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sexta-feira, 14 de junho de 2013

A PRAÇA É DO POVO? AS RUAS SÃO DOS AUTOMÓVEIS E ÔNIBUS? E DIREITOS HUMANOS SÃO DE QUEM?

Imagem publicada – uma foto que tirei de um velho cartaz dos anos 80. É o cartaz de um evento que organizei junto com o Núcleo de Psicanálise e Análise Institucional, com o título, à direita: “68: Maio-junho e depois?”, com os nomes dos coordenadores desta Mesa redonda, à esquerda: Heliana Conde Rodrigues, Maria Beatriz Sá Leitão (in memoriam), Maria Isabel Feitosa, Jorge Márcio Andrade, Vera Vital Brasil, Ronald Arendt e Cecília Coimbra. É uma montagem de uma foto que tenho de David Gerard, de 1970, em preto e branco, onde há redesenhado um menino com uma máscara de gás, como um focinho protetor, traz uma garrafa de refrigerante na mão direita, uma Coca cola, como alusão aos coquetéis Molotov que foram usados em manifestações e resistências nos anos 60, mais especificamente no ano de 1968. Hoje, após as imagens, que só assistir sem não mais participar, do dia 13 de junho de 2013, me fizeram buscar essa indagação institucionalista já tornada antiga em meu coração: os meninos e meninas, os jovens do futuro terão de continuar fazendo, como no cartaz, um grande “X” em vermelho, com caneta esferográfica, sobre a palavra Estado?

Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão  (Pra Não Dizer que Não Falei das Flores
  Geraldo Vandré)

Até onde a manifestação de milhares de pessoas nas ruas de São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais contra aumentos de passagens é um ato considerado legítimo?  A questão é o preço, o quanto custa ou os custos de todas as nossas indignações contra as imposturas, desgovernos e corrupções da Sociedade do Espetáculo e de Controle?

Há a necessidade de analisarmos com mais atenção, carinho e respeito esse retorno das massas às ruas, às praças e ao ato da indignação. Em todo o mundo estão ocorrendo estes movimentos públicos que expressam indignação e revolta, como dizem Michael Hardt e Antonio Negri: “.... Manifestos trabalham como os antigos profetas, que, com o poder de suas visões, criam seus próprios povos. Os movimentos sociais dos dias atuais reverteram a ordem, tornando obsoletos manifestos e profetas. Os agentes da mudança já tomaram as ruas e ocuparam as praças, não apenas ameaçando e desestabilizando governantes, mas também conjurando visões de um novo mundo. Mais importante, talvez, as multidões, através de sua lógica e de suas práticas, de seus lemas/slogans e desejos, declararam um novo conjunto de princípios e verdades...”.

Eles indagam como estas manifestações públicas, espalhadas pela Europa, pela África, pelos Estados Unidos, e , agora no Brasil, podem com as suas declarações nos ajudar na reinvenção da maneira como nos relacionamos com os Outros e o nosso mundo?

Hoje, para estes pensadores políticos raros, é preciso crer e agir para que as pessoas sejam por suas capacidades e sabedoria de se autogovernarem, ao sair para as ruas e o mundo, geradoras das novas visões de mundo desejado e de direito de todos e todas.

 Os “novos profetas” urbanos não são do Apocalipse. São os muitos jovens, como os de 68, ávidos por justiça e direitos humanos. Já entenderam que estes ditos direitos não são os deturpados e ‘mal-ditos’ como sendo apenas para os aprisionados e foras da lei. Sabem distinguir a sua extensão a toda e qualquer forma de vida sobre a Terra.  São também, mesmo que excluídos como minorias, os mais desiludidos diante do hipercapitalismo.

E as multidões vão atrapalhar o trânsito. O que não é apenas a interferência nefasta sobre o meu, o seu e o nosso direito de ir e vir. É o confronto com as instâncias instituídas de poder, que usando a força de suas polícias, na falha de suas políticas públicas, acabam tingindo com sangue suas próprias mãos.

Já disse, hoje, após assistir as manobras políticas e as policiais, muito semelhantes em suas cruentas posturas e uso de suas forças, que não existem ‘balas de borracha’. Existem, sim, as muitas formas de exercício de controle biopolítico dessas multidões que não mais se acomodam apenas em poltronas e manifestos On line.

As balas usadas hoje, junto com a cortina de fumaça dos gases lacrimogêneos e as bombas de efeito moral, não são tão flexíveis como a borracha dos seringais. O material que as compõe é tão belicoso e controlador, embora aparentemente menos letais que as balas de chumbo ou aço.

Não existem BALAS de borracha, existem os que as usam para ferir quem os ''ameaça'' e dizem que a borracha “não mata”.  Os discursos sobre os feridos da multidão, incluindo os que trabalham para as mídias, despontam como sendo “excessos pontuais” da Polícia. Serão denominados também como meros “efeitos colaterais” do exercício da governança.

Entretanto, essa Violência é parecida com as que se impõem aos manifestantes de todo o mundo. A Palestina é aqui, a Grécia é aqui, a Turquia é aqui, o Egito é aqui, e também o HAITI É AQUI. Nosso mundo não é apenas “Glocal” e globalizado, é um mundo com todos os capitalismos integrados e mesclados.

Em todos os lugares só usam BALAS os que as produzem, comercializam, exploram, promovem seu aperfeiçoamento, e, depois entregam essa munição como balas a fundo perdido, inclusive para a criminalidade. Tenhamos certeza: o próximo alvo encontrado podemos ser nós, seu vizinho ou apenas um transeunte desconhecido.

Não existem proprietários dos espaços públicos. A noção de rua como espaço de liberdade é fundamental. O que podemos lamentar é que só se exerçam poderes com por trás de máscaras da opressão, da repressão, da violência, mais grave ainda se é feita pelos discursos ou ações “legitimadas” dos nossos governantes, pois como dizia Saint Just: “... não se governa inocentemente”.

Quando jovens, sejam da Zona Leste de São Paulo ou da Zona Oeste do Rio de Janeiro, vão às ruas protestar pelos centavos, aparentemente muito pouco para os que têm muito, há uma inversão de seu ato de massa. O seu protesto vai além do valor monetário da passagem. Eles e elas estão reivindicando sua não exclusão, lutando contra a onda de desfiliação e de segregação oriunda dos desempregos e das manipulações econômico-financeiras.

O mesmo trabalhador que se queixa do jovem com uma bandeira na mão é o que poderá se sentar com mais conforto e respeito em um transporte público e digno para todos; o mesmo jovem atingido por gás pimenta e emborrachas balas bem dirigidas pode vir a ser um trabalhador do transporte público de massa sustentável e ecológico, se o seu protesto não for considerado apenas um ato de vandalismo ou baderna. Como escreveu James Baldwin, nos Anos 60, "... da próxima vez, o Fogo".

