quarta-feira, 23 de maio de 2012

RACISMO, HOMOFOBIA, LOUCURA E NEGAÇÃO DAS DIFERENÇAS:as flores de Maio

Imagem publicada – uma foto colorida da chamada Flor de Maio, que recebe o nome deste mês, mas que como as micropolíticas e subterrâneas revoluções moleculares, de intensa cor vermelha, só florescem em datas posteriores. Também conhecida como Cacto do Natal, Cacto da Pascoa, Flor de Seda ou Schlumbergera truncata, essa suculenta brasileira se caracteriza por ser uma epífita da família dos cactos (porém sem espinhos) que apresenta lindas flores que aparecem próximo à época de virada de ano.

Preencher uma página em branco. Superar as nossas mais profundas fragilidades e depressões, às vezes, só se consegue vendo alguma beleza que nos resta do que chamamos Natureza...

O mês de maio é pleno de comemorações e manifestações. Foi-se o tempo em se que comemoravam apenas os noivos e os casamentos. É agora a mudança de conceitos e a derrubada de preconceitos que se afirma na contemporaneidade. Assim como florescem, por nossos estímulos, a conquista de novos direitos, que nos animam para a vida.

Outro dia, nesse mês, a Câmara Federal realizou-se IX Seminário LGBT no Congresso. Há alguns dias atrás, mesmo ofuscados pelo Dia das Mães, foi lembrado que ainda temos os Racismos entranhados nos mais baixos ventres da sociedade. Era o dia 13 de maio, que não deve ser historicamente mantido como a real libertação de nossos escravos negros em 1888.

Amanhãs sempre multicoloridos ajudaram nas marchas contra a Homofobia. Contrariando e criminalizando o ódio homofóbico, Maio traz também o Dia Nacional de Combate à Homofobia. Há então a possibilidade de outro olhar sobre as plurais manifestações e escolhas afetivo-erótico-sexuais. Retomaremos então os caminhos de Freud, aceitando a multiplicidade a ser vivenciada quando rompemos os tabus sobre as sexualidades.

E quando começamos a ver outras flores, no alvorecer do dia 18 de maio, temos de encarar outro preconceito arraigado, bem nutrido e histórico. Temos de comemorar e ativar o Dia Nacional de Luta Antimanicomial, para além do mês de maio.

Há, como na difusão dos outdoors, em campanha de conscientização, uma pergunta a responder. Na construção de novos dispositivos em Saúde Mental, que nossos cuidados e tecnologias reproduzem, é preciso indagar: que armadilhas e novos modos de sofrimento estão sendo produzidos?

O lema antimanicomial deste ano foi: "SUStentar a diferença, saúde não se vende, gente não se prende". Mas estamos mandando “flores de maio”, decaídas ou decadentes, para as internações compulsórias ou não?

No Brasil de novos programas carinhosos e assistencialistas, por que veredas tortuosas estão sendo mantidos os loucos, os homoeróticos, os meninos e meninas em situação de rua, os negros e todos os que possam ser submetidos às mais sutis violências, desde as simbólicas às mais visíveis e institucionalizadas? 

A atual parceria Governos e práticas de higienização social, com suporte até de evangelizadores, denunciam um possível retrocesso pela normatização ou pela produção/serialização de Vidas Nuas. O crack e seus marginais que o digam.

Então, o que transversalizamos em todos estes eventos? Quando é que a encruzilhada dos direitos faz com que se encontrem no mesmo cenário político os que passam pelo racismo, pelas homofobias, pelas pedofilias, e a retomada do desejo manicomial nas ações contra os que vivem transtornos mentais ou dependências químicas?

A maioria se parece com as flores de Maio. Não são dotadas de espinhos, porém pertencem a uma família de cactos. E acabam germinando em lugares que precisam de muita luz, mas se beneficiam de algumas sombras. Elas são epífitas, ou seja, crescem sobre outras plantas sem, contudo, parasitá-las. Na visão reducionista se tornam “diferentes” pelo cuidado que exigem. E na sua diferença tornam-se, apesar de belas e diversas, “exóticas”...

Assim também homens, mulheres, crianças ou idosos vivenciam ainda estas duras experiências de segregação, discriminação, marginalização, bullying, preconceito e violências? Basta que se afirmem na condição humana de uma diferença. Basta que floresçam fora de época e em lugares não permitidos?

Seja um negro, uma pessoa homossexual, ou então um “viciado” e sua drogadição ou alguém com uma deficiência psicossocial, independentemente de seu gênero ou faixa etária, todos tem de enfrentar, nas suas diversidades e pluralidades, as duras penalizações que os conservadorismos lhes impõem.

Mas o que é uma diferença? Um dos mais emocionantes exemplos que assisti recentemente me trouxe um exemplo de vivência na pele da diferença. Era o encontro de um grande homem negro, Magic Johnson, com uma pequena menina negra que estava em uma escola onde vivenciava os mesmos sentimentos que o famoso atleta.

Ambos eram e são pessoas convivendo com o vírus HIV. Ela fala com lágrimas como era tratada, lá nos anos 90, como um ser contaminado e contaminante. E que todos se afastavam dela na escola.

Nesse mesmo documentário de Nelson George, The Annoucement, sobre o “anúncio” público de Magic sobre a sua condição de pessoa com HIV, o rei do basquetebol nos toca na direção do enfrentamento de muitos dos preconceitos que atingem todos os que se diferenciam ou são diferenciados socialmente.

Até suas gotas de suor foram motivo de seu afastamento das quadras, muito embora sua resiliência o tenha feito retornar e receber os abraços dos que temiam seu contágio. Chegaram a fazer um minuto de silêncio nos jogos como se Magic tivesse morrido com o simples anúncio de seu vírus. Era o olhar de estigma que a AIDS produzia, e ainda produz, como metáfora da morte e da Peste.

Portanto em plena Idade Mídia ainda temos muito a plantar, semear e diferenciar com todas as “flores de maio”, simbólicas e plurais. Há um possível espaço de ação micropolítica que se estabelece com as nossas marchas públicas, nossas petições e nossas presenças e ações no cenário macro político brasileiro.

Em tempos de Comissão da Verdade, no seu papel instituído, caberá lembrar que nossas ações ainda estão distantes do movimento das Madres de Maio. Seriam elas flores que deveríamos aprender a respeitar/reinventar ao invés de chamá-las de ‘’loucas’’?

E como resposta a indagação temos de afirmar que surgem nos horizontes, para os que sonham com outro tipo de mundo e ambiente, para além da Rio +20, um modo ecosófico e bioético de viver. É A AFIRMAÇÃO DA DIFERENÇA. É O COMBATE EM NÓS DAS NEGAÇÕES DE NOSSAS DIFERENÇAS. NÃO SOMOS “ALMAS” HOMO- GÊMEAS, NEM MESMO NO AMOR OU NO SEXO, em todas as formas e multiplicidades do amar...

É o mês das flores de maio que só mostraram seu espetáculo e beleza tempos depois. Mas é a hora de combater A AMBIGUIDADE DE PRODUÇÃO DE UM DISCURSO BINARIZANTE, sem franjas ou entremeios, sem liberdade para as múltiplas peles que podemos habitar. 
A binarização é dicotomia, ou somos homens ou somos mulheres, ou somos "racialmente" brancos ou negros, ou somos loucos ou somos "normais". NÃO PODEMOS SER UMA METAMORFOSE AMBULANTE OU UMA DIFERENÇA GRITANTE?

Como a nossa visão ainda é atravessada pelos olhares e os rostos de nossos ancestrais, ainda olharemos o Outro como uma diferença a ser tolerada ou eliminada. Os novos campos de exceção, os novos Auschwitz-Birkenau, são construídos na mesma ideia de uso dos corpos em serialização, ou para o extermínio ou para a expropriação.

Por isso temos de estar atentos ao que nos dizem Guattari e Deleuze: “Do ponto de vista do racismo não existe exterior, não existem pessoas de fora. Só existem pessoas que deveriam ser como nós, cujo crime é o não serem...”. E aí situo a necessária transversalização dos preconceitos a combater para além do mês e das flores de maio. 

QUANDO APRENDEREMOS A APRENDER SOBRE A ALTERIDADE, quando aprenderemos a respeitar seus direitos fundamentais sem ter que tolerá-los em determinados lugares, em determinadas paredes, em determinados guetos ou muros, reinstituindo, continuamente, as mais pérfidas formas de exclusão da Sociedade de Controle?

Ah, não somos homens e nem mulheres, somos então o quê?

Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2010-2013 ad infinitum . (Favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa - TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025)

Notícias relativas ao texto na Internet-

Três mil participam de desfile pela Luta Antimanicomial em BH, diz PM
https://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/2012/05/tres-mil-participam-de-desfile-pela-luta-antimanicomial-em-bh-diz-pm.html

“Não vejo distinção entre manicômio e tortura”, diz deputado Adriano Diogo
https://www.spressosp.com.br/2012/05/nao-vejo-distincao-entre-manicomio-e-tortura-diz-deputado-adriano-diogo/

Luta antimanicomial: conquistas e desafios http://www.inclusive.org.br/?p=22516

Dia Nacional de Combate à Homofobia, 17 de maio. Deputado Jean Wyllys (PSOL) https://www.liderancapsol.org.br/component/content/article/6-pronunciamentos/1997-dia-nacional-de-combate-a-homofobia-17-de-maio-dep-jean-wyllys.html?349dca8a83294b3c55eb74a2686523b3=dcbc07ffcc5b9510360b9bf48c46eea7

Dia Nacional de Combate à Homofobia e Comitê de Cultura LGBT
https://www.cultura.gov.br/culturaviva/dia-nacional-de-combate-a-homofobia-e-comite-de-cultura-lgbt/

Após dez anos em vigor, plano nacional contra pedofilia ainda é ineficiente https://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2012/05/18/interna_nacional,295006/apos-dez-anos-em-vigor-plano-nacional-contra-pedofilia-ainda-e-ineficiente.shtml

The Announcement – trailer – sem legendas – em inglês – foi exibido na ESPN BRASIL https://www.youtube.com/watch?v=S209KvH_LFg
https://www.youtube.com/watch?v=ybwYvzBNjKI

Auschwitz-Birkenau https://pt.wikipedia.org/wiki/Auschwitz-Birkenau

Indicação de leitura –

MIL PLATÔS – Vol. 3 - CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA – Felix Guattari e Gilles Deleuze – Editora 34, Rio de Janeiro, RJ,2000.

Versão do GOOGLEBOOKS
 https://books.google.com.br/books/about/MIL_PLATOS_V_3.html?hl=pt-BR&id=qwh2TCerr6MC
https://books.google.com.br/books?id=qwh2TCerr6MC&pg=PA44&lpg=PA44&dq=GUattari+e+binariza%C3%A7%C3%A3o&source=bl&ots=qfvhkr_N1B&sig=fwBKLw968eRurPq_lZ2eT6Kx_WU&hl=pt-BR&sa=X&ei=J1e8T_anO8GugQefv5WuDw&ved=0CFAQ6AEwAg#v=onepage&q&f=false

Leia também no Blog
–

OS NOVOS MALDITOS E AS NOVAS SEGREGAÇÕES: da Lepra ao Crack https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/os-novos-malditos-e-as-novas.html

SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS COMO DESAFIO ÉTICO PARA A CIDADANIA https://infoativodefnet.blogspot.com/2010/06/saude-mental-e-direitos-humanos-como.html

ALÉM DOS MANICÔMIOS - 18 de maio/ Dia Nacional de Luta Antimanicomial https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/alem-dos-manicomios-18-de-maio-dia.html

A DIFERENÇA NOSSA DE CADA DIA, SEMEANDO A IGUALDADE DE DIREITOS https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/09/diferenca-nossa-de-cada-dia-semeando.html

ONDE NASCEM E MORREM OS DIREITOS HUMANOS? 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/11/onde-nascem-e-morrem-os-direitos.html

sexta-feira, 11 de maio de 2012

MÃES, ALZHEIMER E MÚSICA.


Imagem publicada – a imagem de um homem, negro, norte-americano, de nome Henry, que faz parte de um documentário sobre Alzheimer e a Música, narrado por Oliver Sacks. Este homem me fez lembrar com emoção do que aprendi sobre a força da música em nossos corações e mentes. No vídeo trailer do documentário Alive Inside, após ouvir uma música de seu passado, Henry sai de sua apatia e posição deprimida para um renascimento (Veja link abaixo do texto). Era esse renascer do brilho nos olhos como um passe de mágica que desejei um dia: como todos os filhos de pessoas com Alzheimer, em especial uma mãe, que eles/elas retornem a nos reconhecer... Porém não somos as músicas de seu passado.

“Viver pelo menos até conhecer todos os costumes e acontecimentos do homem; estender toda a vida passada – já que a futura não nos é dada; concentrar-se antes de diluir-se; merecer ter nascido; pensar no sacrifício que cada respiração custa a outros; não idealizar o sofrimento, embora se viva dele; guardar para si apenas o que não se deixa adiante, até que isso se torne maduro para outrem e se dê; odiar a morte de qualquer outro tanto quanto a própria; um dia fazer as pazes com tudo, nunca com a morte.” (Elias Canetti, Sobre a Morte)

Estender toda a vida passada pode vir a ser uma das mais importantes ações que teremos de realizar com nossas mães. E com elas fazer nossas pazes avançando contra a Morte...

Este texto é uma homenagem àquelas mães que, vivendo apenas do passado, não mais reconhecerão seus filhos no presente. Elas vivem e convivem com alguma demência. Porém como as outras nunca deixarão de sua uterina e prolífica capacidade de fertilizar a Terra...

Em suas mentes ressoam apenas belas e velhas canções ou músicas...
Tenho pensado muito em minha mãe. Talvez tentando refletir sobre o que tentei aprender-ensinar por muitos anos: é preciso aprender a deixar morrer em nós os nossos mortos. Não retornar/regredir ao útero e avançar para a Dona Morte, dizia outro Henry, Henry Miller.

A minha “uterina” mãe me retornou a mente nos últimos tempos muitas vezes. Não foi tristemente ou com pesar. Era a lembrança de seu sorriso comigo ao colo ainda um garotinho alegre lá nas Minas Gerais. A memória dela retornou, intensamente, ao assistir o vídeo com o Henry.

Publiquei e difundi, recentemente, este vídeo sobre a relação entre Alzheimer e a Música. Trata-se de um trabalho desenvolvido nos EUA, onde pessoas com demência passaram a “despertar” seus cérebros e mentes com “velhas” músicas. Através do trailer do filme Alive Inside mostra a extraordinária terapia musical feita com pacientes que sofrem/vivem com o Alzheimer ou outros tipos de demência.

Sim, há muitos anos já experimentei na prática o quanto a música pode nos manter VIVOS por dentro. Sim já havia comprovado o efeito Mozart. A música pode nos redimir, pode nos incentivar, pode nos reorganizar e pode até nos tirar de algum sofrimento “inside”...

Assim ocorreu comigo e a minha filha Luana (1994), que ao nascer ficou quase um mês em uma incubadora e lhe dei Mozart de “terapia intensiva”, com um pequena caixa de som ligada a um mini toca cds. E as suas convulsões diminuíam.

Apesar do ceticismo e a visão “científica” dos neurologistas, à época. Assim nós aguentávamos as muitas horas e os ruídos de aparelhos de sobrevivência daquela UTI neonatal. O tempo escorria com menos dor psíquica. Era a minha segunda experiência iatrogênica. Mais um filho com paralisia cerebral no meu mundo.

Um pouco desta experiência pessoal foi levada para a minha Clínica. Experimentei, anos depois (1990), a introdução de músicas na avaliação/tratamento de pessoas com diagnóstico de Alzheimer. E mais uma vez a minha mãe retornava a minha mente. Ela é que me “ensinou” o gosto pela música como paixão.

Porém o mais importante é que ela me ensinou também que poderíamos espantar nossos males com o canto. E este ditado foi colocado em minha prática com os meus “pacientes”. Um tempo que as dores e as perdas de mobilidade me afastaram. E, por enquanto, não esqueci.
Uma das músicas prediletas e autobiográficas da Dona Ditinha (esse era seu apelido carinhoso, na redução de Ana Benedita) foi a que mais me marcou nessa experiência. Talvez, imagino hoje, se escutada por ela lhe reanimasse algumas belas lembranças afetivas.
Tratava-se de uma musica cantada por Carlos Galhardo. Os mais novos nem devem saber de sua existência na música popular brasileira. É dele a interpretação original da música “Fascinação”, a mesma que depois se imortaliza na voz de Elis Regina: - “Os sonhos mais lindos sonhei – de quimeras mil um castelo ergui”...

Só que eu não tive a chance de aplicar essa ‘”musicoterapia” para a minha própria doadora de vida e música. Minha mãe recebeu o diagnóstico de demência de forma tardia, pois a sua idade precoce para o quadro não era, à época, um fato corriqueiro para a neurologia.

