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sábado, 22 de junho de 2013

ABRAM A PORTA DA SALA... A RUA ESTÁ ENTRANDO POR ELA.

Imagem publicada – uma fotografia em preto branco de um homem, de camiseta, segurando potentes binóculos, apoiados sobre um tripé, junto a uma janela, como quem olha alguém ou alguma coisa à distância, porém curiosamente. É um dos trechos do filme Memórias do Subdesenvolvimento, do cineasta cubano Tomás Gutierrez Alea, no período pós-revolucionário, em 1962, em Cuba. Uma Revolução pode mudar um país, entretanto, quando se tornar micropolítica poderá também ser a liberdade de um sujeito ou cidadão(ã), uma pessoa, um indivíduo? Pode se tornar um devir?

SOMOS NÓS OU É O BRASIL QUE MUDOU? OU MUDAMOS JUNTOS? OU MUDAREMOS?

Pode o Cinema nos ajudar a compreender e questionar nossas produções de subjetividade? Podem os filmes ser tão marcantes, a ponto de ser como um bárbaro que invade nossos Impérios narcisistas e destrói todas as nossas defesas? Pode esses convidados e desejados invasores de nossos inconscientes abalarem nossas confortáveis posições de meros espectadores? Espectadores que vão às telas, inclusive às atuais tele telas, apenas em busca do sonho ou da fantasia, os que pensam que querem apenas sonhar?

“HOJE é apenas mais um dos dias seguintes, aparentemente menos ruidosos e “bombásticos”, quando tudo “volta à Normalidade e à Rotina”. Tudo como dantes nos quartéis e nas casas. Um bom dia para irmos ao Cinema, esse calmo e frio dia, depois do quente e incendiado 20 de junho de 2013. Ou será apenas um bom momento para se refletir sobre as ruas e as massas que as ocuparam ontem e antes também, usando o Cinema?

 Tenho me lembrado, no calor do Fogo do Passe Livre, de uma cena cinematográfica.  É aquela lá em cima, apenas um homem na janela, com os binóculos telescópicos, de seu apartamento, distanciado e protegido de uma revolução que ocorria lá na ruas.

É uma das muitas cenas emblemáticas do filme, já transformado em cult, “Memórias de um Subdesenvolvimento”. Uma memória do meu desenvolvimento político, em tempos do amadurecimento forçado após os Anos de Chumbo. Anos que necessitavam e necessitam da palavra implicação e da perda de temores, quiçá de muitos amores políticos e revolucionários.

O filme é uma boa metáfora e alegoria para o que ainda está ocorrendo no país. Estamos tele assistindo a essa magnífica e analisadora ação das jovens massas ocupando as ruas?

 O personagem central da película, Sérgio, aos 38 anos, se vê sozinho e abandonado por sua mulher e família que “fogem” para Miami. A sua cidade, Havana, o seu país, Cuba, estavam em um processo revolucionário. À distância ele podia ver cenários de ruínas como se os prédios fossem feitos de papelão. Fidel e Che Guevara derrubaram, pelas armas, a Ditadura de Batista.

A sua óptica da vida passa, então, a ser o olhar telescópico, que o protege das movimentações de massas e tropas vistas da sua janela burguesa. Uma sólida janela que hoje pode ser chamada de Classe Média Alta. Entretanto, como todos os mortais, Sérgio tem de sair, ou é obrigado a sair, um dia de seu casulo. E aí começam as aventuras, questionamentos e os imprevistos que trarão para ele toda uma inusitada poesia (poésis) e efeitos micropolíticos em seu corpo e mente.

Como ele, nestes tempos da Cultura do Medo, a princípio, ficamos muitas vezes temerosos,  ao sairmos de nossos confortáveis espaços domésticos. Estamos, os tele espectadores globais sendo chamados pelos manifestantes, com o Vem prá Rua, Vem! As nossas tele-visões, mesmo que globalmente maquiadas para serem assustadoras, são mais tranquilas que o risco das balas de borracha hiper certeiras em nossos olhos ou corpos não periféricos? 

A lógica que subjaz em nós ainda é diaspórica, como diz Zymunt Bauman, pois “não admira que muitos habitantes das cidades se sintam apreensivos e ameaçados quando expostos não apenas a estranhos (a vida urbana sempre significou estar cercado de estranhos), mas a estranhos de um novo tipo, nunca visto antes, e assim, presumivelmente ‘não domesticados’ e ‘ sem controle’, ameaças desconhecidas”.

Como o Sérgio e sua intelectualidade podemos estar assustados com esse ‘povo desconhecido’, pois, como em Esparta não são “homoi”, iguais em cidadania e direitos, mas sim os Outros, os “periféricos”, os que foram e são produzidos em massa. Tememos essa nova Horda? Diante dos instrumentalizados e úteis vândalos, tememos ter de repetir uma nova Ordem? Uma nova Revolução? Ou uma neo-ditadura militarizada e espartana?