E, aquele que fardado pelo nosso dinheiro público é investido da função repressora também é e será colocado sob a linha de tiro das explorações e desqualificações, sem falar de seu real risco de matar, como dizia o Vandré: “Há soldados armados, Amados ou não, Quase todos perdidos De armas na mão, Nos quartéis lhes ensinam Uma antiga lição: De morrer pela Pátria E viver sem razão...”.

A canção que tem toda a mítica e a História de resistência aos Anos de Chumbo da Ditadura Militar afirmava a presença dos indignados nas ruas. Não eram estímulos a uma subversão apenas, não eram apenas comunistas ou anarquistas, eram as multidões que não mais aceitavam as formas duras e inflexíveis do Golpe Militar, que foi transformado em Revolução.

Nas flores que não falamos por um longo período. Flores murchas, silenciadas com Tortura, Repressão e Violência do Estado. Flores que permanecem nos nossos corações como desejo de outras subjetividades e cartografias para nossas existências.

E, como diriam Hardt e Negri, esses: “...Movimentos de revolta e rebelião, pensamos, proveem os meios não apenas para recusar os regimes repressivos sob os quais sofrem essas figuras subjetivas, mas também para reverter essas subjetividades em figuras de poder”.

Hora, portanto, de ampliação de uma escuta/olhar sensíveis e respeitosos sobre essas multidões. Elas ecoam apenas o início de revoltas contra as produções de subjetividade de Endividados, Representados e Midiatizados. Aparentemente são muito poucos, por isso é que estão a quantificar as massas nesses eventos. O futuro dirá quantos serão nas praças, nas ruas e na constituição de novos modos de ação democrática.

Não retornamos a 1789, nem mesmo a 1948, mas os direitos considerados inalienáveis, uma construção/invenção dos séculos passados, passou a operar nos subterrâneos desses movimentos sociais, indo dos índios Munduruku até os jovens cantando e desfraldando surradas bandeiras. Não importam e importarão as suas cores, defesas ou lemas, contanto que os que detêm poderes aprendam a escutar e respeitar estes desejos de massa.

O Sr. Adolf soube manipular o desejo de amor e carisma de toda uma massa, todo um povo alemão. Freud em sua obra, a “Psicologia das massas e Análise do Ego”, ao analisar duas massas ‘artificiais’, as Igrejas e os Exércitos, nota que nas duas instituições “reina a mesma ilusão: a da presença, visível ou invisível, de um chefe que ama todos os membros daquela coletividade como um igual...”. Os que não gritassem Heil estavam contra o Grande Irmão.

 Existem, inclusive nos Direitos Humanos, pastores deputados dizendo que nos amam, que Cristo nos une, mas que exigem nossa total renúncia à diferença e à heterogeneidade, inclusive dos desejos e, principalmente, dos nossos direitos inalienáveis.

Há, em tempos pastorais e fanáticos, como já escrevi, uma enorme possibilidade dos obscurantismos e dos fundamentalismos arregimentarem e arrebanharem novas hordas de intolerância, novos eleitos, novos imaculados. Estas manifestações também podem ocupar os espaços públicos. Como massas também podem gritar slogans. A principal diferença é que nelas todos têm de ser ou se tornar HOMOgêneos.

Por isso ainda não tenho a resposta do cartaz: 2013, um ano pós-Maio de 68 ou o desejo triste e mortífero de retorno a um Março de 64? E depois? Serão outras flores, outras Primaveras?

PS.- Anuncio que a FRASE que cunhei para o Concurso da SEPPIR (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República), em comemoração do dia 13 DE MAIO – UMA OUTRA HISTÓRIA, foi uma das três vencedoras, com o meu desejo de "Abolir as novas escravidões e os velhos racismos, um futuro possível e urgente para o Brasil"...

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2013/2014 (favor citar o Autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de Massa)

INDICAÇÕES E FONTES NA INTERNET –


INDICAÇÕES PARA REFLEXÃO E CRÍTICA –
DECLARACIÓN – Michael Hardt & Antonio Negri, Ediciones Akal, Madrid, Espanha, 2012.

SOBRE A VIOLÊNCIA – Hanna Arendt, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2011.

AS FIGURAS DO PODER – Eugène Enriquez, Via Lettera Editora e Livraria, São Paulo, SP, 2007.

LEIAM TAMBÉM NO BLOG:

ONDE NASCEM E MORREM OS DIREITOS HUMANOS?

A CORÉIA DO FANATISMO POLÍTICO E FANATISMO RELIGIOSO DO PASTOR – Estamos no Século XXI? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/04/a-coreia-do-fanatismo-politico-e-o.html   

A MORTE DO FANÁTICO NÃO MATOU O FANATISMO

O ESTATUTO DO HOMEM E O DIA INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS

A VIOLÊNCIA NOSSA DE CADA DIA... DAÍ-NOS TAMBÉM.
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/11/violencia-ou-melhor-as-variadas-formas.html

quinta-feira, 21 de março de 2013

COMO ROMPER CONCEITOS PARA DEMOLIR PRECONCEITOS na Sociedade do Espetáculo?


Imagem publicada – Uma de minhas fotografias em preto e branco com uma criança negra, em primeiro plano, ao lado de outras crianças, chamadas de lulinhas, que segurava um cata-vento de papel, e que fazia parte de uma manifestação pública de apoio à candidatura do ex-presidente Lula da Silva pelo PT, em 1989, “sem medo de sermos felizes”. Uma criança em nós, que hoje deve estar refletindo sobre sua implicação e participação histórica nas mudanças que o Brasil realizou no campo dos conceitos e dos preconceitos. Aqueles que se alicerçam sobre e em política, principalmente quando não mais ocuparmos, com a mesma garra e desejo, as praças e ruas em defesa da democracia, dos direitos humanos e da VIDA LIVRE. Hoje são novos conceitos e ventos políticos que nos impulsionam, mas há ainda velhos preconceitos que não demolimos. Não há ventos para novos cataventos?

Os que me perguntam sobre a minha implicação com a publicação de ideias, matérias, notícias e textos na Internet sempre questionam minha “velocidade” e “intensidade” com que publico e difundo “novidades”.

O que explico, sem a pretensão de ser compreendido, é que não podemos deixar de buscar estas rupturas que as informações e seu conteúdo podem causar. Muito embora nos/me saiba imerso na sua hiper exposição midiática. Somos todos midiatizados.

 Quanto a essas “informações” precisamos dizer é não há como torná-las ácidas ou suficientemente demolidoras para o rompimento de todas as correntes que nos aprisionam.

