segunda-feira, 23 de março de 2015

AS MASSAS, AS ÁGUAS, AS FLORESTAS E NOSSAS VIOLÊNCIAS...

Imagem publicada – fotografia publicada no site das Nações Unidas (Onu) com um grande poço de água, rodeado de uma quase centena de seres humanos, uma massa de sedentos, em pleno deserto da África, lançando seus baldes em busca desse vital elemento. Um elemento-vida que comemoramos ao mesmo tempo em que esgotamos. Uma pequena amostra de homens e muitas mulheres, com suas vestes típicas, suas moringas, seus potes de barro. O mesmo barro que soprado poderia criar o Homem, mas que estamos tornando cada dia mais seco, mais árido, menos Terra e mais devastação. E, juntos, poderíamos tentar mudar esse rumo. Entretanto, só usamos os barros para novos muros, novas segregações, foi-se o “tijolo” da conscientização política de Paulo Freire? Entram em cena as máscaras e as encenações, hipermidiáticas e hipercapitalizadas, que não educam e nem transformam.

“Nenhum homem é capaz de mostrar um rosto para si mesmo e outro na multidão por muito tempo sem acabar confuso em relação ao verdadeiro” (Nataniel Hawthorne – A letra escarlate)

Você deve estar se perguntando qual a relação ou aproximação que este título tem entre os termos e seus significados (e significantes). Porque relacionar as massas, hoje tão “populares”, televisivas e festivas, nas chamadas ‘’manifestações’’, com as águas, as florestas, que desaparecem? E, enfim, com nossas violências que recrudescem?

Primeiro como repetição, lembrar que estamos em tempos do que chamo de IDADE MÍDIA, depois lhes avisar que os temas são mais amplos e mais oceânicos do que minha vã pretensão. Não tenho como atingir em um texto, embora extenso para alguns, todas as dimensões destas transversalizações. Lembro que estamos em dias que se ‘’comemoram’’ como segregação, na visão local e minúscula, embora todos conjuntamente, propagamos como os ‘’dias internacionais’’, portanto universalizantes e igualitários.

Como assim? Os símbolos de massas atuais estão muito próximos do que Elias Canetti denominou e classificou em MASSA E PODER. Quando milhares que se pretendem milhões levantam suas faixas e seus “protestos” fico mais ainda convicto das lições dessa fundamental, não fundamentalista, leitura dentro de um viés de uma “antropologia patológica” sobre as interações do poder com as massas, seus cristais, seus símbolos, suas múltiplas facetas.

As massas recentemente revelaram um discurso de ódio, de discriminação e de dominação. Estiveram mais uma vez globais, convocando um ‘’vem pra rua”, mais uma vez pedindo: - “Veja, aceite como verdade e se aliene”. Essas maltas elitizadas que usaram, ao máximo, suas máscaras, ou personas, como se fosse uma manifestação de todo um povo, todo um país, toda uma nação.

Gritaram, fingiram-se ‘’revoltados’’, tiraram as roupas amarelo-verdes da Copa e, depois, de uma nova Marcha da Família pela Pátria, agregando desde golpistas, saudosistas da Ditadura, evangelizadores fundamentalistas, neo-nazistas até a  TFP. Passado o domingo e sua exibição, voltaram para seus sofás e suas varandas.

Demonstrou-se, entretanto, claramente, para os que querem enxergar, que podemos todos nos torna uma massa corrompida que cospe a Mentira e a Agressão para sua própria produção de farsa, daquilo que julga, freneticamente, combater: a corrupção.

Estes recentes fatos massificantes, que antevi em 2013, também confirmam como, por que e para quem podem se tornar um mar falso revolto,  por ondas fascistantes, areias movediças dos preconceitos e velhos rios turbulentos das Águas de Março de um Golpe civil-militar. Águas barrentas, vistas apenas um temporal, hoje só uma chuva que decantou essas areias, demonstrou que o “mar não tem limites internos e não está dividido em pequenos povos e territórios”.

O Tsunami instituído e politicamente desejado ainda não veio. Entretanto, mais uma vez, como repetição neurótica e histriônica, nos mostrou a máscara triste e carrancuda dos micro-fascismos instituídos e latentes em nós. Os monstros fardados, aparentemente adormecidos-anistiados, dos porões da Ditadura foram invocados, militarescamente, seriam e serão, como velhos refrões e clichês: os restabelecedores da Ordem e do Progresso.