Eram os anos 80, onde ainda se confundia quadros mentais, demenciais, vasculares e todos eram enquadrados como ‘’arteriosclerose’’. A visão ainda obtusa da medicina não via as nuances entre os muitos tipos de demência ou quadros neurodegenerativos. Todos estavam “incluídos”, sem exceção na ideia de “morte neuronal definitiva”.

Hoje já podemos, segundo notícias, predizer uma demência até 10 anos antes dos primeiros sintomas, como a molécula PiB» (composto B de Pittsburgh) anunciada pela Universidade de Coimbra (Portugal). Hoje avançamos nas biotecnologias e na farmacologia para muitas surpreendentes descobertas. Quem sabe que caminhos ainda percorremos?

Foi-se este tempo que tratou a Doença de Alzheimer e outras demências como um processo neurodegenerativo que só recebia diagnóstico pós-morte. A máxima era que não havia medicação ou tratamentos para estas “escleroses” dos velhos.

Porém a Dona Ditinha estava no ápice de sua maturidade quando seu quadro se apresentou. Nem chegara aos seus 60 anos. E sua condição de rápida perda de memória, decrepitude física, distúrbios comportamentais, e, principalmente, a depressão emocional foram confundidos com um quadro apenas mental.

Eu, recém-formado em medicina, não pude ter a experiência que hoje já acumulei. Mas insisti sobre seu diagnóstico. Porém não basta que tenhamos um conjunto de sintomas e determinemos um nome para um sofrimento humano. É preciso alguma forma de esperança ou de promessa de pró-cura.

Quem me dera ter sido afetado, na época por esta minha experiência com a música e o Alzheimer. Não vivenciei o que depois só aprendi na prática e na pele. Escrevo hoje, mesmo nas frias e dolorosas madrugadas, embalado por música clássica.

Os sons de Corelli, Bizet, Chopin, Vivaldi, Mozart, Beethoven, e outros gênios estão me ajudando a organizar estas ideias, palavras, afetos e lembranças. Também tiram o meu foco da dor física ou psíquica. Lançam-me em outras galáxias do meu minúsculo universo subjetivo. Re-animam.

Esta é a música que desperta o Henry no vídeo, que ao lembrar-se de seu predileto compositor ,Cab Calloway, o“desperta”. Reanima em seus olhos e nas palavras o que desejei ter para presentear a todas as mães: a vontade de renascimento, de re-viver, aquilo que só os úteros entendem. Lá neles há os primórdios de nossas noções musicais com os sons placentários e do coração, assim como outros do corpo materno.

E, como Henry, eu posso então dizer que a música me dá o ‘sentimento e o sentido do amor’.

Qual é o melhor presente a ser dado às mães que não conseguem mais a lembrança de quem são os seus filhos? Talvez a melhor homenagem a lhes prestar seja lhes dar suas músicas prediletas. E, também, mesmo que estejam ausentes para nós, que cantemos suas canções, inclusive as que ouvimos para nos embalar o sono.

Espero que muitas famílias, em especial filhos e filhas, possam compreender a importância de levar seus familiares, com quadros semelhantes, em direção dos seus sons primordiais e antigos. Uma “velha” melodia, um velho long-play, um cassete jogado no fundo do armário, poderá ressuscitar milhões de neurônios adormecidos.

E, não retornando ao útero caminhamos todos e todas em direção à Morte. Há, porém que celebrar aquelas que nos deram essa chance de viver intensa e criativamente essa jornada. Há mães que superam quaisquer obstáculos.

Não devemos olhar para nossas mães, seja no ontem ou hoje, como vítimas, ou como perdas, com luto antecipado. Vejam, por exemplo, a notícia de uma mãe que, para além de seus filhos com deficiência, encontra seu próprio tempo para o trabalho e para a prática do triatlo. Ela não corre da vida e sim pela Vida, inclusive a dela.

Não precisamos transformar nossas experiências com um familiar em um penoso cuidar, ou pior um culposo e triste movimento de negação de nossas próprias vidas. Daí decorre as falsas “dedicações exclusivas”, ou melhor, excludentes e penalizadas.

Não entramos na sessão errada e nem no filme que não queríamos assistir. Esta é uma experiência vital para os que descobriram recentemente um parente ou uma mãe com este diagnóstico. Vejam a bela campanha desenvolvida em Israel. Precisamos de um pouco dessa visão compartilhada do que é se sentir desorientado, confuso e sem memórias.

De minha mãe Ana fica sua lembrança musical. Ana, que apesar do nome nunca trabalhou com a negação da vida, sempre nos estimulou para sua afirmação. Dela vêm os afetos e encontros alegres e gosto pela música.

Desde uma orquestra como Ray Conniff até uma sinfonia de Mozart, passando pela música popular brasileira. Eis minha herança, são os seus legados vitais. Poderão, talvez, ser um dia também minhas únicas lembranças afetivas?

Lamento que não tenha aplicado com ela o exercício da paz através da música para os que vivem na desorientação do tempo e do espaço, com vagas lembranças de quem eram e de quem são os seus filhos. Mas tenham certeza de que ela conseguiu-me musicalizar para a vida. E eu desejo que todos sejam contaminados pelo musi-cartografar as nossas existências fugazes.

À MINHA, À SUA, A TODAS AS MÃES O MELHOR “PRESENTE”, PARA ALÉM DAS FLORES E PRESENÇA, UM POUCO DE MÚSICA E ENCANTO, independente do que nos lembramos, ou elas se lembrem de nós....


Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2012-2013 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa - TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025 ...)

Notícias na Internet ligadas ao texto:

Música pode retardar Alzheimer, diz estudo
https://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/02/090224_musicamemoriamv.shtml

Terapia da música: filme mostra homem com Alzheimer “despertar” ao ouvir iPod
https://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/21129/terapia+da+musica+filme+mostra+homem+com+alzheimer+despertar+ao+ouvir+ipod.shtml

Música para tratar o mal de Alzheimer (em Brasília,DF)
https://www.youtube.com/watch?v=KhovLj8G8mI

Alive Inside - Man In Nursing Home Reacts To Hearing Music From His Era (vídeo em inglês, com a experiência de Henry “renascendo” e cantando, sem legendas, com comentários de Dr. Oliver Sacks) https://www.aliveinside.us/ 
Visitem e difundam - https://www.musicandmemory.org/

Associação Brasileira de Alzheimer - https://www.abraz.com.br/ ou https://www.abrazsp.org.br/

Sinais, tratamentos e pesquisas: tire dúvidas sobre Alzheimer https://saude.terra.com.br/noticias/0,,OI5754229-EI16560,00-Sinais+tratamentos+e+pesquisas+tire+duvidas+sobre+Alzheimer.html

Mal de Alzheimer - Campanha de conscientização em Israel (Vídeo com legendas em português)
https://www.youtube.com/watch?v=NkCco09KdKQ

Mãe de dois deficientes arruma tempo para trabalhar e praticar triatlo
https://www.expressomt.com.br/nacional-internacional/mae-de-dois-deficientes-arruma-tempo-p-12772.html

Alzheimer: molécula que permite diagnóstico recente chega a Portugal
https://www.tvi24.iol.pt/tecnologia/alzheimer-molecula-universidade-coimbra-tvi24/1343039-4069.html

Leitura indicada no texto –
Sobre a Morte, Elias Canetti, Ed. Estação Liberdade, São Paulo, SP, 2009.

LEIA TAMBÉM NO BLOG –

O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E, ENTRETANTOS, MEU PAI FAZ 102 ANOS... https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/04/o-mundo-envelhece-as-injusticas-ainda.html


ALZHEIMER NÃO É UMA PIADA, mas pode ser poesia de vida
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/06/alzheimer-nao-e-uma-piada-mas-pode-ser.html

TODO ÚTERO É UM MUNDO...
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/03/todo-utero-e-um-mundo.html

quarta-feira, 2 de maio de 2012

INTERDIÇÃO, DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E DIREITOS HUMANOS.

Imagem publicada- A foto colorida de um homem sorridente, inglês, que completou uma maratona após 41 dias, percorrendo apenas 1,5km por dia, com auxílio de um apoio especial para caminhar e uma equipe de amigos e familiares ao seu redor. A matéria não tem a ver diretamente com interdição, mas se pode supor o que teria acontecido com ele, caso fosse interditado, após o acidente que o levou a um quadro psicomotor semelhante a uma paralisia cerebral grave. Podemos dizer que, após um acidente, como o de Eddie Kidd, perdemos todas as nossas habilidades e capacidades? E, quando se trata de uma criança ou jovem com Síndrome de Down ou Paralisia Cerebral? A eles não é permitido, depois de diagnosticados/julgados "incapazes", de correr a corrida da Vida Livre e sem Interdições?