Talvez, sim, pois podemos sentir o temor de sermos tocados. Todos nos sentimos mais próximos da xenofobia, o temor ao estrangeiro, ao que é considerado o outro que não fala a nossa língua, não come nosso arroz com feijão cotidiano. E o temor é muitas vezes o primeiro passo para minha intolerância ou radicalismo acerca dessa diferença de mim. E do meu Ego.

Há, contudo, momentos mais “quentes” de nossas Histórias onde se incendeiam as ruas, e começam a agir os “analisadores históricos”. O que aconteceu com o personagem de Alea é exatamente, a meu ver, essa ruptura da calma, da repetição neurótica, do cotidiano garantido e da segurança de não ser tocado, por nada e, principalmente, por ninguém. Mas ele precisa de, em algum momento, do chamado calor humano. A sua couraça afetiva lhe incomoda como as armaduras medievais. Ele “sonha” com seu país livre que agora o “aprisiona”.

Um contraponto interessante sobre como se “blindar”, isolar ou se refugiar diante de analisadores históricos das revoluções é o filme “Os Sonhadores”, de Bertolucci. Nele os possíveis encontros disruptivos e avassaladores, são expostos pelas triangulações afetivas, amorosas e sexuais.

 Nestes tempos pastorais, fundamentalistas e homofóbicos, por exemplo, estas multiplicidades e singularidades podem ser perturbadoras da ordem ou das normas, e, principalmente, dos nossos tabus. Tabus que são trans-históricos e hiper resistentes às mudanças, mesmo as revolucionárias e aos próprios revolucionários.

 No “Sonhadores” não há a solidão explícita e o individualismo sendo confrontados. Só a cena final nos situa no meio do fogo, nas intensidades de Maio de 68, em Paris.  A única coincidência é que ambos os diretores discursam, respeitadas suas linguagens e culturas diferenciadas, sobre revoltas e revoluções dos anos 60.

A transversalidade destes movimentos de massa revolucionária é exibida em flashes, como invasões da privacidade, como uma pedra que quebra um vidro, vindo do mundo em crise lá fora para os Sonhadores. Ou com o cubano sendo interrogado sobre suas condições de habitação, ou seu envolvimento sexual e afetivo com uma mulher do “povo”.

No filme de Gutierrez Alea, temos ainda uma diferença a notar, pois é a história de um homem solitário que aprende, poeticamente, a olhar os outros e as ruas com um novo e afetado olhar. 

Ele metaforicamente é uma parte do povo cubano que permanece na ilha. Insulado e isolado, a seu contragosto  aprende,  que ao se misturar com os Outros da Revolução e do cotidiano, pode se tornar mais humano, mais sensível, com mais humor e, consequente, com novas formas criativas e inusitadas de amor e de amar.

Alea mistura com maestria a realidade da Revolução com a re-evolução de Sérgio. O cinema documentário está presente, como História real, dentro da ficção.  Acho que se filmasse, como um Eduardo Coutinho, esse nosso momento quente e intenso das ruas, também nos denunciaríamos uma outra História que ainda está debaixo do tapete de nossas salas.

Somos então, nessa média idade, mais para bombeiros que incendiários, os “velhos” Sérgios demais à espera, de nosso “choque de realidades”? Ou somos e seremos jovens, a la Bertolucci, que montam uma barraca de lençóis dentro de um apartamento, onde outros choques, outras realidades também podem ser experimentadas?

O desmoronamento do mundo pequeno-burguês de Sérgio, assim o de muitos que se sentem ainda ameaçados pelas atuais massas chamadas de “vândalos”, é subjetivamente tão violento quanto as ruas. Muito embora não tenha, nele, um tiro e nenhuma morte. A grande confusão é a violência dos preconceitos do personagem. Ele tem de se descobrir apenas mais um nessa multidão em mudança histórica.

Outra óptica possível que o filme me evoca é a crítica aos rumos totalitários que a Revolução Cubana tomou. O anacronismo de Sérgio é a melhor crítica do diretor ao modelo socialista da ilha.  Pode ser visto também com uma refinada crítica ao nosso individualismo e narcisismo. Não nos permite acomodação conformista, por sua óptica documental histórica.

Convoca-nos, ou melhor, a mim me convocou, para sair da poltrona, abrir a porta e deixar as lufadas de intensidades vindas da rua. Eu o assisti nos Anos pós-Ditadura e de reconquista dos direitos humanos no Brasil. E as passeatas pediram Diretas Já! Não pintamos o rosto, mas o verde amarelo coloria nossos corações e corpos constituintes e instituintes.

Passar de testemunha ocular para um agente, um participante ou mesmo um agitador das ruas é um convite muito sério. Não podemos nos deixar levar pela simplificação, pelo momento acrítico e a despolitização que estamos assistindo pelos telescópios midiáticos modernos. A onda de jovens sonhadores que desejam “A” revolução não pode deixar de conhecer o antes da outra chamada Revolução em 64.

Não precisamos sair na capa das revistas ou dar entrevistas ou virar motivo de notícia urgente, mas podemos escolher qual a matéria real e verdadeira estará estampada ou difundida nesses meios de comunicação de massa. O foco sobre os atuais cartazes nos revelam ainda textos e contextos já vividos. Os problemas acumulados pela negligência macro política fazem parte dessa explosão de reivindicações.

