sábado, 14 de julho de 2012

ROBÔS, POLÍTICA E DEFICIÊNCIA.


Imagem publicada – uma foto em preto e branco sobre um filme, dos anos 30, sobre a presença e criação de robôs pela ciência. Um cientista se vê cercado pelas criaturas que aparentemente ameaçam ou ameaçarão o seu próprio criador. É a metáfora de Frankenstein que se repetiu em muitos filmes, e hoje é parte de um questionamento bioético sobre os limites de nossas intervenções biotecnológicas e médicas no corpo e na vida dos seres humanos. O que estamos inventando para o nosso futuro: desde robôs nano tecnológicos que tratarão nossos adoecimentos ou adoecidos seres humanos que se tornarão também robôs?

Quando acordei a semana passada de uma anestesia geral, novamente, pensei em quem estava ao meu lado na sala de recuperação. Eram muitos, pois minha pressão arterial caiu, e os meus temores aumentaram o número de leitos ocupados. Somos impelidos a ver múltiplos ou duplos de nós mesmos nas horas de turvamento da consciência Então, semi lúcido, pensei naqueles que nos assistiam e monitorizavam, eram para mim parecidos com robôs...

Por que então o tema dos robôs me foi lembrado? Primeiramente por que eu próprio já me sentira um quando acordei da neurocirurgia no ano de 2009. Não sei se os meus leitores já sabem do que sofri no pós-operatório e da colocação em meu corpo de parafusos e hastes de titânio. Muitos ainda nem sabem das sequelas que adquiri.

Pela dor acrescentada pelo descuido tive uma queda acidental ao ser deixado cair de uma cama para uma maca. Estavam me levando para uma tomografia. E foi um forte homem negro, um “segurança” do hospital que colocou dentro da máquina. Começavam aí minhas ideias sobre a robotização do corpo e da humanidade. Começou minha vivência e experiência de meu duplo com deficiência...

No local onde permaneci dentro de um hospital universitário havia o que já presenciara muitas vezes de outro ponto de vista, também na Saúde Mental: a desumanização do cuidado como Outro. Era o que chamamos de serialização de atitudes e comportamentos. Os profissionais de saúde, assim como outros que lidam com grandes massas ou públicos, podem se tornar autômatos.

Tornam-se ou nos tornamos verdadeiros seres robotizados por um trabalho exaustivo e alienante. Os riscos que deveriam ser um estímulo criativo tornam-se uma ameaça, é o que ouvi de profissionais durante a noite hospitalizada e fria. No quarto ao lado estavam sujeitos amarrados em seus leitos, eram assaltantes perigosos, justificavam os três policiais de colete que passearam noite adentram na porta do meu quarto quase infectado.

Desta lembrança indelével, qual a memória de quem sofre uma tortura, é que restou uma vontade de refletir sobre o que é realmente um robot?

A palavra ROBOT vem do tcheco, que significa trabalho repetitivo, depressa destronou denominações mais antigas como autómatos ou androides, generalizando-se como designação corrente para as “máquinas” capazes de realizar, com algum grau de autonomia, vários tipos de operações.

Na etimologia tcheca oriunda de tempos medievais o termo “robota” significava o trabalho gratuito que um servo devia ao senhor. Ou melhor, era uma das formas de trabalho escravo. A ideia atravessou os anos e ainda temos esse trabalho indigno nas nossas melhores grifes ou roupas, lá os tempos modernos de Chaplin são fielmente reproduzidos. O modelo fordista e serializado obriga aos “neo-robôs” bolivianos, por exemplo, a uma servidão contínua. 

A primeira ideia sobre o termo me foi apresentada pela psicanálise. Em um trabalho de Sigmund Freud em seu trabalho sobre o “estranho, o sinistro, o desconhecido” (Das unheimliche -1919). Este texto é inspirado em outro autor: E. T. Hoffmann, um escritor, músico e desenhista alemão. Foi em seu conto o “Homem de Areia” que inspirou Freud para mais uma teorização a partir da literatura.

Não é a revelação freudiana de que o que nos assusta no desconhecido é também a nossa atração ou desejo de vivenciá-lo, mas como tentamos negar essa relação. É o aspecto de estranheza que algumas formas de “duplos” ou espelhamentos nossos despertam. É o que me faz pensar sobre nossas robotizações em ação, são as máquinas humanoides que me interessam. Vivenciamos muitas angústias diante das máquinas e as recalcamos.

Estamos cada dia mais próximos do que na ficção dizemos temer: um dia o exterminador do futuro estará se liquefazendo, como um homem de areia, na nossa frente. A história que se construiu sobre nossas futuras situações diante das tecnologias e dos robôs é de uma guerra em que perdemos tudo. Inclusive nossa própria capacidade de sermos humanos.

O que já vivencie no corpo e na mente através das minhas próprias fragilizações me mostra o quanto uma deficiência pode ser tratada como uma aproximação de máquinas. O modelo biomédico ainda ativo nas formas de cuidado é a intervenção mais presente, com apenas técnicas ou biotecnologias. Muitas vezes desumanizadas. É o que esperamos de nosso futuro ciborgue? Ou o que esperamos dos ciborgues do futuro?

