domingo, 31 de julho de 2011

O JUQUINHA, E SUA CADEIRA , por uma Educação Diferente


Imagem publicada- foto de uma sala de aula no Mato Grosso, onde estão sentadas diferentes crianças, sentados em suas carteiras enfileiradas, e onde não encontramos nenhuma criança com deficiência, à primeira vista, tendo um menino de olhar interrogativo e calçando um par de sandálias (tipo havaianas) que se destaca nessa foto de Lenine Martins (Secom-MT). Ele representa o personagem criado por meu texto abaixo, caso consigam vê-lo ou imaginá-lo sentado em uma cadeira de rodas: o Juquinha.

Em homenagem a todos e todas que persistem na luta por uma Educação Diferente, Inclusiva, Laica, Pública e como um Direito Humano, republico o texto que foi distribuído no I Encontro Interestadual por uma Educação Diferente, realizado com o apoio e no espaço da UNIRIO, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, em 1997.

Era uma das primeiras iniciativas do DefNet em prol do debate, discussão acadêmica ou não, entre os diferentes protagonistas do movimento em prol da Educação Inclusiva no Brasil.

Tive a honra de organizar este evento, assim como de conhecer muitos e muitas que ainda estão ativamente discutindo e propagando as idéias fundamentais do processo de inclusão escolar, como, por exemplo, a Profª Drª Rosita Edler de Carvalho, que já me ajudou a colocar os pingos nos "is" da Educação Inclusiva.


O tempo passou mas nossas lutas continuam na direçao do aprender a aprender, e a cada dia mais ficam claras as heterogeneidades humanas que compõem os alunos do atendimento educacional especializado, e para tanto reconhecer suas diferenças poderá nos levar àquela tão sonhada e desejada Educação Diferente. Uma Educação, fundamentada em Direitos Humanos e no Multiculturalismo, tão necessário e tão combatido agora, uma dedicada educação para todas as formas e singularidades de Diferenças.

O JUQUINHA, E SUA CADEIRA ...”

(uma singela homenagem a Jacques Prévert e Cora Coralina, poetas-professores)
(recriação livre de texto de H. E. Buckley)

Once upon a Time, Era uma vez um menino, o Juquinha, muito Diferente, que contrastava com a sua escola muito Igual a todas, grande, cheia de escadas, alunos, professores, e a temível Diretora. Quando, um dia a mãe do Juquinha descobriu que ele precisava ir para escola, ela procurou, e descobriu que não tinha escola para “gente diferente” como ele.

E então ela tentou e conseguiu que esta escola igual a todas deixasse o pequeno Juquinha entrar pela porta da rua, todo feliz e inocente, porém ainda diferente.
A escola continuava grande, enorme, mas já não era tão grande como antes do Juquinha entender o que era a ESCOLA.

Um dia, numa daquelas manhãs que o Sol entra pela janela da sala de aula, a professora D. Norma, disse: “Hoje nós vamos fazer um desenho”.
Que bom!” pensou o Juquinha, que, aliás, não falava direito além de ser diferente.

Mas que sabia desenhar, e gostava de rabiscar papéis (e até paredes, quando a sua mãe não estava presente), ele desenhava bichos, brinquedos, meninos e meninas, e um ‘tal’ de ‘doutor’. Ele pegou sua caixa de giz de cera, pois isto ele conseguia pegar com a mão direita..., e começou a desenhar.

Então, de súbito, D. Norma disse: “Stop, Parem!!! Ainda não é hora de começar, eu não autorizei ninguém ainda...”. Ela olhava ‘furibunda’ para o Juquinha... E esperou todos os outros da sala ficarem ‘quietos e arrumadinhos’ para dizer: “Podem começar... e frisou, Nós iremos desenhar flores e árvores”, e começou como lápis verde, e disse (solene):
!”Como eu os amo muito Eu vou ensinar e mostrar como deve ser feita uma Flor...”.

