segunda-feira, 30 de setembro de 2013

DEFICIÊNCIAS, MEMÓRIA E ENVELHECIMENTO – Qual é o nosso futuro?

Imagem publicada – uma fotografia colorida, que foi tirada com apoio e ajuda de uma jovem de 12 anos, minha filha, feita em plena manifestação de Junho de 2013, em uma Avenida de Campinas, onde vemos sentada, em primeiro plano, uma senhora, negra, segurando duas muletas, sentada no ponto de ônibus, tendo atrás dela, em pé e na rua, diversos jovens, em destaque uma jovem de costas com a bandeira do Brasil enrolada no corpo. Fiz essa foto para me lembrar do que poderia ser, além dos vinte centavos, outro motivo digno de manifestações ou de revoltas das multidões: o ‘esquecimento’ de nossos velhos, dos que estão sentados em outros bancos, principalmente de hospitais ou filas da Previdência. Esperando, esperando o futuro que passa, vestido de nacionalismos, cartazes que passam e rebelião popular que se esquece. Esquece de dirigir seu olhar e respeito para com esta que poderá vir a ser a sua própria imagem, um retrato que ainda está em seu devir...(fotografia de meu arquivo pessoal).

“...A memória dos velhos desdobra e alarga de tal maneira os horizontes da cultura e faz crescer junto com ela o pesquisador e a sociedade onde ele se insere.... Se alguém colhe um grande ramalhete de narrativas orais, tem pouca coisa nas mãos. Uma história de vida não é feita para ser arquivada ou guardada numa gaveta como coisa, mas existe para transformar a cidade onde ela floresceu. A pedra de toque é a leitura crítica a interpretação fiel, a busca do significado, que transcende aquela biografia: é o nosso trabalho e muito belo seria dizer, a nossa luta”. (Bosi, 2003a, p. 69)

Hoje, mais um dia de me lembrar, eis a memória, das minhas dores físicas. Elas se tornaram fiéis escudeiras do meu viver? Acho que sim, mas me fazem também refletir sobre uma encruzilhada na qual se encontram três “entidades”, ou melhor, acontecimentos existenciais: nossas deficiências, a nossa memória e o nosso envelhecimento.

Como diz, humildemente, Eclea Bosi, no texto de abertura, as nossas histórias de vida não são feitas para os arquivos, para o mofo ou o esquecimento, aí significando o abandono ou desprezo. Nossas histórias merecem outro cuidado diante dessa encruzilhada que o mundo nos apresenta, principalmente por sua lógica do descarte e do consumo.

Ouvimos, falamos, repetimos e naturalizamos a previsão e o agouro de que todos nós nos tornamos pessoas com deficiência, no futuro. Nesse momento, pela óptica biomédica, estamos ainda “com saúde”. Ideal e econômicamente saudáveis, como nas propagandas dos planos de 'saúde'.

Porém o que temos de refletir é como isso poderá ser modificado. Nossa atual concepção/paradigma de uma deficiência depende totalmente  do meio no qual se produzem as barreiras, os preconceitos e as limitações que levam um ser humano às denominadas situações de deficiência. É o novo paradigma social que muda nossos velhos conceitos sobre ser, estar e ficar com uma deficiência.

Não nascemos já com algumas "deficiências"? SIM, não nascemos na perfeição, no modelo eugênico e ideal, além de racista, de seres sem nenhuma mácula, defeito, imperfeição, falha, incapacidade ou qualquer estigma. Somos, desde sempre, quiçá para o futuro, os “portadores da vida imperfeita”. Apenas humanos, demasiadamente humanos. E também "portadores da transitoriedade e da finitude".

Hoje muitos estarão falando dos “velhos”. Senhores e senhoras. Os que recebem nessa data uma comemoração internacional. Um momento de lhes assegurar seu Estatuto e suas questões de vida e sobrevivência fundamentadas pelos direitos humanos. Porém, não lhes daremos nosso espelhamento e nossa re-visão crítica, aquela que a Ecléa nos pede e ensina. Nosso espelho do futuro está coberto?

Precisamos de outro e novo olhar para aquilo e aqueles que denominamos “velhos”. Prefiro como sempre disse usar o termo “antigo” para me referir ao que muitos dizem ser nossa Terceira Idade, nosso fim e terminalidade. Vejo aí sempre aquele olhar que se reproduz no símbolo que está nos estacionamentos, metrôs e outros espaços públicos onde passamos a ser a prioridade apenas com uma bengala. Curvados pelo Tempo.

Todos terão, como eu, de usar apoios ou meios de locomoção que são também símbolos significantes do nosso desgaste físico corporal. Serão todos corpos com o significante permanente da perda, do passado sem futuro, da história a ser esquecida? Não, temos de buscar essa encruzilhada e conversarmos cara a cara com a Memória, essa amiga próxima e íntima da Dona Morte.

