sábado, 1 de outubro de 2011

NENHUMA DOR A MENOS OU A MAIS


Imagem publicada - A alegoria de duas mãos, juntas, estendidas porém abertas que libertam quatro borboletas, cuja cor predominante é o vermelho. Um desejo de ficar livre ou de libertar que está dentro de cada um e de todos os seres humanos... mas que muitas vezes, ou quase sempre, pode se tornar exatamente o seu oposto, se não damos asas às nossas frágeis e insistentes borboletas imaginárias.


Estes dias tive um sonho. Era um sonho agitado e de final surpreendente. Estava cuidando de um pássaro que minha filha gostava muito: uma calopsita. E, apos tentativas de aprisioná-lo o danado do voador não parava em nenhum lugar. Tento aprisioná-lo na gaiola e não consigo. Após um tempo ele está encurralado e ao me aproximar ele me bica o dedo. E, eis que aparece o que estava latente nesse sonho cheio de vôos e peripécias: uma dor indescritível. O dedo que aprisiona é aprisionado e preso na dor...

Mas o sonho não fica por aí. E como uma redenção dessa dor aparece um filhote de pássaro, que não consigo lembrar qual, ele pousa, suavemente, na ponta de meu indicador. E lá fica para meu espanto, no que me apresso para chamar a atenção para esta suave e doce lembrança à minha filha, mas ela não me ouve e o sonho se esvai.

Fiquei matutando sobre os possíveis significados desse sonho, e excluídas as ligações freudianas mais óbvias e já banalizadas, pensei no melhor significado para a minha ´própria' vida. Era a Dona Morte conversando novamente comigo, mas através de uma mensagem Epicurista: a dor só pode ser combatida com a felicidade.

Minhas atuais leituras estão me levando a considerar o tema da dor como muito próximo da morte. Estive mandando as minhas Cartas à Dona Morte. Porém como ela não entende essas '' mal traçadas linhas'' ou melhor nem dá bola para nossos queixumes ou interrogações, não tive ainda nenhuma ''resposta oficial''. 

Apenas esses telegramas oníricos, que, se devidamente interpretados, podem nos trazer muitas mensagens ou melhor algumas missivas até extensas e complexas. Mas só aprendemos sobre nossas dúvidas geradas por esses metadiálogos se nos tornamos ''meio-filosóficos'', ou melhor, produzimos novos e intrigantes conceitos.

Nessa linha de pensamento é que meu atual livro de cabeceira é: Crônicas da Dor, de Melanie Thernstrom, que, partindo de suas próprias vivências dolorosas, constroi um didático e envolvente caminhar pela história da Dor na vida humana. É o que mais tem me feito refletir sobre a relação de cumplicidade da Sra. Dor com a Dona Morte. Este livro pode ajudar a libertar algumas borboletas resilientes em nós.

Explico isso pelo viés da Bioética, pois é no ápice da via crucis de quem está com uma dor insuportável que pensamos ser melhor a via libertadora da morte.
É, por exemplo, quando estamos no leito de uma UTI e nossas 'dores' só são 'parcialmente' aliviadas. Nesse momento, mesmo que negando, a idéia de uma solução final nos aflige. É o momento crucial de resolvermos como nos livramos desse algoz, desse torturador, desse infame que nos vilipendia e atormenta a nossa frágil constituição humana. Até Freud o vivenciou em seu leito de morte...

Penso e já pensei antes que muitos dos que foram humilhados, seviciados, destituídos de suas resistências, como o foram os que passaram pelos porões da Tortura institucionalizada no Brasil, estiveram muitas vezes próximos demais de aceitarem a ''fruta ou o elixir que aplaca todas as dores'', o doce e inconsciente veneno da autodestruição: o suicídio redentor. 

Creio que foi este o bálsamo que foi ingerido pelo Frei Tito de Alencar, assim como outros suicidados pelo regime militar brasileiro. É no momento do ápice de dor de um torturado que a perversa ação de um torturador busca sua total entrega e derrocada. É nesse momento que muitos também, amarrados física e mentalmente, passam pela perigosa ponte em busca da Dona Morte como ''salvação". Pode ter sido isso que atravessou a mente de uma criança, o Davi, na Escola Alcina Feijão ao se suicidar?

Segundo Thernstrom: " Sentir dor física é estar num terreno diferente, num estado do ser diferente de todos os outros, numa montanha mágica tão distante do mundo conhecido quanto a paisagem de um sonho..." Por isso entendi a busca libertadora do '' passarinho vivo e pequeno'' de meu sonho. Era e é o indica-dor.

Muitas vezes, após as anestesias que inventamos, a dor pode cessar um pouco. A gente acorda, mas a lembrança não é de um sonho para quem têm a dor que persiste e insiste, sempre acordamos como que de um pesadelo, e tentamos esquecê-lo o mais breve possível. Mas como já disse uma poetisa, dramaturga e 'doente mental' portuguesa, Emma Santos: "... por mais que tomes suas drogas, como os amplictil, os haloperidol, os outros, o AMANHÃ SEMPRE VEM..." (O Teatro)

Para os que vivem com a dor, e dela extraem algum aprendizado, pois estamos agora mais livres e democráticos, é que afirmo e confirmo o que já escrevi: o alívio da dor é um direito humano. E será mais ainda se conquistarmos um outro olhar e um outro modo de cuidar da Medicina diante da dor crônica. 

Mais ainda se conquistarmos mais adeptos para o reconhecimento do princípio bioético da Justiça e da Autonomia como pilares fundamentais e indispensáveis para o exercício da beneficência. Devemos caminhar para um futuro onde haja espaço para compreensão e o respeito à dor do Outro. E QUE TODOS OS ALGOZES SEJAM BANIDOS, em especial todos os torturadores... A eles em verdade nunca coube ou deverá caber o perdão nem a Anistia.