EU NÃO INTEDITO, NÓS NÃO OS INTERDITAMOS, PORÉM ELES AINDA INTERDITAM.

No dia 03 de maio será realizada uma audiência sobre a Interdição Legal total de pessoas com deficiência intelectual e pessoas com paralisia cerebral severa. Ocorrerá um debate proposto pelos deputados Mandetta (DEM-MS) e Rosinha da Adefal (PTdo B-AL).

O tema é de meu total interesse/dedicação há muitos anos. Já participei há mais de 15 anos atrás de um debate promovido no Centro Cultural Banco do Brasil, RJ, de uma acirrada discussão sobre a interdição total de pessoas com deficiência intelectual. Há época já manifestava minhas inquietações bioéticas e sociais sobre o tema.

A palavra interdição, para além de seu sentido legal, implica, para o senso comum, a restrição de alguns direitos fundamentais. É a proibição para os atos da vida civil por aqueles que forem considerados “incapazes”. Nessa perspectiva é que sempre interrogarei sua possibilidade, necessidade e sua aplicabilidade. Continuo sendo apenas um defensor ativista de direitos humanos ao refletir sobre ela.

Já há uma visão mundial sobre o tema. Foi expresso na Declaração de Montreal sobre a Deficiência Intelectual, em 2004, na cidade de Montreal, Canadá. Tive a oportunidade de traduzi-la para o português. Venho difundindo-a desde então para que possamos aprofundar e rever nossos preconceitos sobre as deficiências intelectuais e os sujeitos que as vivenciam.

E, lá fica claro que o paradigma que irá sustentar essa declaração que foi proposta pela OPAS/OMS, ambas no âmbito da medicina e da saúde, é o que irá ser o eixo principal do que se estabeleceu dois anos depois com a Convenção (ONU-2006). Em ambos os documentos os princípios fundadores são os Direitos Humanos. Mas que princípios norteariam uma interdição legal total?

Em princípio a palavra interdição vai de encontro com um dos direitos fundamentais, quando escolhe ou elege um ou mais sujeitos, a partir de sua condição de saúde, idade ou situação de vulnerabilidade. Os que estão, no momento, sendo o alvo dessa audiência são as pessoas com síndrome de Down e as com paralisias cerebrais graves.
No campo da Síndrome de Down já escrevi sobre sua autonomia e os exemplos de sua inclusão social só tem comprovado que são "cidadãos e cidadãs". No caso de pessoas com Paralisias Cerebrais ainda temos um campo nebuloso e confuso sobre sua classificação. O conceito de grave vai até onde?

É aí que há sempre o perigo do preconceito pela manutenção do paradigma biomédico. As pessoas com paralisias cerebrais são vistas, objetivadas, assujeitas e judicializadas como "doentes" ou "deficientes mentais".

Há sim quadros ou condições de saúde que levam a um maior número de restrições ou perdas de funcionalidade. Porém são em número muito menor a cada dia que passa. E, para o direito, na visão reducionista, são as pessoas “portadoras”, incapazes com “necessidades especiais”. Ainda não há uma abertura para os novos conceitos e visões sobre estes cidadãos/ãs, principalmente em algumas instâncias do Judiciário.

A noção de severidade dos quadros foi e é a maior justificativa também para o processo de institucionalização de pessoas com paralisias cerebrais ou síndrome de down. Ambos os quadros formaram o que se conceituava na CID-10 quadros de "retardamento mental". Há ainda muitos operadores do direito e profissionais da saúde que se baseiam nessas visões e conceitos arraigados erroneamente.

E para tais graves, moderados ou leves, ou então, historicamente, os imbecis, os débeis, os cretinos, ou, reducionisticamente, os retardados mentais, a melhor forma de cuidado e reabilitação só poderia ocorrer em espaços especializados e sob internação.

A maior defesa que já vi da interdição sempre foi direcionada por entidades que cuidam ou prestam assistência contínua a esses cidadãos e cidadãs sob reclusão. E a mais veemente foram as que famílias, principalmente mães, defendiam no sentido de “preservar o futuro” de seus filhos com deficiência considerada como “invalidez total”.

Mas o que é essa interdição judicial? Em pesquisa na Internet encontrei um dos documentos mais recentes sobre o tema. É do Chile (2011) e trata da “interdicción, proteción patrimonial y derechos humanos” (interdição, proteção patrimonial e direitos humanos). Nele se esclarece que a interdição é uma sentença judicial cujo efeito principal é a substituição das escolhas e decisões de uma pessoa com deficiência pelas de outra pessoa, que no direito recebe o nome de curador.

Esta figura está prevista também na Declaração de Montreal. Ressalta-se nela que “todas as pessoas com deficiências intelectuais são cidadãos plenos, iguais perante a lei e como tais devem exercer seus direitos com base no respeito nas diferenças e nas suas escolhas e decisões individuais”. Portanto, como na Convenção, estão garantidas as suas capacidades de decisão e escolha.

Então, considerando-se esta afirmação, em que condições poderiam ser solicitadas as interdições? Para a Declaração de Montreal: “A. As pessoas com deficiências intelectuais têm os mesmos direitos que outras pessoas de tomar decisões sobre suas próprias vidas. Mesmo que algumas pessoas possam ter dificuldades de fazer escolhas, formular decisões e comunicar suas preferências, elas podem tomar decisões acertadas para melhorar seu desenvolvimento pessoal, seus relacionamentos e sua participação nas suas comunidades;...”

É, então, o Estado que deverá proporcionar a proteção e a garantia de que estes cidadãos e cidadãs possam exercer, com os avanços legais e sócio-políticos, o acesso e utilização de serviços adequados que sejam baseados nas necessidades, assim como no direito ao consentimento informado e livre. 

Com os avanços em ajudas técnicas, tecnologias assistivas e outros recursos das novas tecnologias quem são os que não seriam “capazes” da expressão de suas vontades e decisões?

No presente e no futuro sabemos que ainda teremos muitos excluídos do mundo digital e das novas tecnologias de informação, e entre estes estarão muitos sujeitos com deficiência intelectual. Porém o nosso dever será o de, caminhando no desenho universal, atender todas as suas necessidades, especificidades, “disfuncionalidades” ou incapacidades, e, principalmente as suas singularidades.

Tanto para a Declaração de Montreal como em outros documentos de cunho universalista encontraremos que o exercício da curatela deve ser relativizado. Porém o que encontramos é uma dura realidade de manutenção de pessoas com deficiência intelectual ou com paralisia cerebral em regimes de cativeiros, hospitais ou espaços de segregação. Muitos deles promovidos pelas próprias famílias desses sujeitos assujeitados.

É, dentro dessa realidade, brasileira em especial, que precisamos garantir que “as pessoas com deficiências intelectuais devem ser apoiadas para que tomem suas decisões, as comuniquem e estas sejam respeitadas ...”

Com a recente tomada de posição do nosso Governo com o Plano Viver sem Limites, e a decisão de subsidiar as pesquisas e desenvolvimentos em tecnologias assistivas, deveremos olhar para o futuro na tomada de uma decisão legal de interdição.
Aqueles ou aquelas que, hoje, não estão podendo se expressar por meios já conhecidos, em futuro não muito longínquo, utilizará meios avançados e nada onerosos para a comunicação de suas opiniões, ideias, sentimentos e decisões.

Já em 2004, em Montreal se afirmava: “B. Sob nenhuma condição ou circunstância as pessoas com deficiências intelectuais devem ser consideradas totalmente incompetentes para tomar decisões baseadas apenas em sua deficiência. Somente em circunstâncias mais extraordinárias o direito legal das pessoas com deficiência intelectual para tomada de suas próprias decisões poderá ser legalmente interditado.”

Há, portanto uma expressão afirmativa do direito de pessoas com deficiência intelectual, ou mesmo com paralisia cerebral, que não devem ser sinônimos ou equivalências. A maioria das pessoas com paralisias cerebrais NÃO SÃO pessoas com deficiências intelectuais. Apenas uma porcentagem pequena poderá apresentar alterações cognitivas ou restrições de funcionalidade psicomotora que prejudicará sua interação e expressão ao meio ambiente.