E fez uma flor vermelha com pétalas amarelas e caule verde, bem certinha, e com as raízes fincandinhas no chão... TUDO muito arrumadinho e certinho como ela gostava...
Juquinha olhou, olhou e tresolhou a flor (ele ‘usa’ uma grande armação com lentes muito grossas, parecendo os antigos professores com seus óculos, os Lentes).

E não gostou da flor. Gostou mais dos bichos e das pererecas que havia desenhado, mas não podia dizer isto, além do que ele não falava direito, né??... Virou o papel, com algum esforço e desenhou uma flor IGUAL à da professora Norma. Era vermelha e com o caule verdinho.

Outro dia, durante a aula, depois de Ter dificuldade para entrar na sala de aula, o Juquinha ouviu a professora dizer: “Hoje nós iremos fazer algumas coisas com a Argila”.

Mais uma vez,pensou o Juquinha, eis a minha oportunidade de mostrar o que sei fazer com o barro, apesar de Ter o braço meio torto...Ele gostava de criar pequenos homenzinhos com a argila, e até carrinhos e caminhões ele já conseguiu fazer (muito embora esses objetos não sejam tão perfeitinhos assim, eles ficam meio tortos, feito o braço dele...) E foi logo pondo a mão na massa, aliás no barro.

Aí ouviu a voz retumbante de D. Norma: “ESPEREM!, NÃO mandei ninguém começar ainda..!!! e após aquele silêncio terrível disse do alto de sua capacidade e poder: “Hoje nós vamos modelar um prato... E eu vou mostrar como se faz isso direito. E vocês podem começar..” Fez um prato certinho e redondinho, perfeitinho, e até parecia muito bonitinho.

E o Juquinha olhou, olhou e tresolhou (às vezes as lentes ficam sujas, ainda mais no meio de tanto barro, e com tanto descontrole das mãos...), e ele viu que começava a fazer um homenzinho, baixinho, gordinho, defeituoso por acaso, mas ele NÃO podia fazer isto. E então ele amassou a argila e fez um prato, um prato bem fundo, embora raso e igual ao da professora.

Então sentado naquela cadeira, uma cadeira que nunca desgrudava dele, ele procurou aprender que era melhor esperar a D. Norma autorizar, com o olhar e sua fala forte, a fazer exatamente como ela. Afinal quem estava ensinando naquela escola ???!!! E logo em seguida aprendeu também a ficar quietinho, arrumadinho, sentadinho e bem comportado. Afinal quem estava ali para ser educado ???!!!

UM dia ele, o Juquinha teve de mudar de Escola. Esta escola era ainda maior e mais escola que a que tinha a D. Norma. Ele tinha de subir as grandes escadarias com a sua cadeira colada no traseiro, com pessoas ajudando, e entrar por aquela porta estreitinha da sua sala...

UM dia a sua nova professora, D. Orma disse: “Hoje, meus pequeninos, nos vamos fazer um desenho”.
QUE maravilha !!” pensou e exultou o Juquinha, e esperou que a ‘fessora’ dissesse o que desenhar.

E ela, como perdera “N” coisas de seus conceitos e preconceitos, não disse nada. Apenas andava calmamente pela sala. E se aproximou do Juquinha e perguntou:
Você não quer desenhar ??” E o Juquinha perguntou:
Mas desenhar o quê ??”
Eu não posso saber até que você faça” respondeu D.Orma.
Então o que posso fazer ??” retrucou o Juquinha,
O que você gostar e o que conseguir fazer...” ,
Mas eu aprendi a copiar e fazer sempre IGUAL, todo mundo deve ser igual na escola...” diz consternado, o ‘pobre” Juquinha,
Mas se todo mundo fizer sempre o mesmo desenho, e ninguém for diferente, todo mundo fizer flores vermelhas e caules verdes, ficaremos todos IGUAIS, e eu não vou poder saber quem foi o “artista” que andou pintando lindos homenzinhos, baixinhos, gordinhos e diferentes nas paredes desta sala, SEMPRE COM UM FLOR DIFERENTE NAS MÃOS...”

e o JUQUINHA DESENHOU PELA PRIMEIRA VEZ UMA CADEIRA DE RODAS, com um menininho segurando uma flor na mão...”