 Essa mesma ordem que suprime o que mais precisamos: a diversidade, a floresta tropical dos conhecimentos ou atlântica das liberdades civis. Sabemos que árvores, simbólica e ordenadamente enfileiradas, lembram bem as milícias, as patrulhas e os exércitos.

Nenhum dos seus “indivíduos” escapará, como um símbolo, da atração pelo fogo grupal e seu incêndio, à destruição de sua própria existência. Como diz Canetti, dentro dessa imobilidade múltipla, com raízes bem duras e fincadas, os troncos (indivíduos) podem ser cortados, mas não movidos. Ficam como os campos arrasados ou minados. Restos de árvores que podem ou não renascer.

Segundo ele, “a floresta se converteu num símbolo do exército: um exército em formação, um exército que não foge (à luta) em circunstância nenhuma; que se deixa despedaçar até o último homem antes de ceder um único palmo de terreno”. 

Assim também se criam desertos e homogeneidades ideológicas. Assim, naturalizamos e banalizamos as violências dessas chamadas “manifestações pacíficas”, apesar de seu claro desejo de devastação do que escolhem como os “inimigos”: desde um Partido/Governo até os sem-teto, os sem-terra, os off-line.

Os “novos” oponentes ou ameaças, ou mesmo os que ficaram e ficarão fora, como já o são estes “divergentes embora emergentes” na Sociedade de Consumo e do Espetáculo. Para tanto basta que os marquemos com uma estrela vermelha ou mesmo aquela amarela do nacional-socialismo alemão. Um estigma, uma discriminação e identidade. Então viram menores infratores ou maiores delatores.

Os antigos “bodes expiatórios” só trocam o pijama listrado por uniformes pardos. Os velhos guerrilheiros pelas novas/velhas calças jeans desbotadas ou surradas.  E, alinhados com os nacionalismos, serão alistados nesse exército da salvação, vestirão novos ternos e novas gravatas políticas ou jurídicas. Proclamam sempre um novo país, mas mantem as velhas posturas despolitizantes das maiorias.

Surgem aí as violências subterrâneas, enraizadas historicamente nos muitos anos de colonização e escravatura. Os bem-nascidos continuam sendo uma suposta “classe”. A chamada “elite”, branca, culta, muito ou pouco rica e que não precisa de cotas. Uma parcela que se diferencia e tem como identidade a sua individualista forma de viver. Dizem-na sempre “média”. Para mim tornou-se mais que isso: supõem-se mais “normais” e “íntegros” do que qualquer Outro das chamadas classes subalternas ou inferiores.

 Incomodam-se com essa ascensão desses Outros, na maioria afrodescendentes ou ‘mestiços sócio-econômicos’, aos direitos sociais e às galerias dos shoppings, onde ameaçam os novos grupelhos de “nossos filhos com escola privada, smarthphones e roupas de grife (mesmo que estas sejam fruto de trabalho escravo)”. Seriam eles os novos bárbaros? Ou apenas são descendentes de outras raças, outras terras, outros planetas?

Nesses dias, tão comemorativos, inclusive daqueles que chamamos de pessoas com Síndrome de Down, muitas vezes vistos ainda com extraterrestres ou mongóis, portanto invasores, assim como os meninos e meninas negros em um shopping, é que percebemos o quanto ainda discriminamos, rejeitamos e fingimos aceitar essas diferenças e diferentes em nosso casto e puro mundo idealizado. Para eles abrimos espaços, já que estiveram muitos séculos fora-das-leis e dos direitos, em novas massas a serem incluídas.

E desejamos tanto usar o discurso da inclusão que acabamos por criar novos e sutis modos de exclusão, ou mesmo de extermínio, inclusive com as biopolíticas e as engenharias genéticas. Usaremos tanto o discurso da prevenção dos erros genéticos como os discursos falaciosos de suas proteções. Serão todos homogeneizados, todos reformados ou remodelados. A sua presença não significará sua garantia de re-conhecimento.

Se nos faltar a água, se cortamos todas as árvores, se secarmos todas as nascentes, desmatarmos e des-florestarmos nossas relações e afetos, assim massificados não escaparemos dessa insensibilidade cruel. Uma cruel compaixão.  O Outro excluído  pode ser a fonte a ser destruída. Ele encarna o que nos dizem ser o “Mal” ou “Mau”.