Ambas as condições devem ser expressão de direitos humanos. Portanto direitos que são inalienáveis, indivisíveis, interdependentes, interelacionados e universais. E, se fundamentarmos, nesses princípios, a prática legal das interdições, a partir desse encontro e debate na Câmara dos Deputados, terá de abandonar o paradigma biomédico.

Surgirá, inclusive com a presença, que espero não falte de nossa ministra Maria do Rosário Nunes, da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, a efetivação dos Direitos Humanos como linha mestra de todos os novos modelos legais para pessoas com deficiência, sejam intelectuais ou não.

Lembrando a temporalidade vertiginosa em que vivemos, assim como as necessárias mudanças legais, os processos de interdição não devem ficar restritos aos laudos de peritos forenses ou psiquiatras. O nosso olhar médico nos leva para os ‘’mutirões’’ de ações de interdição, onde a Síndrome de Down está no mesmo nível que as pessoas com Doença de Alzheimer.Ainda trabalhamos com a CID-10 e desconhecemos a CIF-2006.

E as curatelas deverão ser de uma curta duração, principalmente aquelas que envolvem interesses patrimoniais ou alegações unicamente prestadas pelos familiares. Portanto, nesse campo é indispensável que o Estado e o Poder Judiciário observem que: “Qualquer interdição deverá ser por um período de tempo limitado, sujeito as revisões periódicas e, com respeito apenas a estas decisões, pelas quais será determinada uma autoridade independente, para determinar a capacidade legal”.

Finalmente, reforçando o que já foi declarado em Montreal, afirmar que: “C. A autoridade independente, acima mencionada, deve encontrar evidências claras e consistentes de que apesar dos apoios necessários, todas as alternativas restritivas de indicar e nomear um representante pessoal substituto foram, previamente, esgotadas. Esta autoridade independente deverá respeitar o direito a um processo jurídico, incluindo o direito individual de ser notificado, ser ouvido, apresentar provas ou testemunhos a seu favor, ser representado por um ou mais pessoas de sua confiança e escolha, para sustentar qualquer evidência em uma audiência, assim como apelar de qualquer decisão perante um tribunal superior”.

Era esse olhar para o futuro dos direitos humanos de pessoas com deficiência intelectual que há 08 anos se declarou. HOJE, como parte de um movimento para a afirmação política das pessoas com deficiência, qual visão futurista devemos criar em relação ao nosso próprio futuro?

Excelências, Meritíssimos, Ilustríssimos Senhores e Senhoras, que já conseguiram afirmar o direito sexual e reprodutivo das mulheres com a recente decisão do STJ sobre anencefalia, lhes faço um único pedido: - Eu, aqui cidadão brasileiro, desejo de coração que suas mentes continuem no processo evolutivo e transformador de todas as nossas leis.

Então, os “cida-downs” e os chamados de “paralíticos” poderão se orgulhar de um novo papel a exercer: serão os respeitados auto defensores dos seus direitos humanos. Não há como exercitar a cidadania sem um exercício de nossas autonomias e desejos mais profundos.

Comemorei, com minha família reunida, o 102º (centésimo segundo) aniversário de meu pai. Alguns devem se perguntar sobre sua capacidade de decisão, ou sua interdição. Com sua lucidez, garantida pelo desejo de vida, ainda é e será respeitado em suas decisões, mesmo as que nos pareçam estarem erradas ou contra nossa vontade.

Eu lhe perguntei se ainda irá acompanhar a sua querida Romaria a pé até Aparecida do Norte, distante mais de 300 km de minha cidade natal, ponderando sobre as baixas temperaturas e o risco de saúde de um ancião, e ele afirmativamente me respondeu: - “E por que não iria? Eu ainda não morri ...”. Ele irá como o maratonista com Paralisia Cerebral até o fim de sua jornada, seguindo sua fé e sua determinação/decisão.

E podem ter certeza de que ele, se interrogado for, afirmará como um desembargador que negou uma interdição recentemente noticiada: “De qualquer sorte, não se pode considerar a idade avançada do apelado (74 anos, atualmente) ou a preferência deste por um estilo de vida mais simples como motivos para interditá-lo. Veja-se, além disso, que velhice não se confunde com senilidade"...

Assim não podemos continuar confundindo a situação de deficiência com a noção de incapacidade total, para sempre, decretada. A interdição total deverá ser a exceção da exceção, e, ainda assim respeitar, antes que velhos códigos, a urgente ativação, transversalidade e implementação dos Direitos Humanos.

E, muito raramente, muito poucos, quase nenhum sujeito com deficiência intelectual ou com paralisia cerebral dita severa estará sendo submetido à perda de suas liberdades...

EU, NO FUTURO, ESPERO NÃO ME INTERDITAREI, NÓS NÃO SEREMOS INTERDITADOS, E ELES, TORNADOS MAIS JUSTOS E SÁBIOS, APRENDERÃO O QUE É SER/ESTAR INTERDITADO... POIS TODOS/TODAS, UM DIA, APRENDEMOS A VIVER/CONVIVER COM LIMITES...


Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2012/2018- 2024 Ad infinitum (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa) TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025

NA INTERNET – Fontes e notícias

Interdição legal de pessoas com deficiência intelectual será discutida em audiência
https://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/DIREITO-E-JUSTICA/416052-INTERDICAO-LEGAL-DE-PESSOAS-COM-DEFICIENCIA-INTELECTUAL-SERA-DISCUTIDA-EM-AUDIENCIA.html

DECLARAÇÃO DE MONTREAL SOBRE A DEFICIÊNCIA INTELECTUAL
https://www.defnet.org.br/decl_montreal.htm

PLANO VIVER SEM LIMITES - Plano beneficia 45,6 milhões com deficiência https://www.brasil.gov.br/noticias/arquivos/2011/11/17/plano-beneficia-45-6-milhoes-com-deficiencia

Tribunal nega pedido de interdição: velhice não se confunde com senilidade
https://www.ambito-juridico.com.br/site/?n_link=visualiza_noticia&id_caderno=20&id_noticia=82239

Homem com paralisia cerebral completa Maratona de Londres após 51 dias 
https://www.estadao.com.br/noticias/internacional,homem-com-paralisia-cerebral-completa-maratona-de-londres-apos-51-dias,cional,homem-com-paralisia-cerebral-completa-maratona-de-londres-apos-51-dias,729002,0.htm

LEITURA INDICADA:

Derechos de las Personas com Discapacidad Mental *Chile (em PDF) https://www.senadis.gob.cl/descargas/centro/tematicos/manual_dicapMental.pdf

LEIA TAMBÉM NO BLOG: sobre Deficiências Intelectuais

DEFICIENTES INTELECTUAIS - Encarcerar é a solução final?   https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/01/deficientes-intelectuais-encarcerar-e.html

O MELHOR É A JAULA OU O GALINHEIRO? Deficientes intelectuais e o seu encarceramento
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/o-melhor-e-jaula-ou-o-galinheiro.html

INCLUSÃO/EXCLUSÃO - duas faces da mesma moeda deficitária? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/02/inclusaoexclusao-duas-faces-da-mesma.html

NÃO SOMOS ANORMAIS, SOMOS APENAS CIDA-DOWNS.... https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/03/nao-somos-anormais-somos-apenas-cida.html

VULNERAÇÃO E MÍDIA NO COTIDIANO DAS DEFICIÊNCIAS
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/04/vulneracao-e-midia-no-cotidiano-das.html

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E, ENTRETANTOS, MEU PAI FAZ 102 ANOS...


Imagem publicada – uma foto colorida que tirei lá em Minas Gerais, na minha terra natal, Cambuquira, onde se vê um vasto céu azul ao fundo, com árvores em segundo plano, todas vicejando e verdes-vivas, no primeiro plano aparecem, em destaque no céu, galhos secos e velhos que fazem parte de um árvore-envelhecida. Um detalhe nos chama atenção que é a casa de barro de um pássaro: o João de barro. É, nesses aparentes galhos que se lançam ao céu como veias e artérias, que o passarinho encontrou seu melhor abrigo e futuro protegido, e lá permanecerá até que a velha árvore caia...

“A vida é uma viagem experimental, feita involuntariamente. É uma viagem do espírito através da matéria, e como é o espírito que viaja, é nele que se vive. Há, por isso, almas contemplativas que têm vivido mais intensa, mais extensa, mais tumultuariamente do que outras que têm vivido externas. O resultado é tudo. O que sentiu foi o que se viveu...” (Fernando Pessoa através Bernardo Soares)

Estamos cansados de nossas dores? E das dores do mundo também? Qual será nossa pro-cura?