(Texto elaborado para o I Encontro Interestadual por uma Educação Diferente promovido pelo DEFNET Centro de Informática e Informações sobre Paralisias Cerebrais, em agosto de 1997 – Rio de Janeiro- RJ)

copyright – Jorge Márcio Pereira de Andrade 1997/2012 (favor citar o autor em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

LEIA TAMBÉM NO BLOG:

A EDUCAÇÃO DE PÉS DESCALÇOS(por um educação dos diferentes pés, calçados ou não)
http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/06/educacao-de-pes-descalcos.html

A AMIZADE COMO ALICERCE DA INCLUSÃO ESCOLAR - Saindo das fraldas?http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/07/amizade-como-alicerce-da-inclusao.html

A INCLUSÃO ESCOLAR AINDA USA FRALDAS? http://infoativodefnet.blogspot.com/2010/07/inclusao-escolar-ainda-usa-fraldas.html

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A TOLERÂNCIA É MAIS QUE UM BACALHAU NO MEU FEIJÃO COM ARROZ ? em busca da Empatia , para além da Antipatia...


Imagem publicada - a capa de um dvd do filme: "Arn,o Cavaleiro Templário", com o ator empunhando um espada, vestindo uma armadura e vestes brancas, manchadas de sangue, com o símbolo da Cruz que os cavaleiros templários ostentavam e defendiam nas Cruzadas. Este filme me retornou à mente após o atentado da Noruega, pois se trata de um conto de poder, coragem e traição, ambientado na Suécia, conta a inesquecível história de amor de Arn Magnussson, jovem culto e exímio esgrimista, e Cecilia, separados pela guerra entre cristãos e muçulmanos, quando ele é enviado como cavaleiro templário para a Terra Santa. A capa traz escrito: "a missão de um heróico cavaleiro nas sangrentas cruzadas", que justificaram, e ainda justificam, as ações de invasão, guerra e destruição dos que foram os primeiros acusados do que ocorreu em Oslo e na Ilha Utoeya. É a mesma cruz dos cavaleiros estampada no texto que o assassino e terrorista norueguês colocou na capa de seu Manifesto da Internet.(An European Declaration of Independence - 2083" Uma declaração de Independência Europeia - 2083)...

...em busca da Empatia , para além da Antipatia...
Eu confesso, não como bacalhau. Isso mesmo não posso nem com o seu cheiro à mesa, principalmente quando rodeado de boas batatas e muitos outros legumes, inclusive com meu idolatrado azeite extra virgem. Mas uma coisa é não gostar do bacalhau da Noruega. A outra é tornar todos os ''noruegueses, portugueses, espanhóis ou europeus'' que gostam deste prato em suas mesas, em motivo de repulsa, ódio, nojo, desgosto ou ''alguma coisa que não consigo engolir...''. Não podemos tornar nossos pratos, culturalmente identificatórios, em motivo para alimentar nossos fanatismos ou narcisismos de pequenas diferenças. Há muitos que não comem feijoada, principalmente, nesse momento, na Somália. 

O viking templário nos trouxe volta para a questão da tolerância. E fui buscar meus pensamentos sobre o tema. Descobri que já apresentei um texto de antevisão sobre estes seres humanos que confundem suas visões fascistas com a forma que cada um vê, experimenta e usufrui da Vida. Meu texto escrito para uma conferência em julho de 2006 já me colocava uma interrogação: Telepatia, Empatia ou Antipatia: por onde caminhamos nas trilhas da Diferença? Já o reproduzi, em parte, no meu texto A Máquina da Empatia.