Estas correntes muitas vezes não são tão visíveis e identificáveis. Tendemos na nossa voragem de modernidades e soluções rápidas, naturalizar os aprisionamentos, internações, institucionalizações e outros meios de contenção. Somos apenas consumidores amedrontados com o “futuro”.

Este dia 21 de Março é propício para tentarmos romper alguns desses conceitos que sustentam os nossos preconceitos.

Porém, são os últimos que geraram e geram a comemoração do DIA INTERNACIONAL DE COMBATE AO RACISMO. O outro é do DIA INTERNACIONAL DA SÍNDROME DE DOWN. Ambos estão e são transversalizados pela comemoração da Unicef do DIA MUNDIAL DA INFÂNCIA.

São três temas, três questões, três diferenças HUMANAS e  que precisam continuar sendo debatidas e esclarecidas. Primeiramente porque todas as três formas de ser e estar no mundo atual são ainda submetidas a situações de vulneração.

E além destas ainda teríamos de comemorar o DIA MUNDIAL DO TEATRO e o DIA MUNDIAL DA POESIA, bem como o DIA MUNDIAL DA ÁRVORE, mas estas comemorações não são nem cultural ou socialmente consideradas tão marcantes.

Em nossas noites globais e globalizantes, onde todos os homens tornam-se pardos, vislumbro uma longa caminhada para que não associem negros afrodescendentes com maldições.

Da mesma forma sonho há anos com a quebra do preconceito com pessoas com Síndrome de Down como “retardadas mentais”. Há muitos que ainda as segregam, diagnosticam, institucionalizam ou “des-colegam”, ou seja, por estas práticas e discursos os marginalizam.

O “descolegar” seria deixá-las sem a chance da fuga que três atores puderam realizar no filme Colegas. Aqueles sonhadores Down, fantasiados, fugindo das polícias, construíram um modelo micropolítico de aliança e suavidade na busca do mar, do vento, do amor e da liberdade.

Este verbo necessitaria para o combate ao preconceito de um novo verbo e conceito: “colegar-se”, tornar-se mais 01 colega. Mais um  parceiro destes sonhos. Eis, portanto, um verbo a incluir em nossas práticas para combater sua exclusão, tanto educacional como social, mais ainda política.

E, se ambas as condições forem de encontro com a infância teremos aí um prato cheio para o debate sobre como construímos, reconstruímos e tentamos manter em pé  algumas velhas e corroídas instituições ou paradigmas sobre suas diferenças e sua estigmatização.

O que me anima, nesses tempos pastorais de entrega dos Direitos Humanos a quem mais os violenta, é a certeza de que sob estas reterritorializações há ainda espaço para revoluções moleculares.

Na nossa Sociedade do Espetáculo muitas vezes o que nos apresentam como personalização do poder não passa de uma bela armadilha. Não podemos esquecer que os Direitos Humanos são interdependentes. 

As outras “comissões” ou “frentes” parlamentares têm de combaterem, é o que esperamos, os artifícios, dentro desse “teatro político” para que as outras máscaras (personas) possam cair. Continuaremos sendo suas fontes contribuintes e alimentadoras com nossos votos e campanhas?

 Por exemplo, enquanto nos indignamos com os Pastores ainda não resolvemos o problema das “cabras marcadas para morrer”. Um dado cruel e nacional é que não reduzimos, nem mesmo com a Maria da Penha, a violentação, prostituição, desqualificação e assassinato de mulheres.

E, hoje mesmo vi em um canal de TV, acho que a Rede de um Pastor, uma matéria sobre meninas, de pouca puberdade e adolescência, que fazem da prostituição infantil a sua sobrevivência no Amapá. Uma delas diz que precisa de se “vestir bem, comer do bom e do melhor, ganhar fácil”, e os programas da noite geram uma média de R$300,00 (trezentos reais) em Macapá. São meninas que se tornam mães, gestações de risco e possibilidade de maiores vulnerabilidades, a partir dos 10 ou 12 anos.

Então, como mudar esta panorâmica e de muitas longitudes situação brasileira do preconceito que se alimenta de falsos conceitos?

Não somos capazes de dar conta de toda essa “complexidade” geográfica e geopolítica. Sejamos, porém, combativos e determinados a tentar mesmo que micropoliticamente gerar uma ou muitas possibilidades de acontecimentos.

Enfim, podemos, como adolescentes despolitizadas e empobrecidas, nos tornamos também endividados. O hipercapitalismo nos compra “facilmente”, empresta seu dinheiro à noite, ou mesmo de dia, e nos cobra os juros mortais nesse mercado o resto do ano.

 Por isso, não podemos deixar de lado nossas indignações. Atualmente vivemos o tempo das massas que retomam as ruas e as praças. E, como os colegas, sonho com uma multidão gritando contra os racismos, as intolerâncias, os falsos profetas, os mercadores capitalísticos, ou, por exemplo, o preconceito com crianças com deficiência intelectual.

Isso tudo me faz pensar em nossas “caras pintadas” e nossos sonhos de outros tempos e outras políticas para nosso país e o mundo. Porém apesar de nossa suposta integração global ainda não estamos realmente incluídos nas soluções globais. Não devemos é aceitar passivamente novos espetáculos fascistantes ou fascinantes do mundo político.

Somos ainda, muitas vezes, meros espectadores do BBB e outros reality Shows, ou seja, vemos a vida sendo confinada, porém, não conseguimos deixar de sonhar com o milhão solucionador de nossas dívidas e outros consumos. Ou então nos tornamos crentes e messiânicos. Um novo “pai” ,seja político ou religioso, trará a cura, a salvação e a remissão de todas as nossas dores, dívidas e dúvidas.

Não bastará, portanto, que não sejamos mantidos em nossa confortável posição de passividade político-ético- social. Nossa época tem propiciado aos cidadãos e cidadãs outra porta de saída. Não temos em todos os espaços das nossas vidas sociais “boates Kiss” se tornando câmaras de gás mortal e asfixias. Não podemos é continuar reproduzindo-as.

Estamos, enquanto massa de tele-espectadores, muito mais para o papel de ribeirinhos. Aqueles que são acusados das tragédias nas serras, que se recusam, por não ter outras saídas, a se mudarem da beira dos rios e suas enchentes, inclusive de preconceitos.

 Não nos informam, para além da contagem de mortos e desaparecidos, quais foram as verbas do Capitalismo de Desastres desviadas para encher outros bolsos. E, para os que persistiram em sua territorialização marginal só restou e restará engolir mais barro, barrancos, mortes, riscos e violências.

 Inclusive as dos discursos oficiais de nossas estrelas políticas, nossos “representantes governamentais”. Os mesmos velhos discursos que já deveríamos ter desnaturalizado. Continuamos sendo re-presentados?

