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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

OS NOVOS MALDITOS E AS NOVAS SEGREGAÇÕES: da Lepra ao Crack


Imagem Publicada - Uma gravura que reproduz um ser humano, na IDADE MÉDIA, com o rosto marcado por feridas, que representariam seu contágio pelo Bacilo de Hansen, e que as tornava portadores de um estigma: eram os "leprosos". Esta vestido com uma túnica vermelha que cobre todo o seu corpo, assim com um chapéu que o caracteriza como portador de um mal. Nessa gravura reproduzida em uma parede está um sino que era obrigatório portarem os ditos leprosos para que todos fossem avisados, nas cidades, de sua chegada. Em seguida, geralmente eram expulsos e segregados para além dos limites da cidade. Na foto aparece um desses sinos que esperamos nunca mais tenhamos de ouvir em nossas mentes, ou seja que possamos vencer e inverter o temor de sermos tocados por outros seres humanos, principalmente os que denominarmos de "malditos".

LEPRA, a palavra foi banida. O preconceito ainda nos habita e se reorganiza. O contágio torna o Brasil o segundo do Mundo globalizado e hipercapitalista, em suas múltiplas convulsões sócio-econômicas. Somos quem sabe também os campeões nos neo-preconceitos?

Houve um tempo em que estar ‘’leproso’’ nos levava para fora dos muros das cidades. Estivemos recentemente relembrando estas formas instituídas de segregação sanitária e biopolítica.

No dia 29 de janeiro foi comemorado o Dia internacional de Combate à Hanseníase. Nome em homenagem ao descobridor do bacilo: Hansen. Eis o novo termo que devemos utilizar. Embora ao pesquisar em língua espanhola o termo Lepra e Leprosos ainda persista. Minimamente nas notícias e na mídia. Bem como ainda habita e prolifera no âmago de muitos inconscientes.

Ao ser afetado pelas inúmeras matérias que difundi pelo Twitter e pelo Facebook, principalmente por uma, me lembrei de como eram tratados estes sujeitos hansenianos lá em MG. Na cidade próxima a minha, Três Corações, fora de sua periferia, existiu um ‘’leprosário’’. Um asilo. Era de lá que chegavam as minhas primeiras memórias sobre a hanseníase.

De lá vinham as cartas, de lá vinham essas missivas que deveriam ser queimadas após sua leitura. Eram contagiosas. Elas traziam os relatos breves de pessoas lá internadas, com letra de forma batida a máquina, e que pediam (ou melhor, suplicavam) a ajuda financeira e outras caridades para os que lá ‘’apodreciam’’. Esta é a imagem que nos ensinavam à época, quiçá uns 40, 50 ou mais anos atrás.

Estes velhos, amedrontadores, contagiantes e, segregadamente, miseráveis retornam hoje à minha mente. O que me trouxe essa memória? Trouxe-me o quanto, apesar dos muitos anos, ainda temos um modelo de medo e repulsa associado às doenças consideradas ‘’malditas’’. O temor que se projete em um corpo anômalo, anormal, marginalizado e doentio. Uma vida nua.

Uma vida nua que foi aplicada, por exemplo, à existência de um homem no Mato Grosso. O idoso José Garcia da Cruz, de 106 anos, viveu essa realidade. “Temos registros da chegada dele no São Julião em 1941, poucos dias depois da inauguração do local. Ele foi o 6º paciente a ser internado e vive aqui há pouco mais de 70 anos”, confirma o diretor do Hospital São Julião. Setenta anos de reclusão e isolamento para o “bem” da sociedade. Seria ele um Lázaro que resiste à Vida?

Ele me lembrou, também, das cartas contagiantes de MG: “Quando eu ia ao mercado era um problema, principalmente na hora de pagar, porque as pessoas não queriam pegar o dinheiro porque tinham medo de encostar em mim. Elas tinham medo de pegar a doença”, contou ele. A reportagem finaliza com um alívio para as boas consciências: “Em 2007, Cruz passou a receber uma pensão especial vitalícia do governo federal. Ele foi o primeiro brasileiro a receber o benefício”.

Por isso temos de nos indagar com mais seriedade ética e responsabilidade bioética das novas práticas de internamento e reclusão. Voltamos aos séculos anteriores, ou pior regredimos à época da Nau dos Insesatos? Que tempo e era é essa que estamos imersos até o pescoço?

Estamos no tempo dos que biopoliticamente se tornaram motivo de "internações compulsórias e involuntárias". O leprosários estão sendo protagonizados hoje, institucionalmente, pelos asilos, pelas comunidades de tratamento ou pelos hospitais que deverão internar e re-internar a nova epidemia: o Crack.