Esse Mal, o mesmo que ouvi gritarem das janelas e sacadas, que foi midiaticamente localizado em uma figura de poder. Esse Mal que ocupa mais espaço nas redes sociais que todas as vacinas para o HIV. Esse Mal que “tem de ser cortado pela raiz”, o mesmo que é banalizado quando olharmos para esses dados: “no Mundo 768 milhões de pessoas ainda não tem acesso à agua tratada; 2,5 bilhões de pessoas têm condições sanitárias ruins ou  péssimas; 1,3 bilhão não tem acesso à eletricidade...”(*).

 E, por exemplo, mesmo que sejamos uma parte invisível de mais de 25 milhões de pessoas com deficiência, ainda, para além das Leis de Inclusão, continuamos diferentes e desiguais. Afinal, a desigualdade já é ”natural e da Natureza” (inclusive da “humana”). Estes sujeitos ainda continuam, assim como os marginalizados, fazendo parte destes números apresentados acima. Ocupam, junto de jovens, negros, mulheres, lésbicas, trans, homossexuais, pobres e outros desfiliados a massa quase líquida como sua modernidade. Ainda são descartáveis. São "menores"?.

Não importa a falta de água, da privada ou da luz acesa, na casa ou teto desses “incômodos e estranhos vizinhos”. Importa, cada dia mais, o quanto de grana conseguimos ganhar, gastar ou poupar para nossos consumos autorizados, compulsivos e sacralizados. A escassez, inclusive de afetos, que produzimos ou somos coautores não nos sensibilizou nem um pouco. Esses Outros são apenas os que são “portadores” ou “desviantes”.

E o nosso vizinho, aquele ali do lado no condomínio (fechado ou sob vigilância crescente), é apenas um brasileiro “normal”. Mas se aplicarmos as lentes da Arendt, olhando-o trans historicamente, ele fica parecido com o ‘bom’ homem que foi Eichmann.  Como o oficial burocrático do campo de concentração nazista do passado, hoje, podemos ser apenas um bom pai, ou boa mãe, um sujeito de boa família, com um bom sobrenome, de tradição e de direitos. Somos e seremos aqueles que “nunca transgrediram ou transgredirão, ou violaremos uma lei, ou estacionamos em vagas prioritárias, ou nem vemos placas de trânsito sobre nossos tempos da velocidade”. Como dizem: estes seremos, os imaculados cidadãos e cidadãs “que nunca se corromperam e nem se corromperão”.

Entretanto, quando perdidos diante da seca e do incêndio da floresta, suplicantes por uma gota de chuva iluminadora, diante do enorme buraco negro de nossas securas humanas, nos tornaram uma máquina, um exterminador, ou um perigoso e voraz animal. A sua e a nossa banalizada violência agora pode ser grupal. Valerá tudo para que tenhamos o “poder” de “limpar a sociedade” dos que se tornaram os “culpados” de toda essa “desordem político-institucional e sócio-economica”.

Mais uma vez lembro Canetti: “No tratamento dos judeus (e todos os dissidentes políticos, ideológicos, raciais ou sexuais), o nacional socialismo (nazismo para os que ainda não sabem disso) repetiu da forma mais exata possível o processo da inflação. Primeiro eles foram atacados como maus e perigosos, como inimigos; depois foram sendo cada vez mais desvalorizados (associados à inflação e desvalorização do marco alemão);... e, no final, eles eram considerados literalmente como ‘insetos nocivos’, que podiam ser exterminados aos milhões”. E lema ainda é usado pelas corporações: Arbeit Macht Frei – O trabalho liberta...

Os “homens e mulheres do Bem”, nessa Idade Mídia, com suas cruzes ou seus tablets, armados e municiados da mais pura alienação ideológico-política, tornam-se os “novos cruzados”. Reapresentam a suástica no mesmo cartaz ou faixa que pede intervenção militar. Os anunciadores do apocalipse da Terra Brasilis vestem seus uniformes. Hasteiam a bandeira da Tradição, da Família e da Propriedade. Tingem os rostos como de fosse para uma guerra santa. Iludem-se, quiçá, alucinam, com a miragem que lhes foi vendida como oásis.