Apesar de todas essas situações o que vemos é a busca de outras saídas, individual ou coletivamente. Ao menos se quebram, para uma parcela “incluída e bem informada” nos meios informatizados da população, as correntes da desinformação. Porém, a meu ver, o conhecimento e a sabedoria não se multiplicam nessa nova inteligência coletiva.

Nessas redes que hoje nos aprisionamos/libertamos, como o Facebook ou Twitter, apresentamos nossos protestos, nossas manifestações ou manifestos cibernéticos. Também super, hiper expomos, inclusive quando clicamos “curtir” todas nossas próprias privacidades misturadas com todo tipo de ideias, conceitos e ideologias. Somos apenas cidadãos e cidadãs de “vidro”?

É nesse oceano de multiplicidades de interesses e novidades que venho tentando introduzir, sem pretender o sucesso, algumas provocações à reflexão. Por isso é que insisto, apesar de quase sempre “bloqueado”, na publicação de novas e presentes informações. É preciso navegar, navegar somente e para além da Internet é in-preciso.

Finalizando relembro que todos os nossos conceitos são construídos, que todos eles podem ser base e gênese social e histórica de nossas visões do mundo e do Outro. E que dependendo das distorções que as ideologias, as crenças somadas com os fanatismos ou fundamentalismos lhes imprimam e estimulem, podem eles, os conceitos, se tornarem até “cientificamente” comprovados.

Para os eugenistas de plantão, os que ainda falam ou escrevem ditatorialmente, os colegas psis que naturalizam a tortura ou a internação compulsória, os conselheiros que não tutelam, mas podem ser prostituídos, para racistas que justificam na pureza a discriminação e a morte, para os que fazem propaganda de outras formas de ocupação dos territórios marginalizados, e para os que lendo versículos prometam milagres enquanto enriquecem,,,

ENFIM, para os que não vislumbram o respeito e o direito a um mundo de “diferentes” que não querem ser homogeneizados e esterilizados, aqui fica, sem nenhum tom de pregação, a pro-vocação de que se insurjam contra eles/elas as novas massas alegres, amorosas, suaves, plurais e sempre libertárias. Vamos dizer “presentes” nessa necessária e urgente revolução molecular.

Ainda que em frequências tão baixas que só os que marcharem nas praças e nas ruas consigam ouvir...

E o 21 de março deixará de ser apenas espaço para estas importantes comemorações, será também um dia que um(a) ator(iz) down, um(a) poeta negro(a), uma criança só infância sem pobreza, como milhares de árvores da liberdade estarão, rizomaticamente, se espalhando por toda a Terra.
 Eu tenho esse sonho.

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2013-2014 (favor citar o autor e as fontes nas republicações livres pela Internet ou quaisquer outros meios de comunicação de massa)

Notícias citadas no texto –


Dia Internacional da Síndrome de Down – World Day Down Syndrome http://www.worlddownsyndromeday.org/

Dia Mundial da Infância – UNICEF  http://www.unicef.pt/  (Lembrando das crianças na Síria)

Infância Roubada: flagrantes mostram a prostituição infantil no Amapá

COLEGAS, O FILMEhttp://blogcolegasofilme.com/

Indicações para leitura crítica e reflexão –

O ESTADO ESPETÁCULO – ENSAIOS SOBRE E CONTRA O STAR SYSTEM  EM POLÍTICA -  Roger Gérard Schwartzenberg , Editora DIFEL, Rio de Janeiro, 1978.

TEMPOS DE FASCISMOS – Ideologia- Intolerância- Imaginário – Maria Luiza Tucci Carneiro & Federico Cruci (orgs.) –EDUSP, São Paulo, SP, 2010.

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –
01 NEGRO + 01 DOWN + 01 POETA = UM DIA PARA NÃO SE ESQUECER DE INCLUIR - https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/03/01-negro-01-down-01-poeta-01-dia-para.html

O VIGÉSSIMO PRIMEIRO DIA – CINEMA E SÍNDROME DE DOWN  https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/03/o-vigessimo-primeiro-dia-cinema-e.html




OS DESASTRES, OS HAITIS E AS SERRAS NO HIPERCAPITALISMO-

sexta-feira, 8 de março de 2013

MULHERES, DIREITOS HUMANOS HOJE E SUA EXCLUSÃO, em tempos pastorais...


Imagem publicada - uma fotografia em preto & branco de minha autoria. Eu a fiz em uma esquina do centro de Campinas, perto de uma Faculdade de Direito, onde se lê como aviso de trânsito: PARE.  E, sendo colada, por algum cidadão ou cidadã, logo abaixo, as palavras: “de ser indiferente”. Um apelo, criativo, necessário e urgente: PARE DE SER INDIFERENTE.

“Trespasse as montanhas, em vez de escalá-las, escave a terra em vez de aplainá-la, abra buracos no espaço em vez de mantê-lo uniforme, transforme a Terra em um queijo suíço”. Gilles Deleuze e Félix Guattari (Mil Platôs – Mille Plateaux)

Há uma indiferença massificada para a afirmação de que somos des-iguais, quando se reflete sobre as condições da maioria das mulheres e seus Direitos Humanos. Temos, porém de reconhecer que nessa invenção do Século XX: os Direitos Humanos, ainda não aprendemos muito sobre o feminino e suas multiplicidades. Mas ficamos sabendo, impotentes, de suas violações e vulnerações.

Estive forçado pelas minhas limitações humanas, assim como por um triste olhar sobre como somos, como estamos e para onde caminhamos, in-diferentes, afastado do exercício desta necessidade e urgência de escrever.

Somente a minha própria re-leitura, olhando para o Feminino em nós, relembrando que o ÚTERO É O MUNDO E O MUNDO É UM ÚTERO, é que decidi me forçar a “pena” árdua de usar a pena, como diriam os que se escreviam as cartas de papel e tinta há alguns séculos atrás.

Os escritos indignados nem sempre trazem a força do que desejamos colocar ou expressar através deles.

Hoje, 08 de março de 2013, estamos vendo como é possível a “venda”, sob o modelo “utilitarista’’ do mundo capitalístico, aquilo que também pareceria invendável: os direitos humanos.

Uma venda que também pode ser dita como a mesma que impede a Justiça de enxergar claramente e “direito” os nossos direitos sendo aviltados... A mesma Senhora Vetusta que, por força desses vedamentos e pelo andar da carruagem da História do mundo, caminha a passos rápidos em direções mais destras do que sinistras.

Um pastor, que não é de rebanhos não dóceis, foi levado como oferta política para a condução dos Direitos Humanos e das MINORIAS, no Planalto Central. As Minorias, aquelas que se confundem com as marginalizações, foram excluídas em uma “eleição” a portas fechadas.

 E, para dentro de um espaço dito democrático, mesmo que com as portas e os ouvido fechados aos protestos, sob contenção, do lado de fora, o Deputado Federal Marco Feliciano foi “ungido” como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias.