Tomando como plataforma política o Estado e a cidade de São Paulo resolveram tratar uma de suas muitas ‘’chagas’’ sociais: a Cracolândia. Esqueceram, porém, que, como no Pinheirinho, apesar da miséria ou da pobreza, estavam lá e ali aglutinados muitos corpos humanos contagiantes. Para além de suas desfiliações sociais eram e são apenas seres humanos...

Estes corpos e vidas nuas não transmitem hoje apenas doenças infectocontagiosas. Eles transmitem ao nosso povo, dito maioria, e seus governantes um sentimento profundo de repulsa misturado com medo. E nessa hora o melhor é expulsá-los do coração da cidade...

São os excluídos a serem incluídos pelo seu abrigamento, isolamento e ‘’tratamento humanizado’’. Mesmo que precisemos usar nossas forças policiais e a velha repressão dos tempos da Ditadura...

Quantas vezes pensamos que estas ações repressivas são a melhor forma de lidar e resolver estas chagas que nós próprios alimentamos? A aprovação de uma internação compulsória tornou-se estatisticamente um desejo, com toda certeza, de uma maioria, diz o DataFolha de mais de 54%. Mas anunciaram como uma maioria que: “No Brasil, 90% aprovam internação involuntária de viciados...”.

Isso mesmo: viciados. Era assim também que lá nos anos 60 estereotipavam quem usasse cabelos compridos, falasse em paz, rock ou fumasse maconha, caminhando e cantando dentro de alguma calça jeans. Devem ser agora estes o motivo de algum saudosismo ou desejo de torná-los os ‘’bichos de sete cabeças’’, como o foi o jovem Carrano. E a Rita Lee tem de se despedir deles rumo a uma nova ‘’acareação’’ com as novas formas de reprimir.

Nem mesmo atualizam o termo para dependências químicas ou a drogadição. São os perniciosos fumantes de crack ou de outras rocks (sem roll) que classificamos higienisticamente, são os neo-portadores de um velho estigma: são os novos malditos, os novos leprosos...

Vamos então aplaudir as iniciativas governamentais de erradicação das drogas. Mas, por favor, não tomemos a máxima popular de ‘’cortar o mal pela raiz’’. Assim pensavam os velhos fascistas e alguns nacional socialistas. A erradicação dessa nova ‘’epidemia’’ não é a eliminação dos corpos contagiados por ela. Muito menos a criação de novos mini-cômios.

Levamos alguns séculos para compreender o quanto estigmatizamos os que foram chamados de leprosos. Quantos séculos serão necessários para entender que os ‘’viciados’’ são uma questão da saúde, das políticas públicas, dos direitos humanos e, principalmente, hoje, das indústrias farmacêuticas e das biotecnologias. Podemos dizer que a verdadeira maioria dos dependentes é sim uma questão da Bioética.

Ao buscarmos “curas’’ radicais, negando a autonomia e os direitos fundamentais do sujeito, nos mostra a História que criamos quase sempre os Estados de Exceção, os Campos de concentração ou extermínio, os Manicômios, os Leprosários, os Asilos e todas as outras formas institucionalizadas de disciplina ou controle dos corpos humanos.

Os discursos competentes que elaboramos datam de muito tempo atrás. Algumas pessoas colocam ainda estes ‘’viciados’’ como perturbação da tranquilidade comercial e econômica das cidades. Estes ‘’desocupados’’ devem desocupar os territórios produtivos hipercapitalizados. E, se possível devem ir para campo dos refugiados, afinal eles são uma ‘’mancha’’ improdutiva para a Sociedade do consumo na Idade Mídia.

Vamos, então, como na época dos tratamentos "morais" e "asilares", tão bem dissecados e estudados em sua genealogia por Foucault, providenciar novos ‘’panópticos’’ que possam abrigar essa gente, ou essa ralé (segundo a visão do programa Mulheres Ricas). E, talvez, isolando-os também nos livramos de suas incomodas presenças em nossas cidades, ou será que apenas em nossos “ castelos”?

EM TEMPO, lhes anuncio que o meu corpo, aparentemente não contagiante, foi submetido recentemente a uma biópsia, em meu braço esquerdo, no trajeto do nervo cubital, para um possível diagnóstico diferencial com a hanseníase (uma lembrança/estigma da Saúde Mental).

Se me for dado o positivo serei eu também mais um proscrito? Em qual asilo encontrarei, longe de todos vocês, a proteção para o meu maior risco: ser tão mortal, tão carnal, tão vivo, tão frágil, tão desassossegado e tão humanamente contagiante como todos nós?

E nossos prédios ou nossos Titanics modernos também caem ou afundam... Os muros invisíveis é que se reconstroem e reinstitucionalizam, incessantemente.


Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2012-2013 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

LEIA(m) E SE INFORME(m), e combata(m) os estigmas e preconceitos:
Lepra http://pt.wikipedia.org/wiki/Lepra
Hanseníase http://portal.saude.gov.br/portal/saude/profissional/area.cfm?id_area=1466

Segundo país do mundo em casos de hanseníase, Brasil também precisa combater o preconceito http://www.redebrasilatual.com.br/temas/saude/2012/01/segundo-pais-do-mundo-em-casos-de-hanseniase-brasil-tambem-precisa-combater-o-preconceito
'Tinham medo de encostar em mim', diz idoso que se curou da hanseníase http://g1.globo.com/mato-grosso-do-sul/noticia/2012/01/tinham-medo-de-encostar-em-mim-diz-idoso-que-se-curou-da-hanseniase.html

HOSPITAL EM ITU-Pirapitingui tem 261 pacientes; na década de 1960 eram 4 mil http://portal.cruzeirodosul.inf.br/acessarmateria.jsf?id=361348


Governo federal cria unidades de acolhimento "humanizado" a dependentes químicos http://www.redebrasilatual.com.br/temas/saude/2012/01/governo-cria-unidades-de-acolhimento-201chumanizado201d-de-dependentes-quimicos

Antropólogo: Ação na Cracolândia é digna do século 18 http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5553294-EI6578,00.html

No Brasil, 90% aprovam internação involuntária de viciados http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/90-dos-brasileiros-aprovam-internacao-involuntaria-de-viciados

Para leitura crítica:

O Poder Psiquiátrico – Michel Foucault – Editora Martins Fontes, São Paulo, SP, 2006.

Estado de Exceção – Giorgio Agamben – Editora Boitempo, São Paulo, SP, 2004.

Leia(m) também no BLOG:

O RETORNO DA INTEGRAÇÃO PELA INCLUSÃO: novos muros nas escolas, fábricas e hospitais...

http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/12/o-retorno-da-integracao-pela-inclusao.html

SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS COMO DESAFIO ÉTICO PARA A CIDADANIA
http://infoativodefnet.blogspot.com/2010/06/saude-mental-e-direitos-humanos-como.html

O MANICÔMIO MORREU? PARA QUE O MANTEMOS VIVO EM NÓS? 
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2015/05/o-manicomio-morreu-para-que-o-mantemos.html

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

VAN GOGH - A CONSTRUÇÃO DE UMA A-NORMALIDADE


Imagem publicada - a capa do livro Van Gogh - ou enterro no campo de trigo (escrito em frances- Van Gogh ou l'enterrement dans les blés), da escritora francesa VIVIANE FORRESTER, que abre uma outra visão sobre o pintor e sua biografia. Na capa um autoretrato famoso como um homem branco, de barba, vestindo um paleto simples e de olhar profundamente penetrante,sobre um fundo azul. Um homem indecifrável, apesar de todas as biografias ou patografias que se escrevam sobre ele. Apenas um homem que amava sem ser amado...

"La tristesse durera toujours" (em francês, "A tristeza durará para sempre" frase que marca seu último suspiro nos braços de seu irmão)

O Cão de Van Gogh é amarelo. Amarelo como os seus girassóis, como seu trigal e os corvos, como o início de seu crepúsculo em Arles. É o amarelo de uma dor profunda e inesgotável de quem se tornou o maior mito de loucura da história humana. A sua obra é transversalizada pelas idéias preconceituosas sobre os loucos, mas não sobre o seu sofrimento ou sua alienação pela Sociedade e seus a-normais.

Nunca é tarde para a construção ou desconstrução de um mito. Nunca é tarde para que a história traga novas luzes ou sombras sobre os homens. Um novo estudo sobre sua vida pode trazer um homem genial para a ''claridade'' ou para o enevoamento? como se fôsse possível obscurecer um pintor que amava a luz.

O homem "depressivo" que nasceu e logo recebeu o mesmo nome de seu avô paterno e também daquele que seria o primogênito da família, morto antes mesmo de nascer exatamente um ano antes de seu nascimento: Vincent Willen Van Gogh. Esta pode ter sido uma de suas primeiras atormentações que sedimentaram sua genialidade e vida. Eu sou o passado morto e não o futuro que a Arte me revelou.

Antonin Artaud o denominou ''o suicidado da sociedade'' em seu brilhante texto. Ele é VAN GOGH (1853-1890). O holândes que foi denominado de ''louco'', "esquizofrênico'', ''epiléptico'', "drogadicto'', "alcóolatra", "maníaco-depressivo'' e, finalmente "suicida''. Hoje ele é um dos mais utilizados exemplos pela indústria farmacêutica psiquiátrica como transtorno bipolar.