A revista Info recentemente estampou em sua capa a seguinte chamada: “Superação Ciborgue”, com o subtítulo: “engenheiros e médicos unem-se para criar próteses controladas por chip, sensores e software. Elas substituem pernas, mãos, pés, joelhos e até ouvidos. Entendam como funcionam”.

A capa me suscitou algumas questões. Ela apresenta um homem com os mesmos pés Cheetah. São as pernas de titânio substitutas do atleta parolímpico Alan Fonteneles, parecidas com as próteses de Pistorius. Aquele atleta que quer ser “incluído” nas Olimpíadas dos “normais”.

Uma de minhas indagações é quantos são os sujeitos que têm acesso a estas pernas substitutas? Ainda mais o quanto há de aperfeiçoamento destas próteses apenas com a intenção de futuras robotizações checas no hipercapitalismo? Olhamos com temor estes novos ciborgues com deficiência? É o desconhecido futuro que nos espera/assusta?

Sou e serei um entusiasta das novas tecnologias aplicadas como assistivas ou suplementares para pessoas com deficiência. Há, porém esta questão que chamarei de biopolítica da transformação de nossos corpos “hipossuficientes” em corpos plenamente controláveis para a produção serializada de um trabalho alienado.

Há muitos anos venho difundindo e estimulando os avanços que podem ser conquistados com o uso de novas formas de inclusão com uso de tecnologias de reabilitação ou habilitação. Aposto, porém, no futuro da universalização de acesso socializado e não segregado às novas tecnologias.

O que temos de alertar, para além das possibilidades de um homem como Neil Harbinsson, é a quantidade de sujeitos sem nenhum acesso ao que podem estes “aparelhos”, “neo esqueletos”, “próteses eletro-eletrônicas”, enfim, quaisquer das mais avançadas formas de nos tornar mais biônicos. O cinema já naturaliza os “transformers” como a massa do futuro.

Somos hoje uma massa de mais de 600 milhões de pessoas com deficiência. Há uma margem de aproximadamente 20 a 30% destes seres humanos que ainda estão nas chamadas exclusões sociais e pobreza. Calculem quantos anos ou séculos levaremos para sua real inclusão desses não-cidadãos e cidadãs na perspectiva futurista do game Deus Ex: Human revolution, citada na Info?

No Brasil já temos alguns destes avanços, como os implantes cocleares, sendo incluídos no direito universal da saúde e da qualidade de vida. Porém ainda temos também na sua contramão, apesar dos milhões do Viver sem limites, bem como dos investimentos em tecnologias assistivas, uma grande massa de excluídos, micro e macro politicamente, do usufruto destes avanços.

Recentemente visitei um site que demonstra o uso do Kinect, um videogame sem nenhum controle, onde nossos movimentos é que são projetados/controlados, como forma de ajuda tecnológica para pessoas dentro do espectro do Autismo. Mas a pesquisa da Universidade de Minessota se diz servir para “... alertar para que haja uma maior atenção com aquelas (crianças) que mostrarem comportamentos não esperados, como tendência para ser ativo demais ou de menos”.

Nessa área de controlar e identificar as diferenças, sem, contudo, qualificar suas singularidades, é que temo pela promoção de seu uso meramente classificatório e reabilitador. Para além dessa perspectiva devemos buscar a criação de novas cartografias e novos usos micropolíticos dessas “invenções ou descobertas científicas”.

Nessa perspectiva é que entramos em um ano muito importante. Estamos perto de ver paromlípicos quebrando os mesmos recordes que os ditos olímpicos. Estamos tele ou assistindo e conhecendo o crescimento do número de candidatos com deficiência para cargos representativos em governos municipais ou câmara de vereadores. Aumentaremos a participação política de pessoas com deficiência nos espaços de governo e gestão pública?

Creio e espero que sim. Porém, ainda temos de promover uma ampla conscientização e capacitação sobre os mais elementares direitos e conquistas a que cada cidadão ou cidadã com deficiência têm direito. 

As formas de exercício macro político, apesar do crescimento da presença de pessoas com deficiência em seus espaços de poder, mantêm-se presas à corrupção e ao uso desonesto de recursos públicos. 

Ainda temos muitos representantes robotizados e desumanizados, verdadeiros portadores, estes sim, de muitas “deficiências” ético-políticas. Já naturalizaram a centralização e o abuso do poder. E, sua maioria, atendendo a interesses pessoais, eleitorais ou minoritários, ainda insiste em criar novos artifícios legais antes mesmo de reconhecer o que já foi ratificado e decretado.

Um exemplo é ausência de reais políticas públicas intersetoriais que estejam garantindo, para além do acesso gratuito a alguns, a verdadeira acessibilidade dos estádios da Copa. E a transparência dos gastos astronômicos desde a demolição às novas arquiteturas que ainda não conhecem o conceito de desenho universal. Eis uma tarefa árdua para os candidatos a participação nesse cenário político...