Apresentei-o no XV Congresso de Leitura do Brasil. Na ocasião se discutia a temática deste importante evento. Era um "encontro que se propunha pensar as “crianças mudas telepáticas” em nós e para além das hecatombes e violências do cotidiano precisamos buscar um ‘metadiálogo’, ou seja uma conversa acerca deste problemático caminhar nas trilhas da diferença em um tempo de homogeneização e de produção serializada de subjetividades. 

Nossas trilhas das Antipatias se acentuaram, agora gritam para além das paredes de uma Escola em Realengo, escapando dos seus muros, agora sob vigilância, embora no esquecimento público. No texto de 2006 eu já afirmava: ... [naquele] Congresso que aponta(va) para as Crianças Mudas Telepáticas é (era) o desejo de uma maior implicação com a transformação da irredutibilidade dos processos de exclusão, assim colocados quando naturalizados, bem como dos processos de inclusão que podem nos fazer crer, a ferro e a fogo, que o melhor para os diferentes é torná-los ‘normais’...

Era e é um ato de fragmentação ou de glorificação de identidades, que o recente atentado da Noruega nos reapresentou. Hoje, reassistimos, telepaticamente, a busca da homegeneização e a negação das diferenças culturais. Tudo em nome de uma suposta diversidade cultural euro e egocêntrica de apenas um homem: Anders Behring Breivik. Ele me provoca novamente: por onde caminhamos nas trilhas da Diferença?

Trabalhei, agora repenso, com essas 3 palavras ao léu, três movimentos, três ações que podemos realizar no tabuleiro do xadrez das relações humanas. E, neste sentido, os desejos da distância (tele), do dentro e do mesmo (empático) ou de uma maior exclusão (antipática,) nesta época do apagamento das distâncias geográficas, poderão nos conduzir a uma falsa empatia, encobridora da antipatia e da xenofobia que estes Outros diferentes, próximos distantes nos causam..., com os quais só teríamos futuros contatos virtuais e telepáticos? 

O jovem cristão norueguês, lamentavelmente, confirmou meus temores e angústias diante dos olhares e ideologias de exclusão que já se alimentavam, como o Ovo da Serpente, há muito tempo.

A tolerância vem se tornando cada dia mais uma resultante, ou melhor, uma atitude reativa à intolerância, principalmente a que nos é provocada pela violência, pelos movimentos xenofóbicos, homofóbicos, pelo racismo, pela discriminação de pessoas com deficiência, pela segregação de pessoas com transtornos mentais, enfim, todos os movimentos que alicerçam as desigualdades sociais e promovem a Exclusão. 


Os nossos ''políticos'' de ''direita'' andam fazendo sua parte nessa Terra Brasilis, onde, na cabeça e no bolso nada rico de inclusão, conhecimentos e afetos, alimentamos nossas pequenas e latinas intolerâncias.

Mas como combater todos estes “males ou defeitos” se estão enraizados em nossas mentes e corações como preconceitos permanentes contra toda forma de alteridade ou diferença? O Outro é sempre um alienígena que virá nos destruir ou tomar a nossa querida e preciosa Terra. 

Continuamos, eurocentricamente bem educados, angustiados com a ''invasão'' de nossos pequenos territórios, nossas pequenas ''propriedades'', nossos castelos narcisistas, onde o ideal é erradicar os que denominaremos como o ''mal'' ou como uma ''anormalidade ou disfunção''.

O Outro sempre visto como o ‘mal’, tornou-se radicalmente uma invenção maléfica, como o disse Frederick Jameson: “o mal é caracterizado por qualquer coisa que seja radicalmente diferente de mim, qualquer coisa que, em virtude precisamente dessa diferença, pareça constituir uma ameaça real e urgente a minha própria existência....” , assim sendo podemos localizar os “bárbaros” fora de nossa sacrossanta e pura imagem de nós mesmos. Nascem as 'guerras santas'...