Sim, todos queriam ARROZ, FEIJÃO, SAÚDE E EDUCAÇÃO. Porém, o grito e o slogan, agora, são da Ordem Econômica que nos Governa. São as passagens e o transporte e seu preço que ocuparam o centro das questões nesse modo hipercapitalista do viver urbano. O quanto gastamos em Copas e Diversão, deixando de construir salas de aula ou novos hospitais. O quanto há de corrupção e impunidade em altos escalões deixando para a punição imediata outra parcela da população.

Misturam-se às recusas às velhas bandeiras partidárias. As bandeiras que Sérgio vê de sua janela, ou as que os personagens de Bertolucci agitam em frente às universidades de Paris. Porém nem estes, como eu, já envelhecidos pela lembrança de 68, nem os sonhadores de 2013 podemos negar que já não somos mais os mesmos do mês passado.

Podemos, portanto, além de abrir a porta, pois as ruas por elas estão entrando, abrirmos, urgentemente, uma pequena fresta nas janelas de nossos olhares, miradas e mentes para o que está realmente se passando no Brasil. Uma janela sem binóculos ou telescópios, pois não há mais distâncias ou velamentos que nos protejam do Futuro que nós mesmos semeamos.

ABRAM AS SUAS JANELAS, COMO UMA TELA DE CINEMA, E NÃO DE TELEVISÃO. HÁ UM HORIZONTE PARA ENTRAR POR ELAS...

MEMÓRIAS PARA NOSSO DESENVOLVIMENTO. PODEREMOS SONHÁ-LAS JUNTOS OU TORNÁ-LAS INESQUECÍVEIS INDIVIDUALMENTE?

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de MASSA)

INDICAÇÕES PARA LEITURA CRÍTICA –

O CINEMA PENSA – uma introdução à Filosofia através do Cinema – Julio Cabrera, Editora Rocco, Rio de Janeiro, RJ, 2006.

SOBRE EDUCAÇÃO E JUVENTUDE – Zygmunt Bauman, Editora Zahar, Rio de Janeiro, RJ, 2013.

Memórias do Subdesenvolvimento, arte e revoluções http://www.diplomatique.org.br/acervo.php?id=2821

INFORMAÇÕES sobre o filme que transverzaliza  e ao texto, espero que ao contexto–

"Memórias do Subdesenvolvimento" chega em DVD no Brasil (‘somente em 2006’) http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u60700.shtml

Trecho do filme - http://www.youtube.com/watch?v=MSnyuh_xY54  (com Sérgio e intromissão dos afetos em sua vida distanciada deles... o amor/paixão também podem ser revolucionários? Ou somente  o Povo?)

Filme citado no texto – Os Sonhadores – Bernardo Bertolucci (2003) http://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Sonhadores

LEIAM TAMBÉM NO BLOG –
DEMOLINDO PRECONCEITOS, RE-CONHECENDO A INTOLERÂNCIA E A DESINFORMAÇÃO http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/06/demolindo-preconceitos-re-conhecendo.html

MOVIMENTOS, MASSAS, MANIFESTOS E HISTÓRIA: POR UMA MICROPOLÍTICA AMOROSA, URGENTE. http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/06/movimentos-massas-manifestos-e-historia.html

A PRAÇA É DO POVO? AS RUAS SÃO DOS AUTOMÓVEIS E DOS ÔNIBUS? E OS DIREITOS HUMANOS SÃO DE QUEM? - http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/06/a-praca-e-do-povo-as-ruas-sao-dos.html

A ILHA DO FELIZ SEM ANO E O SEU INTRUSO, E, NÓS TAMBÉM (apenas um re-conto) http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/05/a-ilha-de-feliz-sem-ano-e-seu-intruso-e.html

A CORÉIA DO FANATISMO POLITICO E O FANATISMO RELIGIOSO DO PASTOR: estamos no Século XXI? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/04/a-coreia-do-fanatismo-politico-e-o.html

quinta-feira, 20 de junho de 2013

MOVIMENTOS, MASSAS, MANIFESTOS E HISTÓRIA: POR UMA MICROPOLÍTICA AMOROSA, URGENTE.


Imagem – uma série de fotografias que tirei há muitos anos, em 1989, no Rio de Janeiro, com imagens de passeatas que foram feitas durante a campanha eleitoral de Lula. Um mosaico de recordações. Há um grupo de crianças, em preto e branco, chamadas de “lulinhas”, e que se reúnem com um grupo coeso. Há uma foto tirada do alto do Sindicato dos Bancários que mostra a multidão que se aglomerava na Avenida Presidente Vargas. Há uma foto colorida, para mim emblemática, pois é um grupo de mães com carrinhos de bebês que participam ativamente, com suas flores ou bandeiras, sem nenhuma forma de sensação de ameaça pela sua exposição e das crianças, no meio da Avenida Rio Branco, bem próximo de onde recentemente ocorrem os conflitos em frente da Alerj e do Teatro Municipal. Foram homens, mulheres, jovens sonhadores, idosos ativistas e principalmente, milhares de crianças... Porque será que agora não mais estão por lá?  Essa multidão, aparentemente, “pacífica” foi substituída por quem e quais grupos sociais ou políticos? Éramos mais amorosos, mais politizados ou menos violentos?

