domingo, 31 de julho de 2011

O JUQUINHA, E SUA CADEIRA , por uma Educação Diferente


Imagem publicada- foto de uma sala de aula no Mato Grosso, onde estão sentadas diferentes crianças, sentados em suas carteiras enfileiradas, e onde não encontramos nenhuma criança com deficiência, à primeira vista, tendo um menino de olhar interrogativo e calçando um par de sandálias (tipo havaianas) que se destaca nessa foto de Lenine Martins (Secom-MT). Ele representa o personagem criado por meu texto abaixo, caso consigam vê-lo ou imaginá-lo sentado em uma cadeira de rodas: o Juquinha.

Em homenagem a todos e todas que persistem na luta por uma Educação Diferente, Inclusiva, Laica, Pública e como um Direito Humano, republico o texto que foi distribuído no I Encontro Interestadual por uma Educação Diferente, realizado com o apoio e no espaço da UNIRIO, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, em 1997.

Era uma das primeiras iniciativas do DefNet em prol do debate, discussão acadêmica ou não, entre os diferentes protagonistas do movimento em prol da Educação Inclusiva no Brasil.

Tive a honra de organizar este evento, assim como de conhecer muitos e muitas que ainda estão ativamente discutindo e propagando as idéias fundamentais do processo de inclusão escolar, como, por exemplo, a Profª Drª Rosita Edler de Carvalho, que já me ajudou a colocar os pingos nos "is" da Educação Inclusiva.


O tempo passou mas nossas lutas continuam na direçao do aprender a aprender, e a cada dia mais ficam claras as heterogeneidades humanas que compõem os alunos do atendimento educacional especializado, e para tanto reconhecer suas diferenças poderá nos levar àquela tão sonhada e desejada Educação Diferente. Uma Educação, fundamentada em Direitos Humanos e no Multiculturalismo, tão necessário e tão combatido agora, uma dedicada educação para todas as formas e singularidades de Diferenças.

O JUQUINHA, E SUA CADEIRA ...”

(uma singela homenagem a Jacques Prévert e Cora Coralina, poetas-professores)
(recriação livre de texto de H. E. Buckley)

Once upon a Time, Era uma vez um menino, o Juquinha, muito Diferente, que contrastava com a sua escola muito Igual a todas, grande, cheia de escadas, alunos, professores, e a temível Diretora. Quando, um dia a mãe do Juquinha descobriu que ele precisava ir para escola, ela procurou, e descobriu que não tinha escola para “gente diferente” como ele.

E então ela tentou e conseguiu que esta escola igual a todas deixasse o pequeno Juquinha entrar pela porta da rua, todo feliz e inocente, porém ainda diferente.
A escola continuava grande, enorme, mas já não era tão grande como antes do Juquinha entender o que era a ESCOLA.

Um dia, numa daquelas manhãs que o Sol entra pela janela da sala de aula, a professora D. Norma, disse: “Hoje nós vamos fazer um desenho”.
Que bom!” pensou o Juquinha, que, aliás, não falava direito além de ser diferente.

Mas que sabia desenhar, e gostava de rabiscar papéis (e até paredes, quando a sua mãe não estava presente), ele desenhava bichos, brinquedos, meninos e meninas, e um ‘tal’ de ‘doutor’. Ele pegou sua caixa de giz de cera, pois isto ele conseguia pegar com a mão direita..., e começou a desenhar.

Então, de súbito, D. Norma disse: “Stop, Parem!!! Ainda não é hora de começar, eu não autorizei ninguém ainda...”. Ela olhava ‘furibunda’ para o Juquinha... E esperou todos os outros da sala ficarem ‘quietos e arrumadinhos’ para dizer: “Podem começar... e frisou, Nós iremos desenhar flores e árvores”, e começou como lápis verde, e disse (solene):
!”Como eu os amo muito Eu vou ensinar e mostrar como deve ser feita uma Flor...”.

E fez uma flor vermelha com pétalas amarelas e caule verde, bem certinha, e com as raízes fincandinhas no chão... TUDO muito arrumadinho e certinho como ela gostava...
Juquinha olhou, olhou e tresolhou a flor (ele ‘usa’ uma grande armação com lentes muito grossas, parecendo os antigos professores com seus óculos, os Lentes).

E não gostou da flor. Gostou mais dos bichos e das pererecas que havia desenhado, mas não podia dizer isto, além do que ele não falava direito, né??... Virou o papel, com algum esforço e desenhou uma flor IGUAL à da professora Norma. Era vermelha e com o caule verdinho.

Outro dia, durante a aula, depois de Ter dificuldade para entrar na sala de aula, o Juquinha ouviu a professora dizer: “Hoje nós iremos fazer algumas coisas com a Argila”.

Mais uma vez,pensou o Juquinha, eis a minha oportunidade de mostrar o que sei fazer com o barro, apesar de Ter o braço meio torto...Ele gostava de criar pequenos homenzinhos com a argila, e até carrinhos e caminhões ele já conseguiu fazer (muito embora esses objetos não sejam tão perfeitinhos assim, eles ficam meio tortos, feito o braço dele...) E foi logo pondo a mão na massa, aliás no barro.