Os que não são idênticos a mim, pertençam a minha gang, classe, etnia ou utopia devem ser excluídos. E, afinal ‘malvados’ sempre serão os outros, que podem ser tanto um índio, um negro, um morador de rua, um doente mental, um favelado, um deficiente intelectual ou alguém que é estranho ou fala uma outra língua,ou come pratos considerados exóticos para minha outra língua...

O manifesto do jovem cavaleiro templário norueguês, com sua cruz na capa de seu manifesto pré-terror, nos recoloca, na Idade Mídia, dentro da cultura do Medo. Ele ataca sua própria gente e ''raça Viking''. No seu radicalismo eugênico e racista busca eliminar com uma bomba, simbolicamente o Estado multicultural e progressista.

Ele, fantasiado de policial ou guerreiro, é o mesmo que explode balas especiais nos corpos jovens de um Partido Trabalhista. Planejada e meticulosamente construiu o "mal" a ser exterminado. Projetou-o nos jovens da ilha, o mesmo que, textualmente, havia projetado nos estrangeiros, inclusive nós brasileiros. Os colonizados ou os ''infiéis' podem contaminar sua terra, seu povo, seu país e toda a Europa. 

Por aqui, na Terra Brasilis, os extermínios também podem estar usando fardas ou uniformes. Não somo menos violentos e mortais do que os países que preferem o bacalhau à feijoada oriunda de senzalas. Temos, temporariamente, um momento de empatia com os que são violentados ou morrem nessas espetaculares ações de terror. Mas depois nos esquecemos da Chacina da Candelária, de Realengo, da Zona Leste, do Jardim Ângela e outros espaços de marginalização, miséria ou desfiliação social.

O sofrimento momentâneo com o ''mal'' pode, por efeito anestésico e midiático, tornar-se uma naturalização. Aceitamos e nos ressignamos, apoiados em ideologias ou religiões, a presença de novas Cruzadas, batalhões de choque ou choques de ordem. A presença de uma dimensão macropolítica nos atos de fanatismos são banalizadas. E, saímos, à caça de explicações de especialistas sobre o desenvolvimento de novos/arcaicos fanatismos.

As xenofobias, as homofobias, os racismos, as intolerâncias, os sexismos, as discriminações ou segregações se alimentam do mesmo prato. Não é o bacalhau ou a feijoada. Estas se alimentam de ideologias duras que impedem o livre pensar, a crítica, a estética, e, finalmente a ética. É quando a não reflexão sobre nossas novas 'barbáries', imersos numa sociedade hipercapitalista, perversa e histérica, nos abre nos inconscientes, individual e coletivamente, as brechas para as paranóias fascistantes. Thanatós não pode ocupar todo o campo social ou vital de cada um e de todos nós.

A Tolerância que tem até um dia mundial, em 16 de novembro, bem perto do dia de Zumbi e da Consciência Negra, não é, portanto, um bacalhau a ser engolido, antipaticamente, com o meu/seu, aparentemente ''pobre e indigesto'', feijão com arroz de um país miscigenado, que nega sua cor de feijão preto. 

A "mardita tolerância", por ser uma criação humana para a convivência de diferenças, ao ser educacionalmente discutida nos faz, por exemplo, entender que há muitos pratos vazios, como os de outros negros, haitianos ou africanos, que produzem tantas mortes em série ou de massa quanto um massacre em um país considerado nórdico e civilizado. 

Eis algo que poderia nos gerar alguma forma empatia e, quem sabe, um aprendizado da árdua, quase impossível, harmonia nas diferenças... Eu, você, seu vizinho, o que vem de fora, os estrangeiros, os Outros, e, principalmente, os diferentes, poderemos tentar respeitar e re-conhecer outras formas de se alimentar ou viver. 