“Oh!... Minha irmã Violência, minha lassidão...
Oh! Tu juventude sempre agarrada ao livro
Há que fazer amor como quem vai à escola,
E, depois vir para a Rua,
Há que fazer amor “como quem comete um crime...” (Léo Ferré, 1967/68).

Éramos, somos e seremos sempre DIFERENTES.

Reencontro através dessas imagens, pois estava lá totalmente implicado com os desejos dessas massas, com um tempo que se ensaiavam exercícios micro de mudanças macro políticas. Queríamos eleições, candidatos com partidos definidos, propostas e pautas para uma futura governamentabilidade nacional DEMOCRÁTICA. E as bandeiras eram agitadas sem temor ou terror. Éramos constituintes.

Em 23 de setembro de 1987 participei de uma mesa redonda promovida pelo Núcleo Psicanálise e Análise Institucional, para o lançamento de sua clínica, com o título: O AMOR EM TEMPOS DE CÓLERA. Nela foi que apresentei um texto que recentemente encontrei guardado. Em papel datilografado, por uma velha máquina de escrever, amarelado e esmaecido pelo tempo. Passaram-se 25 anos.

O texto teve a contribuição e participação em sua leitura pública de uma grande amiga: Lília Lobo. E nós nos apelidávamos de ‘dupla sessenta e nove’, uma alusão às nossas implicações com o ano de 1968.  O mesmo que está no cartaz que utilizei no meu texto anterior.

Apresento, então, como reflexão, alguns trechos que completam minhas lembranças suscitadas pelas fotos embaralhadas pelo tempo e pela História. E a poesia que cito no início deste texto também já foi lida em público. 

Nesse debate, além de nossa dupla afetiva, estavam no Espaço Cultural Sérgio Porto, dois importantes representantes da luta contra a ditadura: Fernando Gabeira e Herbert Daniel.

Com eles compartilhamos nossos desejos instituintes. E dissemos: “O crime (alusão ao texto de Ferré) que nos últimos tempos vive associado às paixões, consideradas tão violentas e arrasadoras, virou assunto de especialistas, leis, normas e prescrições...”. Ali já se discutiam  as marginalizações que se aplicavam às diferenças e aos diferentes. Estávamos em um ano pré-Constituição.

Dizíamos: “... Estamos em um momento em que os arautos da Salvação (já existiam os fundamentalistas e os radicais de direita) da República Eldorádica nos avisam da chegada espetacular de Tempos de Constituinte, onde os prazeres e as alegrias,  para felicidade geral e a Segurança Nacional (construíam-se as bases dos projetos de lei que hoje o Pastor e sua gang tentam sorrateiramente aprovar para “curar psicologicamente homossexuais”). Serão catalogados e as novas Condutas (morais) elaboradas. Enfim seremos SALVOS...”.

Ontem, 18 de junho de 2013, mais um dia de Orgulho (Autista), após todos os protestos generalizados, aproveitando-se da “cortina de fumaça” desse calor e onda das massas, o Pastor conseguiu aprovar o absurdo e aético projeto de lei que permite às pessoas ditas “homossexuais” serem tratadas, e salvas de sua corrupção carnal antirreligiosa, por psicólogos. Anunciávamos, nesse debate histórico, o Futuro?

Não, apenas já dizíamos: “... o que vemos e assistimos são seres humanos e sua terra em transe e em transição... vivemos ainda a experiência da Miséria e a experiência da Impotência, somos assaltados pelas Dúvidas e pelas Dívidas... E, por isso perguntamos: - o que poderemos esperar de um Povo assim massacrado?”.

Como tentativa de ampliar a visão micropolítica que já partilhávamos no Núcleo, com muitas intensidades e multiplicidades, convocávamos às pessoas, aos que lá estavam, para saírem de suas paralisias, de seus enclausuramentos, de seus isolamentos narcísicos, e principalmente do Medo. Já dizíamos da importância de ações que nos incomodassem e nos levantassem de nossos conformismos aburguesados.

Desejamos, nestes tempos coléricos, como psicólogos e psicanalistas que não se diziam neutros ou neutralizados, a criação de dispositivos analisadores, históricos ou não, que desvelassem os ocultamentos das formas de amar e amor homoeróticos. E denunciar as violências silenciosas e silenciadoras de quem ainda não recebera a denominação de homofóbicos.

Éramos profissionais que buscavam a Análise Institucional, como um movimento instituinte, para quebrar o distanciamento das realidades para além dos divãs. Muitos e muitas que acreditavam na necessidade de propor novas formas de amor e de amar como antídoto para os preconceitos e para despolitizações do viver, inclusive dos modelos psicanalíticos daquela época histórica.

Pudemos ter a honra de ouvir um ex-guerrilheiro, Herbert Daniel, nos afirmar que houve, também, a repressão ao amor pelo igual, como quaisquer das sexualidades “diferentes”, dentro das esquerdas brasileiras. E, com sua lucidez e vivência, nos alertar para o quanto reproduzimos os modelos de moralidade do Século XVII ou XVIII, apegados a estigmas e preconceitos religiosos, políticos ou sociais.