Aí ouviu a voz retumbante de D. Norma: “ESPEREM!, NÃO mandei ninguém começar ainda..!!! e após aquele silêncio terrível disse do alto de sua capacidade e poder: “Hoje nós vamos modelar um prato... E eu vou mostrar como se faz isso direito. E vocês podem começar..” Fez um prato certinho e redondinho, perfeitinho, e até parecia muito bonitinho.

E o Juquinha olhou, olhou e tresolhou (às vezes as lentes ficam sujas, ainda mais no meio de tanto barro, e com tanto descontrole das mãos...), e ele viu que começava a fazer um homenzinho, baixinho, gordinho, defeituoso por acaso, mas ele NÃO podia fazer isto. E então ele amassou a argila e fez um prato, um prato bem fundo, embora raso e igual ao da professora.

Então sentado naquela cadeira, uma cadeira que nunca desgrudava dele, ele procurou aprender que era melhor esperar a D. Norma autorizar, com o olhar e sua fala forte, a fazer exatamente como ela. Afinal quem estava ensinando naquela escola ???!!! E logo em seguida aprendeu também a ficar quietinho, arrumadinho, sentadinho e bem comportado. Afinal quem estava ali para ser educado ???!!!

UM dia ele, o Juquinha teve de mudar de Escola. Esta escola era ainda maior e mais escola que a que tinha a D. Norma. Ele tinha de subir as grandes escadarias com a sua cadeira colada no traseiro, com pessoas ajudando, e entrar por aquela porta estreitinha da sua sala...

UM dia a sua nova professora, D. Orma disse: “Hoje, meus pequeninos, nos vamos fazer um desenho”.
QUE maravilha !!” pensou e exultou o Juquinha, e esperou que a ‘fessora’ dissesse o que desenhar.

E ela, como perdera “N” coisas de seus conceitos e preconceitos, não disse nada. Apenas andava calmamente pela sala. E se aproximou do Juquinha e perguntou:
Você não quer desenhar ??” E o Juquinha perguntou:
Mas desenhar o quê ??”
Eu não posso saber até que você faça” respondeu D.Orma.
Então o que posso fazer ??” retrucou o Juquinha,
O que você gostar e o que conseguir fazer...” ,
Mas eu aprendi a copiar e fazer sempre IGUAL, todo mundo deve ser igual na escola...” diz consternado, o ‘pobre” Juquinha,
Mas se todo mundo fizer sempre o mesmo desenho, e ninguém for diferente, todo mundo fizer flores vermelhas e caules verdes, ficaremos todos IGUAIS, e eu não vou poder saber quem foi o “artista” que andou pintando lindos homenzinhos, baixinhos, gordinhos e diferentes nas paredes desta sala, SEMPRE COM UM FLOR DIFERENTE NAS MÃOS...”

e o JUQUINHA DESENHOU PELA PRIMEIRA VEZ UMA CADEIRA DE RODAS, com um menininho segurando uma flor na mão...”


(Texto elaborado para o I Encontro Interestadual por uma Educação Diferente promovido pelo DEFNET Centro de Informática e Informações sobre Paralisias Cerebrais, em agosto de 1997 – Rio de Janeiro- RJ)

copyright – Jorge Márcio Pereira de Andrade 1997/2012 (favor citar o autor em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

LEIA TAMBÉM NO BLOG:

A EDUCAÇÃO DE PÉS DESCALÇOS(por um educação dos diferentes pés, calçados ou não)
http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/06/educacao-de-pes-descalcos.html

A AMIZADE COMO ALICERCE DA INCLUSÃO ESCOLAR - Saindo das fraldas?http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/07/amizade-como-alicerce-da-inclusao.html

A INCLUSÃO ESCOLAR AINDA USA FRALDAS? http://infoativodefnet.blogspot.com/2010/07/inclusao-escolar-ainda-usa-fraldas.html

6 comentários:

  1. A educação Inclusiva, verdadeiramente inclusiva, ainda é um caminho muito longo a trilhar, mas só aqueles que conhecem a realidade e têm coragem para tal, o fazem. Sou fisioterapeuta, brasileira, formada em São Paulo. Vivo atualmente em Lisboa, pós-graduada em Pediatria e mestranda. Trabalho em escolas, onde existem as Unidades de Apoio aos Alunos com Multideficiência, e o trabalho vai muito mais além que simplesmente estimular e intervir em crianças especiais: o trabalho mais complexo passa-se na mudança de mentalidade da comunidade escolar, educar os professores, diretores, auxiliares, alunos... é um bom combate, ainda são poucos os combatentes, mas passo a passo, a batalha há de ser vencida.