 Lá fora gritavam deitados no chão, os expulsos brasileiros e brasileiras: - NÃO PODEMOS CAIR NESSA CONTRADIÇÃO ESTATAL; UM RACISTA, UM HOMOFÓBICO NÃO TEM COMO SE DIZER E AFIMAR  UM DEFENSOR DESSES DIREITOS, AGORA, POR ELE BEM- DITOS: HUMANOS.  Assistimos a mais uma encenação, no ventre dos Poderes, forjada evangélica e macro politicamente

E, caros amigos e amigas, que me desculpem, se não entendi. O Pastor me/nos pede uma chance para provar sua capacidade de nos defender?

Estou nesses dias Marco Felicianos de Cristandades Falsas, embora descontente e indignado, refletindo e repensando como homenagear as mulheres.

O calor gerado pelas manifestações contrárias a este pastor, que não é de cabras não cegas, me fez desejar que a DOÇURA OU A FORÇA FÊMEA, incluída em nossos corpos e mentes, me possuíssem e reinstalassem meu desejo de outro mundo possível. Um mundo da afirmação de nossos devires-mulher.

Ficamos todos e todas, muito desiludidos? Talvez sim, no primeiro choque com a notícia. E, após uma reflexão das minorias como potências, NÃO. Somos cientes de que as alianças macropolíticas encenadas em nossas CÂMARAS, das municipais até as federais, sempre foram urdidas para a manutenção de uma ORDEM e de um PROGRESSO.

 Há e houve, entretanto, em nossa história democrática as criações de brechas, rachaduras moleculares e os rizomas, que espalhando indignação ou conscientização geram e geraram os pequenos furos sociais, as linhas de fuga, por onde a liberdade se instalou e pode ser vivenciada.

O dia 08 rememora as mulheres que cruzaram seus braços e decretaram que não mais iriam tecer ou fiar. Foi há mais de um século e meio, em Nova Iorque, na busca da sonhada igualdade de condições de trabalho e das horas de fiação sob o comando de homens.

As mulheres, com sua força para fiarem, tecerem e, como as Penélopes, desfazerem seus próprios tecidos, inclusive os mais fecundos de seus úteros, foram e são também as protagonistas políticas dessas re-evoluções nas quais nos prendemos e nos soltamos.

Hoje são elas, como vi recentemente no campo da Medicina, que passam a ser o a “maioria”. Porém permanecem, para além de sua crônica desqualificação trabalhista e profissional, alguns estigmas que nos fizeram e ainda fazem torná-las ainda bruxas ou feiticeiras.  Hoje inventamos fogueiras sutis e menos visíveis do que na Inquisição para “queimar” suas diferenças.

Os tempos digitais não descobriram o seu potencial feminino não analógico. Ainda somos mecânicos com elas. Ainda as violentamos em muitos países, em diferentes culturas, mas com as mesmas castrações e esterilizações.

Ainda, como Freud, em 1933, nos surpreendemos com as MULHERES e suas capacidades, para além da tecelagem de um tapete ou malha, feita por Anna Freud, sua filha-discípula e solteirona.  Segundo Sadie Plant: “Sigmund Freud fez a tentativa final de solucionar o enigma da feminilidade...”. 

Ele escreveu “que as mulheres só deram umas poucas contribuições às invenções e descobertas da história da civilização...”. Porém, foi uma de suas analisandas, a analista Marie Bonaparte, que lhe salvou a pele diante do nazi-fascismo a peso de ouro de Napoleão Bonaparte.

Como diriam Guattari e Deleuze, o pai da Psicanálise se manteve apenas preso a um “olhar edipiano”, reducionista e até ridículo sobre as mulheres, inclusive as que formavam os primordiais círculos psicanalíticos. Mas o doutor Freud era do Século XIX.

As mulheres, diriam os dois anti-edípicos e visionários pensadores franceses, são muito mais rizomáticas, relvas que se espalham, do que árvores com uma única e sedentária raiz fixada ao chão, masculino e machista. São Gaia, são Terra.

 “Um rizoma não tem começo nem fim; está sempre no meio, entre coisas”. As relvas, as epífitas, as samambaias e os bambus, que não respeitam territórios fixos, não têm raízes, mas rizomas.

Podem crescer e se multiplicar subterraneamente, assim agiram Emma Goldman, Rosa de Luxemburgo, Zuzu Angel, Sonia Moraes Angel, e muitas outras guerreiras ou revolucionárias. São, foram e serão sempre “subversivas”.

 Elas estão mais próximas das Folhas das Folhas da Relva do poeta Walt Whitman, que em sua orientação sexual divergente já as elogiava e reconhecia como as dobras das quais, desdobradas, vinham e virão nascer os grandes homens.

Nascemos delas, delas ainda, todos e todas, descenderemos. E não será um processo de serialização por reprodução assistida em laboratório que as descartarão em futuro próximo. O seu útero ainda é sua maior, inigualável e insubstituível força. Até mesmo quando tentamos castrá-lo, mesmo que virtualmente.

Por isso, temos de buscar essas Mulheres Digitais e Mãe-trix que nos superarão para o futuro. Isso se não forem reprimidas, violentadas, condicionadas e aprisionadas em nossos modelos binários e binarizantes de macho e fêmea.

O Pastor ainda funciona nessa visão estreita e preconceituosa – homem é homem, índio é índio, negro é negro, mas os homo-sexuais não são e serão além de coisas aberrantes e anormais, também coisas demoníacas...

Como algumas mulheres. E o casamento entre diferenças pode ser o fim da humanidade. Para impedir essas aberrações só a família, com a mulher como propriedade do homem, pode combater e reprimir esses desviantes ou diferentes seres.

Somos e continuaremos sendo, humanamente e demasiado, muito além das limitações a que nossos séculos de doutrinações, sejam políticas, ideológicas, religiosas ou mesmo científicas, tornaram redutíveis às nossas superfícies biológicas e sexuais.

Não podemos esquecer, por Deleuze e Guattari, que o Estado e seus mecanismos de controle biopolítico agem por conversão dos fluxos moleculares e desinstitucionalizadores em segmentos molares, novas instituições.

Portanto, não estranhemos que entreguem os Direitos Humanos para quem os viola. É a reterritorialização estatal de nossos potenciais e desejos de revoluções micropolíticas e moleculares. Os discursos sobre estes direitos não mais os efetivam, apesar de serem interdependentes, sem ativa participação das chamadas minorias.

A maior profundidade que podemos atingir não passa de nosso maior órgão do corpo humano: a pele. Por isso devemos combater, todos os dias, essas pregações de cunhos fundamentalistas e de gênero.