 E, aí, deixam o homem “comum” se tornar uma das forças do Mal. O mesmo que lá nas histórias totalitárias se transfigurava em legítima violência em nome da Segurança Nacional. Aquele que pode legitimar as piores torturas ou aprisionamentos. E, sedentos de identidade, tentarão, como massa inflacionária, como uma dengue, uma epidemia “legal”, contaminar o máximo possível em direção às massas que se pretendem um milhão.

Eles e elas, ao se vestirem em suas uniformidades bicolores, nacionalistas e excludentes, acabam por esquecer as cores de seus próprios corações. Afinal ainda dizem que nosso sangue comum é vermelho. Passam e desfilam em avenidas, mas nunca irão conhecer as vielas, as ruelas e os becos transversais. Afinal ainda reservam esses locais para o ‘’proletariado’’, “pobres”, “povo” ou “favelados”. Cuidado ali é uma comunidade onde as balas se perdem, os corpos podem ser arrastados, e, para sua segurança, procure a Rota.

Passado o calor do pequeno incêndio explorado por lentes de aumento, não desprezando seu potencial virulento e dessensibilizante, as panelas voltam para as mãos das empregadas domésticas. O nosso pão de cada dia é recheado de manteiga, os afagos nas PMs desaparecem, enchemos os nossos poluidores veículos com os combustíveis antes do fim do pré-sal, e nossas mesas fartas/opulentas continuam, assim como as televisões de tela plana e mentes também, imóveis como os eucaliptos em falsas florestas. Até sermos abatidos.

O único risco que corremos e corremos, se continuar essa Onda, é que tenhamos de lembrar que revoltadas deveriam estar essas pessoas off-line, marginalizadas de todas as redes, hora esquecidas e, apenas eleitoralmente, hiper “incluídas”. Entretanto, permanecem ainda vítimas de todas as violências, desde as urbanas visíveis às domésticas invisíveis. Violências e vulnerações já naturalizadas, em especial contra, aqueles que classificamos, como no Espetáculo das Raças, como vulneráveis, desviantes, desnaturados, desfiliados ou incapazes da auto-defesa.

Eles tenho certeza, não são e nem serão os que mais esperdiçam as águas, desmatam o futuro, mas podem vir a ser as massas que terão o papel de enfrentamento das neo-colonizações e dos novos Impérios.

ENTÃO, em seu nome, sem sua autorização, podemos, todos e todas, com “classe”, comemorar os dias ‘’internacionais”: da Criança, da Síndrome de Down, da Eliminação da Discriminação Racial e do Racismo, da Poesia, das Florestas, da Água.

E, como todo dia é de reinvenção e poesis, quem sabe um dia, em sonho e porvir, inventemos a não repetição de milhares ‘’Noites dos Cristais” de massa, milhares de dias de Muros a derrubar, seja em Berlim ou na Palestina ou no México,  milhares de Golpes a desmantelar já que nos demolem direitos humanos, milhares de  Falsas Re-involuções ou Massas Fanáticas, que não distribuem rosas ou cravos, mas sim distribuem, sem distinção de classes sociais ou econômicas, os piores espinhos ou venenos ideológicos.

Enfim, semeiam, mesmo nas mentes mais desérticas, os narcisismos das pequenas diferenças e o ódio ao Outro e à Diferença... Já nos re-conhecemos como massa, quando seremos uma multidão? Quando seremos nossa mais im-pura água semeadora de múltiplas florestas humanas, como plural das diversidades e das diferenças desejantes?

Copyright/left jorgemárciopereiradeandrade 2015-16 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios ou mídias de e para as massas)

LEITURAS CRÍTICAS PARA OS NEO-REvoltaDOS E DES-MATADORES DO FUTURO (assim como releitura para os que ainda sonham e são chamados de utópicos ou ‘vermelhos’, pois eu sei que sou e serei, poeticamente, sempre PRETO, trans-portando a combinação de todas as cores):

MASSA E PODER – Elias Canetti, Editora da UNB/Melhoramentos, Brasília, DF, 1983.
O ESPETÁCULO DAS RAÇAS (Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil)– Lilia Moritz Schwarcz, Editora Companhia das Letras, São Paulo, SP, 1993.