Tornou-se, como qualquer ícone ou mito, um ''brand sense'', uma peça de marketing ou de propaganda. Hoje é um símbolo de ''riqueza'' quando um Banco o torna uma ''conta para privilégiados'' clientes. Ele continua "vivo" embora sempre renovadamente suicidado pelo consumo de sua arte impressionante e pós-impressionista.

Em 29 de julho de 1890, em Auvers-sur-Oise, na França, faleceu de um agora "suposto" tiro no próprio peito. Termina nos braços de seu irmão após agonizar por dois dias dizendo: "a tristeza durará para sempre". Conforme a descrição que conhecia primeiro, em brilhante texto de Juan Antonio Vallejo-Nágera, um psiquiatra espanhol, que com seu Loucos Egrégios, escreve sobre o Crepúsculo deste artista. Ele me apresentou as Cartas a Theo, donde iniciei meus questionamentos sobre a patologização de Van Gogh. São 821 cartas que muitas vezes transpiram mais lucidez e sofrimento do que o que chamamos de loucura.

Hoje, dois escritores premiados pelo Pulitzer trazem uma nova versão que poderá mudar a visão patologizada e anorma deste mestre dos impressionistas. Segundo Steven Naifeh e Gregory White Smith em nova biografia livro "Van Gogh: The Life" (Van Gogh: A Vida, em tradução livre); para eles o pintor foi vítima de uma bala perdida de um suposto duelo de dois jovens que se vestiam de cowboys. A arma que matou Van Gogh nunca foi encontrada, eis o ponto de partida para esta pesquisa e livro destes autores.

Segundo a matéria jornalística publicada: "Nesta nova biografia, os autores escrevem ainda que a família de Van Gogh terá tentado internar o pintor, que sofria de epilepsia, num asilo. Steven Naifeh e Gregory White Smith defendem que Van Gogh viva sob grande aflição e que terá sido a mistura de sentimentos, entre a mania e a depressão, que terão provocado a sua epilepsia." Estas aflições já o haviam atormentado antes, já se expressavam em sua arte e nas cartas dirigidas ao irmão Theo, seu provedor e protetor. Para quem se lamentava que este " tenha que viver como um pobre para me sustentar''...

Era um homem que se atormentava ou era atormentado na pobreza? Ambas as situações, vivenciadas por ambos e sua família, demonstram que a época que viveu ajudou muito a sua exclusão social. Após alguns incidentes em Arlés, sul da França, escreveu para Theo: " Escrevo-lhe de plena posse de meu espírito e não como um louco; como o irmão que você conhece... Pessoas daqui enviaram ao prefeito (acho que se chama Tardieu) uma nota, com mais de 80 assinaturas apontando-me como um homem indigno de viver em liberdade ou coisa semelhante... Já estou aqui há muitos dias, debaixo de chaves, ferrolhos e guardiões, no manicômio. Se não contivesse a minha indignação, julgar-me-iam um louco furioso..."

E fala de sua espera paciente pela ''liberdade'', uma liberdade que, solitário, só conhecia com pincéis, tinta e terebentina, ao ar livre.

Ele, em pleno século das incipientes internações, continuou motivo de ''tratamentos'' posteriores, como os que foram realizados pelo médico Dr. Gachet, em Auvers-sur-Oise, a quem retratou no período em se internou "voluntariamente", após considerar em carta para Theo: "Acho que está tão doido como eu".

Em estudos posteriores sobre a vida e a obra do pintor atribui-se ao médico algumas dos seus sintomas. Dr. Gachet é retratado com uma planta em sua mão: a digitalis. A mesma que pode ter contribuído para algumas das alterações psíquicas vivenciadas como efeitos colaterais deste tratamento.

Trago, então, novas tintas para o quadro "patográfico" de Van Gogh. Primeiramente evoco, como transversalidade histórica, o fato de ser no período de maior criatividade e também de ''loucura'' de Van Gogh que se construiu, conforme Foucault, a articulação do modelo asilar. Nascem os primeiros espaços de segregação dos que, como Van Gogh, sofressem de "Loucuras".

E isso se dá exatamente como nos mostra Foucault: "...o asilo (a internação) tinha se constituido no prolongamento do modelo familiar - o asilo do século XIX funcionou com base no modelo de um micropoder próximo do que podemos chamar de poder disciplinar...- creio que podemos situá-la entre 1860-1880 - e é simplesmente a partir daí que a família pôde se tornar modelo no funcionamento da disciplina psiquiátrica, mas sobretudo pôde se tornar o horizonte e o objeto da prática psiquátrica." (pág. 153- O Poder Psiquátrico)

Reinvindico a atualização de uma construção de a-normalidade para os Van Goghs nesses tempos atuais. O que estamos assistindo, ou melhor teleolhando, é a afirmação de que na Era ou Idade Mídia todos podem ser transformados em ''a-normais''. Estamos no tempo em que um artista com TOC pode propor uma ''arrumação'' de grandes artistas e sua obras. Para que a sociedade disciplinar, de Foucault, dê passagem à Sociedade do Controle a que nos estamos acostumando, é preciso ''deixar o mundo (globalizado) mais arrumado''.