Já dialogávamos sobre a necessidade de provocar incêndios. Não os que devastavam, à época, quase metade do estado de Rondônia. Não desejamos, nesse tempo, e, espero ainda hoje a aridez dos desertos e a devastação. Creio que, hoje, essas massas incendiadas e incendiárias podem estar apenas reproduzindo o seu maior símbolo: o Fogo.

Essas multidões nas ruas, esses protestos, essas manifestações, pela ótica de Canetti, podem nos ensinar um pouco sobre o poder das massas. Assim como o fogo se propagam, contagiam, como diz a repórter da TV: “até os sexagenários...”. Elas ainda são insaciáveis. Não param e não se extinguem, com os recuos políticos. Mesmo diante de suas forças repressoras das balas de borracha, bombas ou polícias. Não adiantarão os brucutus com jato de água fria. Não apagam. Nem serão apagadas da História.

Portanto, caros senhores instituídos nos Poderes, ora podres, ora prostituídos e corrompidos, é hora de re-conhecerem um pouco das visões dos movimentos institucionalistas. Hora urgente de buscar respeitar uma micropolítica em ação, que se traduz nessas revoltas. Hora também de uma micropolítica que resgate as múltiplas formas de amar e ser amado.

No Amor em Tempos de Cólera coletiva, como dissemos: “... estamos (e agora revivo) em plena RÉ-VOLTA do mito pestífero (citação ao livro A Peste, de Albert Camus, e alusão ao advento da AIDS nesses Anos 80), dentro de nosso país multifacetado e de tensas multiplicidades...”. Tivemos o temor de que: “... nosso caldo gelatinoso (as massas) que ameaça endurecer, em uma transição sob o signo da insegurança nacional, assistirmos uma transformação e transfiguração dos agredidos em agressores, dos humilhados em invasores humilhantes, dos injustiçados em linchadores justiceiros...”.

Portanto, prezados midiatizadores e formadores de opinião, principalmente sob a ótica da Globo/Veja, assim como governantes, à moda de Alckmin ou Cabral, não quero ter de repetir o aviso. São massas, são famélicas de alguma forma de poder, são múltiplas e heterogêneas (já existem cartazes defendendo a perda da maioridade penal). Podem se tornar até destrutivas, mas não se tornam na totalidade queimadas, não são poluentes e tem fuligem.

Há quem se aproveite da ocasião e, incitados por quem assim o deseja, que se ataquem as bancas de jornal, os microfones disfarçados, as câmeras e os carros de reportagem, assim como as portas de ferro dos espaços públicos que representam alguma forma de Poder instituído. Mas observem que estas fúrias são localizadas, pontuais e isoladas, como algumas formas de incêndios intencionalmente provocados.

Porém como o fogo deixam cicatrizes indeléveis. Há, porém, como debatemos calorosamente naquele tempo, a possibilidade de as “curar” com muito Amor. Dissemos: “-dentro desta perspectiva futurística, podemos acreditar que não haverá a tão difundida mudança de comportamento amoroso, o nascimento de uma ‘Nova Sociedade dos Tempos de Cólera’ (coletiva ou individual), pois o que está em foco é uma reafirmação das normas e formas aburguesadas e higienizadas de Amar, e convictos pelo Pânico (uma arma sutil e subliminar que as imagens desse fogo das massas nos produzem) passamos a dizer SIM...”

Passamos, como querem os tempos pastorais, higiênicos, eugênicos e biopolíticos, a dizer sim, passivamente, tempos depois do fogo cessado, à “monotonia das parcerias fechadas em si mesmas, aos pares hiper solitários ou ao extremado celibatarismo itinerante, pensando serem estas as únicas garantias contra a inevitável Morte, muito embora se saiba que estamos há muitos séculos ‘matando’ os amores que não podem ou devem dizer seus nomes”.

Os amores proibidos podem também deixar cicatrizes com o fogo que se produz com massas do ódio e da estigmatização. Estamos na Sociedade do Espetáculo. Os amores outrora negados começam a chocar ou serem chocados dentro das diferentes mídias. A sua visibilidade passa de incômoda a naturalizada. Não são mais violentas para nossos olhos ou mentes conservadoras?

Em imagens que estão sendo enviadas, a pedido da Rede Globo, podemos ver sempre o lado midiatizado dessas massas. São usadas as imagens que tratam estes jovens como vândalos. As cenas de violência sobre os manifestantes não estão por lá. Uma das mais interessantes é um protesto realizado dentro de um shopping, em cidade do interior paulista. Lá estão milhares de jovens gritando e cantando o Hino Nacional e agitando a nossa bandeira.

Não seria estas imagens, também, a denúncia dos nossos novos modos de subjetivação conservadora ou nacionalista? Que revoluções estão se anunciando?
Vem para a rua que é a maior arquibancada do Brasil”. É um dos cartazes escritos à mão e que substituem as antigas bandeiras ou faixas partidárias. Aparece novamente o verde e o amarelo. Nos rostos, nas caras ditas pintadas, em bandeirolas... Porém os estádios e as televisões ainda fascinam a outras multidões, grupos, indivíduos, outras massas.