E é a Dona Morte que nos assusta que muitas vezes nos rouba o que chamamos de memória. A memória mais roubada é a dos fatos recentes, a que chamamos de anterógrada. Porém, nessa óptica apenas neuropsíquica, o que mais temos temor de perda são as memórias do passado. Já que as cultivamos, como uma flor destinada a murchar, as nossas lembranças, nossos velhos retratos, nossas antigas músicas e amores. Principalmente os amores regados com a nova suavidade dos encontros alegres.

Por isso hoje temos de rever esses conceitos naturalizados sobre uma época do viver que todos e todas temos de viver: o tornar-se idoso. Na nossa sociedade, ainda é regida pelo Estado do Bem Estar e da Saúde Eterna, continuamos na busca alquímica da “fonte da juventude”. Simbolizamos aí o nosso temor/terror da pele enrugada, dos movimentos lentos, das falhas e lapsos da memória, dos conflitos transgeracionais, e, “naturalmente”, nos tornarmos os “rabugentos”.

Uma mão com sua pele encarquilhada, com suas veias mais visíveis, com sua motricidade fina diminuída, com a lentificação dos movimentos, independentemente, do poder segurar um pincel e repintar, finamente, a própria imagem, hoje, pelas novas tecnologias, não encontrará nenhuma barreira se as puder utilizar sem barreiras. Porém o tornar-se mais um na deficiência está acompanhado, quase sempre, de uma probabilidade de não acesso a estes recursos ou tecnologias assistivas.

O pensar o nosso, o seu, o meu e o de todos, envelhecer em uma sociedade de vidas descartáveis é uma reflexão indispensável. Ou melhor, deve ser pensável e imprescindível. As vulnerações, ou seja, a produção de novas vulnerabilidades, em tempos de incertezas, desde o macropolítico até ao micropolítico, nos apresenta outra encruzilhada: - o aumento de nossas expectativas de vida, com ele o aumento das ‘deficiências’ dos sistemas de proteção social e previdenciária, e, inevitavelmente, o incremento de barreiras que propiciem mais marginalização e/ou exclusão social.

Portanto, ainda estamos nessa busca de qualificar quem, que mecanismos, que lógicas e que políticas tem produzido os mitos que cercam essa tal ‘feliz idade’. Os mitos que as colocam como beneficiárias e não como agentes da mudança de suas vidas. Presas fáceis dos modelos reabilitadores e biomédicos e suas mitificações, quase religiosas ou milagrosas. O mito de uma vida de eterna juventude.

Reforçam-se aí os mitos quando estes 'velhos' são excluídos do mercado de trabalho, com sua retirada para os aposentos domésticos. Os mitos que as convertem e novos e dependentes endividados dos empréstimos bancários especiais para estes aposentados. E, finalmente, os mitos, reforçados pelos ideais de Saúde plena, com sua re-habilitação  que se torna exclusivamente dependente dos avanços da medicina e das biotecnologias. Ficam, então, reféns da visão de que realmente estão mais próximos da Dona Morte do que da Vida.

É este o futuro que desejamos? É este o futuro que estamos providenciando e produzindo? Um duro e não harmônico futuro. Não aprendemos, ainda,  ir em busca da velha tradição oral? Que tal reaprendermos a escutar atentamente os nossos “velhos”.  Enfim, para uma escuta sensível e não como uma escuta que reforce nossos preconceitos ou mitos sobre o envelhecer.

Eu, aqui, como já disse no início, continuarei meu aprendizado, embora árduo, do conviver com um corpo que não é mais o dos “vinte anos”. E não usarei o vinho ou outros componentes que nos embriagam com a ideia fantasiosa de que “quanto mais velho, melhor”. Este é outro mito a ser superado. Só somos melhores quando nossas qualidades do viver também o são. Quando a vida é digna e os direitos não são só de papel.

Eis, então, a questão: mudaremos nossos paradigmas sobre as deficiências, as memórias e os diferentes, diversos, plurais e humanos envelhecimentos? Um belo fim para alguns pode ser diferente do que outras pessoas, nas suas diferenças, desejem e aspirem para seu futuro. O que podemos, então, a elas, humanas, demasiadamente humanas, dizer sobre o futuro?

Não tenho a sua resposta, não tenho mais que a permanência na dúvida e na indagação, estas que fazem com que supere quaisquer das minhas atuais limitações. São as mesmas que fazem que eu queira ter direito ao meu Testamento Vital. As mesmas que me impedem do afundar ou desaparecer dentro das areias movediças das certezas científicas ou dos dogmas religiosos.

Enfim, para não prolongar o texto, apenas para lembrar este contexto, esta crônica de uma comemoração do Dia Internacional do Idoso, desejo que nossos corpos, corações e mentes, não perdendo a paixão e o vigor, busquem, individual ou coletivamente, uma nova visão micropolítica e cartográfica do viver, mesmo com os limites, sem pedidos de complacência ou desejos de retorno ao suposto nirvana dos úteros maternos.

Não deixemos apagar a Memória. Principalmente aquela que exige um respeito e reaprendizagem: a da nossa História. A mesma, ouvida dos velhos, sobre as nossas naturalizações e banalizações das violências, das vulnerações e nossa capacidade de destruir, em segundos, o que levamos séculos para produzir, construir, arquitetar e transformar em beleza.