HÁ TEMPOS EM QUE SONHAMOS COM OUTRO MUNDO, OUTRA NÃO FINITUDE DA VIDA.Eis que aquela Senhora Dona Morte nos incomoda e nos toma por inteiro. Eu aqui Outro Pessoanamente dessassossegado, por mais que lhe escreva novas cartas de-vidas, ela continua ainda sem me dar as respostas definitivas. E sinto que os anos da velhice já se anunciam.

O mundo esta envelhecendo. A notícia de que me 2050 teremos muito mais pessoas idosas do que jovens me preocupa. A minha atual situação me faz pensar na transitoriedade e no fim de todos e todas.Porém há um aviso que vem junto com esta constatação da OMS: teremos triplicado também o número de idosos com demências.

Segundo a especialista: "Minha mensagem é que o envelhecimento da população é algo que deve ser abordado. Há uma mudança dramática que atingirá tanto o mundo em desenvolvimento como o desenvolvido", disse Somnath Chatterji, coordenadora do estudo Global sobre o Envelhecimento e a Saúde Adulta da Organização Mundial da Saúde (OMS.

Escrevi no texto anterior sobre a necessidade de mantermos a presença do que chamamos de nossa Mente quando se decidir sobre a anencefalia. A expectativa que me causa medo agora, quiçá até certo pânico, é essa trágica perda de contato com o mundo, mesmo que envelhecido, para os que vivenciarão este prognóstico demenciador.

Como não temer esse futuro? Talvez eu não tenha as respostas para nossos tremores e temores. As respostas sempre são múltiplas e plurais. Porém, posso tentar lhes avisar sobre algumas reflexões que já foram feitas por quem estudou e analisou essas psicologias do viver e do morrer.

Há em todos e todas as criaturas com Vida um temor ou medo da Morte e do Morrer. Eu já experimentei esse fel, ou melhor, esse doce veneno.
Principalmente quando tenho de enfrentar situações onde a injustiça ou negação de seu acesso esteve presente. Eis um estímulo final para a gota que enche o copo que já estava cheio de depressão.

Há sempre os que se supõem capazes, especialistas ou dotados de poder, que se sentem nesse lugar supremo. Os que podem mudar as leis sobre a aposentadoria, os que podem cassar e reduzir o tempo de alguns que desejam sair da vida laborativa, os que doutos se sentem para instituir o que eles próprios nunca vivenciarão: asilos, isolamentos, pauperização ou mesmo a morte solitária.

Há, então, que repensar nossos desejos de fazê-los apenas “nossos velhos”. Como no texto anterior, lembrando-se de Narayama, ainda temos de derrotar nossos preconceitos e estigmas sobre a velhice. Vivenciamos no atual modelo de vida sócio-político e jurídico, o risco de nos tornarmos uma Sociedade que pratica e praticará o “gerontocídio”.

Os que se vestem de fardas, togas ou ternos pretendentes a um lugar de eterna autoridade podem ainda causar muitos estragos nesse processo do envelhecimento da Gaia. Assim como dos nossos idosos, ou melhor, todos e todas nós...

São os que ocupam papéis de decisão sobre os rios, as matas, os bichos, os índios, as florestas, incluindo aí dos os dilemas bioéticos do nascer ao morrer da Vida. Estão, como se não fossem envelhecer, lá Câmara, no Palácio, no Senado ou nos seus supremos assentos...

Porém esses senhores e senhoras também estão envelhecendo. E, recentemente, o mundo pode assistir com uma Dama de Ferro, inglesa, após sua senectude pronunciada pode tornar-se pateticamente mais uma pessoa demenciada. Há e haverá muitas Margareths ainda na História esse mundo que caminha com passos largos para sua própria devastação.

Poderá a Terra também tornar-se “demente”? Sim e ainda poderá apresentar algumas convulsões, algumas formas estranhas de tique, e, principalmente, voltar-se para a barbárie aceitando as falsas falas de extremistas de direita como Breivik, lá na Noruega.

Tivemos esses dias mais um DIA DA TERRA. Acho que a maioria do mundo nem se mexeu na direção de sua real comemoração: a sua redenção e urgente salvamento. Esquecida a data mundial a cada dia temos mais Sírias a resolver. Temos mais malárias a combater, e a tuberculose agora é um “privilégio” de quem depende do Crack, no presente de seu aniversário. Por aqui os ruralistas e os seus interesses irão destruir mananciais.

A Terra pode realizar os filmes futuristas de devastação, solidão, medo, isolamento e completar seu desfecho abraçando-se com a Dona Morte. Ou, então, reproduzir o que a propaganda da TV já naturaliza quando, saturada, ela nos “espirra” e lança no espaço todos os seus habitantes humanos.

Mas ainda podemos crer como dizia Erich Fromm em uma ‘’revolução da esperança’’. Aliás, essa palavra já foi até associada a uma de nossas mais brasileiras maneiras de ser e sonhar. Este psicanalista, ao vivenciar a crise mundial de 1968, já apontava o nosso risco de mecanização do viver e as tecnocracias tornando-se mais forte que a esperança.

Entretanto, ele acreditava que em um renascimento do humanismo e fazia um apelo à ação grupal. Ele interrogava: “De que maneira o homem, no auge da sua vitória sobre a natureza, torna-se prisioneiro de sua própria criação e corre sério perigo de se destruir?”.

Tentando, com olhar voltado para mim mesmo, responder a sua indagação é que retornei à foto e ao dia em que a tirei. Ela é um pedaço da terra onde até hoje meu pai insiste em plantar e colher. Um homem rural que não se tornou nunca um ruralista, muito mais um fervoroso aprendiz do meio ambiente.

Ele, que agora no dia 30 de abril, completa os seus 102 (cento e dois) ANOS. O meu querido Arnaldo sempre foi um homem do mato. Ele é que levava pelas estradas que nos conduzem ao respeito à Terra, a terra e seus mananciais. Com ele aprendi serenamente a observar como semear e como tentar colher. Ele já tinha um código de ética com as florestas...

A ele estarei rendendo todas as minhas homenagens possíveis. Ele me revelou como é preciso ser “camarada” e “velho companheiro” da nossa uterina mãe Gaia. Talvez, quem sabe, este velho romeiro e caminhante tenha me trazido os primeiros ensinamentos ecosóficos. Ainda que não tivesse todos os saberes, os mesmos que me proporcionou com seu trabalho e as mãos calejadas na roça.

Aos filhos, fazendo coro com minha mãe, só um grande legado e herança: o conhecimento. Esta seria talvez uma das saídas para responder ao que indagamos. Sair de um modelo e paradigma tecnocrático e desumanizador para um novo paradigma ético, estético e político como queria Guattari.

O psicanalista também interrogava como podemos estar produzindo pessoas doentes para que possamos ter uma economia sadia. Eis que, cada dia mais, o hipercapitalismo se locupleta com as desgraças, as epidemias e os sofrimentos dos desfiliados e excluídos.

O mundo envelhece, as injustiças persistem, mas há lá em Minas um senhor com 102, caminhando para os 103 anos, que olha ainda com ternura para o futuro de seus bisnetos.

Lembrei-me de meu pai com a matéria sobre o hindu que correu uma MARATONA em 08 horas. O meu velho já caminhou muitas maratonas em sua forma humilde e mansa, sempre com uma fé incomensurável, nas milhares de romarias a pé até Aparecida do Norte, cruzando a Serra da Mantiqueira. Invejo e respeito seu fervor que supera quaisquer dores ou cansaços em nome de sua fé na Vida e nos Homens.

Como então levar um pouco desse senhor idoso para o coração e as mentes daqueles que se negam a reconhecer seu próprio envelhecimento das ideias, das emoções e de seus saberes?

A ELE DEDICO ESTE TEXTO-ESPERANÇA na crença de que muitas revoluções moleculares ainda se darão, e os nossos devir-criança nos trarão de volta o prazer de pisar na terra, no chão e nele cultivar o desejo de um OUTRO MUNDO, sem a negação da diversidade, da diferença e da multiplicidade dos seres humanos. Comecemos cuidando de todas as nossas cachoeiras e das águas que turvamos e poluímos.

Ao envelhecimento e ao processo de “alzheimerização” previsto pela OMS, desejo que possamos ter muito mais Arnaldos do que Anas. Explico, é que minha mãe vivenciou, assim como nós seus amados, a experiência do Alzheimer. Digo sempre que me encontro na encruzilhada genética destes dois seres humanos, muitas vezes caminhando mais para a direção de minha mãe. Entre a longevidade com saúde e a morte precoce com uma demência.