Somos múltiplos, como as mulheres, somos plurais e podemos ser muitos e muitos Outros em apenas um de nós mesmos. O poeta Pessoa não me deixa omitir ou negar.

E, docemente, peço que não reduzam esta afirmação ao seu cunho apenas de prosa ou poesia, pois é sim “poesis”.

Afirmemos o sentido de poesis como geração, ou melhor, gestação, de muitas formas de Vida, para além da visão de Vidas Nuas. Façamos os resgates que o Feminino Plural deve tomar em suas mãos e corpos para que a trans-formação de nosso mundo continue em marcha e evoluindo. O Futuro está nas mãos e corpos das filhas, das filhas das filhas de minhas filhas...

Destas que herdarão o que semearmos agora, seja em direitos ou em exclusões e miséria, é que devemos esperar, para além do modelo reality-show da Sociedade do Espetáculo, a construção de outra “gramática civil”, outra indispensável liberdade e cidadania. Outros caminhos, outras veredas e cartografias do viver e re-existir.

Copyright/left, a destra e a sinistra, jorgemarciopereiradeandrade 2013=2014 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa)

LEITURAS INDICADAS NO/PARA ALÉM DO TEXTO E DO CONTEXTO –

MIL PLATÔS  Capitalismo e Esquizofrenia - Gilles Deleuze & Félix Guattari – Editora 34, Rio de Janeiro, RJ, 1995-1997.

MULHER DIGITAL – O FEMININO E AS NOVAS TECNOLOGIAS – Sadie Plant, Editora Rosa dos Ventos, Rio de Janeiro, RJ, 1999.

LEIA(m) TAMBÉM NO BLOG –

OS DES(Z) MANDAMENTOS DO CORPO FEMININO http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2015/03/os-desz-mandamentos-do-corpo-feminino.html

O MARTELO NAS BRUXAS – COMO “QUEIMAR”, HOJE, AS DIFERENÇAS FEMININAS?

MULHERES SANGUE E VIDA, PARA ALÉM DE SUA EXCLUSÃO HISTÓRICA.

TODO ÚTERO É UM MUNDO.

EUGENIA, COMO REALIZAR A CASTRAÇÃO E ESTERILIZAÇÃO DE MULHERES E HOMENS COM DEFICIÊNCIA?

sábado, 14 de julho de 2012

ROBÔS, POLÍTICA E DEFICIÊNCIA.


Imagem publicada – uma foto em preto e branco sobre um filme, dos anos 30, sobre a presença e criação de robôs pela ciência. Um cientista se vê cercado pelas criaturas que aparentemente ameaçam ou ameaçarão o seu próprio criador. É a metáfora de Frankenstein que se repetiu em muitos filmes, e hoje é parte de um questionamento bioético sobre os limites de nossas intervenções biotecnológicas e médicas no corpo e na vida dos seres humanos. O que estamos inventando para o nosso futuro: desde robôs nano tecnológicos que tratarão nossos adoecimentos ou adoecidos seres humanos que se tornarão também robôs?

Quando acordei a semana passada de uma anestesia geral, novamente, pensei em quem estava ao meu lado na sala de recuperação. Eram muitos, pois minha pressão arterial caiu, e os meus temores aumentaram o número de leitos ocupados. Somos impelidos a ver múltiplos ou duplos de nós mesmos nas horas de turvamento da consciência Então, semi lúcido, pensei naqueles que nos assistiam e monitorizavam, eram para mim parecidos com robôs...

Por que então o tema dos robôs me foi lembrado? Primeiramente por que eu próprio já me sentira um quando acordei da neurocirurgia no ano de 2009. Não sei se os meus leitores já sabem do que sofri no pós-operatório e da colocação em meu corpo de parafusos e hastes de titânio. Muitos ainda nem sabem das sequelas que adquiri.

Pela dor acrescentada pelo descuido tive uma queda acidental ao ser deixado cair de uma cama para uma maca. Estavam me levando para uma tomografia. E foi um forte homem negro, um “segurança” do hospital que colocou dentro da máquina. Começavam aí minhas ideias sobre a robotização do corpo e da humanidade. Começou minha vivência e experiência de meu duplo com deficiência...

No local onde permaneci dentro de um hospital universitário havia o que já presenciara muitas vezes de outro ponto de vista, também na Saúde Mental: a desumanização do cuidado como Outro. Era o que chamamos de serialização de atitudes e comportamentos. Os profissionais de saúde, assim como outros que lidam com grandes massas ou públicos, podem se tornar autômatos.

Tornam-se ou nos tornamos verdadeiros seres robotizados por um trabalho exaustivo e alienante. Os riscos que deveriam ser um estímulo criativo tornam-se uma ameaça, é o que ouvi de profissionais durante a noite hospitalizada e fria. No quarto ao lado estavam sujeitos amarrados em seus leitos, eram assaltantes perigosos, justificavam os três policiais de colete que passearam noite adentram na porta do meu quarto quase infectado.

Desta lembrança indelével, qual a memória de quem sofre uma tortura, é que restou uma vontade de refletir sobre o que é realmente um robot?

A palavra ROBOT vem do tcheco, que significa trabalho repetitivo, depressa destronou denominações mais antigas como autómatos ou androides, generalizando-se como designação corrente para as “máquinas” capazes de realizar, com algum grau de autonomia, vários tipos de operações.

Na etimologia tcheca oriunda de tempos medievais o termo “robota” significava o trabalho gratuito que um servo devia ao senhor. Ou melhor, era uma das formas de trabalho escravo. A ideia atravessou os anos e ainda temos esse trabalho indigno nas nossas melhores grifes ou roupas, lá os tempos modernos de Chaplin são fielmente reproduzidos. O modelo fordista e serializado obriga aos “neo-robôs” bolivianos, por exemplo, a uma servidão contínua. 

A primeira ideia sobre o termo me foi apresentada pela psicanálise. Em um trabalho de Sigmund Freud em seu trabalho sobre o “estranho, o sinistro, o desconhecido” (Das unheimliche -1919). Este texto é inspirado em outro autor: E. T. Hoffmann, um escritor, músico e desenhista alemão. Foi em seu conto o “Homem de Areia” que inspirou Freud para mais uma teorização a partir da literatura.

Não é a revelação freudiana de que o que nos assusta no desconhecido é também a nossa atração ou desejo de vivenciá-lo, mas como tentamos negar essa relação. É o aspecto de estranheza que algumas formas de “duplos” ou espelhamentos nossos despertam. É o que me faz pensar sobre nossas robotizações em ação, são as máquinas humanoides que me interessam. Vivenciamos muitas angústias diante das máquinas e as recalcamos.

Estamos cada dia mais próximos do que na ficção dizemos temer: um dia o exterminador do futuro estará se liquefazendo, como um homem de areia, na nossa frente. A história que se construiu sobre nossas futuras situações diante das tecnologias e dos robôs é de uma guerra em que perdemos tudo. Inclusive nossa própria capacidade de sermos humanos.

