar de um medo cósmico com nosso próprio corpo-extensão chamado Planeta Terra.

Mas entre todos os medos, até os próprios médicos como eu devem vivenciar. Há um que nunca podemos negar. É o medo da morte dos OUTROS. Tememos profundamente, ao tempo que muitos a desejam, a solidão humana. É aquele explorado pelos filmes apocalípiticos a moda de pós-destruição nuclear, e o nosso dia seguinte como únicos sobreviventes na face da Terra.

Daí decorre o que chamo de vulnerabilidade e o processo a que estamos permanentemente submetidos pelas nossas vulnerações. Em especial pelo que chamamos de Estado. O mesmo que promove, com as guerras, torturas e a negação dos direitos humanos, a exclusão, o encarceramento, a injustiça ou a marginalização que podem degradar e retirar toda dignidade de um ser humano. É, quando viramos, como diz Agamben, matáveis e VIDAS NUAS. Daí nasce os Estados de Exceção. Temos medo de nos tornar sobreviventes e sós.

Por haver uma humanidade em minha condição de ser é que digo o quanto é importante uma atenção aos nossos afectos. O mundo das emoções e de nossa mente interage diretamente com os muitos adoecimentos do nosso frágil corpo.

É nesse espaço que estou agora aprendendo um pouco mais, agora que entro amanhã, mais uma vez em um centro cirúrgico. E, humano demasiadamente humano, lhes digo: eu tenho medo da Dona Morte.

Porém também lhes digo é com ela que aprendemos a mais importante das artes: re-existir e criar novas cartografias, novos sentidos, novas experiências e invenções para uma vida com intensidade e bons encontros.

Então, faço agora apenas um brinde ao medo, mas sei que esta escrita é que me retira do que pode impedir os voos de minha mente, e esta é a melhor forma de lidar com os temores relacionados com aquela a quem escrevo mais uma cartinha: a Dona Morte, dizendo-lhe que ela pode pensar que é, mais ainda não é a minha dona
.
Ainda vou, vamos, ou tentaremos alcançar a liberdade no meio das tormentas ou perturbações...pois cada momento é um novo momento.


Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2012-2013 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Leitura recomendada:
Introdução ao Zen-Budismo – Daisetz Teitaro Susuki – Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 1973.
Psicologia da Morte – Robert Kastenbaum &Ruth Aisenberg, Editora da Usp, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, 1983.

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