Há uma revoada de corvos políticos sobre o trigal que não poderemos modificar. As massas, seus dessaranjos e dessassosegos, teimam em se indignar com tanta necessidade de ordem e progresso à custa de muitas misérias.

Penso e repenso sobre Van Goghs nesses tempos de tantas e tamanhas movimentações da Dona Morte em busca, obssessivamente, da Ordem e do Progresso. Mata-se um ditador na Líbia enquanto, sob o mesmo solo árido e fecundo da África, alguns mercenários brincam de cowboys. Matam e violentam, quaisquer seres vivos considerados Vidas Nuas, na Somália ou outros solos que tragam sangue e petróleo misturados. Genocídios tornam-se naturais e banalizados, dizem que se constroem novas democracias, e também, por que não novos mercados. E, nesse cenário em ruínas, são pintados os quadros neo-capitalísticos.

Portanto, os que procuram um diagnóstico retrospectivo do pintor precisam estar alertas para as barbáries que se gestam nos nossos corações solitários e ações coletivas. Podemos continuar acreditando que a melhor solução para as loucuras individuais seja ainda a ''grande internação'', mas nos esquecemos de colocar antipsicóticos ou antidepressivos na ''caixa d'água'' dos que lubrificam, com miséria, guerras e fome, as máquinas de destruição.

Ainda não li o novo livro biográfico reformulador da morte de Van Gogh. Espero que o traduzam e possamos compará-lo ao texto de Viviane Forrester. Ela, na minha compreensão, já estava atravessada pela paixão das cores do holandes maldito. E será sempre um contraponto às formas de captura das biografias no nosso hipercapitalismo e pós-modernidade.

Foi ela que nos anteavisou sobre o Horror Econômico, ao afirmar que "os ricos não precisam mais dos pobres''. Uma Europa que hoje assistimos em sua derrocada econômica, e produzindo no Velho mundo as mesmas massas de desfiliados que ajudou a produzir, no passado, em nosso Novo mundo latino-americano.

Um bom exemplo, para nossa reflexão, é quando um banco espanhol nos propõe que façamos os ''investimentos Van Gogh". Eles estão trabalhando, nessa peça publicitária que: ..."têm como objetivo gerar uma reflexão nas pessoas sobre o hábito de investir, estimulando os clientes a fazê-lo sempre e de maneira certa, proporcionando mais liberdade de escolha em suas vidas e apoiando a realização de sonhos e projetos futuros, mesmo que eles ainda nem saibam exatamente quais são neste momento".

E assim poderemos um dia, bem protegidos em nossas finanças e condomínios, nos distanciarmos do mundo onde vivem somente as minorias despossuídas, os loucos de toda sorte, e todos os outros excluídos destas poupanças ou proteções financeiras. Para eles/elas, mesmo que artistas ou gênios em potencial, ficarão os viadutos, a rua, os ''abrigos'' ou o manicômio.

Retomemos, então, o cuidado e a suavidade para com os que recebem muitos rótulos ou estigmas. Os que colocamos como marginais da história, seja na arte, na política ou na filosofia, acabam retornando de suas tumbas para nos assombrar com revelações de nossas essências universais. Van Gogh ainda deve continuar sendo um nome a re-conhecer, para além de quaisquer de suas ''loucuras''.

E que se torne também um paradigma estético para uma nova ética sobre como pintar um outro mundo possível. Um planeta Terra cheio de luz, com muitos girassóis e trigais, sem os corvos macropolíticos que se alimentam de nossos escombros ou cadáveres midiatizáveis . E, então, continuo sonhando que os nossos cães, como já disse, ladrarão. E, obsoletas, por pura utopia ou sonho, nossas massas microrevolucionárias passarão.