O que já vivencie no corpo e na mente através das minhas próprias fragilizações me mostra o quanto uma deficiência pode ser tratada como uma aproximação de máquinas. O modelo biomédico ainda ativo nas formas de cuidado é a intervenção mais presente, com apenas técnicas ou biotecnologias. Muitas vezes desumanizadas. É o que esperamos de nosso futuro ciborgue? Ou o que esperamos dos ciborgues do futuro?

A revista Info recentemente estampou em sua capa a seguinte chamada: “Superação Ciborgue”, com o subtítulo: “engenheiros e médicos unem-se para criar próteses controladas por chip, sensores e software. Elas substituem pernas, mãos, pés, joelhos e até ouvidos. Entendam como funcionam”.

A capa me suscitou algumas questões. Ela apresenta um homem com os mesmos pés Cheetah. São as pernas de titânio substitutas do atleta parolímpico Alan Fonteneles, parecidas com as próteses de Pistorius. Aquele atleta que quer ser “incluído” nas Olimpíadas dos “normais”.

Uma de minhas indagações é quantos são os sujeitos que têm acesso a estas pernas substitutas? Ainda mais o quanto há de aperfeiçoamento destas próteses apenas com a intenção de futuras robotizações checas no hipercapitalismo? Olhamos com temor estes novos ciborgues com deficiência? É o desconhecido futuro que nos espera/assusta?

Sou e serei um entusiasta das novas tecnologias aplicadas como assistivas ou suplementares para pessoas com deficiência. Há, porém esta questão que chamarei de biopolítica da transformação de nossos corpos “hipossuficientes” em corpos plenamente controláveis para a produção serializada de um trabalho alienado.

Há muitos anos venho difundindo e estimulando os avanços que podem ser conquistados com o uso de novas formas de inclusão com uso de tecnologias de reabilitação ou habilitação. Aposto, porém, no futuro da universalização de acesso socializado e não segregado às novas tecnologias.

O que temos de alertar, para além das possibilidades de um homem como Neil Harbinsson, é a quantidade de sujeitos sem nenhum acesso ao que podem estes “aparelhos”, “neo esqueletos”, “próteses eletro-eletrônicas”, enfim, quaisquer das mais avançadas formas de nos tornar mais biônicos. O cinema já naturaliza os “transformers” como a massa do futuro.

Somos hoje uma massa de mais de 600 milhões de pessoas com deficiência. Há uma margem de aproximadamente 20 a 30% destes seres humanos que ainda estão nas chamadas exclusões sociais e pobreza. Calculem quantos anos ou séculos levaremos para sua real inclusão desses não-cidadãos e cidadãs na perspectiva futurista do game Deus Ex: Human revolution, citada na Info?

No Brasil já temos alguns destes avanços, como os implantes cocleares, sendo incluídos no direito universal da saúde e da qualidade de vida. Porém ainda temos também na sua contramão, apesar dos milhões do Viver sem limites, bem como dos investimentos em tecnologias assistivas, uma grande massa de excluídos, micro e macro politicamente, do usufruto destes avanços.

Recentemente visitei um site que demonstra o uso do Kinect, um videogame sem nenhum controle, onde nossos movimentos é que são projetados/controlados, como forma de ajuda tecnológica para pessoas dentro do espectro do Autismo. Mas a pesquisa da Universidade de Minessota se diz servir para “... alertar para que haja uma maior atenção com aquelas (crianças) que mostrarem comportamentos não esperados, como tendência para ser ativo demais ou de menos”.

Nessa área de controlar e identificar as diferenças, sem, contudo, qualificar suas singularidades, é que temo pela promoção de seu uso meramente classificatório e reabilitador. Para além dessa perspectiva devemos buscar a criação de novas cartografias e novos usos micropolíticos dessas “invenções ou descobertas científicas”.

Nessa perspectiva é que entramos em um ano muito importante. Estamos perto de ver paromlípicos quebrando os mesmos recordes que os ditos olímpicos. Estamos tele ou assistindo e conhecendo o crescimento do número de candidatos com deficiência para cargos representativos em governos municipais ou câmara de vereadores. Aumentaremos a participação política de pessoas com deficiência nos espaços de governo e gestão pública?

Creio e espero que sim. Porém, ainda temos de promover uma ampla conscientização e capacitação sobre os mais elementares direitos e conquistas a que cada cidadão ou cidadã com deficiência têm direito. 

As formas de exercício macro político, apesar do crescimento da presença de pessoas com deficiência em seus espaços de poder, mantêm-se presas à corrupção e ao uso desonesto de recursos públicos. 

Ainda temos muitos representantes robotizados e desumanizados, verdadeiros portadores, estes sim, de muitas “deficiências” ético-políticas. Já naturalizaram a centralização e o abuso do poder. E, sua maioria, atendendo a interesses pessoais, eleitorais ou minoritários, ainda insiste em criar novos artifícios legais antes mesmo de reconhecer o que já foi ratificado e decretado.

Um exemplo é ausência de reais políticas públicas intersetoriais que estejam garantindo, para além do acesso gratuito a alguns, a verdadeira acessibilidade dos estádios da Copa. E a transparência dos gastos astronômicos desde a demolição às novas arquiteturas que ainda não conhecem o conceito de desenho universal. Eis uma tarefa árdua para os candidatos a participação nesse cenário político...

O que espero, então, de novos e postulantes, como sujeitos com deficiência, à sua participação nos poderes públicos? Espero que possam reforçar a compreensão da indispensável mudança do paradigma biomédico, já que nele considerei um campo fértil para a simples robotização. E que possam, ativamente, propagar e efetivar o que se postula como o modelo social das deficiências.

Ao se manter a visão assistencialista, paternalista, caritativa, excludente e adoecida de sujeitos vivendo e convivendo com deficiências estamos também mantendo um olhar biopolítico de controle e uso de seus corpos. Precisamos buscar o olhar, a visão e a escuta sensível dos Estudos sobre as Deficiências. Precisamos investir na conscientização e apropriação da Convenção e os direitos humanos. Precisamos de políticas públicas que se fundamentem nesses princípios.

Uma plataforma que espero se incluirá nos discursos e nas propostas concretas de quem se investir nos lugares de representação macro política é o exercício micropolítico e revolucionário da re-humanização de espaços de saúde e educação.

O projeto e processo inclusivo, a meu ver, devem alicerçar ações e cuidados, para além do olhar reabilitador, que tornem nossos corpos para além do trans-humano ou robótico. A visão de servidão que está subjacente/significante à nossa protetização hipermoderna, apesar do que se propagandeia oficialmente, é a que equipara não apenas a funcionalidade de um corpo.