O que espero, então, de novos e postulantes, como sujeitos com deficiência, à sua participação nos poderes públicos? Espero que possam reforçar a compreensão da indispensável mudança do paradigma biomédico, já que nele considerei um campo fértil para a simples robotização. E que possam, ativamente, propagar e efetivar o que se postula como o modelo social das deficiências.

Ao se manter a visão assistencialista, paternalista, caritativa, excludente e adoecida de sujeitos vivendo e convivendo com deficiências estamos também mantendo um olhar biopolítico de controle e uso de seus corpos. Precisamos buscar o olhar, a visão e a escuta sensível dos Estudos sobre as Deficiências. Precisamos investir na conscientização e apropriação da Convenção e os direitos humanos. Precisamos de políticas públicas que se fundamentem nesses princípios.

Uma plataforma que espero se incluirá nos discursos e nas propostas concretas de quem se investir nos lugares de representação macro política é o exercício micropolítico e revolucionário da re-humanização de espaços de saúde e educação.

O projeto e processo inclusivo, a meu ver, devem alicerçar ações e cuidados, para além do olhar reabilitador, que tornem nossos corpos para além do trans-humano ou robótico. A visão de servidão que está subjacente/significante à nossa protetização hipermoderna, apesar do que se propagandeia oficialmente, é a que equipara não apenas a funcionalidade de um corpo.

É principalmente quando não esperamos, onipotentemente, a sua transformação em um objeto-robô. Primeiramente porque já sabemos, de antemão, que muitos ficaram e ficarão fora do alcance destas conquistas micro, macro ou nano tecnológicas. Como dizia um velho conhecido: quem bancará seu custo? Além disso, podemos apenas atender às pessoas que puderem ter acesso aos recursos ou avanços da sociedade. Ou seja, quem pode pagar.

Um exemplo atual é a notícia de uma companhia de aviação que terá seus banheiros com acessibilidade. Espero que a mesma se recorde das suas inúmeras ações de preconceito com os passageiros considerados prioridade nos aeroportos. Não basta poder fazer xixi sentado com barras de apoio. Precisamos de todos os direitos de acessibilidade, para além das barreiras visíveis, sendo cumpridos e respeitados.

Nem mesmo bastará que a acessibilidade dos aeroportos se torne, por causa dos eventos esportivos futuros, uma realidade parcial. Os espaços de voos ou pouso não são os únicos que garantem a inclusão social e econômica sustentável que irá para mais de 20 anos. 

Estes espaços não podem se tornar os não-lugares. Se como as escolas, se tornarem realmente inclusivos e universais nem teremos então de dialogar com um ponto eletrônico da Anac, do PROCON ou da Infraero no futuro. Ainda existirão, nesse porvir, “trabalhadores” re-humanizados. As formas metálicas ou frias de resposta já terão sido sofisticadas por novos andróides.

Por isso não podemos esquecer que o que alguns homens imaginam outros poderão realizar no futuro. A primeira citação a robôs é de 1920. Faz parte da peça de Karel Kapek: R.U.R (“Rossuns Universal Robots”). Surgida como desencanto após a 1ª Guerra Mundial como um alerta para a humanidade, antevisão de uma guerra com “soldados universais”, metade homem, metade máquina mortífera.

Primeiramente são criadas cópias fiéis de nós humanos. Tornados trabalhadores eficientes, apesar de “deficientes”, tornar-se-ão os futuros robots. Tornam-se, então, capazes de amar o BBB, esquecendo-se de 1984 de Orwell, ou se serializam em um Admirável Mundo Novo, esquecendo que Aldous Huxley bebeu de sua própria literatura, o “soma”, a bebida que surge de cogumelos, para entrar em contato, sem dor ou sofrimento, com seu/nosso lado sinistro: a morte.

Vivemos intensamente os tempos do Hipercapitalismo integrado e excludente, na Idade Mídia. Engolfamo-nos, serializados, em dilemas bioéticos como as clonagens terapêuticas e reprodutivas, as próteses, os implantes, as cirurgias plásticas de total reconstrução e remodelação corporal, com suas diferentes formas de artifícios, lipoaspirações, fertilizações invitro, barrigas de aluguel, cirurgias bariátricas.

Hoje, ontem e amanhã vamos até o limite ético e eugênico das descobertas de meios de “prevenção” de uma Síndrome de Down por exames ultrassofisticados. Tendo a certeza de que todos são e serão muito caros e eticamente questionáveis.

Eu, aqui, sorvendo e sofredor dessas literaturas bioéticas, espero, sonhador de outras utopias, um pouco de humanidade nos autômatos e subjetividades que estamos produzindo, para além de quaisquer de suas deficiências humanas, no campo do exercício dos poderes.

