domingo, 23 de maio de 2010

A PARÁBOLA DA ROSA AZUL


Imagem publicada - foto do filme Beleza Americana onde uma jovem, loira e com sua nudez recoberta por pétalas de rosas, é o motivo de sonhos e fantasias de um personagem (Kevin Spacey). Ela está, simbolicamente, em um "mar de rosas vermelhas", as rosas americanas que não tem espinhos nem odor, são quase artificiais por isso com muito menos calor humano a transmitir. E me interrogarão: onde é que encontramos nesse mar as Rosas Azuis?

BIOPOLÍTICA, BIOÉTICA E NOSSOS CORPOS CONTEMPORÂNEOS

"Mas Diadorim, conforme diante de mim estava parado, reluzia no rosto, com uma beleza ainda maior, fora do comum. Os olhos - vislumbre meu - que cresciam sem beira, dum verde dos outros verdes, como nenhum pasto...." Guimarães Rosa ( Grande Sertão: Veredas)

Houve um tempo em que existiram, um jardim, um jardineiro e uma roseira. O jardineiro sabia-se apenas um cuidador das flores e plantas do jardim. O jardim era seu éden, quase perfeito e tinha um único dono. 

Coube ao jardineiro tentar uma experiência e pesquisa científica com essa roseira, que em tempos primaveris e com boa rega e adubos, produzia rosas de diferentes cores. Eram como as sexualidades humanas: multicoloridas, múltiplas e sempre mutantes, apesar dos espinhos. Não lhes faltavam rosas com a cor da dor ou do amor e seus variados perfumes sutis.

Como o dono do jardim quis provar, cientificamente, que poderia alterar gênese e função estética, além de seguir um padrão uniforme de toda a vizinhança, solicitou ao jardineiro que ‘normatizasse’ as rosas dessa roseira multicolorida.

Estabeleceu como ideal que ele provocasse uma mutação, um novo enxerto ou "terapia hiper-eugênica" para que a roseira só produzisse rosas com uma nova e intensa cor perfeita: Azul. Como o jardineiro, a moda do jardim de Alice no País da Maravilhas, tentasse obedecer a este amo e senhor, buscou fielmente a realização de seu desejo.

Mas a vida, assim como as rosas, não obedece a todos os nossos parâmetros de perfeição, e as flores antes multicoloridas e de diferentes perfumes, ao serem padronizadas passaram a ser tomadas como um ideal nas redondezas. Toda uma população contaminada e identitária passou a ‘pintar’ suas rosas para que essa nova cor da moda fosse presença em todos os jardins.. Nascia mais um império monocromático.

Como dizem, o que é bom dura pouco. Devido à sua perda precoce de pétalas, sua fragilização dos espinhos e progressivo envelhecimento precoce, surgiu, então, um problema e dilema, para que as rosas se tornassem apenas azuis.

Havia que também passar, necessariamente, por uma modificação genética e uma experiência nanotecnológica com transformação, através de pílulas e injeções, das mãos do próprio jardineiro. Tudo que ele passasse a tocar tornar-se-ia monocromático, apenas uma cor seria visível. E, progressivamente, seu próprio corpo também se tornaria perfeito: azul como aquela propaganda de celular.

Até um arco-iris, se possível de ser tocado, passaria apenas a traduzir em seu espectro luminoso o azul. Desde então o jardineiro está confinado em um laboratório de experimentação de drogas da indústria de pesticidas e invenção de rosas perfeitas e eternas. O jardim vem morrendo pelo aquecimento global, gerado pela hiper-industrialização e comercialização de rosas de plástico, que inclusive, tornaram-se as ‘culpadas’ de um novo tipo de lixo não reciclável, o seu dono está cada vez mais imperial e determinado a criar um ‘mundo global perfeito e sob controle’.

E as rosas? como dizia o doce Cartola: as rosas não falam, simplesmente exalam o perfume que roubam de ti... Por fim surgiram rosas simulacros e de cor única, todas de plástico e imortais. Para sempre azuis. E o mundo continuou a girar e gerar progresso, lucro e alienação.

Será apenas ficção ou cinema quando nossos corpos são utilizados para a experimentação científica? Ou cada dia mais estamos nos tornando cobaias e objeto de pesquisas em nome da Ciência e do Progresso? O quanto de biopolítica poderia se tornar uma ecopolítica bioéticamente "sustentável"?

Meta-parábola interrogante e dilemática do jardineiro infiel: a criação de rosas perfeitas, cuja beleza americana(1) é o paradigma da nossa sociedade pós-hiper-capitalista.... ou ainda podemos diversificar e multicolorir os nossos heterogêneos jardins da subjetividade humana?

Como então não cair nos espaços hipercapitalistas de criação de corpos e vidas nuas que se tornam qual cyborgs, que quando "recoloridos" cairão em um espaço de troca de peças, recall, manutenção preventiva e recauchutagem? Como em Gattaca seremos como novos ‘veiculos’- máquinas impulsionadas pelo modelo biomédico de produção serializada de corpos perfeitos e esteticamente ideais, escolhidos em laboratórios, mas precisando do sangue dos "inválidos"?.


E os olhos de Diadorins se apagarão para sempre...