É principalmente quando não esperamos, onipotentemente, a sua transformação em um objeto-robô. Primeiramente porque já sabemos, de antemão, que muitos ficaram e ficarão fora do alcance destas conquistas micro, macro ou nano tecnológicas. Como dizia um velho conhecido: quem bancará seu custo? Além disso, podemos apenas atender às pessoas que puderem ter acesso aos recursos ou avanços da sociedade. Ou seja, quem pode pagar.

Um exemplo atual é a notícia de uma companhia de aviação que terá seus banheiros com acessibilidade. Espero que a mesma se recorde das suas inúmeras ações de preconceito com os passageiros considerados prioridade nos aeroportos. Não basta poder fazer xixi sentado com barras de apoio. Precisamos de todos os direitos de acessibilidade, para além das barreiras visíveis, sendo cumpridos e respeitados.

Nem mesmo bastará que a acessibilidade dos aeroportos se torne, por causa dos eventos esportivos futuros, uma realidade parcial. Os espaços de voos ou pouso não são os únicos que garantem a inclusão social e econômica sustentável que irá para mais de 20 anos. 

Estes espaços não podem se tornar os não-lugares. Se como as escolas, se tornarem realmente inclusivos e universais nem teremos então de dialogar com um ponto eletrônico da Anac, do PROCON ou da Infraero no futuro. Ainda existirão, nesse porvir, “trabalhadores” re-humanizados. As formas metálicas ou frias de resposta já terão sido sofisticadas por novos andróides.

Por isso não podemos esquecer que o que alguns homens imaginam outros poderão realizar no futuro. A primeira citação a robôs é de 1920. Faz parte da peça de Karel Kapek: R.U.R (“Rossuns Universal Robots”). Surgida como desencanto após a 1ª Guerra Mundial como um alerta para a humanidade, antevisão de uma guerra com “soldados universais”, metade homem, metade máquina mortífera.

Primeiramente são criadas cópias fiéis de nós humanos. Tornados trabalhadores eficientes, apesar de “deficientes”, tornar-se-ão os futuros robots. Tornam-se, então, capazes de amar o BBB, esquecendo-se de 1984 de Orwell, ou se serializam em um Admirável Mundo Novo, esquecendo que Aldous Huxley bebeu de sua própria literatura, o “soma”, a bebida que surge de cogumelos, para entrar em contato, sem dor ou sofrimento, com seu/nosso lado sinistro: a morte.

Vivemos intensamente os tempos do Hipercapitalismo integrado e excludente, na Idade Mídia. Engolfamo-nos, serializados, em dilemas bioéticos como as clonagens terapêuticas e reprodutivas, as próteses, os implantes, as cirurgias plásticas de total reconstrução e remodelação corporal, com suas diferentes formas de artifícios, lipoaspirações, fertilizações invitro, barrigas de aluguel, cirurgias bariátricas.

Hoje, ontem e amanhã vamos até o limite ético e eugênico das descobertas de meios de “prevenção” de uma Síndrome de Down por exames ultrassofisticados. Tendo a certeza de que todos são e serão muito caros e eticamente questionáveis.

Eu, aqui, sorvendo e sofredor dessas literaturas bioéticas, espero, sonhador de outras utopias, um pouco de humanidade nos autômatos e subjetividades que estamos produzindo, para além de quaisquer de suas deficiências humanas, no campo do exercício dos poderes.

Excelências ou futuras excelências me digam que estou errado. Vocês por nenhum dinheiro do mundo irão esquecer as pontes para o futuro que desejou o criador da Bioética. Como humanos potencializados pelas novas tecnologias nunca irão permitir a edulcoração, o adoçamento, ou a negação de nossos direitos fundamentais.

Não estamos ainda para além das Sírias, dos Sertões, das catástrofes ou massacres. Caminhamos na incerteza, dialogamos permanentemente com a Dona Morte, esquecendo que a atual e moderna felicidade de consumo é apenas dependente dos fatores e poderes políticos.

Quem sabe os próximos tempos nos tragam novas formas de governamentabilidade e sustentabilidade. E, eu, afirmativamente, só votarei em quem souber me dizer com propriedade e crítica o que significam as palavras robô, política e deficiência.


Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2012-2013 ad infinitum - todos os direitos reservados (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)


Notícias na INTERNET:

R.U.R. http://en.wikipedia.org/wiki/R.U.R.


TAM será a primeira no mundo a ter banheiros com acessibilidade em aeronaves narrow body http://www.revistafator.com.br/ver_noticia.php?not=209856

Revista INFO – Nº 316= Maio de 2012: Superação Ciborgue
http://www.lojaabril.com.br/detalhes/revista-info_superacao-ciborgue_edicao-316_maioe2012-486368
KINECT AJUDA A DIAGNOSTICAR E A TRATAR AUTISMO http://robotica-autismo.com/

Primeiras imagens de robôs de Robocop, que será dirigido por José Padilha, caem na rede http://colunas.revistaepoca.globo.com/brunoastuto/2012/07/13/primeiras-imagens-de-robos-de-robocop-que-sera-dirigido-por-jose-padilha-caem-na-rede/

Google pode usar mini-robôs voadores para capturar imagens (1984 – Orwell tinha a antevisão?*) http://googlediscovery.com/2010/08/07/google-pode-usar-mini-robos-voadores-para-capturar-imagens/

7 assustadoras tecnologias de “1984, George Orwell” que existem nos dias de hoje! http://literatortura.com/2012/07/03/7-assustadoras-tecnologias-de-1984-george-orwell-que-existem-nos-dias-de-hoje/
POLÍTICA NACIONAL DE HUMANIZAÇÃO no SUS http://portal.saude.gov.br/portal/saude/cidadao/area.cfm?id_area=1342
O que é Humanização? http://hitechnologies.com.br/humanizacao/o-que-e-humanizacao/

Um pequeno questionamento – Chain Samuel Katz
http://www.freudiana.com.br/documentos/chaimabf.pdf

Novo exame para detectar síndrome de Down gera discussões éticas http://www.dw.de/dw/article/0,,16091026,00.html

Indicações para Leitura:
Das Unheimliche, Sigmund Freud 1919h, em Gesammelte Werke, vol. XII. Trad. Brasileira,Standard Edição Brasileira, trad. Imago, vol. XVII, Rio de Janeiro, RJ.

Contos Sinistros – E. T. A. Hoffmann – Editora Max Limonad, São Paulo, SP, 1987.

O que é deficiência – Debora Diniz, Editora Brasiliense, São Paulo, SP, 2007.

Sobre a felicidade – Ansiedade e consumo na era do Hipercapitalismo – Renata Salicecl, Editora Alameda, São Paulo, SP, 2005.

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