EICHMANN EM JERUSALEM (Um relato sobre a Banalidade do Mal – Hannah Arendt, Editora Companhia das Letras, São Paulo, SP, 1999.

SOCIALISMO OU BARBÁRIE (O Conteúdo do Socialismo) – Cornelius Castoriadis, Editora Brasiliense, São Paulo, SP, 1983.

O SILÊNCIO DO ALGOZ (Face a face com um torturador do Kmer Vermelho) – François Bizot, Editora Companhia das Letras, São Paulo, SP, 2014.

O QUE É VIOLÊNCIA SOCIAL - Antônio Zacarias, Daniel dos Santos, Jorge Márcio Pereira de Andrade, Ricardo Arruda, Escolar Editora, Coleção Cadernos de Ciências Sociais (Org. Prof. Carlos Serra), Lisboa, Portugal.

Indicações de matérias da Internet ligadas ao texto:


No Dia Internacional das Florestas, ONU lembra que 1,6 bilhão de pessoas depende delas para viver http://nacoesunidas.org/em-dia-internacional-das-florestas-onu-lembra-que-16-bilhao-de-pessoas-depende-delas-para-viver/

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –

ÁGUA PARA QUE TE QUERO? Dia Internacional da Água http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/03/agua-para-que-te-quero-dia.html

A CORÉIA DO FANATISMO POLITICO E O FANATISMO RELIGIOSO DO PASTOR: estamos no Século XXI? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/04/a-coreia-do-fanatismo-politico-e-o.html


RACISMOS, BARBÁRIES, FUTEBOL... ONDE ENTRECRUZAM AS VIOLÊNCIAS SOCIAIS? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/05/racismos-barbaries-futebol-onde.html

MOVIMENTOS, MASSAS, MANIFESTOS E HISTÓRIA: POR UMA MICROPOLÍTICA AMOROSA, URGENTE. http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/06/movimentos-massas-manifestos-e-historia.html

A MÁQUINA DA EMPATIA – INCLUINDO A REINVENÇÃO DO OUTRO http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/12/maquina-da-empatia-incluindo-reinvencao.html

domingo, 8 de março de 2015

OS DES(z)-MANDAMENTOS DO CORPO FEMININO

Imagem publicada–uma foto,que fiz recentemente, da exposição comemorativa em homenagem à "Mafalda", personagem criada pelo cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado Tejón, o Quino, pelos 50 anos dessa doce, mordaz e crítica invenção em quadrinhos. Nela vemos a Declaração dos Direitos das Crianças, do UNICEF, comentada por Mafalda e seus amigos, onde se lê, à direita, no décimo artigo: “A criança deve ser protegida contra influências que possam induzi-la a qualquer forma de discriminação racial, religiosa ou de outro gênero. Ela deve ser educada num espírito de compreensão, tolerância, amizade para com todos os povos, paz e fraternidade universal, e na consciência de que deverá colocar a sua energia e talento a serviço do próximo”. À sua esquerda estão Mafalda e um globo terrestre, onde a menina, apontando seu dedo de forma firme e decidida, diz: “E VAMOS TRATAR DE RESPEITAR ESSES DIREITOS, TÁ? VAMOS VER SE ELES NÃO FAZEM COM ELES O QUE FIZERAM COM OS DEZ MANDAMENTOS”. Uma referência de como o humor, do mais suave ao mais irônico, poderá nos ajudar a compreender como responder, principalmente às nossas meninas, o porquê continuamos tratando-as como o “segundo sexo”, ou melhor, o corpo negado e explorado, desde a infância ultrajada, sem que nenhum novo “des-mandamento” tenha realmente sido efetivado e vivenciado por elas.

“Sendo a própria substância das atividades poéticas do homem, compreende-se que a mulher se apresente como uma inspiradora: as Musas são mulheres... É através da mulher, cujo espírito se acha profundamente ligado à Natureza, que o homem sondará os abismos do silêncio e da noite fecunda. A Musa não cria nada por si mesma; é uma Sibila ajuizada que docilmente se faz serva de um senhor...” (ou melhor, se finge de servidão e submissão, quando se tornar realmente uma mulher livre) – Simone de Beauvoir (1949).