Isso, para além das antipatias, pode ser realizado, desde que a dignidade e autonomia de escolha superem todas as homogeneizações, todas as cristalizações fascistantes, todas as nossas negações do que há de político em qualquer forma de atentado à Vida...


copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011/2012 (favor citar o autor e fontes em republicações livre na Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Indicações para reflexão:
Em manifesto, atirador norueguês diz que Brasil é um país "disfuncional"
http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/internacional/2011/07/25/em-manifesto-atirador-noruegues-diz-que-mistura-de-racas-fez-do-brasil-um-pais-disfuncional.jhtm

Atentado na Noruega -Textos publicados na internet planejavam a "queda de Oslo"- http://www.ionline.pt/conteudo/139545-textos-publicados-na-internet-planeavam-queda-oslo

Noruega - http://pt.wikipedia.org/wiki/Noruega
Tolerância - http://pt.wikipedia.org/wiki/Toler%C3%A2ncia

Filme: Arn, o Cavaleiro Templário - http://pt.wikipedia.org/wiki/Arn:_The_Knight_Templar

LEIA TAMBÉM NO BLOG:
A MÁQUINA DA EMPATIA - incluindo a reinvenção do Outro
http://infoativodefnet.blogspot.com/2010/12/maquina-da-empatia-incluindo-reinvencao.html
A MORTE DO FANÁTICO NÃO MATOU O FANATISMO http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/04/morte-do-fanatico-nao-matou-o-fanatismo.html
DEMOLINDO PRECONCEITOS, RE-CONHECENDO A INTOLERÂNCIA E A DESINFORMAÇÃO http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/06/demolindo-preconceitos-re-conhecendo.html
ADEUS ÁS ARMAS: SEM TIROS NO FUTURO OU CEM TIROS? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/adeus-as-armas-sem-tiros-no-futuro-ou.html

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A AMIZADE COMO ALICERCE DA INCLUSÃO ESCOLAR - Saindo das fraldas?


imagem publicada - uma foto colorida de três meninos indianos, em Salesian, India, que me traduz em seus sorrisos largos e doces, assim como na mão, pousada por um deles no ombro do primeiro da foto, a captura e representação imagética de um dos mais profundos sentimentos que se constroem para e com a vida humana: a amizade. Um sentimento que D. H. Lawrence em sua poesia considerava 'mais profundo que o amor'.


A VERDADEIRA AMIZADE É A OPOSIÇÃO...William Blake (1757-1827)

Há um ano atrás escrevi um dos posts, texto deste blog, mais comentados e acessados até agora. Ele tratava da Inclusão Escolar. Indagava sobre a ultilização de fraldas pelo processo inclusivo. Perguntava sobre os modos e meios de uso das novas tecnologias e cuidados para inventar novos e criativos modos de efetivação do direito à educação. Um ano passou, novos acontecimentos, novas descobertas, novos avanços, mas ainda permanecem questões sobre o que é e como incluir pessoas com deficiência no ensino regular.

Uma das questões que mais me atormentam é a das barreiras educacionais que ainda permanecem quanto às pessoas com Paralisias Cerebrais. Principalmente quando se trata dos chamados ''casos graves e institucionalizados''. Creio que estas são mais intensas e mais sutis que as apresentadas pelas resistências da chamada Comunidade Surda ou pelos demais sujeitos com deficiência que defendem escolas especiais.

A escola enquanto um disposito, seguindo o pensamento de Giorgio Agamben, é apenas uma interface entre os seres viventes e o mundo (as substâncias que nos cercam ou cerceam) que produz, em serialização, o que chamamos de sujeitos. O processo de inclusão/exclusão não ocorre apenas 'entre os muros da escola'. Depois de Realengo e seus tiros reais não mais podemos crer que possamos tornar a escola e os múltiplos ambientes totalmente responsáveis pela formação de um sujeito. A educação é que precisa ampliar seu campo de atuação e de intervenção na formação de cidadãos e cidadãs, plenos, críticos e amorosos.