Houve apenas uma fotografia difundida pelas redes sociais que eu esperava causar mais impacto nos corações que nas mentes. Era um casal de jovens, de dois seres/corpos envolvidos sobre o asfalto, amorosamente, em meio a toda a tropa de choque e bombas de gás lacrimogêneo. Não usavam nenhum vinagre. A sua mistura bombástica era feita de carne humana, sexo, amor e outras violências, como as que Ferré incita aos jovens.

Volto, então, ao texto que li no passado, junto a Gabeira, Daniel e a amiga Lobo: “Para nós o Amar implica in-tensa-idade, como dizem aos jovens que se considera um adulto aquele que se conforma em VIVER MENOS para não ter que MORRER MUITO. Entretanto, como nos diz Edgard Morin, ‘o segredo da juventude é este: VIVER SIGNIFICA ARRISCAR-SE A MORRER, E A FÚRIA DE VIVER SIGNIFICA VIVER A DIFICULDADE...”.

Proclamamos um dia, na busca de OUTRA CLÍNICA, que busca a transposição, analítica e psicanalítica, da CURA DO OUTRO PELO OURO, pela falsa pureza política ou religiosa, como querem estes pastores, deputados e clérigos, muito menos sua produção de uma subjetividade ou grupalidade assujeitada ou assexuada.

Este “... Ouro que integra e entrega o sujeito à Besta Capitalística e Apocalíptica... Para passar para a PRO-CURA DO OURO DO OUTRO, suas preciosidades e amorosidades, assim como seus defeitos e ranhuras... e, beijando na boca o tesouro que cada um esconde, para deixar vazar mútuas ternuras, cóleras apaixonadas, tênues afetos esquecidos, pequenas diferenças insuspeitas...”.

 E, que possamos juntos ou isoladamente, invertendo o temor de sermos tocados pelo Outro, fazer deslizar forças instituintes, como as atuais massas e seu fogo cívico, para o interior das amarras instituídas.

Sejamos agentes e agenciadores de novas singularidades e novas suavidades amorosas, pois como diz Guattari: “Todos os devires singulares, todas as maneiras de existir de modo autêntico chocam-se contra o muro da subjetividade capitalística”. As balas de borracha, já o disse, são as “mesmas” em todas as manifestações de populações insurgentes em todo o mundo do hipercapitalismo.

As fotos que fiz no passado traziam sempre a minha procura dessa outra cartografia para os movimentos de protesto.  Espero que um dia aquelas crianças que fomos, para além dos jovens adultos insatisfeitos ou indignados que estamos sendo, também possam existir no meio dessa multidão, dessas massas.

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2013/2014 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de MASSA)

Citações no texto –

LÉO FERRE – Seleção e tradução de poemas, canções e da carta inédita, Ulmeiro Livraria, Lisboa, Portugal, 1984.

MICROPOLÍTICA: CARTOGRAFIAS DO DESEJO – Felix Guattari & Suely Rolnik, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 2005 (7ª edição) – para acesso parcial ver o link - http://pt.scribd.com/doc/80018300/Guattari-e-Rolnik-Micropolitica-Citacoes-Trechos-pt-br

NOTÍCIA sugerida para leitura crítica e revolucionária - Direitos Humanos aprova projeto que permite tratamento da homossexualidade http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITOS-HUMANOS/445349-DIREITOS-HUMANOS-APROVA-PROJETO-QUE-PERMITE-TRATAMENTO-DA-HOMOSSEXUALIDADE.html

LEIA TAMBÉM NO BLOG-

A PRAÇA É DO POVO? AS RUAS SÃO DOS AUTOMÓVEIS E DOS ÔNIBUS? E OS DIREITOS HUMANOS SÃO DE QUEM? - https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/06/a-praca-e-do-povo-as-ruas-sao-dos.html

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ADEUS ÀS ARMAS:  SEM TIROS NO FUTURO OU CEM TIROS ?? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/adeus-as-armas-sem-tiros-no-futuro-ou.html

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A PRAÇA É DO POVO? AS RUAS SÃO DOS AUTOMÓVEIS E ÔNIBUS? E DIREITOS HUMANOS SÃO DE QUEM?

Imagem publicada – uma foto que tirei de um velho cartaz dos anos 80. É o cartaz de um evento que organizei junto com o Núcleo de Psicanálise e Análise Institucional, com o título, à direita: “68: Maio-junho e depois?”, com os nomes dos coordenadores desta Mesa redonda, à esquerda: Heliana Conde Rodrigues, Maria Beatriz Sá Leitão (in memoriam), Maria Isabel Feitosa, Jorge Márcio Andrade, Vera Vital Brasil, Ronald Arendt e Cecília Coimbra. É uma montagem de uma foto que tenho de David Gerard, de 1970, em preto e branco, onde há redesenhado um menino com uma máscara de gás, como um focinho protetor, traz uma garrafa de refrigerante na mão direita, uma Coca cola, como alusão aos coquetéis Molotov que foram usados em manifestações e resistências nos anos 60, mais especificamente no ano de 1968. Hoje, após as imagens, que só assistir sem não mais participar, do dia 13 de junho de 2013, me fizeram buscar essa indagação institucionalista já tornada antiga em meu coração: os meninos e meninas, os jovens do futuro terão de continuar fazendo, como no cartaz, um grande “X” em vermelho, com caneta esferográfica, sobre a palavra Estado?

Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão  (Pra Não Dizer que Não Falei das Flores
  Geraldo Vandré)

Até onde a manifestação de milhares de pessoas nas ruas de São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais contra aumentos de passagens é um ato considerado legítimo?  A questão é o preço, o quanto custa ou os custos de todas as nossas indignações contra as imposturas, desgovernos e corrupções da Sociedade do Espetáculo e de Controle?

Há a necessidade de analisarmos com mais atenção, carinho e respeito esse retorno das massas às ruas, às praças e ao ato da indignação. Em todo o mundo estão ocorrendo estes movimentos públicos que expressam indignação e revolta, como dizem Michael Hardt e Antonio Negri: “.... Manifestos trabalham como os antigos profetas, que, com o poder de suas visões, criam seus próprios povos. Os movimentos sociais dos dias atuais reverteram a ordem, tornando obsoletos manifestos e profetas. Os agentes da mudança já tomaram as ruas e ocuparam as praças, não apenas ameaçando e desestabilizando governantes, mas também conjurando visões de um novo mundo. Mais importante, talvez, as multidões, através de sua lógica e de suas práticas, de seus lemas/slogans e desejos, declararam um novo conjunto de princípios e verdades...”.

Eles indagam como estas manifestações públicas, espalhadas pela Europa, pela África, pelos Estados Unidos, e , agora no Brasil, podem com as suas declarações nos ajudar na reinvenção da maneira como nos relacionamos com os Outros e o nosso mundo?

Hoje, para estes pensadores políticos raros, é preciso crer e agir para que as pessoas sejam por suas capacidades e sabedoria de se autogovernarem, ao sair para as ruas e o mundo, geradoras das novas visões de mundo desejado e de direito de todos e todas.

 Os “novos profetas” urbanos não são do Apocalipse. São os muitos jovens, como os de 68, ávidos por justiça e direitos humanos. Já entenderam que estes ditos direitos não são os deturpados e ‘mal-ditos’ como sendo apenas para os aprisionados e foras da lei. Sabem distinguir a sua extensão a toda e qualquer forma de vida sobre a Terra.  São também, mesmo que excluídos como minorias, os mais desiludidos diante do hipercapitalismo.

E as multidões vão atrapalhar o trânsito. O que não é apenas a interferência nefasta sobre o meu, o seu e o nosso direito de ir e vir. É o confronto com as instâncias instituídas de poder, que usando a força de suas polícias, na falha de suas políticas públicas, acabam tingindo com sangue suas próprias mãos.

Já disse, hoje, após assistir as manobras políticas e as policiais, muito semelhantes em suas cruentas posturas e uso de suas forças, que não existem ‘balas de borracha’. Existem, sim, as muitas formas de exercício de controle biopolítico dessas multidões que não mais se acomodam apenas em poltronas e manifestos On line.

As balas usadas hoje, junto com a cortina de fumaça dos gases lacrimogêneos e as bombas de efeito moral, não são tão flexíveis como a borracha dos seringais. O material que as compõe é tão belicoso e controlador, embora aparentemente menos letais que as balas de chumbo ou aço.

Não existem BALAS de borracha, existem os que as usam para ferir quem os ''ameaça'' e dizem que a borracha “não mata”.  Os discursos sobre os feridos da multidão, incluindo os que trabalham para as mídias, despontam como sendo “excessos pontuais” da Polícia. Serão denominados também como meros “efeitos colaterais” do exercício da governança.

Entretanto, essa Violência é parecida com as que se impõem aos manifestantes de todo o mundo. A Palestina é aqui, a Grécia é aqui, a Turquia é aqui, o Egito é aqui, e também o HAITI É AQUI. Nosso mundo não é apenas “Glocal” e globalizado, é um mundo com todos os capitalismos integrados e mesclados.

Em todos os lugares só usam BALAS os que as produzem, comercializam, exploram, promovem seu aperfeiçoamento, e, depois entregam essa munição como balas a fundo perdido, inclusive para a criminalidade. Tenhamos certeza: o próximo alvo encontrado podemos ser nós, seu vizinho ou apenas um transeunte desconhecido.

Não existem proprietários dos espaços públicos. A noção de rua como espaço de liberdade é fundamental. O que podemos lamentar é que só se exerçam poderes com por trás de máscaras da opressão, da repressão, da violência, mais grave ainda se é feita pelos discursos ou ações “legitimadas” dos nossos governantes, pois como dizia Saint Just: “... não se governa inocentemente”.