 A ELAS, para as quais devo proclamar novos des-mandamentos, questionando essa universalidade apenas por escrito, é que pergunto: Como lhes provocar, nova e insistentemente, o espanto e a revolta? Como lhes estimular a que não se tornem veículos, físicos ou até tecnológicos, da moda, hoje midiática, da discriminação ou do ódio? Como reinventar seus passos em direção à verdade sobre o amor e sobre o sexo? Como, enfim, ao falar ou escrever, tarefa quase impossível, e não interpretar o desejo feminino, mas sim torná-lo mais uma das forças desejantes de uma possível revolução molecular?

Para que os e as que me acompanham os meus pensamentos e divagações envio um texto-quase-bomba-afectiva, envio, quiçá, o que me demandam estes tempos tão pastorais e de novas repressões ou fanatismos. Envio um pouco de desmando, desmanche e desatino. Uma proposta de inverter e subverter todas as imposições que ainda recaem sobre um corpo-diferença que se tem tornado mais um corpo serializado na produção de Vidas Nuas.

A vocês, e aos que se sentem no feminino ao se deixarem tocar, envio estes DES-MANDAMENTOS, sem nenhum caráter oficial, macropolítico ou de cunho religioso. Pelo contrário peço que os leiam do fim para o começo, do meio para o depois, do hoje que já é amanhã para todas as mulheres daqui e do resto do mundo espetacularizado e sob controle.

Imaginem, como uma pré-visão, o Comando Central dos Exércitos dos Guardiões das Crenças e das Ilusões Masculinas promulgando uma série de des-mandos dirigidos às perigosas e, possivelmente, ameaçadoras (com certeza) mulheres que podem sabotar todas as imposições e todos os projetos de controle e de submissão de seus corpos femininos.

Eis alguns deles, como pura invencionice ou loucura:

1º - TODA MULHER não nasceu, não nasce e nem nascerá LIVRE!
Parágrafo único – Por isso e mais aquilo, por serem, por decreto das biopolíticas e psicobiologias, consideradas o oposto e a falha binária, é que urge afirmar todas, incontestavelmente, LIBERDADES... Caminhando nas estradas abertas contra todas as ‘MARCHAS RÉS’, principalmente aquelas que usam sempre o discurso instituído da defesa da família, seus falsos Estatutos, ou aquelas que reificam e glorificam Impérios, Estados ou divindades neo-capitalistas.

2º TODA MULHER não teve, não pode ter e não terá um verdadeiro “corpus” político!
Parágrafo único – portanto caberá a todos os votantes-que-não-votam, mas pensam que sim, o dever de lhes assegurar, não só no cenário e palco oficial, as suas múltiplas formas de exercício da Política, com participação inebriante no que chamamos de VIDA /POLÍTICA...

3º TODA MULHER, principalmente o que chamamos de “mulherzinhas perigosas e desviantes”, pode e deve, como no passado e nas Histórias, ser considerada uma VIDA NUA!
Parágrafo único – ao serem assim catalogadas e destituídas de suas humanidades, vistas apenas como seres biológicos, sob uma visão criacionista ou fascista, precisam ser/ter os seus ÚTEROS E SEUS CORPOS sob proteção inestimável, já que são e serão os maiores “focos” e “fogos” de re-existência possível, portanto, não se poderá prendê-los, negociá-los, trafica-los, comercialmente ou como cobaias, nos novos e sutis “campos de concentração das novas subjetividades assujeitadas”, inclusive pelas MEDICINAS BIOTECNOCRÁTICAS. Não poderão, a partir desta data, inclusive para o olhar psi, VIR A SEREM consideradas seres mal-castrados ou de castração possível.

4º TODA MULHER E TODAS AS MULHERES, inclusive aquelas que frequentam a Escola de Safo, NAS NOVAS ILHAS DE EDUCAÇÃO SÓ PARA CORPOS FEMININOS, será monitorada e VIGIADA, individual e coletivamente, COM O USO IRRESTRITO das câmeras e dos monitores, de seus desvios  ou DI-VERSÕES SEXUAIS!
Parágrafo único – como tal, dentro da nova FALSA FILOSOFIA que se baseia nos TONS, todas as MULHERES SEMPRE MENINAS devem E DEVIR SÃO, desde os seus berços, serem educadas e ensinadas sobre sonhos libertadores, ou melhor, sobre as infinitas possibilidades dos seus corpos, desde suas vaginas até as suas mentes divertidas, para além das funções e funcionalidades permitidas aos seus úteros visíveis. Devem ser alertadas, previamente, de que o CINZA SOLITÁRIO, SEM OUTRAS CORES OU SABORES, TENDE SEMPRE PARA A MORNO-TONIA VITAL, mesmo quando lhe aplicamos o molho SAZON-MASOQUISTA. Lembrar que nestas portas que se querem sempre escancaradas aos poderes masculinos, jamais foi possível impor, inclusive pelo medo ou temor, a suposta castidade, os cinturões e os vetos ao gozo e ao prazer.