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  2. Cara Carolina
    Agradeço esta contribuição sobre a Educação Inclusiva a partir de uma experiência prática, para além de nosso Brasil. A vivência com pessoas com deficiência com múltiplas deficiências, como uma criança com paralisia cerebral que apresente deficiência intelectual torna-se um desafio a vencer para os educadores, para a escola e seus equipamentos, assim como o é para os familiares...E é a partir dos desafios maiores que podemos crer em um futuro para a Educação, de quaisquer pessoas, ou melhor de cidadãos e cidadãs. Espero que os "juquinhas" com as suas diferentes formas de ser e estar como HUMANOS possa gerar a cada dia novos impasses para os educadores e as escolas. Desejo que possamos continuar trabalhando, arduamente por causa dos obstáculos (visíveis e invisíveis), mas também com muito afeto e muita dedicação na busca de todos os recursos, ajudas, tecnologias e mudanças de paradigmas que nos trarão um outro futuro para a Educação e seus educandos...
    um abraço doce e carinhoso

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  3. A Educação Inclusiva é um desafio para quem realmente entende o significado de inclusão.Pois precisa vencer o sistema que envolve a escola,o preconceito,a vontade de buscar recursos para melhor atender o aluno que precisa. Ser um professor que pesquisa é outro desafio ainda maior.Mas é através de desafios que construimos realidades diferenciadas.Sou estudante de pedagogia,estou no 5° período, vivêncio o que é ser deficiênte num país onde as coisas acontecem devagar,em que a cultura dos " perfeito" são empurrados goela abaixo de todos nós e temos que ter discernimento e uma inteireza para desvencilhar dessa " perfeição".Infelizmente ainda estamos caminhando à passos lento para uma Educação Inclusiva, tanto nas escolas , na sociedade e até mesmo nas famílias.Quantas escolas aceitam a criança com deficiência só para dizer e levar o título de incluisiva.Quantas omissões por parte dos órgãos públicos que dificulta nosso caminhar pelas ruas,quantas famílias ainda escondem seus filhos que não está nos padrões exigidos pela sociedade ou por serem deficientes dentro de suas casa , por medo ou falta de conhecimento.Quantas escolas deixam a criança com deficiência à margem do aprendizado,da socialização, porque não querem se preocupar realmente com Educação. Infelizmente deparamos muito ainda com professores mal preparados, preconceituosos e tradicionais.Sairão para o mercado de trabalho professores sem preparo para viver a diversidade. Falam - se tanto em diversidade , e ainda existe na faculdade, estudante de pedagogia,que exclui vergonhosamente suas próprias colegas que não apresentam o perfil exigido pela ditas "sabem tudo".Com desculpas cretinas que estão acostumadas a trabalhar com fulana ou sicrana .. Mas cadê a diversidade? cadê vivenciar a diversidade? cadê aprender com o diferente? como poderão transmitir o que não sabem.Como receber o aluno com dificuldades a serem trabalhadas se querem o mais fácil.
    Se é cultural ou não esse comportamento, não sei.Sei que precisa mudar. Chega de fingir!!
    Percebo que somente sensibilidade chega ao outro quando ele realmente conhece a realidade da situação.Estamos lutando , exigindo e almejando uma Educação melhor para todos independente de ter uma deficiência, ou ter uma condição social que o deixa excluido da sociedade.

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  4. Cara Rita
    O seu comentário traz várias questões para respondermos, individual e coletivamente, à nossa Sociedade que se diz INCLUSIVA, provocando-a a também se questionar sobre o processo de Inclusão de pessoas com deficiência no ensino regular... E o final dele nos indica uma questão a ser considerada sobre a amplitude do conceito de Educação Inclusiva, rementendo-nos à Declaração de Salamanca, e, quicá, indo além quando pensamos a oposição entre Inclusão e Exclusão Social, já que são conceitos que se misturam tão bem no atual cenário político e econômico do Brasil. Sim, temos de seguir o princípio da Educação como um Direito Humano inalienável, onde "ninguém deve ficar fora da Escola", sejam quais forem suas condições, características, singularidades ou suas pluralidades humanas...Obrigado e espero que muito vejam como já temos futuros educadores despertando para uma consciência crítica sobre o seu papel e suas atividades desafiadoras como professores em nosso país.
    Um abraço doce e estimulante

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  5. Cláudia Magalhães14 de agosto de 2011 23:16

    Atualmente trabalho em uma escola pública da rede estadual e percebo que os cursos para preparar os profissionais ainda são bem "invisíveis". As conversas sobre Inclusão ocorrem de vez em quando dentro do espaço escolar através de projetos,os quais não apresentam uma continuidade. Diante de tal quadro,os debates acabam ocupando mais os teritórios acadêmicos, mas acredito que o interesse dos educadores quanto ao tema, ocupará o território escolar quando os profissionais unirem sensibilidade ao conteúdo "obrigatório'. Segue o meu abraço amigo. Cláudia Magalhães

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  6. Dr. Jorge,mais uma vez venho na mesma tecla:e os que não tiveram a oportunidade da inclusão na idade correta e são felizes nas escolas especiais públicas?É justo que eles fiquem sem a escola? Até onde sei o Projeto Salamanca não acabou com as escolas especiais,não é verdade?Grande abraço.
    Maria Dulce

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