E, nós os psiquiatras, psicanalistas, psicólogos e outros mais modernos psis, cuidaremos, com respeito, ética e muita suavidade de outras ou nossas próprias loucuras... Van Gogh descansará em seu campo de trigo...bem longe da porta giratória dos bancos e dos banqueiros. Entra-se triste e se sai sempre mais triste de lá. A TRISTEZA DURARÁ PARA SEMPRE?


copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa)

Fontes sobre o texto na Internet:

Vincent van Gogh - http://pt.wikipedia.org/wiki/Vincent_van_Gogh

Nova biografia- Afinal Van Gogh não se suicidou, foi vítima de uma bala perdida http://ipsilon.publico.pt/artes/texto.aspx?id=295239

Van Gogh não cometeu suicídio, revela nova biografia - http://www.correiodoestado.com.br/noticias/van-gogh-nao-cometeu-suicidio-revela-nova-biografia_128631/

Em nova campanha, Santander propõe reflexão às pessoas http://exame.abril.com.br/marketing/noticias/em-nova-campanha-santander-propoe-reflexao-as-pessoas

Para deixar o mundo mais organizado, artista com TOC rearranja quadros famosos http://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/arte/album-de-fotos/artista-suico-com-t-o-c-rearranja-quadros-de-pintores-famosos

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS INDICADAS -
- LOUCOS EGRÉGIOS - Juan Vallejo-Nágera - Editora Guanabara Dois, Rio de Janeiro, RJ, 1979
- Van Gogh - O Enterro nos Campos de Trigo - Viviane Forrester , Editora LPM, Porto Alegre, RS, 1989.
- O Poder Psiquiátrico - Michel Foucault - Editora Martins Fontes, São Paulo, SP, 2006.

LEIA TAMBÉM NO BLOG -
Os Nossos Cães desColoridos - nossas ''depressões'' no Dia Mundial da Saúde Mental -
http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/10/os-nossos-caes-descoloridos-nossas.html

sexta-feira, 4 de junho de 2010

AS SELEÇÕES: OS ESTÁDIOS, OS PARADIGMAS E UM NOVO GAME


Imagem publicada - O cartaz do filme Rollerball, os Gladiadores do Futuro (1975) que traz o ator James Caan, personagem principal do filme vestido com um capacete e com sua mão em riste, com uma luva cheia de pontas, como parte da "armadura" que os jogadores devem vestir, nessa distopia filmica que fala de um futuro (2005) onde não havendo mais guerras, os países seriam substituídos por corporações, e este game novo seria disputado em arenas lotadas, como um jogo violento que serviria para aliviar as tensões e controlar a população, demonstrando-se a futilidade do individualismo.

Em tempos de futebol global, de novas "cóleras étnicas" e novas administrações de combates estatais das epidemias planetárias, com o porquinho gripal nos ameaçando a vida, com um passado recente de uma outra gripe que batia asas e colocava os ovos de serpente dos fascismos, faz-se necessário retomar a questão da BIOPOLÍTICA.

A produção da homogeneidade não exige mudanças de paradigmas mas sim a sua conservação e institucionalização, quase sempre de forma sedutora e muito bem desejada pelas massas. Já lotamos estádios de futebol com milhares de corpos humanos, tanto para as Copas como para o emparedamento de chilenos na era Pinochet. O campo de disputa lúdica, hoje uma grande máquina-indústria esportiva, pode ser o mesmo para a eliminação da discordância ou dissidência política.

Bastou trocarmos as chuteiras por botas militares... a única diferença é o rumor de torcida que não se ouviu no controle autoritário e ditatorial de prisioneiros políticos, mas a bandeira da pátria tremulava, e alguma forma de biopolítica serviu para justificar a sua '' eliminação ", tudo em nome do nacionalismo.

Para ajudar na compreensão do que escrevi anteriormente na linha de cruzamento entre a Biopolítica e a Bioética, e devido à proximidade da IV Conferência Nacional de Saúde Mental, estou trazendo algumas linhas já escritas sobre a questão do Paradigma Biomédico questionando seus fundamentos, história, sua ligação com a Biopolítica e os questionamentos que devemos produzir.

É uma tentativa de lembrar que os nossos paradigmas, ou seja normas ou padrões, ao se tornarem instituídos, naturalizados e ‘cientificamente’ comprovados, muitos deles podem perder suas forças instituintes, seu potencial de sonho e transformação, tornando-se fechados e rígidos. Passam de possibilidades de avanço para uma confirmação de retrocesso.

O paradigma biomédico é historicamente ligado ao surgimento de uma concepção de ‘normatização da vida’, uma proposta que foi denominada de ‘biopolítica’ pelo pensador Michel Foucault. Este paradigma era fundamentado na visão fisicalista e orgânica da vida, como uma nascente de um modelo, nos fins do século XVIII, de administração e controle dos corpos e uma nova ‘gestão calculada’ da vida (Foucault, 1978).


Pela primeira vez nesse período da história, o biológico ingressa no registro da política: a vida entra, através de um esquadrihamento estatístico, demográfico, uma concepção de doença e controle das epidemias, no espaço do controle do saber e da intervenção do poder estatal.