Excelências ou futuras excelências me digam que estou errado. Vocês por nenhum dinheiro do mundo irão esquecer as pontes para o futuro que desejou o criador da Bioética. Como humanos potencializados pelas novas tecnologias nunca irão permitir a edulcoração, o adoçamento, ou a negação de nossos direitos fundamentais.

Não estamos ainda para além das Sírias, dos Sertões, das catástrofes ou massacres. Caminhamos na incerteza, dialogamos permanentemente com a Dona Morte, esquecendo que a atual e moderna felicidade de consumo é apenas dependente dos fatores e poderes políticos.

Quem sabe os próximos tempos nos tragam novas formas de governamentabilidade e sustentabilidade. E, eu, afirmativamente, só votarei em quem souber me dizer com propriedade e crítica o que significam as palavras robô, política e deficiência.


Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2012-2013 ad infinitum - todos os direitos reservados (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)


Notícias na INTERNET:

R.U.R. http://en.wikipedia.org/wiki/R.U.R.


TAM será a primeira no mundo a ter banheiros com acessibilidade em aeronaves narrow body http://www.revistafator.com.br/ver_noticia.php?not=209856

Revista INFO – Nº 316= Maio de 2012: Superação Ciborgue
http://www.lojaabril.com.br/detalhes/revista-info_superacao-ciborgue_edicao-316_maioe2012-486368
KINECT AJUDA A DIAGNOSTICAR E A TRATAR AUTISMO http://robotica-autismo.com/

Primeiras imagens de robôs de Robocop, que será dirigido por José Padilha, caem na rede http://colunas.revistaepoca.globo.com/brunoastuto/2012/07/13/primeiras-imagens-de-robos-de-robocop-que-sera-dirigido-por-jose-padilha-caem-na-rede/

Google pode usar mini-robôs voadores para capturar imagens (1984 – Orwell tinha a antevisão?*) http://googlediscovery.com/2010/08/07/google-pode-usar-mini-robos-voadores-para-capturar-imagens/

7 assustadoras tecnologias de “1984, George Orwell” que existem nos dias de hoje! http://literatortura.com/2012/07/03/7-assustadoras-tecnologias-de-1984-george-orwell-que-existem-nos-dias-de-hoje/
POLÍTICA NACIONAL DE HUMANIZAÇÃO no SUS http://portal.saude.gov.br/portal/saude/cidadao/area.cfm?id_area=1342
O que é Humanização? http://hitechnologies.com.br/humanizacao/o-que-e-humanizacao/

Um pequeno questionamento – Chain Samuel Katz
http://www.freudiana.com.br/documentos/chaimabf.pdf

Novo exame para detectar síndrome de Down gera discussões éticas http://www.dw.de/dw/article/0,,16091026,00.html

Indicações para Leitura:
Das Unheimliche, Sigmund Freud 1919h, em Gesammelte Werke, vol. XII. Trad. Brasileira,Standard Edição Brasileira, trad. Imago, vol. XVII, Rio de Janeiro, RJ.

Contos Sinistros – E. T. A. Hoffmann – Editora Max Limonad, São Paulo, SP, 1987.

O que é deficiência – Debora Diniz, Editora Brasiliense, São Paulo, SP, 2007.

Sobre a felicidade – Ansiedade e consumo na era do Hipercapitalismo – Renata Salicecl, Editora Alameda, São Paulo, SP, 2005.

LEIA TAMBÉM NO BLOG

EU, VOCÊ, NÓS E O CÂNCERhttps://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/07/eu-voce-nos-e-o-cancer.html

SEREMOS, NO FUTURO, CIBORGUES? Para além de nossas deficiências humanas https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/seremos-no-futuro-ciborgues-para-alem.html

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terça-feira, 3 de julho de 2012

EU, VOCÊ, NÓS E O CÂNCER.


Imagem publicada – a foto em preto e branco de uma silhueta humana que se vira para uma rampa de onde vem uma luz que a ilumina. Há um banco vazio, semi obscurecido no lado esquerdo. O mesmo que encontramos muitas vezes em parques ou diante de mares onde os seres humanos podem vivenciar a experiência de solidão e isolamento. É este o espaço no qual num devemos nem nos confinar e nem sermos confinados ou aprisionados. É no encontro com o Outro para além da rampa e da luz, no meio da cidade ou do campo ou das matas, que devemos procurar as respostas para os nossos mais íntimos medos e temores.

Assim falou um ancião: “Aceite as ansiedades e dificuldades desta vida”. Não espere que sua prática seja livre de obstáculos. Sem eles, a mente que busca iluminação pode se queimar. Assim falou um ancião: ‘Alcance a liberdade nas perturbações”. Mestre Zen Kyong Ho (1849-1912)

Ainda mantemos, inclusive pela midiatização e pela Sociedade do Espetáculo, uma visão estigmatizante de uma palavra que a todos pode incomodar: o câncer. Há um estigma que permanece no ar e que as biotecnologias, talvez por seus próprios avanços e retrocessos, aprisionam com temores algumas mentes e corações.