Da mesma forma que estamos desejando, apesar das resistências conservadoras, passar a história dos Anos de Chumbo a limpo também deveríamos aprender a história da dor. Ao conhecê-la e, quicá compreendê-la, experimentando sua complexidade, mudar nossos paradigmas. Ao mudá-los tentar compreender que dores físicas não podem ser reduzidas, por nossa onipotência e impotência curativa, a meras situações de ''fantasmas, fantasias, depressões ou histerias''.

O CORPO NÃO PODE SER REDUZIDO A APENAS UMA METÁFORA OU A UMA VIDA NUA, em todos os espaços e latitudes, seja em uma atendimento médico ou em uma sala de torturas. Em ambas, como exemplo, o exercício de poder deverá sempre ser contrastado pelo novo paradigma ético e bioético de ressignificação da VIDA DIGNA, e, portanto, do direito à não-dor e o ardor do viver....MITO, SONHO ou POSSIBILIDADE?

Faltou dizer que no sonho que tive, para aliviar a dor imensa que sentia vivenciei um dilema: só poderia me livrar da dor se o frágil pássaro preso a outra mão fosse morto. Fiquei sem saber a resposta desse dilema., preferi, talvez por meu temor da Dona Morte, uma saída vital e inventei um pequeno ser voa-dor que suavemente me indica como sair desse aprisionamento sem pactos com a Dona citada: dar asas às minhas mais férteis e loucas imaginações... e voltar a sonhar com um dia sem nenhuma dor a menos ou a mais.


copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Indicação para Leitura e reflexão: AS CRÕNICAS DA DOR - Tratamentos, mitos, mistérios, testemunhos e a ciência do sofrimento - Melanie Thernstrom - Editora Objetiva, Rio de Janeiro, RJ, 2011.

Leia também no BLOG:

O APRENDIZADO DA DOR - O ALIVIO DA DOR É UM DIREITO HUMANO?http://infoativodefnet.blogspot.com/2010/09/imagem-publicada-foto-de-uma-mulher.html


9 comentários:

  1. Jorge, excelente texto, que me fez lembrar que mesmo sem a dor física, quando estamos diante de uma grande ameaça, quando o outro é que tem o poder de nos tirar a vida, no caso de estar diante de um torturador ou do cano de um revólver, a morte, mais até do que sedutora, torna-se imediatamente uma alternativa natural.Nesse instante, se ela acontecesse, existe a sensação de que não haveria mais dor e aflição, porque dói na alma não termos o direito sobre as nossas atitudes, sobre a nossa liberdade.

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  2. Sempre Parabéns, parceiro.
    Este belo texto coloca reflexões em muitos importantes níveis, como sempre em sua escrita.
    Obrigada,
    Ana

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  3. Vou enviar para amigos tanatologistas...

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  4. Jorge Márcio, muito bom ler algo sobre a dor escrito por alguém que dá "asas às frágeis e insistentes borboletas imaginárias". Talvez por conhecê-lo e confiar no que está escrito, pude perceber minhas dores e até chorar por elas enquanto lia seu texto. Eu sei o que Emma Santos quis dizer com: "... o AMANHÃ SEMPRE VEM...".
    Gostaria de aprender a história da dor, "conhecê-la e, quicá compreendê-la",e divulgá-la numa tentativa de mudança de paradigmas. Ao me deparar com a incompreensão, com a redução da dor "a meras situações de ''fantasmas, fantasias, depressões ou histerias'', me sinto mais frágil na luta pelo direito de não sentir dor.
    Muito bom reencontrá-lo, mesmo num momento de dor. Espero eu, uma dor que liberta.
    Um forte abraço, Íris

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  5. Para os que vivem com a dor, e dela extraem algum aprendizado, pois estamos agora mais livres e democráticos, é que afirmo e confirmo o que já escrevi: o alívio da dor é um direito humano. E será mais ainda se conquistarmos um outro olhar e um outro modo de cuidar da Medicina diante da dor crônica.

    Mais uma vez, estou consigo Jorge. Acho os teus blogs uma marravilha, cheios de inspiracao. Estou bem de acordo contigo que a Morte e a dor tem uma ligacao - de facto mesmo o Profeta quando atingiu a agonia disse repetidas vezes a "morte doi"...

    E concordo que se deva empreender todo o esforco para encontrar mecanismos de alivio de dor (e que isso e direito do homem). Contudo, e espero que estejamos em comum fio de pensamento, que nao seja pela morte voluntaria (eutanasia). Por um lado porque a pessoa quando esta desesperada qualquer coisa aceita, nao pensa se isso e o melhor para si ou nao e, por outro, porque na verdade o alivio da dor pela morte fica entre os vivos e nao na pessoa que morreu.

    Continue postando que leio com todo o prazer.

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  6. Um texto exelente eu gostei muito parabéns .

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  7. Gostei muito de ler parabéns um abraço Alcione

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  8. Reli seu texto e pude sentir dentro de mim a mesma dor que o atravessa. Já passei por dores imensas, não dessa mesma ordem, mas mesmo diferente, mesmo que não conheça a profundidade da dor física, salvo por tempos breves, posso reconhecer uma dor que clama pela morte salbadora.

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  9. Gecy Maria Fritsch klauck25 de setembro de 2016 19:53

    Vc como ninguém caro doutor consegue surpreender dessa maneira.....
    Confesso....sem palavras... Gratidão pela reflexão profunda.... abraço

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