Os sujeitos, cidadãos e cidadãs, na qualidade de sujeitos de direitos, se necessário com a perda destes, passam a ocupar um segundo plano em relação à preocupação política de maximizar o vigor e ‘não-doença’ (aqui um conceito próprio para não me referir à saúde, como nos termos atuais propostos pela OMS). 

Para  Michel Foucault deveríamos, então, falar de uma ‘biopolítica’ para designar o que faz com que a vida e seus mecanismos possam entrar no domínio de cálculos explícitos, e o que transforma o saber-poder em um agente de transformação da vida humana.


Na biopolítica, os corpos e a população devem ser submetidos a um novo e sutil modo de controle. Passamos da Sociedade Disciplinar para a Sociedade do Controle. Viva o Big Brother dos corpos "saudáveis e válidos" que foram "selecionados". Para isso precisamos da naturalização de uma visão hegemônica e dominante da condição de ser, do homem e do conhecimento, que a História demonstra o quanto de exclusão, discriminação, segregação, racismos e eugenia puderam ser confirmados em fundamentos "científicos e biomédicos". Assim o Estado pode transformar muitas vidas humanas em "vidas nuas" (Giorgio Agamben).

Dentro dessa visão do Poder do Estado de Exceção é que podemos afirmar que um paradigma também é uma representação mental, socialmente aceita e legitimada, que se torna um marco conceitual para tudo o que pensamos, sentimos, fazemos ou dizemos. Passa ser o modo a partir do qual veremos a realidade, e, portanto, o substrato de nossas ações. Eis a Questão Humana?

Eis o momento ideal para o surgimento de nossas ‘cegueiras brancas’, como nos ensina e adverte Saramago. Bastará lembrarmos o que se constituiu o modelo biopolítico do Nacional Socialismo, da medicina nazista e fascista, que experimentou suas primeiras formas de controle, com extermínio e experimentações científicas, de milhares de pessoas com deficiência. Foram estas pessoas as primeiras, assim como ciganos e homossexuais, que sofreram os campos de extermínio e concentração, depois vieram os judeus, dissidentes políticos e demais ‘parasitas sociais’. A alegação principal é, eugenicamente, da ‘purificação da raça e da sociedade’.

Em seu nome temos uma transformação do corpo de todos os seres humanos, como nos transmitiu Bettelheim, transformados em “mercadoria’: “Tanto os campos de concentração quanto os de extermínio, e o que ocorria neles, era uma aplicação irracional do conceito de trabalho como uma mercadoria. Nos campos, não só o trabalho humano como a pessoa como um todo transformavam-se em mercadoria. As pessoas eram’ manuseadas’ como se fossem feitas de encomenda. Eram usadas e substituídas ao bel-prazer do freguês, no caso, o Estado. Quando não prestavam mais, eram jogadas fora, mas com cuidado, para que não se desperdiçasse nenhum material aproveitável...”.

No final do século XVIII, em passagem para o século XIX, houve uma ruptura de paradigma no interior do saber e da prática médica; a medicina segundo a conceituação de Foucault deixa de ser classificatória para tornar-se anátomo-clínica. Bichat, um anatomista, ao estudar as superfícies tissulares do corpo humano, inaugurou uma nova concepção, denominada por Foucault de ‘medicina moderna’. Nessa perspectiva, passa-se a pensar a doença como localizada no corpo humano, e a anatomia patológica, até então sem nenhuma função para uma medicina eminentemente erudita, insere-se na prática médica.

Uma das mais importantes vertentes do paradigma biomédico, no século XVIII para o XIX, que irá atravessar ‘corpos deficientes ou inválidos’, é a do higienismo, confirmada por Canguilhem em seus Escritos sobre a Medicina: “A vigilância e a melhoria das condições de vida foram o objeto de medidas e de regulamentos decididos pelo poder político solicitado e esclarecido pelos higienistas. Medicina e política, então, se encontraram em uma nova abordagem das doenças, da qual temos uma ilustração convincente na organização e nas práticas de hospitalização.”

Para este autor, analisando particularmente seu país, a França, no decorrer da Revolução, houve um empenho em substituir os hospícios, asilos de acolhimento de doentes quase sempre abandonados (os loucos de toda sorte, alienados, miseráveis, débeis mentais, bastardos, prostituídos, etc...) pelo local higienizado do hospital, assim como ‘uma máquina de curar’, onde estes sujeitos passam a ser catalogados, vigiados, cuidados e analisados. No século seguinte proliferaram os Tratados de higiene industrial, chegou o tempo de um paradigma biomédico preocupado com a saúde das populações operárias.