Toda vez que ouvimos a palavra câncer ainda temos um suspense, uma dúvida, e com certeza um temor. Imaginemos que ao realizar um exame, seja uma radiografia, tomografia ou uma ultrassonografia, ouçamos ou se leia a indicação de um “tumor”, ou nome biomédico de neoplasia.

Há sempre um mal-estar, um sentimento de perda antecipada que, lamentavelmente, ainda associamos às palavras ligadas a um câncer. Temos aí incrustadas algumas metáforas, algumas formas de significação e, com certeza, significantes que impregnaram e ainda impregnam nossos inconscientes.

O que devemos tentar, então, reaprender quando um diagnóstico ou sua suspeita nos levar à palavra que traz um “caranguejo” subjacente? Ultimamente, graças à sua intensiva midiatização, pudemos ver desde atores famosos, presidentes e presidentas, todos diagnosticados com câncer, vivenciando o que mais anima os que o temem: a “cura”.

Assim como algumas doenças raras, que já estão sendo progressivamente investigadas e tratadas com células tronco, há um investimento, de longa duração, da medicina oncológica que mudou radicalmente os prognósticos e o futuro dos que vivenciam esta enfermidade.

Porém para além dos avanços farmacológicos, cirúrgicos ou biotecnológicos, há um campo que precisamos abordar e investigar. Há 32 anos, quando ainda trabalhava em um Hospital Geral, pude refletir sobre o tema na prática: a questão das emoções que são vivenciadas por quem vive ou sobrevive com um câncer.

Na época já me indagava sobre a relação que eu, você e nós racionalizamos ou hiperdimensionamos com o câncer. Conheci seres humanos intensos e sofridos, que passavam pelo diagnóstico de mielomas, leucemias, tumores do rim em crianças ou câncer de mama, e em todos os casos sempre procurava analisar a relação entre o câncer e nossas pulsões tanáticas.

Muitas vezes interroguei a presença de emoções, que chamo de tanotofílicas, ou seja, alguns desses “pacientes temiam mas não deixavam de abraçar a Dona Morte”. Medos ou até pulsões recônditas, daí tanáticas, ou pensamentos ou emoções autodestrutivas, oriundas de Thanatos, que Freud considerava a pulsão opositora/complementar da outra: Eros, que podemos chamar de Pulsão de/pela Vida.

Na queda de braço entre essas pulsões, vi e acompanhei ainda médico residente, a vitória da Dona Morte que arrastava algumas pessoas mais depressa para seus óbitos. Era como se abraçassem a Dona Morte como solução para esta vivência do corpo com uma anomalia cancerosa. Por isso mesmo já aplicava a necessidade de outro cuidado com estas pessoas: o suporte afetivo e psicológico.

Diante da transitoriedade do viver e da inevitabilidade do morrer precisamos aprender com o Outro a superação de nossas limitações humanas. Temos como mitos ancestrais gregos vários Prometeus, Sísifos e Perséfones. Estaremos sempre com a “espada de Damôcles”, aquela presa apenas por um fio, eternamente sobre nossas cabeças.

O grande compromisso bioético então é que possamos nem cair numa negação de nossa finitude assim como seu inverso. Há um desejo perene no homem de vencer a Dona Morte. Sonhamos há séculos com a imortalidade e a juventude eterna. Mas o ancião zen nos lembra que nem imortais evitaremos as perturbações, pelo contrário é nelas que vislumbramos nossa liberdade.

O que a medicina moderna precisa é não cair na glamourização de um modelo House. Não podemos glorificar o utilitarismo ou o paternalismo. Não podemos negar as mudanças de paradigmas, e sim deseja-las com todo coração e intensidade. No campo da oncologia e das doenças terminais temos de aprender a promoção da dignidade, tanto para viver quanto para o morrer.

Eu, você, nós e os outros temos de desatar nossos mais íntimos ‘’nós górdios’’, aqueles que só se desfazem pela ação violenta de uma espada. É quando temos de extirpar de nós primeiro o medo, depois aquilo que transformarmos em sombra da Dona Morte.

Eu, aqui temeroso como vocês terei de enfrentar novamente um ato cirúrgico. Precisarei agora de mais forças e determinação do que antes. As experiências que guardamos podem ser traumáticas. Eu, aqui apenas humano, já me deixaram com algumas...

Há alguns medos que se relacionam com a minha própria morte: primeiramente a ideia e a sensação física ou psíquica de um sofrimento, ligado ao medo de morrer/sofrer. Há ainda as ideias de castigo e de rejeição que muitos apresentam, hoje reforçadas pelos movimentos religiosos.

E subjacente a todos os medos, vivenciamos o medo universal, pós Hiroxima e Nagasaki, que é o aniquilamento e a extinção, alimentados pelas nossas agressões e descasos persistentes, com a negação de nossa relação ecosófica com a água, o ar, a terra e todos seus elementos. É o que poderíamos chamar de um medo cósmico com nosso próprio corpo-extensão chamado Planeta Terra.