Há no campo educacional uma resistência maior provocada, no ato de incluir, quando se trabalha com a heteregeneidade de condições físicas, mentais e de linguagem que um sujeito com paralisia cerebral apresenta. A maioria das mensagens, comunicações ou notícias que leio, e depois retransmito, apontam para uma permanência de um modelo biomédico e reabilitador para as pessoas com paralisias cerebrais. Seja dentro de escolas, onde poucos permanecem ou têm acesso, ou nos centros de reabilitação e, principalmente, nas chamadas entidades que os mantêm em internação ad infinitum.

A mais recente notícia é: "portador de paralisia cerebral escreve livro contando sua história". È a de um homem de 40 anos, Dudu, que, segundo as descrições: " ...nasceu com paralisia cerebral grave (coreoatetóide com quadro de disartria) além de apresentar semi-dependência nas mais simples atividades do dia a dia". Ele conseguiu lançar um livro: "Minha Casa Verde", onde nos conta "ao longo de 47 páginas" a história de uma vida dentro e fora da instituição.

Este sujeito vive e é cuidado em uma entidade filantrópica. No texto diz-se sobre sua condição de paralisia cerebral: "Traduzindo: ele não sabe ler nem escrever e sua fala é desarticulada, o que dificulta a compreensão de quem ouve. Também não consegue realizar as mais simples tarefas pessoais, como tomar banho, trocar de roupa e nem mesmo se alimenta sem ajuda". Pergunto, então, aos 40 ele ainda usa fraldas? talvez sim ou não. Mas o mais importante é que ele é muito parecido com muitos amigos ditos P.C que conquistei. Segundo a reportagem é "dono de um carisma excepcional e de uma força de vontade inabalável, de levar adiante seu grande sonho...". Os amigos e amigas conhecidos e conquistados na minha história também o são.

Ele nessa busca de realização tem as mesmas características de Ronaldos, de Suelys, de Edgars, de Priscilas, de Sachas, de Carolinas, de Eduardos, de Malus, de mais de um amigo ou amiga que conheci ou vivo tentando re-conhecer. Todos eles e elas receberam o ''diagnóstico'' de Paralisia Cerebral. O que os diferencia de Dudu da Casa Verde?? Eles tiveram a chance de frequentar uma escola, pelo menos por um bom período, de conviver com uma família, completar um curso, terminar uma faculdade ou não, mas todos são amigos de amigos. Passaram e/ou ainda passam por processos de reabilitação, mas não ficaram 'pacientes'.

Eles e elas estiveram buscando com garra sair das imobilidades físicas geradas por seus diferentes quadros neuromotores. Fundamentalmente, também, são tão carismáticos e sonhadores como Dudu. Mas nenhum deles esteve ou está internado em uma instituição de reabilitação. Eles e elas não são menos e nem mais ''paralisados" que o Edu. São e foram apenas mantidos em plena inclusão social, com todas as barreiras e dificuldades que este processo apresenta e re-apresenta para pessoas com deficiência.

O sujeito Dudu está há muitos anos em uma Casa Verde. O mesmo nome que Machado de Assis deu ao local de confinamento dos ''alienados mentais'' do seu Alienista(1882). Ele nunca saiu de lá, pelo menos é o que nos diz a reportagem, assim como os demais 205 pacientes (internos). A sua possível melhor "amiga", Claudinha, está lá há mais de20 anos. E o que me faz pensar que talvez possamos um dia ter espaços de desinstitucionalização que não se digam amigos de pessoas tão carismáticas, porém mantidas, filantropicamente, tão institucionalizadas como milhares de outros dudus pelo Brasil a dentro.

Retornando a Agamben precisamos afirmar que: "O amigo não é um outro eu, mas uma alteridade imanente na 'mesmidade', um tornar-se outro do mesmo. No ponto em que eu percebo a minha existência como doce, a minha sensação é atravessado por um com-sentir que a desloca e deporta para o amigo, para o outro mesmo. A amizade é essa des-subjetivação no coração mesmo da sensação mais íntima de si."