Avancemos, com dignidade e luta, para os braços da Dona Morte, com a certeza de escrevemos, conjuntamente, outra história sobre o viver e o Super-viver, não apenas o sobreviver. E os de mais idade, mais tempo cronológico e biológico, estarão entre nós...

E deixaremos envelhecidas memórias, um tanto ‘deficientes’, mas não escondidas nas gavetas de “velhas escrivaninhas” neo-tecnológicas chamadas de computadores.

Eu, solidariamente, estarei mais velho quando o meu pai fizer os seus 104, 105 e 106 anos...

Copyright/left – jorgemarciopereiradeandrade 2013/futuro (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa)

LEITURAS CRÍTICAS INDICADAS –

Memória e sociedade: lembranças de velhos. Ecléia Bosi, São Paulo: Companhia das Letras. (1994 – um texto sempre renovador e implicado com a vida, sem temor da finitude).

Bosi, E. (2003). O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. São Paulo: Ateliê EditoriaI.

SOBRE O DIA INTERNACIONAL DO IDOSO - Dia Internacional do Idoso comemora expectativa de vida na terceira idade http://www.jornalnanet.com.br/noticias/7520/dia-internacional-do-idoso-comemora-expectativa-de-vida-na-terceira-idade

Notícia acrescentada em 2015 - Vivemos mais mas isso não quer dizer que sejamos mais saudáveis (diz a OMS) http://www.noticiasaominuto.com/mundo/461954/vivemos-mais-mas-isso-nao-quer-dizer-que-sejamos-mais-saudaveis

LEIA TAMBÉM NO BLOG


AOS 103 ANOS AINDA SE APRENDE ALGUMA COISA? 

O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTE,E, ENTRETANTOS, O MEU PAI FAZ 102 ANOS - http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/04/o-mundo-envelhece-as-injusticas-ainda.html


A MÁQUINA DA EMPATIA - INCLUINDO A REINVENÇÃO DO OUTRO - http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/12/maquina-da-empatia-incluindo-reinvencao.html

MOVIMENTOS, MASSAS, MANIFESTOS E HISTÓRIA: POR UMA MICROPOLÍTICA AMOROSA, URGENTE! http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/06/movimentos-massas-manifestos-e-historia.html

ENVELHE=SER OU TORNAR-SE, + 1, VELHO? 
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/04/envelheser-ou-tornar-se-1-velho.html

12 comentários:

  1. Veja essa matéria:http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2013/09/envelhecimento-prejudica-tomada-de-decisoes-racionais-diz-estudo.html

    ResponderExcluir
  2. Amo conversar com os idosos, eles tem muito a nos ensinar com suas experiências de vida.

    ResponderExcluir
  3. É muito gostoso ler seus textos. Sempre aprendo algo novo e enriquecedor

    ResponderExcluir
  4. Seu texto é maravilhoso, real, intenso e nos convida para uma reflexão sobre..
    É para este caminho que queremos: envelhecer, mas com a dignidade que merecemos e que temos direito.

    ResponderExcluir
  5. O senado romano (Senatus) foi a mais remota assembléia política da Roma antiga, com origem nos Conselhos dos Anciãos da antiguidade oriental (4000 a.C.). Era a assembléia dos patrícios que constituía o Conselho Supremo de governo na antiga Roma. Um conselho assessor integrado por anciãos, donde vem o seu nome (senex, senectus, que quer dizer ancião, velhice, cabelos brancos).

    ResponderExcluir
  6. O melhor da maturidade Jorge é ter a capacidade de observar e de forma muito lúcida expor a realidade do modo como você o fez...envelhecer é estar ciente de que já fomos jovens e quase perfeitos. Aceitar o que a idade traz vai muito além da sabedoria, o que aqui deixas bem claro...as nossas limitações futuras deveriam nos levar a preparar o mundo para nos acolher de forma digna, valorando nossas habilidades...Parabéns pelo seu dom da palavra e pela sua saúde intelectual! Um grande abraço! Débora Scariot

    ResponderExcluir
  7. Idosos ou ancião são pessoas com uma carga enorme e enriquecedora de experiência,magnifico amigo Mario adorei!Parabens meu amigo como sempre fazendo coisas maravilhosas

    ResponderExcluir
  8. Ninguém melhor para comentar seu artigo: "A esperança tem duas filhas lindas:
    a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; e a coragem, a mudá-las". Santo Agostinho
    PS: como não conseguia postar de outra maneira, postei como "anônima" embora tenha aversão ao anonimato. Aqui fala, portanto, Andréa L.B.Motta

    ResponderExcluir
  9. Lindo texto (como sempre!) e muito útil para a pesquisa que estou fazendo sobre envelhecimento e deficiência. Abraços!

    ResponderExcluir
  10. Lu Morales
    Foi escrito com a alma, assim como Nietzsche escrevia com o sangue.

    ResponderExcluir