Hoje com o crescimento demográfico e as epidemiologias nossos olhares biopolíticos, sem o atravessamento crítico da bioética, pode ser desviado na direção de novas formas de controle e de escaneamento das maneiras "sadias" ou "ideais" de vida coletiva e produtiva. A minha/nossa medicina dos dias de hoje tem um compromisso bioético de rever as suas práticas ao estar mais a serviço do Estado do que chamamos de sujeitos, cidadãos e cidadãs.

A questão da Loucura e dos loucos, nesse momento da busca de uma afirmação de novas formas de cuidado e novas tecnologias para a transformação da promoção de saúde, nos deve inspirar um ativo cuidado ético e bioético com os paradigmas.

Ainda temos muitos desses ‘velhos’ paradigmas atravessando e transversalizando nossos novos modelos de prática na Saúde, na Educação e na formulação de políticas públicas. Somos nós, ainda, herdeiros de um modelo biomédico que negligencia as importantes contribuições do meio ambiente, das relações sociais e da existência de uma subjetividade singular, ao procuramos afirmar todas as nossas incapacidades, nossas deficiências, nossos corpos 'defeituosos', nossas mentes conturbadas e transtornadas, apenas dentro de uma visão quase exclusiva de explicações genéticas ou fisicalistas?


A que interesses estamos submetidos no mundo hipercapitalista das biotecnologias que, por exemplo, no campo dos sofrimentos psiquiátricos cada dia mais se produzem novos "diagnósticos", novas "terapêuticas", novas "medicações" e consequentemente novas formas de produção de subjetividade e de controle biopolítico desses corpos?

Então os anormais serão normatizados, todos os 'inválidos' serão reabilitados, e os matáveis poderão ser eliminados em um novo jogo de "roller ball"... VAMOS VESTIR NOSSAS CAMISAS/UNIFORMES PARA A PRÓXIMA SELEÇÃO? Dizem que o novo "game" se chama: "FAIXA DE GAZA" ou será de nossa própria seleção verdeamarela.

EM TEMPO - este texto foi escrito após uma estimulante ajuda que prestei à minha filha de 09 anos em um exercício da sua escola sobre todos os Estádios de futebol da atual COPA MUNDIAL DE FUTEBOL na África do Sul, alguns desses estádios já foram palco do APARTHEID e de outras formas de utilização biopolítica pelos colonialistas em tempos pré-MANDELA.

 Aliás o Estadio Nelson Mandela não é que tem a maior capacidade de público ou de superpopulação. Podemos também não esquecer que em 1978, a setecentos metros do estádio, encontramos a Escola da Armada, hoje um arquivo da Memória da Ditadura Argentina, onde os gols foram ouvidos pelos muitos torturados, depois assassinados, assim como pelos seus algozes e torturadores. E, há registros históricos, de que, nessa época, contavam com o apoio irrestrito de nossos dirigentes ligados à Fifa... enquanto a bola rolava também se aplicavam choques elétricos nos prisioneiros dessa "Escola"...

copyright jorgemarciopereiradeandrade 2010/2020 (favor citar a autoria e as fontes indicadas na republicação e multiplicação livre pela Internet)

INDICAÇÕES de leitura:

Nascimento da Biopolítica - Michel Foucault - Ed.Martins Fontes - São Paulo-2008
O Poder Psiquiátrico - Michel Foucault - Ed. Martins Fontes - São Paulo - 2006
Homo Sacer - o poder soberano e a vida nua - Giorgio Agamben - Ed. UFMG - Belo Horizonte - 2007

Referências no texto:
Bettelheim, Bruno, O Coração Informado – autonomia na era da massificação, Rio de Janeiro, RJ, Editora Paz e Terra, 1985.

Canguillem, Georges, Escritos sobre Medicina, Rio de Janeiro, RJ, Ed. Forense Universitária, 2005.

Ortega, Francisco, Biopolíticas da Saúde: reflexões a partir de Michel Foucault, Agnes Heller e Hannah Arendt, Revista Interfaces, Comunicação, Educação e Saúde, V. 8, Nº 14, pág. 9-20, set 2003-fev2004

Indicação de Filmes -
Rollerball - os Gladiadores do Futuro - Lançamento: 1975 - Direção: Norman Jewinson - Genero: ficção científica (?)
http://www.adorocinema.com/filmes/rollerball/

A Questão Humana - Lançamento: 2007 - Direção: Nicolas Klotz - Gênero: drama
http://omelete.com.br/cinema/a-questao-humana/

matéria publicada no informativo (também) - iNFO ATIVO 4421 junho 2010

LEIA TAMBÉM NO BLOG - 

A PARÁBOLA DA ROSA AZUL - https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/05/parabola-da-rosa-azul.html

RACISMOS, BARBÁRIES, FUTEBOL... ONDE SE ENTRECRUZAM AS VIOLÊNCIAS SOCIAIS? 
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