(copyright jorgemarciopereiradeandrade 2010-2011)

REFERÊNCIAS NO TEXTO:
1- Beleza Americana - filme do diretor Sam Mendes (1999) - http://pt.wikipedia.org/wiki/Beleza_Americana

2- Gattaca (a Experiência Genética) - filme do diretor Andrew Niccol (1997) - http://pt.wikipedia.org/wiki/Gattaca

3- Ciborgue - Cyborgs - http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciborgue

LEIAM TAMBÉM NO BLOG -  

SAÚDE, BIOÉTICA E POLÍTICA - VENDEM-SE CORPOS, COMPRAM-SE CONSCIÊNCIAS 
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2015/04/saude-bioetica-e-politica-vendem-se.html

SEREMOS, NO FUTURO, CIBORGUES? Para Além de Nossas Deficiências Humanas http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/seremos-no-futuro-ciborgues-para-alem.html

ROBÔS, POLÍTICA E DEFICIÊNCIA 
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/07/robos-politica-e-deficiencia.html

AUTISMO: O AMOR É AZUL? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/03/autismo-o-amor-e-azul.html

8 comentários:

  1. Acabei de conhecer uma menina de nove anos com implante coclear a seis anos. Uma rosa azul.Os pais a querem iguais aos normais ouvintes e retiram dela qualquer chance de desenvolver uma identidade surda.Um aparelho externo, uma antena e outro aparelho enorme nas costas dentro de um bolso na blusinha casaco. Ainda não processei.

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  2. cara Louca pela Vida
    O que você conheceu é apenas um botão de flor que ainda poderá desabrochar com uma força enorme, tudo dependerá de não a 'pintarmos' somente de AZUL, mas de reconhecermos as novas cores que ela fará brotar de seu mundo interno... independentemente de se sentir ou estar surda, a principio, pois muitas pessoas que colocaram o implante são hoje aguerridos defensores da singularidade e da cultura surda, mas não se isolaram ou guetificaram na defesa apenas de seus interesses ou direitos...são rosas que acreditam na pluralidade e na heterogeneidade das diferenças... um doceabraço e continue comentando por aqui jorgemarcio

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  3. Rosas azuis andam por aí, des-multifacetando-se,
    des-singularizando-se, na desarmonia dos sem-fim.
    E nós aqui, tentando angariar um pouco mais de luz,
    de amor e de carinho...Para fazer valer a herança do belo, do bom, do merecido...
    Façamos então, jus, à nossa força carinhosa, voltando-nos nossos rostos em direção ao sol! Lá, (ou aqui, como queiram), a eternidade é agora, com espectros mútiplos, de arco-íres múltiplos, de bem-aventurança múltipla.

    Parabéns sempre, e obrigada, Jorge Márcio, por essa possibilidade pluriamorosa de pesquisar, avaliar, refazer, mostrar e dividir com todos nós, suas doces rosas com perfume verdadeiro, que vem de ti.

    Dora Alvarenga.

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  4. Querida e afetiva DORA
    obrigado pelo estímulo à produção de rosas heterogêneas e multiperfumadas, afirmação de singularidades, pluralidades e multiplicidades dos afetos e dos encontros alegres nesse nosso jardim global... espero ainda poder exalar um pouco mais, florir um pouco mais, e encantar sempre que possível. UM DOCEABRAÇO e continue comentando os textos do blog jorgemarcio

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  5. Fantástico texto, Jorge!
    Enquanto lia seu texto, pensava que enquanto lutamos por uma sociedade igualitária
    e menos preconceituosa, pessoas preocupadas com seus interesses, fazem experiências extremas em laboratórios colocando em
    risco o que nos torna verdadeiramente humanos. É tudo muito contraditório...
    Se a sociedade, há séculos, cultua um tipo de homem padronizado, esquecendo-se dos homens singulares, o que será da humanidade com a postura antiética de muitos profissionais da ciência e da tecnologia?
    A batalha contra isso será muito grande e exigirá muitos esforços. Mas a vitória é possível, basta ver esse trabalho maravilhoso que você faz compartilhando
    esses importantes conhecimentos com todas as pessoas. Sendo assim, "diversificar e multicolorir os nossos heterogêneos jardins da subjetividade humana", é possível.

    Farei um link desse texto no blog.

    Abraços!

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  6. CARA VERA já parceira de uma luta pela afirmação bioética da VIDA e também pela busca de um mundo onde a singularidade e as diversidades, incluindo até a da natureza, pois até na igualdade homegeneizadora temos de reagir para que nos afoguemos em um mundo que pode submergir e afundar nos seus próprios avanços biotecnológicos.. obrigado mais uma vez um doceabraço jorgemarcio

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  7. As rosas não falam, simplesmente as rosas exalam, o perfume que roubam de ti...Seus textos metafóricos encantam! Como pode fazer surgir de um jardim-jardineiro-rosas-cores, algo tão simbólico, tão integrado neste momento plastificado? Meu dulceecarinhosoabraço!
    DULCE SANTOS

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  8. OBRIGADA PELO SEU EXISTIR HUMANIZADO, INTELIGENTE, PELA SUA VIDA E PENSAMENTO CRÍTICO QUE ME AJUDA SER MAIS SENSÍVEL! HUMANA! CADA DIA quando vou lendo, digerindo, ruminando seus textos amado amigo Jorge Márcio eu reflito sobre o sentido da existência, das pessoas e da criação que me rodeia! Li e refleti sobre suas duras experiências, sobre a bioética, robôs, da desumanidade nos balcões dos hospitais, clínicas, da desumanização, das ciências, tecnologias sem ética, nem compromisso com os seres, da coisificação dos corpos e mentes que deixam de ser pensantes, críticos, avaliadores da realidade ao nosso redor, no país, no mundo! Tenho reagido e enviado seus textos para amigos e familiares, pois tenho sobrinha com Sindrome de Down, há os que lidam com saúde, médicos, estudantes... Todos passaram admirar o que escreve!

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