Aqueles que só têm muitos amigos institucionalizados não "têm" nenhum amigo. Por isso é que o processo de educar para a inclusão irrestrita do Outro, da Alteridade e da Diferença de mim e do meu Eu, pode ser o devir e é o princípio de uma educação fundamentada em Direitos Humanos.

É uma educação potencialmente instituinte que pode subverter os endurecimentos afetivos que alimentam bullyings, rejeições, escárnios, apelidos ou discriminações. É nos corações que perderam a doçura que podemos alimentar os ódios raciais, étnicos, homofóbicos, xenofóbicos ou deficiente-fóbicos. Não há nesses espaços de dis-córdia, como produção de subjetividade, a possibilidade da empatia e do re-conhecimento do Outro.

Por isso defendi, defendo a busca de uma Educação Inclusiva e Diferente da que estamos vivenciando, nesse momento macropolítico, com tantas resistências e discursos de oposição. Cada segmento buscando a defesa de suas conquistas históricas. Cada forma de ser e estar com uma deficiência afirmando suas singularidades e seus direitos. Defendo, e,docemente creio, que todos poderíamos aprender muito mais se frequentassemos, com 'phylia', a desinstitucionalização de nossos feudos ou espaços segregados ou segregantes.

Quais são, então, os pilares da Educação no século XXI? Para além do aprender a aprender, há ênfase, entre estes, da amizade e o aprender a ser/estar amigo?

Uma pergunta final: quantos amigos ou amigas, mesmo que como oposição, tinha o jovem Wellington ?? Aquele jovem e futuro serial killer que denunciava o bullying em video, e que aprendeu apenas o desprezo que alguns com- sentem, fanaticamente, pela vida alheia. Aquele mesmo e idêntico escolar que sacrificou 13 jovens alunos em nossa Columbine Realengo. Aquele dos tiros reais, em um local/dispositivo onde se espera que aprendamos a fazer o oposto da exclusão e da Morte: a Escola de e para a Vida.

Assinado: Dr. Simão Bacamarte

Em tempo: lembrar que Paralisia Cerebral não é uma doença, e que os sujeitos com esta condição não são doentes ou portadores de uma encefalopatia,apesar de serem tratados e diagnosticados assim, baseando-se apenas no modelo biomédico. As paralisias cerebrais são as resultantes, diferenciadas, em graus variados, de uma lesão cerebral que lhes causou uma anóxia ou hipóxia antes, durante ou após o parto, sendo um grande número consequência de tocotraumatismos no momento do parto.

Hoje 07 de julho há um manifesto de apoio à Educação Inclusiva a ser apoiado, amanhã esperamos haja a manifestação de uma Sociedade indignada e crítica que se lembre desses ''diferentes'' que ainda permanecem em restrição de seu direito humano e inalienável à Educação, para além de quaisquer gravidades ou profundidades de suas sequelas ou incapacidades físicas, sensoriais ou mentais. E, teremos Dudus escrevinhadores com ponteiras eletrônicas e rastreadores de movimentos de pálpebras que se tornarão os livros digitais e acessíveis para todos e todas.


copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011-2012 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Referência no texto:
O que é o Contemporâneo? e outros ensaios
- Giorgio Agamben, Ed.Argos/UniChapecó, Chapecó, SC, 2010.

O Alienista - Machado de Assis - http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Alienista
http://www.livrosgratis.net/download/1826/o-alienista-machado-de-assis.html

Matéria citada e fonte:
Portador de paralisia cerebral grave escreve livro contando sua
história http://www.ogirassol.com.br/paginaviver.php?idnoticia=27093

Entidades de direitos humanos manifestam apoio à educação inclusiva http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=16844

Leiam também no Blog:
A INCLUSÃO ESCOLAR AINDA USA FRALDAS?

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O SURDO, O CEGO E O ELEFANTE BRANCO

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