5º TODA MULHER E MULHERES NÃO TERÃO acesso igualitário, assim como sua permanência e sucesso, aos espaços (inclusive os inacessíveis), sejam públicos ou privados, aos cargos, funções, status, e, principalmente, ao que já se naturalizou como O PODER MASCULINO!
Parágrafo único – tais, como gênero, assim catalogadas, dito feminino, podem e poderão ULTRAPASSAR os muros e barreiras, visíveis e invisíveis, INCLUSIVE AS MURALHAS DA CHINA, quando lhes propiciarmos , não a equiparação,  mas também os seus direitos aos sonhos e suas inerentes poesias corporais, aquelas que desmontam quaisquer das forças que lhes oprimem. Todas terão direito ao LETRAMENTO, das letras, das ideias, das críticas, das artes, das ÉTICAS e das mulheridades impossíveis.

6º- TODAS AS MULHERES OU MULHER, sejam singulares ou se pretendam plurais, são e serão INTERDITADAS, baseando-se em suas condições humanas de “menores” e por suas "IN-CAPACIDADES” inatas, e, cientifica e religiosamente, reconhecidas ”mundialmente”, assim como por alguns LEGISLADORES e EVANGELIZADORES DA CONSERVAÇÃO, COMO TARAS E DEFEITOS HEREDITÁRIOS. Passados de mães para filhas desde os tempos de EVA E LILITH.
Parágrafo único – ÁS MENINAS, tão fisicamente diferentes dos meninos e outras orientações, principalmente às que nasceram ou nascerão nos chamados locais de minorias ou marginalidades, deve e deverá ser garantido o exercício libertário dos desafios aos limites e limitações, sejam estas VISÍVEIS (impostas) ou IMAGINÁRIAS (resultantes da colonização de seus corpos e inconscientes). E se tornem DES-OBEDIENTES, ALGUMAS DES-VAIRADAS, OUTRAS DES-LUMBRANTES E A MAIORIA DES-MONTADORAS DEMOLIDORAS DE MITOS, PRECONCEITOS E ESTIGMAS.

7º- TODA MULHER, NASCIDA e assim determinada pela LEI, será acompanhada, como uma mercadoria valiosa ao Estado, desde seu berço, família, crenças ou ideologias, a fim de impedir DESVIOS MORAIS OU FUGAS PARA FORA DOS TEMPLOS E TEMPOS OFICIAIS!
Parágrafo único – às SUBMETIDAS, a estas judicializações e vigilâncias, será garantido, além da defesa, o prazer de transgredir e de violar quaisquer das PRÉ-DETERMINAÇÕES sobre o VIVER e a sua EXPANSÃO CARTOGRÁFICA e RIZOMÁTICA, com rompimento de todos os parâmetros, latitudes ou longitudes dos mapas pré-fabricados pela Sociedade do Espetáculo e do Controle.

8º- TODA MULHER deve e deverá obedecer a DISCIPLINARIZAÇÃO de seus corpos e de suas mentes/imaginários!
Parágrafo único – como há falhas nessa afirmação de suas condições de falta e não-falos, a elas será estimulado o alegre descobrir de suas MULTIPLICIDADES e SINGULARIDADES, incentivando as suas desmontagens dos papéis  e da identidades do Mesmo e das falsas igualdades.

9º-TODAS AS MULHERES NÃO terão re-conhecidas as suas potencialidades, para além dos já delimitados espaços domésticos e domesticados, sob o risco e riso da desconstrução do RESPEITO À HONRA dos homens pré-fabricados como “MACHOS”!
Parágrafo único – sabedores da permanência dessa fabricação, agora por meios mais eficientes e sutis, em especial pela midiatização do Viver, às mulheres será permitido ousar quebrar os tabus e as tábuas bíblicas, assim como algumas das cadeiras de ferro a elas destinadas pela HISTÓRIA OFICIAL e sua HISTORIOGRAFIA.