Mas entre todos os medos, até os próprios médicos como eu devem vivenciar. Há um que nunca podemos negar. É o medo da morte dos OUTROS. Tememos profundamente, ao tempo que muitos a desejam, a solidão humana. É aquele explorado pelos filmes apocalípiticos a moda de pós-destruição nuclear, e o nosso dia seguinte como únicos sobreviventes na face da Terra.

Daí decorre o que chamo de vulnerabilidade e o processo a que estamos permanentemente submetidos pelas nossas vulnerações. Em especial pelo que chamamos de Estado. O mesmo que promove, com as guerras, torturas e a negação dos direitos humanos, a exclusão, o encarceramento, a injustiça ou a marginalização que podem degradar e retirar toda dignidade de um ser humano. É, quando viramos, como diz Agamben, matáveis e VIDAS NUAS. Daí nasce os Estados de Exceção. Temos medo de nos tornar sobreviventes e sós.

Por haver uma humanidade em minha condição de ser é que digo o quanto é importante uma atenção aos nossos afectos. O mundo das emoções e de nossa mente interage diretamente com os muitos adoecimentos do nosso frágil corpo.

É nesse espaço que estou agora aprendendo um pouco mais, agora que entro amanhã, mais uma vez em um centro cirúrgico. E, humano demasiadamente humano, lhes digo: eu tenho medo da Dona Morte.

Porém também lhes digo é com ela que aprendemos a mais importante das artes: re-existir e criar novas cartografias, novos sentidos, novas experiências e invenções para uma vida com intensidade e bons encontros.

Então, faço agora apenas um brinde ao medo, mas sei que esta escrita é que me retira do que pode impedir os voos de minha mente, e esta é a melhor forma de lidar com os temores relacionados com aquela a quem escrevo mais uma cartinha: a Dona Morte, dizendo-lhe que ela pode pensar que é, mais ainda não é a minha dona
.
Ainda vou, vamos, ou tentaremos alcançar a liberdade no meio das tormentas ou perturbações...pois cada momento é um novo momento.


Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2012-2013 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Leitura recomendada:
Introdução ao Zen-Budismo – Daisetz Teitaro Susuki – Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 1973.
Psicologia da Morte – Robert Kastenbaum &Ruth Aisenberg, Editora da Usp, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, 1983.

LEIA TAMBÉM NO BLOG:

CARTAS deVIDAs à DONA MORTE http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/08/imagem-publicada-foto-do-ator-al-pacino.html

NOSSAS IN-DEPENDÊNCIAS da DONA MORTE em 11/09/11
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/09/nossas-in-dependencias-da-dona-morte-em.html

NENHUMA DOR A MENOS OU A MAIS
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/10/nenhuma-dor-menos-ou-mais.html

OS NOSSOS CÃES desCOLORIDOS - Nossas "depressões" e o Dia Mundial da Saúde Mental http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/10/os-nossos-caes-descoloridos-nossas.html

segunda-feira, 2 de julho de 2012

POR UMA MEDICINA QUE ENVELHEÇA COM DIGNIDADE


Imagem publicada - a imagem de Hipócrates (460 -377 a.C), considerado o precursor e fundador da medicina grega, com uma estátua à esquerda, tendo ao centro o texto do Juramento de Hipócrates. Este texto que ainda se lê nas cerimônias de formatura de novos médicos, considerado, nas suas modernizações, um estímulo ao exercício ético desta profissão. Ao lado e abaixo, à direita, encontra-se o caduceu, um bastão que tem uma cobra enrolada, um símbolo universal da medicina, que trans historicamente nos lembra de que é preciso o tempo para o aprendizado dessa arte, assim como o cuidado com seus próprios venenos curativos.


“QUANDO TOMAMOS CONSCIÊNCIA DE NOSSO PAPEL, MESMO O MAIS OBSCURO, SÓ ENTÃO SOMOS FELIZES. SÓ ENTÃO PODEMOS VIVER EM PAZ E MORRER EM PAZ, POIS O QUE DÁ UM SENTIDO À VIDA DÁ UM SENTIDO À MORTE,,,” Saint-Exupèry (Terra dos Homens)

Este texto foi escrito originalmente para a minha filha YASMIN – futura/presente médica, em formação, e, estando às vésperas de mais uma intervenção cirúrgica na minha vida/corpo, também o dedico para os muitos médicos e colegas dos quais dependo hoje para o cuidado e alívio de minhas fragilidades humanas.

EM 1977, ainda acadêmico de medicina, escrevi para meu convite de formatura a seguinte mensagem, até hoje continuo tentando realizá-la: -“UM MÉDICO NÃO SERÁ VERDADEIRAMENTE O QUE DESEJA SER ENQUANTO NÃO FOR O QUE PROPÔS ATINGIR: UM SER HUMANO...”. Ainda tínhamos no ar o peso dos Anos de Chumbo da ditadura militar. Os generais também ocupavam seu papel repressor e fiscalizador junto à medicina e os médicos.