Decorre daí o temor de nossos futuros demenciados. Não podemos perder a esperança de outras formas de viver e super-viver. Temos de ser futuristas, porém, com um olhar e sentimento bioético para com a sua, a nossa e a VIDA DA TERRA.

E, hoje, novamente eufóricos, podemos anunciar uma revolução gerada pelas ciências, vinda lá de Portugal: “Uma equipe de investigadores da Universidade de Coimbra (UC), através do seu Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS), produziu uma molécula única - PiB (composto B de Pittsburgh) – que possibilita a detecção da doença de Alzheimer antes de os sintomas clínicos se revelarem, permitindo ainda distinguir esta patologia de outras formas de demência..;”

O futuro dependerá, então, de nossa mais profunda e radical revolução. Continuaremos mortais, nossas mentes-cérebros poderão demenciar, nossos corpos tornar-se-ão ciborgues, nossos corações podem vir a ser pura lata ou platina, mas podemos, apesar de tudo e todos, manter um pouco de sabedoria dos nossos velhos.

E que venha o Futuro, pois um século e dois anos o meu pai já VIVEU: intensa e amorosamente.

O mundo pode renascer! A Justiça tornar-se justa e equânime. E o meu pai terá feito parte do meu legado de sabedoria a deixar como semente.


Copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa - TODOS DIREITOS RESERVADOS 2025 ...)

Notícias citadas da Internet –

Organização Mundial de Saúde- Demência afeta 35,6 milhões e triplicará até 2050
https://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=2413153&seccao=Sa%FAde

Em 14 anos, São Paulo terá mais idosos que crianças https://www.estadao.com.br/noticias/cidades,em-14-anos-sao-paulo-tera-mais-idosos-que-criancas,533252,0.htm

Em 2050, mundo terá mais idosos que crianças https://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI1543102-EI294,00-Em+mundo+tera+mais+idosos+que+criancas.html

Universidade de Coimbra produz molécula para detecção precoce da doença de Alzheimer https://www.rcmpharma.com/actualidade/id/23-04-12/universidade-de-coimbra-produz-molecula-para-deteccao-precoce-da-doenca-de-a

Homem de 100 anos completa maratona
https://www.jn.pt/VivaMais/Interior.aspx?content_id=2061898
LIVROS para reflexão e crítica –

LIVRO DO DESASSOSSSEGO – Fernando Pessoa, Vol. II, Editora Unicamp, Campinas, SP, 1994)
PSICOLOGIA DA MORTE – Robert Kastenbaum e Ruth Aisenberg, Editora Universidade de São Paulo, São Paulo, SP , 1983.
A REVOLUÇÃO DA ESPERANÇA, por uma tecnologia humanizada – Erich Fromm, Editora Círculo do Livro & Zahar Editores, Rio de Janeiro, RJ,

LEIA TAMBÉM NO BLOG:

QUEM NÃO GOSTARIA DE VIVER 100 ANOS?
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/04/quem-nao-gostaria-de-viver-100-anos.html

SEREMOS, NO FUTURO, CIBORGUES? Para além de nossas deficiências humanas
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/seremos-no-futuro-ciborgues-para-alem.html

A PARÁBOLA DA ROSA AZUL
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/05/parabola-da-rosa-azul.html

ALZHEIMER NÃO É UMA PIADA, mas pode ser poesia de vida
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/06/alzheimer-nao-e-uma-piada-mas-pode-ser.html

POR QUE AS TECNOLOGIAS NOS AFETAM?
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/04/por-que-as-tecnologias-nos-afetam.html

domingo, 8 de abril de 2012

RISCOS DE UMA ANENCEFALIA DA/NA JUSTIÇA SUPREMA

Imagem Publicada – Uma foto colorida que é parte do filme Balada de NARAYAMA; tem um homem japonês, de meia idade, carregando nas costas uma mulher idosa, com seus 69/70 anos, e que de forma pungente a levará, como se levavam as ‘’inúteis’’ pessoas com deficiência para o alto da montanha nos tempos Greco-espartanos. No fim do século XIX, em um pequeno vilarejo japonês, o morador que completa 70 anos de idade deve subir ao topo de uma sagrada montanha e aguardar por sua morte. Aquele que se recusa a cumprir a tradição traz a desonra para sua família. Mas para Orin (Sumiko Sakamoto), uma senhora de 69 anos, procurar uma esposa para o seu filho mais velho, Tatsuhei (Ken Ogata), é mais preocupante do que cumprir a amarga tradição. Vencedor da palma de Ouro no Festival de Cannes em 1983, balada de Narayama é um belo e sensível filme do diretor Shohei Imamura, o primeiro realizador japonês a receber duas Palmas de Ouro no Festival.

“Se não nos assombramos a todo momento com a consciência, é porque ela é muito disponível, fácil de usar, elegante em seus espetaculares aparecimentos e desaparecimentos diários. Mas, quando nos pomos a refletir sobre ela, todos nós, cientistas ou não cientistas, ficamos perplexos...” (Antonio Damasio)

Há alguns dias pensei, mais uma vez, nas conversas com a Dona Morte e as cartas que lhe devo mandar, mesmo sem sua reciprocidade. A Justiça tinha me trazido essa pulsão tanática novamente ao meu âmago. 

Há sempre a possibilidade de que quando alguém lhe julga, assim como a sua causa, de fazê-lo de forma discriminatória. E é nessa hora que a ausência de ‘’cérebro’’ pode pesar. Ele pode nos ajudar em nossos próprios julgamentos mortais e irrevogáveis. Aos que nos julgam o que pesa?

No Dia Mundial da Saúde, 07 de abril, estamos informados pela OMS de que teremos de viver com uma inversão de dados populacionais: “Em 2050 haverá cerca de 400 milhões de idosos com mais de 80 anos, frente aos 14 milhões que havia em meados do século 20”. Teremos muito mais idosos que jovens e crianças. Como promover, então, o direito à Saúde, à Vida e à Morte com Dignidade agora e visar o futuro?

A minha citação do filme Balada de Narayama é uma alegoria de nosso possível futuro? Em condições de extrema necessidade de sobrevivência, o que faremos com os nossos ‘’velhos’’? 

Em que precipício ou exposição à morte pela Natureza iremos “sacrificar” essas novas “velhas e encarquilhadas Vidas Nuas”? Não praticamos, há séculos, outras formas de eugenia ou eliminação de indesejáveis ou anormais? As neves de Narayama nos esperarão?

Nosso futuro com o envelhecimento se afigura, então, como um tempo de exclusões. Teremos então a opção entre o morrer com dignidade ou morrer à mingua. As economias estão fundamentando alicerces para estes cadafalsos que nos retirarão todo ar, toda a vida, todos os direitos.

Os primeiros cortes econômicos recentes, como os 5,4 bilhões, foram da Saúde, apesar de os recursos de outras áreas do Governo Federal ainda alimentarem diferentes tipos de má-gestão, desvios ou corrupção. E, lá fora, como em velhos tempos, o FMI determina mais corte em anos das aposentadorias e direitos conquistados. Chegaremos lá?

Há uma dura certeza: iremos ter no futuro muito mais “trabalho” árduo para todos. As condições de vida precarizada, sem precisar do amanhã, já estão levando ao suicídio um homem idoso na Grécia atual. Nesse mesmo futuro, todos e todas, mantida a lógica do Hipercapitalismo, terão de render mais para abastecer os fundos de aposentadoria. E demorarão em conquistá-la, muito menos usufruí-la sem seus direitos efetivados.

Re-trabalharemos por mais horas apesar de todos os avanços. O reino de Cronos (o Tempo) devorará toda a privacidade e o ócio? Apesar de toda a virtualidade, se não comprometermos a Humanidade com uma mudança de paradigmas, na direção de novas cartografias do viver e dos Direitos Humanos, que tempo vivido nos restará?

Temos de ouvir o aviso que nos dá o presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Francisco Batista Júnior: “A maior ameaça [à saúde no mundo] é o momento político. Em função de uma crise estrutural, a saúde está cada vez mais ameaçada pela possibilidade de ser transformada única e exclusivamente em mercadoria e não tratada como direito do ser humano”.

Já trocamos um rim por um IPad na China. E milhares de corpos são diariamente transformados em mercadoria no mercado de órgãos, portanto sua saúde já esta mercantilizada. O precisamos é refletir os diferentes riscos que se afiguram com as crises capitalisticamente produzidas. Temos apenas a produção de vidas comercialmente ‘’matáveis’’?