10º- TODA MULHER, ASSIM CONSIDERADA, deve não deixar de SER MULHER, PADRONIZADA E OFICIALIZADA, segundo os Princípios de todas as burcas e todas as algemas ideológicas das SOCIEDADES DO CONTROLE E  DA ORDEM, e, lógico, do PROGRESSO!
Parágrafo único e a ser demolido – como TODAS AS MULHERES trazem em si muitas outras, e algumas são e serão sempre OCULTAS E SECRETAS, a elas deve ser facultado o aprendizado das DIFERENÇAS e das PLURALIDADES, tornando obsoletos e descartáveis, não seus corpos, agora não mais VIDAS NUAS, todas as formas de IMPOSIÇÃO DA NUDEZ autorizada pelo Capital e pela Capital. TODAS AS FORMAS DE DES-MANDAMENTOS, aqui inventados ou sonhados, SERÃO QUEIMADOS EM PRAÇA PÚBLICA, assim como na Santa Inquisição, nos fascismos e nos diversos fundamentalismos APERFEIÇOADOS. E NÃO SERÃO MAIS REPRODUZIDOS, POR QUAISQUER MEIOS OU MÍDIAS, EM ESPECIAL PELAS REDES ONDE IMPERAM OS BOATOS, A INFÃMIA, A CALÚNIA E A DISTORÇÃO. E, como finalidade, RETIRAR O ESTIGMA DE FEITIÇARIA E BRUXARIA DOS CORPOS FEMININOS, que ELAS possam inverter sua posição, todas as posições, e continuar nos dando nossas impotentes ilusões de PODER...

Os e as que aqui se manifestarem poderão encontrar, de minha parte, como corpo autorizado pelo modelo/gênero masculino em nós naturalizado, uma “brutal e inconsciente” REVOLTA E REPRESSÃO afinal ter de se reinventar e desconstruir é quase uma tarefa, humana, IM-POSSÍVEL. E as POLÍCIAS DO PENSAMENTO, MESMO DISFARÇADAS DE LIVRE COMUNICAÇÃO, continuam e continuarão a nos castigar. E as multidões, como fogueiras, poderão vir, elas são ditas ou ditadas no feminino...

E, eu, um simples proclamador desses des-mandamentos também quero descobrir os outros CINQUENTA que  SE TORNAM DES-TOANTES das NORMAS E DAS NORMALIZAÇÕES sobre o viver... Se possível ainda CONTAMINADO E CONTAGIADO pelo MISTÉRIO e pelo INSONDÁVEL QUE É SER E ESTAR MULHER.

Copyright/left – jorgemarciopereiradeandrade 2015-2016 (favor citar o autor, no masculino, em todas as republicações livres pela Internet e outras formas de midiatização, inclusive as hipócritas, para as massas que não serão multidões)

Para LEITURAS CRÍTICAS
Sobre a história dos feminismos – O SEGUNDO SEXO- Vol. 1 FATOS E MITOS e Vol. 2 A EXPERIÊNCIA VIVIDA – Simone de Beauvoir, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ, 1980.

Sobre nossas tonalidades e des-coloridos afectivos e sexuais – SACHER&MASOCH – O frio e o cruel, Gilles Deleuze, Zahar Editores, Rio de Janeiro, RJ – 2009.

Sobre novas cartografias e suavidades do Feminino – CARTOGRAFIA SENTIMENTAL – Transformações contemporâneas do desejo, Suely Rolnik, Ed. Estação Liberdade, São Paulo, SP, 1989.

SOBRE O PERSONAGEM DE QUADRINHOS – MAFALDA - Conheça 'O Mundo Segundo Mafalda' em exposição gratuita e interativa (até 15 de março) em SP - https://catracalivre.com.br/sp/agenda/gratis/conheca-o-mundo-segundo-mafalda-em-exposicao-gratuita-e-interativa/

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MULHERES, SANGUE E VIDA, PARA ALÉM DE SUA EXCLUSÃO HISTÓRICA http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/03/mulheres-sangue-e-vida-para-alem-de-sua.html
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