Nesse momento histórico, devido ao que já havíamos vivenciado de restrições, estive contaminado por uma profunda e indelével necessidade de humanização de minha futura/presente profissão. Eu ainda ouvia em meu coração um desejo de uma medicina com os mesmos traços hipocráticos de muitos séculos atrás. Dedicava já naquele tempo um olhar para o médico como um terapeuta.

Na Grécia, de onde vêm também Asclepius e o teatro de Epidauro, onde se realizavam curas através do teatro e a música (o coro), os terapeutas também se tornavam os melhores mensageiros dos deuses. Eram eles que após uma noite, seja em um templo ou no oráculo de Delfos, ajudavam os que dormiam nesses espaços a interpretar e seguir seus próprios sonhos.

Nessa visão e minha prática clinica um médico deverá ser antes de tudo um terapeuta. Ele apenas é, pela etimologia, um mediador que pratica a mediação, entre um corpo humano e seu mundo interno e a nossa vida externa. É tendo esse papel que a medicina se utiliza dos instrumentos de mediação: os remédios. Hoje estão reificados pela indústria farmacológica, como parte de uma grande máquina do hipercapitalismo.

No mundo atual em que as biotecnologias têm se reificado, com bilhões de dólares sendo empregados para a busca de ‘’curas’’ ou de soluções para nossos males e sofrimentos, a terapêutica vem sendo substituída pelo mesmo mecanicismo de nossos primordiais fundadores da medicina ocidental, como Sanctorius e sua escola de fisiologia mecanicista.



Remetemos-nos ao passado de séculos atrás. Ainda repetimos suas busca de “máquinas’’, “medidores”, “balanças”, “termômetros” e todas as parafernálias que hoje se transformam em grande auxílio para as ressuscitações em Utis e das telemedicinas. Muitos avanços ocorreram, porém a frase fundamental do jovem que se formava em 1977 se perdeu diante de tantos ruídos provocados pelas novas ressonâncias, tomografias, lasers e desfibriladores.

O meu desejo incipiente também se perdeu diante da massificação, desumanização e da grupalização da medicina. Somos hoje muito mais números do que pessoas. O que me parece, às vezes, principalmente na saúde coletiva, com o modelo usado para a produção de Vidas Nuas dos campos de extermínio ou concentração nazista. Apenas não tatuam agora nosso número, somos digitalizados e informatizados.

Ouvimos ainda nossos primordiais ancestrais? Recitamos no coração o modelo hipocrático ou de Cós? Retiramos os ‘’deuses’’ de nosso juramento hipocrático e o modernizamos? Não encontraremos quem se mantenha fiel ao pedido aos velhos deuses: “- Juro por Apolo médico, Asclepius, Higéia e Panacéia, todos os deuses e deusas...?.”

Da Grécia antiga a atual onde as colunas de velhos templos ainda estão de pé na acrópole, encontramos uma evolução da medicina e seus atos, que hoje podem ser considerados notáveis, porém ainda temos uma distância enorme, transhistórica, do que acreditavam os antigos seguidores de Apolo, o seu deus da verdade...

Há muito mais segregação de nossos direitos humanos em saúde do que nesse passado greco-romano? Talvez não, pois apesar dos princípios que nos legaram os gregos também se deixavam, como nós, iludir com os exercícios de segregação e desagregação (vejam a palavra grega no meio de tudo dos discursos da modernidade, principalmente o "agregar" valor).

Havia, por exemplo, na pólis, os que eram cidadãos e os não cidadãos, como as mulheres de Atenas e seus escravos, que não eram diferentes dos que hoje permanecem por horas a fio em uma fila do SUS. Mas nem por isso devemos deixar de defender essa conquista da saúde pública brasileira. Precisamos sim é que a política pública seja construída em novos paradigmas.

Há ainda, nesse modelo massificado, espartanamente uma segregação entre os ‘’homoi’’ (os iguais) e os ‘’periféricos’’, ou seja, os que têm acesso livre a cidade e os fóruns/ágoras. Sendo então, passíveis de cuidados como direitos. E os que vivendo na periferia, hoje, são os que devem continuar do lado de fora das clínicas e hospitais de alta complexidade: são as filas intermináveis que nunca conseguimos desmanchar.

A medicina e os médicos passaram por um processo de sofisticação de seus métodos, atos e recursos tecnológicos. Porém ainda precisamos caminhar a passos rápidos para um resgate dos princípios filosóficos que podem e devem nortear nossas intervenções e relações com a Vida e o corpo humano.

Por isso invoco os deuses antigos para que contaminem os jovens médicos da medicina baseada em evidências. É preciso perguntar, problematizar, criar dilemas e abrir um grande espaço para uma reflexão bioética do que é e o que chamamos de SAÚDE.



A medicina não pode ser apenas uma ciência das doenças. As doenças não existem sem o pressuposto da saúde. Segundo Gadamer: “Sabe-se mais ou menos o que são as doenças. Elas possuem, por assim dizer, o caráter insurrecional da ‘falta’. De acordo com seu aparecimento, elas são um objeto, algo que promove a resistência, a qual se deve quebrar. Pode-se colocar isso sob uma lupa e julgar o grau de doença através de todos os modos que uma ciência objetivante, em virtude da ciência natural moderna nos colocou à disposição...