Temos também muitos outros riscos e ameaças que nos vulnerabilizam, sempre em associação com as práxis políticas. Temos os velhos hábitos, velhas batinas, velhos coturnos e as velhas togas que ainda atravessam os direitos humanos. A saúde de cada um e de todos passa ainda por muitos preconceitos arraigados e entranhados nas diferentes culturas do mundo globalizado.

Estes são os alicerces de nossas vulnerações atuais... Quando “velhos” não significar apenas passagem do tempo e idade biológica ou psicológica, mas sim fundamentalismos e conservadorismos ideológicos, como os apegos aos pijamas dos tempos da Ditadura militar brasileira.

O que teremos de lidar nos próximos dias nos demonstrará essa tríplice aliança entre a Política, a Religião e a Justiça. Em poucos dias teremos de ouvir nosso STF (Supremo Tribunal Federal) determinar uma resolução sobre as mulheres que tem ou não o direito a uma antecipação de seu parto.

Isso mesmo, antecipar um parto. Não é o que estão alardeando com abertura para um abortamento injustificado, ou como dizem um aborto generalizante de qualquer forma de vida.

Há evangelizadores fanáticos que usam as ignorâncias sobre o assunto, apregoam um falso respeito à vida, contanto que lhes tragam mais poder e enriquecimento, inclusive político. Estes constroem, com seu eleitorado cativo e alienado, um verdadeiro lobby no atual Governo Federal.

A realidade que cerca a maioria das mulheres que trouxeram ou trazem um concepto com anencefalia estão nas camadas menos favorecidas de nosso país. Muitas delas foram impedidas de acesso a seus direitos por preconceitos religiosos.

E a anencefalia foi gerada, na maioria dos casos, pelas próprias condições ambientais e alimentares destas cidadãs, não por sua crença ou afiliação partidária. Elas são simplesmente parte de um país que é campeão em algumas mazelas, e o 4º em anencefalias. 

As recentes atitudes ligadas ao campo dos Direitos Reprodutivos e Sexuais de mulheres nos desapontam. A atitude da Suprema Corte de absolvição de um ato de violência sexual contra meninas, que foi condenada internacionalmente, nos deixa com a preocupação dos rumos desta futura decisão sobre o corpo e a vida no feminino.

Se pudermos justificar, legalmente, um estupro também poderíamos ver justificada a negação do direito das mulheres sobre seu corpo e suas vidas? Perigamos cair nessa mesma atitude, ela sim portadora de uma anencefalia histórico-jurídica, e ver negado o direito de não sofrimento às mulheres com gravidezes com anencefalia.

O tema já tem alguns anos para chegar a dias a uma decisão. Em março de 2004, por uma ação conjunta do Anis (Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero) e Themis (Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero), pela primeira vez na história brasileira, chegou ao ST F o processo em busca da autorização por antecipação de parto por anencefalia. (*)

Há um excelente documentário a ser visto por todos os que ainda se apegam às afirmações de crime contra a vida para as mulheres que buscam solução para os casos de anencefalia. Trata da história, com o olhar bioético de Debora Diniz e Ramon Navarro, sobre o sofrimento de Tatielle, uma mulher do interior de Goiás. Há ainda milhares delas no Brasil...

Ela está grávida de um feto que não sobreviveria ao parto. Porém um padre que sequer a conhece a impede da antecipação do parto. Ela é mandada embora do hospital. Tatielle agonizou cinco dias as dores de um parto proibido pela Religião e pela Justiça. O nome do documentário diz tudo: HABEAS CORPUS.

Desejo que possamos fazer a maior difusão possível de alguns passos já dados pela Bioética. Como no desejo de seu criador, Van Rensselaer Potter, esta complexa área pode nos ajudar a construir uma ponte para o futuro. É a mesma ponte do passado que liga a personagem japonesa Orin à vida real de Tatielles brasileiras.

E essa ponte nos impõe dilemas que vão do início até o fim da Vida. Das vidas severinas mais humildes e humilhadas até as mais poderosas e ricas. As últimas ainda podem pagar por órgãos no mercado ou não frequentarem clínicas de aborto clandestinas... e sobrevivem.

Na montanha de Narayama dos tempos futuros continuariam sendo as mulheres, idosas ou não, os corpos sacrificáveis em nome de alguma convenção, norma ou tradição político-religiosa-cultural? Ou por novas políticas de saúde? Ou serão novas leis que, ao acompanhar a História, farão justiça real e efetiva para elas?

ENFIM, o que podemos pedir, humildemente, à nossas Supremas Justiças? Que primeiramente, para além dos cânones e dos princípios romanos do Direito, utilizem seus “mais uterinos” afetos, mas principalmente que julguem utilizando todos os recursos de seus cérebros, mentes e corações (selfs).

Segundo Damasio foram os cérebros que criaram os homens e sua consciência, assim como sua Humanidade, e não o contrário. Para o autor “...mais do que buscar a morada da mente, do self e da consciência no cérebro é levantar possibilidades de como essas capacidades surgem...”. Essas capacidades que nos auxiliariam a estabilidade de nossos organismos e a previsão do futuro.

Somente com um cérebro, com todas as suas possibilidades e limitações é que podemos refletir sobre a VIDA. Não precisa ser normal, nem mesmo perfeito, mas é preciso para a vida biológica que esteja lá.

A anencefalia, pelo não fechamento do tubo neural, é uma determinação intraútero da impossibilidade biológica de uma mente. Precisamos de um mínimo de self e consciência, mesmo que venham a ser totalmente incapazes de julgar, criticar ou condenar, após nosso nascimento. Afinal, somos ou não somos todos imperfeitos seres humanizados?

Portanto, pensando e refletindo sobre nossos futuros é que não podemos sacrificar nossos envelhecimentos, não podemos decretar a imortalidade, não devemos buscar corpos eugenicamente perfeitos, e, mais, não podemos negar a morte quando ela já se decretou dentro de útero...

LIVREM-SE OS CORPOS FEMININOS DE NOSSOS FARDOS E PRECONCEITOS, DE QUALQUER ESPÉCIE, TIPO, GÊNERO OU IDEOLOGIAS.... E seus direitos de Saúde Sexual e Reprodutivos sejam comemorados depois dessa semana na mais alta corte de Justiça de nosso país.

Não nos basta viver com dignidade, mas é indispensável e um direito humano o morrer com dignidade. Não é um direito a ser concedido ou julgado. É APENAS UM DIREITO... Humanamente vital, assim como a Saúde é fundamental para o gozo e exercício de todos os outros direitos.

E assim poderei reencontrar em mim o desejo indispensável de acreditar na chamada Justiça dos homens... E das mulheres.


PS- me desculpem caso o texto não agrade a todos e todas, mas o meu/nosso direito à opinião é e deve ser garantido, e minha saúde está afetada nestes dias. Além das dores habituais e velhas companheiras a minha mente foi turvada por uma sinusite aguda e a necessidade de antibioticoterapia. Retomo a luta pela Grande Saúde. Fizeram-me, as dores, buscar o recurso de meu self e da crítica para não deixar passar em branco e ao léu esses momentos jurídico-legais que virão nessa semana... assim com os que espero ter o direito de exercer no futuro.

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NOTÍCIAS citadas no texto na INTERNET -

OMS alerta sobre desafio de um mundo com mais idosos que crianças 


Após 8 anos, STF decidirá sobre aborto de anencéfalos 

Autorizada interrupção de gravidez de feto anencéfalo https://bioeticaebiodireito.blogspot.com.br/search/label/Anencefalia

Crise econômica é a maior ameaça à saúde no planeta, alerta CNS 

Acusado de estuprar prostitutas menores é inocentado no STJ



China prende cinco em caso de garoto que vendeu o rim para comprar iPad https://www.bbc.co.uk/portuguese/ultimas_noticias/2012/04/120406_china_rim_ipad_cc.shtml

FILMES CITADOS NO TEXTO:

A BALADA DE NARAYAMA – direção Shohei Imamura, Japão, 1983

HABEAS CORPUS - um filme de Debora Diniz e Ramon Navarro

LEITURAS INDICADAS-
E o CÉREBRO CRIOU O HOMEM – Antonio Damasio, Editora Companhia das Letras, São Paulo, SP, 2011.

TÓPICOS EM BIOÉTICA (*Interrupção da gestação em casos de anencefalia: opinião de mulheres de classes populares em Teresina – Gisleno Feitosa) – Sérgio Costa, Malu Fontes e Flavia Squinca (Orgs.), Editora Letras Livres, Brasília, DF, 2006.

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