Quando jovens, sejam da Zona Leste de São Paulo ou da Zona Oeste do Rio de Janeiro, vão às ruas protestar pelos centavos, aparentemente muito pouco para os que têm muito, há uma inversão de seu ato de massa. O seu protesto vai além do valor monetário da passagem. Eles e elas estão reivindicando sua não exclusão, lutando contra a onda de desfiliação e de segregação oriunda dos desempregos e das manipulações econômico-financeiras.

O mesmo trabalhador que se queixa do jovem com uma bandeira na mão é o que poderá se sentar com mais conforto e respeito em um transporte público e digno para todos; o mesmo jovem atingido por gás pimenta e emborrachas balas bem dirigidas pode vir a ser um trabalhador do transporte público de massa sustentável e ecológico, se o seu protesto não for considerado apenas um ato de vandalismo ou baderna. Como escreveu James Baldwin, nos Anos 60, "... da próxima vez, o Fogo".

E, aquele que fardado pelo nosso dinheiro público é investido da função repressora também é e será colocado sob a linha de tiro das explorações e desqualificações, sem falar de seu real risco de matar, como dizia o Vandré: “Há soldados armados, Amados ou não, Quase todos perdidos De armas na mão, Nos quartéis lhes ensinam Uma antiga lição: De morrer pela Pátria E viver sem razão...”.

A canção que tem toda a mítica e a História de resistência aos Anos de Chumbo da Ditadura Militar afirmava a presença dos indignados nas ruas. Não eram estímulos a uma subversão apenas, não eram apenas comunistas ou anarquistas, eram as multidões que não mais aceitavam as formas duras e inflexíveis do Golpe Militar, que foi transformado em Revolução.

Nas flores que não falamos por um longo período. Flores murchas, silenciadas com Tortura, Repressão e Violência do Estado. Flores que permanecem nos nossos corações como desejo de outras subjetividades e cartografias para nossas existências.

E, como diriam Hardt e Negri, esses: “...Movimentos de revolta e rebelião, pensamos, proveem os meios não apenas para recusar os regimes repressivos sob os quais sofrem essas figuras subjetivas, mas também para reverter essas subjetividades em figuras de poder”.

Hora, portanto, de ampliação de uma escuta/olhar sensíveis e respeitosos sobre essas multidões. Elas ecoam apenas o início de revoltas contra as produções de subjetividade de Endividados, Representados e Midiatizados. Aparentemente são muito poucos, por isso é que estão a quantificar as massas nesses eventos. O futuro dirá quantos serão nas praças, nas ruas e na constituição de novos modos de ação democrática.

Não retornamos a 1789, nem mesmo a 1948, mas os direitos considerados inalienáveis, uma construção/invenção dos séculos passados, passou a operar nos subterrâneos desses movimentos sociais, indo dos índios Munduruku até os jovens cantando e desfraldando surradas bandeiras. Não importam e importarão as suas cores, defesas ou lemas, contanto que os que detêm poderes aprendam a escutar e respeitar estes desejos de massa.

O Sr. Adolf soube manipular o desejo de amor e carisma de toda uma massa, todo um povo alemão. Freud em sua obra, a “Psicologia das massas e Análise do Ego”, ao analisar duas massas ‘artificiais’, as Igrejas e os Exércitos, nota que nas duas instituições “reina a mesma ilusão: a da presença, visível ou invisível, de um chefe que ama todos os membros daquela coletividade como um igual...”. Os que não gritassem Heil estavam contra o Grande Irmão.

 Existem, inclusive nos Direitos Humanos, pastores deputados dizendo que nos amam, que Cristo nos une, mas que exigem nossa total renúncia à diferença e à heterogeneidade, inclusive dos desejos e, principalmente, dos nossos direitos inalienáveis.

Há, em tempos pastorais e fanáticos, como já escrevi, uma enorme possibilidade dos obscurantismos e dos fundamentalismos arregimentarem e arrebanharem novas hordas de intolerância, novos eleitos, novos imaculados. Estas manifestações também podem ocupar os espaços públicos. Como massas também podem gritar slogans. A principal diferença é que nelas todos têm de ser ou se tornar HOMOgêneos.

Por isso ainda não tenho a resposta do cartaz: 2013, um ano pós-Maio de 68 ou o desejo triste e mortífero de retorno a um Março de 64? E depois? Serão outras flores, outras Primaveras?

PS.- Anuncio que a FRASE que cunhei para o Concurso da SEPPIR (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República), em comemoração do dia 13 DE MAIO – UMA OUTRA HISTÓRIA, foi uma das três vencedoras, com o meu desejo de "Abolir as novas escravidões e os velhos racismos, um futuro possível e urgente para o Brasil"...

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2013/2014 (favor citar o Autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de Massa)

INDICAÇÕES E FONTES NA INTERNET –


INDICAÇÕES PARA REFLEXÃO E CRÍTICA –
DECLARACIÓN – Michael Hardt & Antonio Negri, Ediciones Akal, Madrid, Espanha, 2012.

SOBRE A VIOLÊNCIA – Hanna Arendt, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2011.

AS FIGURAS DO PODER – Eugène Enriquez, Via Lettera Editora e Livraria, São Paulo, SP, 2007.

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