Porém e para além da Medicina sem Médicos do Século XIX já entramos em uma Medicina PARA ALÉM DOS MÉDICOS no Século XXI. E a saúde, nosso maior objetivo e meta, muito mais que uma resposta aos milhares de exames que possamos pedir, por mais laboratórios que se passe, se subtrai disso tudo. Saúde é justamente algo que existe por se subtrair a todos os exames ou investigações a moda de um House televisivo.

A Medicina que desejo ainda, portanto, venha a ressurgir dentro das práticas clínicas, para além do se inclinar sobre nossos ‘’pacientes pacientes”, é a de uma velha e antiga senhora que possa aprender a se auto envelhecer.

Como um dos mais raros vinhos em uma adega de difícil acesso que se produza a verdade em um vinho reconstituinte, um paciente resultado da solução de alguns dilemas bioéticos e éticos. Meu desejo e implicação com esta debatedora da Dona Morte, embora mais afastado do que gostaria, mais próximo de uma aposentadoria, é que seu diálogo se faça com máximo respeito. Por exemplo, o mesmo empenho para salvar uma vida deverá ser, bioéticamente, o da autonomia e desejo de um sujeito de sua morte digna e sem distanásia.

Aos novos médicos desejo velhas leituras de sacerdotes oraculares. E como um convicto freudiano diria a todos e todas: Conheçam-se a si mesmos. E quando os jovens postulantes a um novo exercício de um ato médico se derem conta estarão contagiados pelos velhos juramentos e as velhas filosofias. Tornar-se médico de si, com um esforço árduo e continuo de autoconhecimento crítico. E um infinito aprendizado sobre o Outro e os Outros.

Esta tarefa não é fácil e nem traz promessa de sucesso. É como a tarefa de Sísifo. Levamos nossas pedras-verdade até o alto do monte, e, castigados pelos nossos deslizes iatrogênicos, as vemos despencando morro abaixo. E retomamos suados e exaustos a sua reposição até o alto de nossas pretensões e orgulhos médicos. Aí se poderiam curar as feridas dos jovens e seu furor de cura: tornar-se também humildes e sábios.

Ainda restará aprenderem o sentido de Arte no processo de reflexão sobre a mudança de paradigmas no campo biomédico. É preciso reconhecer alguns limites e não aspirar uma vitória total sobre a Morte. Aprender a aprender com as nossas mortais carcaças, não caindo nos fisicalismos e materialismos exagerados sobre o que é/somos como seres humanos.

Conheçam por exemplo a história de Asclepius, que segundo o mito, era um mortal, filho de Apolo. Ao ser educado por um centauro, Quíron, como os mentores de residentes, aprendeu tudo sobre a arte de remediar e aliviar dores e doenças. 
Mas, historicamente, os discípulos sempre superam seus mestres. Asclepius, como Prometeu, desafiou os deuses e Zeus. Ao se tornar um benfeitor universal com sua arte que até ressuscitou mortos, teve morte por um raio de Zeus. Um médico nunca deve aspirar a ser um Deus.

Portanto, aprendendo todos os dias com nossas limitações humanas, não acreditando na força de nossas asas de cera como Ícaro, não nos pretendendo dar todos os fios de Ariadne para a saída de labirínticos diagnósticos, não nos tornando onipotentes e iatrogênicos na fúria de curar a tudo e a todos, não nos tornando semideuses oniscientes que abarcam todo o conhecimento enciclopédico das medicinas, não nos esquecendo de nossa mortal e frágil humanidade, quem sabe nos tornaremos apenas e simplesmente MÉDICOS. Ou melhor: terapeutas.

E que a vetusta, anciã e sábia, Senhora Medicina continue seu interminável e inadiável metadiálogo com a Dona Morte. E, com sabedoria e humildade, meus colegas, inclusive minha filha, saibam do seu envelhecimento e respeitem todas as outras atividades ligadas à saúde humana. Trabalham todos na mesma oficina, embora com ofícios diferenciados, também podem servir de mensageiros ou não desta Dona que não larga nossos pés.

Curta, breve e, às vezes, intensa é a VIDA. O que se pereniza é apenas a Arte do viver e do morrer.

Medicina, derivada do latim Ars medicina, significa a arte da cura. Desejo, enfim, que os novos médicos se tornem mais "arteiros" e bons de escuta do que "artificiais" e frios como os protocolos e os manuais que dizem quem está ou não com a tal da saúde/doença. E suas/nossas feridas narcísicas, quem sabe, talvez possam ser curadas.



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Para informações pela INTERNET:



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Indicações para leitura:
Mediar, medicar, remediar – Aspectos da terapêutica na medicina moderna, Jane Dutra Sayd, Editora UERJ, Rio de Janeiro, RJ, 1998.

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